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Dunkirk

“Mikháilov virou-se para olhar: o ponto luminoso da bomba parecia ter parado em seu zênite – na posição em que é totalmente impossível determinar sua direção. Mas isso só durou um instante: a bomba vinha cada vez mais depressa, cada vez mais próxima, de tal modo que já eram visíveis as fagulhas de sua espoleta e se ouvia o assovio fatídico, que descia direto no meio do batalhão.

– Deitem! – gritou a mesma voz assustada.

Mikháilov caiu de barriga para baixo. Praskúkhin, num movimento involuntário, curvou-se até o chão e estreitou as pálpebras; só ouviu como a bomba se chocou na terra dura, em algum lugar bem perto. Passou um segundo que pareceu uma hora – a bomba não explodiu. Praskúkhin assustou-se: será que havia se amedrontado à toa? Talvez a bomba tivesse caído longe e ele tinha apenas a impressão de que o pavio chiava bem perto. Abriu os olhos e, com uma satisfação presunçosa, viu que Mikháilov, a quem devia doze rublos e meio, estava totalmente abaixado, estendido de bruços, juntinho de seus pés, imóvel, quase agarrado a ele. Nesse instante, seus olhos toparam com o pavio aceso da bomba, que rodava a um archin de distância.”

(“Sebastopol em maio”, de Liev Tolstói. In: Contos completos, tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.)

Logo nos primeiros minutos de Dunkirk (idem, 2017), as palavras de Liev Tolstói me vieram à cabeça. Apesar de confortável em minha poltrona, apesar da pipoca estalando entre os dentes e apesar da manteiga derretendo aos poucos na língua, meus olhos grudaram na grande tela enquanto o protagonista corria entre sons de tiros e a iminência cada vez mais forte e palpável de uma morte rápida e gratuita. Sim, Dunkirk pode parecer para alguns um filme desconexo e sem alma para os padrões de Christopher Nolan. Mas é preciso ser frio além do aceitável para não se sentir apreensivo com a tensão constante do longa-metragem mais recente do diretor de Batman: o cavaleiro das trevas (2008), A origem (2010) e Interestelar (2014).

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

É um filme sobre a guerra, afinal. Mas é um filme que prefere a visão subjetiva de quem se encontra em meio ao caos. A câmera de Nolan é, ao mesmo tempo, o correspondente de guerra responsável por nos noticiar de tudo (ou quase tudo) que acontece e também nossos olhos, que contemplam o horror inevitável, o nonsense coletivo. Estamos logo atrás dos ombros de Tommy (interpretado pelo estreante Fionn Whitehead), o primeiro de uma lista enxuta de personagens que passará pelos olhos do público. O silêncio impera de início, mas dali alguns instantes é quebrado abruptamente por sons de tiros e balas ricocheteando pelo cenário deserto de uma cidade qualquer. Sentir a oposição silêncio x som ao longo das quase duas horas de projeção parece ser, sem sombra de dúvida, a sensação de estar em um país em guerra.

E este é um filme quase mudo. Mudo no sentido de diálogos, mas mudo também em relação a uma história propriamente dita. Aos ávidos por roteiros redondos ou amplamente intricados – como os que Nolan e seu irmão usualmente escrevem -, haverá um gosto amargo ao longo de todo filme e, principalmente, quando os créditos finais começarem a aparecer na tela. Não é, apesar de tudo, um problema que afete a experiência em si. Assistir Dunkirk é, em primeiro lugar, testemunhar voos repletos de curvas e manobras sinuosas, bombas explodindo em direção aos nossos olhos em um efeito prático muito mais assustador do que o melhor 3D já criado, a claustrofobia forçada por situações e cenários hostis com a ação humana através da guerra.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Filmes, como ignorado por muitos, são, aliás, histórias contadas através de imagens, através de sons. Então a fotografia de Dunkirk faz questão de libertar soldados, mesmo que por alguns minutos, quando a câmera de Nolan se aproxima entre dois postes em um travelling lento, dando a impressão de que a distância entre eles alarga-se; após o corte, vemos os soldados correrem, vemos aviões se aproximarem ameaçadoramente, vemos bombas caindo do céu. Após tudo acontecer, a câmera agora afasta-se lentamente, em um travelling inverso, e os postes se estreitam, fechando novamente os soldados em suas existências miseráveis, sem esperanças. O mesmo irá ocorrer quase ao fim da projeção, quando a câmera se aproxima por trás do piloto Farrier (interpretado pelo constante colaborador de Nolan, Tom Hardy), um plano muito parecido com aquele que apresenta misteriosamente o Coringa de Batman enquanto este espera pelos comparsas chegarem em uma van. Com a silhueta cortada pelo contraste promovido pelas chamas à sua frente, Farrier observa de maneira suntuosa a obra de arte que criou, uma bela metáfora criada através do avião incendiado.

Muito deve também ao design de som um filme como esse. Alto o bastante para amedrontar o público em momentos certos, baixo também o suficiente para deixar os nervos à flor da pele enquanto se espera o próximo estrondo ou morte iminente, Dunkirk tem êxito em seus dois extremos sonoros pois complementa a imagem de maneira rítmica, fazendo com que a aproximação de um avião torne-se um frio latejante na espinha – inclusive é um eco que entoa o final de “In the flesh?”, de Pink Floyd) – e os tiros contra a lateral de metal de um barco furem também nossos tímpanos, abrindo ainda mais a ferida da tensão e deixando o sangue escorrer por ela.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Por fim, é preciso ressaltar a colcha de retalhos coerente que a montagem cria ao juntar três linhas narrativas com tempos diferentes (uma semana, um dia, uma hora), algo já visto em outros filmes do diretor, como em A origemO cavaleiro das trevas ressurge. Tal opção torna a aproximação entre público e personagens algo mais natural, já que não há diálogos expositivos que apresentem cada pessoa ali envolvida nas cenas, muito menos a necessidade do filme se explicar (menos logo no início, quando um pequeno texto contextualiza o público sobre o que Dunkirk representa dentro da Segunda Guerra Mundial).

Inspirado também pela bela trilha-sonora composta por outro constante colaborador de Nolan, Hans Zimmer, Dunkirk torna-se a experiência mais imersiva proposta por Christopher Nolan até então. Não há reviravoltas capciosas ao final como em Interestelar, não há dúvidas propostas por objetos rodando como em A origem. Mas há algo muito mais forte que em tempos de youtubers e Snapchat torna-se cada vez mais raro e, ao mesmo tempo, necessário: o fato de que é preciso experienciar o cinema, não apenas olhar para a tela como uma criança ou adolescente olha para a incrível e absolutamente inesperada rotação de um spinner é capaz de fazer.

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Pôster: Concept Arts, 2017

Dunkirk, escrito e dirigido por: Christopher Nolan.

Com: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Barry Keoghan, Mark Rylance, Tom Glynn-Carney, Tom Hardy, Jack Lowden, James D’Arcy, Cillian Murphy, Harry Styles, John Nolan, Michael Caine (voz).

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O Regresso

Mas a vingança não está em minhas mãos, e sim nas do Criador.”

Talvez a estreia levemente atrasada de O regresso (The revenant, 2015) no Brasil tenha levado as pessoas a discussões calorosas em redes sociais e seções de comentários por toda a internet em relação a dois aspectos principais do filme: a atuação de Leonardo DiCaprio e a direção de Alejandro González Iñárritu. Se, por um lado, tais pontos são bases importantes para a composição do longa, há o que se refutar diante de tantas “opiniões” esbravejadas. É preciso deixar claro, de antemão, duas coisas: Leonardo DiCaprio pode realmente estar buscando o “papel de sua carreira”, como a mídia está pintando essa sua nova empreitada no cinema, mas isso nem sempre é algo ruim, ainda menos algo pejorativo; e, como ando acompanhando nos últimos tempos – principalmente após a cerimônia do Globo de Ouro –, existe uma séria preocupação do público mais cinéfilo em desvalorizar o trabalho de Iñárritu, antes mesmo de conferir o seu mais novo filme, apenas porque o diretor é declaradamente uma pessoa que reconhece suas qualidades em público, isto é, a humildade não é uma virtude cobiçada pelo mexicano.

Imagem: 20th Century Fox, 2015

Então vamos por partes: em primeiro lugar, a busca de um ator pelo papel que irá lhe render diversos prêmios (olá, Oscar) é algo completamente natural, ainda mais tratando-se de Hollywood. Anne Hathaway, por exemplo, virou figurinha repetida na televisão americana ao divulgar seu papel em Os miseráveis (Les misérables, 2012) como a coadjuvante Fantine, dona de apenas uma cena, mas com a tela toda para si. Chegou a parecer artificial a espontaneidade da atriz ao tratar com tanta vontade sobre como foi difícil perder quilos para parecer, literalmente, uma miserável no cinema. Sua romaria televisiva deu certo, no entanto, levando, no fim, uma estatueta dourada em mãos. Meu ponto é: nós sabemos que a divulgação de Hathaway era puro lobby hollywoodiano; mas isso, no fim das contas, realmente desqualifica o trabalho da atriz em cena? Creio, honestamente, que não. O mesmo se aplica a DiCaprio. O ator, em uma série de entrevistas concedidas à mídia americana, não pestanejou ao “vazar” informações sobre as filmagens, como quando precisou enfrentar temperaturas hostis ou comer carne crua (ainda mais sendo vegetariano). Não sejamos infantis, então, a ponto de dizer que a atuação do rapaz em cena se resume apenas à sua busca pelo tão sonhado Oscar. É mais do que óbvio que o ator quer um Oscar, mas isso não desqualifica aquele que foi catapultado por Titanic (Idem, 1997), passou por uma escola cinematográfica chamada Martin Scorsese e nos entregou cenas memoráveis como Calvin Candie em Django livre (Django, 2012) e Jordan Belfort em O lobo de Wall Street (The wolf of Wall Street, 2013), isso apenas para citar dois exemplos recentes.

Imagem: 20th Century Fox, 2015

Em segundo lugar, Iñárritu, na mesma pegada, não tem receios em admitir que é um cara bom naquilo que faz. E o é. Só a sequência de abertura de O regresso já deixa claro para o público que uma pessoa precisa ser minimamente competente ao gerir tantos movimentos de câmera, além de um mise-en-scène intricado, para que tanto clima quanto história fiquem claros aos que assistem. A sensação, dessa forma, é de que entramos de cabeça em um clima de tensão e guerra, ambientado de maneira gélida e com relações ásperas entre brancos e índios. E se Iñárritu concebe todos esses elementos em menos de dez minutos de projeção, algo me diz que, sim, ele sabe o que está fazendo e, sim, ele é bom de verdade.

Aliado ao diretor, inclusive, está Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia premiado com um Oscar por Gravidade (Gravity, 2013) e Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância) [Birdman or (the unexpected virtue of ignorance), 2014]. Conhecido também por seus trabalhos com o diretor Terrence Malick, é impossível não lembrar de A árvore da vida (The tree of life, 2011) ou Amor pleno (To the wonder, 2012) com as tomadas aqui em The revenant, principalmente quando a câmera contempla o céu noturno, como um veludo azul escuro, cortado pelas faíscas douradas e alaranjadas de uma fogueira que crepita contra o frio gélido presente em todo o filme. Mas não é Alejandro G. Iñárritu tentando emular um Malick através de Lubezki, é uma pausa quase necessária, para a narrativa e para o público, dentro de cenas com uma carga de tensão tão acentuada.

Imagem: 20th Century Fox, 2015

E essa tensão não provém apenas do norte canadense em seu inverno tão presente, ou da câmera de Iñárritu que ora está ao longe, registrando a imensidão branca contra um homem solitário, ora em close máximo, quase cirúrgico, diante do rosto deformado de DiCrapio pela raiva que sente ao ver o ataque de um companheiro a um membro importante de seu grupo e não poder fazer nada para impedi-lo; a tensão máxima está nas relações entre as personagens: o ardiloso John Fitzgerald (interpretado pelo ótimo Tom Hardy), que em um momento está sob a mira de um rifle e, logo em seguida, está com os dedos prestes a apertar o gatilho do mesmo rifle; o pobre garoto Bridger (interpretado pelo surpreendente Will Poulter), aqui sendo salvo por um triz pelo companheiro Fitzgerald, ali sob a mira do rifle que segundos antes empunha contra o mesmo companheiro; ou mesmo entre Hugh Glass (o personagem de DiCaprio) e o urso… são relações necessárias para movimentar a trama, mas que, como um efeito colateral extremamente indesejado, causa desconforto e angústia para a plateia que acompanha o filme.

Imagem: 20th Century Fox, 2015

Se para alguns a saga de Hugh Glass pode parecer apenas um pretexto para que um ator busque prestígio em uma premiação ou um diretor admita publicamente que é realmente bom naquilo que faz, é preciso analisar O regresso por si só, não como uma mera história, mas também como o exercício cinematográfico que é, repleto de tomadas que mais parecem pinturas a óleo – algo que lembra, aliás, o estilo buscado por Stanley Kubrick em Barry Lyndon (Idem, 1975), principalmente por John Alcott, diretor de fotografia deste, ter registrado os atores em cena com a luz natural dos ambientes, algo que Lubezki também realizou em O regresso –, uma trilha sonora inóspita, sugerindo a solidão presente tanto no exterior nevado das locações como no interior psicológico do protagonista, além da mão firme de Iñárritu, presente em todas as cenas. O regresso, portanto, merece, sim, o reconhecimento que está alcançando pelas premiações que passa pois, assim como o trabalho anterior do diretor, é a expressão pura daquilo que lhe dá suporte: o bom e velho cinema.

 
The revenant, dirigido por: Alejandro G. Iñárritu; escrito por: Mark L. Smith e Alejandro G. Iñárritu (baseado parcialmente na obra de Michael Punke).

Com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhail Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Chesley Wilson.

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