Filmes

Me chame pelo seu nome

Talvez um dos sentimentos mais puros e cristalinos que um ser humano pode vivenciar é o amor verdadeiro. Apesar dessa ideia soar um tanto piegas, amar intensamente alguém pode trazer todas as sensações boas possíveis produzidas por nosso cérebro – se você pensar racionalmente -, assim como as dores imensas provenientes do coração – se lembrarmos de nosso campo sentimental. Amar, portanto, é uma via dupla recompensadora e dolorosa, calmante e destruidora. E a ideia de amar intensamente pela primeira vez é um tema inspirador de muitas obras em todas as artes, seja na música, na poesia ou, nesse caso, no cinema. Amar intensamente pela primeira vez durante um verão italiano, então, soa perigosamente clichê e, ao mesmo tempo, belo. Belo porque encanta, belo porque dói.

Ao longo de suas mais de duas horas de duração, Me chame pelo seu nome (Call me by your name, 2017) cumpre com a missão de apresentar-nos uma história leve como água mineral, e, no entanto, permeada com tormentas e quedas d’água que passam, principalmente, pela cabeça do protagonista, Elio (interpretado pelo talentoso Timothée Chalamet), em seu aprendizado de verão sobre como amar é recompensador, sobre como crescer é doloroso. Em certo momento, seu companheiro de aventuras sentimentais, Oliver (interpretado pelo também talentoso Armie Hammer), pergunta o que ele faz lá, naquela cidade pequena italiana, durante todo o verão; “leio, transcrevo minha música”, é a resposta imediata. Um projeto de verão similar às águas onde Elio costuma se banhar – calmas, paradas e, nas palavras de Oliver, também congelantes.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

A água, inclusive, é um elemento utilizado de maneira inteligente pelo roteirista James Ivory e pelo diretor Luca Guadagnino. Na primeira cena de socialização de Elio e Oliver, no jogo de vôlei com os adolescentes e jovens locais, o protagonista está prestes a entregar uma garrafa de água gelada (um alívio oposto ao sol escaldante de verão, principalmente pra quem está jogando vôlei) para um dos amigos quando Oliver, sem avisar, rouba a garrafa das mãos de Elio e toma um gole. Depois, será o momento em que Elio percebe a não-volta do sentimento que passa a nutrir por Oliver, então decide levá-lo para o seu “local”, como ele mesmo o define. O microcosmo de Elio é um oásis de água das montanhas represada no meio de campos verdejantes, água essa com nascente nas montanhas próximas, como o próprio protagonista faz questão de dizer – “tem algo que você não saiba?” é o questionamento de Oliver em outra cena; Elio está saindo da adolescência, diante de um homem mais velho e, tecnicamente, mais experiente: ele precisa provar-se, afinal. Por último, no arco dramático do casal Elio e Oliver, temos a presença das águas da montanha; porém, diferentemente da pequena represa particular e calma de Elio, essas águas são agitadas, perigosas – ameaçadoras até. É a metáfora de Ivory-Guadagnino avisando Elio que tempos conturbados estão próximos, mesmo que ele não saiba ou ignore, em estado de negação.

Assim, as alterações emocionais causadas pelo amor de verão de Elio e Oliver estarão presentes em muitos detalhes de Me chame pelo seu nome, desde as nuances na linguagem corporal trabalhada por Chalamet e seu Elio inseguro, passional e, algumas vezes, infantil, até a preocupação de Oliver, este que, ao notar o amor irrefreável surgindo entre ele e Elio, por diversas vezes hesita e até impede do jovem continuar demonstrando seus sentimentos de forma física, repetindo que conhece suas próprias atitudes e que não quer decepcioná-lo. As construções dos dois personagens, dessa forma, seguem um ritmo ao mesmo tempo parecido e particular, cada um a seu estilo: Elio, de início, esnobando a presença do mais velho forasteiro e, com o tempo, deixando-se levar pela paixão irrefreável que toma conta de si; Oliver, a princípio tomando suas decisões de maneira cautelosa (cautelosa em demasia, como na cena do vôlei), e mais tarde também entregando-se ao amor. Ambos, inclusive, irão mostrar um para o outro e, ao mesmo tempo, para eles mesmos, que também podem e conseguem atrair e se relacionar com garotas, um jogo de gato e rato que acaba aumentando ainda mais a tensão sexual e amorosa entre os dois rapazes.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

E apesar de todo o retrato idílico que o amor de Elio e Oliver provoca ao longo do filme, a porção final, arrebatadora a seu modo, vem para nos lembrar do outro lado do amor verdadeiro: a dor. No início do filme, em uma cena muito rápida, a narrativa esbarra na citação de Heráclito sobre não podermos entrar duas vezes num mesmo rio – na segunda vez, mesmo que estejamos no mesmo rio que entramos anteriormente, suas águas já são outras, aquelas primeiras já passaram e estão há muito longe de nós; e, por consequência, nós também somos outras pessoas, também mudadas, também com outras águas fluindo em nós -, e, ao final, a metáfora da água, que começou parada, calma, passou pela água gelada, pelo suor, pelo sumo do pêssego e pelas cachoeiras revoltosas e ameaçadoras, agora transforma-se em flocos de neve, em uma paisagem homogênea e confortante – mas que não deixa de ameaçar Elio. Antes, porém, ele recebe uma das lições mais valiosas que um pai pode dar a seu filho: a natureza sempre arranja meios de atingir nossos pontos mais fracos. Em uma cena de monólogo inspirada, o pai de Elio (interpretado por Michael Stuhlbarg) emocionará não apenas o filho, mas todo o público que acompanha o longa.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

Tal qual um dos epigramas gregos mais verdadeiros à arte, “a beleza é dura, é cruel, é chocante”, tópico inclusive discutido entre o pai de Elio e Oliver enquanto contemplam slides de esculturas gregas e sua imitação perfeita da estética do corpo humano, Call me by your name é uma alegoria bela e cruel a seu modo. Assim como Oliver entra nas águas calmas e congelantes de Elio, em um batizado pagão e sem volta; assim como Elio penetra o pêssego buscando uma água mais doce e arrepende-se imediatamente de seu ato “impuro”; assim como nenhum dos dois permanecem os mesmos após um misturar-se à água do outro – inclusive misturando seus próprios nomes -, o público também não é o mesmo ao contemplar a cena final de Me chame pelo seu nome. Fria como a neve lá fora, indiferente como as chamas que crepitam diante do rosto belo e chocante de Elio, a arte da obra de Luca Guadagnino flui em nós, doce como um pêssego vibrante ao sol de verão, amarga como uma despedida sem volta.

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Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Call me by your name, dirigido por Luca Guadagnino, escrito por James Ivory (baseado no livro Me chame pelo seu nome, de André Aciman).

Com: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Vanda Capriolo, André Aciman.

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Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2017

É hora de dizer mais uma vez: ano novo, lista nova.

Como já é tradição aqui on blog, está na hora de colocar as cartas na mesa e escolher os dez filmes que mais me agradaram ao longo do ano passado. Tentei prezar diversos gêneros e, consequentemente, várias temáticas. No final da lista você encontrará um filme bônus (oficialmente ele ainda não estreou no Brasil).

Listas de anos anteriores: 2016, 2015, 2014

10º

Mulher-maravilha (Wonder woman)

2017, dirigido por: Patty Jenkins

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Pôster: B O N D, 2017

Um dos filmes mais elogiados de 2017, Mulher-maravilha soube escapar muito bem do estigma de ser “apenas mais um filme de super-herói”. Patty Jenkins e sua direção com um olhar cuidadoso para a imagem de representatividade da mulher dentro do universo proposto pela personagem da DC Comics fez do filme não apenas um manifesto, mas uma peça de entretenimento puro e muito válida, mostrando ao público todo um universo e construção de personagem que não perde para nenhum outro filme baseado em histórias em quadrinhos. A cereja do bolo, é claro, é a atuação plena de Gal Gadot.

Star Wars: os últimos jedi (Star Wars: the last jedi)

2017, dirigido por: Rian Johnson

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Pôster: LA, 2017

Esqueça a zona de conforto de J. J. Abrams e seu Episódio VII. Não que este seja ruim, mas Rian Johnson definitivamente deixou sua marca na saga Star Wars. Ousado, diferente e, ao mesmo tempo, resgatando os tão bem-vindos alívios cômicos da trilogia clássica, Os últimos jedi não apenas estabelece de vez a nova geração de Star Wars para as novas gerações dentro do público, como também deixa seu legado para o cânone criado por George Lucas. Não dê atenção para pessoas babacas e seus abaixo-assinados irrelevantes, The last jedi é filmaço de primeira categoria e diversão garantida.

Leia a resenha do filme aqui.

Corra! (Get out!)

2017, dirigido por: Jordan Peele

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Pôster: LA, 2017

Não espere que você saiba o que está acontecendo dentro desse filme. Corra! é imprevisível do início ao fim. E o roteiro vai jogar com você o tempo todo, subvertendo inclusive suas próprias obviedades. É um suspense? Sim. É um terror? Sim. É comédia? Doentia, mas sim. Para conferir Get out!, é bom estar com o estômago em dia, pois a atualidade dele vai dar uns belos socos no seu.

Leia a resenha do filme aqui.

Animais noturnos (Nocturnal animals)

2016, dirigido por: Tom Ford

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Pôster: B O N D, 2016

Animais noturnos não possui uma história complexa, muito menos efeitos especiais mirabolantes. Seu foco são seus personagens e como esses lidam com seus próprios sentimentos. A história dentro da história só complementa a força gerada por ressentimentos, ódio e, claro, vingança. Espere por composições de imagens estéticas e atuações primorosas de Amy Adams e Jake Gyllenhaal.

Leia a resenha do filme aqui.

Ao cair da noite (It comes at night)

2017, dirigido por: Trey Edward Shults

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Pôster: InSync Plus, 2017

Dentro de uma onda de filmes de terror cada vez mais autorais e que fogem do estereótipo de que terror equivale a um filme ruim, com personagens rasos e histórias mais finas ainda, Ao cair da noite não é um exemplo que irá deixar você satisfeito. Em nenhum momento ele entrega o que o público quer ou precisa ver. Seu suspense é baseado justamente naquilo que tememos por não sermos capazes de vê-lo. Angustiantes, claustrofóbico e visceral.

Dunkirk (Dunkirk)

2017, dirigido por: Christopher Nolan

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Pôster: WORKS ADV, 2017

Para quem estava acostumado com um Christopher Nolan entregando filmes do Batman com roteiros complexos e desenvolvimento profundo de personagens, ou mesmo filmes com conceitos complexos como A origem (Inception, 2010), Dunkirk pode parecer um longa incompleto, sem nexo. Mas não se engane: o protagonista aqui é a própria guerra enfrentada pelos personagens. Dunkirk é cinema puro: no som e na imagem. O ideal é assisti-lo com uma tela e sistema de sons à altura, para que a experiência seja completa e você se sinta, mesmo que por menos de duas horas, dentro de uma guerra. Terrível.

Leia a resenha do filme aqui.

O filme da minha vida

2017, dirigido por: Selton Mello

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Pôster: Vitrine Filmes, 2017

Está na hora de você parar com essa bobagem de que filme nacional é uma porcaria. Claro que muitos filmes produzidos no nosso país nem merecem ser chamados de “filmes”, tamanha acefalia nos vários exemplos que vemos por aí. O filme da minha vida, porém, vem para tirar de vez essa impressão e, consequentemente, injustiça que praticamos contra o cinema pensado e produzido aqui. Seguindo a imensa qualidade de seu longa anterior, O palhaço (2011), o ator Selton Mello dirige aqui um regionalismo com maestria e serenidade. Destaque para a belíssima fotografia que evoca, em seu tom sépia, uma nostalgia doce, mas, ao mesmo tempo, dolorosa.

A chegada (Arrival)

2016, dirigido por: Denis Villeneuve

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Pôster: Empire Design, 2016

Aparentemente o canadense Denis Villeneuve não consegue fazer um filme ruim. Aqui, o diretor nos apresenta o que poderia ser mais um filme de invasão alienígena, não fosse pelo fato de A chegada não colocar a invasão em si em primeiro lugar; o foco, aqui, é a linguagem: como vamos nos comunicar com esses seres? E como é a linguagem deles? Todos os segredos e enigmas do filme giram em torno da linguagem. Obra-prima, incluindo sua trilha-sonora arrepiante.

Leia a resenha do filme aqui.

It: a coisa (It)

2017, dirigido por: Andy Muschietti

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Pôster: cold open, 2017

A produção de It remonta ao início da década. Mudança de diretores, roteiristas e por aí vai. O que parecia impossível acontecer devido às circunstâncias foi, talvez, a principal supresa positiva dentro do cinema blockbuster de 2017. Baseado em uma das consideradas obras-primas de Stephen King, It: a coisa é uma homenagem não apenas aos grandes monstros e fantasmas das histórias de terror, mas à infância em si. Equilibrando muito bem as doses de sustos e horror com os risos (voluntários ou não), It com toda a certeza foi a melhor opção de entretenimento no ano que passou. Finalmente valeu a pena esperar anos e anos por um filme sair do papel. Estamos ansiosos desde já para o próximo capítulo da história, previsto para 2019.

Leia a resenha do filme aqui.

E aqui há a resenha para o livro de Stephen King.

Moonlight: sob a luz do luar (Moonlight)

2016, dirigido por: Barry Jenkins

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Pôster: InSync Plus, 2016

Poético como versos doces ou música inspirada, arrebatador como um soco no rosto. Moonlight não apenas mereceu seu Oscar de Melhor Filme em 2017, era uma obrigação premiá-lo por sua coragem, sua narrativa fílmica exemplar e sua temática mais do que necessária. A discussão aqui não é apenas em relação aos LGBTs, mas também em relação aos negros e como eles – ainda, infelizmente – estão relegados às margens de nossa sociedade. Não espere por finais felizes.

Cena pós-créditos

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

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Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Sensação do final do ano, Me chame pelo seu nome está arrebatando críticos por todos os festivais em que passa. Queridinho das premiações agora no começo de 2018, o longa realmente não decepciona, seja por seu retrato fidedigno de um verão europeu rodeado por estudiosos, piscinas, praias e pêssegos saboreados de diversas formas, seja pela atuação monstra de Timothée Chalamet ao lado de Armie Hammer. Destaque também para as composições originais de Sufjan Stevens que permeiam o filme e ditam ainda mais o clima de primeiro-amor.

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