Stranger things 2

Séries

Se um dia a preocupação da TV tradicional era o advento dos serviços de streaming e a possibilidade do espectador escolher o que assistir e quando assistir, hoje já é possível notar um total rendimento ao formato consagrado principalmente pela Netflix: a série. Não é difícil de observar, por exemplo, uma recorrência maior de mudanças em novelas globais, por exemplo, como que uma transição entre o formato de folhetim clássico para o de uma história seriada, passando por alterações no ritmo da trama, aproveitamento da internet – conhecida, atualmente, como “segunda tela” – e até um tratamento mais fílmico na composição de imagens. A Netflix, inclusive, com o passar dos anos, passou de transmissora de conteúdo para produtora, e isso a estabeleceu como modelo a ser seguido.

Dentre seus sucessos de público e mercado, Stranger things  (idem, 2016) chegou no meio de 2016 para suprir a gana de um nicho de público ao mesmo tempo exigente e fiel. Representados de diversas maneiras ao longo da história da TV e também do cinema, os nerds tiveram a oportunidade de ouro de se refestelarem com a série, surtando com inúmeras referências à cultura pop dos anos 80. A fórmula, apesar de pronta para o sucesso, não é muito simples de seguir. Isso devido ao fato de, por ser justamente algo muito palatável ao olhar de diversos grupos, Stranger things poderia dar errado de muitas formas (o elenco poderia afundar a série, o desenvolvimento de personagens poderia morrer ao longo da temporada ou a produção não ser à altura das expectativas geradas pela trama). No entanto, seu enorme sucesso acabou não apenas atingindo o objetivo da fórmula de sucesso, como gerou filhotes ainda mais perigosos: como manter a qualidade de uma primeira temporada redondinha sem decepcionar as expectativas do público.

MV5BM2ZiYjYzZjEtNWRiZS00NGUyLTg0YWQtNGZmMmU5NGFhNjY0XkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,887_AL_

Imagem: Netflix, 2017

Porque, assim como dito anteriormente, a série tem que atingir, em primeiro lugar, seu público cativo; passado por este crivo mais exigente, Stranger things ainda precisa almejar cair no gosto popular em massa, dando conta de não perder um público que passou a ser fiel após conferir a qualidade da primeira temporada. Assim, além de dar continuidade a uma história que desenvolveu um enredo sem pontas soltas – a não ser por aquelas intencionalmente criadas ao fim da primeira temporada -, a série agora não é mais apenas uma aposta que deu certo e fez enorme sucesso, ela representa uma história que já marcou uma geração de espectadores e, dessa forma, precisa contemplá-los cada vez mais positivamente. É o preço a se pagar por arriscar-se através da fórmula “fácil” de sucesso.

Não que isso tenha se tornado um problema dentro da nova temporada. Tirando os tropeços em um determinado episódio – mais sobre isso ao longo do texto -, Stranger Things 2 (idem, 2017) consegue manter a qualidade de trama apresentada no ano passado, com a bem-vinda vantagem de separar um tempo de tela para o desenvolvimento de seus personagens. Assim, se o foco, anteriormente, era desesperar-se para fazer referências aos anos 80, em 2 as coisas ficam mais tranquilas nesse ponto e dá espaço para que Will, Mike, Dustin e Lucas possam brilhar aos poucos durante os nove episódios disponibilizados pela Netflix agora no final de outubro. Mais que isso, os irmãos Duffer, criadores, roteiristas e diretores da série, optam também pela introdução de novos personagens, o que dá um fôlego extra e uma sensação de frescor ao roteiro.

MV5BZWI4N2IwYWEtMGZkZC00NmE1LWI1YzgtOWZmYjY3MjkyODFjXkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,881_AL_

Imagem: Netflix, 2017

É nesse ponto que conhecemos Max (interpretada pela ótima Sadie Sink), aquela que vai se apresentar inicialmente como antagonista da trupe de protagonistas, mas que, aos poucos, passa a se revelar uma grata surpresa à série – uma necessidade de substituição à figura de Eleven (Millie Bobby Brown), relegada um pouco às sombras nesta temporada. Max e seu irmão, Billy (interpretado pelo Power Ranger Dacre Montgomery) – o antagonista humano – são os principais motores de Stranger Things 2, cada um trazendo mais força a seus respectivos núcleos de personagens, ela com os quatro garotos principais, ele com os estereótipos do ensino médio americano. A relação entre os dois atores, aliás, demonstram uma química em suas atuações muito benéfica, principalmente em relação às cenas encabeçadas por ambos, sempre com um viés mais dramático, tenso.

Pegando carona nesses novos fôlegos de elenco, Winona Ryder ainda consegue roubar todas as cenas que protagoniza, mantendo seu ar paranóico herdado da primeira temporada, como se já preconizasse os acontecimentos irrefreáveis deste novo momento. Ao seu lado, no entanto, nosso eterno Samwise Gamgee Sean Astin também vai protagonizar momentos-chave da segunda temporada ao interpretar um par romântico a princípio bobo e ingênuo demais, mas que, conforme os acontecimentos com o “enteado” Will vão se materializando, passa a representar a coragem que surge por meio de atitudes e ideias inesperadas e genuínas.

MV5BNTNmZmE3YjItNzFjMC00ZTcwLTk2NzYtZDY0NjJlNTEwM2ZlL2ltYWdlXkEyXkFqcGdeQXVyNjUwNzk3NDc@._V1_SX1777_CR0,0,1777,982_AL_

É possível esperar a mesma qualidade nas atuações do quarteto principal. Com maiores destaques nesta temporada para Gaten Matarazzo (que interpreta Dustin) e Caleb McLaughlin (intérprete de Lucas), Stranger things 2 passa a priorizar também seus outros personagens principais, dando a estes mais tempo em cena e, consequentemente, mais desenvolvimentos para seus personagens, o que só destaca ainda mais a competência dos jovens atores. O mesmo se aplica a Joe Keery (o responsável por Steve Harrington): inicialmente apresentado como o antagonista entre os jovens na primeira temporada, Steve agora é um personagem que acabou se desenvolvendo para o bem, contando como mais um aliado dos pré-adolescentes protagonistas. Seus percalços sentimentais com a namorada Nancy (Natalia Dyer) adicionam mais tempero ao aprofundamento do personagem, tornando-o mais humano e, dessa maneira, acarretando em um reconhecimento maior com o público.

O que nos leva à dicotomia Will / Eleven. Chamo aqui de dicotomia pois ambos os personagens estão ligados ao que ficou conhecido, ano passado, como “Mundo Invertido”. Enquanto Will (interpretado por Noah Schnapp) é o hospedeiro maligno desta temporada, Eleven mais uma vez precisará equilibrar tal fato com suas habilidades psíquicas e telecinéticas. E é nesse ponto que o roteiro de Stranger things 2 renega um pouco a presença da heroína. Ah, caso não tenha assistido à nova temporada, talvez, a partir deste ponto até final do parágrafo, alguns apontamentos poderão sugerir spoilers, portanto, siga por sua conta e risco. Decidindo por uma jornada do herói solitário, a série vai optar por isolar Eleven (com a desculpa da sociedade não poder vê-la ou conhecê-la, já que “as consequências para todos os envolvidos serão drásticas”) e transformá-la no messias particular de Hawkins aos poucos (por isso sua morte e ressurreição simbólicas ao longo de toda a temporada). E se me permite a continuidade da analogia religiosa, Eleven terá apenas um episódio dedicado totalmente a si – o sétimo da temporada -, um momento em que a heroína irá para seu deserto próprio refletir sobre sua existência, atos e decisões. Infelizmente é o episódio com menor potencial da temporada (e talvez o mais pobre, narrativamente falando, de toda a série), pois seu teor acaba destoando do restante dos capítulos, numa tentativa de sugerir referências a um treinamento jedi às avessas, algo que acaba não colando muito como resultado final.

MV5BMDkyODIwNmYtM2EwZC00ODk4LTljMmUtODI1ZDUyNDUwNDc4XkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,887_AL_

Porém, em compensação, ainda é possível conferir uma trilha sonora inspirada que não apenas estabelece o clima para diversas cenas, como também retoma um clima oitentista muito bem-vindo à série. Aliada à música, a direção de arte se expande aqui para dar vida a novos cenários, mesmo que dentro dos conhecidos desde a primeira temporada; apesar de pecar aqui e ali em sua computação gráfica, a arte empregada no novo vilão da vez (o Monstro das Sombras) compensa as falhas. É bom também divertir-se com as referências de coisas que ainda vão se desenrolar ao longo dos episódios, como o fliperama jogado pelos protagonistas logo no primeiro episódio  – Dig Dug), um jogo que sugere a escavação como forma de combate e salvação – e tal ideia perdurará até o final da temporada – ou a música escolhida especialmente para uma ocasião que envolve todos os protagonistas no último episódio (“Every breath you take”, The Police).

Há mais de um ano eu finalizei minha resenha para Stranger things afirmando que se a qualidade da série perdurasse conforme o passar do tempo, nada mais natural do que esperar por novas temporadas e mais desenvolvimento de tramas e personagens. Agora, porém, é preciso pôr um pouco o pé no freio: agora é o momento para pensarmos se ter inúmeras próximas temporadas será algo realmente benéfico para Stranger thingsStranger things 2 por enquanto está dando conta do recado. Vamos acompanhar de perto daqui para frente.

MV5BMjQ5ODIyODg5Ml5BMl5BanBnXkFtZTgwOTI4Njk5MzI@._V1_SY1000_CR0,0,668,1000_AL_

Pôster: Kyle Lambert, 2017

Stranger things 2, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Justin Doble, Jessie Dickson-Lopez, Kate Trefry; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy, Andrew Stanton, Rebecca Thomas.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Sean Astin, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Sadie Sink, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Dacre Montgomery, Paul Reiser, Linnea Berthelsen.

Anúncios

13 reasons why

Séries

A habilidade de julgar, inerente a qualquer ser humano, faz de nós uma espécie à parte. Podemos, por exemplo, calcular mentalmente quais são as melhores opções para sair de um ponto A e chegar a um ponto B, levando em consideração todos os entremeios ali presentes; podemos escolher entre um produto A e um B, decidindo, por fim, qual comprar, porque o julgamento nos apresentou a melhor opção; podemos, enfim, utilizá-la para muitas situações. Julgar, portanto, é uma ferramenta importante para a sobrevivência. No entanto, diferentemente de outros animais, nós também usamos nossa habilidade como um poder destrutivo – ou, em muitos casos, autodestrutivo.

Somos julgados a todo tempo. Analisados a todo tempo. Ao viver em sociedade, estamos, sem escapatória, na mira de olhos pungentes, que nos ditam o que devemos vestir, como devemos nos comportar, a maneira como precisamos conversar, a forma como devemos atuar em todos os lugares. No trabalho, somos julgados a partir das habilidades que demonstramos para com as coisas e as pessoas; socialmente, somos julgados por vestir tal roupa, rir de tal maneira, gesticular com as mãos no momento da fala, estar acompanhados por um certo alguém. Mas é na escola onde o julgamento é mais preciso. É na escola onde grupos se formam, tribos se solidificam, inimigos são naturalmente traçados. O julgamento, aí, não é, a princípio, um problema. Ele é necessário para saber com quem devemos nos misturar, com quem podemos nos abrir para compartilhar uma dor ou segredo, com quem ficamos à vontade para gargalhar e dar um ombro amigo quando o outro mais precisa de nós.

1

Imagem: Netflix, 2017

Mas a escola também pode nos destruir. Ela, por ser um preparatório para a sociedade lá fora, torna-se, muitas vezes, um microcosmo hostil, um ambiente propício a discussões, rusgas e, no seu pior momento, violência. Porque, afinal, a escola é essencialmente formada pelo seu maior público, os estudantes. São eles que dão forma a uma sala de aula, são eles que irão traçar o perfil de cada ambiente. E estudantes estão em processo de crescimento físico e intelectual; são como telas em branco, em que o artista plástico é uma junção de duas partes: o próprio aluno e seu professor. Ambos vão criar uma obra que não é fixa, vão desenvolver um quadro que se modifica a todo tempo. E modificar-se não pode ser encarado como algo ruim, perigoso. Modificar-se significa o resultado de uma reflexão. E a reflexão subentende um esforço preciso e trabalhoso, algo que ainda não é amigável a todas as pessoas.

Pensemos assim: é mais fácil e cômodo eu acreditar que sei de tudo sobre um determinado assunto do que, em um certo momento, ter um desequilíbrio em minhas convicções e esse desvio me fazer acreditar que não, não sou capaz de saber tudo sobre esse assunto em especial. A permanência obstinada nessa certeza única e egoísta, esse apego ferrenho às minhas próprias certezas e a não possibilidade de uma visão mais ampla sobre as coisas ao meu redor é um movimento perigoso, uma abertura à possibilidade de abraçar algo que está dentro da natureza humana com a mesma intensidade do poder do julgamento: o preconceito. E é esse preconceito que borbulhará frases, mensagens, xingamentos e atos de violência entre pessoas e grupos diferentes em lugares propícios a tais situações. Como a escola.

É nesse ponto, então, que chegamos à série 13 reasons why.

5

Imagem: Netflix, 2017

Aparentemente mais um produto voltado ao público jovem-adulto que tanto consome livros, filmes (muitas vezes baseados nestes próprios livros) e outras produções direcionadas a assuntos relativos aos adolescentes – amizade, escola, futuro profissional, romance, sexo, drogas, ansiedade, depressão -, a atual produção original da Netflix decide ir para um caminho menos explorado até então. Temos, por aí, inúmeras obras que tentam retratar as dores de uma pessoa depressiva. Mas por serem concebidas com o objetivo de atingir públicos jovens, muitas vezes assuntos sérios como um câncer terminal ou a própria depressão são romanceados a um nível preocupante. É o caso, por exemplo, de A culpa é das estrelas. Os treze episódios de 13 reasons why, todavia, deixam claro, desde o início, apesar de sua fotografia que vai das cores frias do presente para as cores quente de um passado não tão distante (além de uma trilha sonora indie apelativa aos corações adolescentes), sua abordagem: fria, direta e objetiva. Infere-se aí a possibilidade de cenas gráficas – a presença de sangue, o sexo não consentido -, infere-se também a possibilidade de discussões sobre assuntos espinhosos; e sim, tais possibilidades realmente acontecem.

É, como discutido no início, uma escolha a partir de um julgamento. E a equipe de produtores de 13 reasons why decide pelo caminho tortuoso, difícil e, o mais relevante, sem volta. Afinal, discutir abertamente temas como o machismo, o assédio sexual, a homofobia, o bullying, a depressão e a ansiedade sem glamorizar tais situações requer, em primeiro lugar, uma coragem audaciosa, pois isso será abertamente julgado (de maneira negativa, na maioria das vezes) pelo público, pela crítica, pela sociedade e as estâncias presentes nela. E a série não torna nada um mar de rosas.

A começar pelo método encontrado por Hannah Baker (interpretada por Katherine Langford) para deixar um legado pós-morte. Como a própria personagem nos diz logo no primeiro episódio, seria muito fácil deixar suas gravações em arquivos mp3 para as pessoas ouvirem em qualquer dispositivo em mãos, assim como recorrer ao Google Maps para indicar pontos estratégicos da cidade. E nada é fácil. Relacionar-se não é fácil, fazer amigos não é fácil – perdê-los menos ainda. Por que ela facilitaria, então? Hannah, portanto, grava suas memórias amargas em fitas cassete. Uma tecnologia perdida no tempo, difícil de ser utilizada em um mundo mergulhado em iPods, streaming e armazenamento na nuvem. Hannah sofreu com a espera, com a ansiedade, com um porvir eterno. Então seus ouvintes também precisarão conter-se para saber tudo o que aconteceu com ela (o que não deixa de ser levemente irônico, já que a própria Netflix disponibiliza todos os episódios de uma vez para seus assinantes).

2

Imagem: Netflix, 2017

Juntamente com as falas biográficas de Hannah, o espectador é refém da visão de Clay Jensen (interpretador por Dylan Minnette); deslocado socialmente e extremamente ansioso, Clay não apenas vai apresentar ao público as fitas de Hannah em doses homeopáticas, como também misturará os relatos da amiga com lembranças fragmentadas, num misto que confunde o espectador de propósito. A série, porém, não segue nesse ritmo, priorizando uma montagem que apresenta transições de cena e rimas visuais elegantes, interligando presente e passado de maneira fluida e didática – não podemos esquecer que o público-alvo aqui são os próprios adolescentes, e priorizar uma narrativa mais fragmentada resultaria no afastamento dessa audiência.

Além do prolongamento da espera intrínseco às fitas de Hannah e a ansiedade nata de Clay, ainda há um terceiro ponto nesse triângulo de protagonistas: servindo de guardião / mentor de Clay, Tony (interpretado por Christian Navarro) será o responsável por trazer o jovem ansioso de volta à realidade em momentos de fúria ou frustração extremos, lembrando Clay da importância de manter os desejos derradeiros de Hannah e de ouvir as fitas até o fim. É Tony também que guiará a narrativa em momentos-chave, levando a sério a importância de dar a Clay mais reflexões e perguntas do que respostas propriamente ditas – e exteriorizando sua filosofia própria ao levar o amigo para uma escalada, mostrando, literalmente, que a recompensa por um caminho difícil é maior do que chegar ao mesmo ponto B através da opção mais fácil.

13 reasons why diverge-se também ao ser uma produção que preza por mensagens visuais bem sutis, mas que quando apreendidas pelo espectador, fornecem à obra um grau de significação maior. É o caso, por exemplo, de determinados cortes entre uma cena e outra, como o momento, em um dos últimos episódios, em que um dos personagens aponta uma arma na direção da câmera, pronto para atirar e, logo após o corte, vemos um porta-retrato com a foto feliz e espontânea de uma família cujo filho único acabara de falecer. Sem fala algum, sem nenhuma narração para explicar, a própria imagem nos manda um recado: é esse personagem o verdadeiro assassino dessa história repleta de assassinos. É também nos momentos de representações delicadas, como as sequências com violência sexual, que a série mostra seu potencial imagético de maneira sutil. Quando determinada personagem sofre com uma relação sexual não consentida por ela, a câmera filma sua mão em um zoom in lento, cirúrgico; uma mão que, a princípio, estava tensa com a situação e, com o passar dos minutos, cai, sem forças, simbolizando a rendição da personagem diante do assalto que seu corpo e sua alma sofrem naquele momento.

3

Imagem: Netflix, 2017

E, se nesses casos 13 reasons why preza pelo simbólico, o mesmo não acontece com a sequência do suicídio de Hannah Baker. Se você ainda não terminou ou não começou a assistir a série, pule o restante desse parágrafo e vá direto para o próximo para evitar spoilers. Alguns espectadores podem julgar de maneira negativa a opção de se mostrar, d maneira crua, o suicídio de Hannah. Mas pensando no estilo que a série determinou para discutir todos os assuntos ali envolvidos desde o primeiro episódio, não faria sentido tratar o momento mais terrível da personagem de forma sutil, disfarçada. Um suicídio não é uma brincadeira, muito menos algo interessante. Retratá-lo requer coragem. E a opção do diretor do episódio, Kyle Patrick Alvarez, é a de manter suas lentes sobre Hannah, operando com closes enquanto a jovem corta rapidamente seus pulsos e com câmeras fixas em planos médios quando ela se deita na banheira, a respiração antes frenética dando lugar a uma calmaria dolorosa. A segunda parte, dolorosa igual, é o encontro dos pais com a filha morta dentro da banheira – o desespero realista do pai, a negação como último fio de esperança da mãe. Não bastando a imagem, a voz de Clay permeia tudo, descrevendo exatamente o que nós vemos, como um lembrete a mais para que entendamos, de vez, a seriedade de um suicídio e como ele é a junção de violências (sejam físicas, sejam psicológicas) vividas diariamente pela vítima que se rende a um último recurso: tirar a própria vida.

E se o desespero é o sentimento presente nos personagens que possuem uma ligação forte com Hannah, o oposto se vê na composição do personagem Bryce (interpretado por Justin Prentice). Com todos os atos machistas que pratica – dos mais silenciosos aos mais escancarados -, Bryce representa aqueles que não refletem, aqueles que acreditam saber tudo sobre tudo, aqueles que jamais admitirão seus atos como ações de preconceito, humilhação e violência. O jovem machista adorado pela sociedade que o rodeia devido à sua imagem pública impecável, o estuprador que acredita fazer um “favor” às meninas que “pedem” para serem “fodidas”. A construção do personagem dentro da narrativa vai, então, criá-lo como alguém que sempre aparta as brigas dos amigos, aquele que está presente para amenizar os desentendimentos e ajudar o amigo sempre que este precisa dormir fora de casa devido a questões familiares. De olhar amigável e fala mansa, Bryce é o popular que a todos atende e a todos convém. Mas, quando estão todos longe, ele é o violentador que irá intimidar com o olhar, o homem que precisará usar seu porte físico maior para ganhar quem deseja à força, sentindo o gozo da vitória através do sofrimento de sua vítima. Sua calma, mesmo diante da possibilidade de tudo ir por água abaixo em sua vida, em seu futuro, só corrobora sua sociopatia.

4

Imagem: Netflix, 2017

Assim, em mais um acerto, a Netflix faz com que paramos para refletir por um instante. Prestar atenção na pessoa que está no mesmo ambiente que o seu antes da eminente tragédia é a mensagem principal deixada ao final do último episódio. Somos, muitas vezes, aquele que violenta com palavras porque não aceitamos nos outros aquilo que mais nos incomoda em nós mesmos. O problema, assim, não é a presença do outro e seu modo de vida. O problema está em nós mesmos. Não podemos julgar um suicida considerando seu derradeiro ato como uma sinal de “fraqueza” se também somos essencialmente formado por inúmeras fraquezas, incertezas e medos. Se não chegamos ao ponto de tirar nossas próprias vidas, considerando ter “superado” todas as dificuldades, isso não nos dá o direito de julgar um suicida. Isso nos dá a oportunidade de ajudá-lo ainda em vida. Já que somos dotados com a capacidade aguçada do julgamento, precisamos perceber os gritos silenciosos de ajuda daquele amigo ou familiar e julgar a melhor forma de ajudá-lo. E aprender com isso, para não precisarmos de 13 porquês para uma pessoa ter desistido absolutamente de tudo e de todos.

pôster

Pôster: Netflix, 2017

13 reasons why, criada por: Brian Yorkey; escrita por: Elizabeth Benjamin, Diana Son, Thomas Higgins, Nathan Jackson, Nathan Louis Jackson, Kirk A. Moore, Nic Sheff, Hayley Tyler (baseada na obra Os 13 porquês, de Jay Asher); dirigida por: Kyle Patrick Alvarez, Gregg Araki, Carl Franklin, Tom McCarthy, Helen Shaver, Jessica Yu.

Com: Dylan Minnette, Katherine Langford, Christian Navarro, Justin Prentice, Miles Heizer, Devin Druid, Amy Hargreaves, Derek Luke, Alisha Boe, Brandon Flynn, Ross Butler, Kate Walsh, Charlotte Hervieux, Steven Silver, Michele Selene Ang, Josh Hamilton, Brian d’Arcy James, Sosie Bacon.

Stranger Things

Séries

Os anos 80 parecem uma época, ao mesmo tempo, tão distante e tão presente entre nós. Mesmo não tendo vivido na década, existe uma identificação tão forte por toda a sua cultura, seja essa produzida pela música, cinema, moda ou TV. Vamos a festas com temática oitentista, nos apaixonamos por clássicos contemporâneos de seu cinema criativo, nostálgico e, claro, também trash. Prova mais recente de todo esse apelo por tal momento histórico é Stranger things (idem, 2016), produção própria da Netflix responsável por todo um furor nas redes sociais desde sua estreia, no dia 15.

Os temas da série são mais do que batidos: retratados em um subúrbio americano, em uma escola e, mais ainda, numa época que trouxe para nós pérolas como E.T. – O extraterrestre (E.T. the extra-terrestrial, 1982) e, um pouco antes, Contatos Imediatos de terceiro grau (Close encounters of the third kind, 1977), Stranger things não se limita aos modelos e estereótipos. Desfila um monte deles durante seus poucos, mas ótimos e concisos oito episódios, é claro, apresentando logo de cara uma sequência digna de qualquer teoria da conspiração e passando por aquela festa adolescente em que o bonitão quer transar logo com a mocinha, enquanto a amiga antissocial vai, invariavelmente, se dar mal. Nesse amontoado de clichês e referências, os irmãos gêmeos Matt e Ross Duffer (creditados como The Duffer Brothers), criadores, roteiristas e diretores da maioria dos episódios, vão superar as expectativas criadas pela própria campanha de marketing realizada pela Netflix ao extrapolar os ânimos de um público cada vez mais sedento por séries bem produzidas e executadas. Stranger things não falha em nenhum destes quesitos, porém.

1

Imagem: Netflix, 2016

Trazendo à tona uma atriz competente, mas esquecida por Hollywood e cia ltda, Winona Ryder vai encabeçar a história interpretando a mãe de um garoto desaparecido logo no primeiro episódio (acalme-se, essa informação não foi um spoiler). Muito fácil de cair em maneirismos histéricos e trejeitos passíveis de avaliações ruins pelos críticos, a personagem Joyce Byers torna-se, a cada episódio, cada vez mais obcecada pela busca de seu caçula; Ryder, no entanto, confere uma autenticidade admirável com sua interpretação que varia entre o drama comedido e a explosão iminente de uma mãe pronta a arriscar qualquer coisa para ter o filho de volta a seus braços. É um alívio, inclusive, observar como uma boa produção, encabeçada por diretores e roteiristas competentes, além de uma empresa que acredita na história a ser contada, reflete de maneira positiva no trabalho do elenco, começando por Winona Ryder e passando, principalmente, pelo quarteto de pré-adolescentes, o verdadeiro grupo de protagonistas de Stranger things.

2

Imagem: Netflix, 2016

Encabeçado por Mike Wheeler (interpretado por Finn Wolfhard), Mestre de Jogo nas campanhas de Dungeons & Dragons jogadas pelos amigos, o grupo ainda conta com Dustin Henderson (Gaten Matarazzo), membro responsável pelas melhores falas nas cenas de discussões e que possui displasia cleidocraniana, uma síndrome responsável por atrasar o crescimento dos dentes permanentes – algo que, obviamente, vai torná-lo alvo de bullies e apelidos maldosos, e Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin), aquele que sempre chama a atenção dos demais para problemas que nem sempre estão visíveis, tornando-se o ponto de equilíbrio entre todos. Will Byers (interpretado por Noah Schnapp) logo deixa o grupo com seu desaparecimento, sendo “substituído” pela garota El (“abreviação para Eleven”), dona absoluta das melhores cenas de Stranger things, graças às características da personagem, mas principalmente devido à magnífica interpretação de Millie Bobby Brown. O quesito “interpretação”, aliás, é o ponto mais forte do quarteto de atores, precisando passar de nuances que exigem humor físico a momentos de intenso drama, com cenas preenchidas por discussões acaloradas ou conversas acompanhadas por dores e lágrimas caindo vagarosamente dos olhos.

3

Imagem: Netflix, 2016

A história não funcionaria tão bem, no entanto, se as boas interpretações parassem em seus protagonistas. Há ainda muito espaço para a inocente, mas interessante Nancy Wheeler (interpretada por Natalia Dyer), a irmã mais velha de Mike; o estranho e complexo Jonathan Byers (Charlie Heaton), irmão mais velho de Will; o chefe de polícia Jim Hopper (interpretado por David Harbour), contraponto necessário à histeria de Joyce, dono de um passado complicado, muito bem explorado e explicitado pelo roteiro da série. No meio de tantas personagens, a história dá conta de relacioná-los de maneira orgânica, apresentando cada um à sua maneira e a seu tempo, deixando ainda espaço para críticas rápidas, mas contundentes (“não sei se meus pais se amam, minha mãe se casou jovem, meu pai vinha de boa família, tinha dinheiro…”“querida, devemos confiar neles, é o nosso governo, eles só querem nosso bem”).

4

E se o elenco apresenta-se tão afinado, a história em si dará conta do restante ao atar tudo aquilo que um verdadeiro fã das narrativas oitentistas mais gosta em um mesmo nó: monstrengo que escapa do laboratório, cientistas fazendo pesquisas ultra-secretas, o grupo nerd que resolve investigar por conta, a briga tão esperada entre o mocinho e o rival babaca e por aí vai. Ainda há fôlego para referências imagéticas? Claro. A filha loirinha e caçula do casal Wheeler aproximando-se da parede, quase a tocando, lembrando a cena mais icônica de Poltergeist: o fenômeno (Poltergeist, 1982); Joyce e Jim entrando no mundo paralelo, ou no “mundo invertido”, descobrindo ovos gigantes à la Alien, o oitavo passageiro (Alien, 1979) e, por quê não?, assim como em Prometheus (idem, 2012) também. Sem contar a telecinese digna de uma Carrie, a estranha (Carrie, 1976), e tantas outras que lembram as mais horripilantes e, por consequência, melhores histórias de um Stephen King em seu melhor fôlego (saudades desse Stephen King…). Já está bom? Ainda não. Planos focando aquele personagem se escondendo do monstrengo vão te lembrar aquele Steven Spielberg aventuresco de Jurassic Park: o parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1993) que só recobrou seu fôlego no ótimo As aventuras de Tintim (The adventures of tintim, 2011); a trilha sonora, toda composta em sintetizadores que gritam anos 80, vão te dar arrepios ao lembrar do tema de John Carpenter para Halloween: a noite do terror (Halloween, 1978), além de estabelecer o clima logo na abertura, talvez a homenagem mais escancarada à década, com suas letras em neon vermelho e pequenos riscos de estática passando pela tela, como uma boa e velha TV que um dia foi responsável por formar gerações aficcionadas por jogos do Atari e embasbacadas com os efeitos mais mirabolantes do cinema proporcionados por aquele VHS alugado na locadora da esquina.

5

Se aliar uma história que consegue abranger tantas referências e modelos de personagens e histórias com uma boa produção parecia um artigo de luxo até tempos atrás, a Netflix parece provar que não é só possível, como muito rentável. Vamos esperar por mais temporadas de Stranger things? Se for para manter a qualidade irretocável desta, vamos sim, com muito afinco. A esperança, inclusive, é obversar que a empresa preza pela qualidade de suas séries – não à toa, recebeu mais de 50 indicações ao Emmy deste ano. Preparem-se: a festa nerd está apenas começando.

Pôster

Pôster: Netflix, 2016

Stranger things, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Jessie Nickson-Lopez, Justin Doble, Paul Dichter, Jessica Mecklenburg, Alison Tatlock; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Ross Partridge.