Filmes

Nasce uma estrela

Em dois momentos calorosos de Nasce uma estrela (A star is born, 2018), Ally, a protagonista do longa, parte para a briga. No primeiro, ao tentar defender a privacidade de um rapaz que acabou de conhecer; no segundo, contra esse mesmo rapaz, mas agora porque ambos se encontram casados e, em um certo nível, se odeiam. Essas duas cenas têm, tirando os óbvios momentos musicais – que também são muito fortes (porém não todos, é preciso enfatizar) -, um enorme potencial para a história do filme. Ou teriam, pois são apenas duas parcas faíscas logo descartadas pelos roteiristas.

Talvez esse descuido seja resultado de uma história que já passou por diversas versões na própria Hollywood. O roteiro desse reconto mais recente, por exemplo, baseia-se no roteiro de 1976 que, por sua vez, inspira-se no de 1954. Chega a ser levemente vergonhoso saber que uma história tão requentada ainda pode ser contada mais uma vez, afinal, pouquíssimas pessoas aturam café velho colocado novamente no fogo para uma tentativa pífia de agradar o paladar de alguém. No entanto, dependendo do tratamento dado para a história e como ela é conduzida por seu diretor, é possível acompanhar um remake no mínimo respeitoso à obra original (ou, aqui, às obras). Não é o caso.

3

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Não que o ator Bradley Cooper seja incompetente. Sabemos que ele não é. Como ator, pelo menos, cumpre seu papel. Não é o melhor e mais empolgante ator do mundo, mas entrega um Jack honesto. Jack, aliás, é um personagem que cambaleia entre o clássico alcoólatra irrecuperável e o ultrarromântico idealizado: ora se entrega ao copo de bebida ou à cocaína quando percebe que, mais uma vez, a vida lhe escapa entre os dedos, ora trata a mulher que literalmente acabou de conhecer como a principal musa de sua vida. Claro que, para uma audiência no geral, o romance que se inicia entre ele e Ally é algo, digamos, “bonito” de se ver, já que conta com piadinhas leves sobre anatomia facial da moça (uma piada que obviamente vai se tornar bordão ao longo do filme), troca de olhares intensos e todos os clichês possíveis de comédia romântica para acompanhar.

Mas se analisarmos com cuidado o desenvolvimento da própria narrativa e como esses personagens se movem nela e, mais ainda, como eles se expandem nela, o buraco começa a ficar mais embaixo. Isso porque tudo parece, ao mesmo tempo e estranhamente, rápido e lento demais. Explico: o filme tem dolorosas, arrastadas e tediosas 2h16 de duração e, ainda assim, toda a sequência de acontecimentos parece se dar de maneira muito rápida e artificial. Em breves momentos, conhecemos Jack, para logo depois conhecermos Ally, para logo depois sabermos que ela canta magnificamente bem, para logo depois vermos os dois se encontrando, para logo depois ambos se apaixonarem perdidamente e por aí vai. Um tédio sem fim.

2

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Porém, existe a música salpicada nesse marasmo todo. E aí não há escapatória, porque de maneira muito esperta a produção do longa escalou nada menos que Lady Gaga para o papel de Ally. E mesmo que o público não goste do estilo musical da cantora, é inconcebível esse mesmo público não reconhecer nela uma baita cantora – não só talentosa, como verdadeiramente artística. Suas músicas, sua interpretação e suas nuances vocálicas são respiros muito bem-vindas durante a projeção. Momentaneamente saímos da chatice sem fim de um roteiro magro sobre um cantor alcoólatra que não define mais a realidade de sua realidade e sua repentina paixão sem medidas por uma cantora talentosa, e é o que salva.

No entanto, a estrela principal da obra não é a personagem Ally. É, em suma, sua intérprete, Lady Gaga. Não apenas pela potência de sua voz, sua interpretação impecável como verdadeira cantora, mas porque o que vemos na tela pode não ser apenas uma ficção que está no processo de diversas versões desde os anos 50, e sim a história da própria Gaga, resguardadas as devidas diferenças. Temos ali uma desconhecida que trabalha naquilo que não gosta, mas tenta se inserir no mundo da música de alguma forma. Quando é descoberta por um produtor, passa a se vender para um pop genérico, insosso e desesperador de acompanhar. Inclusive, talvez esse momento seja o maior furo do roteiro de Nasce uma estrela: se no início do filme Ally faz questão de mostrar seu descontentamento com aqueles que comandam a indústria da música – os homens, é claro -, logo depois ela mesma vai se render a um homem que a manipula de diversas formas através da maneira, talvez, mais sacana de se manipular alguém: a passivo-agressiva. É com esses deslizes que o filme vai perdendo as próprias tentativas de criar personagens marcantes. Ao fim, eles parecem planos feito herói e mocinha de novela das sete.

1

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Se a intenção de A star is born era ser um filme musical, podemos dizer que foi razoavelmente bem sucedido – mas a direção nada criativa de Bradley Cooper nesse sentido não ajuda a trazer brilhantismo para os números musicais. Se a intenção era ser um romance, mirou no romântico clássico, acertou o folhetim barato de revista erótica de banca, uma coisa meio Sabrina. Se a intenção era ser um filme com toques de comédia, devemos admitir que faz algumas tentativas com bons resultados, mas que se perdem no melodrama grudento da maior parte do longa. Por fim, se a intenção era fazer sucesso, tristemente tudo isso que critiquei antes será, sem dúvida alguma, elementos prontos para alavancar a bilheteria do filme. Afinal, é um longa-metragem estrelando Lady Gaga e Bradley Cooper, com muito romance, comédia, drama e um toque de melancolia sem-vergonha. Ah, tem também uma morte pra fazer todo mundo chorar. Pode ser dela, pode ser dele, pode ser do cachorro. Qualquer uma vai fazer o seu amigo vender o filme para você dizendo que foi um filme “lindo, maravilhoso, me fez chorar muito”. Mas não se engane. É um filme raso. Bem raso. Talvez seja por isso que a própria Lady Gaga canta uma música chamada “Shallow”.

pôster

Pôster: InSync Plus, 2018

A star is born, dirigido por: Bradley Cooper; escrito por: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters (baseado nos roteiros de Moss Hart, de 1954, e de John Gregory Dunne, Joan Didion e Frank Pierson, de 1976 – cujas histórias são baseadas numa história de William Wellman e Robert Carson).

Com: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot, Anthony Ramos, Rafi Gavron, Andrew Dice Clay.

Anúncios
Padrão
Livros

“It: a coisa”, de Stephen King

Tive uma relação complicada com a considerada obra-prima de Stephen King. Comecei a ler A coisa em dezembro de 2012, numa horrível edição pocket em inglês. Comprei o livro, na época, por dois motivos: para não deixar de treinar o contato com a língua e também para conhecer o tão comentado livro. Além disso, Stephen King foi um dos autores que me introduziram ao hábito da leitura, no começo da adolescência. Na época, ganhei A hora do vampiro de presente da minha mãe (hoje, com outro nome, Salem), da velha coleção em capa dura que a Planeta deAgostini lançou, na época, nas bancas – e bem depois fui me tocar que eram edições horrorosas, com uma diagramação terrível, letra pequena, espaçamento menor ainda. O fato é que me apaixonei pela narrativa de King, e isso ainda porque não era nem o melhor livro dele.

Um tempo depois, ganhei, de aniversário, O cemitério. Apesar de ter gostado bastante de A coisa (como ainda vou explicar com mais detalhes ao longo desse texto), O cemitério foi, e ainda é, para mim, o melhor livro do mestre. Não apenas pelas reviravoltas ao longo da história, mas principalmente por seu clima de suspense que vai aumentando até transbordar-se no mais puro terror. A leitura deste foi decisiva para mim: eu gostava muito de Stephen King. No entanto, nessa minha primeira leitura de It, em 2012, minha perspectiva para o tipo de literatura que ele cria mudou radicalmente. Na época, me cansei da narrativa prolixa, dos inúmeros personagens, do desenvolvimento lento da ação. Resultado: abandonei A coisa na metade da história, lá pela página 500 e pouco. Alguns acharam loucura eu tomar essa decisão, já que estava com meio caminho andado em um livro tão grande. Mas não me arrependi.

Então, no fim de novembro do ano passado, entrei em uma FNAC e encontrei a edição nova do livro, em português, em promoção (tinha acabado de passar a Black Friday). Era uma promoção realmente muito boa para deixar passar. Comprei o tijolão prometendo a mim mesmo que daria uma segunda chance à história e que leria de uma vez só, sem me deixar levar pela tentação de abandoná-la no meio do caminho novamente. Eu realmente não sei o que funcionou melhor: a promessa, a determinação ou a promoção; apenas sei que passei dezembro lendo It: a coisa, revisitando a fictícia Derry e seus habitantes, me juntando novamente ao Clube dos Otários e me emocionando com seus medos, dores e sacrifícios.

file_000

Doar-se

Antes de mais nada, é preciso ter claro em mente que dedicar-se a uma leitura como essa de It não é um processo tranquilo. Mesmo que você se apegue bastante aos personagens e à narrativa em si, mesmo que você se habitue ao estilo do autor, mesmo que você passe os dias curioso para saber o que vai acontecer nas próximas páginas, ler um calhamaço é um teste constante de algo que cada vez menos temos (ou cada vez menos temos oportunidade de desenvolver): paciência. Se você se entedia facilmente com filmes longos, passeios tranquilos demais e ambientes silenciosos, fazer leituras de livros que tenham mais de mil páginas não será muito sua praia. Porém, é sempre possível achar uma exceção, mesmo que leituras demoradas não façam seu estilo; ou, em outros casos, você pode até não se importar com a quantidade de páginas de um livro – desde que ele seja um bom livro -, e mesmo assim não curtir a história ou o estilo do autor (que foi o meu caso, em 2012).

Bem, se mesmo assim você estiver disposto a passar uma quinzena ou até um mês diante das páginas de A coisa, saiba que, de diversas maneiras, sua dedicação será recompensada. O livro é realmente muito bom como a maioria alega. E sim, ele pode ser considerado a obra-prima de Stephen King (digo isso num sentido geral, da opinião pública e especializada, pois por mim mesmo ainda não posso afirmar por completo, já que não li todas as obras dele para atestar que It é realmente a melhor). Os motivos para que eu afirme tudo isso são muitos, mas creio que o principal vem de um detalhe: o livro não é propriamente de terror, como todos pensam quando leem sobre. Ele é mais um encontro de diversos gêneros literários, como se King desejasse incluir, na mesma história, tudo o que ele havia tentado antes e deu certo – e, em entrevistas, o autor afirmou que sua vontade foi exatamente essa. Claro que A coisa é repleto de cenas de horror, causando suspense, medo, terror e até asco, em alguns momentos (mais sobre isso daqui a pouco). Mas iniciar sua leitura esperando que seja apenas isso será um tiro no próprio pé.

file_001

Pennywise

Após concluir a leitura, algo ficou uns dias girando na minha cabeça. O sucesso de Stephen King vem não apenas do apelo popular de suas obras, mas como ele usa desse artifício para ir um nível mais abaixo, mais profundo. Pensei exatamente nesse ponto porque uma figura que sempre volta à minha mente quando relembro a leitura de It é, como esperado, o palhaço Pennywise. É interessante porque, para atrair suas vítimas, o ser (acho que esse termo é o que melhor o, ou a, define) conhecido como Coisa toma a forma de um palhaço aparentemente gentil. Depois de refletir um pouco sobre isso, cheguei à conclusão de que aí está o que poderíamos chamar de genialidade – ou, se não quisermos exagerar tanto, esperteza – de Stephen King: ele se apropria de uma figura popular (o palhaço) como símbolo para toda uma alegoria que irá permear os cantos mais obscuros e os mais óbvios da história. Pensem bem: mesmo quem não tem medo de palhaços, pode considerá-los criaturas assustadoras, macabras até. Tendo isso, é possível um mundo de horrores prontos para serem degustados por leitores ávidos em busca de terror, seja ele sutil ou escatológico. E It: a coisa é uma bandeja completa de terrores.

Sim, terrores. A figura do palhaço, que se desmembra em diversas outras (o Lobisomem, o Leproso, a Múmia, etc), começa a alimentar os medos de cada personagem da história, e esses medos terão níveis de intensidade diferentes, gerando, por consequência, cenas que vão desde o mais barato susto até a concretização de algo completamente nojento. Além disso, o terror não reside apenas em Pennywise. Ele é, na verdade, a concretização dos medos das crianças – e, mais tarde, de suas versões adultas -, medos esses que vêm de suas próprias vidas. Ben, o gordo; Bill, o gago; Richie, o incoveniente; Eddie, o hipocondríaco; Stan, o judeu; Mike, o negro; Bev, a mulher. Cada um possui um “defeito” apontado com dedos vigorosos pela sociedade da época (mas que cai como uma luva para a sociedade de hoje também), um prato completo para que a Coisa entre em ação, utilizando desses “defeitos” para atingir cada personagem. E consegue, é claro. Assim, A coisa não é um livro de terror que o coloca em primeira instância para justificar sua história. Ele é a justificativa da história, uma inversão primorosa e que encaixa de maneira orgânica ao enredo que, no final das contas, possui a estrutura de um romance de formação.

file_002

O verdadeiro horror

O que nos leva ao principal do livro: aqui, o narrador de King vai esmiuçar a história de cada personagem, desde a sua infância até a fase adulta (a pior). É por isso que ler It é doar-se, pois o tempo dispensado para esse detalhamento é grande, muito grande, justificando suas 1102 páginas de história. Alguns, em um primeiro momento, poderão ter a impressão de que isso é apenas encheção de linguiça (eu mesmo, em 2012, pensei assim), mas todas as coisas contadas ao longo de capítulos super extensos e interlúdios não muito menores estão ali por uma razão. Elas acabam se ligando a alguma informação lá na frente, é só aguardar. E aquelas que não se ligam de imediato, tem uma correlação mais tênue, quase temática.

Nessa enxurrada de detalhes, o narrador vai e volta no tempo, colocando lado a lado as diferenças e semelhanças extenuantes das crianças e de seus eus adultos. Com isso, o leitor passa a observar que, mesmo crescidos, os personagens carregam ainda muito de si da infância, muitas das vezes inconscientemente (como Eddie e seu casamento, Bev e seu casamento). E o estreitamento das duas linhas temporais, quase se juntando na parte final, fazendo com que a voz do presente se ligue (literalmente) à voz do passado, deixa essa intenção mais do que clara. E o amargo que o resultado dessa comparação no tempo traz é muito indigesto. Triste, melancólico. Vazio. Mas importante. Trivial. É com ele que o leitor vai perceber que o principal terror de It: a coisa não são seus monstros, seus pesadelos, suas cenas grotescas. É o fato de que, por mais que sua infância seja feliz, divertida, idílica, você cresce. Você, em algum momento, se transforma em um adulto. Cheio de trabalho, preocupações, contas para pagar e angústias diárias para lidar. Esse, no fim das contas, é o verdadeiro horror.

file_003

A edição

Após a venda da Editora Objetiva para a Companhia das Letras, a obra de Stephen King passou a ser editada pelo selo Suma de Letras. Não que isso seja ruim, muito pelo contrário. Abandonados ao marasmo de edições tenebrosas da época da Objetiva, os livros de King eram publicados com folha branca, letra miúda e espaçamento horrível. Uma tortura para qualquer leitor. Agora, alguns upgrades necessários foram feitos.

Folha amarelada, fonte grande e espaçamento confortável para os olhos de qualquer mortal. E apesar do calhamaço que A coisa é, a gramatura do papel colabora para um peso razoável – não digo que é um livro leve, mas apesar de sua grande quantidade de páginas, ele surpreende por não ser tão pesado. Sem contar, é claro, toda a parte gráfica das capas, completamente reformuladas em relação às edições antigas, que possuíam a mesma identidade visual no nome do autor e títulos. Agora, cada obra possui seu estilo independente.

Algo que pode deixar os mais exigentes felizes é sua revisão. Realizada por Rita Godoy e Ana Kronemberger, creio ter encontrado, no máximo, 10 erros (e completamente compreensíveis, algo como faltar uma letra ou duas palavras, na sequência, invertidas) ao longo de todo o livro. É bem considerável, convenhamos. Além, é claro, da tradução de Regiane Winarski, que realizou algumas mudanças em relação à tradução da edição antiga (como manter, sabiamente, o nome de Pennywise no original – na outra edição era Parcimonioso) e que manteve o estilo de King de maneira competente.

» Uma curiosidade: o livro demorou 4 anos para ser escrito, de 9 setembro de 1981 a 28 de dezembro de 1984.

» Procurando vídeos e textos sobre o livro após ter terminado minha leitura, encontrei esse (que não é o melhor do mundo, apesar de alguns apontamentos relevantes) em que há a indicação de um artigo extremamente bom sobre A coisa (mas que, infelizmente, está em inglês), e que levanta questões e discussões bem boas sobre a história e todo o entorno de sua escrita e publicação – além de uma análise sobre a cena, talvez, mais polêmica de It, envolvendo a menina Beverly. Ah, devo avisar que este texto linkado está repleto de spoilers, então leia por sua conta e risco.

Capa_It - A coisa.indd

Capa: Rodrigo Rodrigues / Suma de Letras / Editora Objetiva, 2014

It, de Stephen King. Publicado pela Suma de Letras.

Tradução de Regiane Winarski, 1104 páginas.

Padrão
Livros

A Dança dos Dragões

Nota preliminar acerca de possíveis SPOILERS: para todos aqueles que acompanham, mesmo que superficialmente, o furor que As Crônicas de Gelo e Fogo se tornaram ao longo dos anos – principalmente com a popularização da série televisiva Game of Thrones -, não é novidade encontrar revelações importantes e cruciais sobre o enredo dessa história épica e interminável em qualquer canto da Internet. Portanto, não é possível escrever uma resenha a contento sobre o último livro publicado por George R. R. Martin sem comentar passagens que provavelmente você ainda não sabe, caso ainda esteja perambulando por Westeros.

Dado o aviso, continue lendo o texto por sua conta e risco.

Se o ápice da megalomaníaca série criada pelo escritor americano George R. R. Martin acontece em seu terceiro volume, A Tormenta de Espadas, e, logo depois, vem o marasmo de narração em O Festim dos Corvos, este quinto volume de As Crônicas de Gelo e Fogo surge como uma promessa distante no horizonte para os fãs do jogo de tronos mais sanguinário já visto na literatura fantástica como aquele que traria a emoção e o roer de unhas constantes causados pela tensão crescente desde quando Lorde Eddard Stark preconizou que o inverno estava chegando, lá no primeiro livro. A impressão final, porém, não é essa.

Talvez seja por seu tamanho – a edição brasileira tem mais de 800 páginas -, talvez seja justamente pelo desenrolar dos fatos e consequências, A Dança dos Dragões é sim uma narrativa mais dinâmica e propensa a surpresas do que a sua anterior: O Festim dos Corvos, focando a atenção em personagens menos interessantes, apesar de ter ali pontos de vistas novos na série, como os de Jamie e Cersei Lannister, acabou diminuindo a velocidade da narração mostrada em A Tormenta de Espadas, apresentando acontecimentos necessários à história, mas desinteressantes em sua maioria. Mas estendendo tanto o enredo neste quinto volume, George Martin mais uma vez deixa as reviravoltas e segredos revelados para as últimas páginas, preparando (ou seria torturando?) seus leitores, em busca de alguma ação memorável, durante centenas de páginas, até finalmente dar alguma centelha do que a série um dia mostrou: seu poder de desarmar o leitor e cuspir em sua cara, provando que nós, aqueles que acompanham as peripécias de Westeros, realmente não fazemos a menor ideia de quem estará vivo até o fim de cada livro.

O projeto do autor, no entanto, era diferente. Quando finalizou o terceiro livro, George Martin iniciou a escrita do seguinte e, depois de um bom tempo na labuta, percebeu que a história tinha criado tentálucos gigantescos demais para caber em um único volume. Após uma conversa decisiva com seus editores – que enfatizaram a impossibilidade de publicar um livro tão extenso -, o escritor botou um ponto final no lenga-lenga e concluiu que a melhor decisão seria dividir a história em duas: portanto, o quarto livro focaria em personagens alocados em Porto Real e seus arredores, além de Dorne, e o quinto volume contaria, simultaneamente ao anterior, o que acontecera na Muralha, com Jon Snow, e na Baía dos Escravos, com Daenerys Targaryen; além, é claro, de mostrar para onde fora e o que acontecera com Tyrion Lannister, um dos personagens mais cultuados entre os fãs dos livros e de Game of Thrones. Foi nessa época, então, que os fãs mais ardilosos criaram a fama de velho-lerdo-e-torturador para o autor, incriminando-o por demorar tanto em sua escrita e acusando-o de não se importar com a espera longuíssima dos fãs pelo próximo livro d’As Crônicas. George Martin seguiu com sua decisão e, após seis anos a publicação de O Festim dos Corvos, publicou finalmente A Dance with Dragons.

Se o livro atende às expectativas? Provavelmente sim. Com o seu estilo de escrita detalhado, George Martin não se acanha em contar para o leitor o que cada personagem vai comer naquele determinado dia. Então, como nos livros anteriores, as descrições longas e detalhadas de cada banquete continuam da mesma forma, assim como a composição de cenários, mostrando o que há em cada canto de uma construção ou qual é o tipo de vegetação encontrada em determinado local onde um personagem acaba caindo. A ação, porém, está de volta por mais vezes, superando a paradeira de O Festim dos Corvos, mas devendo para o turbilhão de acontecimentos e choques de A Tormenta de Espadas. Para chegarmos em um momento como esses, é preciso passar por muitos capítulos, a maioria deles apresentando finais comuns e, alguns, até desestimulantes. Não que o livro deveria ser uma sucessão sem fim de traições, guerras, assassinatos e vira-casacas sendo revelados a cada segundo e, sim, é preciso também contar quais são os caminhos percorridos por cada núcleo de personagens antes de alguma consequência crucial acontecer, ou leríamos apenas uma narração de ações prontas, e não preparadas cuidadosamente ao longo da história. O problema principal de A Dança dos Dragões não é esse, mas sua extensão. Como exemplo, há os capítulos reservados para Arya Stark. Ela passa por diversos testes e situações completamente desinteressantes. Quando se termina o livro, a indagação vem: será que tudo isso lido será importante lá na frente? Ou será que George Martin apenas encheu linguiça pra dar volume?

Algo parecido ocorre com outros personagens: apesar de apresentarem situações importantes e visivelmente cruciais para o desenvolvimento do enredo de cada um, os capítulos de Tyrion, por exemplo, mostram como ele ainda é um dos personagens (senão o mais, depois de Tywin Lannister, que os deuses o tenham) mais inteligentes na série, precisando apenas de sua lábia para conseguir aquilo que os demais precisam conquistar com espadas e sangue. Apesar disso, o leitor precisa passar por 800 páginas e ainda se indagar, depois, se muito do que foi dito sobre o anão foi necessário para o desfecho no final das contas.

Mas, se A Dança dos Dragões possui virtudes, uma delas com certeza é Daenerys Targaryen. Forte, destemida e benevolente, a mãe dos dragões mostra mais uma vez que não está para brincadeiras e prova, a cada capítulo, que está altamente determinada a conquistar os Sete Reinos. Outro ponto interessante deste volume é que ele se dedica a mostrar os bastidores de personagens menores, como os repulsivos Bolton e os lordes de Porto Branco, outro veio menor da história que poderá trazer surpresas interessantes nos próximos livros. Para aqueles curiosos em saber o lado da história da feiticeira vermelha Melisandre, A Dance with Dragons também separa um tempo para demonstrar a inteligência e a perspicácia da personagem, além de revelar segredos pequenos, mas interessantes, sobre ela, demonstrando que nem tudo o que se vê é realmente mágico.

Para o próximo livro, como sempre, a expectativa vai crescendo com o tempo de escrita de George R. R. Martin. Ao fim de A Dança dos Dragões, o leitor vai contar – pela quinta vez na série – com um final repleto de pontas soltas, que poderão ser amarradas nos acontecimentos do ainda inédito Os Ventos do Inverno. Ou não, se George Martin decidir estender mais ainda o enredo e torturar mais um pouco aqueles que ousam se aventurar por Westeros e todos os outros lugares criados por esse brilhante autor, mas que, com o tempo, fica cada vez mais ambicioso e megalomaníaco por quantidade de páginas, detalhes e história. É melhor sentar para não se cansar esperando.

Um adendo: a LeYa Brasil decidiu, a partir deste livro, mudar a tradução. Até O Festim dos Corvos, a editora havia comprado os direitos da ótima tradução do português Jorge Candeias. Agora, porém, o quinto e os livros restantes da série estão nas mãos de Márcia Blasques. É preciso avisar que sua tradução é imensamente inferior à de Candeias, demonstrando que a tradutora não teve o cuidado de conciliar os termos do original com os de nosso português, muitas vezes afirmando, com as palavras de George Martin, que existem cortinas persianas em Westeros, por exemplo, conferindo uma irrealidade para o mundo fictício do livro. A revisão da editora, inclusive, é péssima: muitos erros de digitação, com letras trocadas e falas de personagens que deveriam ter sido jogadas para baixo, mas ficaram em cima, junto com outra fala (confundindo a ordem do diálogo e, consequentemente, o entendimento do leitor) são apenas alguns dos vários exemplos encontrados nas 800 páginas do livro. Mais dedicação e profissionalismo nos próximos volumes não seria uma má ideia para a tradutora e para a editora. Os leitores agradecerão.

Capa: Marc Simonetti

Capa: Marc Simonetti

A Dance with Dragons, de George R. R. Martin. Publicado pela LeYa.

Tradução de Márcia Blasques, 870 páginas.

Padrão
Filmes

Ela

Em 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968), o computador HAL 9000 era inteligente e avançado em sua tecnologia o bastante para realizar julgamentos e cometer crimes. O autor Arthur C. Clarke, inclusive, contou em entrevista que discordava de Stanley Kubrick quanto à capacidade de HAL fazer leitura labial – enquanto ele não enxergava tal possibilidade para os computadores, mesmo no futuro, o visionário diretor continuou a insistir na ideia até incluir tal cena no roteiro do filme, mostrando que HAL conseguia saber o que os astronautas andavam sussurrando uns aos outros em sua presença. “Stanley estava certo”, constata Clarke, rindo. Se lá nos idos dos anos 60, prevendo o que explodiria no final do século XX, início do XXI, Stanley Kubrick foi capaz de deixar plateias inteiras arrebatadas pelo roteiro intricado, pelos efeitos visuais vanguardistas e pela assustadora presença de HAL, hoje estamos diante de um filme bem diferente de 2001, mas que traz consigo um personagem parecido para mexer com as filosofias do espectador: Samantha.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Ganhador do Globo de Ouro de Melhor Roteiro e do Oscar de Melhor Roteiro Original, Ela (Her, 2013) nos faz refletir, em primeiro lugar, sobre nossa existência e as relações (amorosas, principalmente) que possuímos com as outras pessoas ao colocar o protagonista, Theodore (interpretado por Joaquim Phoenix), diante de uma situação inusitada: ao comprar um sistema operacional inteligente e intuitivo, o escritor se apaixona por ele. É cômico observar como a ideia em si, separada de qualquer contexto, é de uma estranheza e ridicularização simples. Mas é compreensível ver como Theodore vai se perdendo cada vez mais na voz doce de Samantha, inteligente o bastante para fazê-lo contente com as coisas exatas, levá-lo para lugares ideais e ajudá-lo em qualquer situação, desde na revisão dos textos de seu trabalho, até na escolha do presente de aniversário da afilhada. Tendo como companhia a voz de uma mulher que o auxilia em qualquer situação e sussurra, em seu ouvido, o quanto ele a faz feliz, resultaria, no mínimo, em uma felicidade instantânea para o escritor que ainda se encontra em processo de divórcio da única mulher que verdadeiramente amou. E comparar a diferença entre a voz modelada de Scarlett Johansson, que dá vida à Samantha, e a frieza monocórdia de HAL é constatar como a evolução tecnológica pode muito bem ocorrer a ponto de diluir os limites entre o que é humano e o que é máquina.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Se a relação do escritor com Samantha é algo ideal devido à intuição codificada do sistema, que se expande conforme Theodore vai realizando pedidos e tarefas, era também de se esperar que essa relação amorosa sempre se mantivesse em um bom estado. Esse bem-estar hipotético seria uma expectativa inversamente proporcional ao relacionamento passado de Theodore, que se apaixonou por Catherine com a mesma intensidade que tudo ruiu de um momento para o outro, conduzindo-o para a solidão e depressão. E, mesmo quando Samantha aconselha Theodore para que este aceite a sugestão de um encontro com uma amiga de um amigo, o desastre impera a partir do momento em que a exigência de relacionamento sério surge e o protagonista, ainda perdido em seus sentimentos, sente que a única certeza de se sair bem sucedido é em sua própria solidão. Essa leva de acontecimentos e lembranças serve para reforçar ainda mais os laços que o personagem de Phoenix cria com Samantha, levando-o a assumir o relacionamento publicamente e finalmente se sentir feliz e realizado por estar com alguém – mesmo que esse alguém não exista fisicamente e, ainda mais, seja gerado por linhas de códigos escritas por programadores visando o bem-estar de um público-alvo através de um produto. Se for deprimente analisar por esse lado, Theodore não perde suas energias tentando encontrar sentido racional em algo que ele sente de maneira genuína e emotiva, transformando tudo o que sente por Samantha em algo simples e puro.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Com um roteiro que se baseia nos diálogos entre Theodore e Samantha para construir um clima e um ambiente de romance que não soam piegas, além de jogar com imagens em flashback que apenas sugerem – não precisando, assim, de diálogos -, o diretor Spike Jonze cria uma obra que discute uma das relações mais debatidas por poetas, escritores e artistas em todos os tempos dentro da era em que vivemos, a que preza pela velocidade e evolução das tecnologias e que exige, a cada segundo, mais informações sobre cada vez mais coisas. A principal questão que se evoca em Ela não é o fato de Theodore estar apaixonado por uma máquina, mas o por que dele ter se apaixonado por algo que não é humano (algo que se expressa através de certa indignação por sua ex-mulher em determinada cena). Por que Samantha é capaz de fazê-lo sorrir feito bobo e se sentir vivo enquanto um encontro com uma moça aparentemente legal e interessante o faz se sentir inseguro, deslocado e confuso? E, quando a primeira desilusão com o sistema operacional acontece, é interessante ver como Jonze brinca com a questão de que seria fácil para Theodore “se livrar” daquele relacionamento: quando o protagonista discute com Samantha, o diretor dá close em um bueiro fumegante, quase contando para o espectador o real desejo de Theodore naquele momento, mesmo que este seja passional e efêmero.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

O que também encanta em Ela é sua fotografia: prezando por ambientes banhados pela luz solar, a lente de Spike Jonze sempre está contra o sol ou, quando o contrário, mostrando o protagonista envolto em uma escuridão azulada. É irônico notar, a partir daí, como a casa de Theodore é confortável, espaçosa e arejada, assim como sua mesa de trabalho lhe dá liberdade para criar, por exemplo; todos os ambientes são propícios para que o protagonista se sinta bem e realizado, mas nada disso é relevante enquanto Theodore não encontrar uma parceira ou, mais ainda, enquanto ele não se encontrar. E a ironia torna-se maior quando é acompanhada pela trilha sonora recheada de pianos e cordas. “Tocar música melancólica“, aliás, é um dos primeiros comandos que ouvimos Theodore dizer para seu computador portátil antes de comprar Samantha. Depois, ela mesma faz questão de mostrar as canções que compõe, dizendo se inspirar na relação de ambos.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2013

Ela, então, merece os louros pela inventividade ao retratar uma relação amorosa. É com certa preocupação, porém, que podemos ver essa história de amor escrita por Spike Jonze. O diretor reúne ali os elementos necessários para que a reflexão ocorra depois da sessão. Entre cenas cômicas e situação embaraçosas, o público acaba com um gosto amargo embaixo da língua quando a ficha verdadeiramente cai. Pois a probabilidade de relacionamentos com sistemas operacionais acontecer é grande. E a solidão advinda da já escassa comunicação pessoal entre nós pode contribuir ainda mais para a realização dessa “ficção” bem orquestrada pela câmera e texto de Spike Jonze, pela voz cativante de Scarlett Johansson e pelos olhos melancólicos de Joaquim Phoenix. É ir procurar lã e voltar tosqueado.

Pôster: aSquared Design Group, 2013

Pôster: aSquared Design Group, 2013

Her, dirigido e escrito por: Spike Jonze.

Com: Joaquim Phoenix, Scarlett Johansson, Rooney Mara, Amy Adams, Chris Pratt.

Padrão
Livros

A Menina que Brincava com Fogo

Por um lado, o fato do sueco Stieg Larsson ter falecido logo depois de entregar os originais de sua trilogia literária é assustadoramente misterioso. Por outro, sendo obra do destino ou de uma mórbida coincidência, Larsson não pôde, obviamente, usufruir do sucesso das histórias que criou, contando aí os três livros publicados em todo o mundo – e sendo sucesso de vendas – e as adaptações ao cinema, também com sucesso de bilheteria. Dizem as bocas aleatórias que o escritor tinha planos de continuar as tramas envolvendo os personagens que ganharam a atenção de um público vasto e diversificado, já possuindo um quarto volume quase totalmente escrito. Recentemente, inclusive, a editora sueca revelou que o quarto livro será escrito por outras mãos. Mas isso é pano pra mangas diferentes.

Picuinhas e discussões judiciais à parte, o sucesso da trilogia publicada e autorizada pelo autor vem, primordialmente, de suas tramas policiais e aventurescas que impedem a separação do leitor de seu exemplar; mais – o sucesso das histórias está sobre os ombros de uma personagem: Lisbeth Salander. Complicado classificá-la como uma heroína ou anti-heroína, Lisbeth consegue chamar a atenção do leitor não por possuir as características clássicas de um protagonista de romance, mas por ser alguém à margem de uma sociedade moderna que preza pela sociabilidade e etiqueta das pessoas em qualquer situação. Ela não faz questão, não se importa e não se preocupa com os seres humanos que a cercam, sabendo muito bem se virar em qualquer tipo de situação e, de quebra, possuindo conhecimentos precisos sobre informática. Esse conjunto desconexo de qualidades faz de Lisbeth Salander um ponto que se destaca instantaneamente no romance. E Larsson, sabendo da personagem em potencial que tem em mãos, faz deste segundo capítulo da trilogia Millennium um livro dedicado a ela, vasculhando seu passado e, com isso, usando-o como estopim para os acontecimentos que se desenrolam pelas três partes e trinta e dois capítulos.

O sueco, apesar de ser um bom narrador – ele sabe como contar uma história, envolver seu leitor e ir dando pistas homeopáticas ao longo do livro -, não é um escritor exímio. Mas, diferente de autores que fazem uso de uma fórmula específica para todas as histórias que cria, Larsson também sabe criar uma trama que não soa repetitiva, deixando as relações entre o primeiro livro e este segundo apenas para os personagens principais (afinal, a maioria ainda participa aqui) e suas ligações básicas: Lisbeth, claro, conhece Mikael Blomkvist por um motivo que está no volume anterior e etc.  Os pecados que Stieg Larsson comete ao longo de sua narração são em detalhes: em alguns momentos, soa verborrágico demais, fazendo explicações um tanto óbvias em cenas que não exigem atenção nesse ponto e, em outros, faz questão de relembrar o leitor o porque de determinados personagens se conhecerem e qual é a relação entre ambos, parecendo ignorar que quem está acompanhando o segundo capítulo da trilogia provavelmente se inteirou dos fatos existentes no anterior. São minúcias que ocorrem com frequência durante A Menina que Brincava com Fogo, mais concentradas nos primeiros capítulos e se espalhando conforme a história toma um ritmo maior.

Outro recurso bem abusado pelo autor são as interrupções que ocorrem ao longo dos capítulos. É uma escolha de narração que contribui para o tipo de história que Larsson conta, deixando pontas soltas a todo instante para que o leitor volte, movido pela curiosidade mórbida, e tente descobrir para qual rumo a trama será levada. Tal opção, porém, não funcionaria se a obra não tivesse um elenco de personagens variados, contando com os principais, esféricos, que permitem uma exploração maior – principalmente no campo psicológico -, e os demais, em maior número, que apesar de apresentarem uma configuração plana, servem de sopro para diversos momentos em que a trama cai em uma calmaria mais expositiva e / ou descritiva. Fragmentar a trama em interrupções sugestivas acaba culminando, no fim, em pontas soltas, com a possibilidade de retomá-las apenas no terceiro volume.

Já a edição publicada aqui no Brasil pela Companhia das Letras, apesar da versão econômica (capa sem orelhas e confeccionada com um material mais mole), preza por uma leitura confortável, apresentando uma diagramação espaçada e contando com fonte agradável e papel amarelado, não cansando os olhos, caso o leitor queira estender mais um pouco naquele capítulo crucial. O que pode deixar o leitor mais exigente e informado com o pé atrás, em um primeiro momento, é a tradução: a editora optou pela tradução da tradução – Dorothée de Bruchard verte para o português a versão francesa do livro. Mas, conforme se dá a leitura, fica claro que não há problemas de distanciamento exagerado do original em sueco, pois a narrativa em português possui fluência (além de não se encontrar problemas de revisão).

Deixando seu leitor mais a par dos segredos de Lisbeth Salander e colocando a protagonista como alvo principal dentro do olho do furacão que vai se revelando pouco a pouco, Stieg Larsson mostra fôlego suficiente para criar mais uma trama de mistérios, crimes e vinganças e ainda deixar um gancho para que diversos pontos se concluam em A Rainha do Castelo de Ar. O segundo volume da trilogia Millennium não está acima da qualidade da trama vista em Os Homens que Não Amavam as Mulheres, mas consegue se manter interessante, mesmo construindo um momento de transição entre os primeiros anos em que Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist se conhecem e se aproximam, e os próximos que virão, provavelmente com mais segredos e revelações chocantes para animar o leitor sedento por dramas, conflitos e sangue.

Capa: Retina 78

Capa: Retina 78

Flickan som lekte med elden, de Stieg Larsson. Publicado pela Companhia das Letras.

Tradução de Dorothée de Bruchard, 608 páginas.

Padrão
Filmes

A Espuma dos Dias

Assistir a um filme que utiliza efeitos especiais mecânicos e que faz questão de mostrar ao espectador que não está preocupado com uma verossimilhança correspondente ao mundo real é praticamente um choque para os dias de hoje. Nós, como público acostumado à capacidade de criar, através da computação gráfica, elementos fantásticos que Hollywood tem, sofremos um estranhamento muito grande quando assistimos a um filme como a nova obra de Michel Gondry.

A Espuma dos Dias é baseado no livro homônimo de Boris Vian, romance que conseguiu uma legião de fãs desde que foi publicado, principalmente entre os adolescentes. A propósito, a evolução a que os personagens principais do filme são submetidos é uma grande metáfora do amadurecimento que passamos quando saímos da adolescência e pisamos nos primeiros degraus da fase adulta: quando o apaixonado Colin descobre que vai precisar gastar muito dinheiro com o tratamento de sua esposa Chloé, pela primeira vez na vida ele vai procurar por um emprego. E, ironicamente, torna-se a pior fase de sua vida.

Imagem: StudioCanal, 2013

Imagem: StudioCanal, 2013

O filme conta a história de amor entre Colin e Chloé. Ele, um rapaz desajeitado e que estraga a única cantada que funcionaria com Chloé quando a conhece; ela, uma moça de semblante alegre e que vai se abrindo cada vez mais para o amor puro e doce que cresce quando se casa com Colin. No entanto, a história trata de mostrar que o que está suave e onírico no princípio, com o tempo as adversidades da vida a dois passam a obscurecer a relação, deteriorando pelas bordas e chegando ao centro do sentimento. É nesse momento que Colin precisa encarar as responsabilidades que até então não faziam parte de sua vida e, principalmente, tomar decisões difíceis que envolvem a pessoa que mais ama.

Gondry não teme a adapatação do livro de Vian, que moldou sua própria poética quando começou a trabalhar com cinema, como afirma o próprio diretor. Para quem não conhece a narrativa de Boris Vian, fica visível no filme de Gondry: é constante a brincadeira com as palavras e seus significados, sem contar o clima de desenho animado que impera desde o início do filme (as pernas alongadas, como se fossem de borracha, quando os persongens vão dançar, é um dos exemplos mais evidentes). É nesse sentido que o diretor prezou por efeitos mecânicos, que realmente existissem e dividissem a cena com os atores, como a realização de stop motion em diversas tomadas e o back projection em outras, emulando filmes de décadas passadas.

Imagem: StudioCanal, 2013

Imagem: StudioCanal, 2013

O mais interessante, porém, é ver como os espaços interiores e a utilização de variadas paletas de cores moldam o clima do longa. Em dado momento, o quarto de Colin e Chloé transforma-se em um cômodo arredondado; o apartamento do casal, conforme a doença pulmonar de Chloé se alastra, muta-se em um espaço sombrio, claustrofóbico, enclausurando-se em si mesmo. Outra metáfora brilhante é o vício que o amigo de Colin, Chick, possui: fissurado por um escritor de nome Jean-Sol Partre (um trocadilho espirituoso, diga-se de passagem), Chick passa os dias gastando seu raso dinheiro em livros e mais livros, chegando ao ponto de empobrecer e, mesmo assim, continuar sentindo a necessidade de consumir cada vez mais as palavras sem sentido do escritor esquisitão, situação que tem um desfecho tragicômico nas mãos da namorada de Chick, Alise.

É importante falar sobre a qualidade da atuação do trio principal: Romain Duris não ofusca as demais atuações, e sim divide a responsabilidade de carregar a história com a bela interpretação de Chloé que Audrey Tautou realiza e com a leve e engraçada representação de Omar Sy para o cozinheiro e faz-tudo Nicolas, alívio cômico em muitos momentos do filme. Gondry faz questão de centralizar seu filme nas atuações de cada um, acompanhando os atores com sua câmera inquieta e divertida e com a edição rápida e cartunesca. Tudo isso melhorado com uma trilha sonora única.

Imagem: StudioCanal, 2013

Imagem: StudioCanal, 2013

A Espuma dos Dias lembra, então, que ainda é possível realizar uma obra cinematográfica utilizando-se de boas atuações e traquinagens mecânicas. E que mesmo em uma situação alegre e confortável da vida, sempre haverá o lado preocupante e cheio de tristezas e incertezas. Não é à tôa que a fotografia do filme começa com um saturado bonito e, com o desenrolar da trama, passa pelo azul melancólico e, por fim, apresenta-nos um desfecho no solitário e desolado branco e preto.

Pôster: Le Cercle Noir

Pôster: Le Cercle Noir

L’écume des jours, dirigido por Michel Gondry; escrito por Michel Gondry, Luc Bossi (baseado na obra A Espuma dos Dias, de Boris Vian).

Com: Romain Duris, Audrey Tautou, Omar Sy, Gad Elmaleh, Aïssa Maïga, Charlotte Le Bon.

Padrão