Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2018

10º

Jogador Nº 1 (Ready Player One)

2018, dirigido por: Steven Spielberg

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Pôster: BO N D, 2018

Provavelmente não é o melhor filme do diretor que nos trouxe de volta dinossauros adormecidos há 65 milhões de anos ou conferiu camadas de realismo e comédia ao detetive mais topetudo – literalmente – que a Bélgica já inventou, mas se sua intenção é assistir a um filme blockbuster repleto de cenas de ação, inventividade e inúmeras referências aos anos 80 (contando com uma sequência primorosa que recria um dos clássicos de Stanley Kubrick), talvez Jogador Nº 1 seja sua opção mais segura para este ano. O filme vai sobreviver às décadas que virão e vai se tornar um clássico? Com o currículo de Steven Spielberg, muito possivelmente não, mas vale pela diversão e pelas risadas.

Halloween (Halloween)

2018, dirigido por: David Gordon Green

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Pôster: LA, 2018

Não fosse pelas inúmeras sequências e remakes já realizados, eu poderia aqui dizer que seria arriscado continuar a história de um já clássico cult dos filmes de terror. No entanto, o Halloween de 40 anos depois de seu original soa fresco, revigorante e – o mais importante aqui – assustador. Não assustador a ponto de deixar o espectador sem dormir durante uma semana, é claro, mas a tensão gerada por suas sequências de perseguição e o uso de steadycam não só lembram a criação de John Carpenter, como também apresenta às novas gerações o que um bom filme de serial killer pode mostrar de verdade. E diferentemente das sequências e refilmagens realizadas nas décadas passadas, este Halloween conta com a segurança de nada menos que sua própria scream queen Jamie Lee Curtis na produção, além do patrono John Carpenter. Arrepie-se mais uma vez com a famigerada trilha sonora clássica e o andar lento de Michael Myers

Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody)

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Pôster: WORKS ADV, 2018

2018, dirigido por: Bryan Singer

Bohemian Rhapsody pode se encaixar em vários gêneros fílmicos, pois vai desde uma biografia até o filme-pipoca. Emocionante, divertido e, em alguns momentos, também engraçado, a trajetória da banda Queen aqui retratada pode não se ater completamente aos fatos reais, mas faz uso dessa “licença poética” para aprimorar a dramatização do que foi a vida de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e John Deacon. Repleto de músicas da banda mais diversa do rock de todos os tempos, o filme ainda ousa – e consegue – recriar a antológica apresentação no Live Aid de maneira impecável. Era necessário? Não. Funcionou plenamente para a catarse do filme? Com toda a certeza.

Leia a resenha do filme aqui.

Missão: impossível – Efeito Fallout  (Mission: impossible – Fallout)

2018, dirigido por: Christopher McQuarrie

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Pôster: LA, 2018

Ser uma franquia de ação em plena atividade desde a metade dos anos 90 e continuar gerando milhões e milhões de bilheteria não é um feito a ser ignorado. Mesmo para aqueles que não são amantes dos filmes de ação praticamente sem roteiro e com direito a muitas explosões sem sentido (cof, cof, Michael Bay), Missão: impossível é irresistível. Apesar de alguns tropeços terem ocorrido, como no sofrível segundo capítulo, a série de filmes parece ter ganhado um novo e revigorado fôlego nas mãos de Christopher McQuarrie, responsável pelos roteiros e direção deste e do filme anterior. Claro, não seria possível encontrar-se no patamar atual se não fosse pelo sensacional Protocolo fantasma, de 2011, dirigido por Brad Bird, é bom lembrar. Porém, é em Efeito Fallout que talvez a série Missão: impossível atinge seu ápice. Não abandonando a fórmula de misturar ação, toques de humor e sequências de tirar o fôlego, o vigor do filme só se compara à entrega completa que seu protagonista veterano, Tom Cruise, faz do início ao fim.

A forma da água (The shape of water)

2017, dirigido por: Guillermo del Toro

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Pôster: MIDNIGHT OIL, 2017

Muita gente torceu o nariz para a última produção de Guillermo del Toro, talvez porque ela tenha sido ovacionada em praticamente todas as competições e premiações pelas quais passou. Seu apogeu, é claro, foi a consagração com os Oscar, principalmente, de Melhor Direção e Melhor Filme. Apesar de ter competido com o ótimo Três anúncios para um crimeA forma da água ser reconhecido como Melhor Filme pela Academia não foi um erro, a meu ver. Além de sua homenagem direta e indireta para a sétima arte, o filme do mexicano presta seu respeito também para as minorias. De maneira sutil e artística, A forma da água é uma ode aos desajustados. Ao apresentar uma mulher como protagonista, cuja melhor amiga é negra e o melhor amigo é gay, e que enfrenta um vilão homem, heterossexual e branco, os subtextos da história não podem e não devem ser ignorados. Isso tudo sem contar a extrema beleza – no sentido estético mesmo – com que nossos olhos são brindados com sua fotografia, seu design de produção e também seu figurino.

Três anúncios para um crime (Three billboards outside Ebbing, Missouri)

2017, dirigido por: Martin McDonagh

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Pôster: B O N D, 2017

Cru, cáustico e doloroso. Talvez sejam três palavras mais apropriadas para definir Três anúncios para um crime. Não apenas a motivação principal que leva Mildred, sua protagonista, a colocar três outdoors para escancarar um crime e a consequente vergonha que o cerca por causa da polícia local, o filme faz questão de retratar ali tipos extremamente interessantes que fazem a história borbulhar o ódio e a vingança estampados na sempre excelente Frances McDormand. Além disso, Três anúncios para um crime conta com sequências cinematográficas elaboradas, como a da grande discussão que se passa entre um policial e outro personagem, culminando em consequências as quais apresentam o principal motivador da população de Ebbing: o preconceito.

Viva: a vida é uma festa (Coco)

2017, dirigido por: Lee Unkrich e Adrian Molina

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Pôster: eclipse, 2017

Se a Disney, agora dona da Pixar, da Marvel, de você, de mim e de todos nós, anda decepcionando com sequências desnecessárias a já clássicos como Procurando Nemo ou, ainda mais, decidiu embarcar de vez no terreno ainda desconhecido dos filmes live action, essa desconfiança não pode se aplicar a Viva. Ao mesmo tempo com uma estrutura clássica do protagonista que precisa enfrentar a própria família para provar que seus gostos artísticos são importantes e inventivo ao recriar em animação toda uma rica cultura proveniente do povo mexicano, o filme também conta com referências ao mito de entrar no submundo (ou mundo dos mortos), uma história contatada pelos nossos antigos antepassados, na Roma e na Grécia. Mas as principais características e, consequentemente, virtudes de Viva são a leveza e a delicadeza com que trabalha uma questão nem sempre fácil: a morte. Prepare os lencinhos, a carga emotiva é fortíssima.

Um lugar silencioso (A quiet place)

2018, dirigido por: John Krasinski

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2018

Em meio a um mar de filmes inúteis que cada vez mais mancham o gênero terror, é muito revigorante ser brindado com gratas surpresas como Um lugar silencioso. Surpreendente não apenas pelo fato de revelar o ator John Krasinski como um excelente e promissor diretor cinematográfico, o filme faz o espectador temer a presença do som – que, mais do que a imagem em um filme de terror, é essencial para a trama se desenvolver -, o que já o torna um interessante exercício de cinema de gênero. Além da história original, é impossível deixar de admirar as atuações de Emily Blunt e, principalmente, dos filhos, Millicent Simmonds e Noah Jupe. O que uma ótima direção não faz para que um filme flua de maneira impecável.

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

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Um filme que brinda ao verão e ao amor de verão é uma boa tentativa de definir Me chame pelo seu nome. O longa mistura a leveza e a intensidade do amor entre Elio e Oliver sem cair em clichês e tendências perigosas que tratariam o relato em mais um filme específico para o público GLBT. Me chame pelo seu nome nada mais é do que a história de um amor entre duas pessoas, acima de tudo, e uma das cenas finais, em um diálogo entre Elio e seu pai, prova a delicadeza com que o roteiro pretendia desde o início. Destaque também para a ótima trilha-sonora, que conta com composições de Sufjan Stevens.

Leia a resenha do filme aqui.

Hereditário (Hereditary)

2018, dirigido por: Ari Aster

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Pôster: Gravillis Inc., 2018

Se Viva trata do tema morte com a delicadeza que um filme voltado para o público infantil exige, Hereditário é o extremo oposto desse espectro. Assim como Um lugar silencioso surpreendeu por sua originalidade e direção primorosa, este é exemplo de que o terror não é um gênero menor, e muito menos está esquecido pelos grandes diretores. E apesar de ser sua estreia, o diretor Ari Aster nos entrega uma obra não apenas ousada em sua frequente construção de cenários, sequências e sons com a intenção de arquitetar uma tensão pesada, mas também inventiva, seja em como apresenta os elementos de terror – reflexos de luzes representando espíritos, corpos flutuantes em meio a uma ausência de sons -, seja no trabalho cuidadoso com os atores, que se entregam aos papeis. Além de todos esses elementos, Hereditário também traz uma trilha-sonora claustrofóbico, imergindo ainda mais o espectador no terror – que, ainda bem, não é óbvio em nenhum aspecto.

Leia a resenha do filme aqui.

Listas de anos anteriores: 20172016, 2015, 2014

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Filmes

Animais noturnos

Engraçado como o ato de ler um livro pode encantar e assustar com a mesma intensidade. Para aqueles que têm como hábito a leitura, o prazer de pegar um exemplar da estante, retirar o plástico e abrir a capa, sentindo o cheiro do papel ali conservado, não possui um valor estimado. Já os que não se aproximaram da leitura ainda veem os livros como objetos estranhos, insignificantes até. A ideia de sentar e passar algumas horas encarando as linhas, em silêncio, pode ser apavorante. O mesmo acontece, na maioria das vezes, com a apreciação de uma obra de arte sem ser literária. Uma pintura abstrata, uma instalação de um artista plástico moderno, uma intervenção artística. Quantos de nós têm acesso a um museu? Se temos, quantos de nós realmente visita um? E se visitamos, quantos de nós encaramos cada arte ali apresentada a nível de compreensão não absoluta, mas quase completa?

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

Essa sensação de estranhamento é uma das primeiras a surgir com o início de Animais noturnos (Nocturnal animals, 2016). O filme do roteirista e diretor Tom Ford presenteia os olhos de seu público já de cara com créditos iniciais acompanhados por glitter caindo lentamente pela tela, acompanhado por uma trilha suave, mas com algumas notas angustiantes, como que sinalizando o que está por vir. De repente, o primeiro corte dá espaço para modelos obesas, mais velhas, nuas exceto por botas, luvas e adereços, seus peitos caídos balançando lentamente por cima de barrigas maiores ainda; uma senhora carrega dois daqueles palitos que, quando acesos, soltam faíscas, enquanto executa movimentos de uma dança sensual, em parte lânguida, em parte melancólica. A câmera de Ford as filma  em closes fechados, um corte após o outro mostrando uma mulher diferente da outra, semelhantes, a certo ponto, por causa de suas fantasias mínimas festivas, seus corpos desafiando nossa percepção do que é um modelo ideal de beleza, nossos olhos e cérebros brigando para se deleitar ou se assustar com cada plano em câmera lenta.

Intencional, Animais noturnos já choca à sua maneira desde tal abertura. Choca, mas fisga seu espectador com a mesma intensidade. Após a abertura imageticamente intensa, passamos a acompanhar a rotina de Susan Morrow (Amy Adams em um de seus melhores momentos), dona de uma galeria de arte cuja instalação atual são justamente as senhoras obesas e suas danças provocativas (em diversos sentidos). O longa, nesse começo, parece encontrar um marasmo narrativo, enquanto Susan tenta atrair a atenção de um marido insosso (interpretado por Armie Hammer), desesperado por salvar sua carreira e seu dinheiro, até o momento em que uma encomenda chega às portas da mansão, embrulhada em papel pardo. Susan, ao tentar abrir a embalagem interna ao papel pardo, corta um dedo no papel afiado – uma metáfora que a princípio parece boba, óbvia e infantil, mas que, conforme a história dentro da história se desenrola ao longo de quase duas horas de projeção, vai tomando proporções maiores, pesando sobre a protagonista e, invariavelmente, sobre nós como público também.

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

A partir desse estopim em forma de metáfora do corte, o abismo de Animais noturnos começa a se abrir sobre os pés de Susan. Dentro do pacote, o original de um romance escrito por seu ex-marido (cujo nome é “Animais noturnos”). O conteúdo da história que o ex (Jake Gyllenhaal) tem a contar parece misturar ficção e uma autobiografia em uma confusão proposital de memórias, amarguras, violência e vingança. E assim como a narrativa do rapaz mistura elementos, confunde uma coisa e outra, o diretor Tom Ford passa a mesclar a história de Susan com a história que seus olhos leem no original do ex, apresentando transições de uma narrativa à outra através dos cortes esteticamente planejados para indicar ao espectador que, sim, as duas histórias se juntam, se unem, se complementam. Então, se no livro “Animais noturnos” um personagem atira, o som do disparo assusta Susan em sua sala de estar belamente mobiliada; consequentemente, nos assusta também. Há, também, sobreposição de planos de dois tipos, aquela em que as duas imagens se sobrepõem literalmente, como se ambas se fundissem em um semi fade in e um semi fade out contínuo; e aquela em que há um corte, e a imagem que se segue é quase idêntica à anterior, com os atores posicionados exatamente como os da cena que passou, causando um choque no espectador, quase confundindo-o. Essas escolhas de Ford elevam Animais noturnos a um nível acima da narrativa comum, manipulando, com a imagem, as nossas sensação em relação ao filme.

Dessa forma, a fotografia do longa vai recorrer a algumas escolhas que adicionam mais significações ao longo da trama, como quando a imagem do protagonista do romance lido por Susan está banhada por uma iluminação azulada, enquanto a própria Susan aparece sob uma intensa luz amarela, sugerindo uma das oposições quente x frio mais utilizadas pelo cinema; assim, não só nesse jogo de cores, Ford estabelece, sem uma única explicação verbal, os opostos que, a todo tempo, tentam se aproximar: Susan e seu marido atual; o protagonista do livro e sua esposa e filha; o mesmo protagonista e seu rival, o criminoso Ray Marcus (interpretado por Aaron Taylor-Johnson); o ex (por meio do romance escrito) e Susan, e assim por diante.

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

Por fim, o estranhamento que se iniciou lá no começo com seus créditos iniciais, e tomou proporções cada vez maiores a partir do corte no dedo de Susan, vai se acalmando enquanto a última cena de Animais noturnos se desenrola. Silenciosa, angustiante e decisiva para Susan e para o público, o final do longa é vazio propositalmente. Não para frustrar seus espectadores, mas para ressaltar que, na busca de desejos e aproximações, muitas vezes podemos e tomamos decisões que afetam de maneira decisiva a vida das pessoas que nos rodeiam. E quando essas pessoas são aquelas que apostam em um relação íntima e se entregam a um amor por nós com uma vontade genuína, a quebra do sentimento é irreversível. E se a representação dessa quebra se materializa na forma de um livro a ser publicado, sua carga de mágoas e vinganças pode cortar. De verdade.

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Pôster: B O N D, 2016

Nocturnal animals, escrito e dirigido por: Tom Ford (baseado no livro Tony & Susan, escrito por Austin Wright)

Com: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Aaron Taylor-Johnson, Armie Hammer, Michael Shannon, Isla Fisher, Ellie Bamber, Karl Glusman, Robert Aramayo

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Filmes

La La Land: cantando estações

Desde pequenos, consumimos (no sentido ruim, na maior parte do tempo) a ideia de que buscar nossos sonhos é o que mais importa em nossa vida. Se estamos infelizes, é porque não atingimos o objetivo vital de desenvolver aquele projeto que coça dentro de nossa cabeça há anos, não estamos trabalhando naquele emprego que sempre quisemos, não estamos escrevendo o livro que deveríamos ter começado há muito tempo, não estamos isso, não estamos aquilo. Programas de TV, propagandas, séries e, principalmente, filmes sempre nos dizem isso: você precisa correr atrás dos seus sonhos.

Bem, é uma possibilidade tentadora e que, sem dúvida, nos move sempre em busca de algo maior e melhor, não importa o que necessariamente seja para cada indivíduo. Afinal, manter-se no ócio, parado, deixando a vida passar, enquanto oportunidades podem aparecer e se desmanchar diante de nossos olhos é uma situação que muitos têm horror só de pensar, ainda mais em um século repleto de tecnologias, facilidades, vai-e-vem, cobranças, produções, touchscreensstreamings para todos os lados. Se a teoria da modernidade líquida já está mais do que provada, e se estamos deixando essa modernidade vazar para a esfera sentimental, desmanchando também as relações humanas, precisamos urgentemente buscar nossos sonhos. Ou é, pelo menos, o que produtos culturais nos forçam a acreditar.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A propósito, sempre evito relacionar a palavra “produto” ou o verbo “produzir” com o substantivo “cultura” ou o adjetivo “cultural”. Passa a impressão de que uma arte, seja ela de que tipo for, precisa ser produzida; ou seja, ela tem prazos, obrigações, pontos a serem cumpridos, objetivos a serem atingidos, ou a satisfação não será completa. Como qualquer outro produto que saia das entranhas de uma indústria – ou pior: de uma corporação gigantesca, com seus tentáculos atingindo diversos lugares, situações e camadas sociais. Mas é uma obrigação à qual me submeto às vezes por um motivo muito simples: sempre vivemos e continuaremos a viver diante de obras (como as cinematográficas) que foram produzidas – no sentido que dei no começo desse parágrafo mesmo – para serem consumidas rapidamente. De certa forma, isso não é ruim. Dentro de uma cultura de massa, é natural um degradê de filmes, livros, pinturas e músicas que vão desde a mais popular, atingindo a maioria das pessoas, até a mais específica, a mais difícil de ser entendida, compreendida, interpretada.

Estou tocando nesse ponto (delicado, na maior parte das vezes) pois La la land: cantando estações traz um pouco disso à tona. Não apenas em seu próprio roteiro, como tema principal na motivação de seu casal de protagonistas, mas em sua história também: toda a concepção, gestação e o enfim nascimento do filme custou muito tempo e provavelmente muitas noites mal dormidas ao seu diretor e roteirista, Damien Chazelle. E essa história é a prova de que Hollywood ainda teme investir em filmes que, a princípio, parecem ser mais uma paixão particular de seu principal realizador do que uma produção massificada, enlatada e instantânea – sinônimos adoráveis para um provável sucesso comercial e econômico, um objetivo mais palpável para os cofres dos estúdios cinematográficos.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E apesar de ser um musical – um fator que pode aproximar e afastar públicos com a mesma intensidade -, La la land não é um filme apenas com músicas bonitinhas, passos de dança bem coreografados e planos-sequências planejados com cuidado. Ele possui sua essência, uma alma que sente pelos acertos do passado através de uma nostalgia expressada por Mia (adorável com a interpretação de Emma Stone) com sua adoração ao cinema da era de ouro e Sebastian (mais apagado por causa de Ryan Gosling) e a admiração gigantesca que nutre pelo jazz. Se o casal sente falta de épocas que não voltarão, o diretor Damien Chazelle parece sentir falta do filme leve, do cinema que encanta pelo canto, que enche nossos olhos por meio de sua principal característica: a imagem em movimento.

Junta-se, então, essas paixões nostálgicas e temos um filme colorido, pulsante e ensolarado desde os seus primeiros minutos. As cores, aliás, estabelecem o clima com um logotipo do estúdio Summit Entertainment artificialmente envelhecido para parecer vintage, além do primeiro card de créditos iniciais ser, assim como nos clássicos musicais da década de 50, “apresentado em CinemaScope”. Apresentado e não filmado pois a produção de La la land não usou lentes CinemaScope – essas foram criadas em 1953, uma tentativa do cinema para combater o eminente e recente sucesso da televisão com o público, fazendo com que os filmes, a partir de então, fossem apresentados em um aspecto de tela muito mais largo (sim, nascia, aí, o formato widescreen que temos até hoje). E o card em si também indica o clima do filme: surge em preto e branco, com seu título cortado em ambos os lados, e vai enlarguecendo, tomando toda a tela do cinema, tornando-se colorido e ressaltando o amarelo e o pink do “CinemaScope” ali escrito.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A partir dessa introdução, La la land não descansa. Com um plano-sequência inicial no meio de um congestionamento de Los Angeles, o filme já deixa claro a seu espectador que sim, haverá muitos números músicais; sim, vai ter gente cantando e dançando em situações nada comuns para uma cantoria e uma dança bem coreografada; sim, vai ter traseira de caminhão sendo aberta para revelar… uma banda completa de percussionistas. Se você passar por todas essas cenas e mesmo assim se sentir confortável o suficiente para encarar o restante, parabéns, você pode encarar La la land numa boa. O que é irônico, já que, daí em diante, os números musicais são bem mais coesos, encaixando-se organicamente a cada situação da história, principalmente quando têm a presença de Emma Stone e Ryan Gosling.

Stone, inclusive, entrega um trabalho na medida, sem emoções excessivais que poderiam facilmente estragar suas cenas mais dramáticas. Ao tentar fazer o público rir, ela consegue de maneira natural. Ao tentar fazer o público chorar também. Já Ryan Gosling, apesar de mostrar-se confortável com os infinitos sapateados e passos de valsa, além de emitir um tanto de charme considerável quando está diante das teclas de um piano ou sintetizador, faz o ritmo do filme cair negativamente quando precisa travar diálogos – com exceção, é claro, da cena em que discute o momento em que se encontra na vida com Mia, num jantar à luz de velas, um dos pontos altos do longa.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E por ser um musical, ser repleto de cores e movimentos, ter como essência a imagem e a luz, La la land não poderia deixar a desejar com sua fotografia. E não deixa. Temos planos-sequência milimetricamente planejados, com direito a câmeras que pulam de um canto a outro feito estilingues, outras que mergulham em piscinas e saem delas com a mesma facilidade, além de uma paleta de cores que presenteiam os olhos dos espectadores com pores-do-sol azuis-arroxeados e céus estrelados que vão do azul mais aveludado ao negro mais intenso.

Ao final, a impressão de que vimos um filme superficial, mais um entre tantos que pregam a busca de um sonho aparentemente impossível, pode nos tentar. Mas se analisarmos bem, La la land tenta passar sua essência não através de um desenvolvimento exemplar de personagens, muito menos por meio de discussões filosóficas; sua coluna vertebral é formada por sonhos, e eles são realizados em cada sequência musical apresentada, nos detalhes dos cenários, na escolha da cor do figurino de cada ator e figurante, nos arranjos da música composta por Jason Hurwitz. Mais do que isso, o roteiro também deixa espaço para uma melancolia necessária. Uma possibilidade negativa no meio de tanta busca por sonhos, sorrisos, danças e músicas alegres. Um ponto essencial para manter os pés no chão, mesmo que, de vez em quando, é gostoso ver atores voando para dançar uma valsa nas estrelas. Literalmente.

» Nesse link você pode ver uma montagem mostrando todas as referências a filmes e musicais que La la land faz ao longo de sua projeção.

» E nesse há um texto da Vanity Fair falando um pouco sobre a dificuldade de um diretor persistir em seus projetos pessoais (muitas vezes ignorados pelos grandes estúdios). O texto está em inglês.

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Pôster: LA, 2016

La la land, escrito e dirigido por: Damien Chazelle

Com: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, J. K. Simmons, Finn Witrock

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Filmes

A chegada

Alguns acreditam que o cinema é uma forma de escapismo. Ao entrar numa sala escura de projeção, você se senta diante de uma tela e esquece dos problemas que estão te atormentando a semana toda; esquece dos desastres políticos e econômicos ao redor do mundo que pipocaram na TV nos últimos; esquece de que no dia seguinte você vai acordar cedo. Mas e quando o filme entrega mais problemas e você precisa juntá-los à sua balança racional-emocional? Não que esses problemas sejam de ordem técnica e artística, algumas vezes aquele longa-metragem em específico faz com que os problemas fiquem flutuando em sua mente por um bom tempo, forçando-o a pensar na história, em suas consequências e, principalmente, (talvez a possibilidade mais assustadora) como agir diante de toda aquela narrativa se ela acontecesse no mundo real.

Temos inúmeros exemplos de filmes, em sua maioria hollywoodianos, que imaginam – e alguns que pelo menos tentam explicar melhor – como seria o relacionamento da humanidade com potenciais visitas alienígenas. Na maior parte delas, o resultado é desastroso. Catastrófico. É uma maneira, claro, de atingir uma bilheteria maior: se eu faço um filme repleto de cenas de ação, com direito a explosões sem fim e seres de outro planeta agindo de maneira violenta (ou nojenta), o apelo popular aumenta, assim como minha arrecadação. Não que isso seja errado ou ruim, vai depender de cada filme e sua abordagem ao tema. O que nos leva a uma questão principal em cinema: você deseja contar uma história ou pensa, antes, em como contar essa história?

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

O cinema, assim como a literatura é para a narrativa escrita, é moldado, através de imagens, para contar uma história de forma a extrapolar o senso comum. A sensação de sair da sala escura e ficar com a história martelando na cabeça, com mais dúvidas do que respostas, é sinal de que o filme cumpriu o seu papel de desautomatização – ou seja, ele tirou você, como público, do automático, da rotina, do dia-a-dia muitas vezes alienante. Quando se trata de histórias sobre o espaço infinito que cerca nosso planeta, podemos conhecer filmes cuja abordagem pode atingir o extremo abstrato de um espectro – como 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odssey, 1968) – e outros que tentam unir conceitos científicos e filosóficos intricados a uma narrativa mais palatável, como é o caso de Interestelar (Interstellar, 2014).

A chegada (Arrival, 2016) está, talvez, no meio-termo desse espectro. Apesar de ter uma linha narrativa comum – a protagonista, uma especialista em linguagens, é chamada pelo exército americano na tentativa de compreensão da linguagem utilizada pelos aliens visitantes -, o filme, com suas imagens, conta a história de forma não-linear. Não espere, portanto, um começo-meio-fim bonitinho, enlatado especialmente para consumo. É um roteiro que exige do espectador um mínimo de interpretação; e quanto mais a sua capacidade de interpretação é refinada, mais aproveitamento você terá da história e todos os seus detalhes ao longo da projeção.

É uma obra, portanto, que não se rende a uma autoexplicação gratuita: as peças para o mistério inerente à história estão jogadas sobre a tela do cinema; cabe a nós, público, ir montando-as conforme as mais de duas horas de filme passam diante de nossos olhos. E os aditivos, como estímulos, em tal empreitada, são duas discussões que surgem conforme seu roteiro se desdobra: uma sobre a linguagem – seu uso e suas complicações -, outra filosófico-existencial – por quê estamos aqui? o que eles vieram fazer em nosso planeta? quais são suas intenções?.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem como peça-base para uma cultura

Uma das abordagens mais instigantes – e belamente acertadas – de A chegada é a da personagem Louise Banks (interpretada por Amy Adams, fatalmente ignorada pelo Oscar desse ano). O filme poderia perder um bom tempo desenvolvendo-a ao mostrar seu dia-a-dia como professora e pesquisadora. Mas a elegância do roteiro de Eric Heisserer e da direção de Denis Villeneuve prefere mostrá-la em ação: sua perspectiva certeira como especialista do campo de linguagens, seu faro para consequências e implicações a partir de problemas que surgem, sua coragem e audácia que a tornam a força-motriz do filme.

Além dessa imagem que transmite, a personagem, em essência, entende, mais do que todos, que uma das bases – senão a principal – para uma cultura bem estabelecida é a comunicação entre seres através de uma linguagem com grande desenvolvimento. E quando o Coronel Weber (interpretado por Forest Whitaker) tenta pressioná-la para fazer a pergunta que todos querem saber a resposta (“Qual o propósito de vocês na Terra?”), A doutora Banks justifica não somente como é muito mais complicado se comunicar como também é necessário paciência e tolerância para se entender as dificuldades de uma comunicação com hipotéticos (não no filme, é claro) alienígenas e, por consequência, para apreciar o desenvolvimento paulatino do roteiro – que a muitos pode parecer lento, até monótono de início.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem cinematográfica como base para o filme

E se esse tema tão caro à história de A chegada necessita de uma atenção grande de seus realizadores, as tomadas, as cenas e as sequências do filme também são formas de comunicação. São, em suma, uma linguagem própria.

O primeiro take de Arrival começa com um fade out orgânico, a câmera saindo da escuridão em direção à luz. O movimento, no entanto, é de cima para baixo: a lente de Villeneuve observa primeiro o teto de madeira e, vagarosamente, desce até mirar uma grande vidraça, mostrando uma paisagem serena. Esse movimento se repete ao longo da narrativa, talvez mais umas duas ou três vezes, assinalando que o olhar vertical (de cima para baixo) é importante para a história ali contada – os aliens, afinal, descem do céu em direção ao planeta também em um movimento vertical; o contato entre os humanos e as criaturas começa também com um movimento vertical (aqui, porém, invertido, de baixo para cima); e todos esses momentos com uma rima visual: se iniciam no escuro e vão em direção a uma fonte de luz.

Outro ponto tocado pelo diretor canadense, de maneira metonímica, é a questão do contato. Temos, em A chegada, cenas que mostram essencialmente os personagens necessitando tocar objetos, texturas e demais materiais e substâncias. A cena em que Ian Donnelly (interpretado por Jeremy Renner) toca com as pontas dos dedos a base da nave alienígena; quando Louise toca o vidro que a separa das criaturas; as diversas cenas da Dra. Banks com sua filha recém-nascida (o primeiro contato de uma vida). A metonímia, é claro, tange a necessidade humana de conhecer algo através do tato, impulsionada pela curiosidade muitas vezes científica, mas essencialmente pura e simplesmente humana. Tal tema liga-se primordialmente ao principal da história – quem deseja fazer contato, em primeiro lugar, seja esse amigável ou hostil, são as criaturas alienígenas.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

E se pensarmos os detalhes simbólicos, talvez o que mais represente o filme em si é a escrita dos aliens. Sugerindo o infinito através de sua estrutura circular, a linguagem primeiramente compreendida por Louise é algo que transcende nossa cultura de registro – escrevemos linearmente, afinal – da esquerda para a direita ou vice-versa. E tal simbologia resume não apenas a essência de A chegada, como, da mesma forma, ressalta a importância de seu tema mais caro: a necessidade de uma linguagem deselvovida para se estabelecer uma cultura – e, mais ainda, torná-la forte e, em alguns casos, dominante.

Somados a todos esses detalhes que vão eclodindo aos poucos em nossa mente após uma sessão angustiante (no fundo, como plateia, torcemos para que tudo se resolva, é claro, e essa jornada não é algo simples, muito menos tranquilo), temos também a ambientação necessária através da trilha soturna, etérea e ameaçadora do compositor islandês Jóhann Jóhanssonn – uma música que determina o clima do filme do início ao fim, entoando o ritmo principalmente quando a equipe se aproxima da nave para suas sessões de comunicação com os aliens. Temos também uma fotografia fria, evocando essa constante ameaça que, ao mesmo tempo, não é velada, mas que paira sobre a cabeça das pessoas no filme e, consequentemente, sobre o público também.

A chegada já pode entrar para o rol de seletos filmes com temática espacial que estão muito além do tratamento comum. É um filme que não afasta o público por não habitar totalmente a esfera do abstrato, mas que não entrega tudo gratuitamente, promovendo uma experiência não apenas cinematográfica, como estética também. E essa sua estética o eleva de maneira a causar tantos questionamentos no público que sai da sessão arrebatado. Se a sentença “Qual o propósito de vocês na Terra?”, como explicado pela Dra. Banks, não é tão simples como parece, por que A chegada também não pode ser muito mais profundo do que aparentaria a um espectador qualquer?

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2016

Arrival, dirigido por Dennis Villeneuve, escrito por Eric Heisserer (baseado no conto “História da sua vida”, de Ted Chiang)

Com: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Tzi Ma, Jadyn Malone, Abigail Piniowsky, Julia Scarlett Dan

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Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2016

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

» resenha

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Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

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O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

» resenha

the-revenant

Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

the-hateful-eight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

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Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

» resenha

the-witch

Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

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Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

» resenha

spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

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Filmes

O quarto de Jack

Entre 1844 e 1846, o francês Alexandre Dumas publicou, através de folhetins, um de seus romances de maior sucesso, até hoje, entitulado O conde de Monte Cristo. Recebendo inúmeras adaptações ao longo das décadas, a história de vingança promovida pelo protagonista Edmond Dantès tornou-se muito popular por representar uma das forças mais genuínas do homem: a busca pela justiça. O público leitor, é claro, enfrenta as mais de mil páginas do calhamaço de Dumas pois não deseja ver Dantès vitorioso, mas como seu plano de vingança será meticulosamente traçado e executado.

Em O quarto de Jack (Room, 2015), quando Ma conta uma história de ninar a seu filho Jack, é justamente um dos momentos de maior tensão e aventura de O conde de Monte Cristo que ela escolhe. Ao lado dessa obra, o menino Jack lê, em dada cena do filme, o clássico de Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas. As duas inserções no roteiro de Emma Donoghue, baseado em seu próprio romance homônimo, funcionam como metáforas inteligentes para a história da mãe confinada em um pequeno quarto, obrigada a ensinar ao filho de 5 anos que aquele único cômodo é todo o seu mundo – e o mistério acerca dos motivos que levaram a protagonista ao quarto do título são mantidos, em boa parte da projeção, em segredo, uma escolha estética semelhante ao modo como Alexandre Dumas segura a atenção de seu leitor enquanto desenrola, em doses homeopáticas, o plano de vingança de seu protagonista Edmond.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

O desafio do diretor irlandês Lenny Abrahamson será, dessa forma, apresentar ao público um conflito que se desenvolve dentro de um ambiente pequeno e fechado. Não que isso não tenha sido realizado antes no cinema, a questão é que realizar um filme nesses moldes demanda pulso firme, além de atores extremamente competentes. Mas Abrahamson parece ter escolhido a dedo os responsáveis por dar vida a Ma e Jack. Enquanto Brie Larson confere nuances harmoniosas que vão do mais feio esgar de choro em momentos desesperadores ao sorriso sincero de uma mãe realizada ao ver a felicidade genuína do próprio filho, o menino prodígio Jacob Tremblay ganha todo o espaço da tela com sua brilhante atuação: entregue de corpo e alma a um papel complexo, repleto de camadas, Tremblay faz rir e emocionar um público que pode reprovar a qualquer momento seu trabalho no filme, já que atores mirins podem cair tão facilmente em uma atuação caricata, forçada. Não é o que ocorre, porém; o Jack de Jacob convence qualquer um de que é uma criança diferente em relação ao tipo de criação que foi obrigada a ter, mas completamente natural e comum no que se refere à visão que tem do mundo ao seu redor e à lógica peculiar que ele desenvolve por conhecer, desde seu nascimento, apenas o quarto onde mora. Room ainda conta com atores de peso em papéis coadjuvantes como Joan Allen, interpretando a mãe da protagonista, e William H. Macy, como seu pai.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

O trabalho de peso dos atores de nada adiantaria se o filme não fosse conduzido de forma segura e competente, mas o irlandês Abrahamson dirige O quarto de Jack com extremo cuidado: closes extremos nos poucos objetos presentes no quarto de Jack e sua mãe enquanto o menino narra, em off, suas impressões de mundo; tomadas mais demoradas enquanto a câmera focaliza os fios dos postes ou a cidade lá embaixo (todas através da visão de Jack); além de pontos de vista de dentro de lugares mais claustrofóbicos que o próprio quarto, levando o público para um aperto psicológico maior ainda.

Apesar de se render a clichês aqui e ali como a velha forma de incluir cenas em câmera lenta quando há um reencontro muito esperado na história ou introduzir uma trilha sonora repleta de cordas, bem cafona, nos ápices do roteiro, o filme relata sua história de maneira realista, sem, porém, chegar a chocar o público com uma possível crueza ou mostrar mais do que seria necessário. As explicações sobre o passado da protagonista, expondo o que houve para estarem ali, naquele momento, trancafiados em um único cômodo, são breves e metonímicas, não se deixando levar por uma verborragia que certamente prejudicaria tanto o ritmo do longa quanto sua poética.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Não se deixando levar pelo melodrama barato, e mesclando doses de realismo com momentos doces, tocantes – como a cena do corte de cabelo, interrompida por uma única frase que vale o ingresso –, O quarto de Jack traz à tona, ainda, questões importantes como a maternidade e a exploração midiática, mesmo que esses temas sejam pincelados rapidamente dentro da história principal. O filme, principalmente, passa a mensagem de que é necessário buscar meios para uma fuga – eis aqui a metáfora de Monte Cristo – quando o quarto em torno de nós se fecha quase que por completo; e que viver em um mundo fantasioso, bem lá embaixo na toca do coelho – voilà Alice no país das maravilhas, pode ser benéfico até o momento da realidade deixar de existir de vez, e é aí em que o perigo de transpor a linha de um mundo a outro pode nos deixar presos à zona de conforto, aos cárceres que nós construímos para nós mesmos… a cama do quarto de onde não conseguimos levantar.

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Pôster: InSync + BemisBalkind, 2015

Room, dirigido por: Lenny Abrahamson; escrito por: Emma Donoghue (baseado em sua obra O quarto de Jack)
Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Macy, Sean Bridgers, Tom McCamus.

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Filmes

A Garota Dinamarquesa

Talvez uma das imagens mais bonitas e, ao mesmo tempo, mais angustiantes de se acompanhar na natureza é a finalização da metamorfose de um inseto, aquele ponto em que a lagarta precisa romper o casulo para sair como um ser completamente diferente, uma borboleta com cores exuberantes ou de asas largas, imperiosas. A transformação entre um ser e o outro é o momento mais importante, fazendo com que sua vida mude irreversivelmente.

As primeiras tomadas de A garota dinamarquesa (The danish girl, 2015) mostram justamente a natureza em sua forma original: cenas exteriores de colinas e montanhas tomadas pelo verde amarelecido de uma vegetação rasteira, um charco silencioso de onde brotam árvores desfolhadas, seus galhos retorcidos apontando reumaticamente para o céu. Após um corte, a câmera fixa do diretor Tom Hooper focaliza essas mesmas árvores de um ponto de vista cuja água do pântano reflete seus galhos nus, distorcendo-os ainda mais; é uma cena rápida, provavelmente indiferente à maioria dos espectadores. Voltaremos a ela depois.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Dos planos abertos e exteriores direto para o interior do estúdio do casal protagonista, em Copenhague, Dinamarca, a plateia é logo apresentada à rotina de Einar Weneger e Gerda Weneger; ele, um renomado pintor de paisagens, ela, uma artista que tenta emplacar um sucesso dentro de uma galeria com seus retratos. Certo dia, quando uma das modelos de Gerda falta à sessão de pintura, Einar veste-se parcialmente como uma mulher para que sua esposa possa dar continuidade à obra. A partir desse ponto, ele passa a exteriorizar sua identificação com o gênero feminino e seus desejos de tornar-se, fisicamente, uma mulher.

Desde o lançamento do filme, muito se fala sobre as diversas licenças poéticas que o roteiro, apoiado na obra ficcional e homônima de David Ebershoff, tomou para aumentar o tom dramático, levando mais espectadores a procurar seus lencinhos no meio de uma sessão. O primeiro fato talvez não vendido diretamente pelo longa em si, mas cansavelmente martelado pelo burburinho em torno dele, é de que o pintor Einar foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero; na verdade, um caso anterior a Einar já havia ocorrido: nascido Rudolph Richter, o rapaz autorizou, em 1922, o seu próprio castramento, levando a transformações corporais e, mais tarde, a uma vaginoplastia bem sucedida propriamente dita, tornando-o Dora Richter. Muitas outras mudanças foram realizadas para a realização do filme, além do próprio autor do livro que dá sustentação para o longa afirmar que sua obra é, na verdade, uma ficção levemente baseada na história real do casal Weneger.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Diferenças entre o que é real e ficcional à parte, o problema maior de A garota dinamarquesa é, na verdade, algumas escolhas estéticas de seu diretor, Tom Hooper, como a preferência por fotografar fachadas de prédios de baixo para cima, tentando emular uma sensação de contraste entre espaço e a personagem em cena que não leva a nada dentro da própria narrativa, ou quando Einar veste-se pela primeira vez como mulher, na já referida cena em que posa para a própria esposa, e, passando as mãos pelo tecido do vestido que cobre suas pernas, Hooper faz questão de dar closes fechadíssimos, quase cirúrgicos, como se gritasse ao espectador que naquele momento o protagonista está sentindo sua transformação dentro do casulo dar início a um processo sem volta. São inserções de estilo que destoam de sequências mais inspiradas (como as cenas que abrem o filme) e que vêm ocorrendo desde O discurso do rei (The king’s speech, 2010) e Os miseráveis (Les misérables, 2012).

Assim como o trabalho do casal protagonista, em que a atuação de Eddie Redmayne varia entre a poesia melancólica de seus olhares perdidos em uma tristeza quase palpável com deslizes dramáticos comuns a papéis como este (como quando Einar discute com a mulher, tentando, ao mesmo tempo, ser firme e pender para um dramalhão barato). Alicia Vikander, no entanto, é o nó forte do fio narrativo de A garota dinamarquesa, demonstrando nuances de performance bem dosadas que vão do humor leve à tristeza mista a uma decepção dolorosa. Se Redmayne escorrega, Vikander, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, está lá para salvar a cena.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

E se em certos momentos a atuação perde ligeiramente a qualidade ou a direção de Hooper mostra alguns excessos, há cenas do longa que valem o ingresso. Uma, inclusive, remete àquela da árvore espelhada na água do pântano: em uma busca que mistura desejo e curiosidade por conhecer os detalhes do feminino, Einar – quase transformado em Lili, seu eu feminino – decide visitar uma casa erótica em Paris, onde está morando temporariamente com Gerda; lá dentro, diante de uma pequena janela, ele observa uma francesa, nua, tocar-se languidamente; olha os movimentos de suas mãos, tenta reproduzi-los fielmente: é aí, então, que o olhar de Tom Hooper repousa sobre a janela que separa a modelo de Einar; o reflexo da moça retorcendo-se sobre si mesma, em um fingido prazer, cobre o rosto do protagonista, que olha para ela através dela – ele a inveja? Ele deseja ser ela? Esse reflexo sobre seu rosto é uma metonímia para seu eu: um eu que não se identifica com o físico que o cerca, um eu que precisa romper o corpo que o aprisiona assim como a lagarta ansia escapar do casulo para poder voar em sua nova forma. E assim como a árvore desfolhada, sem vida, pode “mover-se” em seu reflexo, Einar, já estático, já esquecido, precisa dar voz e vida a Lili, seu verdadeiro eu.

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Pôster: P+A, 2015

The danish girl, dirigido por: Tom Hooper; escrito por: Lucinda Coxon (baseado na obra A garota dinamarquesa, de David Ebershoff).

Com: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts.

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