Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2016

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

ex_machina

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

» resenha

rogue-one

Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

cafe-society

O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

» resenha

the-revenant

Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

the-hateful-eight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

julieta

Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

» resenha

the-witch

Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

o-menino-e-o-mundo

Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

» resenha

spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

aquarius

Anúncios
Padrão
Filmes

Que Horas Ela Volta?

Desde nosso “descobrimento”, o Brasil é um país composto por classes. Dos índios subjugados por colonizadores portugueses, espanhóis e holandeses, passamos para os negros africanos que suaram sob o estalar dos chicotes. Hoje, a população goza de oportunidades como o acesso à educação gratuita e empregos em todas as áreas. Vivemos em uma democracia, buscamos a igualdade entre classes, gêneros, raças e credos.

O que sabemos ser uma mentira.

É inegável perceber o incômodo presente em Que Horas Ela Volta? (2015). Incômodo esse que passa por toda uma classe média-alta obrigada a suportar a igualdade de direitos entre patrão e empregado. Como assim a filha da empregada doméstica consegue passar no vestibular? Como assim a filha da empregada, uma mocinha nordestina metida a besta, tem a ousadia ao dizer que vai cursar Arquitetura em uma faculdade pública? Lugar de filha de empregada é da cozinha para lá – palavras estas, inclusive, ditas literalmente por uma das personagens do filme.

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Impossível negar, também, a qualidade presente no novo longa de Anna Muylaert (de Durval Discos, 2002, e É Proibido Fumar, 2009) ao abordar tais questões de maneira tão crucial, tão fluida, tão pungente. Se a diretora / roteirista nos faz questão de apresentar sua protagonista, Val (interpretada cuidadosamente, nos mínimos detalhes, por Regina Casé), logo de cara, como a verdadeira mãe de Fabinho (interpretado, na juventude, por Michel Joelsas), já nos preparamos para conhecer uma mãe biológica ausente, segura apenas de si mesma e suas responsabilidades profissionais; mas somos pegos de surpresa por uma personagem que vai além desse estereótipo da mãe distante: Bárbara (interpretada por Karine Teles, detestável o suficiente para fazer o sangue do público ferver) consegue alcançar o nível de uma pessoa que esconde seus verdadeiros sentimentos e julgamentos por baixo de uma carcaça boa, pacífica, a patroa gente boa – aquela que faz questão de dizer “olha só, que menina inteligente”, quando a filha da empregada tem a petulância de afirmar que vai prestar o vestibular da USP, apenas para agradar a mãe, a empregada que considera certo estar sempre abaixo dos patrões.

A câmera de Muylaert mantém-se fixa, assim, o tempo todo, permitindo-se discretos movimentos aqui e lá durante algumas cenas; afinal, o importante no desenrolar dos fatos são as personagens e as relações de poder entre elas. Enquanto Val sempre está disposta a acatar uma ordem dos patrões sem questioná-las por um segundo que seja, Bárbara é o lobo em pele de cordeiro atento aos mínimos movimentos de Jéssica (interpretada no ponto certo pela ótima Camila Márdila), enquanto essa parece conquistar a afeição de seu marido, Carlos (interpretado por Lourenço Mutarelli). O jogo de cena está então montado: Fabinho apega-se à Val desde criança pois essa é sua mãe de criação, aquela que irá lhe dar atenção e carinho por toda a vida; Jéssica, no entanto, não reconhece na personagem de Casé a figura materna pois ambas ficaram afastadas fisicamente. Quando a moça decide viajar a São Paulo para prestar vestibular, Val vê na situação uma oportunidade de reaproximação, enquanto Jéssica submete-se necessariamente por causa da necessidade.

Anna Muylaert, auxiliada pela ótima fotografia de Barbara Alvarez, compõe planos interessantes durante o longa: em certo momento, vemos Val na janela de seu quartinho, olhando para fora, enquanto a câmera posiciona-se atrás de grades, como se quisesse dizer ao espectador que a empregada está presa àquele trabalho, alienada a uma liberdade virtual, sempre medida pelos patrões. Em outra cena, Val conversa com a companheira de trabalho que a auxilia em determinadas tarefas domésticas, ao mesmo tempo que limpa uma vidraça. Quando a amiga a questiona sobre a filha, o rosto de Regina Casé se anuvia pelo sabão espalhado na vidraça bem em sua direção; Muylaert faz questão de posicionar a câmera no ângulo exato, deixando o rosto de Val distorcido enquanto reflete sobre viver distante da própria filha. São planos que conferem uma beleza à imagem proposta pela diretora, além de complementar de maneira elegante a narrativa.

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

O filme, no entanto, não funcionaria sem uma composição de personagens tão rica como a mostrada na tela. Por isso, decidi dedicar alguns parágrafos para cada um deles. (Caso você não tenha visto o filme e não deseja saber muitos detalhes sobre a trama, sugiro que assista primeiro o longa e, depois, volte para cá e conclua a leitura do texto. Os próximos parágrafos podem conter certos SPOILERS sobre a história.)

Val: onde já se viu? Filha de empregada sentando na mesa dos patrões?

Val representa aquela que está sob as ordens de seus patrões. Submissa, não questiona nenhuma das ordens dadas por eles (e é interessante perceber que tais ordens são dadas em um tom ameno, confundindo-se com meros pedidos); essa rotina alienada, em que troca sua força de trabalho por um salário – dinheiro esse dedicado à criação de Jéssica -, é quebrada com a chegada da filha questionadora, uma personagem-chave na trama.

Jéssica: eu tive um professor de história muito bom, ele questionava tudo e abriu a nossa cabeça para as coisas do mundo.

O primeiro choque dela vem ao descobrir que a mãe mora no emprego. A partir daí, passa a quebrar as “regras” patrão-empregada presentes no ambiente de trabalho da mãe, fazendo questão de demonstrar que não é diferente de Bárbara, Carlos ou Fabinho ao sentar na mesma mesa que a deles, tomar o sovete mais caro e julgar a arquitetura da casa sem medo de ser considerada petulante. Em um momento, ao ser repreendida pela mãe, Jéssica lança sua melhor fala: “Eles não são meus patrões!”.

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Bárbara: her precious daughter is back.

Se Jéssica é aquela que faz ruir a harmonia existente antes na casa, Bárbara é o ponto fraco no elo que está prestes a quebrar. Representante daqueles novos-ricos, a personagem tenta disfarçar o desprezo que nutre pela filha da empregada e, em um nível mais contido, pela própria Val. Uma das melhores cenas do longa é a entrega de um presente que Val compra para a patroa (um jogo de xícaras e garrafa térmica); tentando, sem muito sucesso, parecer surpresa e feliz pela escolha de Val, Bárbara irá mostrar seus verdadeiros sentimentos em relação ao presente em uma cena posterior, durante uma festa que ocorre na casa – outro momento-chave do filme. Mas o mais notável, em termos de narrativa e composição de personagem, é quando, no primeiro dia de Jéssica como hóspede na casa, Val não acorda no horário e os papeis se invertem: Bárbara precisa preparar seu próprio café da manhã e, contrariada, acaba “servindo” Jéssica, sentada na mesa da cozinha, à espera de uma referição. Uma inversão extremamente interessante ao observarmos uma resistência contida por parte da patroa e uma tranquilidade sem culpa no semblante de Jéssica. Uma catarse adorável. A essência da personagem, no entanto, é mostrada em uma situação quando Val pede abrigo à filha por mais alguns dias e, para que a empregada não entenda o nojo e desprezo que ela sente, diz o que realmente pensa sobre a situação para o marido usando uma frase, irônica, em inglês.

Carlos: todo mundo dança, mas sou eu quem bota a música.

Apesar de ser um personagem quase periférico nas cenas em que Bárbara aparece, o patrão parece estar sempre disposto a tratar a filha de Val de maneira igualitária – mas não se engane: quem deve retirar os pratos da mesa, inclusive os da própria filha, é Val; tudo, no entanto, na base da boa e velha educação, sem ordens explícitas. A certo ponto, ele confidencia a Jéssica que a verdadeira renda da família vem de uma herança paterna: daí o nosso julgamento, é claro, recai sobre a esposa, dona de um nariz em pé e uma expressão de nojo características daqueles que precisam ostentar materialmente o que quer que seja em busca de um substituto para o vazio presente em seu interior.

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Que Horas Ela Volta? é um colírio entre tantos exemplares nacionais descartáveis lançados a rodo atualmente. É preciso reconhecer ali um talento em conjunto: de Anna Muylaert e sua equipe, cuidando de maneira excepcional da parte técnica e narrativa do longa; mas também do elenco, afinado e trabalhando de forma a passar em tela situações vividas de forma tão comum no dia-a-dia brasileiro. O preconceito presente na personagem de Bárbara não é nada além do que a opinião de uma massa populacional ascendente que, quando se sente acima de outro ser humano, não mede esforços em deixar claro a diferença que ali se cria por causa de dinheiro e status. Se o sucesso da filha da empregada nos estudos incomoda tanto a classe média-alta, não é somente porque ela pensa que filha de empregada é burra e não tem oportunidade… a classe média-alta se assusta ainda mais quando percebe que filha de empregada também é capaz de pensar e, principalmente, questionar.

Pôster: Moovie, 2015

Pôster: Moovie, 2015

Que Horas Ela Volta?, dirigido e escrito por: Anna Muylaert.

Com: Regina Casé, Michel Joelsas, Camila Márdila, Karine Teles, Lourenço Mutarelli.

Padrão
Filmes, Listas

Os 15 Melhores de 2014

Confesso que assisti muitos filmes bons em 2014. Prolongar muito a lista de melhores perderia o efeito, bem, de ser uma lista de fim de ano. Assim como no ano passado, não quero transformar minha lista em um ranking, sugerindo que filme x seja melhor que o filme y; por isso os filmes seguirão ordem alfabética para que você se sinta à vontade e escolha aquele que desejar para sua próxima sessão.

(Coloquei e tirei e coloquei novamente diversos filmes na lista. Mas o corte final é o que se segue)

Pôster: Ignition Print, 2013

12 Anos de Escravidão, 2013; dir: Steve McQueen

Sempre fico com o pé atrás com filmes demasiadamente comentados – ainda mais se for um indicado máximo ao Oscar e a todas aquelas premiações de começo de ano. Admito que não tinha muita curiosidade por 12 Anos de Escravidão, por isso assisti o filme sem expectativas. Mas não tem como: Steve McQueen não se acovarda diante da plateia e não toma atalhos para mostrar a realidade crua e aterradora da escravidão. Não apenas pela história, a obra também vale por seus detalhes técnicos e estéticos, dignos de uma boa discussão cinéfila.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Art Machine & Animal Logic, 2014

Uma Aventura LEGO, 2014; dir: Phil Lord, Christopher Miller

Se com a Pixar – e agora com o Disney Animation Studios – nós nos acostumamos a ver animações que pareciam cada vez mais voltadas para o público adulto, deixando para as crianças as piadas de humor físico e afins, foi uma surpresa boa e divertida assistir Uma Aventura LEGO logo no começo do ano. Repleto de referências à cultura pop e nerd, a animação não se prende a nenhum tipo de seriedade e – melhor – assume as características do universo Lego em todos os aspectos. Frenético, colorido e com piadas na medida certa, o filme veio para competir com as outras animações deste ano.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Ignition, 2014

Os Boxtrolls, 2014; dir: Graham Annable, Anthony Stacchi

O estúdio Laika, após ficar mundialmente conhecido por Coraline, voltou aos cinemas, este ano, com um filme que provavelmente irá agradar mais as crianças quando elas estiverem crescidas. Isso porque Os Boxtrolls, apesar de seu carisma em stopmotion e seus monstrengos simpáticos, possui temas incrivelmente sérios, críticos e que desferem tapas de luva de pelica a todo momento em sua plateia. Desde o 3D de imersão até a sua estética que causa estranheza, o filme merece ser não apenas assistido, mas apreciado – na infância e em outros momentos da vida.

Confira a resenha do filme aqui.

Boyhood (Pôster)

Boyhood: da infância à juventude, 2014; dir: Richard Linklater

A premissa de Boyhood é comum: acompanhar a vida de um garoto até a sua adolescência. O diretor Richard Linklater, no entanto, decidiu usar os mesmos atores e filmá-los ano a ano, conferindo uma experiência cinematográfica interessante e que com certeza levará muitas pessoas a se identificarem com as situações vividas pelo protagonista. Não vá com muitas expectativas, porém: o filme é bom e possui um elenco afinadíssimo, mas vale mais pela experiência do que por seu enredo.

Pôster:  InSync + BemisBalkind, 2014

Chef, 2014; dir: Jon Favreau

Não se entregando à tentação de se passar apenas por um food porn simplista, Chef faz questão de encucar em seu espectador diversas reflexões sobre a vida, principalmente sobre nossas escolhas profissionais e de que forma elas nos influenciam. Favreau conduz o filme de forma leve, além de estar cercado de atores que o deixam à vontade para se transformar em um chef que, aos poucos, aprende o valor da paternidade e de sua profissão.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: aSquared Design Group, 2013

Ela, 2013; dir: Spike Jonze

Spike Jonze conseguiu, de forma bela e onírica, criar uma história de amor entre um homem e uma máquina. Talvez o detalhe mais singelo de Ela não seja a voz melódica de Scarlett Johansson, mas a forma como Jonze conduz sua câmera, registrando uma paleta de cores quentes e um sorriso melancólico na magnífica interpretação de Joaquim Phoenix. Mas o filme não estanca as possibilidades em seu lado bonito; o agridoce de Ela também está nas consequências de um amor que une um ser humano e um sistema operacional que não possui vida real – apenas na cabeça do protagonista.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Garota Exemplar, 2014; dir: David Fincher

David Fincher discutiu mais uma vez com chefões de estúdio, mas seu esforço valeu cada segundo: Garota Exemplar não é só uma das melhores surpresas do ano (realmente esperava mais do filme como obra por causa de Fincher, e menos como história por causa de uma autora que não conhecia), como entrega uma das cenas mais chocantes e impactantes do cinema. É de sair da sessão abestalhado, inconformado e desnorteado com tudo o que se viu na tela da sala escura.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Ignition, 2014

Godzilla, 2014; dir: Gareth Edwards

Muita gente chiou com a nova versão de Godzilla. As reclamações foram vastas: o monstrengo demora para aparecer, muito falatório e pouca ação, filme muito escuro. Mas acredito que os fãs de longa data de Gojira mereciam um filme à altura da fama do monstro japonês, e o filme dirigido por Gareth Edwards cumpre, minimamente, com essa missão.

Confira a resenha do filme aqui.

The Grand Budapest Hotel (Pôster)

O Grande Hotel Budapeste, 2014; dir: Wes Anderson

A estética de Wes Anderson é para poucos. Muitas pessoas se incomodam com os enquadramentos metódicos do diretor e as disposições milimetricamente pensadas em cada frame de seus filmes. Mas O Grande Hotel Budapeste traz, além dos maneirismos já mais do que conhecidos de Anderson, uma história divertida, com personagens carismáticos e uma interessante homenagem metalinguística. O diretor, dessa vez, até ousa com cenas gráficas – e acredite, elas são para gerar humor.

Pôster: BLT Communications

Guardiões da Galáxia, 2014; dir: James Gunn

Não consigo me divertir com os filmes dedicados aos heróis da Marvel. Neste ano, porém, deixei meus princípios pessoais de lado e resolvi dar uma chance para Guardiões da Galáxia. E parece que escolhi bem minha estreia no universo Marvel. Carregado de referências aos anos 80, personagens carismáticos e totalmente desprendidos com qualquer tipo de seriedade, o filme ainda faz questão de ser conduzido por uma trilha sonora retrô, pop e dançante. Meio difícil não se deixar levar pelo grupo de heróis mais desajustado já visto no cinema.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Lacuna Filmes, 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, 2014; dir: Daniel Ribeiro

Esperado desde o lançamento do curta que lhe deu origem, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho encanta não só pela direção segura e pelo roteiro que não se rende a estereótipos baratos: o maior diferencial da obra é apresentar uma história de amor adolescente não defendendo a causa gay, mas usando-a como metáfora para passar a mensagem de que amar não enxerga cor, religião, sexo e etc. O protagonista ser cego só reforça essa mensagem mais do que bem vinda para todas as próximas gerações.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Mecanismo Films, 2013

O Homem Duplicado, 2014; dir: Dennis Villeneuve

Baseado no livro de José Saramago, o longa do diretor canadense não deixa nada mastigado para o espectador. Assistir O Homem Duplicado é tentar encontrar sentido em um emaranhado de sequências e metáforas construídas de forma magistral. A atuação precisa e surpreendente de Jake Gyllenhaal só adiciona mais camadas ao desafio.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Concept Arts 2014.

Interestelar, 2014; dir: Christopher Nolan

Interestelar já pode ser considerado o filme em que Christopher Nolan deixa de lado suas preferências cerebrais e engatinha em temas mais emocionais, refletindo, inclusive, sobre o maior deles: o amor. Ligado a isso, o diretor traz uma história que trata sobre o tempo. Em uma projeção que ainda conta com grandes atuações (olá, Matthew McConaughey), efeitos visuais e sonoros que deixam qualquer um vidrado em suas cenas, ainda há tempo para discutir teorias físicas modernas.

Confira a resenha do filme aqui.

Jeune et Jolie (Pôster)

Jovem e Bela, 2013; dir: François Ozon

O mérito do francês Jovem e Bela estar aqui é pelo diretor François Ozon não tratar a protagonista como vítima, mas sim como alguém que assume a prostituição como mera opção de trabalho. Seria curiosidade? Seria prazer? O fato de ser uma adolescente só adiciona mais tempero ao filme belamente fotografado. Leves comparações à Belle de jour são bem aceitas.

Pôster: BLT Communications

O Lobo de Wall Street, 2013; dir: Martin Scorsese

A ideia de assistir Leonardo DiCaprio interpretando um homem inescrupuloso que encontra um meio de ganhar milhões de dólares da maneira mais rápida e ilegal possível, gastando toda a grana com mulheres, sexo, drogas e coisas inimagináveis ao longo de um filme de três horas parece cansativo? Seria, talvez, se O Lobo de Wall Street não tivesse sido dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese. E o ritmo é acelerado além da conta: ao terminar o filme, a impressão é que nós, o público, participamos também de todas as loucuras do protagonista.

Confira a resenha do filme aqui.

Padrão
Filmes

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Em 2010, o diretor e roteirista Daniel Ribeiro lançou o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, contando a história de um garoto cego que descobre, de forma singela, a sua sexualidade. Ribeiro tratou o tema com naturalidade e cuidado raros no cinema brasileiro, conquistando fãs e boas críticas, além de muitos prêmios. Não fosse apenas o seu bom trabalho, o curta ainda revelou talentos jovens em seus respectivos papéis. Quatro anos depois, o curta transformou-se em longa, expandindo a história do garoto Leonardo e de seus amigos, encorpando mais uma simples história de amor adolescente. Simples, mas não ingênua.

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

O que se vê, então, em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, é uma ampliação da história de Leonardo. Não podendo enxergar desde que nasceu, o garoto consegue realizar suas tarefas de maneira normal, precisando de auxílio para apenas algumas coisas, tendo aí ajuda de sua melhor amiga, Giovana. Sua rotina na escola e em sua casa segue normalmente até um novo aluno chegar, Gabriel. A partir daí, Leonardo passa a experimentar as sensações da adolescência: a impaciência por uma independência própria, questionamentos sobre seu futuro, possibilidades de viajar para o exterior para fugir das pessoas conhecidas e, claro, o amor. A chegada do novo colega também serve de base para balançar a velha amizade do protagonista com Giovana, que nutre um amor pelo amigo e que o vê cada vez mais distante por causa de Gabriel.

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

O grande trunfo de Daniel Ribeiro ao registrar esses momentos tão conhecidos por qualquer um que passou pela adolescência (ou que ainda está passando) é a forma como trata seus personagens: não existe ingenuidade ou maniqueísmo nas relações apresentadas, fato demonstrado na cena em que o protagonista conta para os pais o seu desejo de fazer intercâmbio e, imediatamente, percebemos que, enquanto a mãe nega veementemente a possibilidade por causa da deficiência visual do filho, seu pai tenta apaziguar os ânimos que afloram com a discussão e, mais tarde, em uma outra cena muito bem dirigida e composta, decide conversar racionalmente com seu filho, perguntando antes o porquê de Leonardo querer ir para outro país, conseguindo um resultado totalmente diferente da discussão anterior. É nesse ritmo que o diretor e roteirista guia a história para os espectadores, demonstrando que não é preciso baixar ao nível do dramalhão para conseguir um bom enredo ou boas atuações. Homeopático também em sua trilha sonora, o filme deixa os momentos certos para as músicas certas, apresentando momentos importantes com uma trilha que abrange Belle and Sebastian, Cícero, David Bowie, Beethoven, Bach e Tchaikovsky.

Outro mérito do filme são seus atores. É nítido na tela que Ghilherme Lobo, que interpreta o protagonista, passou por uma composição de personagem muito intensa, apresentando um Leonardo convincente não apenas em relação aos olhos que não enxergam (é possível desconfiar do ator, às vezes não sabemos realmente se ele está atuando ou se é cego de verdade), mas principalmente com as reações e trejeitos adolescentes: o questionamento e indignação com o tratamento superprotetor dos pais, a insegurança e tristeza em relação ao sentimento amoroso que passa a nutrir… o mais envolvente em sua atuação é a capacidade de exprimir, através dos olhos, ao mesmo tempo, uma deficiência e uma sensação física, algo que com toda a certeza poucos atores seriam bem sucedidos tentando.

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Para Tess Amorim, que interpreta a melhor amiga Giovana, ficou a responsabilidade de evocar as melhores piadas e alívios cômicos do longa; é impossível não sorrir ou rir da forma como a garota trata praticamente todos os colegas de sala, que considera de pessoas estúpidas para baixo: as cenas em que “conversa” com o cão da colega Karina e quando descreve para Leonardo o que a menina está fazendo para “conquistar” a atenção de Gabriel são cenas gostosas e divertidas, conferindo um ponto positivo a mais no roteiro. Já Fabio Audi, apesar de mostrar um Gabriel um tanto quanto inseguro no começo (é preciso se mostrar de tal maneira, afinal, entrar em uma escola totalmente nova não é algo fácil para um criança, ainda menos para um adolescente), seu personagem vai se desenvolvendo junto com os demais de maneira natural, ao mesmo tempo dando para Leonardo um escape de seus questionamentos (quando ambos saem escondidos, pela madrugada, para ver um eclipse) e transformando alguns momentos em quase oníricos (a cena da dança e uma cena principal ao final da projeção). O mesmo serve para os personagens secundários, como o engraçadinho da turma, Fabio, responsável por fazer piadas constantes com a deficiência visual de Leonardo e, depois, com sua aproximação com Gabriel, e também para os pais de Leo, interpretados na medida certa, sem exageros e dramatizações desnecessárias, por Lucia Romano e Eucir de Souza. Talvez a decisão do diretor de escalar atores totalmente desconhecidos pelo público ajude muito na soma final, não abrindo expectativas positivas ou negativas diante de rostinhos conhecidos.

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

A metáfora

Se para Daniel Ribeiro compor Leonardo como um adolescente cego foi arbitrário ou não, o fato é que, ao assistirmos Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, a deficiência visual do protagonista transforma-se em uma bela metáfora. Em nenhum momento do longa é erguida qualquer bandeira social. Leonardo, ao entender que está gostando do colega de sala, não se importa em se questionar ou se sentir mal e excluído por ter se apaixonado por alguém do mesmo sexo que o seu. Suas preocupações, como para qualquer adolescente, são naturais e óbvias: será que Gabriel sente alguma coisa por ele também? Ou será que ele está realmente ficando com a piriguete da sala? Essa dúvida, inclusive, é retratada em uma bem pensada sequência de sonho que o protagonista tem. São composições realizadas por Ribeiro que enriquecem a trama e também a expressão do filme em si, através de cenas bem compostas (como a que apresenta Gabriel, fazendo a ligação de sua voz com o ouvido do protagonista, em um plano sintético, mas elegante; assim como a simetria da cena do beijo no vidro do box do banheiro e aquela que mostra o beijo em si).

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Imagem: Lacuna Filmes, 2014

Em suma, o cinema nacional precisa de mais exemplares como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Não é preciso forçar a barra para apresentar uma história. Não é preciso recorrer ao drama fácil para defender uma causa. Não é preciso de efeitos especiais milaborantes e atores famosos para provar que o roteiro funciona. É preciso entregar a história para atores que visivelmente abracem seus personagens, criando um filme que mostre a verdadeira estupidez que é o preconceito e a rejeição sexual, demonstrando-a de forma simples e singela. Se os próximos longas de Daniel Ribeiro continuarem nessa linha, teremos mais um profissional da área para admirar e homenagear nos anos que virão.

Pôster: Lacuna Filmes, 2014

Pôster: Lacuna Filmes, 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, dirigido e escrito por: Daniel Ribeiro.

Com: Ghilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Lúcia Romano, Eucir de Souza, Pedro Carvalho, Isabela Guasco.

Padrão