Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2018

10º

Jogador Nº 1 (Ready Player One)

2018, dirigido por: Steven Spielberg

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Pôster: BO N D, 2018

Provavelmente não é o melhor filme do diretor que nos trouxe de volta dinossauros adormecidos há 65 milhões de anos ou conferiu camadas de realismo e comédia ao detetive mais topetudo – literalmente – que a Bélgica já inventou, mas se sua intenção é assistir a um filme blockbuster repleto de cenas de ação, inventividade e inúmeras referências aos anos 80 (contando com uma sequência primorosa que recria um dos clássicos de Stanley Kubrick), talvez Jogador Nº 1 seja sua opção mais segura para este ano. O filme vai sobreviver às décadas que virão e vai se tornar um clássico? Com o currículo de Steven Spielberg, muito possivelmente não, mas vale pela diversão e pelas risadas.

Halloween (Halloween)

2018, dirigido por: David Gordon Green

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Pôster: LA, 2018

Não fosse pelas inúmeras sequências e remakes já realizados, eu poderia aqui dizer que seria arriscado continuar a história de um já clássico cult dos filmes de terror. No entanto, o Halloween de 40 anos depois de seu original soa fresco, revigorante e – o mais importante aqui – assustador. Não assustador a ponto de deixar o espectador sem dormir durante uma semana, é claro, mas a tensão gerada por suas sequências de perseguição e o uso de steadycam não só lembram a criação de John Carpenter, como também apresenta às novas gerações o que um bom filme de serial killer pode mostrar de verdade. E diferentemente das sequências e refilmagens realizadas nas décadas passadas, este Halloween conta com a segurança de nada menos que sua própria scream queen Jamie Lee Curtis na produção, além do patrono John Carpenter. Arrepie-se mais uma vez com a famigerada trilha sonora clássica e o andar lento de Michael Myers

Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody)

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Pôster: WORKS ADV, 2018

2018, dirigido por: Bryan Singer

Bohemian Rhapsody pode se encaixar em vários gêneros fílmicos, pois vai desde uma biografia até o filme-pipoca. Emocionante, divertido e, em alguns momentos, também engraçado, a trajetória da banda Queen aqui retratada pode não se ater completamente aos fatos reais, mas faz uso dessa “licença poética” para aprimorar a dramatização do que foi a vida de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e John Deacon. Repleto de músicas da banda mais diversa do rock de todos os tempos, o filme ainda ousa – e consegue – recriar a antológica apresentação no Live Aid de maneira impecável. Era necessário? Não. Funcionou plenamente para a catarse do filme? Com toda a certeza.

Leia a resenha do filme aqui.

Missão: impossível – Efeito Fallout  (Mission: impossible – Fallout)

2018, dirigido por: Christopher McQuarrie

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Pôster: LA, 2018

Ser uma franquia de ação em plena atividade desde a metade dos anos 90 e continuar gerando milhões e milhões de bilheteria não é um feito a ser ignorado. Mesmo para aqueles que não são amantes dos filmes de ação praticamente sem roteiro e com direito a muitas explosões sem sentido (cof, cof, Michael Bay), Missão: impossível é irresistível. Apesar de alguns tropeços terem ocorrido, como no sofrível segundo capítulo, a série de filmes parece ter ganhado um novo e revigorado fôlego nas mãos de Christopher McQuarrie, responsável pelos roteiros e direção deste e do filme anterior. Claro, não seria possível encontrar-se no patamar atual se não fosse pelo sensacional Protocolo fantasma, de 2011, dirigido por Brad Bird, é bom lembrar. Porém, é em Efeito Fallout que talvez a série Missão: impossível atinge seu ápice. Não abandonando a fórmula de misturar ação, toques de humor e sequências de tirar o fôlego, o vigor do filme só se compara à entrega completa que seu protagonista veterano, Tom Cruise, faz do início ao fim.

A forma da água (The shape of water)

2017, dirigido por: Guillermo del Toro

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Pôster: MIDNIGHT OIL, 2017

Muita gente torceu o nariz para a última produção de Guillermo del Toro, talvez porque ela tenha sido ovacionada em praticamente todas as competições e premiações pelas quais passou. Seu apogeu, é claro, foi a consagração com os Oscar, principalmente, de Melhor Direção e Melhor Filme. Apesar de ter competido com o ótimo Três anúncios para um crimeA forma da água ser reconhecido como Melhor Filme pela Academia não foi um erro, a meu ver. Além de sua homenagem direta e indireta para a sétima arte, o filme do mexicano presta seu respeito também para as minorias. De maneira sutil e artística, A forma da água é uma ode aos desajustados. Ao apresentar uma mulher como protagonista, cuja melhor amiga é negra e o melhor amigo é gay, e que enfrenta um vilão homem, heterossexual e branco, os subtextos da história não podem e não devem ser ignorados. Isso tudo sem contar a extrema beleza – no sentido estético mesmo – com que nossos olhos são brindados com sua fotografia, seu design de produção e também seu figurino.

Três anúncios para um crime (Three billboards outside Ebbing, Missouri)

2017, dirigido por: Martin McDonagh

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Pôster: B O N D, 2017

Cru, cáustico e doloroso. Talvez sejam três palavras mais apropriadas para definir Três anúncios para um crime. Não apenas a motivação principal que leva Mildred, sua protagonista, a colocar três outdoors para escancarar um crime e a consequente vergonha que o cerca por causa da polícia local, o filme faz questão de retratar ali tipos extremamente interessantes que fazem a história borbulhar o ódio e a vingança estampados na sempre excelente Frances McDormand. Além disso, Três anúncios para um crime conta com sequências cinematográficas elaboradas, como a da grande discussão que se passa entre um policial e outro personagem, culminando em consequências as quais apresentam o principal motivador da população de Ebbing: o preconceito.

Viva: a vida é uma festa (Coco)

2017, dirigido por: Lee Unkrich e Adrian Molina

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Pôster: eclipse, 2017

Se a Disney, agora dona da Pixar, da Marvel, de você, de mim e de todos nós, anda decepcionando com sequências desnecessárias a já clássicos como Procurando Nemo ou, ainda mais, decidiu embarcar de vez no terreno ainda desconhecido dos filmes live action, essa desconfiança não pode se aplicar a Viva. Ao mesmo tempo com uma estrutura clássica do protagonista que precisa enfrentar a própria família para provar que seus gostos artísticos são importantes e inventivo ao recriar em animação toda uma rica cultura proveniente do povo mexicano, o filme também conta com referências ao mito de entrar no submundo (ou mundo dos mortos), uma história contatada pelos nossos antigos antepassados, na Roma e na Grécia. Mas as principais características e, consequentemente, virtudes de Viva são a leveza e a delicadeza com que trabalha uma questão nem sempre fácil: a morte. Prepare os lencinhos, a carga emotiva é fortíssima.

Um lugar silencioso (A quiet place)

2018, dirigido por: John Krasinski

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2018

Em meio a um mar de filmes inúteis que cada vez mais mancham o gênero terror, é muito revigorante ser brindado com gratas surpresas como Um lugar silencioso. Surpreendente não apenas pelo fato de revelar o ator John Krasinski como um excelente e promissor diretor cinematográfico, o filme faz o espectador temer a presença do som – que, mais do que a imagem em um filme de terror, é essencial para a trama se desenvolver -, o que já o torna um interessante exercício de cinema de gênero. Além da história original, é impossível deixar de admirar as atuações de Emily Blunt e, principalmente, dos filhos, Millicent Simmonds e Noah Jupe. O que uma ótima direção não faz para que um filme flua de maneira impecável.

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

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Um filme que brinda ao verão e ao amor de verão é uma boa tentativa de definir Me chame pelo seu nome. O longa mistura a leveza e a intensidade do amor entre Elio e Oliver sem cair em clichês e tendências perigosas que tratariam o relato em mais um filme específico para o público GLBT. Me chame pelo seu nome nada mais é do que a história de um amor entre duas pessoas, acima de tudo, e uma das cenas finais, em um diálogo entre Elio e seu pai, prova a delicadeza com que o roteiro pretendia desde o início. Destaque também para a ótima trilha-sonora, que conta com composições de Sufjan Stevens.

Leia a resenha do filme aqui.

Hereditário (Hereditary)

2018, dirigido por: Ari Aster

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Pôster: Gravillis Inc., 2018

Se Viva trata do tema morte com a delicadeza que um filme voltado para o público infantil exige, Hereditário é o extremo oposto desse espectro. Assim como Um lugar silencioso surpreendeu por sua originalidade e direção primorosa, este é exemplo de que o terror não é um gênero menor, e muito menos está esquecido pelos grandes diretores. E apesar de ser sua estreia, o diretor Ari Aster nos entrega uma obra não apenas ousada em sua frequente construção de cenários, sequências e sons com a intenção de arquitetar uma tensão pesada, mas também inventiva, seja em como apresenta os elementos de terror – reflexos de luzes representando espíritos, corpos flutuantes em meio a uma ausência de sons -, seja no trabalho cuidadoso com os atores, que se entregam aos papeis. Além de todos esses elementos, Hereditário também traz uma trilha-sonora claustrofóbico, imergindo ainda mais o espectador no terror – que, ainda bem, não é óbvio em nenhum aspecto.

Leia a resenha do filme aqui.

Listas de anos anteriores: 20172016, 2015, 2014

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Filmes

Bohemian Rhapsody

A sensação de assistir à apresentação de uma banda, ao vivo, muitas vezes é indescritível. Quando se é fã de determinado grupo ou artista, a música por eles composta possui uma importância e, mais, uma significação muito intensa para aquele que os admira. As palavras cantadas pelo artista não são apenas um amontoado de dizeres que combinam com a melodia e o arranjo da música, pode tornar-se aquilo que comumente chamamos de poesia: a brincadeira, o jogo, o manuseio com as palavras cujo objetivo é mexer com nossos sentidos, nossos sentimentos e a nossa relação com o mundo à nossa volta.

Grandes artistas ao longo das eras, mexeram com seu público. Seja de forma positiva, ao elevar o espírito de multidões, seja de forma negativa, ao provocar no público uma reação que este não esperava (ou não desejava). O grande artista, aquele que muito provavelmente será lembrado e redescoberto pelas gerações mais novas, no entanto, provoca ambas. Sim, por mais que você possa começar a gostar de determinado performer, algumas atitudes dele podem incomodar em certo nível ou, ao contrário, pode-se reagir a um grande artista a partir de algo terrível aos seus olhos e, com o tempo, a admiração surgir aos poucos, como resultado do processo que se iniciou com a impressão negativa de início.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

Há, também, o grande artista que, independentemente de provocações positivas ou negativas, possui um talento inegável de elevar multidões. Seja por sua voz, por sua atuação em palco, por sua habilidade nas composições,  ou todas as opções anteriores ao mesmo tempo, esse grande artista torna o público hipnotizado por aquilo que, muitas vezes, chamamos de “presença de palco”, a ponto de inspirar as pessoas – em um nível mais sutil, ao fazer com que o espectador de seu show saia do evento sentindo-se elevado pela música, ou em um nível mais forte, incentivando tal espectador a buscar, um dia, em ser como o artista que tanto admira.

Freddie Mercury, ou Farrokh Bulsara, é todos esses artistas ao mesmo tempo. Uma das provas do poder de seus inúmeros dons artísticos é o fato de quase todas as pessoas ao nosso redor, mesmo não conhecendo sua história ou a trajetória do Queen terem, pelo menos uma vez na vida, ouvido uma de suas músicas, direta ou indiretamente. Mais: conhecerem a figura de Freddie Mercury. Assim como qualquer artista ou obra de arte famosa, a performance em palco de Freddie Mercury é, indiscutivelmente, uma representação icônica do grande artista musical que foi, é e sempre será dentro do imaginário popular.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

Por isso – e muitos outros detalhes que não cabem nesse pequeno texto -, é grande a responsabilidade que recai sobre os ombros de Rami Malek. O ator, mundialmente conhecido pela série Mr. Robot, não apenas precisou dar conta de replicar, na telona, os trejeitos, olhares, maneirismos, empostação de voz e linguagem corporal de palco de  Mercury, como conferir uma camada a mais em sua atuação no que se refere à dramatização da vida do vocalista do Queen. Isso porque não vemos, ali, na tela do cinema, a vida e a trajetória em si do ídolo. O que assistimos é a uma representação dramática, em pouco mais de duas horas, do torvelinho de coisas que foi a vivência e a composição artística de Freddie Mercury. Mais à frente volto a esse ponto.

Assim, o que vemos em Bohemian Rhapsody (idem, 2018) é um ator encarando a hercúlea tarefa de aproximar-se ao “personagem” real. E consegue. O público não só crê, em algum nível, que está diante do Freddie Mercury real, como também emociona-se quando ali na tela vê o compositor com os olhos marejados ao criar uma nova música, ou quando identifica-se com um artista atormentado pelos períodos obscuros de vazios existenciais. Afinal, Freddie Mercury não era apenas um cantor mediano cuja tarefa era subir ao palco para agradar grandes produtores da indústria e vender discos.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

Outro aspecto abordado no longa e que, de certa forma, confere ritmo ao roteiro, é a dinâmica entre os quatro integrantes da banda. Se Freddie era o frontman do Queen, o carro-chefe avassalador, os demais também eram peças necessárias para que a fórmula musical funcionasse bem: Brian May (interpretado Gwilym Lee) e sua habilidade monstruosa com a guitarra, Roger Taylor (interpretado por Ben Hardy) e a explosão proveniente de sua bateria e demais percussões, e John Deacon (interpretado por Joe Mazzello) e a inventividade inegável que nos trouxe o riff de seu baixo em “Another one bites the dust”. E em Bohemian Rhapsody a química que ebuliu a arte musical do Queen é muito bem representada pelos atores que representam os demais membros do grupo, não apenas pelo carisma e, muitas vezes, ótimo timing com momentos de humor, mas principalmente pela assustadora aproximação na aparência – todos são muito semelhantes às suas versões reais.

E se o filme conta com um ator talentoso para a representação de Freddie Mercury, e mais três outros atores cuja química transparece de maneira irrefutável na tela, há de se discutir sobre as alterações realizadas pelos escritores Anthony McCarten e Peter Morgan. Há três pontos cruciais mostrados em Bohemian Rhapsody que se diferem bastante da realidade*: 1) toda a cena de discussão com o produtor Ray Foster (personagem fictício e muito bem pontuado pelo veterano Mike Myers) sobre considerar a música “Bohemian Rhapsody” como single (para tocar nas rádios e ser lançada como, na época, disco compacto) soa, e é, extremamente exagerada; 2) apesar de realmente ter gravado discos solo, Freddie Mercury nunca discutiu com os demais integrantes, nem se separou da banda; 3) a descoberta da AIDS não ocorreu antes do evento Live Aid (o clímax escolhido para o longa), mas sim posteriormente. Tais fatos e suas modificações podem incomodar o fã de longa data. Mas, analisando o filme por aquilo que ele representa (um filme – e de entretenimento, no caso), essas mudanças casam com a camada dramática apresentada ao público. Assim, para o espectador que não conhece os detalhes da vida e obra da banda, esses três aspectos tornam-se fonte de humor, drama e melodrama, respectivamente. E, para um filme hollywoodiano, nada melhor do que tais temperos.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

No final das contas, o personagem principal e mais importante – até mais importante do que a figura de Freddie Mercury -, a música do Queen, é quem impera em toda a produção. Ela é o motor desde a vinheta da 20th Century Fox (aqui executada com guitarras) até os últimos segundos dos créditos finais. É com ela que os pontos dramáticos são pontuados, os momentos catárticos (e são vários) são propulsionados e as emoções são despertadas das maneiras mais sutis – não à toa, o famoso “ay-oh” de Freddie, entoado por apenas uma pessoa, em uma determinada cena, dentro de uma situação delicada, pode mexer com o público de maneira poderosa. E é com ela que nos despedimos dos personagens da tela, das histórias reais e ficcionais do roteiro, mas, acima de tudo, é com ela que saímos do cinema com a certeza de que o show deve continuar.

* as informações foram retiradas dessa análise

pôster

Pôster: Gravillis Inc., 2018

Bohemian Rhapsody, dirigido por: Bryan Singer; escrito por: Anthony McCarten.

Com: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joe Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker.

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Filmes

Nasce uma estrela

Em dois momentos calorosos de Nasce uma estrela (A star is born, 2018), Ally, a protagonista do longa, parte para a briga. No primeiro, ao tentar defender a privacidade de um rapaz que acabou de conhecer; no segundo, contra esse mesmo rapaz, mas agora porque ambos se encontram casados e, em um certo nível, se odeiam. Essas duas cenas têm, tirando os óbvios momentos musicais – que também são muito fortes (porém não todos, é preciso enfatizar) -, um enorme potencial para a história do filme. Ou teriam, pois são apenas duas parcas faíscas logo descartadas pelos roteiristas.

Talvez esse descuido seja resultado de uma história que já passou por diversas versões na própria Hollywood. O roteiro desse reconto mais recente, por exemplo, baseia-se no roteiro de 1976 que, por sua vez, inspira-se no de 1954. Chega a ser levemente vergonhoso saber que uma história tão requentada ainda pode ser contada mais uma vez, afinal, pouquíssimas pessoas aturam café velho colocado novamente no fogo para uma tentativa pífia de agradar o paladar de alguém. No entanto, dependendo do tratamento dado para a história e como ela é conduzida por seu diretor, é possível acompanhar um remake no mínimo respeitoso à obra original (ou, aqui, às obras). Não é o caso.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Não que o ator Bradley Cooper seja incompetente. Sabemos que ele não é. Como ator, pelo menos, cumpre seu papel. Não é o melhor e mais empolgante ator do mundo, mas entrega um Jack honesto. Jack, aliás, é um personagem que cambaleia entre o clássico alcoólatra irrecuperável e o ultrarromântico idealizado: ora se entrega ao copo de bebida ou à cocaína quando percebe que, mais uma vez, a vida lhe escapa entre os dedos, ora trata a mulher que literalmente acabou de conhecer como a principal musa de sua vida. Claro que, para uma audiência no geral, o romance que se inicia entre ele e Ally é algo, digamos, “bonito” de se ver, já que conta com piadinhas leves sobre anatomia facial da moça (uma piada que obviamente vai se tornar bordão ao longo do filme), troca de olhares intensos e todos os clichês possíveis de comédia romântica para acompanhar.

Mas se analisarmos com cuidado o desenvolvimento da própria narrativa e como esses personagens se movem nela e, mais ainda, como eles se expandem nela, o buraco começa a ficar mais embaixo. Isso porque tudo parece, ao mesmo tempo e estranhamente, rápido e lento demais. Explico: o filme tem dolorosas, arrastadas e tediosas 2h16 de duração e, ainda assim, toda a sequência de acontecimentos parece se dar de maneira muito rápida e artificial. Em breves momentos, conhecemos Jack, para logo depois conhecermos Ally, para logo depois sabermos que ela canta magnificamente bem, para logo depois vermos os dois se encontrando, para logo depois ambos se apaixonarem perdidamente e por aí vai. Um tédio sem fim.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Porém, existe a música salpicada nesse marasmo todo. E aí não há escapatória, porque de maneira muito esperta a produção do longa escalou nada menos que Lady Gaga para o papel de Ally. E mesmo que o público não goste do estilo musical da cantora, é inconcebível esse mesmo público não reconhecer nela uma baita cantora – não só talentosa, como verdadeiramente artística. Suas músicas, sua interpretação e suas nuances vocálicas são respiros muito bem-vindas durante a projeção. Momentaneamente saímos da chatice sem fim de um roteiro magro sobre um cantor alcoólatra que não define mais a realidade de sua realidade e sua repentina paixão sem medidas por uma cantora talentosa, e é o que salva.

No entanto, a estrela principal da obra não é a personagem Ally. É, em suma, sua intérprete, Lady Gaga. Não apenas pela potência de sua voz, sua interpretação impecável como verdadeira cantora, mas porque o que vemos na tela pode não ser apenas uma ficção que está no processo de diversas versões desde os anos 50, e sim a história da própria Gaga, resguardadas as devidas diferenças. Temos ali uma desconhecida que trabalha naquilo que não gosta, mas tenta se inserir no mundo da música de alguma forma. Quando é descoberta por um produtor, passa a se vender para um pop genérico, insosso e desesperador de acompanhar. Inclusive, talvez esse momento seja o maior furo do roteiro de Nasce uma estrela: se no início do filme Ally faz questão de mostrar seu descontentamento com aqueles que comandam a indústria da música – os homens, é claro -, logo depois ela mesma vai se render a um homem que a manipula de diversas formas através da maneira, talvez, mais sacana de se manipular alguém: a passivo-agressiva. É com esses deslizes que o filme vai perdendo as próprias tentativas de criar personagens marcantes. Ao fim, eles parecem planos feito herói e mocinha de novela das sete.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Se a intenção de A star is born era ser um filme musical, podemos dizer que foi razoavelmente bem sucedido – mas a direção nada criativa de Bradley Cooper nesse sentido não ajuda a trazer brilhantismo para os números musicais. Se a intenção era ser um romance, mirou no romântico clássico, acertou o folhetim barato de revista erótica de banca, uma coisa meio Sabrina. Se a intenção era ser um filme com toques de comédia, devemos admitir que faz algumas tentativas com bons resultados, mas que se perdem no melodrama grudento da maior parte do longa. Por fim, se a intenção era fazer sucesso, tristemente tudo isso que critiquei antes será, sem dúvida alguma, elementos prontos para alavancar a bilheteria do filme. Afinal, é um longa-metragem estrelando Lady Gaga e Bradley Cooper, com muito romance, comédia, drama e um toque de melancolia sem-vergonha. Ah, tem também uma morte pra fazer todo mundo chorar. Pode ser dela, pode ser dele, pode ser do cachorro. Qualquer uma vai fazer o seu amigo vender o filme para você dizendo que foi um filme “lindo, maravilhoso, me fez chorar muito”. Mas não se engane. É um filme raso. Bem raso. Talvez seja por isso que a própria Lady Gaga canta uma música chamada “Shallow”.

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Pôster: InSync Plus, 2018

A star is born, dirigido por: Bradley Cooper; escrito por: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters (baseado nos roteiros de Moss Hart, de 1954, e de John Gregory Dunne, Joan Didion e Frank Pierson, de 1976 – cujas histórias são baseadas numa história de William Wellman e Robert Carson).

Com: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot, Anthony Ramos, Rafi Gavron, Andrew Dice Clay.

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Filmes

La La Land: cantando estações

Desde pequenos, consumimos (no sentido ruim, na maior parte do tempo) a ideia de que buscar nossos sonhos é o que mais importa em nossa vida. Se estamos infelizes, é porque não atingimos o objetivo vital de desenvolver aquele projeto que coça dentro de nossa cabeça há anos, não estamos trabalhando naquele emprego que sempre quisemos, não estamos escrevendo o livro que deveríamos ter começado há muito tempo, não estamos isso, não estamos aquilo. Programas de TV, propagandas, séries e, principalmente, filmes sempre nos dizem isso: você precisa correr atrás dos seus sonhos.

Bem, é uma possibilidade tentadora e que, sem dúvida, nos move sempre em busca de algo maior e melhor, não importa o que necessariamente seja para cada indivíduo. Afinal, manter-se no ócio, parado, deixando a vida passar, enquanto oportunidades podem aparecer e se desmanchar diante de nossos olhos é uma situação que muitos têm horror só de pensar, ainda mais em um século repleto de tecnologias, facilidades, vai-e-vem, cobranças, produções, touchscreensstreamings para todos os lados. Se a teoria da modernidade líquida já está mais do que provada, e se estamos deixando essa modernidade vazar para a esfera sentimental, desmanchando também as relações humanas, precisamos urgentemente buscar nossos sonhos. Ou é, pelo menos, o que produtos culturais nos forçam a acreditar.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A propósito, sempre evito relacionar a palavra “produto” ou o verbo “produzir” com o substantivo “cultura” ou o adjetivo “cultural”. Passa a impressão de que uma arte, seja ela de que tipo for, precisa ser produzida; ou seja, ela tem prazos, obrigações, pontos a serem cumpridos, objetivos a serem atingidos, ou a satisfação não será completa. Como qualquer outro produto que saia das entranhas de uma indústria – ou pior: de uma corporação gigantesca, com seus tentáculos atingindo diversos lugares, situações e camadas sociais. Mas é uma obrigação à qual me submeto às vezes por um motivo muito simples: sempre vivemos e continuaremos a viver diante de obras (como as cinematográficas) que foram produzidas – no sentido que dei no começo desse parágrafo mesmo – para serem consumidas rapidamente. De certa forma, isso não é ruim. Dentro de uma cultura de massa, é natural um degradê de filmes, livros, pinturas e músicas que vão desde a mais popular, atingindo a maioria das pessoas, até a mais específica, a mais difícil de ser entendida, compreendida, interpretada.

Estou tocando nesse ponto (delicado, na maior parte das vezes) pois La la land: cantando estações traz um pouco disso à tona. Não apenas em seu próprio roteiro, como tema principal na motivação de seu casal de protagonistas, mas em sua história também: toda a concepção, gestação e o enfim nascimento do filme custou muito tempo e provavelmente muitas noites mal dormidas ao seu diretor e roteirista, Damien Chazelle. E essa história é a prova de que Hollywood ainda teme investir em filmes que, a princípio, parecem ser mais uma paixão particular de seu principal realizador do que uma produção massificada, enlatada e instantânea – sinônimos adoráveis para um provável sucesso comercial e econômico, um objetivo mais palpável para os cofres dos estúdios cinematográficos.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E apesar de ser um musical – um fator que pode aproximar e afastar públicos com a mesma intensidade -, La la land não é um filme apenas com músicas bonitinhas, passos de dança bem coreografados e planos-sequências planejados com cuidado. Ele possui sua essência, uma alma que sente pelos acertos do passado através de uma nostalgia expressada por Mia (adorável com a interpretação de Emma Stone) com sua adoração ao cinema da era de ouro e Sebastian (mais apagado por causa de Ryan Gosling) e a admiração gigantesca que nutre pelo jazz. Se o casal sente falta de épocas que não voltarão, o diretor Damien Chazelle parece sentir falta do filme leve, do cinema que encanta pelo canto, que enche nossos olhos por meio de sua principal característica: a imagem em movimento.

Junta-se, então, essas paixões nostálgicas e temos um filme colorido, pulsante e ensolarado desde os seus primeiros minutos. As cores, aliás, estabelecem o clima com um logotipo do estúdio Summit Entertainment artificialmente envelhecido para parecer vintage, além do primeiro card de créditos iniciais ser, assim como nos clássicos musicais da década de 50, “apresentado em CinemaScope”. Apresentado e não filmado pois a produção de La la land não usou lentes CinemaScope – essas foram criadas em 1953, uma tentativa do cinema para combater o eminente e recente sucesso da televisão com o público, fazendo com que os filmes, a partir de então, fossem apresentados em um aspecto de tela muito mais largo (sim, nascia, aí, o formato widescreen que temos até hoje). E o card em si também indica o clima do filme: surge em preto e branco, com seu título cortado em ambos os lados, e vai enlarguecendo, tomando toda a tela do cinema, tornando-se colorido e ressaltando o amarelo e o pink do “CinemaScope” ali escrito.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A partir dessa introdução, La la land não descansa. Com um plano-sequência inicial no meio de um congestionamento de Los Angeles, o filme já deixa claro a seu espectador que sim, haverá muitos números músicais; sim, vai ter gente cantando e dançando em situações nada comuns para uma cantoria e uma dança bem coreografada; sim, vai ter traseira de caminhão sendo aberta para revelar… uma banda completa de percussionistas. Se você passar por todas essas cenas e mesmo assim se sentir confortável o suficiente para encarar o restante, parabéns, você pode encarar La la land numa boa. O que é irônico, já que, daí em diante, os números musicais são bem mais coesos, encaixando-se organicamente a cada situação da história, principalmente quando têm a presença de Emma Stone e Ryan Gosling.

Stone, inclusive, entrega um trabalho na medida, sem emoções excessivais que poderiam facilmente estragar suas cenas mais dramáticas. Ao tentar fazer o público rir, ela consegue de maneira natural. Ao tentar fazer o público chorar também. Já Ryan Gosling, apesar de mostrar-se confortável com os infinitos sapateados e passos de valsa, além de emitir um tanto de charme considerável quando está diante das teclas de um piano ou sintetizador, faz o ritmo do filme cair negativamente quando precisa travar diálogos – com exceção, é claro, da cena em que discute o momento em que se encontra na vida com Mia, num jantar à luz de velas, um dos pontos altos do longa.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E por ser um musical, ser repleto de cores e movimentos, ter como essência a imagem e a luz, La la land não poderia deixar a desejar com sua fotografia. E não deixa. Temos planos-sequência milimetricamente planejados, com direito a câmeras que pulam de um canto a outro feito estilingues, outras que mergulham em piscinas e saem delas com a mesma facilidade, além de uma paleta de cores que presenteiam os olhos dos espectadores com pores-do-sol azuis-arroxeados e céus estrelados que vão do azul mais aveludado ao negro mais intenso.

Ao final, a impressão de que vimos um filme superficial, mais um entre tantos que pregam a busca de um sonho aparentemente impossível, pode nos tentar. Mas se analisarmos bem, La la land tenta passar sua essência não através de um desenvolvimento exemplar de personagens, muito menos por meio de discussões filosóficas; sua coluna vertebral é formada por sonhos, e eles são realizados em cada sequência musical apresentada, nos detalhes dos cenários, na escolha da cor do figurino de cada ator e figurante, nos arranjos da música composta por Jason Hurwitz. Mais do que isso, o roteiro também deixa espaço para uma melancolia necessária. Uma possibilidade negativa no meio de tanta busca por sonhos, sorrisos, danças e músicas alegres. Um ponto essencial para manter os pés no chão, mesmo que, de vez em quando, é gostoso ver atores voando para dançar uma valsa nas estrelas. Literalmente.

» Nesse link você pode ver uma montagem mostrando todas as referências a filmes e musicais que La la land faz ao longo de sua projeção.

» E nesse há um texto da Vanity Fair falando um pouco sobre a dificuldade de um diretor persistir em seus projetos pessoais (muitas vezes ignorados pelos grandes estúdios). O texto está em inglês.

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Pôster: LA, 2016

La la land, escrito e dirigido por: Damien Chazelle

Com: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, J. K. Simmons, Finn Witrock

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