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Nasce uma estrela

Em dois momentos calorosos de Nasce uma estrela (A star is born, 2018), Ally, a protagonista do longa, parte para a briga. No primeiro, ao tentar defender a privacidade de um rapaz que acabou de conhecer; no segundo, contra esse mesmo rapaz, mas agora porque ambos se encontram casados e, em um certo nível, se odeiam. Essas duas cenas têm, tirando os óbvios momentos musicais – que também são muito fortes (porém não todos, é preciso enfatizar) -, um enorme potencial para a história do filme. Ou teriam, pois são apenas duas parcas faíscas logo descartadas pelos roteiristas.

Talvez esse descuido seja resultado de uma história que já passou por diversas versões na própria Hollywood. O roteiro desse reconto mais recente, por exemplo, baseia-se no roteiro de 1976 que, por sua vez, inspira-se no de 1954. Chega a ser levemente vergonhoso saber que uma história tão requentada ainda pode ser contada mais uma vez, afinal, pouquíssimas pessoas aturam café velho colocado novamente no fogo para uma tentativa pífia de agradar o paladar de alguém. No entanto, dependendo do tratamento dado para a história e como ela é conduzida por seu diretor, é possível acompanhar um remake no mínimo respeitoso à obra original (ou, aqui, às obras). Não é o caso.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Não que o ator Bradley Cooper seja incompetente. Sabemos que ele não é. Como ator, pelo menos, cumpre seu papel. Não é o melhor e mais empolgante ator do mundo, mas entrega um Jack honesto. Jack, aliás, é um personagem que cambaleia entre o clássico alcoólatra irrecuperável e o ultrarromântico idealizado: ora se entrega ao copo de bebida ou à cocaína quando percebe que, mais uma vez, a vida lhe escapa entre os dedos, ora trata a mulher que literalmente acabou de conhecer como a principal musa de sua vida. Claro que, para uma audiência no geral, o romance que se inicia entre ele e Ally é algo, digamos, “bonito” de se ver, já que conta com piadinhas leves sobre anatomia facial da moça (uma piada que obviamente vai se tornar bordão ao longo do filme), troca de olhares intensos e todos os clichês possíveis de comédia romântica para acompanhar.

Mas se analisarmos com cuidado o desenvolvimento da própria narrativa e como esses personagens se movem nela e, mais ainda, como eles se expandem nela, o buraco começa a ficar mais embaixo. Isso porque tudo parece, ao mesmo tempo e estranhamente, rápido e lento demais. Explico: o filme tem dolorosas, arrastadas e tediosas 2h16 de duração e, ainda assim, toda a sequência de acontecimentos parece se dar de maneira muito rápida e artificial. Em breves momentos, conhecemos Jack, para logo depois conhecermos Ally, para logo depois sabermos que ela canta magnificamente bem, para logo depois vermos os dois se encontrando, para logo depois ambos se apaixonarem perdidamente e por aí vai. Um tédio sem fim.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Porém, existe a música salpicada nesse marasmo todo. E aí não há escapatória, porque de maneira muito esperta a produção do longa escalou nada menos que Lady Gaga para o papel de Ally. E mesmo que o público não goste do estilo musical da cantora, é inconcebível esse mesmo público não reconhecer nela uma baita cantora – não só talentosa, como verdadeiramente artística. Suas músicas, sua interpretação e suas nuances vocálicas são respiros muito bem-vindas durante a projeção. Momentaneamente saímos da chatice sem fim de um roteiro magro sobre um cantor alcoólatra que não define mais a realidade de sua realidade e sua repentina paixão sem medidas por uma cantora talentosa, e é o que salva.

No entanto, a estrela principal da obra não é a personagem Ally. É, em suma, sua intérprete, Lady Gaga. Não apenas pela potência de sua voz, sua interpretação impecável como verdadeira cantora, mas porque o que vemos na tela pode não ser apenas uma ficção que está no processo de diversas versões desde os anos 50, e sim a história da própria Gaga, resguardadas as devidas diferenças. Temos ali uma desconhecida que trabalha naquilo que não gosta, mas tenta se inserir no mundo da música de alguma forma. Quando é descoberta por um produtor, passa a se vender para um pop genérico, insosso e desesperador de acompanhar. Inclusive, talvez esse momento seja o maior furo do roteiro de Nasce uma estrela: se no início do filme Ally faz questão de mostrar seu descontentamento com aqueles que comandam a indústria da música – os homens, é claro -, logo depois ela mesma vai se render a um homem que a manipula de diversas formas através da maneira, talvez, mais sacana de se manipular alguém: a passivo-agressiva. É com esses deslizes que o filme vai perdendo as próprias tentativas de criar personagens marcantes. Ao fim, eles parecem planos feito herói e mocinha de novela das sete.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Se a intenção de A star is born era ser um filme musical, podemos dizer que foi razoavelmente bem sucedido – mas a direção nada criativa de Bradley Cooper nesse sentido não ajuda a trazer brilhantismo para os números musicais. Se a intenção era ser um romance, mirou no romântico clássico, acertou o folhetim barato de revista erótica de banca, uma coisa meio Sabrina. Se a intenção era ser um filme com toques de comédia, devemos admitir que faz algumas tentativas com bons resultados, mas que se perdem no melodrama grudento da maior parte do longa. Por fim, se a intenção era fazer sucesso, tristemente tudo isso que critiquei antes será, sem dúvida alguma, elementos prontos para alavancar a bilheteria do filme. Afinal, é um longa-metragem estrelando Lady Gaga e Bradley Cooper, com muito romance, comédia, drama e um toque de melancolia sem-vergonha. Ah, tem também uma morte pra fazer todo mundo chorar. Pode ser dela, pode ser dele, pode ser do cachorro. Qualquer uma vai fazer o seu amigo vender o filme para você dizendo que foi um filme “lindo, maravilhoso, me fez chorar muito”. Mas não se engane. É um filme raso. Bem raso. Talvez seja por isso que a própria Lady Gaga canta uma música chamada “Shallow”.

pôster

Pôster: InSync Plus, 2018

A star is born, dirigido por: Bradley Cooper; escrito por: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters (baseado nos roteiros de Moss Hart, de 1954, e de John Gregory Dunne, Joan Didion e Frank Pierson, de 1976 – cujas histórias são baseadas numa história de William Wellman e Robert Carson).

Com: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot, Anthony Ramos, Rafi Gavron, Andrew Dice Clay.

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La La Land: cantando estações

Desde pequenos, consumimos (no sentido ruim, na maior parte do tempo) a ideia de que buscar nossos sonhos é o que mais importa em nossa vida. Se estamos infelizes, é porque não atingimos o objetivo vital de desenvolver aquele projeto que coça dentro de nossa cabeça há anos, não estamos trabalhando naquele emprego que sempre quisemos, não estamos escrevendo o livro que deveríamos ter começado há muito tempo, não estamos isso, não estamos aquilo. Programas de TV, propagandas, séries e, principalmente, filmes sempre nos dizem isso: você precisa correr atrás dos seus sonhos.

Bem, é uma possibilidade tentadora e que, sem dúvida, nos move sempre em busca de algo maior e melhor, não importa o que necessariamente seja para cada indivíduo. Afinal, manter-se no ócio, parado, deixando a vida passar, enquanto oportunidades podem aparecer e se desmanchar diante de nossos olhos é uma situação que muitos têm horror só de pensar, ainda mais em um século repleto de tecnologias, facilidades, vai-e-vem, cobranças, produções, touchscreensstreamings para todos os lados. Se a teoria da modernidade líquida já está mais do que provada, e se estamos deixando essa modernidade vazar para a esfera sentimental, desmanchando também as relações humanas, precisamos urgentemente buscar nossos sonhos. Ou é, pelo menos, o que produtos culturais nos forçam a acreditar.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A propósito, sempre evito relacionar a palavra “produto” ou o verbo “produzir” com o substantivo “cultura” ou o adjetivo “cultural”. Passa a impressão de que uma arte, seja ela de que tipo for, precisa ser produzida; ou seja, ela tem prazos, obrigações, pontos a serem cumpridos, objetivos a serem atingidos, ou a satisfação não será completa. Como qualquer outro produto que saia das entranhas de uma indústria – ou pior: de uma corporação gigantesca, com seus tentáculos atingindo diversos lugares, situações e camadas sociais. Mas é uma obrigação à qual me submeto às vezes por um motivo muito simples: sempre vivemos e continuaremos a viver diante de obras (como as cinematográficas) que foram produzidas – no sentido que dei no começo desse parágrafo mesmo – para serem consumidas rapidamente. De certa forma, isso não é ruim. Dentro de uma cultura de massa, é natural um degradê de filmes, livros, pinturas e músicas que vão desde a mais popular, atingindo a maioria das pessoas, até a mais específica, a mais difícil de ser entendida, compreendida, interpretada.

Estou tocando nesse ponto (delicado, na maior parte das vezes) pois La la land: cantando estações traz um pouco disso à tona. Não apenas em seu próprio roteiro, como tema principal na motivação de seu casal de protagonistas, mas em sua história também: toda a concepção, gestação e o enfim nascimento do filme custou muito tempo e provavelmente muitas noites mal dormidas ao seu diretor e roteirista, Damien Chazelle. E essa história é a prova de que Hollywood ainda teme investir em filmes que, a princípio, parecem ser mais uma paixão particular de seu principal realizador do que uma produção massificada, enlatada e instantânea – sinônimos adoráveis para um provável sucesso comercial e econômico, um objetivo mais palpável para os cofres dos estúdios cinematográficos.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E apesar de ser um musical – um fator que pode aproximar e afastar públicos com a mesma intensidade -, La la land não é um filme apenas com músicas bonitinhas, passos de dança bem coreografados e planos-sequências planejados com cuidado. Ele possui sua essência, uma alma que sente pelos acertos do passado através de uma nostalgia expressada por Mia (adorável com a interpretação de Emma Stone) com sua adoração ao cinema da era de ouro e Sebastian (mais apagado por causa de Ryan Gosling) e a admiração gigantesca que nutre pelo jazz. Se o casal sente falta de épocas que não voltarão, o diretor Damien Chazelle parece sentir falta do filme leve, do cinema que encanta pelo canto, que enche nossos olhos por meio de sua principal característica: a imagem em movimento.

Junta-se, então, essas paixões nostálgicas e temos um filme colorido, pulsante e ensolarado desde os seus primeiros minutos. As cores, aliás, estabelecem o clima com um logotipo do estúdio Summit Entertainment artificialmente envelhecido para parecer vintage, além do primeiro card de créditos iniciais ser, assim como nos clássicos musicais da década de 50, “apresentado em CinemaScope”. Apresentado e não filmado pois a produção de La la land não usou lentes CinemaScope – essas foram criadas em 1953, uma tentativa do cinema para combater o eminente e recente sucesso da televisão com o público, fazendo com que os filmes, a partir de então, fossem apresentados em um aspecto de tela muito mais largo (sim, nascia, aí, o formato widescreen que temos até hoje). E o card em si também indica o clima do filme: surge em preto e branco, com seu título cortado em ambos os lados, e vai enlarguecendo, tomando toda a tela do cinema, tornando-se colorido e ressaltando o amarelo e o pink do “CinemaScope” ali escrito.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A partir dessa introdução, La la land não descansa. Com um plano-sequência inicial no meio de um congestionamento de Los Angeles, o filme já deixa claro a seu espectador que sim, haverá muitos números músicais; sim, vai ter gente cantando e dançando em situações nada comuns para uma cantoria e uma dança bem coreografada; sim, vai ter traseira de caminhão sendo aberta para revelar… uma banda completa de percussionistas. Se você passar por todas essas cenas e mesmo assim se sentir confortável o suficiente para encarar o restante, parabéns, você pode encarar La la land numa boa. O que é irônico, já que, daí em diante, os números musicais são bem mais coesos, encaixando-se organicamente a cada situação da história, principalmente quando têm a presença de Emma Stone e Ryan Gosling.

Stone, inclusive, entrega um trabalho na medida, sem emoções excessivais que poderiam facilmente estragar suas cenas mais dramáticas. Ao tentar fazer o público rir, ela consegue de maneira natural. Ao tentar fazer o público chorar também. Já Ryan Gosling, apesar de mostrar-se confortável com os infinitos sapateados e passos de valsa, além de emitir um tanto de charme considerável quando está diante das teclas de um piano ou sintetizador, faz o ritmo do filme cair negativamente quando precisa travar diálogos – com exceção, é claro, da cena em que discute o momento em que se encontra na vida com Mia, num jantar à luz de velas, um dos pontos altos do longa.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E por ser um musical, ser repleto de cores e movimentos, ter como essência a imagem e a luz, La la land não poderia deixar a desejar com sua fotografia. E não deixa. Temos planos-sequência milimetricamente planejados, com direito a câmeras que pulam de um canto a outro feito estilingues, outras que mergulham em piscinas e saem delas com a mesma facilidade, além de uma paleta de cores que presenteiam os olhos dos espectadores com pores-do-sol azuis-arroxeados e céus estrelados que vão do azul mais aveludado ao negro mais intenso.

Ao final, a impressão de que vimos um filme superficial, mais um entre tantos que pregam a busca de um sonho aparentemente impossível, pode nos tentar. Mas se analisarmos bem, La la land tenta passar sua essência não através de um desenvolvimento exemplar de personagens, muito menos por meio de discussões filosóficas; sua coluna vertebral é formada por sonhos, e eles são realizados em cada sequência musical apresentada, nos detalhes dos cenários, na escolha da cor do figurino de cada ator e figurante, nos arranjos da música composta por Jason Hurwitz. Mais do que isso, o roteiro também deixa espaço para uma melancolia necessária. Uma possibilidade negativa no meio de tanta busca por sonhos, sorrisos, danças e músicas alegres. Um ponto essencial para manter os pés no chão, mesmo que, de vez em quando, é gostoso ver atores voando para dançar uma valsa nas estrelas. Literalmente.

» Nesse link você pode ver uma montagem mostrando todas as referências a filmes e musicais que La la land faz ao longo de sua projeção.

» E nesse há um texto da Vanity Fair falando um pouco sobre a dificuldade de um diretor persistir em seus projetos pessoais (muitas vezes ignorados pelos grandes estúdios). O texto está em inglês.

poster

Pôster: LA, 2016

La la land, escrito e dirigido por: Damien Chazelle

Com: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, J. K. Simmons, Finn Witrock

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