Filmes

A Espuma dos Dias

Assistir a um filme que utiliza efeitos especiais mecânicos e que faz questão de mostrar ao espectador que não está preocupado com uma verossimilhança correspondente ao mundo real é praticamente um choque para os dias de hoje. Nós, como público acostumado à capacidade de criar, através da computação gráfica, elementos fantásticos que Hollywood tem, sofremos um estranhamento muito grande quando assistimos a um filme como a nova obra de Michel Gondry.

A Espuma dos Dias é baseado no livro homônimo de Boris Vian, romance que conseguiu uma legião de fãs desde que foi publicado, principalmente entre os adolescentes. A propósito, a evolução a que os personagens principais do filme são submetidos é uma grande metáfora do amadurecimento que passamos quando saímos da adolescência e pisamos nos primeiros degraus da fase adulta: quando o apaixonado Colin descobre que vai precisar gastar muito dinheiro com o tratamento de sua esposa Chloé, pela primeira vez na vida ele vai procurar por um emprego. E, ironicamente, torna-se a pior fase de sua vida.

Imagem: StudioCanal, 2013

Imagem: StudioCanal, 2013

O filme conta a história de amor entre Colin e Chloé. Ele, um rapaz desajeitado e que estraga a única cantada que funcionaria com Chloé quando a conhece; ela, uma moça de semblante alegre e que vai se abrindo cada vez mais para o amor puro e doce que cresce quando se casa com Colin. No entanto, a história trata de mostrar que o que está suave e onírico no princípio, com o tempo as adversidades da vida a dois passam a obscurecer a relação, deteriorando pelas bordas e chegando ao centro do sentimento. É nesse momento que Colin precisa encarar as responsabilidades que até então não faziam parte de sua vida e, principalmente, tomar decisões difíceis que envolvem a pessoa que mais ama.

Gondry não teme a adapatação do livro de Vian, que moldou sua própria poética quando começou a trabalhar com cinema, como afirma o próprio diretor. Para quem não conhece a narrativa de Boris Vian, fica visível no filme de Gondry: é constante a brincadeira com as palavras e seus significados, sem contar o clima de desenho animado que impera desde o início do filme (as pernas alongadas, como se fossem de borracha, quando os persongens vão dançar, é um dos exemplos mais evidentes). É nesse sentido que o diretor prezou por efeitos mecânicos, que realmente existissem e dividissem a cena com os atores, como a realização de stop motion em diversas tomadas e o back projection em outras, emulando filmes de décadas passadas.

Imagem: StudioCanal, 2013

Imagem: StudioCanal, 2013

O mais interessante, porém, é ver como os espaços interiores e a utilização de variadas paletas de cores moldam o clima do longa. Em dado momento, o quarto de Colin e Chloé transforma-se em um cômodo arredondado; o apartamento do casal, conforme a doença pulmonar de Chloé se alastra, muta-se em um espaço sombrio, claustrofóbico, enclausurando-se em si mesmo. Outra metáfora brilhante é o vício que o amigo de Colin, Chick, possui: fissurado por um escritor de nome Jean-Sol Partre (um trocadilho espirituoso, diga-se de passagem), Chick passa os dias gastando seu raso dinheiro em livros e mais livros, chegando ao ponto de empobrecer e, mesmo assim, continuar sentindo a necessidade de consumir cada vez mais as palavras sem sentido do escritor esquisitão, situação que tem um desfecho tragicômico nas mãos da namorada de Chick, Alise.

É importante falar sobre a qualidade da atuação do trio principal: Romain Duris não ofusca as demais atuações, e sim divide a responsabilidade de carregar a história com a bela interpretação de Chloé que Audrey Tautou realiza e com a leve e engraçada representação de Omar Sy para o cozinheiro e faz-tudo Nicolas, alívio cômico em muitos momentos do filme. Gondry faz questão de centralizar seu filme nas atuações de cada um, acompanhando os atores com sua câmera inquieta e divertida e com a edição rápida e cartunesca. Tudo isso melhorado com uma trilha sonora única.

Imagem: StudioCanal, 2013

Imagem: StudioCanal, 2013

A Espuma dos Dias lembra, então, que ainda é possível realizar uma obra cinematográfica utilizando-se de boas atuações e traquinagens mecânicas. E que mesmo em uma situação alegre e confortável da vida, sempre haverá o lado preocupante e cheio de tristezas e incertezas. Não é à tôa que a fotografia do filme começa com um saturado bonito e, com o desenrolar da trama, passa pelo azul melancólico e, por fim, apresenta-nos um desfecho no solitário e desolado branco e preto.

Pôster: Le Cercle Noir

Pôster: Le Cercle Noir

L’écume des jours, dirigido por Michel Gondry; escrito por Michel Gondry, Luc Bossi (baseado na obra A Espuma dos Dias, de Boris Vian).

Com: Romain Duris, Audrey Tautou, Omar Sy, Gad Elmaleh, Aïssa Maïga, Charlotte Le Bon.

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