Filmes

Os Oito Odiados

As primeiras imagens que o público vê em Os oito odiados (The hateful eight, 2015) são montanhas e colinas cobertas por uma grossa e hostil camada de neve. Toda aquela brancura sugere – além da obviedade de um lugar inóspito, esquecido, solitário – um perigo silencioso, a preparação para um estouro sem volta. O corte surge para dar espaço a um close quase cirúrgico sobre uma imagem de Cristo na cruz. A câmera de Tarantino, aos poucos, vai passeando em torno do rosto castigado do homem crucificado enquanto os créditos iniciais pipocam na tela; e permanece nesse vaivém lento por longos minutos, não realizando concessões ao espectador moderno. Aliás, uma das qualidades do 8º filme de Quentin Tarantino é justamente a sua calma ao expor personagens, diálogos e situações. Não há pressa para o desenrolar dos fatos.

Não é de hoje que o roteirista e diretor mostra seu apreço pela metalinguagem. O amor que sente não apenas pelo cinema, seus gêneros e preciosismos, mas principalmente pelo ato de contar uma história através de imagens, foi o principal fator para seu sucesso dentro da indústria cinematográfica. A maior ironia, no entanto, é Tarantino ser um roteirista que preza pelo contar literal de histórias: seus personagens fazem questão de relatar casos e causos nos mínimos detalhes, sendo a verborragia, desse modo, uma das características do cineasta. E é essa verborragia que instala a tensão necessária para os clímaces de seus filmes; é a longa conversa inicial entre um general nazista e um suposto camponês em Bastardos inglórios (Inglourious basterds, 2009) ou o extenso jantar na sala suntuosa do escravagista Calvin Candie em Django livre (Django, 2012) que deixam o público tenso, preso às poltronas, com as palmas das mãos suadas. Pois sabemos e esperamos, a qualquer momento, por um dos personagens berrando impropérios e sacando sua arma para explodir cabeças.

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Imagem: The Weinstein Company, 2015

Em Os oito odiados não será diferente. E seus diálogos aparentemente intermináveis alcançam um nível de tensão maior aqui. Diferentemente de Kill Bill (idem, 2003, 2004), por exemplo, o novo filme tarantinesco é o que costumamos chamar de “filme de câmara”. Os personagens estão confinados num mesmo ambiente, um encarando o outro, e a tensão é palpável. Um prato perfeito para dar vasão à palavra e não à ação propriamente dita, essa deixa é aproveitada no roteiro tanto para o desenrolar dos fatos como para uma apropriação da metalinguagem como estilo. Se em Jackie Brown (idem, 1997) Tarantino repete toda uma cena de um ângulo diferente, em The hateful eight o diretor se entrega a pausas na cena com direito a um narrador explicando o contexto, além de flashbacks que podem parecer um acréscimo desnecessário à trama em um primeiro momento, mas que enriquecem a composição de personagens ao final.

Aliás, se fosse para indicar dois pilares que sustentam de maneira concreta o longa, esses seriam os diálogos em si e a composição de personagens. O detalhe do carrasco John Ruth (interpretado por Kurt Russell) limpar cuidadosamente a boca de sua prisioneira, a incrível Daisy Domergue (interpretada majestosamente por Jennifer Jason Leigh), enquanto essa come um guisado com a avidez de uma faminta, mostra o cuidado de Tarantino ao conferir nuances a seus personagens, capazes de se violentarem até a morte e, por outro lado, se darem o luxo de demonstrar carinho – mesmo que por poucos segundos – e, assim, transformá-los em seres dotados de um gradiente completo de sentimentos e condutas, e não simples personagens planas (o mocinho somente bom e o vilão somente mau).

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Imagem: The Weinstein Company, 2015

É através de um dos personagens, inclusive, que o diretor irá brincar com o público. Em dado momento, o Major Marquis Warren (interpretado por Samuel L. Jackson, divertindo-se à beça no papel) relata um acontecimento vivenciado por ele e um personagem que se relaciona com uma das pessoas presentes dentro da cabana. Enquanto conta o que ocorreu, Tarantino intercala suas falas com imagens sobrepostas, seguindo o ritmo do relato do Major – em um momento, o próprio Major diz, olhando direto para a câmera, “está imaginando, não?“. Sua fala, claro, é para o interlocutor em cena, mas o diretor, em um capricho próprio ao seu estilo, faz questão de filmá-lo de frente, como se sua pergunta também fosse para a plateia que o assiste (e que, invariavelmente, também imagina o que aconteceu conforme ele conta a história). Ora, esse não é o princípio de uma narrativa? Lemos um livro e imaginamos a história conforme passamos por suas páginas. Mas aqui torna-se irônico pois o princípio do cinema é outro: contar uma história a partir de imagens, e não palavras.

Mas Tarantino não está “interessado” em sobrepor a imagem, elevá-la a um patamar maior; seu Os oito odiados vai se aproveitar do impacto da imagem da metade da projeção para frente, a partir do ponto em que o famigerado clímax tarantinesco se inicia. De repente, então, somos lançados em um conto de mistério à lá Agatha Christie quando um dos personagens flagra o ato ilícito de outro e resolve guardar esse segredo para si; a consequência de tal decisão irá desencadear em jorros de sangue e mutilações diversas – toques artísticos que não podem faltar, afinal, é um filme de Quentin Tarantino. Assim, temos um conjunto de preciosismos caros ao diretor e roteirista, mas também caros ao filme em si, pois sem eles a experiência de público em Os oito odiados seria irrevogavelmente afetada.

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Imagem: The Weinstein Company, 2015

Dito tudo isso em relação aos aspectos técnicos (e citando rapidamente a escolha de fotografia, Quentin Tarantino e seu diretor de fotografia, Robert Richardson, decidem registrar as cenas em um aspecto de tela ultra largo – o longa foi totalmente filmado em 70mm -, tornando o filme ainda mais irônico, pois grande parte da projeção se passa em um espaço fechado, subvertendo a escolha tradicional de se fotografar cenas exteriores com aspectos de tela mais alargados), ainda há fôlego para dissecar The hateful eight: não contente apenas em confinar personagens tão antagônicos em uma mesma cabana, Tarantino faz questão de caracterizá-los de uma maneira nem um pouco arbitrária: tem-se ali o Carrasco, o Representante da Lei, o Representante Militar, o Imigrante, entre outros; mas tem-se, principalmente, a Mulher. E é interessante notar como cabe a ela a posição daquela que afeta a Ordem (seja essa uma ordem moral ou social) e, também ironicamente, a que apanha de praticamente todos os demais envolvidos na situação. Porém, ao contrário do tradicionalmente tratamento dado a uma personagem feminina, Daisy Domergue apanha, mas faz questão de demonstrar que nenhum ato de violência desferido contra si a torna mais fraca; a cada porrada levada, a personagem devolve com um comentário ofensivo, corrosivo ou simplesmente de total desprezo. Assim sendo, a cabana de Tarantino não representa apenas o ponto de encontro de personagens encurralados pela violenta nevasca lá fora: ela é a reunião de estereótipos de uma sociedade problemática. E se vários homens e uma única mulher estão presos em um mesmo local e, dessa forma, obrigados a conviver com o mínimo de respeito, não demora muito até o instinto humano aflorar. É o momento, então, da velha violência estilizada de Tarantino entrar em cena.

Curiosidade: para quem estranhou a falta da famosa “ponta” sempre realizada pelo diretor, neste filme Tarantino também faz uma participação especial, mas como o narrador em algumas cenas – o que reforça sua metalinguagem.

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Pôster: Leroy and Rose, 2015

The hateful eight, escrito e dirigido por: Quentin Tarantino.

Com: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demian Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern, James Parks, Channing Tatum.

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