Filmes

mãe!

Tente lembrar quantas vezes você se sentiu incomodado em uma sessão de cinema. Algo ali nas cenas daquele filme não o deixava à vontade em sua poltrona. Algo presente naquele filme realmente fez seu cérebro coçar. Ao longo da sessão de mãe! (mother!, 2017) eu senti dois impulsos: o primeiro, quase ao final da projeção, de me levantar e simplesmente sair da sala; o segundo, após a sessão, de não ter palavras o suficiente para criticar um filme tão ruim, tão gratuito e tão pretensioso quanto esta última obra de Darren Aronofsky. Vou tentar detalhar os dois lados que travaram uma briga interna ao longo de todo o filme, mas o mais frustrante é ainda não ter decidido qual ganhou, o racional ou o emocional. Se pensarmos bem, ao longo da história da arte, encontramos muitos exemplos de obras que foram pensadas e concebidas para causar incômodo em seus espectadores.

Tomemos, inicialmente, como exemplo, a pintura.

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“O pesadelo”, de Henry Fuseli: o incômodo na elegância dos detalhes

Você pode se esbaldar no Google com exemplos de quadros pintados com a intenção de despertar nojo, asco, repulsa, raiva ou medo. São sentimentos humanos importantes até para a sobrevivência, refletindo para um lado mais prático, e artistas de todas as gerações se apropriaram da ideia para compor seus trabalhos. Lembro-me de um bom quadro que utiliza tais elementos: “O pesadelo”, de Henry Fuseli, um óleo sobre tela atualmente exposto no Detroit Institute of Arts.

Apesar de não encontrarmos ali elementos que nos causem repulsa ou asco (sensações mais intensas, podendo até se manifestar de maneira física), a imagem contém detalhes interessantes. Partindo da temática de um sonho ruim, o artista representa com poucos pontos a intensidade de vivenciar uma situação muito incômoda, porém imaginária. O pesadelo, foco de estudo não apenas da arte, mas também de diversas ciências, é representado na obra de Fuseli por um pequeno demônio materializado em cima do peito de uma mulher que passa pelo pesadelo, além de uma cabeça de cavalo – aparentemente cego. O que nos causa estranheza não é, obviamente, a mulher que lá se encontra retorcendo-se enquanto passa pelo pesadelo; o rosto do demônio, virado diretamente para o espectador, e a forma como ele se deposita sobre o peito da moça faz com que relacionamos de maneira imediata com a sensação terrível de um pesadelo: até um certo nível, podemos saber que aquilo não é real, mas não conseguimos escapar da situação, ela está sobre nós, apertando nosso peito de maneira inconfundível.

A estranheza, na pintura, parte de um sentimento de incômodo, podendo aumentar e chegar a um nível mais intenso, dependendo da recepção de cada indivíduo ao contemplar a obra. Assim, a intenção de representação de um pesadelo associa-se a uma sensação já conhecida por aqueles que já passaram por um pesadelo do qual não conseguiam escapar. Ao encarar a pintura de Henry Fuseli e sentir a estranheza de ver um ser demoníaco sentado sobre o peito de uma moça que se retorce, inconsciente, consigo relacioná-la à sensação que tive quando, a um certo nível, sabia estar dentro de um pesadelo, mas não podia ou não conseguia acordar para me ver livre daquele momento ruim. Meu ponto é: Henry Fuseli não precisou abrir mão de sua elegância para causar incômodo em mim.

Pensemos agora na música.

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“Black lake”, por Björk: o incômodo pessoal expresso através da música

Em 2015, após um hiato de quatro anos, a cantora islandesa Björk lançou um disco intitulado Vulnicura, um neologismo que se aproveita do latim clássico, significando “a cura de uma ferida”, traduzindo, aqui, de maneira bem literal e despreocupada. Uma das músicas, “Black lake“, possui mais de dez minutos de duração – um verdadeiro suplício para a maioria das pessoas. A temática do álbum, porém, gira em torno da experiência vivida pela cantora após o término de uma relação que mantinha por anos com seu ex-marido. Ou seja, se Björk propôs-se uma catarse pessoal para exorcizar os demônios sobre seu peito em relação ao processo de separação pelo qual passou, nada mais compreensível do que representá-lo através de uma música difícil de ser ouvida.

Vulnicura, apesar de uma abertura convidativa e lírica, é um disco que vai contra as expectativas de qualquer pessoa, inclusive dos fãs da cantora. “Black lake”, como citado, é uma música longa e triste, expondo todas as feridas mais profundas para que sejam metaforicamente curadas. É uma canção que incomoda, que não nos deixa feliz. Porém, assim como na pintura de Fuseli, o incômodo gerado em “Black lake” não ultrapassa o limite do “aceitável”. Para aqueles que já passaram por um processo de relacionamento-separação, a identificação música-espectador ocorre de maneira profunda sem que o ouvinte reaja de maneira violenta. Assim como Fuseli, Björk também mantém uma elegância.

E então chegamos ao cinema.

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“Anticristo”, 2009, de Lars Von Trier: o mau gosto

Mas antes de comentar minha visão e experiência com mother!, gostaria de lembrar de um outro filme que também me incomodou muito quando o vi pela primeira vez: Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars Von Trier. Penso nesse exemplo porque, após alguns dias terem passado e minha raiva contra mãe! e Darren Aronofsky terem assentado, lembrei que, apesar dos pesares, Anticristo é um filme que me agrada. Não no sentido literal, é claro, já que ele possui sequências de extremo mal gosto, mas como filme, num geral, é uma obra da qual posso debater com quem estiver disposto por um bom tempo sem liquidar interpretações e teorias. E foi exatamente essa comparação que me deixou mais intrigado: por quê, afinal, eu gostei de Anticristo e simplesmente detestei mãe!?

Vamos, primeiro, aos fatos. mother! não é um filme literal. Se você está indo ao cinema em busca do novo filme de Darren Aronofsky cujo gênero é terror/suspense, já começou errado. Propositadamente vendido pela Paramount como um filme de terror, mãe! vai subverter tal conceito logo nos primeiros dez minutos de projeção. Apesar de conter elementos de suspense na primeira sequência – aquela com câmera na mão, acompanhando Jennifer Lawrence pelas costas ao longo de cômodos vazios de uma casa não muito amigável -, o longa toma um caminho diverso, e no sentido de não se encaixar em nenhum gênero exato, importando-se mais em realizar alegorias temáticas do que apresentar uma história mastigada.

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Imagem: Paramount Pictures, 2017

Por um lado, é louvável que Aronofsky idealize um projeto com tais intenções. Sofremos uma falta de filmes financiados por grandes estúdios que tirem o espectador de seu estado de conforto e alienação. Não que ir ao cinema por puro entretenimento seja algo ruim e execrável, mas ir apenas com tal intenção nos empobrece. Mas, por outro, é triste – mais que isso, é entediante – observar que o diretor apresente uma obra pretensiosa. E afirmo isso porque, talvez, seja um dos pontos que mais me incomodou: a mensagem, praticamente gritada, a todo tempo, no estilo “estou fazendo um filme cabeça! Você precisa ter referências para entender o que está acontecendo! Tudo aqui é metafórico! Sou muito foda no que faço!”. E isso incomoda. Não o incômodo do demônio me encarando na pintura de Fuseli, não o das cordas tristes e melancólicas de “Black lake”. mãe! me incomoda por ser um filme que já parte do princípio de que é bomcabeça o suficiente para causar confusão e divisão de público.

E ele causa.

O que me remete imediatamente a outra obra de Aronofsky, o já consagrado Cisne negro (Black swan, 2010). Apesar de temáticas opostas e serem obras com intenções divergentes, Cisne negro ainda assim também possui seu nível de incômodo proposital. Trabalhando com a questão do duplo no ser humano, o filme possui a pretensão de nos confundir a ponto de partirmos de uma simples história sobre uma bailarina ambiciosa e terminarmos em um O médico e o monstro atual. Seu final, poético e sublime, toma o caminho oposto da deselegância de mãe!. Confesso que, ao fazer esse paralelo pela primeira vez, questionei-me se realmente não seria a intenção do diretor de compor uma obra como mãe! proposital, com a intenção de trabalhar em um espectro que fosse do mais sutil ao mais grotesco em questão de segundos. E poderia ser isso mesmo, caso (de novo) ela não fosse tão pretensiosa. Uma obra cinematográfica que idealiza o grotesco e o mau gosto como propósito principal assume tal papel desde sua concepção. É o caso, por exemplo, de Pink flamingos, um filme de 1972 que assumiu seu papel de grotesco desde a produção – de orçamento irrisório – e contém, dentre outras “excentricidades”, uma cena de degustação de cocô de cachorro. Isso sem contar todos os filmes produzidos essencialmente nos anos 80, quando o gênero trash despontou.

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Imagem: Paramount Pictures, 2017

Dessa forma, permeando analogias que, em sua maioria, aproveitam-se de histórias e elementos bíblicos, mãe! pode ser interpretado de maneiras diversas. É possível uma leitura religiosa e de como a presença de uma religião pode ser muito nociva a uma cultura; é possível também uma leitura mais artística, pensando no papel de Javier Bardem como poeta e nos ciclos pelos quais ele passa (inspiração-concepção-publicação-hiato-bloqueio criativo-inspiração-concepção-publicação e assim por diante), tomando também o papel de Jennifer Lawrence como a musa inspiradora ou, mais literalmente ainda, a própria obra de arte; além da leitura ambiental, com a Mãe sendo, nada mais, nada menos, que a Mãe Natureza em si (apesar de fazer sentido, particularmente é uma das leituras que menos me agrada). Desse modo, o público que possuir um pouco mais de discernimento e leitura poderá criar teorias e interpretações a seu bel-prazer. Volto, no entanto, ao mesmo ponto: o problema de mother! não é ser aberto a interpretações, seu principal defeito é pecar pela própria vaidade – que, inclusive, é um ponto negativo apontado pela própria Bíblia.

Por fim, após passar por todos esses estágios, compreendi que não apenas a vaidade de Aronofsky e sua pretensão ao já imaginar que eu endeusaria seu filme é que me incomodaram. O que mais me incomodou, no fim, é não saber exatamente o porquê de mãe! ser um filme que me incomodou tanto ao fim de sua projeção. Eu apenas sentia, irracionalmente, uma raiva ampla e intensa contra o longa. E não saber determinar o que me incomodava é o que me incomodou mais. Se a intenção de Aronofsky fosse essa, desde o início, aí então eu devo dar o braço a torcer e afirmar que ele me ganhou nessa. Caso contrário, mãe! não passa de uma masturbação mental feita para aqueles que gostam de interpretar um filme que já espera de você interpretações profundas. E isso, para mim, também é uma forma de alienação.

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Pôster: James Jean, 2017

mother!, escrito e dirigido por: Darren Aronofsky

Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson.

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Filmes

Joy: o nome do sucesso

Não é incomum, no cinema, um diretor ou uma diretora trabalhar sempre com os mesmos atores. Grandes realizadores como Martin Scorsese (com Leonardo DiCaprio), Tim Burton (com Jhonny Depp) e o português Manoel de Oliveira (com Leonor Silveira e Luís Miguel Cintra) optam por escalar às vezes até mais de um mesmo ator ou atriz para compor os papeis de seus próximos filmes. Ver sempre o mesmo ator interpretanto personagens diversas não é um problema que afeta a recepção do público quando o diretor por trás das câmeras é bom naquilo que faz. Johnny Depp – usando um exemplo mais conhecido – encantou público e crítica com seu melancólico Edward em Edward mãos de tesoura (Edward Scissorhands, 1990), surpreendeu com um Willy Wonka ácido e misantropo no remake de A fantástica fábrica de chocolate (Charlie and the chocolate factory, 2005) e, por que não?, emprestou um bom trabalho de voz ao noivo Victor, em A noiva cadáver (Corpse bride, 2005). É claro que sem toda a versatilidade de Depp, tais personagens não teriam saído do papel; a outra metade, porém, ficou a cargo do trabalho de direção de Burton. É um trabalho conjunto, que funciona de maneira ideal se bem equilibrado.

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Imagem: 20th Century Fox, 2015

Com Joy: o nome do sucesso (Joy, 2015), tem-se a mesma situação. Há um tempo o diretor David O. Russell trabalha com a já mais que provada talentosa Jennifer Lawrence. A parceria iniciada em O lado bom da vida (Silver linings playbook, 2012) seguiu em 2013 com Trapaça (American hustle) e continua agora com mais um filme. Diferentemente de Trapaça, no entanto, Joy cai completamente sobre os ombros da atriz. Se a plateia reage minimamente com a história, torcendo para que as ideias da personagem deem certo ou ficando tensa quando a vida de Joy parece voltar à estaca zero, é única e exclusivamente por causa do trabalho em cena de Jennifer Lawrence. Se a intenção ali foi essa ou se o trabalho de O. Russell e sua equipe levaram acidentalmente a um brilho exclusivo para a atriz, não fica claro em um primeiro momento. Os problemas, assim, começam a surgir com o desenrolar da trama.

Não diria que são problemas na história de Joy em si, mas em como ela é contada através da técnica de David O. Russell – se podemos realmente chamar o trabalho do diretor, aqui, de “técnica”. Iniciando o filme com a cena de uma telenovela barata, Joy já adianta para o público (que, claro, ainda não sabe disso) um elemento a ser discutido mais a frente na trama. Seria uma escolha narrativa interessante se a cena lá do meio do filme não soasse tão artificial, tão falsa quanto a da telenovela ruim que abre o longa. E esse artificialismo parece percorrer toda a estrutura narrativa de Joy não só pelas atuações levadas no automático pela maioria dos atores em cena (Robert De Niro, inclusive, poderia nos poupar de tantos papeis vexatórios, principalmente neste filme), mas também pelas escolhas de câmera de O. Russell (sempre passeando em volta dos atores ou realizando closes demorados para indicar uma tensão que já estava clara anteriormente).

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Imagem: 20th Century Fox, 2015

E se a vida de Joy já parece uma mentira logo de cara – a mãe que entope o encanamento com fios de cabelo, o pai que se divorcia pela segunda vez e volta para a antiga casa, brigando com a ex-mulher e quebrando coisas no chão para logo depois pedir desculpas e dizer “vocês não deveriam ter presenciado isso” -, tal sensação só vai agravando com tentativas (mal sucedidas) do diretor ao associar o medo da protagonista com sonhos que se fundem com a novela lá do começo do filme ou com cenas absurdas como quando o pai de Joy decide que a melhor opção para fazê-la dormir bem é dando-lhe três doses de xarope infantil (com o ex-genro falando, de lado, “você vai matá-la“).

Como isso tudo não basta, ainda há tempo e espaço para um roteiro previsível, mostrando os sofrimentos da pobre personagem cujo sonho é patentear uma invenção e tornar-se rica com isso – não por interesse, claro, mas por esforço, transformando sua vida de dona de casa pobre e cheia de problemas, responsável por tudo e por todos, numa vida abastada… cheia de problemas, responsável por tudo e por todos. O público, então, já sabe como aquela história vai terminar por dois motivos: 1) é a velha propagação do american way of life, cheia de muletas narrativas (a primeira tentativa de sucesso que falha, a subsequente perda de paciência da protagonista que deixa de lado a diplomacia e parte para o enfrentamento verbal e, claro, por que não?, uma velhinha narrando a história a ponto de dizer “esta sou eu” quando ela mesma aparece na tela – e nós sabemos que é ela, pelo amor dos deuses!) e 2) David O. Russell não tem criatividade suficiente para nos surpreender com uma história dessas.

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Imagem: 20th Century Fox, 2015

Assim, Joy: o nome do sucesso é um filme totalmente esquecível. Se em Trapaça, David O. Russell nem fazia questão de esconder do público que queria ser um Scorsese – e, sim, não conseguiu -, em Joy ele simplesmente não tenta ser nada. Ou, se tenta, não fica claro. Mas se alguém perguntar se há uma cena no filme que vale algo, seja em aspectos narrativos ou quaisquer outros, seria uma cena simples, quando a filha de Joy reclama com a mãe, dizendo que uma amiguinha a chamou de “filha da faxineira que vende esfregões”. A resposta de Joy? “Eu não sou uma faxineira que vende esfregões. E se fosse, qual o problema? Não tem problema algum ser faxineira, não há problema em trabalhar duro“. É a prova, irrefutável, de que Joy é sustentado por apenas uma atriz e, como cinema, é um péssimo filme.

“Sorte” de David O. Russell que pode contar com Jennifer Lawrence.

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Pôster: BLT Communications, 2015

Joy, escrito e dirigido por: David O. Russell.

Com: Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Robert De Niro, Diane Ladd, Édgar Ramirez, Isabella Rossellini, Elisabeth Röhm.

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