Filmes, Listas

Os 12 Melhores de 2015

Ano novo, lista nova.

Seguindo a tradição, eis aqui mais uma lista, agora dos melhores filmes que vi em 2015. Lembrando que esta lista não é um ranking (os filmes estão em ordem alfabética), mas uma compilação simples dos que considero os melhores do ano passado – sejam eles melhores por sua direção, roteiro, elenco, fotografia ou até mesmo pelo entretenimento propriamente dito.

Excetuando Boa noite, mamãe (Ich seh, ich seh, 2014), que ainda vai estrear oficialmente aqui no Brasil, e Relatos selvagens (Relatos salvajes, 2014), todos os demais filmes estrearam em 2015 nos cinemas brasileiros.

Se você quer dar uma olhada na lista dos melhores de 2014, é só clicar aqui.

1_Birdman

Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância), 2014; dir: Alejandro González Iñárritu

Lembro que houve muita discussão na internet, há um ano, quando Birdman ganhou o Oscar de Melhor Filme. O favorito, claro, era Boyhood. Arrisco dizer que gostei um tanto mais de Birdman do que da saga de 12 anos do Linklater; obviamente não desmereço esta obra, principalmente por sua experiência cinematográfica única… mas Birdman tem um quê especial para cair nas graças das premiações. É um ótimo filme, com seu texto ácido, suas atuações explosivas e um plano-sequência (forjado, vamos ser honestos) atordoador. Michael Keaton no papel principal vai fazer você ter diversas reações e julgamentos ao que é verdade e mentira nesse longa cômico, dramático, aventuresco e, acima de tudo, cinematográfico.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

2_Boa noite, mamãe

Boa noite, mamãe, 2014; dir: Veronika Franz e Severin Fiala

Se você pretende ver um filme de terror repleto de cenas com sangue jorrando, trilha sonora aumentando o volume repentinamente para pular na poltrona e assassino sendo descoberto no final, Boa noite, mamãe não é a escolha correta. O filme preza por algo que está cada vez mais raro no cinema atual: o velho filme de terror que assusta sem ser gratuito, aquele que brinca com nossos medos psicológicos, com os receios mais primitivos. A premissa da história pode até ser batida e a maioria das pessoas corre o risco de sacar a reviravolta do roteiro antes do momento certo, mas ainda assim vale a pena conferir esse filme estranho – porém competente no que promete cumprir.

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3_Corrente do mal

Corrente do mal, 2014; dir: David Robert Mitchell

Com trilha sonora independente e eletrônica, ambientando o filme como se fosse uma peça rara dos anos 80, Corrente do mal tem todo o estilo cru de um John Carpenter. O vilão do filme, no entanto, é invisível, um serial killer transmitido através de um ato primordial para qualquer ser humano e que começa a se manifestar em uma das épocas mais conturbadas: a adolescência. Junte aí a fotografia inteligente e cortes seguidos por cenas perturbadoras. Se você esperar por um final redondinho, então é melhor parar por aí. It follows não se importa em entregar uma trama com começo, meio e fim, e isso já é muito relevante quando se trata de um terror americano.

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4_Divertida mente

Divertida mente, 2015; dir: Pete Docter e Ronniel Del Carmen

Uma das inspirações para os filmes da Pixar sempre foi Hayao Miyazaki e isso sempre ficou claro, tanto para o espectador quanto para os próprios realizadores. Em Divertida mente, porém, a Pixar parece abraçar de vez as melhores influências que o mestre japonês da animação poderia passar e entrega um filme completamente adulto (mas, ainda assim, perfeitamente direcionado para as crianças). Acompanhar a pequena protagonista através de seus sentimentos não é apenas uma sacada que movimenta o filme do começo ao fim, mas sim tentar não se emocionar com diversos diálogos e, o principal, aprender que sem a tristeza, não seríamos felizes. Complexo demais? De forma alguma. Inside out traduz o que há de mais complicado em nossos cérebros da maneira mais lúdica e bonita possível. Filmão.

Clique aqui para ler a resenha do filme e aqui para ver seu trailer.

5_O homem irracional

O homem irracional, 2015; dir: Woody Allen

Assistir a um filme de Woody Allen no cinema é sentir-se em casa. Sabemos como ele começa, com seus créditos em ordem alfabética e uma música aconchegante tocando de fundo (um jazz sedutor), acompanhamos logo depois o personagem principal se apresentando através de uma narração off e, a partir daí, Allen pode nos surpreender. Me parece que o momento de inspiração voltou para o cineasta nesse O homem irracional, com uma atuação interessante de Joaquin Phoenix dentro de uma comédia repleta de ironias e diálogos filosóficos. A ironia principal fica para o final do filme. E vale a sessão.

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6_Jurassic world

Jurassic World: o mundo dos dinossauros, 2015; dir: Colin Trevorrow

A volta de uma das franquias mais famosas do cinema é sempre um terreno perigoso: para os fãs, que esperam sempre uma continuação melhor que a anterior; e para o estúdio, na expectativa de fazer milhões ou até bilhões na arrecadação. No caso de Jurassic world, tudo bem para todos. O filme trouxe o divertimento que faltava a Jurassic park III e o clima de aventura que Spielberg prezou no original. É claro que o filme cai sobre os ombros de Bryce Dallas Howard e Chris Pratt, mas ambos dão conta do recado – ou fugir de um tiranossauro rex usando saltos é pouco para você? Obrigatório para os fãs dos dinos.

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7_Mad Max

Mad Max: estrada da fúria, 2015; dir: George Miller

Vamos chover no molhado e elogiar Charlize Theron e sua Imperatriz Furiosa? Falar bem da (proposital) fotografia acelerada? Da loucura que é acompanhar as perseguições e sequências de ação desse filme? Não importa se você não acompanhou os capítulos anteriores da obra de Miller, Mad Max: estrada da fúria é um filmaço. Não perca a oportunidade de ver um guitarrista fazendo solos enquanto é içado de um carro e a trilha sonora industrial de Junkie XL (o DJ responsável pelo remix de “A little less conversation”, de Elvis Presley).

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8_Missão impossível

Missão Impossível: nação secreta, 2015; dir: Christopher McQuarrie

Quem diria que em 2015 ainda veríamos Tom Cruise como o agente secreto Ethan? E o fôlego é grande, para o ator e para o público também. O filme é divertido o bastante e traz Cruise correndo (de verdade) como se não houvesse amanhã e presente (de verdade, sem dublês) em cenas de ação, digamos, um pouco perigosas – como se segurar à porta de um avião enquanto ele decola, por exemplo. E se você acha que a divulgação em massa dessa cena (em trailer e pôsteres) estraga o filme, está enganado: Nação fantasma ainda guarda muitas surpresas e sequências de ação de tirar o chapéu. Pegue a pipoca e prepare-se para ouvir mais uma vez o tema de Missão impossível tocando na tela.

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9_Que horas ela volta

Que horas ela volta?, 2015; dir: Anna Muylaert

O cinema nacional prova, a cada ano, a sua importância e qualidade com filmes como Que horas ela volta?. Enquanto a maioria das salas de cinema do país passam enlatados como Até que a sorte nos separe e afins, o novo filme da diretora Anna Muylaert surpreendeu não apenas pela sua abrangência, mas principalmente por sua repercussão. Repleto de diálogos cortantes e situações constrangedoras para as camadas sociais mais abastadas – ou não, gente rica sempre acha que está certa -, a obra é Regina Casé e vice-versa. Mas também é a jovem atriz Camila Márdila, roubando todas as cenas em que está presente. Se ver os filmes de Leandro Hassum é uma opção, Que horas ela volta? é uma obrigação cultural (num bom sentido, é claro).

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10_Relatos selvagens

Relatos selvagens, 2014; dir: Damián Szifrón

A linha tênue entre o racional e o selvagem. Quantas vezes pensamos em perder o controle nas mais diversas situações? Bem, o diretor Damián Szifrón faz questão de reunir diversos contos nesse longa surpreendente por sua qualidade técnica e humor negro. Prepare-se para presenciar uma das cenas mais inacreditáveis do cinema, se identificar com a vingança de uma noiva em sua própria festa de casamento e rir da desgraça alheia sem um pingo de culpa. A crítica social está injetada em todos os segmentos, então não pense que não há peso no roteiro de Relatos selvagens. Surpreenda-se com o cinema argentino.

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11_Vício inerente

Vício inerente, 2014; dir: Paul Thomas Anderson

Joaquin Phoenix na pele de um detetive que vive mais chapado com maconha do que na realidade em si. Precisa de mais motivos para assistir a Vício inerente? Claro: a direção sempre maestral de PTA, com sua linguagem cinematográfica através da fotografia noir que registra uma Los Angeles dos anos 70. Isso sem contar a trilha sonora e a presença de cena mais do que bem-vinda da jovem Katherine Waterston. E o roteiro é baseado na obra homônima de Thomas Pynchon – anote esse nome para sua próxima leitura.

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12_Whiplash

Whiplash: em busca da perfeição, 2014; dir: Damien Chazelle

Teste fatal para qualquer cardíaco, o filme que rendeu um Oscar para a embasbacante atuação de J. K. Simmons constrói sua tensão aos poucos, mas ela é inevitável da metade para o fim da projeção. Sinta-se na pele de um aprendiz que deseja ultrapassar a perfeição através do comando de um dos professores mais odiosos que o cinema já teve o desprazer de criar. O mais incrível? O diretor de Whiplash foi um dos roteiristas de O último exorcismo – Parte 2.

Clique aqui para ler a resenha do filme e aqui para ver seu trailer.

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Filmes

Divertida Mente

Steve Jobs decidiu investir no sonho de John Lasseter quando viu que ele e sua equipe eram obcecados por detalhes na produção de seus pequenos filmes, assim como o fundador da Apple era com seus produtos. Com a ajuda monetária do manda-chuva da Maçã, a Pixar lançou-se no mercado com Toy Story (1995), lá nos anos 90. E o sucesso foi estrondoso. Lançamento após lançamento, o pequeno estúdio foi tomando proporções gigantescas, alimentando parcerias e discussões com outro gigante do ramo: a Disney. Nessa história de rivalidades, a velha estratégia do “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” acabou juntando ambas as empresas; afinal, é melhor dividir lucros do que perder para alguém que até outro dia sequer existia.

Talvez o principal elemento para tanto sucesso como o da Pixar vem de uma solução aparentemente simples, mas nem um pouco fácil: seus filmes, desde o início, prezam por contar histórias de pontos de vista distintos, inusitados. Temos o drama da existência a partir da visão de brinquedos em Toy Story; o sofrimento de viver sob um regime autoritário pelos olhos de formigas em Vida de Inseto (A Bug’s Life, 1998); a rotina exaustiva do trabalho dos monstros ao precisar assustar crianças do mundo todo em Monstros S. A. (Monsters Inc., 2001) e, uma das mais audaciosas (e belas) de todas, a apreciação e poesia da culinária por um… rato. Isso, um rato. Em Ratatouille (2007), a Pixar subverteu a ideia de que o animal visto como um dos mais nojentos pelo ser humano seria capaz de ajudar alguém na cozinha.

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

É claro que a filmografia de um diretor ou, no caso, um estúdio não é perfeita. A Pixar também criou pérolas (no mau sentido) como Carros (Cars, 2006) e Valente (Brave, 2012). É preciso aplaudir de pé os magos da computação gráfica comandados por Lasseter que criaram cada fio de cabelo da heroína Merida; mas é difícil suportar um filme tão… Disney como é Valente, com direito a cantorias sem fim e uma história bem batida. Se a Pixar fazia sucesso era justamente por se distanciar da fórmula Disney ao contar suas histórias, com as crianças rindo do humor físico e de personagens alívio-cômico em cada filme e seus pais se divertindo com as referências inteligentes a outros filmes. Sem contar que os roteiros do estúdio emocionam uma pessoa de qualquer idade, seja acompanhando a amizade improvável entre um senhor rabugento e um escoteiro pentelho ou admirando a beleza muda do amor entre um robô depressivo e uma máquina moderna, curvilínea e flat chamada EVA.

A boa notícia, porém, é que a Pixar parece ter retomado o espírito que tomou conta de boa parte de sua existência lançando agora seu mais novo longa: Divertida Mente (Inside Out, 2015). Aquela fórmula de contar uma história, qualquer que seja, através de uma ótica peculiar e emocionante é trazida de volta agora ao acompanharmos a rotina de uma garota de onze anos chamada Riley. A diferença, no entanto, é que, além de conhecermos para onde Riley e seus pais irão morar depois de uma mudança repentina, sua nova casa, sua nova escola, observamos tudo isso de dentro de sua cabeça. Sim, os astros principais de Divertida Mente são as emoções humanas: a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva e o Nojinho. E é por causa dessa ótica que o novo longa-metragem da Pixar parece tanto com a Pixar oldschool: está ali o humor físico para as crianças, mas também se faz presente a beleza da inventividade do roteiro ao ser mostrado cada “setor” da mente de Riley, com corredores labirínticos de lembranças, ilhas (literalmente) de personalidade, um trem (também literal) do pensamento e um local próprio para a produção de sonhos – e aí adivinhem: sim, claro, o lugar é um estúdio de cinema.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

John Lasseter já admitiu diversas vezes que uma de suas grandes influências sempre foi o mestre animador japonês Hayao Miyazaki, responsável por nada menos que Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro, 1988), Princesa Mononoke (Mononoke-hime, 1997) e, seu mais famoso aqui no Ocidente, A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001). Essa influência é muito visível em Divertida Mente, principalmente porque o filme não preza por sequências frenéticas de ação, muito menos busca um humor barato a qualquer custo para ganhar a atenção do público infantil: o filme, logo de início, foca seus esforços na construção adequada da história. O roteiro apresenta personagens esféricas, completas, algo que já afugenta a perigosa possibilidade de se cair em protótipos, já que a intenção principal é mostrar a vida de uma menina através de suas emoções. Assim, a principal beleza de Divertida Mente é provar para o espectador que mesmo a Alegria sendo responsável pela, obviamente, alegria de Riley, ela pode – e muito -, aprender com a Tristeza. Essa personagem, inclusive, possui um dos arcos dramáticos mais poéticos do filme (é difícil não se emocionar com o pensamento de que nós, como seres humanos, precisamos também da tristeza).

E é assim, a partir de pequenos detalhes tanto imagéticos – a Pixar também continua sendo um estúdio que preza por detalhes técnicos, explodindo nossas visões com cenários muito bem construídos – quanto narrativos: em dado momento, há dois empregados responsáveis por apagar lembranças inúteis da mente de Riley escolhendo quais serão descartadas naquele dia; eles, então, decidem por eliminar os nomes das princesas Disney! E quando a Alegria tenta argumentar contra, não há motivos razoáveis para manter tais dados. Essa alfinetada soa tão apropriada para os dias atuais (ainda mais quando o próprio estúdio busca mudar a imagem de suas princesas como ocorreu no sucesso estrondoso de Frozen) como a piada mais do que bem-vinda sobre aqueles comerciais que insistem em tocar em replay em nossas cabeças. É de tudo isso que o público fã da Pixar sentia falta: a união entre a beleza técnica de uma animação gerada por computador com as peças encaixadas organicamente em um roteiro coeso, capaz de gerar riso e, ao mesmo tempo, lágrimas em um piscar de olhos, nunca soando maniqueísta.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Se a tendência, daqui para frente, seguir esse ritmo apresentado em Divertida Mente, então é seguro afirmar que o estúdio voltou a andar sobre trilhos seguros e anda visitando estações boas do passado. Enquanto Carros apelava demais ao público infantil, apresentando até personagens caricatos (o campeão arrogante, o caipira humilde e engraçado e etc…), a Pixar de agora volta a desenvolver personagens que derrubam esses protótipos, demonstrando ser pessoas – ou, no caso, emoções – repletas de desdobramentos. Pois sim: as emoções também tem emoções, e é poético ver a Alegria chorando ao se encontrar em uma situação aparentemente sem saída ou a Tristeza dando um leve sorriso ao notar que, sim, ela também é útil, e bastante, para um ser humano. Seja ele uma menina de onze anos, um escoteiro pentelho ou um velho rabugento.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Nota: o curta-metragem da vez que é exibido antes do filme chama-se Lava e também é poético, sensível e belo. Uma complementação muito agradável ao longa.

Pôster: BLT Communications, 2015

Pôster: BLT Communications, 2015

Inside Out, dirigido por: Pete Docter; escrito por: Pete Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley.

Originalmente com as vozes de: Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kalling, Kaitlyn Dias.

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