Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2016

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

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Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

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O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

» resenha

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Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

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Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

» resenha

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Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

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Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

» resenha

spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

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Filmes

O Regresso

Mas a vingança não está em minhas mãos, e sim nas do Criador.”

Talvez a estreia levemente atrasada de O regresso (The revenant, 2015) no Brasil tenha levado as pessoas a discussões calorosas em redes sociais e seções de comentários por toda a internet em relação a dois aspectos principais do filme: a atuação de Leonardo DiCaprio e a direção de Alejandro González Iñárritu. Se, por um lado, tais pontos são bases importantes para a composição do longa, há o que se refutar diante de tantas “opiniões” esbravejadas. É preciso deixar claro, de antemão, duas coisas: Leonardo DiCaprio pode realmente estar buscando o “papel de sua carreira”, como a mídia está pintando essa sua nova empreitada no cinema, mas isso nem sempre é algo ruim, ainda menos algo pejorativo; e, como ando acompanhando nos últimos tempos – principalmente após a cerimônia do Globo de Ouro –, existe uma séria preocupação do público mais cinéfilo em desvalorizar o trabalho de Iñárritu, antes mesmo de conferir o seu mais novo filme, apenas porque o diretor é declaradamente uma pessoa que reconhece suas qualidades em público, isto é, a humildade não é uma virtude cobiçada pelo mexicano.

Imagem: 20th Century Fox, 2015

Então vamos por partes: em primeiro lugar, a busca de um ator pelo papel que irá lhe render diversos prêmios (olá, Oscar) é algo completamente natural, ainda mais tratando-se de Hollywood. Anne Hathaway, por exemplo, virou figurinha repetida na televisão americana ao divulgar seu papel em Os miseráveis (Les misérables, 2012) como a coadjuvante Fantine, dona de apenas uma cena, mas com a tela toda para si. Chegou a parecer artificial a espontaneidade da atriz ao tratar com tanta vontade sobre como foi difícil perder quilos para parecer, literalmente, uma miserável no cinema. Sua romaria televisiva deu certo, no entanto, levando, no fim, uma estatueta dourada em mãos. Meu ponto é: nós sabemos que a divulgação de Hathaway era puro lobby hollywoodiano; mas isso, no fim das contas, realmente desqualifica o trabalho da atriz em cena? Creio, honestamente, que não. O mesmo se aplica a DiCaprio. O ator, em uma série de entrevistas concedidas à mídia americana, não pestanejou ao “vazar” informações sobre as filmagens, como quando precisou enfrentar temperaturas hostis ou comer carne crua (ainda mais sendo vegetariano). Não sejamos infantis, então, a ponto de dizer que a atuação do rapaz em cena se resume apenas à sua busca pelo tão sonhado Oscar. É mais do que óbvio que o ator quer um Oscar, mas isso não desqualifica aquele que foi catapultado por Titanic (Idem, 1997), passou por uma escola cinematográfica chamada Martin Scorsese e nos entregou cenas memoráveis como Calvin Candie em Django livre (Django, 2012) e Jordan Belfort em O lobo de Wall Street (The wolf of Wall Street, 2013), isso apenas para citar dois exemplos recentes.

Imagem: 20th Century Fox, 2015

Em segundo lugar, Iñárritu, na mesma pegada, não tem receios em admitir que é um cara bom naquilo que faz. E o é. Só a sequência de abertura de O regresso já deixa claro para o público que uma pessoa precisa ser minimamente competente ao gerir tantos movimentos de câmera, além de um mise-en-scène intricado, para que tanto clima quanto história fiquem claros aos que assistem. A sensação, dessa forma, é de que entramos de cabeça em um clima de tensão e guerra, ambientado de maneira gélida e com relações ásperas entre brancos e índios. E se Iñárritu concebe todos esses elementos em menos de dez minutos de projeção, algo me diz que, sim, ele sabe o que está fazendo e, sim, ele é bom de verdade.

Aliado ao diretor, inclusive, está Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia premiado com um Oscar por Gravidade (Gravity, 2013) e Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância) [Birdman or (the unexpected virtue of ignorance), 2014]. Conhecido também por seus trabalhos com o diretor Terrence Malick, é impossível não lembrar de A árvore da vida (The tree of life, 2011) ou Amor pleno (To the wonder, 2012) com as tomadas aqui em The revenant, principalmente quando a câmera contempla o céu noturno, como um veludo azul escuro, cortado pelas faíscas douradas e alaranjadas de uma fogueira que crepita contra o frio gélido presente em todo o filme. Mas não é Alejandro G. Iñárritu tentando emular um Malick através de Lubezki, é uma pausa quase necessária, para a narrativa e para o público, dentro de cenas com uma carga de tensão tão acentuada.

Imagem: 20th Century Fox, 2015

E essa tensão não provém apenas do norte canadense em seu inverno tão presente, ou da câmera de Iñárritu que ora está ao longe, registrando a imensidão branca contra um homem solitário, ora em close máximo, quase cirúrgico, diante do rosto deformado de DiCrapio pela raiva que sente ao ver o ataque de um companheiro a um membro importante de seu grupo e não poder fazer nada para impedi-lo; a tensão máxima está nas relações entre as personagens: o ardiloso John Fitzgerald (interpretado pelo ótimo Tom Hardy), que em um momento está sob a mira de um rifle e, logo em seguida, está com os dedos prestes a apertar o gatilho do mesmo rifle; o pobre garoto Bridger (interpretado pelo surpreendente Will Poulter), aqui sendo salvo por um triz pelo companheiro Fitzgerald, ali sob a mira do rifle que segundos antes empunha contra o mesmo companheiro; ou mesmo entre Hugh Glass (o personagem de DiCaprio) e o urso… são relações necessárias para movimentar a trama, mas que, como um efeito colateral extremamente indesejado, causa desconforto e angústia para a plateia que acompanha o filme.

Imagem: 20th Century Fox, 2015

Se para alguns a saga de Hugh Glass pode parecer apenas um pretexto para que um ator busque prestígio em uma premiação ou um diretor admita publicamente que é realmente bom naquilo que faz, é preciso analisar O regresso por si só, não como uma mera história, mas também como o exercício cinematográfico que é, repleto de tomadas que mais parecem pinturas a óleo – algo que lembra, aliás, o estilo buscado por Stanley Kubrick em Barry Lyndon (Idem, 1975), principalmente por John Alcott, diretor de fotografia deste, ter registrado os atores em cena com a luz natural dos ambientes, algo que Lubezki também realizou em O regresso –, uma trilha sonora inóspita, sugerindo a solidão presente tanto no exterior nevado das locações como no interior psicológico do protagonista, além da mão firme de Iñárritu, presente em todas as cenas. O regresso, portanto, merece, sim, o reconhecimento que está alcançando pelas premiações que passa pois, assim como o trabalho anterior do diretor, é a expressão pura daquilo que lhe dá suporte: o bom e velho cinema.

 
The revenant, dirigido por: Alejandro G. Iñárritu; escrito por: Mark L. Smith e Alejandro G. Iñárritu (baseado parcialmente na obra de Michael Punke).

Com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhail Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Chesley Wilson.

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