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Star Wars: os últimos jedi

Se você prestar bastante atenção, Os últimos jedi (Star Wars: the last jedi, 2017) possui uma tríade de personagens que representam muito bem seus vários tipos de fãs. Tem-se, ali, Luke Skywalker (interpretado por Mark Hamill), o que é análogo aos fãs mais exigentes – poderia chamá-los de babacas, em muitos casos, mas vamos imaginar que vivemos em um mundo ideal; tem-se, também, a heroína Rey (interpretada por Daisy Ridley), representante do fã empolgado, aquele que precisa, mais do que tudo, ver o que acontecerá caso o fã exigente concorde com suas propostas; e, por último, tem-se Kylo Ren (interpretado por Adam Driver), o fã que já cansou de todo o bê-a-bá dos filmes mais antigos e precisa urgentemente recomeçar com ares novos uma franquia que já dura assustadores 40 anos.

A sorte de Os últimos jedi foi ter caído nas mãos de Rian Johnson. Diretor de poucos filmes (apenas um despontou mais no meio hollywoodiano – Looper: assassinos do futuro) e, entre outros, do episódio que talvez gerou mais polêmica dentro da série Breaking bad (“Fly” – isso mesmo, o famigerado episódio da mosca), Johnson permaneceu com uma bomba-relógio em suas mãos por pelo menos dois anos desde a estreia bem sucedida de O despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), pois, além de dar continuidade a uma das sagas com mais fãs em sua base, o diretor precisava trazer ares novos, assim como Kylo Rey deseja, mais do que tudo, dentro desse Episódio VIII. E digo que o filme teve sorte ao cair nas mãos de Rian Johnson porque, sim, Os últimos jedi é um filme muito interessante, diga-se de passagem. E o que o torna mais interessante talvez seja a ousadia pontuada de Johnson (que também escreveu o roteiro); pontuada pois o oitavo episódio de Star Wars não é um filme com mudanças espetaculares de roteiro ou cheio de ameaças ao cânone de George Lucas: Johnson sabe em que terreno está pisando e vai adicionar elementos aqui e ali que mudam o tom dentro dessa nova trilogia, mas talvez sem que o público, no geral, perceba. A saber.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Apesar de presente também no filme anterior, o alívio cômico é mais endossado nesse. É um detalhe que pode não pesar muito na balança final de “coisas que prejudicaram ou ajudaram o novo Star Wars”, se você pensar com cuidado, mas não esqueçamos de seu princípio básico: a diversão. Ora, ainda estamos falando de um filme, em sua, de aventura. Envolve aspectos de sci-fi, obviamente, mas Star Wars não deve ser desclassificado como um bom e velho filme-pipoca. É claro que toda a proporção alcançada pela saga eclipsou essa característica tão esquecida nos filmes do gênero atuais. Lembro-me, inclusive, que o último mais agradável nesse sentido, a ponto de dar um fôlego mais do que bem-vindo à filmografia de Steven Spielberg foi em 2011, com Tintim. É um filme que abraça os conceitos do filme-aventura e cria sequências de ação de encher os olhos e, ao mesmo tempo, não deixa de lado a comicidade das situações ali presentes. Há momentos, em Os últimos jedi, que um determinado comentário, um certo trejeito em um personagem ou até mesmo humor físico são empregados para que a plateia se divirta. E isso não é um crime à nossa inteligência.

Se em O despertar da força não poderia faltar os flares característicos de J. J. Abrams dentro de sua fotografia, Os últimos jedi traz rimas visuais esteticamente muito bonitas. Mas não para apenas na estética, Rian Johnson e o diretor de fotografia Steve Yedlin (parceiro de Johnson em outros dois longas do diretor e também responsável pela fotografia da adaptação mais recente de Carrie: a estranha, 2013) empregam significados muito particulares em cada rima ou sobreplano. E o mais interessante: não são significados impossíveis ou “cults” demais para o grande público não entender; são casos como quando Rey encontra-se contra a câmera, sua silhueta recortada pelo cenário que a envolve, para, logo depois do corte, vermos Kylo Ren na mesma posição de câmera, quase que “substituindo” a personagem anterior, num contraste bonito esteticamente falando e, ao mesmo tempo, com grande significado para a história ali contada. Johnson também retoma elementos clássicos do cinema, como uma cena de grande tempestade quando as personagens presentes encontram-se em um embate, ou uma fotografia bem avermelhada para introduzir o vilão do filme.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Comentei ali em cima um pouco da característica aventuresca do filme a partir do humor e dos alívios cômicos. Mas The last jedi vai além do humor nesse sentido. Há grandes sequências de ação para agradar os fãs, sejam os mais exigentes ou os presentes apenas pela diversão; em destaque: a sequência inicial com o piloto Poe Dameron (interpretado por Oscar Isaac) e seu fiel amigo de lata BB-8 e a debandada protagonizada por Finn (interpretado por John Boyega) e uma das novas personagens Rose (interpretada por Kelly Marie Tran). Ambas as cenas mostram o poder de entretenimento que Star Wars ainda pode produzir com suas novas histórias, mas, além disso, provam que Johnson é um diretor ciente de seu público diversificado a partir da introdução da saga com The force awakens: é preciso mostrar o que o público mais antigo e conservador quer ver e, ao mesmo tempo, introduzir elementos novos ou esquecidos para que o público novo e “transgressor” saia da sessão satisfeito. Não é um equilíbrio fácil de se encontrar e, quando encontrado, acertá-lo de maneira interessante; mas, ao aliar tais elementos de aventura e, além disso, introduzir aos poucos novas personagens – além de Rose, temos agora a presença da Vice-Almirante Holdo (interpretada por Laura Dern, fazendo os corações dos fãs de Jurassic Park suspirarem) -, Rian Johnson consegue entregar um episódio que sustenta a responsabilidade de toda a exigência de diversas gerações de público.

Aos poucos, a Disney começa a realizar aquilo que o “fã-Kylo-Ren” deseja: o que ficou no passado, é pra deixar lá. Com respeito, é claro, mas ainda assim é melhor deixar no passado. Não é à toa seu grande investimento em histórias paralelas que preencham lacunas no universo Star Wars, trazendo diretores com um pegada um pouco mais indie em Rogue One, por exemplo, e seguindo a tática de entregar o primeiro episódio da nova trilogia (a introdução para novas gerações de fãs e, consequentemente, novos consumidores de Star Wars) para mãos mais seguras, passar o bastão para um diretor mais “ousado”, em termos, no episódio de transição e, lá no final da trilogia, voltar para o colo mais seguro. É um projeto de saga bem seguro, devemos admitir. Por enquanto, tudo corre dentro do esperado; mesmo para um episódio de transição, o que mais pode gerar problemas por não conter, em tese, nem o começo nem o final da história (é só lembrarmos de grandes exemplos, como As duas torres, 2002, e O baú da morte, 2005, além de outros episódios de transição fora de trilogias, como Harry Potter e o enigma do príncipe, 2009), Os últimos jedi agrada por não carregar o peso de ser uma transição, é um filme que não faz questão de vestir tal designação e, justamente por isso, funciona muito bem.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Em 2015, eu escrevi que restava saber se, para os próximos filmes, a Disney iria além da introdução de novos personagens. Parece que a Força ainda está com todos nós.

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Pôster: B O N D, 2017

Star Wars: the last jedi, escrito e dirigido por: Rian Johnson.

Com: Carrie Fisher, Mark Hamill, Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Joonas Suotamo

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Rogue One: uma história Star Wars

Ao ser anunciada, há alguns anos, a venda dos direitos relacionados à franquia Star Wars para a Disney, muita gente torceu o nariz. Tratando-se de uma das séries cinematográficas mais rentáveis de todos os tempos, os filmes criaram, invariavelmente, uma legião de fãs nem um pouco maleável. Não que todos atuem dessa maneira, mas o chamado fandom de Star Wars é conhecido como um dos mais exigentes dentre todos os grupos de fãs de quaisquer sagas. Assim, quando George Lucas veio a público para acalmar os ânimos, os fãs continuaram com um pé atrás. Ano passado, no entanto, O despertar da força (Star Wars: the force awakens) foi bem recebido, principalmente por ser um filme digno de tratar com o cânone da mesma maneira competente que introduz novos personagens e tramas.

E falando no adjetivo “competente”, acompanhar mais uma aventura desse universo já tão rico em Rogue One: uma história Star Wars (Rogue One, 2016) é perceber o quão competente este novo filme torna-se ao longo de suas 2h13 de projeção. A Disney precisa, é claro, ter muito cuidado com Star Wars, pois ao mesmo tempo em que anuncia um filme por ano dessa nova safra da saga, deixando fãs e potenciais novos admiradores com um largo sorriso no rosto, a empresa tem, consequentemente, um problemão a enfrentar: conseguir entregar obras que revisitem e atualizem o que já está estabelecido sem estragar o já realizado (e, dessa maneira, não ofendendo a obra em si e seus fãs), ao mesmo tempo em que precisa de experimentações, ou Star Wars sempre será o mais do mesmo. É um linha tênue, perigosa e tentadora para os produtores, roteiristas e diretores. Até agora, porém, tudo caminha a contento.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

O diferente necessário

É gostoso, nostálgico e muito confortável sentar-se na poltrona do cinema, pegar a pipoca e, logo após as luzes se apagarem, os trailers serem exibidos e o logotipo da Lucasfilm esmaecer em um fade out silencioso, nossos olhos lerem os já mais que conhecidos a long time ago in a galaxy far, far away…. e nossos ouvidos já esperarem pelas primeiras notas da trilha clássica de John Williams explodir nas caixas de som. É. Só que não com Rogue One. E é uma sensação engraçada, como uma mensagem simples e direta de que essa história Star Wars não é um novo episódio, mas também não pode ser descartada logo de cara justamente por tal motivo. Se ela não está incluída na nova trilogia, ou na trilogia que for, ela é necessária?

Sim, e muito. Não apenas como desenvolvimento das entranhas de toda uma saga repleta de personagens, tramas, subtramas e arcos dramáticos, mas também como uma maneira de enriquecer histórias já muito conhecidas pelo público. Descobrir, no próprio cinema, pelo próprio cinema, histórias que estavam acontecendo concomitantemente com a história principal iniciada lá atrás, há quatro décadas, é um sabor rejuvenescedor para qualquer saga. Ainda mais quando conduzida de maneira tão cuidadosa como este Rogue One.

O mais interessante do filme talvez seja a marca impressa aqui e lá durante sua projeção, uma marca aparentemente discreta, mas que pode ser notada se dispensarmos um pouco mais de atenção aos detalhes. Digo isso pois, apesar de Rogue One realmente ser Star Wars no seu cerne cinematográfico mais profundo, dá pra perceber as mãos do diretor Gareth Edwards ali presentes em todo o longa, seja na composição de planos esteticamente bem cuidados, seja no uso de câmera na mão um pouco mais frequente do que já vimos em outros episódios da franquia. É claro que, no episódio VII, temos os famosos flares característicos de J. J. Abrams, acompanhados por seus ângulos inclinados nas sequências de ação; mas aqui em Rogue One, o estilo indie de Edwards se mistura ao cânone, e o resultado é uma obra segura de si, passando tal segurança e confiança na própria história que conta para um público cada vez mais ansioso e exigente pelo próximo capítulo de Star Wars. Dessa forma, quando o letreiro de a long time ago se apaga e, ao invés da trilha clássica e outro letreiro, agora amarelado e rolando de baixo para cima na tela, aparecer, nós temos já a abertura do filme com o primeiro plano. Já vemos a galáxia. É um belo resumo imagético para as próximas duas horas: o que vamos contar é direto, principalmente por meio de imagens.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

A composição de planos de Gareth Edwards

O ano de 2014 parece não ter sido o ano de Gareth Edwards e o seu tão falado Godzilla. Muito criticado, o filme, que, assim como Rogue One, era altamente antecipado por fãs e pela crítica, deixou muitas pessoas a desejar por mais aparições do monstrengo. O diretor preferiu mais sugerir do que mostrar ao longo de quase todo o filme, deixando a sequência de porrada entre gigantes mais para o final. É interessante pensar em todo esse burburinho e ver que, mesmo assim, a dona Disney decidiu escalá-lo para um filme Star Wars. Em recente entrevista para a divulgação de Rogue One, Edwards alegou que, de início, não acreditou no convite da Lucasfilm, mas alguns segundos depois já estava realizado de que queria – e muito – dirigir o filme. O tiro foi certeiro, pois talvez Gareth Edwards tenha entendido que o equilíbrio entre decisões autorais e não mexer em determinadas características que já estão consagradas é o ponto-chave para filmes como Godzilla e, obviamente, Star Wars.

E em Rogue One, quando a balança pende para características consagradas, temos um desfile de detalhes prontos para serem degustados por todos os fãs. Um potencial casal como protagonista, um robô ranzinza como alívio cômico, citações a falas e personagens clássicos (“I have a bad feeling about this“). Há, também, opções que a Disney vem mostrando desde O despertar da força, como a preferência para uma protagonista do sexo feminino que não cai em clichês e a presença de minorias étnicas, como negros e latinos; pontos importantes de inclusão, ainda mais em uma franquia com visibilidade tão grande quanto esta. Como nem tudo são flores, também contamos com alguns deslizes: o personagem tido como terrorista veste, obviamente, trajes que remetem à cultura islâmica e o asiático, obviamente, é o todo-poderoso das artes marciais (apesar de que, neste caso, o deslize não é tão grande, já que o personagem tem uma motivação dentro do roteiro que justifica melhor suas características, deixando-as menos rasas).

Agora quando a balança pende para decisões autorais, vemos composições de planos que se destacam em meio a tanto fan service. É o caso, por exemplo, da cena em que ocorre uma explosão gigantesca, e uma determinada nave está voando muito rápido, escapando das consequências desastrosas de tal explosão. A câmera de Edwards, de fora do planeta, mostra a nave saindo e os restos do desastre logo atrás, em um plano que liga tal ação com a próxima (que será no interior de um outra nave) em um único movimento de câmera, trazendo uma fluidez estética bem rara em produções blockbuster. O mesmo ocorre com a introdução de Darth Vader em duas sequências. Na primeira, ao se encontrar com Orson Krennic, o diretor enquadra este personagem sobreposto à sobra do vilão-mor da saga, de início gigante e, aos poucos, diminuindo conforme Vader caminha, aproximando-se de Krennic, num recado claro através de uma imagem: posso me adaptar à sua altura, Krennic, mas não se esqueça de que sou sempre um gigante. Na segunda, em determinada cena de ação dentro de uma nave, vários empregados estão apressados, desesperados por atravessar um corredor e chegar à extremidade, em uma porta; do outro lado, vemos nada além de sombras. Porém, repentinamente, ouve-se a respiração icônica de Darth Vader, mas ainda mergulhado nas sombras (sua grande metáfora, a propósito), seguido de uma iluminação ainda mais repentina, seu sabre de luz vermelho. A ameaça através de imagens não poderia ser mais completa. Tudo isso, claro, é acompanhado da trilha de Michael Giacchino que, nestes momentos, faz questão de lembrar John Williams.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

Peças necessárias para o encaixe

Como disse no início do texto, a história de Rogue One é necessária por vários motivos. Seu principal talvez seja a narrativa em si. É o que motiva sua própria existência e, após isso, a contemplação do público. Se pensarmos bem, o cinema não seria o que sempre foi e o que é atualmente sem uma boa narrativa. É por isso que nos incomodamos tanto quando achamos uma história contada através de imagens ruim. Muitas vezes somos nós que não a compreendemos, e então a tendência natural é jogarmos a culpa no filme. Ele é que foi incompetente, ele é que foi ruim. Se damos uma segunda chance, na maior parte das vezes vemos que a incompreensão não foi gerada por causa de uma história ou de sua execução ruim: nós é que ainda não estávamos completamente preparados para aquele filme naquele momento.

Essa impressão pode acontecer na primeira metade de Rogue One. Aos fãs acostumados com ação de cabo a rabo, intercalada por momentos de diálogos e contemplação, Rogue One vai deixar uma imagem estranha em um primeiro momento. Seu ritmo não é um ritmo Star Wars clássico. É uma história que se dá tempo, que não mede esforços para desenvolver tramas e personagens ao longo de, pelo menos, uma hora. As sequências de ação, grandiosas por si só, nessa primeira metade podem surgir como alívios para aqueles sedentos por explosões e lutas de sabre de luz bem coreografadas. Mas é preciso ter calma e paciência. Rogue One vai guardando suas cartas vagarosamente, até colocá-las na mesa em sua metade final. É preciso se atentar que o roteiro, no entanto, vai fornecendo peças importantes para a saga e, ainda mais, provém também um bom encaixe para elas. De agora em diante, é torcer para que essa boa costura continue emendando de maneira tão competente e divertida os tecidos que compõem o grande universo de Star Wars.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

Links que podem te interessar:

» Godzilla (Resenha)

» Star Wars: o despertar da força (Resenha)

poster

Pôster: B O N D, 2016

Rogue One, dirigido por Gareth Edwards; escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy.

Com: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Mads Mikkelsen.

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Star Wars: o despertar da força

Em 1977, ninguém esperava assistir a um filme recheado com efeitos especiais, heróis e vilões lutando com a ajuda de “espadas” luminosas e dois robôs constantemente discutindo – e um deles, inclusive, não emitindo palavra alguma. Parecia que a proposta do jovem roteirista e diretor George Lucas seria realmente um tiro no escuro, tendendo para uma aposta com saldo negativo. Quase quarenta anos depois, Star Wars é uma das – senão a – franquias mais bem-sucedidas de todos os tempos, dando-se o luxo de voltar à vida com mais uma trilogia sendo preparada para o cinema.

Meu ponto, ao pensar em escrever um texto sobre o episódio lançado recentemente, Star wars: o despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), será analisar algumas questões que me incomodam atualmente; nem todas tem um sentido negativo, é claro, mas que, invariavelmente, colaboram para a perpetuação da saga nos cinemas e em todo o universo rentável possível.

Vamos ao filme em si, em primeiro lugar.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

O despertar da força é um filme divertido, sim. Traz sequências de ação muito bem dirigidas por J. J. Abrams (algumas, inclusive, se equiparam ou até transcendem àquelas vistas nos capítulos anteriores da saga), com direito a guinadas da câmera e um mise-en-scène bem preparado, não deixando o espectador perdido enquanto naves se perseguem e diversos disparos coloridos atravessam a tela de um lado a outro. Há também diálogos inspirados, com tempo para piadinhas bem colocadas, referências aos acontecimentos já registrados (“você disse um compactador de lixo?!“) e uma preparação de personagens para os próximos filmes da nova trilogia.

A fotografia também é algo a ser notado. Dan Mindel desenvolve um trabalho que se destaca, deixando os filmes anteriores para trás nesse ponto, já que George Lucas parece não se preocupar tanto com o significado das cores e o contraste entre claro e escuro – apesar de flertar com essas significações na trilogia nova, importando-se em registrar o jovem Anakin Skywalker entre as sombras enquanto adentra o lado negro da Força, por exemplo. A propósito, Mindel é um sujeito experiente, companheiro dos dois Star trek e um Missão impossível de J. J. Abrams, uma afinidade necessária ao entregar um filme tão importante para um grupo de fãs tão grande e atento quanto o de Star wars. Aqui, no entanto, Mindel vai além das obviedades, com seu ápice em uma determinada cena em que o vilão Kylo Ren e outro personagem conversam, em um ambiente predominantemente escuro, quando um facho de luz adentra através de uma abertura que ilumina o local ou quando Kylo Ren tem o rosto coberto por uma iluminação vermelha – enquanto o outro personagem não, evocando diversos símbolos em cena.

O despertar da força destaca-se também por seus efeitos práticos. J. J. Abrams acerta ao filmar em cenários e locações reais como em Abu Dhabi, Irlanda e até na Islândia e deixar de lado as telas verdes e seus cenários digitais. Há também uma quantidade bem grande de personagens manipulados por atores vestindo máscaras, assim como eram as espécies alienígenas que aparecem na trilogia original, excetuando-se a personagem Maz Kanata (criada em computação gráfica, com capturas de movimento a partir do rosto da atriz Lupita Nyong’o) e o vilão Líder Supremo Snoke (também criação digital, a partir dos movimentos de Andy Serkis, o eterno Gollum). Este, inclusive, causa um estranhamento devido a sua qualidade: entre tantos efeitos práticos, Snoke distancia-se ao mostrar-se como uma criatura completamente gerada em computador, lembrando as criações digitais de George Lucas para os episódios I, II e III, que não aparentavam verossimilhança. Já Maz (uma das melhores personagens do novo filme) é cativante o suficiente para nos enganar, parecendo mais real a cada frase dita ou trejeito realizado pela Lupita por trás da máscara de computação gráfica.

Por último, mas não menos importante, temos aqui dois protagonistas essenciais não apenas pelos papeis que desempenham na nova fase da saga, mas por serem uma mulher e um negro. Fugindo do estereótipo de que um herói precisa ser necessariamente um homem – forte e branco -, que irá salvar a mulher – fraca e também branca -, a heroína Rey (interpretada de forma segura pela estreante Daisy Ridey) faz questão de não dar a mão ao futuro amigo Finn enquanto foge de um perigo (“eu sei correr sem ter que dar a mão!“). Finn, por sua vez (interpretado pelo ótimo John Boyega), é responsável por movimentar a trama, além de ter um bom timing com humor.

Agora às questões.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

Analisando rapidamente, considero O despertar da força como uma mistura de Uma nova esperança, (A new hope, 1977) com A ameaça fantasma (The phantom menace, 1999). Não em termos de qualidade técnica, obviamente, mas em relação a dois pontos: sua estrutura narrativa, similar ao episódio IV da saga, e sua introdução de personagens, similar ao episódio I. Entendo que o novo filme precisa realizar duas coisas importantes tanto para a história da saga quanto para o lucro da Disney: juntar os fãs antigos ao apresentar personagens consagrados com as novas caras e, dessa forma, angariar mais fãs.

Não considero, por isso, que O despertar da força seja o melhor filme da saga. É um bom filme, repleto de elementos necessários a uma aventura digna de ser considerada Star wars. Mas, assim como em A ameaça fantasma, é preciso introduzir toda uma gama nova de personagens e suas histórias particulares; além disso, é necessário movimentar a trama com uma perspectiva – aqui, no caso, é a busca por Luke Skywalker e toda a subtrama que o levou a desaparecer – assim como era o futuro do próprio Luke em Uma nova esperança. Há, também, a necessidade de agregar personagens antigos e criar paralelos com os estreantes (se Luke era fielmente escudado por R2-D2, Rey também conta com a ajuda de um droide, BB8; se Darth Vader tinha Lorde Sidious como mentor do lado negro da Força, Kylo Ren conta com o treinamento do Líder Supremo Snoke e por aí vai…). Meu questionamento é: até que ponto essa reciclagem de personagens será benéfica para o desenvolvimento da nova trilogia?

A Disney, é claro, está faturando e vai faturar ainda muito mais. Investiu de maneira correta ao escolher um diretor competente naquilo que faz; teve a importante ajuda da produtora Kathleen Kennedy e contou com a presença de nomes de peso como Lawrence Kasdan no roteiro e os veteranos Harrison Ford e Carrie Fisher no elenco. Resta saber se, nos próximos filmes, veremos mais do que uma introdução a novos personagens. Que a Força esteja com todos nós.

Curiosidade: Daniel Craig interpreta um stormtrooper importante. Ah, e o nome dele é JB-007.

pôster

Pôster: LA, 2015

Star Wars: the force awakens, dirigido por: J. J. Abrams; escrito por: Lawrence Kasdan, J. J. Abrams e Michael Arndt.

Com: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridler, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Gwendoline Christie.

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