Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2016

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

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rogue-one

Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

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O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

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the-revenant

Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

the-hateful-eight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

julieta

Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

» resenha

the-witch

Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

o-menino-e-o-mundo

Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

» resenha

spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

aquarius

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Filmes

Rogue One: uma história Star Wars

Ao ser anunciada, há alguns anos, a venda dos direitos relacionados à franquia Star Wars para a Disney, muita gente torceu o nariz. Tratando-se de uma das séries cinematográficas mais rentáveis de todos os tempos, os filmes criaram, invariavelmente, uma legião de fãs nem um pouco maleável. Não que todos atuem dessa maneira, mas o chamado fandom de Star Wars é conhecido como um dos mais exigentes dentre todos os grupos de fãs de quaisquer sagas. Assim, quando George Lucas veio a público para acalmar os ânimos, os fãs continuaram com um pé atrás. Ano passado, no entanto, O despertar da força (Star Wars: the force awakens) foi bem recebido, principalmente por ser um filme digno de tratar com o cânone da mesma maneira competente que introduz novos personagens e tramas.

E falando no adjetivo “competente”, acompanhar mais uma aventura desse universo já tão rico em Rogue One: uma história Star Wars (Rogue One, 2016) é perceber o quão competente este novo filme torna-se ao longo de suas 2h13 de projeção. A Disney precisa, é claro, ter muito cuidado com Star Wars, pois ao mesmo tempo em que anuncia um filme por ano dessa nova safra da saga, deixando fãs e potenciais novos admiradores com um largo sorriso no rosto, a empresa tem, consequentemente, um problemão a enfrentar: conseguir entregar obras que revisitem e atualizem o que já está estabelecido sem estragar o já realizado (e, dessa maneira, não ofendendo a obra em si e seus fãs), ao mesmo tempo em que precisa de experimentações, ou Star Wars sempre será o mais do mesmo. É um linha tênue, perigosa e tentadora para os produtores, roteiristas e diretores. Até agora, porém, tudo caminha a contento.

1

Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

O diferente necessário

É gostoso, nostálgico e muito confortável sentar-se na poltrona do cinema, pegar a pipoca e, logo após as luzes se apagarem, os trailers serem exibidos e o logotipo da Lucasfilm esmaecer em um fade out silencioso, nossos olhos lerem os já mais que conhecidos a long time ago in a galaxy far, far away…. e nossos ouvidos já esperarem pelas primeiras notas da trilha clássica de John Williams explodir nas caixas de som. É. Só que não com Rogue One. E é uma sensação engraçada, como uma mensagem simples e direta de que essa história Star Wars não é um novo episódio, mas também não pode ser descartada logo de cara justamente por tal motivo. Se ela não está incluída na nova trilogia, ou na trilogia que for, ela é necessária?

Sim, e muito. Não apenas como desenvolvimento das entranhas de toda uma saga repleta de personagens, tramas, subtramas e arcos dramáticos, mas também como uma maneira de enriquecer histórias já muito conhecidas pelo público. Descobrir, no próprio cinema, pelo próprio cinema, histórias que estavam acontecendo concomitantemente com a história principal iniciada lá atrás, há quatro décadas, é um sabor rejuvenescedor para qualquer saga. Ainda mais quando conduzida de maneira tão cuidadosa como este Rogue One.

O mais interessante do filme talvez seja a marca impressa aqui e lá durante sua projeção, uma marca aparentemente discreta, mas que pode ser notada se dispensarmos um pouco mais de atenção aos detalhes. Digo isso pois, apesar de Rogue One realmente ser Star Wars no seu cerne cinematográfico mais profundo, dá pra perceber as mãos do diretor Gareth Edwards ali presentes em todo o longa, seja na composição de planos esteticamente bem cuidados, seja no uso de câmera na mão um pouco mais frequente do que já vimos em outros episódios da franquia. É claro que, no episódio VII, temos os famosos flares característicos de J. J. Abrams, acompanhados por seus ângulos inclinados nas sequências de ação; mas aqui em Rogue One, o estilo indie de Edwards se mistura ao cânone, e o resultado é uma obra segura de si, passando tal segurança e confiança na própria história que conta para um público cada vez mais ansioso e exigente pelo próximo capítulo de Star Wars. Dessa forma, quando o letreiro de a long time ago se apaga e, ao invés da trilha clássica e outro letreiro, agora amarelado e rolando de baixo para cima na tela, aparecer, nós temos já a abertura do filme com o primeiro plano. Já vemos a galáxia. É um belo resumo imagético para as próximas duas horas: o que vamos contar é direto, principalmente por meio de imagens.

2

Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

A composição de planos de Gareth Edwards

O ano de 2014 parece não ter sido o ano de Gareth Edwards e o seu tão falado Godzilla. Muito criticado, o filme, que, assim como Rogue One, era altamente antecipado por fãs e pela crítica, deixou muitas pessoas a desejar por mais aparições do monstrengo. O diretor preferiu mais sugerir do que mostrar ao longo de quase todo o filme, deixando a sequência de porrada entre gigantes mais para o final. É interessante pensar em todo esse burburinho e ver que, mesmo assim, a dona Disney decidiu escalá-lo para um filme Star Wars. Em recente entrevista para a divulgação de Rogue One, Edwards alegou que, de início, não acreditou no convite da Lucasfilm, mas alguns segundos depois já estava realizado de que queria – e muito – dirigir o filme. O tiro foi certeiro, pois talvez Gareth Edwards tenha entendido que o equilíbrio entre decisões autorais e não mexer em determinadas características que já estão consagradas é o ponto-chave para filmes como Godzilla e, obviamente, Star Wars.

E em Rogue One, quando a balança pende para características consagradas, temos um desfile de detalhes prontos para serem degustados por todos os fãs. Um potencial casal como protagonista, um robô ranzinza como alívio cômico, citações a falas e personagens clássicos (“I have a bad feeling about this“). Há, também, opções que a Disney vem mostrando desde O despertar da força, como a preferência para uma protagonista do sexo feminino que não cai em clichês e a presença de minorias étnicas, como negros e latinos; pontos importantes de inclusão, ainda mais em uma franquia com visibilidade tão grande quanto esta. Como nem tudo são flores, também contamos com alguns deslizes: o personagem tido como terrorista veste, obviamente, trajes que remetem à cultura islâmica e o asiático, obviamente, é o todo-poderoso das artes marciais (apesar de que, neste caso, o deslize não é tão grande, já que o personagem tem uma motivação dentro do roteiro que justifica melhor suas características, deixando-as menos rasas).

Agora quando a balança pende para decisões autorais, vemos composições de planos que se destacam em meio a tanto fan service. É o caso, por exemplo, da cena em que ocorre uma explosão gigantesca, e uma determinada nave está voando muito rápido, escapando das consequências desastrosas de tal explosão. A câmera de Edwards, de fora do planeta, mostra a nave saindo e os restos do desastre logo atrás, em um plano que liga tal ação com a próxima (que será no interior de um outra nave) em um único movimento de câmera, trazendo uma fluidez estética bem rara em produções blockbuster. O mesmo ocorre com a introdução de Darth Vader em duas sequências. Na primeira, ao se encontrar com Orson Krennic, o diretor enquadra este personagem sobreposto à sobra do vilão-mor da saga, de início gigante e, aos poucos, diminuindo conforme Vader caminha, aproximando-se de Krennic, num recado claro através de uma imagem: posso me adaptar à sua altura, Krennic, mas não se esqueça de que sou sempre um gigante. Na segunda, em determinada cena de ação dentro de uma nave, vários empregados estão apressados, desesperados por atravessar um corredor e chegar à extremidade, em uma porta; do outro lado, vemos nada além de sombras. Porém, repentinamente, ouve-se a respiração icônica de Darth Vader, mas ainda mergulhado nas sombras (sua grande metáfora, a propósito), seguido de uma iluminação ainda mais repentina, seu sabre de luz vermelho. A ameaça através de imagens não poderia ser mais completa. Tudo isso, claro, é acompanhado da trilha de Michael Giacchino que, nestes momentos, faz questão de lembrar John Williams.

3

Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

Peças necessárias para o encaixe

Como disse no início do texto, a história de Rogue One é necessária por vários motivos. Seu principal talvez seja a narrativa em si. É o que motiva sua própria existência e, após isso, a contemplação do público. Se pensarmos bem, o cinema não seria o que sempre foi e o que é atualmente sem uma boa narrativa. É por isso que nos incomodamos tanto quando achamos uma história contada através de imagens ruim. Muitas vezes somos nós que não a compreendemos, e então a tendência natural é jogarmos a culpa no filme. Ele é que foi incompetente, ele é que foi ruim. Se damos uma segunda chance, na maior parte das vezes vemos que a incompreensão não foi gerada por causa de uma história ou de sua execução ruim: nós é que ainda não estávamos completamente preparados para aquele filme naquele momento.

Essa impressão pode acontecer na primeira metade de Rogue One. Aos fãs acostumados com ação de cabo a rabo, intercalada por momentos de diálogos e contemplação, Rogue One vai deixar uma imagem estranha em um primeiro momento. Seu ritmo não é um ritmo Star Wars clássico. É uma história que se dá tempo, que não mede esforços para desenvolver tramas e personagens ao longo de, pelo menos, uma hora. As sequências de ação, grandiosas por si só, nessa primeira metade podem surgir como alívios para aqueles sedentos por explosões e lutas de sabre de luz bem coreografadas. Mas é preciso ter calma e paciência. Rogue One vai guardando suas cartas vagarosamente, até colocá-las na mesa em sua metade final. É preciso se atentar que o roteiro, no entanto, vai fornecendo peças importantes para a saga e, ainda mais, provém também um bom encaixe para elas. De agora em diante, é torcer para que essa boa costura continue emendando de maneira tão competente e divertida os tecidos que compõem o grande universo de Star Wars.

4

Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

Links que podem te interessar:

» Godzilla (Resenha)

» Star Wars: o despertar da força (Resenha)

poster

Pôster: B O N D, 2016

Rogue One, dirigido por Gareth Edwards; escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy.

Com: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Mads Mikkelsen.

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Filmes, Listas

Os 15 Melhores de 2014

Confesso que assisti muitos filmes bons em 2014. Prolongar muito a lista de melhores perderia o efeito, bem, de ser uma lista de fim de ano. Assim como no ano passado, não quero transformar minha lista em um ranking, sugerindo que filme x seja melhor que o filme y; por isso os filmes seguirão ordem alfabética para que você se sinta à vontade e escolha aquele que desejar para sua próxima sessão.

(Coloquei e tirei e coloquei novamente diversos filmes na lista. Mas o corte final é o que se segue)

Pôster: Ignition Print, 2013

12 Anos de Escravidão, 2013; dir: Steve McQueen

Sempre fico com o pé atrás com filmes demasiadamente comentados – ainda mais se for um indicado máximo ao Oscar e a todas aquelas premiações de começo de ano. Admito que não tinha muita curiosidade por 12 Anos de Escravidão, por isso assisti o filme sem expectativas. Mas não tem como: Steve McQueen não se acovarda diante da plateia e não toma atalhos para mostrar a realidade crua e aterradora da escravidão. Não apenas pela história, a obra também vale por seus detalhes técnicos e estéticos, dignos de uma boa discussão cinéfila.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Art Machine & Animal Logic, 2014

Uma Aventura LEGO, 2014; dir: Phil Lord, Christopher Miller

Se com a Pixar – e agora com o Disney Animation Studios – nós nos acostumamos a ver animações que pareciam cada vez mais voltadas para o público adulto, deixando para as crianças as piadas de humor físico e afins, foi uma surpresa boa e divertida assistir Uma Aventura LEGO logo no começo do ano. Repleto de referências à cultura pop e nerd, a animação não se prende a nenhum tipo de seriedade e – melhor – assume as características do universo Lego em todos os aspectos. Frenético, colorido e com piadas na medida certa, o filme veio para competir com as outras animações deste ano.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Ignition, 2014

Os Boxtrolls, 2014; dir: Graham Annable, Anthony Stacchi

O estúdio Laika, após ficar mundialmente conhecido por Coraline, voltou aos cinemas, este ano, com um filme que provavelmente irá agradar mais as crianças quando elas estiverem crescidas. Isso porque Os Boxtrolls, apesar de seu carisma em stopmotion e seus monstrengos simpáticos, possui temas incrivelmente sérios, críticos e que desferem tapas de luva de pelica a todo momento em sua plateia. Desde o 3D de imersão até a sua estética que causa estranheza, o filme merece ser não apenas assistido, mas apreciado – na infância e em outros momentos da vida.

Confira a resenha do filme aqui.

Boyhood (Pôster)

Boyhood: da infância à juventude, 2014; dir: Richard Linklater

A premissa de Boyhood é comum: acompanhar a vida de um garoto até a sua adolescência. O diretor Richard Linklater, no entanto, decidiu usar os mesmos atores e filmá-los ano a ano, conferindo uma experiência cinematográfica interessante e que com certeza levará muitas pessoas a se identificarem com as situações vividas pelo protagonista. Não vá com muitas expectativas, porém: o filme é bom e possui um elenco afinadíssimo, mas vale mais pela experiência do que por seu enredo.

Pôster:  InSync + BemisBalkind, 2014

Chef, 2014; dir: Jon Favreau

Não se entregando à tentação de se passar apenas por um food porn simplista, Chef faz questão de encucar em seu espectador diversas reflexões sobre a vida, principalmente sobre nossas escolhas profissionais e de que forma elas nos influenciam. Favreau conduz o filme de forma leve, além de estar cercado de atores que o deixam à vontade para se transformar em um chef que, aos poucos, aprende o valor da paternidade e de sua profissão.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: aSquared Design Group, 2013

Ela, 2013; dir: Spike Jonze

Spike Jonze conseguiu, de forma bela e onírica, criar uma história de amor entre um homem e uma máquina. Talvez o detalhe mais singelo de Ela não seja a voz melódica de Scarlett Johansson, mas a forma como Jonze conduz sua câmera, registrando uma paleta de cores quentes e um sorriso melancólico na magnífica interpretação de Joaquim Phoenix. Mas o filme não estanca as possibilidades em seu lado bonito; o agridoce de Ela também está nas consequências de um amor que une um ser humano e um sistema operacional que não possui vida real – apenas na cabeça do protagonista.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Garota Exemplar, 2014; dir: David Fincher

David Fincher discutiu mais uma vez com chefões de estúdio, mas seu esforço valeu cada segundo: Garota Exemplar não é só uma das melhores surpresas do ano (realmente esperava mais do filme como obra por causa de Fincher, e menos como história por causa de uma autora que não conhecia), como entrega uma das cenas mais chocantes e impactantes do cinema. É de sair da sessão abestalhado, inconformado e desnorteado com tudo o que se viu na tela da sala escura.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Ignition, 2014

Godzilla, 2014; dir: Gareth Edwards

Muita gente chiou com a nova versão de Godzilla. As reclamações foram vastas: o monstrengo demora para aparecer, muito falatório e pouca ação, filme muito escuro. Mas acredito que os fãs de longa data de Gojira mereciam um filme à altura da fama do monstro japonês, e o filme dirigido por Gareth Edwards cumpre, minimamente, com essa missão.

Confira a resenha do filme aqui.

The Grand Budapest Hotel (Pôster)

O Grande Hotel Budapeste, 2014; dir: Wes Anderson

A estética de Wes Anderson é para poucos. Muitas pessoas se incomodam com os enquadramentos metódicos do diretor e as disposições milimetricamente pensadas em cada frame de seus filmes. Mas O Grande Hotel Budapeste traz, além dos maneirismos já mais do que conhecidos de Anderson, uma história divertida, com personagens carismáticos e uma interessante homenagem metalinguística. O diretor, dessa vez, até ousa com cenas gráficas – e acredite, elas são para gerar humor.

Pôster: BLT Communications

Guardiões da Galáxia, 2014; dir: James Gunn

Não consigo me divertir com os filmes dedicados aos heróis da Marvel. Neste ano, porém, deixei meus princípios pessoais de lado e resolvi dar uma chance para Guardiões da Galáxia. E parece que escolhi bem minha estreia no universo Marvel. Carregado de referências aos anos 80, personagens carismáticos e totalmente desprendidos com qualquer tipo de seriedade, o filme ainda faz questão de ser conduzido por uma trilha sonora retrô, pop e dançante. Meio difícil não se deixar levar pelo grupo de heróis mais desajustado já visto no cinema.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Lacuna Filmes, 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, 2014; dir: Daniel Ribeiro

Esperado desde o lançamento do curta que lhe deu origem, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho encanta não só pela direção segura e pelo roteiro que não se rende a estereótipos baratos: o maior diferencial da obra é apresentar uma história de amor adolescente não defendendo a causa gay, mas usando-a como metáfora para passar a mensagem de que amar não enxerga cor, religião, sexo e etc. O protagonista ser cego só reforça essa mensagem mais do que bem vinda para todas as próximas gerações.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Mecanismo Films, 2013

O Homem Duplicado, 2014; dir: Dennis Villeneuve

Baseado no livro de José Saramago, o longa do diretor canadense não deixa nada mastigado para o espectador. Assistir O Homem Duplicado é tentar encontrar sentido em um emaranhado de sequências e metáforas construídas de forma magistral. A atuação precisa e surpreendente de Jake Gyllenhaal só adiciona mais camadas ao desafio.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Concept Arts 2014.

Interestelar, 2014; dir: Christopher Nolan

Interestelar já pode ser considerado o filme em que Christopher Nolan deixa de lado suas preferências cerebrais e engatinha em temas mais emocionais, refletindo, inclusive, sobre o maior deles: o amor. Ligado a isso, o diretor traz uma história que trata sobre o tempo. Em uma projeção que ainda conta com grandes atuações (olá, Matthew McConaughey), efeitos visuais e sonoros que deixam qualquer um vidrado em suas cenas, ainda há tempo para discutir teorias físicas modernas.

Confira a resenha do filme aqui.

Jeune et Jolie (Pôster)

Jovem e Bela, 2013; dir: François Ozon

O mérito do francês Jovem e Bela estar aqui é pelo diretor François Ozon não tratar a protagonista como vítima, mas sim como alguém que assume a prostituição como mera opção de trabalho. Seria curiosidade? Seria prazer? O fato de ser uma adolescente só adiciona mais tempero ao filme belamente fotografado. Leves comparações à Belle de jour são bem aceitas.

Pôster: BLT Communications

O Lobo de Wall Street, 2013; dir: Martin Scorsese

A ideia de assistir Leonardo DiCaprio interpretando um homem inescrupuloso que encontra um meio de ganhar milhões de dólares da maneira mais rápida e ilegal possível, gastando toda a grana com mulheres, sexo, drogas e coisas inimagináveis ao longo de um filme de três horas parece cansativo? Seria, talvez, se O Lobo de Wall Street não tivesse sido dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese. E o ritmo é acelerado além da conta: ao terminar o filme, a impressão é que nós, o público, participamos também de todas as loucuras do protagonista.

Confira a resenha do filme aqui.

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Filmes

Godzilla

A cena que abre o filme de Gareth Edwards mostra um helicóptero sobrevoando montanhas cobertas por florestas nativas. O helicóptero é branco e azul, e a câmera o acompanha em um plano geral que contempla seu voo sobre as inúmeras árvores. Para qualquer pessoa que passou as tardes de domingo da infância assistindo as infindáveis reprises de Jurassic Park na TV, a referência é assustadoramente repentina. Logo depois, temos cenas de diálogos em meio a uma descoberta que remete mais uma vez ao filme de 1993 dirigido por Steven Spielberg. Aliás, a estrutura de roteiro e a forma como Edwards lida com a construção e dramatização de personagens nesse novo Godzilla prestam diversas homenagens ao diretor que iniciou diversas formas de assustar e encantar seu público lá nos idos dos anos 70.

Para estabelecer a principal característica do filme – a tensão -, o monstrengo se mostra apenas através de sugestões até metade da projeção. O que o público é capaz de ver, até então, são pedaços (muito grandes) do corpo de Gojira, quando este mostra suas enormes placas incrustadas nas costas por cima da água ou quando a câmera é capaz de captar apenas parte de seu corpo, enquanto ele caminha através da escuridão, iluminado fracamente por pequenos focos de luz. Com o andar da história, Edwards começa a revelar o visual e a proporção assutadora de Godzilla em doses homeopáticas, jogando com a expectativa do público que se iniciou lá no começo da campanha de divulgação do filme, quando pôsteres e trailers davam o tom da obra, mas não revelavam quase nada do astro principal. Esse jogo de esconde-esconde é essencial para o último ato de Godzilla, quando o gigante toma conta da tela para brigar. E para valer.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Se desvencilhando da tentação de ser um filme que apenas contemple a força gigantesca dos monstros como personagens centrais da história, o novo filme preocupa-se em desenvolver os dramas pessoais dos personagens humanos também. Desde o começo, Edwards estabelece o arco dramático que acompanha a família Brody, quando Joe (interpretado por Bryan Cranston) é obrigado a tomar uma decisão que muda completamente o decorrer de sua vida, culminando em uma elegante elipse feita pelo diretor quando este mostra o filho de Joe, Ford (interpretado por Aaron Taylor-Johnson), já adulto, voltando para sua casa. E este arco caminhará lado a lado com a ação primordial de Godzilla que, como já citado, explode de vez no ato final. Desenvolvendo os personagens logo de início, o filme aproxima o público que, inicialmente, foi para ver a destruição promovida por Godzilla (um legado gerado por décadas de filmes dedicados ao personagem e pela adoração dos fãs, sempre dispostos a contemplar o poder colossal de Gojira). Esta “adição” que a nova refilmagem propõe é totalmente benéfica pois, além de ditar um tom diferente para um filme-catástrofe, ela diferencia esse exemplar de qualquer filme dirigido por Michael Bay, por exemplo.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

E, falando sobre personagens, o elenco selecionado para dar vida a todos eles é outra peça positiva no tabuleiro de Godzilla. Apesar de uma certa inexpressividade caracterísica do personagem, o “Kick-Ass” Aaron Taylor-Johnson se esforça o bastante para compor um herói que vai trilhar passos paralelos aos do monstrão – a cena de ambos caindo, ao mesmo tempo, evidencia essa ideia; outro ator que se destaca é Bryan Cranston: famoso por seu personagem na série televisiva Breaking Bad, Cranston demonstra ter um poder dramático – principalmente facial – muito forte, criando uma presença de cena que ofusca os demais personagens desde sua primeira cena. Os dois são apoiados pela jovem Elizabeth Olsen, que interpreta a mulher de Ford, sendo o terceiro ponto do arco dramático principal e estabelecendo uma personagem que não tem muito destaque, mas que é satisfatória para o funcionamento da história quando aparece em cena. Ken Watanabe também é um destaque, compondo o cientista que prevê os passos de Gojira – legado do filme original de 1954 – e que faz uma cena rápida, mas especialmente emotiva e de teor histórico pesado, elegantemente sintetizado em um relógio de bolso antigo.

Se os personagens de carne e osso são compostos pelas boas atuações do elenco, a equipe técnica do filme é a responsável pela verossimilhança dos monstrengos: tanto Godzilla quanto os outros monstros possuem uma textura e uma naturalidade de movimentos muito satisfatórias, não parecendo seres gerados por computação gráfica – algo que é auxiliado pelo fato dos monstros possuirem uma escala muito grande e, com isso, parecerem ter movimentos “lentos” diante da escala de um ser humano. Esse detalhe, porém, é o melhor ponto das cenas protagonizadas por eles, filmadas com planos gerais e com movimentos lentos da câmera de Edwards, evidenciando que o diretor não deseja perder nenhum detalhe do principal atrativo do filme se escolhesse filmá-lo com câmera tremida, por exemplo. Filmar dessa maneira seria benéfica para o 3D, se este não fosse uma simples conversão realizada por questões mercadológicas, o que, no entanto, não prejudica a experiência que o filme proporciona – mas também não sendo nenhuma vantagem visual.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Sendo um novo filme, mas respeitando a fonte, Godzilla é um dos melhores filmes lançados até então neste ano. Talvez seja a inspiração nos primeiros filmes de Spielberg, talvez seja pela adoração da equipe pelo Gojira japonês, a verdade é que este exemplar do monstro é eficaz a ponto de atingir o público com surpresas de diversas formas, possuindo boas cenas dramáticas e também ótimas cenas de ação. Godzilla voltou para Hollywood, e voltou com força total. A sorte é que ele encontrou um estúdio consciente de que o público, além de querer ver ação, deseja principalmente reconhecer ali uma estrutura boa e convincente em termos de roteiro e desenvolvimento de personagens. Não se esperava menos da equipe que tirou Batman do limbo e o recolocou no pedestal. Agora foi a vez de Gojira.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Nota: os fãs terão sua recompensa pela espera quando assistirem uma determinada cena em que Godzilla se ilumina repentinamente. Ali é a certeza de que valeu a pena pagar para ver o filme.

Pôster: Ignition, 2014

Pôster: Ignition, 2014

Godzilla, dirigido por: Gareth Edwards; escrito por: Max Borenstein, Dave Callaham.

Com: Bryan Cranston, Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Ken Watanabe, Sally Hawkins, Juliette Binoche.

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