Séries

Black mirror

O que mais nos assusta em Black mirror? A tecnologia avançada? As reviravoltas na maioria dos episódios? Ou a soma desses dois fatores e a capacidade inata do ser humano causar dor através de sentimentos mais profundos como o amor, o ódio, a inveja e a ganância? Parece não haver um consenso que responda tais questões, e esse talvez seja o ponto de maior sucesso da série britânica, responsável por índices grandes de audiência e de discussões pós-transmissão dos episódios desde sua estreia em dezembro de 2011.

O consenso, aqui, não deve necessariamente existir, já que, estruturalmente, Black mirror não se prende a um núcleo apenas de personagens e arcos dramáticos, trazendo uma nova história e sua respectiva (ou não) conclusão ao final de cada episódio. Assim, enquanto uma parcela da audiência vai se sentir frustrada com o desenrolar dos fatores em determinado capítulo, é bem provável que um outro grupo considere a mesma história um primor da narrativa moderna. E “frustração” parece ser a sensação mais buscada pelo criador e principal roteirista da série, Charlie Brooker, em seus espectadores.

Dentre tantos encontros e desencontros dentro dos consensos pertinentes à qualidade de Black mirror, é inegável que seu grande sucesso e consequente repercussão dá-se porque a série não se rende às pressões midiáticas para tornar-se, ao longo do tempo, mais “palpável” em busca de mais audiência. Black mirror é idealizada e, vejam bem, realizada para que você se sinta frustrado. E essa frustração pode vir de duas formas: a partir de uma história que não terminou da forma como você, mero espectador, gostaria que acabasse; ou a partir das conclusões que alguns episódios podem sugerir a você através dos temas e discussões levantados ao longo de seus roteiros.

Ou seja, ou nos frustramos porque o final não era aquele que gostaríamos, ou nos frustramos porque, dependendo do resultado das ações dos personagens, somos humanos como aqueles retratados na série, mesmo alocados em um espaço-tempo distópico, a par de uma tecnologia preponderante, e, dessa maneira, igualmente passíveis de errar e nos levarmos a consequências como as retratadas nas histórias da série. Assim, Black mirror começa a pesar em nossas costas quando passamos a perceber que o problema ali presente não é a tecnologia, nem o uso que os humanos fazem dela; o problema são os humanos, seres paradoxais a ponto de desenvolverem tecnologias impressionantes, mas ainda incapazes de utilizá-las de maneira exemplar, já que, apesar de evoluídos, ainda somos irracionais e passionais o bastante para nos frustrar das piores maneiras possíveis.

Com tudo isso em mente, os fãs da série e os novatos receberam de maneira bem negativa a notícia de que o Channel 4, rede televisiva britânica, não veicularia mais Black mirror além das duas primeiras curtíssimas temporadas – 3 episódios cada – e seu especial de Natal. O alívio (e surpresa também) veio com a confirmação de que a série voltaria para as telas do público, mas agora com a Netflix. Sintam a ironia. Por um lado, isso poderia ser uma boa notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas; já do outro, isso poderia ser uma péssima notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas. E a segunda possibilidade parece refletir agora na recém-lançada quarta temporada, no final de dezembro de 2017.

Dois anos após o especial de Natal transmitido pelo Channel 4, a Netflix anunciou a compra dos direitos da série e a produção de 12 episódios, que seriam divididos em duas novas temporadas. Apesar da qualidade dos seis primeiros, incluindo aí suas estruturas e o estilo peculiar de Black mirror apresentar personagens e histórias sem esperanças, tendendo para conclusões pessimistas e, por vezes, até niilistas – excluindo-se, aqui, obviamente, o drama com ares idílicos “San Junipero”, o alívio da terceira temporada -, os seis últimos episódios da mais nova temporada merecem uma análise mais pormenorizada. Já podemos afirmar, de antemão, que Black mirror não mantém mais sua uniformidade em relação à qualidade e à capacidade de nos surpreender. A questão principal, então, é: isso necessariamente é ruim?

Os episódios

Antes de partir para uma análise de cada episódio da quarta e mais recente temporada, aviso que não haverá spoilers aqui prejudicando as sessões de cada um depois, caso você ainda não os tenha visto.

Seguindo uma tendência já observada na temporada anterior, Charlie Brooker preparou episódios mais longos (o primeiro, “USS Callister”, com quase 1h20 de duração), deixando mais espaço para o desenvolvimento de personagens e, no caso do último capítulo, “Black Museum”, mais tempo de cena para o desenrolar dos três “contos” que ali se entrelaçam. Num mundo atual, onde a modernidade ordena uma agilidade para tudo o que produzimos e consumimos, é de se notar que Black mirror, ainda mais por comentar tópicos relacionados à tecnologia e, consequentemente, à sua efemeridade, traga episódios que ultrapassem a marca de uma hora, um verdadeiro suplício para diversas pessoas acostumadas com o ritmo frenético das produções dos últimos anos – ainda mais quando se fala em séries.

O foco, na 4ª temporada, ainda é as relações humanas em um futuro incerto, mas dominado pelo uso da tecnologia. Apesar de flertar com a ficção científica e elementos de narrativas distópicas (mais acentuado no quarto episódio, “Hang the DJ”), a intenção de Black mirror é escanear, de diversas maneiras, o comportamento humano, cercado e cerceado por seus sentimentos, tentando se equilibrar entre a razão e a emoção constantemente. Sendo a tecnologia um canalizador ou um energético para as decisões humanas, ela pode ser considerada, ainda, dentro da série, o “pano de fundo”, e não necessariamente a protagonista (como vemos no terceiro episódio, “Crocodile”).

  • “USS Callister”

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Imagem: Netflix, 2017

O primeiro episódio da 4ª temporada potencializa a visão de Black mirror de como a tecnologia possibilita, mas não estimula as atitudes negativas do ser humano. Isso fica claro a partir do jogo de aparências que o roteiro cria com o protagonista.

A princípio demonstrando, para o espectador, atitudes mais introvertidas e sua inegável subordinação ao provável antagonista do episódio, ele passa de mocinho a vilão em questão de minutos, e isso não é obra do personagem em si, mas do roteiro: estruturada a partir de uma homenagem a Star trek, e, por isso, filmada em um aspecto de tela mais largo, dando um ar mais cinematográfico para o episódio, a história vai montar o caráter do protagonista por meio da visão de uma das personagens, que tem sua visão de admiradora quebrada com o desenrolar dos acontecimentos. Tal visão – e sua mudança – é importante para o julgamento do público.

Apesar de não acentuar tanto seu “quê” de Black mirror, “USS Callister” possui méritos ao desenvolver um personagem com “síndrome de Deus” crível e, ao mesmo tempo, estereotipado, sem cair em um aspecto novelesco. É uma história que esbarra na imagem clássica do nerd antissocial e desmonta sem necessariamente, com isso, afirmar que tal imagem clássica seja o problema para as atitudes do personagem.

  • “Arkangel”

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Imagem: Netflix, 2017

O segundo episódio retrata um tema muito caro à literatura e ao cinema mundiais: a relação mãe e filho. Aqui, porém, teremos a adição da tecnologia como tempero para os problemas que vão explodir de maneira inevitável.

“Arkangel” é o primeiro episódio de Black mirror dirigido por uma mulher e, logo de cara, temos Jodie Foster no comando da produção. Talvez isso reflita na qualidade das atuações aqui, com Rosemarie DeWitt (de La la land, 2016) interpretando a mãe e Brenna Harding a filha, a dupla que conduz o ritmo e a história. A ligação tecnológica entre mãe e filha cria um cordão umbilical high-tech sem volta, potencializando a sensação de propriedade que Marie tem sobre Sara. E, diferentemente do episódio anterior, “Arkangel” traz alguns elementos que retomam a sensação amarga de que estamos acompanhando não apenas uma história comum, mas sim um episódio de Black mirror.

  • “Crocodile”

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Imagem: Netflix, 2017

Porém é aqui, com “Crocodile”, que o fundo do poço das emoções humanas se aproxima mais do espectador.

Com o roteiro mais bem estruturado da temporada, o episódio vai entrelaçar duas histórias, num ritmo que se torna cada vez mais pesado de acompanhar conforme os minutos vão passando. “Crocodile” é o exemplo máximo, na 4ª temporada, de que a tecnologia presente dentro da história está ali apenas como base, pois as ações da protagonista, Mia Nolan (interpretada pela ótima Andrea Riseborough), são os principais pontos do episódio, variando do medo ao mais profundo desespero.

É nesse terceiro episódio que Black mirror volta às suas origens, apresentando uma história que prende o espectador através, inicialmente, de uma tensão, passa pelo suspense e chega ao seu ápice com sequências sem volta, legando ao público  uma sensação de amargor e desesperança.

  • “Hang the DJ”

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Imagem: Netflix, 2017

Assim como o “San Junipero” da terceira temporada, “Hang the DJ” traz uma pausa saudável para o ritmo de histórias mais negativas, com seu pico em “Crocodile”.

Apesar de haver, aqui, ainda, aspectos mais melancólicos que endereçam mensagens bem claras a toda uma geração baseada em encontros amorosos ou sexuais promovidos por aplicativos de celular, “Hang the DJ” usa a motivação de revolução dentro de um ambiente opressor e distópico para desenvolver seus personagens. O casal protagonista desperta a simpatia do público em questão de minutos, e, com isso, passamos a sofrer junto com os personagens quando as regras do sistema em que vivem começam a influenciar demais em suas vidas.

  • “Metalhead”

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Imagem: Netflix, 2017

Já “Metalhead” é o grande escorregão de Charlie Brooker. São quarenta minutos de completo desperdício de vida.

Movido por uma protagonista que não se sustenta, já que o roteiro não entrega para o público motivações suficiente para que ela aja da maneira que age, um vilão ultra-tecnológico que também não apresenta nenhum propósito a não ser matar e coadjuvantes completamente inúteis (em todos os sentidos, dentro e fora da narrativa), o episódio é completamente esquecível.

“Ah, mas há referências à Revolução dos bichos, de George Orwell e uma fotografia em preto e branco muito bonita”. Pois é, mas e a relação disso tudo dentro dos significados da narrativa? Completamente rasa. Roteiro preguiçoso, personagens planos e uma cena final enervante (no pior sentido do termo).

  • “Black Museum”

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Imagem: Netflix, 2017

Após o desastre de “Metalhead”, “Black Museum” retoma a qualidade tão conhecida de Black mirror, trazendo tensão e aditivando ações humanas terríveis através da tecnologia.

O grande mérito do episódio não é, porém, seu final “surpreendente”, mas sim a estrutura de sua narrativa: com um personagem servindo de narrador para outras histórias dentro da história, “Black Museum” tem um ar de livro de contos de Stephen King, e uma das histórias contada pelo personagem, inclusive, poderia ter desenvolvimento próprio.

Essa história foi baseada num conto escrito por Penn Jillette, mas nunca publicado. O autor tentou publicá-la no final da década de 80, mas seu editor achou o conteúdo muito “sombrio”. Ele também tentou transformá-la em filme, na época, mas foi recusada novamente. Muitos anos depois, Jillette almoçou com Charlie Brooker e comentou sobre seu conto renegado. O criador de Black mirror gostou da ideia no mesmo momento e prometeu incluí-la, de alguma forma, na série. Cumprindo com sua palavra, Brooker baseou-se na história de Penn Jillette, intitulada “Pain addict”, para rechear grande parte de “Black Museum”.

E é “Pain addict” que devolve o tom de Black mirror para seu devido ritmo após o desastre em “Metalhead”.

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Pôster: LA, 2017

Black mirror, criada por: Charlie Brooker; escrita por: Charlie Brooker, William Bridges; dirigida por: Jodie Foster, Toby Haynes, John Hillcoat, Colm McCarthy, David Slade, Timothy Van Patten.

Com: Daniel Lapaine, Michaela Coel, Georgina Campbell, Rosemarie DeWitt, Douglas Hodge, Maxine Peake, Jesse Plemons, Andrea Riseborough, Joe Cole, Brenna Harding.

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Filmes

Star Wars: os últimos jedi

Se você prestar bastante atenção, Os últimos jedi (Star Wars: the last jedi, 2017) possui uma tríade de personagens que representam muito bem seus vários tipos de fãs. Tem-se, ali, Luke Skywalker (interpretado por Mark Hamill), o que é análogo aos fãs mais exigentes – poderia chamá-los de babacas, em muitos casos, mas vamos imaginar que vivemos em um mundo ideal; tem-se, também, a heroína Rey (interpretada por Daisy Ridley), representante do fã empolgado, aquele que precisa, mais do que tudo, ver o que acontecerá caso o fã exigente concorde com suas propostas; e, por último, tem-se Kylo Ren (interpretado por Adam Driver), o fã que já cansou de todo o bê-a-bá dos filmes mais antigos e precisa urgentemente recomeçar com ares novos uma franquia que já dura assustadores 40 anos.

A sorte de Os últimos jedi foi ter caído nas mãos de Rian Johnson. Diretor de poucos filmes (apenas um despontou mais no meio hollywoodiano – Looper: assassinos do futuro) e, entre outros, do episódio que talvez gerou mais polêmica dentro da série Breaking bad (“Fly” – isso mesmo, o famigerado episódio da mosca), Johnson permaneceu com uma bomba-relógio em suas mãos por pelo menos dois anos desde a estreia bem sucedida de O despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), pois, além de dar continuidade a uma das sagas com mais fãs em sua base, o diretor precisava trazer ares novos, assim como Kylo Rey deseja, mais do que tudo, dentro desse Episódio VIII. E digo que o filme teve sorte ao cair nas mãos de Rian Johnson porque, sim, Os últimos jedi é um filme muito interessante, diga-se de passagem. E o que o torna mais interessante talvez seja a ousadia pontuada de Johnson (que também escreveu o roteiro); pontuada pois o oitavo episódio de Star Wars não é um filme com mudanças espetaculares de roteiro ou cheio de ameaças ao cânone de George Lucas: Johnson sabe em que terreno está pisando e vai adicionar elementos aqui e ali que mudam o tom dentro dessa nova trilogia, mas talvez sem que o público, no geral, perceba. A saber.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Apesar de presente também no filme anterior, o alívio cômico é mais endossado nesse. É um detalhe que pode não pesar muito na balança final de “coisas que prejudicaram ou ajudaram o novo Star Wars”, se você pensar com cuidado, mas não esqueçamos de seu princípio básico: a diversão. Ora, ainda estamos falando de um filme, em sua, de aventura. Envolve aspectos de sci-fi, obviamente, mas Star Wars não deve ser desclassificado como um bom e velho filme-pipoca. É claro que toda a proporção alcançada pela saga eclipsou essa característica tão esquecida nos filmes do gênero atuais. Lembro-me, inclusive, que o último mais agradável nesse sentido, a ponto de dar um fôlego mais do que bem-vindo à filmografia de Steven Spielberg foi em 2011, com Tintim. É um filme que abraça os conceitos do filme-aventura e cria sequências de ação de encher os olhos e, ao mesmo tempo, não deixa de lado a comicidade das situações ali presentes. Há momentos, em Os últimos jedi, que um determinado comentário, um certo trejeito em um personagem ou até mesmo humor físico são empregados para que a plateia se divirta. E isso não é um crime à nossa inteligência.

Se em O despertar da força não poderia faltar os flares característicos de J. J. Abrams dentro de sua fotografia, Os últimos jedi traz rimas visuais esteticamente muito bonitas. Mas não para apenas na estética, Rian Johnson e o diretor de fotografia Steve Yedlin (parceiro de Johnson em outros dois longas do diretor e também responsável pela fotografia da adaptação mais recente de Carrie: a estranha, 2013) empregam significados muito particulares em cada rima ou sobreplano. E o mais interessante: não são significados impossíveis ou “cults” demais para o grande público não entender; são casos como quando Rey encontra-se contra a câmera, sua silhueta recortada pelo cenário que a envolve, para, logo depois do corte, vermos Kylo Ren na mesma posição de câmera, quase que “substituindo” a personagem anterior, num contraste bonito esteticamente falando e, ao mesmo tempo, com grande significado para a história ali contada. Johnson também retoma elementos clássicos do cinema, como uma cena de grande tempestade quando as personagens presentes encontram-se em um embate, ou uma fotografia bem avermelhada para introduzir o vilão do filme.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Comentei ali em cima um pouco da característica aventuresca do filme a partir do humor e dos alívios cômicos. Mas The last jedi vai além do humor nesse sentido. Há grandes sequências de ação para agradar os fãs, sejam os mais exigentes ou os presentes apenas pela diversão; em destaque: a sequência inicial com o piloto Poe Dameron (interpretado por Oscar Isaac) e seu fiel amigo de lata BB-8 e a debandada protagonizada por Finn (interpretado por John Boyega) e uma das novas personagens Rose (interpretada por Kelly Marie Tran). Ambas as cenas mostram o poder de entretenimento que Star Wars ainda pode produzir com suas novas histórias, mas, além disso, provam que Johnson é um diretor ciente de seu público diversificado a partir da introdução da saga com The force awakens: é preciso mostrar o que o público mais antigo e conservador quer ver e, ao mesmo tempo, introduzir elementos novos ou esquecidos para que o público novo e “transgressor” saia da sessão satisfeito. Não é um equilíbrio fácil de se encontrar e, quando encontrado, acertá-lo de maneira interessante; mas, ao aliar tais elementos de aventura e, além disso, introduzir aos poucos novas personagens – além de Rose, temos agora a presença da Vice-Almirante Holdo (interpretada por Laura Dern, fazendo os corações dos fãs de Jurassic Park suspirarem) -, Rian Johnson consegue entregar um episódio que sustenta a responsabilidade de toda a exigência de diversas gerações de público.

Aos poucos, a Disney começa a realizar aquilo que o “fã-Kylo-Ren” deseja: o que ficou no passado, é pra deixar lá. Com respeito, é claro, mas ainda assim é melhor deixar no passado. Não é à toa seu grande investimento em histórias paralelas que preencham lacunas no universo Star Wars, trazendo diretores com um pegada um pouco mais indie em Rogue One, por exemplo, e seguindo a tática de entregar o primeiro episódio da nova trilogia (a introdução para novas gerações de fãs e, consequentemente, novos consumidores de Star Wars) para mãos mais seguras, passar o bastão para um diretor mais “ousado”, em termos, no episódio de transição e, lá no final da trilogia, voltar para o colo mais seguro. É um projeto de saga bem seguro, devemos admitir. Por enquanto, tudo corre dentro do esperado; mesmo para um episódio de transição, o que mais pode gerar problemas por não conter, em tese, nem o começo nem o final da história (é só lembrarmos de grandes exemplos, como As duas torres, 2002, e O baú da morte, 2005, além de outros episódios de transição fora de trilogias, como Harry Potter e o enigma do príncipe, 2009), Os últimos jedi agrada por não carregar o peso de ser uma transição, é um filme que não faz questão de vestir tal designação e, justamente por isso, funciona muito bem.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Em 2015, eu escrevi que restava saber se, para os próximos filmes, a Disney iria além da introdução de novos personagens. Parece que a Força ainda está com todos nós.

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Pôster: B O N D, 2017

Star Wars: the last jedi, escrito e dirigido por: Rian Johnson.

Com: Carrie Fisher, Mark Hamill, Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Joonas Suotamo

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Filmes

A chegada

Alguns acreditam que o cinema é uma forma de escapismo. Ao entrar numa sala escura de projeção, você se senta diante de uma tela e esquece dos problemas que estão te atormentando a semana toda; esquece dos desastres políticos e econômicos ao redor do mundo que pipocaram na TV nos últimos; esquece de que no dia seguinte você vai acordar cedo. Mas e quando o filme entrega mais problemas e você precisa juntá-los à sua balança racional-emocional? Não que esses problemas sejam de ordem técnica e artística, algumas vezes aquele longa-metragem em específico faz com que os problemas fiquem flutuando em sua mente por um bom tempo, forçando-o a pensar na história, em suas consequências e, principalmente, (talvez a possibilidade mais assustadora) como agir diante de toda aquela narrativa se ela acontecesse no mundo real.

Temos inúmeros exemplos de filmes, em sua maioria hollywoodianos, que imaginam – e alguns que pelo menos tentam explicar melhor – como seria o relacionamento da humanidade com potenciais visitas alienígenas. Na maior parte delas, o resultado é desastroso. Catastrófico. É uma maneira, claro, de atingir uma bilheteria maior: se eu faço um filme repleto de cenas de ação, com direito a explosões sem fim e seres de outro planeta agindo de maneira violenta (ou nojenta), o apelo popular aumenta, assim como minha arrecadação. Não que isso seja errado ou ruim, vai depender de cada filme e sua abordagem ao tema. O que nos leva a uma questão principal em cinema: você deseja contar uma história ou pensa, antes, em como contar essa história?

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

O cinema, assim como a literatura é para a narrativa escrita, é moldado, através de imagens, para contar uma história de forma a extrapolar o senso comum. A sensação de sair da sala escura e ficar com a história martelando na cabeça, com mais dúvidas do que respostas, é sinal de que o filme cumpriu o seu papel de desautomatização – ou seja, ele tirou você, como público, do automático, da rotina, do dia-a-dia muitas vezes alienante. Quando se trata de histórias sobre o espaço infinito que cerca nosso planeta, podemos conhecer filmes cuja abordagem pode atingir o extremo abstrato de um espectro – como 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odssey, 1968) – e outros que tentam unir conceitos científicos e filosóficos intricados a uma narrativa mais palatável, como é o caso de Interestelar (Interstellar, 2014).

A chegada (Arrival, 2016) está, talvez, no meio-termo desse espectro. Apesar de ter uma linha narrativa comum – a protagonista, uma especialista em linguagens, é chamada pelo exército americano na tentativa de compreensão da linguagem utilizada pelos aliens visitantes -, o filme, com suas imagens, conta a história de forma não-linear. Não espere, portanto, um começo-meio-fim bonitinho, enlatado especialmente para consumo. É um roteiro que exige do espectador um mínimo de interpretação; e quanto mais a sua capacidade de interpretação é refinada, mais aproveitamento você terá da história e todos os seus detalhes ao longo da projeção.

É uma obra, portanto, que não se rende a uma autoexplicação gratuita: as peças para o mistério inerente à história estão jogadas sobre a tela do cinema; cabe a nós, público, ir montando-as conforme as mais de duas horas de filme passam diante de nossos olhos. E os aditivos, como estímulos, em tal empreitada, são duas discussões que surgem conforme seu roteiro se desdobra: uma sobre a linguagem – seu uso e suas complicações -, outra filosófico-existencial – por quê estamos aqui? o que eles vieram fazer em nosso planeta? quais são suas intenções?.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem como peça-base para uma cultura

Uma das abordagens mais instigantes – e belamente acertadas – de A chegada é a da personagem Louise Banks (interpretada por Amy Adams, fatalmente ignorada pelo Oscar desse ano). O filme poderia perder um bom tempo desenvolvendo-a ao mostrar seu dia-a-dia como professora e pesquisadora. Mas a elegância do roteiro de Eric Heisserer e da direção de Denis Villeneuve prefere mostrá-la em ação: sua perspectiva certeira como especialista do campo de linguagens, seu faro para consequências e implicações a partir de problemas que surgem, sua coragem e audácia que a tornam a força-motriz do filme.

Além dessa imagem que transmite, a personagem, em essência, entende, mais do que todos, que uma das bases – senão a principal – para uma cultura bem estabelecida é a comunicação entre seres através de uma linguagem com grande desenvolvimento. E quando o Coronel Weber (interpretado por Forest Whitaker) tenta pressioná-la para fazer a pergunta que todos querem saber a resposta (“Qual o propósito de vocês na Terra?”), A doutora Banks justifica não somente como é muito mais complicado se comunicar como também é necessário paciência e tolerância para se entender as dificuldades de uma comunicação com hipotéticos (não no filme, é claro) alienígenas e, por consequência, para apreciar o desenvolvimento paulatino do roteiro – que a muitos pode parecer lento, até monótono de início.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem cinematográfica como base para o filme

E se esse tema tão caro à história de A chegada necessita de uma atenção grande de seus realizadores, as tomadas, as cenas e as sequências do filme também são formas de comunicação. São, em suma, uma linguagem própria.

O primeiro take de Arrival começa com um fade out orgânico, a câmera saindo da escuridão em direção à luz. O movimento, no entanto, é de cima para baixo: a lente de Villeneuve observa primeiro o teto de madeira e, vagarosamente, desce até mirar uma grande vidraça, mostrando uma paisagem serena. Esse movimento se repete ao longo da narrativa, talvez mais umas duas ou três vezes, assinalando que o olhar vertical (de cima para baixo) é importante para a história ali contada – os aliens, afinal, descem do céu em direção ao planeta também em um movimento vertical; o contato entre os humanos e as criaturas começa também com um movimento vertical (aqui, porém, invertido, de baixo para cima); e todos esses momentos com uma rima visual: se iniciam no escuro e vão em direção a uma fonte de luz.

Outro ponto tocado pelo diretor canadense, de maneira metonímica, é a questão do contato. Temos, em A chegada, cenas que mostram essencialmente os personagens necessitando tocar objetos, texturas e demais materiais e substâncias. A cena em que Ian Donnelly (interpretado por Jeremy Renner) toca com as pontas dos dedos a base da nave alienígena; quando Louise toca o vidro que a separa das criaturas; as diversas cenas da Dra. Banks com sua filha recém-nascida (o primeiro contato de uma vida). A metonímia, é claro, tange a necessidade humana de conhecer algo através do tato, impulsionada pela curiosidade muitas vezes científica, mas essencialmente pura e simplesmente humana. Tal tema liga-se primordialmente ao principal da história – quem deseja fazer contato, em primeiro lugar, seja esse amigável ou hostil, são as criaturas alienígenas.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

E se pensarmos os detalhes simbólicos, talvez o que mais represente o filme em si é a escrita dos aliens. Sugerindo o infinito através de sua estrutura circular, a linguagem primeiramente compreendida por Louise é algo que transcende nossa cultura de registro – escrevemos linearmente, afinal – da esquerda para a direita ou vice-versa. E tal simbologia resume não apenas a essência de A chegada, como, da mesma forma, ressalta a importância de seu tema mais caro: a necessidade de uma linguagem deselvovida para se estabelecer uma cultura – e, mais ainda, torná-la forte e, em alguns casos, dominante.

Somados a todos esses detalhes que vão eclodindo aos poucos em nossa mente após uma sessão angustiante (no fundo, como plateia, torcemos para que tudo se resolva, é claro, e essa jornada não é algo simples, muito menos tranquilo), temos também a ambientação necessária através da trilha soturna, etérea e ameaçadora do compositor islandês Jóhann Jóhanssonn – uma música que determina o clima do filme do início ao fim, entoando o ritmo principalmente quando a equipe se aproxima da nave para suas sessões de comunicação com os aliens. Temos também uma fotografia fria, evocando essa constante ameaça que, ao mesmo tempo, não é velada, mas que paira sobre a cabeça das pessoas no filme e, consequentemente, sobre o público também.

A chegada já pode entrar para o rol de seletos filmes com temática espacial que estão muito além do tratamento comum. É um filme que não afasta o público por não habitar totalmente a esfera do abstrato, mas que não entrega tudo gratuitamente, promovendo uma experiência não apenas cinematográfica, como estética também. E essa sua estética o eleva de maneira a causar tantos questionamentos no público que sai da sessão arrebatado. Se a sentença “Qual o propósito de vocês na Terra?”, como explicado pela Dra. Banks, não é tão simples como parece, por que A chegada também não pode ser muito mais profundo do que aparentaria a um espectador qualquer?

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2016

Arrival, dirigido por Dennis Villeneuve, escrito por Eric Heisserer (baseado no conto “História da sua vida”, de Ted Chiang)

Com: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Tzi Ma, Jadyn Malone, Abigail Piniowsky, Julia Scarlett Dan

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Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2016

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

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rogue-one

Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

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O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

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the-revenant

Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

the-hateful-eight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

julieta

Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

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the-witch

Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

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Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

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spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

aquarius

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Séries

Stranger Things

Os anos 80 parecem uma época, ao mesmo tempo, tão distante e tão presente entre nós. Mesmo não tendo vivido na década, existe uma identificação tão forte por toda a sua cultura, seja essa produzida pela música, cinema, moda ou TV. Vamos a festas com temática oitentista, nos apaixonamos por clássicos contemporâneos de seu cinema criativo, nostálgico e, claro, também trash. Prova mais recente de todo esse apelo por tal momento histórico é Stranger things (idem, 2016), produção própria da Netflix responsável por todo um furor nas redes sociais desde sua estreia, no dia 15.

Os temas da série são mais do que batidos: retratados em um subúrbio americano, em uma escola e, mais ainda, numa época que trouxe para nós pérolas como E.T. – O extraterrestre (E.T. the extra-terrestrial, 1982) e, um pouco antes, Contatos Imediatos de terceiro grau (Close encounters of the third kind, 1977), Stranger things não se limita aos modelos e estereótipos. Desfila um monte deles durante seus poucos, mas ótimos e concisos oito episódios, é claro, apresentando logo de cara uma sequência digna de qualquer teoria da conspiração e passando por aquela festa adolescente em que o bonitão quer transar logo com a mocinha, enquanto a amiga antissocial vai, invariavelmente, se dar mal. Nesse amontoado de clichês e referências, os irmãos gêmeos Matt e Ross Duffer (creditados como The Duffer Brothers), criadores, roteiristas e diretores da maioria dos episódios, vão superar as expectativas criadas pela própria campanha de marketing realizada pela Netflix ao extrapolar os ânimos de um público cada vez mais sedento por séries bem produzidas e executadas. Stranger things não falha em nenhum destes quesitos, porém.

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Imagem: Netflix, 2016

Trazendo à tona uma atriz competente, mas esquecida por Hollywood e cia ltda, Winona Ryder vai encabeçar a história interpretando a mãe de um garoto desaparecido logo no primeiro episódio (acalme-se, essa informação não foi um spoiler). Muito fácil de cair em maneirismos histéricos e trejeitos passíveis de avaliações ruins pelos críticos, a personagem Joyce Byers torna-se, a cada episódio, cada vez mais obcecada pela busca de seu caçula; Ryder, no entanto, confere uma autenticidade admirável com sua interpretação que varia entre o drama comedido e a explosão iminente de uma mãe pronta a arriscar qualquer coisa para ter o filho de volta a seus braços. É um alívio, inclusive, observar como uma boa produção, encabeçada por diretores e roteiristas competentes, além de uma empresa que acredita na história a ser contada, reflete de maneira positiva no trabalho do elenco, começando por Winona Ryder e passando, principalmente, pelo quarteto de pré-adolescentes, o verdadeiro grupo de protagonistas de Stranger things.

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Imagem: Netflix, 2016

Encabeçado por Mike Wheeler (interpretado por Finn Wolfhard), Mestre de Jogo nas campanhas de Dungeons & Dragons jogadas pelos amigos, o grupo ainda conta com Dustin Henderson (Gaten Matarazzo), membro responsável pelas melhores falas nas cenas de discussões e que possui displasia cleidocraniana, uma síndrome responsável por atrasar o crescimento dos dentes permanentes – algo que, obviamente, vai torná-lo alvo de bullies e apelidos maldosos, e Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin), aquele que sempre chama a atenção dos demais para problemas que nem sempre estão visíveis, tornando-se o ponto de equilíbrio entre todos. Will Byers (interpretado por Noah Schnapp) logo deixa o grupo com seu desaparecimento, sendo “substituído” pela garota El (“abreviação para Eleven”), dona absoluta das melhores cenas de Stranger things, graças às características da personagem, mas principalmente devido à magnífica interpretação de Millie Bobby Brown. O quesito “interpretação”, aliás, é o ponto mais forte do quarteto de atores, precisando passar de nuances que exigem humor físico a momentos de intenso drama, com cenas preenchidas por discussões acaloradas ou conversas acompanhadas por dores e lágrimas caindo vagarosamente dos olhos.

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Imagem: Netflix, 2016

A história não funcionaria tão bem, no entanto, se as boas interpretações parassem em seus protagonistas. Há ainda muito espaço para a inocente, mas interessante Nancy Wheeler (interpretada por Natalia Dyer), a irmã mais velha de Mike; o estranho e complexo Jonathan Byers (Charlie Heaton), irmão mais velho de Will; o chefe de polícia Jim Hopper (interpretado por David Harbour), contraponto necessário à histeria de Joyce, dono de um passado complicado, muito bem explorado e explicitado pelo roteiro da série. No meio de tantas personagens, a história dá conta de relacioná-los de maneira orgânica, apresentando cada um à sua maneira e a seu tempo, deixando ainda espaço para críticas rápidas, mas contundentes (“não sei se meus pais se amam, minha mãe se casou jovem, meu pai vinha de boa família, tinha dinheiro…”“querida, devemos confiar neles, é o nosso governo, eles só querem nosso bem”).

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E se o elenco apresenta-se tão afinado, a história em si dará conta do restante ao atar tudo aquilo que um verdadeiro fã das narrativas oitentistas mais gosta em um mesmo nó: monstrengo que escapa do laboratório, cientistas fazendo pesquisas ultra-secretas, o grupo nerd que resolve investigar por conta, a briga tão esperada entre o mocinho e o rival babaca e por aí vai. Ainda há fôlego para referências imagéticas? Claro. A filha loirinha e caçula do casal Wheeler aproximando-se da parede, quase a tocando, lembrando a cena mais icônica de Poltergeist: o fenômeno (Poltergeist, 1982); Joyce e Jim entrando no mundo paralelo, ou no “mundo invertido”, descobrindo ovos gigantes à la Alien, o oitavo passageiro (Alien, 1979) e, por quê não?, assim como em Prometheus (idem, 2012) também. Sem contar a telecinese digna de uma Carrie, a estranha (Carrie, 1976), e tantas outras que lembram as mais horripilantes e, por consequência, melhores histórias de um Stephen King em seu melhor fôlego (saudades desse Stephen King…). Já está bom? Ainda não. Planos focando aquele personagem se escondendo do monstrengo vão te lembrar aquele Steven Spielberg aventuresco de Jurassic Park: o parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1993) que só recobrou seu fôlego no ótimo As aventuras de Tintim (The adventures of tintim, 2011); a trilha sonora, toda composta em sintetizadores que gritam anos 80, vão te dar arrepios ao lembrar do tema de John Carpenter para Halloween: a noite do terror (Halloween, 1978), além de estabelecer o clima logo na abertura, talvez a homenagem mais escancarada à década, com suas letras em neon vermelho e pequenos riscos de estática passando pela tela, como uma boa e velha TV que um dia foi responsável por formar gerações aficcionadas por jogos do Atari e embasbacadas com os efeitos mais mirabolantes do cinema proporcionados por aquele VHS alugado na locadora da esquina.

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Se aliar uma história que consegue abranger tantas referências e modelos de personagens e histórias com uma boa produção parecia um artigo de luxo até tempos atrás, a Netflix parece provar que não é só possível, como muito rentável. Vamos esperar por mais temporadas de Stranger things? Se for para manter a qualidade irretocável desta, vamos sim, com muito afinco. A esperança, inclusive, é obversar que a empresa preza pela qualidade de suas séries – não à toa, recebeu mais de 50 indicações ao Emmy deste ano. Preparem-se: a festa nerd está apenas começando.

Pôster

Pôster: Netflix, 2016

Stranger things, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Jessie Nickson-Lopez, Justin Doble, Paul Dichter, Jessica Mecklenburg, Alison Tatlock; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Ross Partridge.

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Filmes

Star Wars: o despertar da força

Em 1977, ninguém esperava assistir a um filme recheado com efeitos especiais, heróis e vilões lutando com a ajuda de “espadas” luminosas e dois robôs constantemente discutindo – e um deles, inclusive, não emitindo palavra alguma. Parecia que a proposta do jovem roteirista e diretor George Lucas seria realmente um tiro no escuro, tendendo para uma aposta com saldo negativo. Quase quarenta anos depois, Star Wars é uma das – senão a – franquias mais bem-sucedidas de todos os tempos, dando-se o luxo de voltar à vida com mais uma trilogia sendo preparada para o cinema.

Meu ponto, ao pensar em escrever um texto sobre o episódio lançado recentemente, Star wars: o despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), será analisar algumas questões que me incomodam atualmente; nem todas tem um sentido negativo, é claro, mas que, invariavelmente, colaboram para a perpetuação da saga nos cinemas e em todo o universo rentável possível.

Vamos ao filme em si, em primeiro lugar.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

O despertar da força é um filme divertido, sim. Traz sequências de ação muito bem dirigidas por J. J. Abrams (algumas, inclusive, se equiparam ou até transcendem àquelas vistas nos capítulos anteriores da saga), com direito a guinadas da câmera e um mise-en-scène bem preparado, não deixando o espectador perdido enquanto naves se perseguem e diversos disparos coloridos atravessam a tela de um lado a outro. Há também diálogos inspirados, com tempo para piadinhas bem colocadas, referências aos acontecimentos já registrados (“você disse um compactador de lixo?!“) e uma preparação de personagens para os próximos filmes da nova trilogia.

A fotografia também é algo a ser notado. Dan Mindel desenvolve um trabalho que se destaca, deixando os filmes anteriores para trás nesse ponto, já que George Lucas parece não se preocupar tanto com o significado das cores e o contraste entre claro e escuro – apesar de flertar com essas significações na trilogia nova, importando-se em registrar o jovem Anakin Skywalker entre as sombras enquanto adentra o lado negro da Força, por exemplo. A propósito, Mindel é um sujeito experiente, companheiro dos dois Star trek e um Missão impossível de J. J. Abrams, uma afinidade necessária ao entregar um filme tão importante para um grupo de fãs tão grande e atento quanto o de Star wars. Aqui, no entanto, Mindel vai além das obviedades, com seu ápice em uma determinada cena em que o vilão Kylo Ren e outro personagem conversam, em um ambiente predominantemente escuro, quando um facho de luz adentra através de uma abertura que ilumina o local ou quando Kylo Ren tem o rosto coberto por uma iluminação vermelha – enquanto o outro personagem não, evocando diversos símbolos em cena.

O despertar da força destaca-se também por seus efeitos práticos. J. J. Abrams acerta ao filmar em cenários e locações reais como em Abu Dhabi, Irlanda e até na Islândia e deixar de lado as telas verdes e seus cenários digitais. Há também uma quantidade bem grande de personagens manipulados por atores vestindo máscaras, assim como eram as espécies alienígenas que aparecem na trilogia original, excetuando-se a personagem Maz Kanata (criada em computação gráfica, com capturas de movimento a partir do rosto da atriz Lupita Nyong’o) e o vilão Líder Supremo Snoke (também criação digital, a partir dos movimentos de Andy Serkis, o eterno Gollum). Este, inclusive, causa um estranhamento devido a sua qualidade: entre tantos efeitos práticos, Snoke distancia-se ao mostrar-se como uma criatura completamente gerada em computador, lembrando as criações digitais de George Lucas para os episódios I, II e III, que não aparentavam verossimilhança. Já Maz (uma das melhores personagens do novo filme) é cativante o suficiente para nos enganar, parecendo mais real a cada frase dita ou trejeito realizado pela Lupita por trás da máscara de computação gráfica.

Por último, mas não menos importante, temos aqui dois protagonistas essenciais não apenas pelos papeis que desempenham na nova fase da saga, mas por serem uma mulher e um negro. Fugindo do estereótipo de que um herói precisa ser necessariamente um homem – forte e branco -, que irá salvar a mulher – fraca e também branca -, a heroína Rey (interpretada de forma segura pela estreante Daisy Ridey) faz questão de não dar a mão ao futuro amigo Finn enquanto foge de um perigo (“eu sei correr sem ter que dar a mão!“). Finn, por sua vez (interpretado pelo ótimo John Boyega), é responsável por movimentar a trama, além de ter um bom timing com humor.

Agora às questões.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

Analisando rapidamente, considero O despertar da força como uma mistura de Uma nova esperança, (A new hope, 1977) com A ameaça fantasma (The phantom menace, 1999). Não em termos de qualidade técnica, obviamente, mas em relação a dois pontos: sua estrutura narrativa, similar ao episódio IV da saga, e sua introdução de personagens, similar ao episódio I. Entendo que o novo filme precisa realizar duas coisas importantes tanto para a história da saga quanto para o lucro da Disney: juntar os fãs antigos ao apresentar personagens consagrados com as novas caras e, dessa forma, angariar mais fãs.

Não considero, por isso, que O despertar da força seja o melhor filme da saga. É um bom filme, repleto de elementos necessários a uma aventura digna de ser considerada Star wars. Mas, assim como em A ameaça fantasma, é preciso introduzir toda uma gama nova de personagens e suas histórias particulares; além disso, é necessário movimentar a trama com uma perspectiva – aqui, no caso, é a busca por Luke Skywalker e toda a subtrama que o levou a desaparecer – assim como era o futuro do próprio Luke em Uma nova esperança. Há, também, a necessidade de agregar personagens antigos e criar paralelos com os estreantes (se Luke era fielmente escudado por R2-D2, Rey também conta com a ajuda de um droide, BB8; se Darth Vader tinha Lorde Sidious como mentor do lado negro da Força, Kylo Ren conta com o treinamento do Líder Supremo Snoke e por aí vai…). Meu questionamento é: até que ponto essa reciclagem de personagens será benéfica para o desenvolvimento da nova trilogia?

A Disney, é claro, está faturando e vai faturar ainda muito mais. Investiu de maneira correta ao escolher um diretor competente naquilo que faz; teve a importante ajuda da produtora Kathleen Kennedy e contou com a presença de nomes de peso como Lawrence Kasdan no roteiro e os veteranos Harrison Ford e Carrie Fisher no elenco. Resta saber se, nos próximos filmes, veremos mais do que uma introdução a novos personagens. Que a Força esteja com todos nós.

Curiosidade: Daniel Craig interpreta um stormtrooper importante. Ah, e o nome dele é JB-007.

pôster

Pôster: LA, 2015

Star Wars: the force awakens, dirigido por: J. J. Abrams; escrito por: Lawrence Kasdan, J. J. Abrams e Michael Arndt.

Com: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridler, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Gwendoline Christie.

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Filmes

Jurassic World: o mundo dos dinossauros

Se o deslumbramento era a primeira reação dos visitantes no primeiro Jurassic Park (1993), mesmo que esses visitantes fossem as cobaias – paleontólogos, cientistas e um advogado para completar o time -, essa sensação se intensifica agora, vinte e dois anos depois, com o parque jurássico realmente aberto ao público. A questão, no entanto, que vem a calhar, é se os responsáveis pelo empreendimento aprenderam com os erros do passado. Aparentemente, a resposta é positiva. O Jurassic Park agora é Jurassic World e, diariamente, recebe mais de vinte mil pessoas desejosas por dentes, garras e rugidos.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Assistir Jurassic World é um teste de nostalgia para aqueles que passaram a infância se emocionando com as aventuras dirigidas por Steven Spielberg lá nos idos dos anos 90. O novo filme da franquia traz à tona diversos momentos que remetem ao original: está lá a perseguição composta por velociraptors sedentos por criancinhas indefesas (alguém se lembra de uma certa cena em uma cozinha?), assim como uma angustiante sequência em que o dinossauro alfa da vez – uma criação louca de laboratório, claro – enclausura os irmãos dentro de uma redoma de vidro (retomar a cena de outros dois irmãos encurralados por um T-Rex em um jipe não é mera coincidência). Essas referências não soam forçadas, porém; são inclusões orgânicas à trama de Jurassic World, e funcionam bem nela.

Para sustentar a história, inclusive, o mocinho da vez é nada menos que Chris Pratt. Se a presença do ator é crucial para Guardiões da Galáxia, por exemplo, aqui ele encarna o treinador de animais (ou melhor, de dinossauros) Owen da forma mais Indiana Jones possível, com momentos para piadinhas, humor físico e atos de bravura, obviamente. Para dar equilíbrio, complementando as características da personagem, o roteiro escrito a oito mãos (sim, assustador, mas soa pior do que realmente é) traz a responsável pelo parque, Claire, interpretada por Bryce Dallas Howard. É interessante notar que, apesar de acompanhar diversos núcelos de acontecimentos durante a projeção, Howard mantém uma atuação que pode até parecer forçada, mecânica, no começo; mas é a parceria entre sua personagem com a de Pratt que faz as coisas caminharem bem, passando de momentos mais dramáticos para outros de puro humor, salpicados por diálogos e cenas de tensão. Enquanto um representa o olhar a favor dos animais do parque, a outra precisa equilibrar essa visão com a relação que mantém com o parque como empresa – sem dinheiro ele não existe, afinal.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Da mesma forma que Claire necessita criar uma relação com Owen, a moça precisa acompanhar a visita dos dois sobrinhos: Gray, o mais novo (interpretado por Ty Simpkins), e Zach, o maior (interpretado por Nick Robinson). Gray é a personagem da vez que sabe os nomes de todas as espécies de dinossauros, calculando até a quantidade de dentes necessária para se derrotar uma das bestas colossais, enquanto o irmão mais velho está mais interessado no celular e nos exemplares do sexo oposto que estão nas filas das atrações. Se no primeiro filme tínhamos irmãos sem a presença de figuras paternas, substituídas pelos paleontólogos, aqui vemos os pais… que estão em processo de divórcio. Claire, a tia, é a responsável por manter essa ligação familiar, tirando apenas o detalhe de que ela não vê os sobrinhos há sete anos.

O público, então, acompanha essas quebras de ligações entre as personagens. Quando se unem uns aos outros, é por forças maiores, como a fuga do dinossauro projetado em laboratório que tecnicamente não deveria escapar (ou melhor, não deveria existir) ou quando o buraco na cerca convida para um passeio clandestino que não vai, claramente, resultar em um bom negócio. Daí vem as cenas de ação do longa, bem dirigidas por Colin Trevorrow. O diretor varia entre tomadas aéreas e câmeras ágeis, ora agilizando na correria, ora aumentando a tensão e o suspense com planos-detalhes bem executados.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Uma questão a se pensar é sobre essa ânsia em querer tudo maior, melhor e mais barulhento tanto em relação ao público do parque, quanto do próprio empresário (interpretado por Irrfan Khan). Em vários momentos, Claire justifica a existência da fêmea Indominus rex dessa maneira: criamos esse dinossauro colossal e terrivelmente perigoso porque nossos visitantes são exigentes. Mas então é isso? O público quer sempre mais… e é só juntar com a ganância egocêntrica de uma empresa detentora de um laboratório de ponta para que dê certo? Obviamente o controle não existe, não importa quantos metros de altura as paredes de uma cerca têm ou se a tecnologia pode implantar um chip capaz de rastrear e dar choque no animal se ele transgredir limites. Como diria Ian Malcolm, talvez o melhor personagem de Jurassic Park: “a natureza sempre encontra um meio”. E esse meio pode não ser o mais bonzinho.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Jurassic World vai unir, de forma natural, essas questões éticas e um tanto mais profundas com um teor mais aventuresco, mais terror durante toda a trama. Há espaço para o deslumbramento em si (a cena do dinossauro aquático se alimentando de um tubarão em frente ao público é de encher os olhos), para a tensão (o Indominus rex perseguindo meio mundo durante todo o filme) e até para gags visuais (a pata da pomba no início da projeção). Para os saudosistas, há ainda tempo para relembrar velhos cenários tomados pela floresta – afinal, são vinte e dois anos – ao som de um piano triste tocando o tema composto por John Williams. É um filme que poderia levar a história para muitos erros (vide Jurassic Park III, 2001), mas que se mantém dentro de um roteiro seguro e de uma direção que não peca por excessos. Se há algo dispensável em Jurassic World é seu 3D, vergonhosamente convertido e unicamente caça-níquel. De resto, o filme é um belo convite para as novas gerações sedentas por tudo melhor, maior e mais barulhento. E bota barulho nisso.

Pôster: BOND, 2015

Pôster: BOND, 2015

Jurassic World, dirigido por: Colin Trevorrow; escrito por: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly.

Com: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Ty Simpkins, Nick Robinson, Irrfan Khan, Omar Sy, BD Wong.

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