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La La Land: cantando estações

Desde pequenos, consumimos (no sentido ruim, na maior parte do tempo) a ideia de que buscar nossos sonhos é o que mais importa em nossa vida. Se estamos infelizes, é porque não atingimos o objetivo vital de desenvolver aquele projeto que coça dentro de nossa cabeça há anos, não estamos trabalhando naquele emprego que sempre quisemos, não estamos escrevendo o livro que deveríamos ter começado há muito tempo, não estamos isso, não estamos aquilo. Programas de TV, propagandas, séries e, principalmente, filmes sempre nos dizem isso: você precisa correr atrás dos seus sonhos.

Bem, é uma possibilidade tentadora e que, sem dúvida, nos move sempre em busca de algo maior e melhor, não importa o que necessariamente seja para cada indivíduo. Afinal, manter-se no ócio, parado, deixando a vida passar, enquanto oportunidades podem aparecer e se desmanchar diante de nossos olhos é uma situação que muitos têm horror só de pensar, ainda mais em um século repleto de tecnologias, facilidades, vai-e-vem, cobranças, produções, touchscreensstreamings para todos os lados. Se a teoria da modernidade líquida já está mais do que provada, e se estamos deixando essa modernidade vazar para a esfera sentimental, desmanchando também as relações humanas, precisamos urgentemente buscar nossos sonhos. Ou é, pelo menos, o que produtos culturais nos forçam a acreditar.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A propósito, sempre evito relacionar a palavra “produto” ou o verbo “produzir” com o substantivo “cultura” ou o adjetivo “cultural”. Passa a impressão de que uma arte, seja ela de que tipo for, precisa ser produzida; ou seja, ela tem prazos, obrigações, pontos a serem cumpridos, objetivos a serem atingidos, ou a satisfação não será completa. Como qualquer outro produto que saia das entranhas de uma indústria – ou pior: de uma corporação gigantesca, com seus tentáculos atingindo diversos lugares, situações e camadas sociais. Mas é uma obrigação à qual me submeto às vezes por um motivo muito simples: sempre vivemos e continuaremos a viver diante de obras (como as cinematográficas) que foram produzidas – no sentido que dei no começo desse parágrafo mesmo – para serem consumidas rapidamente. De certa forma, isso não é ruim. Dentro de uma cultura de massa, é natural um degradê de filmes, livros, pinturas e músicas que vão desde a mais popular, atingindo a maioria das pessoas, até a mais específica, a mais difícil de ser entendida, compreendida, interpretada.

Estou tocando nesse ponto (delicado, na maior parte das vezes) pois La la land: cantando estações traz um pouco disso à tona. Não apenas em seu próprio roteiro, como tema principal na motivação de seu casal de protagonistas, mas em sua história também: toda a concepção, gestação e o enfim nascimento do filme custou muito tempo e provavelmente muitas noites mal dormidas ao seu diretor e roteirista, Damien Chazelle. E essa história é a prova de que Hollywood ainda teme investir em filmes que, a princípio, parecem ser mais uma paixão particular de seu principal realizador do que uma produção massificada, enlatada e instantânea – sinônimos adoráveis para um provável sucesso comercial e econômico, um objetivo mais palpável para os cofres dos estúdios cinematográficos.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E apesar de ser um musical – um fator que pode aproximar e afastar públicos com a mesma intensidade -, La la land não é um filme apenas com músicas bonitinhas, passos de dança bem coreografados e planos-sequências planejados com cuidado. Ele possui sua essência, uma alma que sente pelos acertos do passado através de uma nostalgia expressada por Mia (adorável com a interpretação de Emma Stone) com sua adoração ao cinema da era de ouro e Sebastian (mais apagado por causa de Ryan Gosling) e a admiração gigantesca que nutre pelo jazz. Se o casal sente falta de épocas que não voltarão, o diretor Damien Chazelle parece sentir falta do filme leve, do cinema que encanta pelo canto, que enche nossos olhos por meio de sua principal característica: a imagem em movimento.

Junta-se, então, essas paixões nostálgicas e temos um filme colorido, pulsante e ensolarado desde os seus primeiros minutos. As cores, aliás, estabelecem o clima com um logotipo do estúdio Summit Entertainment artificialmente envelhecido para parecer vintage, além do primeiro card de créditos iniciais ser, assim como nos clássicos musicais da década de 50, “apresentado em CinemaScope”. Apresentado e não filmado pois a produção de La la land não usou lentes CinemaScope – essas foram criadas em 1953, uma tentativa do cinema para combater o eminente e recente sucesso da televisão com o público, fazendo com que os filmes, a partir de então, fossem apresentados em um aspecto de tela muito mais largo (sim, nascia, aí, o formato widescreen que temos até hoje). E o card em si também indica o clima do filme: surge em preto e branco, com seu título cortado em ambos os lados, e vai enlarguecendo, tomando toda a tela do cinema, tornando-se colorido e ressaltando o amarelo e o pink do “CinemaScope” ali escrito.

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Imagem: Lionsgate, 2016

A partir dessa introdução, La la land não descansa. Com um plano-sequência inicial no meio de um congestionamento de Los Angeles, o filme já deixa claro a seu espectador que sim, haverá muitos números músicais; sim, vai ter gente cantando e dançando em situações nada comuns para uma cantoria e uma dança bem coreografada; sim, vai ter traseira de caminhão sendo aberta para revelar… uma banda completa de percussionistas. Se você passar por todas essas cenas e mesmo assim se sentir confortável o suficiente para encarar o restante, parabéns, você pode encarar La la land numa boa. O que é irônico, já que, daí em diante, os números musicais são bem mais coesos, encaixando-se organicamente a cada situação da história, principalmente quando têm a presença de Emma Stone e Ryan Gosling.

Stone, inclusive, entrega um trabalho na medida, sem emoções excessivais que poderiam facilmente estragar suas cenas mais dramáticas. Ao tentar fazer o público rir, ela consegue de maneira natural. Ao tentar fazer o público chorar também. Já Ryan Gosling, apesar de mostrar-se confortável com os infinitos sapateados e passos de valsa, além de emitir um tanto de charme considerável quando está diante das teclas de um piano ou sintetizador, faz o ritmo do filme cair negativamente quando precisa travar diálogos – com exceção, é claro, da cena em que discute o momento em que se encontra na vida com Mia, num jantar à luz de velas, um dos pontos altos do longa.

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Imagem: Lionsgate, 2016

E por ser um musical, ser repleto de cores e movimentos, ter como essência a imagem e a luz, La la land não poderia deixar a desejar com sua fotografia. E não deixa. Temos planos-sequência milimetricamente planejados, com direito a câmeras que pulam de um canto a outro feito estilingues, outras que mergulham em piscinas e saem delas com a mesma facilidade, além de uma paleta de cores que presenteiam os olhos dos espectadores com pores-do-sol azuis-arroxeados e céus estrelados que vão do azul mais aveludado ao negro mais intenso.

Ao final, a impressão de que vimos um filme superficial, mais um entre tantos que pregam a busca de um sonho aparentemente impossível, pode nos tentar. Mas se analisarmos bem, La la land tenta passar sua essência não através de um desenvolvimento exemplar de personagens, muito menos por meio de discussões filosóficas; sua coluna vertebral é formada por sonhos, e eles são realizados em cada sequência musical apresentada, nos detalhes dos cenários, na escolha da cor do figurino de cada ator e figurante, nos arranjos da música composta por Jason Hurwitz. Mais do que isso, o roteiro também deixa espaço para uma melancolia necessária. Uma possibilidade negativa no meio de tanta busca por sonhos, sorrisos, danças e músicas alegres. Um ponto essencial para manter os pés no chão, mesmo que, de vez em quando, é gostoso ver atores voando para dançar uma valsa nas estrelas. Literalmente.

» Nesse link você pode ver uma montagem mostrando todas as referências a filmes e musicais que La la land faz ao longo de sua projeção.

» E nesse há um texto da Vanity Fair falando um pouco sobre a dificuldade de um diretor persistir em seus projetos pessoais (muitas vezes ignorados pelos grandes estúdios). O texto está em inglês.

poster

Pôster: LA, 2016

La la land, escrito e dirigido por: Damien Chazelle

Com: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, J. K. Simmons, Finn Witrock

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Magia ao Luar

Coube a Colin Firth a responsabilidade de assumir, em Magia ao Luar (Magic in the Moonlight, 2014), a persona que consolidou não só a figura de Woody Allen no cinema contemporâneo, mas também a carreira do cineasta, atualmente lançando um novo longa a cada ano. Esperar uma boa atuação de Firth não é se antecipar erroneamente; neste ponto, o novo filme de Allen está seguro. O que surpreende, porém, é a temática escolhida. Ou melhor, não só a temática, mas de que forma ela é conduzida.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

Belamente fotografado em locações da Riviera Francesa visivelmente escolhidas a dedo, Woody Allen primeiramente parece querer convidar o público para se ambientar não apenas aos seus novos personagens, mas, usando os cenários – sejam eles externos ou internos -, assentar um clima que evoca tanto a dúvida como mistério e fascinação, quanto como a preparação para uma derradeira realidade, brusca e aterradora como ela só. Afinal, observar o universo através da Lua e das estrelas mais brilhantes parece ser uma ideia romântica e reconfortante, mas analisá-lo cirurgicamente pela lente de um grande observatório pode revelar uma imensidão assustadora e, nas palavras de Stanley, o protagonista, “ameaçadora”. A dúvida, dessa forma, é manter-se na fria e dura realidade do cinismo quando ele se depara com uma provável nova charlatã que se auto-intitula médium ou, na melhor das hipóteses, ceder ao que todos parecem concluir: a bela e dócil Sophie (interpretada de forma leve e, ao mesmo tempo, impressionante, por Emma Stone) realmente possui um dom que a possibilita ver através das pessoas e se comunicar com aqueles que já faleceram.

Se os cenários contribuem para a fluidez do roteiro, a década de 20, juntamente com a trilha-sonora, vem colaborar para instituir a principal reflexão da história: nós, em nossa condição limitadamente humana, estamos propensos a sermos felizes apenas quando vivemos sob mentiras que nos confortam? Allen vai brincar com a questão brindando o público com diálogos inspirados entre Stanley e sua “antagonista”: desmascarar o provável (em sua opinião, claro) charlatanismo da moça é o objetivo para o qual seu amigo, Howard (interpretado por Simon McBurney), o convence a desistir de uma viagem para ir à França. Quando ambos se conhecem, a doçura e expressão facial etérea de Sophie entra em um choque delicioso com o semblante rabugento de Stanley – e é engraçado notar como o figurino de Colin Firth vai se alternando durante o filme: primeiramente sóbrio em seus ternos escuros à moda da época, Stanley vai se “clareando” conforme se rende aos encantos mágicos da médium, culminando, inclusive, em um traje leve e totalmente branco, em determinada cena, para logo depois voltar ao seu cientificismo monocromático. Esses detalhes vão sendo colecionados à medida que o filme corre, compondo núcleos temáticos que irão preencher com riqueza o longa.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

E, depois de ser aclamado por Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), criticado por Para Roma, Com Amor (To Rome with Love, 2012) e novamente aplaudido por Blue Jasmine no ano passado, Woody Allen volta a acertar seu bom e velho timing tanto para um tema bem manejado, como para a construção de personagens que seduzem a curiosidade do espectador, gerando um cena pós cena de diálogos que vão e voltam na comédia, no drama e no romance, criando uma sequência de acontecimentos dentro de uma história redondinha, mas que surpreende: a certo ponto, somos também convidados a criar uma nuvem pesada de dúvidas sobre nossas cabeças, assim como Stanley, fazendo com que tentemos desvendar os mistérios de Magia ao Luar e, ao mesmo tempo, nos rendamos ao conforto de aceitar as previsões e adivinhações de Sophie como dogmas confortáveis.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

O mais novo longa escrito e dirigido por Woody Allen é uma obra que não só diverte e emociona, como sugere reflexões ao público por meio de contrastes: Stanley é um mágico famoso, então seu dever é treinar os truques para que pareçam mágica; Sophie se diz médium, possui um dom – não precisa de uma disciplina laboral para impressionar quem a cerca. E enquanto Stanley deseja, mais do que tudo, provar para os outros que a moça não passa de uma farsa, Sophie faz questão de dizer, em certo momento, que há uns anos assistiu ao show de Stanley e ficou impressionada com sua performance… mas a crítica vem certo tempo depois: sua estupefação se desmoronou ao saber que as mágicas do ilusionista não passavam de truques, de simples treino para enganar os olhos das pessoas. Então quem é o mais errado nessa história toda: o mágico que ilude o público? Ou a médium que ilude o povo? Ou ninguém?

Woody Allen vai deixar essa pulga atrás de nossas orelhas.

Pôster: Gravier Productions, 2014

Pôster: Gravier Productions, 2014

Magic in the Moonlight, dirigido e escrito por: Woody Allen.

Com: Colin Firth, Emma Stone, Simon McBurney, Hamish Linklater, Eileen Atkins.

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