Séries

13 reasons why

A habilidade de julgar, inerente a qualquer ser humano, faz de nós uma espécie à parte. Podemos, por exemplo, calcular mentalmente quais são as melhores opções para sair de um ponto A e chegar a um ponto B, levando em consideração todos os entremeios ali presentes; podemos escolher entre um produto A e um B, decidindo, por fim, qual comprar, porque o julgamento nos apresentou a melhor opção; podemos, enfim, utilizá-la para muitas situações. Julgar, portanto, é uma ferramenta importante para a sobrevivência. No entanto, diferentemente de outros animais, nós também usamos nossa habilidade como um poder destrutivo – ou, em muitos casos, autodestrutivo.

Somos julgados a todo tempo. Analisados a todo tempo. Ao viver em sociedade, estamos, sem escapatória, na mira de olhos pungentes, que nos ditam o que devemos vestir, como devemos nos comportar, a maneira como precisamos conversar, a forma como devemos atuar em todos os lugares. No trabalho, somos julgados a partir das habilidades que demonstramos para com as coisas e as pessoas; socialmente, somos julgados por vestir tal roupa, rir de tal maneira, gesticular com as mãos no momento da fala, estar acompanhados por um certo alguém. Mas é na escola onde o julgamento é mais preciso. É na escola onde grupos se formam, tribos se solidificam, inimigos são naturalmente traçados. O julgamento, aí, não é, a princípio, um problema. Ele é necessário para saber com quem devemos nos misturar, com quem podemos nos abrir para compartilhar uma dor ou segredo, com quem ficamos à vontade para gargalhar e dar um ombro amigo quando o outro mais precisa de nós.

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Imagem: Netflix, 2017

Mas a escola também pode nos destruir. Ela, por ser um preparatório para a sociedade lá fora, torna-se, muitas vezes, um microcosmo hostil, um ambiente propício a discussões, rusgas e, no seu pior momento, violência. Porque, afinal, a escola é essencialmente formada pelo seu maior público, os estudantes. São eles que dão forma a uma sala de aula, são eles que irão traçar o perfil de cada ambiente. E estudantes estão em processo de crescimento físico e intelectual; são como telas em branco, em que o artista plástico é uma junção de duas partes: o próprio aluno e seu professor. Ambos vão criar uma obra que não é fixa, vão desenvolver um quadro que se modifica a todo tempo. E modificar-se não pode ser encarado como algo ruim, perigoso. Modificar-se significa o resultado de uma reflexão. E a reflexão subentende um esforço preciso e trabalhoso, algo que ainda não é amigável a todas as pessoas.

Pensemos assim: é mais fácil e cômodo eu acreditar que sei de tudo sobre um determinado assunto do que, em um certo momento, ter um desequilíbrio em minhas convicções e esse desvio me fazer acreditar que não, não sou capaz de saber tudo sobre esse assunto em especial. A permanência obstinada nessa certeza única e egoísta, esse apego ferrenho às minhas próprias certezas e a não possibilidade de uma visão mais ampla sobre as coisas ao meu redor é um movimento perigoso, uma abertura à possibilidade de abraçar algo que está dentro da natureza humana com a mesma intensidade do poder do julgamento: o preconceito. E é esse preconceito que borbulhará frases, mensagens, xingamentos e atos de violência entre pessoas e grupos diferentes em lugares propícios a tais situações. Como a escola.

É nesse ponto, então, que chegamos à série 13 reasons why.

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Imagem: Netflix, 2017

Aparentemente mais um produto voltado ao público jovem-adulto que tanto consome livros, filmes (muitas vezes baseados nestes próprios livros) e outras produções direcionadas a assuntos relativos aos adolescentes – amizade, escola, futuro profissional, romance, sexo, drogas, ansiedade, depressão -, a atual produção original da Netflix decide ir para um caminho menos explorado até então. Temos, por aí, inúmeras obras que tentam retratar as dores de uma pessoa depressiva. Mas por serem concebidas com o objetivo de atingir públicos jovens, muitas vezes assuntos sérios como um câncer terminal ou a própria depressão são romanceados a um nível preocupante. É o caso, por exemplo, de A culpa é das estrelas. Os treze episódios de 13 reasons why, todavia, deixam claro, desde o início, apesar de sua fotografia que vai das cores frias do presente para as cores quente de um passado não tão distante (além de uma trilha sonora indie apelativa aos corações adolescentes), sua abordagem: fria, direta e objetiva. Infere-se aí a possibilidade de cenas gráficas – a presença de sangue, o sexo não consentido -, infere-se também a possibilidade de discussões sobre assuntos espinhosos; e sim, tais possibilidades realmente acontecem.

É, como discutido no início, uma escolha a partir de um julgamento. E a equipe de produtores de 13 reasons why decide pelo caminho tortuoso, difícil e, o mais relevante, sem volta. Afinal, discutir abertamente temas como o machismo, o assédio sexual, a homofobia, o bullying, a depressão e a ansiedade sem glamorizar tais situações requer, em primeiro lugar, uma coragem audaciosa, pois isso será abertamente julgado (de maneira negativa, na maioria das vezes) pelo público, pela crítica, pela sociedade e as estâncias presentes nela. E a série não torna nada um mar de rosas.

A começar pelo método encontrado por Hannah Baker (interpretada por Katherine Langford) para deixar um legado pós-morte. Como a própria personagem nos diz logo no primeiro episódio, seria muito fácil deixar suas gravações em arquivos mp3 para as pessoas ouvirem em qualquer dispositivo em mãos, assim como recorrer ao Google Maps para indicar pontos estratégicos da cidade. E nada é fácil. Relacionar-se não é fácil, fazer amigos não é fácil – perdê-los menos ainda. Por que ela facilitaria, então? Hannah, portanto, grava suas memórias amargas em fitas cassete. Uma tecnologia perdida no tempo, difícil de ser utilizada em um mundo mergulhado em iPods, streaming e armazenamento na nuvem. Hannah sofreu com a espera, com a ansiedade, com um porvir eterno. Então seus ouvintes também precisarão conter-se para saber tudo o que aconteceu com ela (o que não deixa de ser levemente irônico, já que a própria Netflix disponibiliza todos os episódios de uma vez para seus assinantes).

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Imagem: Netflix, 2017

Juntamente com as falas biográficas de Hannah, o espectador é refém da visão de Clay Jensen (interpretador por Dylan Minnette); deslocado socialmente e extremamente ansioso, Clay não apenas vai apresentar ao público as fitas de Hannah em doses homeopáticas, como também misturará os relatos da amiga com lembranças fragmentadas, num misto que confunde o espectador de propósito. A série, porém, não segue nesse ritmo, priorizando uma montagem que apresenta transições de cena e rimas visuais elegantes, interligando presente e passado de maneira fluida e didática – não podemos esquecer que o público-alvo aqui são os próprios adolescentes, e priorizar uma narrativa mais fragmentada resultaria no afastamento dessa audiência.

Além do prolongamento da espera intrínseco às fitas de Hannah e a ansiedade nata de Clay, ainda há um terceiro ponto nesse triângulo de protagonistas: servindo de guardião / mentor de Clay, Tony (interpretado por Christian Navarro) será o responsável por trazer o jovem ansioso de volta à realidade em momentos de fúria ou frustração extremos, lembrando Clay da importância de manter os desejos derradeiros de Hannah e de ouvir as fitas até o fim. É Tony também que guiará a narrativa em momentos-chave, levando a sério a importância de dar a Clay mais reflexões e perguntas do que respostas propriamente ditas – e exteriorizando sua filosofia própria ao levar o amigo para uma escalada, mostrando, literalmente, que a recompensa por um caminho difícil é maior do que chegar ao mesmo ponto B através da opção mais fácil.

13 reasons why diverge-se também ao ser uma produção que preza por mensagens visuais bem sutis, mas que quando apreendidas pelo espectador, fornecem à obra um grau de significação maior. É o caso, por exemplo, de determinados cortes entre uma cena e outra, como o momento, em um dos últimos episódios, em que um dos personagens aponta uma arma na direção da câmera, pronto para atirar e, logo após o corte, vemos um porta-retrato com a foto feliz e espontânea de uma família cujo filho único acabara de falecer. Sem fala algum, sem nenhuma narração para explicar, a própria imagem nos manda um recado: é esse personagem o verdadeiro assassino dessa história repleta de assassinos. É também nos momentos de representações delicadas, como as sequências com violência sexual, que a série mostra seu potencial imagético de maneira sutil. Quando determinada personagem sofre com uma relação sexual não consentida por ela, a câmera filma sua mão em um zoom in lento, cirúrgico; uma mão que, a princípio, estava tensa com a situação e, com o passar dos minutos, cai, sem forças, simbolizando a rendição da personagem diante do assalto que seu corpo e sua alma sofrem naquele momento.

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Imagem: Netflix, 2017

E, se nesses casos 13 reasons why preza pelo simbólico, o mesmo não acontece com a sequência do suicídio de Hannah Baker. Se você ainda não terminou ou não começou a assistir a série, pule o restante desse parágrafo e vá direto para o próximo para evitar spoilers. Alguns espectadores podem julgar de maneira negativa a opção de se mostrar, d maneira crua, o suicídio de Hannah. Mas pensando no estilo que a série determinou para discutir todos os assuntos ali envolvidos desde o primeiro episódio, não faria sentido tratar o momento mais terrível da personagem de forma sutil, disfarçada. Um suicídio não é uma brincadeira, muito menos algo interessante. Retratá-lo requer coragem. E a opção do diretor do episódio, Kyle Patrick Alvarez, é a de manter suas lentes sobre Hannah, operando com closes enquanto a jovem corta rapidamente seus pulsos e com câmeras fixas em planos médios quando ela se deita na banheira, a respiração antes frenética dando lugar a uma calmaria dolorosa. A segunda parte, dolorosa igual, é o encontro dos pais com a filha morta dentro da banheira – o desespero realista do pai, a negação como último fio de esperança da mãe. Não bastando a imagem, a voz de Clay permeia tudo, descrevendo exatamente o que nós vemos, como um lembrete a mais para que entendamos, de vez, a seriedade de um suicídio e como ele é a junção de violências (sejam físicas, sejam psicológicas) vividas diariamente pela vítima que se rende a um último recurso: tirar a própria vida.

E se o desespero é o sentimento presente nos personagens que possuem uma ligação forte com Hannah, o oposto se vê na composição do personagem Bryce (interpretado por Justin Prentice). Com todos os atos machistas que pratica – dos mais silenciosos aos mais escancarados -, Bryce representa aqueles que não refletem, aqueles que acreditam saber tudo sobre tudo, aqueles que jamais admitirão seus atos como ações de preconceito, humilhação e violência. O jovem machista adorado pela sociedade que o rodeia devido à sua imagem pública impecável, o estuprador que acredita fazer um “favor” às meninas que “pedem” para serem “fodidas”. A construção do personagem dentro da narrativa vai, então, criá-lo como alguém que sempre aparta as brigas dos amigos, aquele que está presente para amenizar os desentendimentos e ajudar o amigo sempre que este precisa dormir fora de casa devido a questões familiares. De olhar amigável e fala mansa, Bryce é o popular que a todos atende e a todos convém. Mas, quando estão todos longe, ele é o violentador que irá intimidar com o olhar, o homem que precisará usar seu porte físico maior para ganhar quem deseja à força, sentindo o gozo da vitória através do sofrimento de sua vítima. Sua calma, mesmo diante da possibilidade de tudo ir por água abaixo em sua vida, em seu futuro, só corrobora sua sociopatia.

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Imagem: Netflix, 2017

Assim, em mais um acerto, a Netflix faz com que paramos para refletir por um instante. Prestar atenção na pessoa que está no mesmo ambiente que o seu antes da eminente tragédia é a mensagem principal deixada ao final do último episódio. Somos, muitas vezes, aquele que violenta com palavras porque não aceitamos nos outros aquilo que mais nos incomoda em nós mesmos. O problema, assim, não é a presença do outro e seu modo de vida. O problema está em nós mesmos. Não podemos julgar um suicida considerando seu derradeiro ato como uma sinal de “fraqueza” se também somos essencialmente formado por inúmeras fraquezas, incertezas e medos. Se não chegamos ao ponto de tirar nossas próprias vidas, considerando ter “superado” todas as dificuldades, isso não nos dá o direito de julgar um suicida. Isso nos dá a oportunidade de ajudá-lo ainda em vida. Já que somos dotados com a capacidade aguçada do julgamento, precisamos perceber os gritos silenciosos de ajuda daquele amigo ou familiar e julgar a melhor forma de ajudá-lo. E aprender com isso, para não precisarmos de 13 porquês para uma pessoa ter desistido absolutamente de tudo e de todos.

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Pôster: Netflix, 2017

13 reasons why, criada por: Brian Yorkey; escrita por: Elizabeth Benjamin, Diana Son, Thomas Higgins, Nathan Jackson, Nathan Louis Jackson, Kirk A. Moore, Nic Sheff, Hayley Tyler (baseada na obra Os 13 porquês, de Jay Asher); dirigida por: Kyle Patrick Alvarez, Gregg Araki, Carl Franklin, Tom McCarthy, Helen Shaver, Jessica Yu.

Com: Dylan Minnette, Katherine Langford, Christian Navarro, Justin Prentice, Miles Heizer, Devin Druid, Amy Hargreaves, Derek Luke, Alisha Boe, Brandon Flynn, Ross Butler, Kate Walsh, Charlotte Hervieux, Steven Silver, Michele Selene Ang, Josh Hamilton, Brian d’Arcy James, Sosie Bacon.

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Filmes

Animais noturnos

Engraçado como o ato de ler um livro pode encantar e assustar com a mesma intensidade. Para aqueles que têm como hábito a leitura, o prazer de pegar um exemplar da estante, retirar o plástico e abrir a capa, sentindo o cheiro do papel ali conservado, não possui um valor estimado. Já os que não se aproximaram da leitura ainda veem os livros como objetos estranhos, insignificantes até. A ideia de sentar e passar algumas horas encarando as linhas, em silêncio, pode ser apavorante. O mesmo acontece, na maioria das vezes, com a apreciação de uma obra de arte sem ser literária. Uma pintura abstrata, uma instalação de um artista plástico moderno, uma intervenção artística. Quantos de nós têm acesso a um museu? Se temos, quantos de nós realmente visita um? E se visitamos, quantos de nós encaramos cada arte ali apresentada a nível de compreensão não absoluta, mas quase completa?

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

Essa sensação de estranhamento é uma das primeiras a surgir com o início de Animais noturnos (Nocturnal animals, 2016). O filme do roteirista e diretor Tom Ford presenteia os olhos de seu público já de cara com créditos iniciais acompanhados por glitter caindo lentamente pela tela, acompanhado por uma trilha suave, mas com algumas notas angustiantes, como que sinalizando o que está por vir. De repente, o primeiro corte dá espaço para modelos obesas, mais velhas, nuas exceto por botas, luvas e adereços, seus peitos caídos balançando lentamente por cima de barrigas maiores ainda; uma senhora carrega dois daqueles palitos que, quando acesos, soltam faíscas, enquanto executa movimentos de uma dança sensual, em parte lânguida, em parte melancólica. A câmera de Ford as filma  em closes fechados, um corte após o outro mostrando uma mulher diferente da outra, semelhantes, a certo ponto, por causa de suas fantasias mínimas festivas, seus corpos desafiando nossa percepção do que é um modelo ideal de beleza, nossos olhos e cérebros brigando para se deleitar ou se assustar com cada plano em câmera lenta.

Intencional, Animais noturnos já choca à sua maneira desde tal abertura. Choca, mas fisga seu espectador com a mesma intensidade. Após a abertura imageticamente intensa, passamos a acompanhar a rotina de Susan Morrow (Amy Adams em um de seus melhores momentos), dona de uma galeria de arte cuja instalação atual são justamente as senhoras obesas e suas danças provocativas (em diversos sentidos). O longa, nesse começo, parece encontrar um marasmo narrativo, enquanto Susan tenta atrair a atenção de um marido insosso (interpretado por Armie Hammer), desesperado por salvar sua carreira e seu dinheiro, até o momento em que uma encomenda chega às portas da mansão, embrulhada em papel pardo. Susan, ao tentar abrir a embalagem interna ao papel pardo, corta um dedo no papel afiado – uma metáfora que a princípio parece boba, óbvia e infantil, mas que, conforme a história dentro da história se desenrola ao longo de quase duas horas de projeção, vai tomando proporções maiores, pesando sobre a protagonista e, invariavelmente, sobre nós como público também.

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

A partir desse estopim em forma de metáfora do corte, o abismo de Animais noturnos começa a se abrir sobre os pés de Susan. Dentro do pacote, o original de um romance escrito por seu ex-marido (cujo nome é “Animais noturnos”). O conteúdo da história que o ex (Jake Gyllenhaal) tem a contar parece misturar ficção e uma autobiografia em uma confusão proposital de memórias, amarguras, violência e vingança. E assim como a narrativa do rapaz mistura elementos, confunde uma coisa e outra, o diretor Tom Ford passa a mesclar a história de Susan com a história que seus olhos leem no original do ex, apresentando transições de uma narrativa à outra através dos cortes esteticamente planejados para indicar ao espectador que, sim, as duas histórias se juntam, se unem, se complementam. Então, se no livro “Animais noturnos” um personagem atira, o som do disparo assusta Susan em sua sala de estar belamente mobiliada; consequentemente, nos assusta também. Há, também, sobreposição de planos de dois tipos, aquela em que as duas imagens se sobrepõem literalmente, como se ambas se fundissem em um semi fade in e um semi fade out contínuo; e aquela em que há um corte, e a imagem que se segue é quase idêntica à anterior, com os atores posicionados exatamente como os da cena que passou, causando um choque no espectador, quase confundindo-o. Essas escolhas de Ford elevam Animais noturnos a um nível acima da narrativa comum, manipulando, com a imagem, as nossas sensação em relação ao filme.

Dessa forma, a fotografia do longa vai recorrer a algumas escolhas que adicionam mais significações ao longo da trama, como quando a imagem do protagonista do romance lido por Susan está banhada por uma iluminação azulada, enquanto a própria Susan aparece sob uma intensa luz amarela, sugerindo uma das oposições quente x frio mais utilizadas pelo cinema; assim, não só nesse jogo de cores, Ford estabelece, sem uma única explicação verbal, os opostos que, a todo tempo, tentam se aproximar: Susan e seu marido atual; o protagonista do livro e sua esposa e filha; o mesmo protagonista e seu rival, o criminoso Ray Marcus (interpretado por Aaron Taylor-Johnson); o ex (por meio do romance escrito) e Susan, e assim por diante.

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Imagem: Fade to Black Productions, 2016

Por fim, o estranhamento que se iniciou lá no começo com seus créditos iniciais, e tomou proporções cada vez maiores a partir do corte no dedo de Susan, vai se acalmando enquanto a última cena de Animais noturnos se desenrola. Silenciosa, angustiante e decisiva para Susan e para o público, o final do longa é vazio propositalmente. Não para frustrar seus espectadores, mas para ressaltar que, na busca de desejos e aproximações, muitas vezes podemos e tomamos decisões que afetam de maneira decisiva a vida das pessoas que nos rodeiam. E quando essas pessoas são aquelas que apostam em um relação íntima e se entregam a um amor por nós com uma vontade genuína, a quebra do sentimento é irreversível. E se a representação dessa quebra se materializa na forma de um livro a ser publicado, sua carga de mágoas e vinganças pode cortar. De verdade.

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Pôster: B O N D, 2016

Nocturnal animals, escrito e dirigido por: Tom Ford (baseado no livro Tony & Susan, escrito por Austin Wright)

Com: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Aaron Taylor-Johnson, Armie Hammer, Michael Shannon, Isla Fisher, Ellie Bamber, Karl Glusman, Robert Aramayo

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Filmes

A chegada

Alguns acreditam que o cinema é uma forma de escapismo. Ao entrar numa sala escura de projeção, você se senta diante de uma tela e esquece dos problemas que estão te atormentando a semana toda; esquece dos desastres políticos e econômicos ao redor do mundo que pipocaram na TV nos últimos; esquece de que no dia seguinte você vai acordar cedo. Mas e quando o filme entrega mais problemas e você precisa juntá-los à sua balança racional-emocional? Não que esses problemas sejam de ordem técnica e artística, algumas vezes aquele longa-metragem em específico faz com que os problemas fiquem flutuando em sua mente por um bom tempo, forçando-o a pensar na história, em suas consequências e, principalmente, (talvez a possibilidade mais assustadora) como agir diante de toda aquela narrativa se ela acontecesse no mundo real.

Temos inúmeros exemplos de filmes, em sua maioria hollywoodianos, que imaginam – e alguns que pelo menos tentam explicar melhor – como seria o relacionamento da humanidade com potenciais visitas alienígenas. Na maior parte delas, o resultado é desastroso. Catastrófico. É uma maneira, claro, de atingir uma bilheteria maior: se eu faço um filme repleto de cenas de ação, com direito a explosões sem fim e seres de outro planeta agindo de maneira violenta (ou nojenta), o apelo popular aumenta, assim como minha arrecadação. Não que isso seja errado ou ruim, vai depender de cada filme e sua abordagem ao tema. O que nos leva a uma questão principal em cinema: você deseja contar uma história ou pensa, antes, em como contar essa história?

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

O cinema, assim como a literatura é para a narrativa escrita, é moldado, através de imagens, para contar uma história de forma a extrapolar o senso comum. A sensação de sair da sala escura e ficar com a história martelando na cabeça, com mais dúvidas do que respostas, é sinal de que o filme cumpriu o seu papel de desautomatização – ou seja, ele tirou você, como público, do automático, da rotina, do dia-a-dia muitas vezes alienante. Quando se trata de histórias sobre o espaço infinito que cerca nosso planeta, podemos conhecer filmes cuja abordagem pode atingir o extremo abstrato de um espectro – como 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odssey, 1968) – e outros que tentam unir conceitos científicos e filosóficos intricados a uma narrativa mais palatável, como é o caso de Interestelar (Interstellar, 2014).

A chegada (Arrival, 2016) está, talvez, no meio-termo desse espectro. Apesar de ter uma linha narrativa comum – a protagonista, uma especialista em linguagens, é chamada pelo exército americano na tentativa de compreensão da linguagem utilizada pelos aliens visitantes -, o filme, com suas imagens, conta a história de forma não-linear. Não espere, portanto, um começo-meio-fim bonitinho, enlatado especialmente para consumo. É um roteiro que exige do espectador um mínimo de interpretação; e quanto mais a sua capacidade de interpretação é refinada, mais aproveitamento você terá da história e todos os seus detalhes ao longo da projeção.

É uma obra, portanto, que não se rende a uma autoexplicação gratuita: as peças para o mistério inerente à história estão jogadas sobre a tela do cinema; cabe a nós, público, ir montando-as conforme as mais de duas horas de filme passam diante de nossos olhos. E os aditivos, como estímulos, em tal empreitada, são duas discussões que surgem conforme seu roteiro se desdobra: uma sobre a linguagem – seu uso e suas complicações -, outra filosófico-existencial – por quê estamos aqui? o que eles vieram fazer em nosso planeta? quais são suas intenções?.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem como peça-base para uma cultura

Uma das abordagens mais instigantes – e belamente acertadas – de A chegada é a da personagem Louise Banks (interpretada por Amy Adams, fatalmente ignorada pelo Oscar desse ano). O filme poderia perder um bom tempo desenvolvendo-a ao mostrar seu dia-a-dia como professora e pesquisadora. Mas a elegância do roteiro de Eric Heisserer e da direção de Denis Villeneuve prefere mostrá-la em ação: sua perspectiva certeira como especialista do campo de linguagens, seu faro para consequências e implicações a partir de problemas que surgem, sua coragem e audácia que a tornam a força-motriz do filme.

Além dessa imagem que transmite, a personagem, em essência, entende, mais do que todos, que uma das bases – senão a principal – para uma cultura bem estabelecida é a comunicação entre seres através de uma linguagem com grande desenvolvimento. E quando o Coronel Weber (interpretado por Forest Whitaker) tenta pressioná-la para fazer a pergunta que todos querem saber a resposta (“Qual o propósito de vocês na Terra?”), A doutora Banks justifica não somente como é muito mais complicado se comunicar como também é necessário paciência e tolerância para se entender as dificuldades de uma comunicação com hipotéticos (não no filme, é claro) alienígenas e, por consequência, para apreciar o desenvolvimento paulatino do roteiro – que a muitos pode parecer lento, até monótono de início.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

A linguagem cinematográfica como base para o filme

E se esse tema tão caro à história de A chegada necessita de uma atenção grande de seus realizadores, as tomadas, as cenas e as sequências do filme também são formas de comunicação. São, em suma, uma linguagem própria.

O primeiro take de Arrival começa com um fade out orgânico, a câmera saindo da escuridão em direção à luz. O movimento, no entanto, é de cima para baixo: a lente de Villeneuve observa primeiro o teto de madeira e, vagarosamente, desce até mirar uma grande vidraça, mostrando uma paisagem serena. Esse movimento se repete ao longo da narrativa, talvez mais umas duas ou três vezes, assinalando que o olhar vertical (de cima para baixo) é importante para a história ali contada – os aliens, afinal, descem do céu em direção ao planeta também em um movimento vertical; o contato entre os humanos e as criaturas começa também com um movimento vertical (aqui, porém, invertido, de baixo para cima); e todos esses momentos com uma rima visual: se iniciam no escuro e vão em direção a uma fonte de luz.

Outro ponto tocado pelo diretor canadense, de maneira metonímica, é a questão do contato. Temos, em A chegada, cenas que mostram essencialmente os personagens necessitando tocar objetos, texturas e demais materiais e substâncias. A cena em que Ian Donnelly (interpretado por Jeremy Renner) toca com as pontas dos dedos a base da nave alienígena; quando Louise toca o vidro que a separa das criaturas; as diversas cenas da Dra. Banks com sua filha recém-nascida (o primeiro contato de uma vida). A metonímia, é claro, tange a necessidade humana de conhecer algo através do tato, impulsionada pela curiosidade muitas vezes científica, mas essencialmente pura e simplesmente humana. Tal tema liga-se primordialmente ao principal da história – quem deseja fazer contato, em primeiro lugar, seja esse amigável ou hostil, são as criaturas alienígenas.

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Imagem: 21 Laps Entertainment, 2016

E se pensarmos os detalhes simbólicos, talvez o que mais represente o filme em si é a escrita dos aliens. Sugerindo o infinito através de sua estrutura circular, a linguagem primeiramente compreendida por Louise é algo que transcende nossa cultura de registro – escrevemos linearmente, afinal – da esquerda para a direita ou vice-versa. E tal simbologia resume não apenas a essência de A chegada, como, da mesma forma, ressalta a importância de seu tema mais caro: a necessidade de uma linguagem deselvovida para se estabelecer uma cultura – e, mais ainda, torná-la forte e, em alguns casos, dominante.

Somados a todos esses detalhes que vão eclodindo aos poucos em nossa mente após uma sessão angustiante (no fundo, como plateia, torcemos para que tudo se resolva, é claro, e essa jornada não é algo simples, muito menos tranquilo), temos também a ambientação necessária através da trilha soturna, etérea e ameaçadora do compositor islandês Jóhann Jóhanssonn – uma música que determina o clima do filme do início ao fim, entoando o ritmo principalmente quando a equipe se aproxima da nave para suas sessões de comunicação com os aliens. Temos também uma fotografia fria, evocando essa constante ameaça que, ao mesmo tempo, não é velada, mas que paira sobre a cabeça das pessoas no filme e, consequentemente, sobre o público também.

A chegada já pode entrar para o rol de seletos filmes com temática espacial que estão muito além do tratamento comum. É um filme que não afasta o público por não habitar totalmente a esfera do abstrato, mas que não entrega tudo gratuitamente, promovendo uma experiência não apenas cinematográfica, como estética também. E essa sua estética o eleva de maneira a causar tantos questionamentos no público que sai da sessão arrebatado. Se a sentença “Qual o propósito de vocês na Terra?”, como explicado pela Dra. Banks, não é tão simples como parece, por que A chegada também não pode ser muito mais profundo do que aparentaria a um espectador qualquer?

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2016

Arrival, dirigido por Dennis Villeneuve, escrito por Eric Heisserer (baseado no conto “História da sua vida”, de Ted Chiang)

Com: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Tzi Ma, Jadyn Malone, Abigail Piniowsky, Julia Scarlett Dan

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Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2016

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

ex_machina

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

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rogue-one

Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

cafe-society

O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

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the-revenant

Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

the-hateful-eight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

julieta

Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

» resenha

the-witch

Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

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Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

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spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

aquarius

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Livros

“It: a coisa”, de Stephen King

Tive uma relação complicada com a considerada obra-prima de Stephen King. Comecei a ler A coisa em dezembro de 2012, numa horrível edição pocket em inglês. Comprei o livro, na época, por dois motivos: para não deixar de treinar o contato com a língua e também para conhecer o tão comentado livro. Além disso, Stephen King foi um dos autores que me introduziram ao hábito da leitura, no começo da adolescência. Na época, ganhei A hora do vampiro de presente da minha mãe (hoje, com outro nome, Salem), da velha coleção em capa dura que a Planeta deAgostini lançou, na época, nas bancas – e bem depois fui me tocar que eram edições horrorosas, com uma diagramação terrível, letra pequena, espaçamento menor ainda. O fato é que me apaixonei pela narrativa de King, e isso ainda porque não era nem o melhor livro dele.

Um tempo depois, ganhei, de aniversário, O cemitério. Apesar de ter gostado bastante de A coisa (como ainda vou explicar com mais detalhes ao longo desse texto), O cemitério foi, e ainda é, para mim, o melhor livro do mestre. Não apenas pelas reviravoltas ao longo da história, mas principalmente por seu clima de suspense que vai aumentando até transbordar-se no mais puro terror. A leitura deste foi decisiva para mim: eu gostava muito de Stephen King. No entanto, nessa minha primeira leitura de It, em 2012, minha perspectiva para o tipo de literatura que ele cria mudou radicalmente. Na época, me cansei da narrativa prolixa, dos inúmeros personagens, do desenvolvimento lento da ação. Resultado: abandonei A coisa na metade da história, lá pela página 500 e pouco. Alguns acharam loucura eu tomar essa decisão, já que estava com meio caminho andado em um livro tão grande. Mas não me arrependi.

Então, no fim de novembro do ano passado, entrei em uma FNAC e encontrei a edição nova do livro, em português, em promoção (tinha acabado de passar a Black Friday). Era uma promoção realmente muito boa para deixar passar. Comprei o tijolão prometendo a mim mesmo que daria uma segunda chance à história e que leria de uma vez só, sem me deixar levar pela tentação de abandoná-la no meio do caminho novamente. Eu realmente não sei o que funcionou melhor: a promessa, a determinação ou a promoção; apenas sei que passei dezembro lendo It: a coisa, revisitando a fictícia Derry e seus habitantes, me juntando novamente ao Clube dos Otários e me emocionando com seus medos, dores e sacrifícios.

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Doar-se

Antes de mais nada, é preciso ter claro em mente que dedicar-se a uma leitura como essa de It não é um processo tranquilo. Mesmo que você se apegue bastante aos personagens e à narrativa em si, mesmo que você se habitue ao estilo do autor, mesmo que você passe os dias curioso para saber o que vai acontecer nas próximas páginas, ler um calhamaço é um teste constante de algo que cada vez menos temos (ou cada vez menos temos oportunidade de desenvolver): paciência. Se você se entedia facilmente com filmes longos, passeios tranquilos demais e ambientes silenciosos, fazer leituras de livros que tenham mais de mil páginas não será muito sua praia. Porém, é sempre possível achar uma exceção, mesmo que leituras demoradas não façam seu estilo; ou, em outros casos, você pode até não se importar com a quantidade de páginas de um livro – desde que ele seja um bom livro -, e mesmo assim não curtir a história ou o estilo do autor (que foi o meu caso, em 2012).

Bem, se mesmo assim você estiver disposto a passar uma quinzena ou até um mês diante das páginas de A coisa, saiba que, de diversas maneiras, sua dedicação será recompensada. O livro é realmente muito bom como a maioria alega. E sim, ele pode ser considerado a obra-prima de Stephen King (digo isso num sentido geral, da opinião pública e especializada, pois por mim mesmo ainda não posso afirmar por completo, já que não li todas as obras dele para atestar que It é realmente a melhor). Os motivos para que eu afirme tudo isso são muitos, mas creio que o principal vem de um detalhe: o livro não é propriamente de terror, como todos pensam quando leem sobre. Ele é mais um encontro de diversos gêneros literários, como se King desejasse incluir, na mesma história, tudo o que ele havia tentado antes e deu certo – e, em entrevistas, o autor afirmou que sua vontade foi exatamente essa. Claro que A coisa é repleto de cenas de horror, causando suspense, medo, terror e até asco, em alguns momentos (mais sobre isso daqui a pouco). Mas iniciar sua leitura esperando que seja apenas isso será um tiro no próprio pé.

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Pennywise

Após concluir a leitura, algo ficou uns dias girando na minha cabeça. O sucesso de Stephen King vem não apenas do apelo popular de suas obras, mas como ele usa desse artifício para ir um nível mais abaixo, mais profundo. Pensei exatamente nesse ponto porque uma figura que sempre volta à minha mente quando relembro a leitura de It é, como esperado, o palhaço Pennywise. É interessante porque, para atrair suas vítimas, o ser (acho que esse termo é o que melhor o, ou a, define) conhecido como Coisa toma a forma de um palhaço aparentemente gentil. Depois de refletir um pouco sobre isso, cheguei à conclusão de que aí está o que poderíamos chamar de genialidade – ou, se não quisermos exagerar tanto, esperteza – de Stephen King: ele se apropria de uma figura popular (o palhaço) como símbolo para toda uma alegoria que irá permear os cantos mais obscuros e os mais óbvios da história. Pensem bem: mesmo quem não tem medo de palhaços, pode considerá-los criaturas assustadoras, macabras até. Tendo isso, é possível um mundo de horrores prontos para serem degustados por leitores ávidos em busca de terror, seja ele sutil ou escatológico. E It: a coisa é uma bandeja completa de terrores.

Sim, terrores. A figura do palhaço, que se desmembra em diversas outras (o Lobisomem, o Leproso, a Múmia, etc), começa a alimentar os medos de cada personagem da história, e esses medos terão níveis de intensidade diferentes, gerando, por consequência, cenas que vão desde o mais barato susto até a concretização de algo completamente nojento. Além disso, o terror não reside apenas em Pennywise. Ele é, na verdade, a concretização dos medos das crianças – e, mais tarde, de suas versões adultas -, medos esses que vêm de suas próprias vidas. Ben, o gordo; Bill, o gago; Richie, o incoveniente; Eddie, o hipocondríaco; Stan, o judeu; Mike, o negro; Bev, a mulher. Cada um possui um “defeito” apontado com dedos vigorosos pela sociedade da época (mas que cai como uma luva para a sociedade de hoje também), um prato completo para que a Coisa entre em ação, utilizando desses “defeitos” para atingir cada personagem. E consegue, é claro. Assim, A coisa não é um livro de terror que o coloca em primeira instância para justificar sua história. Ele é a justificativa da história, uma inversão primorosa e que encaixa de maneira orgânica ao enredo que, no final das contas, possui a estrutura de um romance de formação.

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O verdadeiro horror

O que nos leva ao principal do livro: aqui, o narrador de King vai esmiuçar a história de cada personagem, desde a sua infância até a fase adulta (a pior). É por isso que ler It é doar-se, pois o tempo dispensado para esse detalhamento é grande, muito grande, justificando suas 1102 páginas de história. Alguns, em um primeiro momento, poderão ter a impressão de que isso é apenas encheção de linguiça (eu mesmo, em 2012, pensei assim), mas todas as coisas contadas ao longo de capítulos super extensos e interlúdios não muito menores estão ali por uma razão. Elas acabam se ligando a alguma informação lá na frente, é só aguardar. E aquelas que não se ligam de imediato, tem uma correlação mais tênue, quase temática.

Nessa enxurrada de detalhes, o narrador vai e volta no tempo, colocando lado a lado as diferenças e semelhanças extenuantes das crianças e de seus eus adultos. Com isso, o leitor passa a observar que, mesmo crescidos, os personagens carregam ainda muito de si da infância, muitas das vezes inconscientemente (como Eddie e seu casamento, Bev e seu casamento). E o estreitamento das duas linhas temporais, quase se juntando na parte final, fazendo com que a voz do presente se ligue (literalmente) à voz do passado, deixa essa intenção mais do que clara. E o amargo que o resultado dessa comparação no tempo traz é muito indigesto. Triste, melancólico. Vazio. Mas importante. Trivial. É com ele que o leitor vai perceber que o principal terror de It: a coisa não são seus monstros, seus pesadelos, suas cenas grotescas. É o fato de que, por mais que sua infância seja feliz, divertida, idílica, você cresce. Você, em algum momento, se transforma em um adulto. Cheio de trabalho, preocupações, contas para pagar e angústias diárias para lidar. Esse, no fim das contas, é o verdadeiro horror.

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A edição

Após a venda da Editora Objetiva para a Companhia das Letras, a obra de Stephen King passou a ser editada pelo selo Suma de Letras. Não que isso seja ruim, muito pelo contrário. Abandonados ao marasmo de edições tenebrosas da época da Objetiva, os livros de King eram publicados com folha branca, letra miúda e espaçamento horrível. Uma tortura para qualquer leitor. Agora, alguns upgrades necessários foram feitos.

Folha amarelada, fonte grande e espaçamento confortável para os olhos de qualquer mortal. E apesar do calhamaço que A coisa é, a gramatura do papel colabora para um peso razoável – não digo que é um livro leve, mas apesar de sua grande quantidade de páginas, ele surpreende por não ser tão pesado. Sem contar, é claro, toda a parte gráfica das capas, completamente reformuladas em relação às edições antigas, que possuíam a mesma identidade visual no nome do autor e títulos. Agora, cada obra possui seu estilo independente.

Algo que pode deixar os mais exigentes felizes é sua revisão. Realizada por Rita Godoy e Ana Kronemberger, creio ter encontrado, no máximo, 10 erros (e completamente compreensíveis, algo como faltar uma letra ou duas palavras, na sequência, invertidas) ao longo de todo o livro. É bem considerável, convenhamos. Além, é claro, da tradução de Regiane Winarski, que realizou algumas mudanças em relação à tradução da edição antiga (como manter, sabiamente, o nome de Pennywise no original – na outra edição era Parcimonioso) e que manteve o estilo de King de maneira competente.

» Uma curiosidade: o livro demorou 4 anos para ser escrito, de 9 setembro de 1981 a 28 de dezembro de 1984.

» Procurando vídeos e textos sobre o livro após ter terminado minha leitura, encontrei esse (que não é o melhor do mundo, apesar de alguns apontamentos relevantes) em que há a indicação de um artigo extremamente bom sobre A coisa (mas que, infelizmente, está em inglês), e que levanta questões e discussões bem boas sobre a história e todo o entorno de sua escrita e publicação – além de uma análise sobre a cena, talvez, mais polêmica de It, envolvendo a menina Beverly. Ah, devo avisar que este texto linkado está repleto de spoilers, então leia por sua conta e risco.

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Capa: Rodrigo Rodrigues / Suma de Letras / Editora Objetiva, 2014

It, de Stephen King. Publicado pela Suma de Letras.

Tradução de Regiane Winarski, 1104 páginas.

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Séries

Stranger Things

Os anos 80 parecem uma época, ao mesmo tempo, tão distante e tão presente entre nós. Mesmo não tendo vivido na década, existe uma identificação tão forte por toda a sua cultura, seja essa produzida pela música, cinema, moda ou TV. Vamos a festas com temática oitentista, nos apaixonamos por clássicos contemporâneos de seu cinema criativo, nostálgico e, claro, também trash. Prova mais recente de todo esse apelo por tal momento histórico é Stranger things (idem, 2016), produção própria da Netflix responsável por todo um furor nas redes sociais desde sua estreia, no dia 15.

Os temas da série são mais do que batidos: retratados em um subúrbio americano, em uma escola e, mais ainda, numa época que trouxe para nós pérolas como E.T. – O extraterrestre (E.T. the extra-terrestrial, 1982) e, um pouco antes, Contatos Imediatos de terceiro grau (Close encounters of the third kind, 1977), Stranger things não se limita aos modelos e estereótipos. Desfila um monte deles durante seus poucos, mas ótimos e concisos oito episódios, é claro, apresentando logo de cara uma sequência digna de qualquer teoria da conspiração e passando por aquela festa adolescente em que o bonitão quer transar logo com a mocinha, enquanto a amiga antissocial vai, invariavelmente, se dar mal. Nesse amontoado de clichês e referências, os irmãos gêmeos Matt e Ross Duffer (creditados como The Duffer Brothers), criadores, roteiristas e diretores da maioria dos episódios, vão superar as expectativas criadas pela própria campanha de marketing realizada pela Netflix ao extrapolar os ânimos de um público cada vez mais sedento por séries bem produzidas e executadas. Stranger things não falha em nenhum destes quesitos, porém.

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Imagem: Netflix, 2016

Trazendo à tona uma atriz competente, mas esquecida por Hollywood e cia ltda, Winona Ryder vai encabeçar a história interpretando a mãe de um garoto desaparecido logo no primeiro episódio (acalme-se, essa informação não foi um spoiler). Muito fácil de cair em maneirismos histéricos e trejeitos passíveis de avaliações ruins pelos críticos, a personagem Joyce Byers torna-se, a cada episódio, cada vez mais obcecada pela busca de seu caçula; Ryder, no entanto, confere uma autenticidade admirável com sua interpretação que varia entre o drama comedido e a explosão iminente de uma mãe pronta a arriscar qualquer coisa para ter o filho de volta a seus braços. É um alívio, inclusive, observar como uma boa produção, encabeçada por diretores e roteiristas competentes, além de uma empresa que acredita na história a ser contada, reflete de maneira positiva no trabalho do elenco, começando por Winona Ryder e passando, principalmente, pelo quarteto de pré-adolescentes, o verdadeiro grupo de protagonistas de Stranger things.

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Imagem: Netflix, 2016

Encabeçado por Mike Wheeler (interpretado por Finn Wolfhard), Mestre de Jogo nas campanhas de Dungeons & Dragons jogadas pelos amigos, o grupo ainda conta com Dustin Henderson (Gaten Matarazzo), membro responsável pelas melhores falas nas cenas de discussões e que possui displasia cleidocraniana, uma síndrome responsável por atrasar o crescimento dos dentes permanentes – algo que, obviamente, vai torná-lo alvo de bullies e apelidos maldosos, e Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin), aquele que sempre chama a atenção dos demais para problemas que nem sempre estão visíveis, tornando-se o ponto de equilíbrio entre todos. Will Byers (interpretado por Noah Schnapp) logo deixa o grupo com seu desaparecimento, sendo “substituído” pela garota El (“abreviação para Eleven”), dona absoluta das melhores cenas de Stranger things, graças às características da personagem, mas principalmente devido à magnífica interpretação de Millie Bobby Brown. O quesito “interpretação”, aliás, é o ponto mais forte do quarteto de atores, precisando passar de nuances que exigem humor físico a momentos de intenso drama, com cenas preenchidas por discussões acaloradas ou conversas acompanhadas por dores e lágrimas caindo vagarosamente dos olhos.

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Imagem: Netflix, 2016

A história não funcionaria tão bem, no entanto, se as boas interpretações parassem em seus protagonistas. Há ainda muito espaço para a inocente, mas interessante Nancy Wheeler (interpretada por Natalia Dyer), a irmã mais velha de Mike; o estranho e complexo Jonathan Byers (Charlie Heaton), irmão mais velho de Will; o chefe de polícia Jim Hopper (interpretado por David Harbour), contraponto necessário à histeria de Joyce, dono de um passado complicado, muito bem explorado e explicitado pelo roteiro da série. No meio de tantas personagens, a história dá conta de relacioná-los de maneira orgânica, apresentando cada um à sua maneira e a seu tempo, deixando ainda espaço para críticas rápidas, mas contundentes (“não sei se meus pais se amam, minha mãe se casou jovem, meu pai vinha de boa família, tinha dinheiro…”“querida, devemos confiar neles, é o nosso governo, eles só querem nosso bem”).

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E se o elenco apresenta-se tão afinado, a história em si dará conta do restante ao atar tudo aquilo que um verdadeiro fã das narrativas oitentistas mais gosta em um mesmo nó: monstrengo que escapa do laboratório, cientistas fazendo pesquisas ultra-secretas, o grupo nerd que resolve investigar por conta, a briga tão esperada entre o mocinho e o rival babaca e por aí vai. Ainda há fôlego para referências imagéticas? Claro. A filha loirinha e caçula do casal Wheeler aproximando-se da parede, quase a tocando, lembrando a cena mais icônica de Poltergeist: o fenômeno (Poltergeist, 1982); Joyce e Jim entrando no mundo paralelo, ou no “mundo invertido”, descobrindo ovos gigantes à la Alien, o oitavo passageiro (Alien, 1979) e, por quê não?, assim como em Prometheus (idem, 2012) também. Sem contar a telecinese digna de uma Carrie, a estranha (Carrie, 1976), e tantas outras que lembram as mais horripilantes e, por consequência, melhores histórias de um Stephen King em seu melhor fôlego (saudades desse Stephen King…). Já está bom? Ainda não. Planos focando aquele personagem se escondendo do monstrengo vão te lembrar aquele Steven Spielberg aventuresco de Jurassic Park: o parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1993) que só recobrou seu fôlego no ótimo As aventuras de Tintim (The adventures of tintim, 2011); a trilha sonora, toda composta em sintetizadores que gritam anos 80, vão te dar arrepios ao lembrar do tema de John Carpenter para Halloween: a noite do terror (Halloween, 1978), além de estabelecer o clima logo na abertura, talvez a homenagem mais escancarada à década, com suas letras em neon vermelho e pequenos riscos de estática passando pela tela, como uma boa e velha TV que um dia foi responsável por formar gerações aficcionadas por jogos do Atari e embasbacadas com os efeitos mais mirabolantes do cinema proporcionados por aquele VHS alugado na locadora da esquina.

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Se aliar uma história que consegue abranger tantas referências e modelos de personagens e histórias com uma boa produção parecia um artigo de luxo até tempos atrás, a Netflix parece provar que não é só possível, como muito rentável. Vamos esperar por mais temporadas de Stranger things? Se for para manter a qualidade irretocável desta, vamos sim, com muito afinco. A esperança, inclusive, é obversar que a empresa preza pela qualidade de suas séries – não à toa, recebeu mais de 50 indicações ao Emmy deste ano. Preparem-se: a festa nerd está apenas começando.

Pôster

Pôster: Netflix, 2016

Stranger things, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Jessie Nickson-Lopez, Justin Doble, Paul Dichter, Jessica Mecklenburg, Alison Tatlock; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Ross Partridge.

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Filmes

O quarto de Jack

Entre 1844 e 1846, o francês Alexandre Dumas publicou, através de folhetins, um de seus romances de maior sucesso, até hoje, entitulado O conde de Monte Cristo. Recebendo inúmeras adaptações ao longo das décadas, a história de vingança promovida pelo protagonista Edmond Dantès tornou-se muito popular por representar uma das forças mais genuínas do homem: a busca pela justiça. O público leitor, é claro, enfrenta as mais de mil páginas do calhamaço de Dumas pois não deseja ver Dantès vitorioso, mas como seu plano de vingança será meticulosamente traçado e executado.

Em O quarto de Jack (Room, 2015), quando Ma conta uma história de ninar a seu filho Jack, é justamente um dos momentos de maior tensão e aventura de O conde de Monte Cristo que ela escolhe. Ao lado dessa obra, o menino Jack lê, em dada cena do filme, o clássico de Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas. As duas inserções no roteiro de Emma Donoghue, baseado em seu próprio romance homônimo, funcionam como metáforas inteligentes para a história da mãe confinada em um pequeno quarto, obrigada a ensinar ao filho de 5 anos que aquele único cômodo é todo o seu mundo – e o mistério acerca dos motivos que levaram a protagonista ao quarto do título são mantidos, em boa parte da projeção, em segredo, uma escolha estética semelhante ao modo como Alexandre Dumas segura a atenção de seu leitor enquanto desenrola, em doses homeopáticas, o plano de vingança de seu protagonista Edmond.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

O desafio do diretor irlandês Lenny Abrahamson será, dessa forma, apresentar ao público um conflito que se desenvolve dentro de um ambiente pequeno e fechado. Não que isso não tenha sido realizado antes no cinema, a questão é que realizar um filme nesses moldes demanda pulso firme, além de atores extremamente competentes. Mas Abrahamson parece ter escolhido a dedo os responsáveis por dar vida a Ma e Jack. Enquanto Brie Larson confere nuances harmoniosas que vão do mais feio esgar de choro em momentos desesperadores ao sorriso sincero de uma mãe realizada ao ver a felicidade genuína do próprio filho, o menino prodígio Jacob Tremblay ganha todo o espaço da tela com sua brilhante atuação: entregue de corpo e alma a um papel complexo, repleto de camadas, Tremblay faz rir e emocionar um público que pode reprovar a qualquer momento seu trabalho no filme, já que atores mirins podem cair tão facilmente em uma atuação caricata, forçada. Não é o que ocorre, porém; o Jack de Jacob convence qualquer um de que é uma criança diferente em relação ao tipo de criação que foi obrigada a ter, mas completamente natural e comum no que se refere à visão que tem do mundo ao seu redor e à lógica peculiar que ele desenvolve por conhecer, desde seu nascimento, apenas o quarto onde mora. Room ainda conta com atores de peso em papéis coadjuvantes como Joan Allen, interpretando a mãe da protagonista, e William H. Macy, como seu pai.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

O trabalho de peso dos atores de nada adiantaria se o filme não fosse conduzido de forma segura e competente, mas o irlandês Abrahamson dirige O quarto de Jack com extremo cuidado: closes extremos nos poucos objetos presentes no quarto de Jack e sua mãe enquanto o menino narra, em off, suas impressões de mundo; tomadas mais demoradas enquanto a câmera focaliza os fios dos postes ou a cidade lá embaixo (todas através da visão de Jack); além de pontos de vista de dentro de lugares mais claustrofóbicos que o próprio quarto, levando o público para um aperto psicológico maior ainda.

Apesar de se render a clichês aqui e ali como a velha forma de incluir cenas em câmera lenta quando há um reencontro muito esperado na história ou introduzir uma trilha sonora repleta de cordas, bem cafona, nos ápices do roteiro, o filme relata sua história de maneira realista, sem, porém, chegar a chocar o público com uma possível crueza ou mostrar mais do que seria necessário. As explicações sobre o passado da protagonista, expondo o que houve para estarem ali, naquele momento, trancafiados em um único cômodo, são breves e metonímicas, não se deixando levar por uma verborragia que certamente prejudicaria tanto o ritmo do longa quanto sua poética.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Não se deixando levar pelo melodrama barato, e mesclando doses de realismo com momentos doces, tocantes – como a cena do corte de cabelo, interrompida por uma única frase que vale o ingresso –, O quarto de Jack traz à tona, ainda, questões importantes como a maternidade e a exploração midiática, mesmo que esses temas sejam pincelados rapidamente dentro da história principal. O filme, principalmente, passa a mensagem de que é necessário buscar meios para uma fuga – eis aqui a metáfora de Monte Cristo – quando o quarto em torno de nós se fecha quase que por completo; e que viver em um mundo fantasioso, bem lá embaixo na toca do coelho – voilà Alice no país das maravilhas, pode ser benéfico até o momento da realidade deixar de existir de vez, e é aí em que o perigo de transpor a linha de um mundo a outro pode nos deixar presos à zona de conforto, aos cárceres que nós construímos para nós mesmos… a cama do quarto de onde não conseguimos levantar.

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Pôster: InSync + BemisBalkind, 2015

Room, dirigido por: Lenny Abrahamson; escrito por: Emma Donoghue (baseado em sua obra O quarto de Jack)
Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Macy, Sean Bridgers, Tom McCamus.

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