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Star Wars: os últimos jedi

Se você prestar bastante atenção, Os últimos jedi (Star Wars: the last jedi, 2017) possui uma tríade de personagens que representam muito bem seus vários tipos de fãs. Tem-se, ali, Luke Skywalker (interpretado por Mark Hamill), o que é análogo aos fãs mais exigentes – poderia chamá-los de babacas, em muitos casos, mas vamos imaginar que vivemos em um mundo ideal; tem-se, também, a heroína Rey (interpretada por Daisy Ridley), representante do fã empolgado, aquele que precisa, mais do que tudo, ver o que acontecerá caso o fã exigente concorde com suas propostas; e, por último, tem-se Kylo Ren (interpretado por Adam Driver), o fã que já cansou de todo o bê-a-bá dos filmes mais antigos e precisa urgentemente recomeçar com ares novos uma franquia que já dura assustadores 40 anos.

A sorte de Os últimos jedi foi ter caído nas mãos de Rian Johnson. Diretor de poucos filmes (apenas um despontou mais no meio hollywoodiano – Looper: assassinos do futuro) e, entre outros, do episódio que talvez gerou mais polêmica dentro da série Breaking bad (“Fly” – isso mesmo, o famigerado episódio da mosca), Johnson permaneceu com uma bomba-relógio em suas mãos por pelo menos dois anos desde a estreia bem sucedida de O despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), pois, além de dar continuidade a uma das sagas com mais fãs em sua base, o diretor precisava trazer ares novos, assim como Kylo Rey deseja, mais do que tudo, dentro desse Episódio VIII. E digo que o filme teve sorte ao cair nas mãos de Rian Johnson porque, sim, Os últimos jedi é um filme muito interessante, diga-se de passagem. E o que o torna mais interessante talvez seja a ousadia pontuada de Johnson (que também escreveu o roteiro); pontuada pois o oitavo episódio de Star Wars não é um filme com mudanças espetaculares de roteiro ou cheio de ameaças ao cânone de George Lucas: Johnson sabe em que terreno está pisando e vai adicionar elementos aqui e ali que mudam o tom dentro dessa nova trilogia, mas talvez sem que o público, no geral, perceba. A saber.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Apesar de presente também no filme anterior, o alívio cômico é mais endossado nesse. É um detalhe que pode não pesar muito na balança final de “coisas que prejudicaram ou ajudaram o novo Star Wars”, se você pensar com cuidado, mas não esqueçamos de seu princípio básico: a diversão. Ora, ainda estamos falando de um filme, em sua, de aventura. Envolve aspectos de sci-fi, obviamente, mas Star Wars não deve ser desclassificado como um bom e velho filme-pipoca. É claro que toda a proporção alcançada pela saga eclipsou essa característica tão esquecida nos filmes do gênero atuais. Lembro-me, inclusive, que o último mais agradável nesse sentido, a ponto de dar um fôlego mais do que bem-vindo à filmografia de Steven Spielberg foi em 2011, com Tintim. É um filme que abraça os conceitos do filme-aventura e cria sequências de ação de encher os olhos e, ao mesmo tempo, não deixa de lado a comicidade das situações ali presentes. Há momentos, em Os últimos jedi, que um determinado comentário, um certo trejeito em um personagem ou até mesmo humor físico são empregados para que a plateia se divirta. E isso não é um crime à nossa inteligência.

Se em O despertar da força não poderia faltar os flares característicos de J. J. Abrams dentro de sua fotografia, Os últimos jedi traz rimas visuais esteticamente muito bonitas. Mas não para apenas na estética, Rian Johnson e o diretor de fotografia Steve Yedlin (parceiro de Johnson em outros dois longas do diretor e também responsável pela fotografia da adaptação mais recente de Carrie: a estranha, 2013) empregam significados muito particulares em cada rima ou sobreplano. E o mais interessante: não são significados impossíveis ou “cults” demais para o grande público não entender; são casos como quando Rey encontra-se contra a câmera, sua silhueta recortada pelo cenário que a envolve, para, logo depois do corte, vermos Kylo Ren na mesma posição de câmera, quase que “substituindo” a personagem anterior, num contraste bonito esteticamente falando e, ao mesmo tempo, com grande significado para a história ali contada. Johnson também retoma elementos clássicos do cinema, como uma cena de grande tempestade quando as personagens presentes encontram-se em um embate, ou uma fotografia bem avermelhada para introduzir o vilão do filme.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Comentei ali em cima um pouco da característica aventuresca do filme a partir do humor e dos alívios cômicos. Mas The last jedi vai além do humor nesse sentido. Há grandes sequências de ação para agradar os fãs, sejam os mais exigentes ou os presentes apenas pela diversão; em destaque: a sequência inicial com o piloto Poe Dameron (interpretado por Oscar Isaac) e seu fiel amigo de lata BB-8 e a debandada protagonizada por Finn (interpretado por John Boyega) e uma das novas personagens Rose (interpretada por Kelly Marie Tran). Ambas as cenas mostram o poder de entretenimento que Star Wars ainda pode produzir com suas novas histórias, mas, além disso, provam que Johnson é um diretor ciente de seu público diversificado a partir da introdução da saga com The force awakens: é preciso mostrar o que o público mais antigo e conservador quer ver e, ao mesmo tempo, introduzir elementos novos ou esquecidos para que o público novo e “transgressor” saia da sessão satisfeito. Não é um equilíbrio fácil de se encontrar e, quando encontrado, acertá-lo de maneira interessante; mas, ao aliar tais elementos de aventura e, além disso, introduzir aos poucos novas personagens – além de Rose, temos agora a presença da Vice-Almirante Holdo (interpretada por Laura Dern, fazendo os corações dos fãs de Jurassic Park suspirarem) -, Rian Johnson consegue entregar um episódio que sustenta a responsabilidade de toda a exigência de diversas gerações de público.

Aos poucos, a Disney começa a realizar aquilo que o “fã-Kylo-Ren” deseja: o que ficou no passado, é pra deixar lá. Com respeito, é claro, mas ainda assim é melhor deixar no passado. Não é à toa seu grande investimento em histórias paralelas que preencham lacunas no universo Star Wars, trazendo diretores com um pegada um pouco mais indie em Rogue One, por exemplo, e seguindo a tática de entregar o primeiro episódio da nova trilogia (a introdução para novas gerações de fãs e, consequentemente, novos consumidores de Star Wars) para mãos mais seguras, passar o bastão para um diretor mais “ousado”, em termos, no episódio de transição e, lá no final da trilogia, voltar para o colo mais seguro. É um projeto de saga bem seguro, devemos admitir. Por enquanto, tudo corre dentro do esperado; mesmo para um episódio de transição, o que mais pode gerar problemas por não conter, em tese, nem o começo nem o final da história (é só lembrarmos de grandes exemplos, como As duas torres, 2002, e O baú da morte, 2005, além de outros episódios de transição fora de trilogias, como Harry Potter e o enigma do príncipe, 2009), Os últimos jedi agrada por não carregar o peso de ser uma transição, é um filme que não faz questão de vestir tal designação e, justamente por isso, funciona muito bem.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Em 2015, eu escrevi que restava saber se, para os próximos filmes, a Disney iria além da introdução de novos personagens. Parece que a Força ainda está com todos nós.

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Pôster: B O N D, 2017

Star Wars: the last jedi, escrito e dirigido por: Rian Johnson.

Com: Carrie Fisher, Mark Hamill, Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Joonas Suotamo

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Rogue One: uma história Star Wars

Ao ser anunciada, há alguns anos, a venda dos direitos relacionados à franquia Star Wars para a Disney, muita gente torceu o nariz. Tratando-se de uma das séries cinematográficas mais rentáveis de todos os tempos, os filmes criaram, invariavelmente, uma legião de fãs nem um pouco maleável. Não que todos atuem dessa maneira, mas o chamado fandom de Star Wars é conhecido como um dos mais exigentes dentre todos os grupos de fãs de quaisquer sagas. Assim, quando George Lucas veio a público para acalmar os ânimos, os fãs continuaram com um pé atrás. Ano passado, no entanto, O despertar da força (Star Wars: the force awakens) foi bem recebido, principalmente por ser um filme digno de tratar com o cânone da mesma maneira competente que introduz novos personagens e tramas.

E falando no adjetivo “competente”, acompanhar mais uma aventura desse universo já tão rico em Rogue One: uma história Star Wars (Rogue One, 2016) é perceber o quão competente este novo filme torna-se ao longo de suas 2h13 de projeção. A Disney precisa, é claro, ter muito cuidado com Star Wars, pois ao mesmo tempo em que anuncia um filme por ano dessa nova safra da saga, deixando fãs e potenciais novos admiradores com um largo sorriso no rosto, a empresa tem, consequentemente, um problemão a enfrentar: conseguir entregar obras que revisitem e atualizem o que já está estabelecido sem estragar o já realizado (e, dessa maneira, não ofendendo a obra em si e seus fãs), ao mesmo tempo em que precisa de experimentações, ou Star Wars sempre será o mais do mesmo. É um linha tênue, perigosa e tentadora para os produtores, roteiristas e diretores. Até agora, porém, tudo caminha a contento.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

O diferente necessário

É gostoso, nostálgico e muito confortável sentar-se na poltrona do cinema, pegar a pipoca e, logo após as luzes se apagarem, os trailers serem exibidos e o logotipo da Lucasfilm esmaecer em um fade out silencioso, nossos olhos lerem os já mais que conhecidos a long time ago in a galaxy far, far away…. e nossos ouvidos já esperarem pelas primeiras notas da trilha clássica de John Williams explodir nas caixas de som. É. Só que não com Rogue One. E é uma sensação engraçada, como uma mensagem simples e direta de que essa história Star Wars não é um novo episódio, mas também não pode ser descartada logo de cara justamente por tal motivo. Se ela não está incluída na nova trilogia, ou na trilogia que for, ela é necessária?

Sim, e muito. Não apenas como desenvolvimento das entranhas de toda uma saga repleta de personagens, tramas, subtramas e arcos dramáticos, mas também como uma maneira de enriquecer histórias já muito conhecidas pelo público. Descobrir, no próprio cinema, pelo próprio cinema, histórias que estavam acontecendo concomitantemente com a história principal iniciada lá atrás, há quatro décadas, é um sabor rejuvenescedor para qualquer saga. Ainda mais quando conduzida de maneira tão cuidadosa como este Rogue One.

O mais interessante do filme talvez seja a marca impressa aqui e lá durante sua projeção, uma marca aparentemente discreta, mas que pode ser notada se dispensarmos um pouco mais de atenção aos detalhes. Digo isso pois, apesar de Rogue One realmente ser Star Wars no seu cerne cinematográfico mais profundo, dá pra perceber as mãos do diretor Gareth Edwards ali presentes em todo o longa, seja na composição de planos esteticamente bem cuidados, seja no uso de câmera na mão um pouco mais frequente do que já vimos em outros episódios da franquia. É claro que, no episódio VII, temos os famosos flares característicos de J. J. Abrams, acompanhados por seus ângulos inclinados nas sequências de ação; mas aqui em Rogue One, o estilo indie de Edwards se mistura ao cânone, e o resultado é uma obra segura de si, passando tal segurança e confiança na própria história que conta para um público cada vez mais ansioso e exigente pelo próximo capítulo de Star Wars. Dessa forma, quando o letreiro de a long time ago se apaga e, ao invés da trilha clássica e outro letreiro, agora amarelado e rolando de baixo para cima na tela, aparecer, nós temos já a abertura do filme com o primeiro plano. Já vemos a galáxia. É um belo resumo imagético para as próximas duas horas: o que vamos contar é direto, principalmente por meio de imagens.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

A composição de planos de Gareth Edwards

O ano de 2014 parece não ter sido o ano de Gareth Edwards e o seu tão falado Godzilla. Muito criticado, o filme, que, assim como Rogue One, era altamente antecipado por fãs e pela crítica, deixou muitas pessoas a desejar por mais aparições do monstrengo. O diretor preferiu mais sugerir do que mostrar ao longo de quase todo o filme, deixando a sequência de porrada entre gigantes mais para o final. É interessante pensar em todo esse burburinho e ver que, mesmo assim, a dona Disney decidiu escalá-lo para um filme Star Wars. Em recente entrevista para a divulgação de Rogue One, Edwards alegou que, de início, não acreditou no convite da Lucasfilm, mas alguns segundos depois já estava realizado de que queria – e muito – dirigir o filme. O tiro foi certeiro, pois talvez Gareth Edwards tenha entendido que o equilíbrio entre decisões autorais e não mexer em determinadas características que já estão consagradas é o ponto-chave para filmes como Godzilla e, obviamente, Star Wars.

E em Rogue One, quando a balança pende para características consagradas, temos um desfile de detalhes prontos para serem degustados por todos os fãs. Um potencial casal como protagonista, um robô ranzinza como alívio cômico, citações a falas e personagens clássicos (“I have a bad feeling about this“). Há, também, opções que a Disney vem mostrando desde O despertar da força, como a preferência para uma protagonista do sexo feminino que não cai em clichês e a presença de minorias étnicas, como negros e latinos; pontos importantes de inclusão, ainda mais em uma franquia com visibilidade tão grande quanto esta. Como nem tudo são flores, também contamos com alguns deslizes: o personagem tido como terrorista veste, obviamente, trajes que remetem à cultura islâmica e o asiático, obviamente, é o todo-poderoso das artes marciais (apesar de que, neste caso, o deslize não é tão grande, já que o personagem tem uma motivação dentro do roteiro que justifica melhor suas características, deixando-as menos rasas).

Agora quando a balança pende para decisões autorais, vemos composições de planos que se destacam em meio a tanto fan service. É o caso, por exemplo, da cena em que ocorre uma explosão gigantesca, e uma determinada nave está voando muito rápido, escapando das consequências desastrosas de tal explosão. A câmera de Edwards, de fora do planeta, mostra a nave saindo e os restos do desastre logo atrás, em um plano que liga tal ação com a próxima (que será no interior de um outra nave) em um único movimento de câmera, trazendo uma fluidez estética bem rara em produções blockbuster. O mesmo ocorre com a introdução de Darth Vader em duas sequências. Na primeira, ao se encontrar com Orson Krennic, o diretor enquadra este personagem sobreposto à sobra do vilão-mor da saga, de início gigante e, aos poucos, diminuindo conforme Vader caminha, aproximando-se de Krennic, num recado claro através de uma imagem: posso me adaptar à sua altura, Krennic, mas não se esqueça de que sou sempre um gigante. Na segunda, em determinada cena de ação dentro de uma nave, vários empregados estão apressados, desesperados por atravessar um corredor e chegar à extremidade, em uma porta; do outro lado, vemos nada além de sombras. Porém, repentinamente, ouve-se a respiração icônica de Darth Vader, mas ainda mergulhado nas sombras (sua grande metáfora, a propósito), seguido de uma iluminação ainda mais repentina, seu sabre de luz vermelho. A ameaça através de imagens não poderia ser mais completa. Tudo isso, claro, é acompanhado da trilha de Michael Giacchino que, nestes momentos, faz questão de lembrar John Williams.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

Peças necessárias para o encaixe

Como disse no início do texto, a história de Rogue One é necessária por vários motivos. Seu principal talvez seja a narrativa em si. É o que motiva sua própria existência e, após isso, a contemplação do público. Se pensarmos bem, o cinema não seria o que sempre foi e o que é atualmente sem uma boa narrativa. É por isso que nos incomodamos tanto quando achamos uma história contada através de imagens ruim. Muitas vezes somos nós que não a compreendemos, e então a tendência natural é jogarmos a culpa no filme. Ele é que foi incompetente, ele é que foi ruim. Se damos uma segunda chance, na maior parte das vezes vemos que a incompreensão não foi gerada por causa de uma história ou de sua execução ruim: nós é que ainda não estávamos completamente preparados para aquele filme naquele momento.

Essa impressão pode acontecer na primeira metade de Rogue One. Aos fãs acostumados com ação de cabo a rabo, intercalada por momentos de diálogos e contemplação, Rogue One vai deixar uma imagem estranha em um primeiro momento. Seu ritmo não é um ritmo Star Wars clássico. É uma história que se dá tempo, que não mede esforços para desenvolver tramas e personagens ao longo de, pelo menos, uma hora. As sequências de ação, grandiosas por si só, nessa primeira metade podem surgir como alívios para aqueles sedentos por explosões e lutas de sabre de luz bem coreografadas. Mas é preciso ter calma e paciência. Rogue One vai guardando suas cartas vagarosamente, até colocá-las na mesa em sua metade final. É preciso se atentar que o roteiro, no entanto, vai fornecendo peças importantes para a saga e, ainda mais, provém também um bom encaixe para elas. De agora em diante, é torcer para que essa boa costura continue emendando de maneira tão competente e divertida os tecidos que compõem o grande universo de Star Wars.

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Imagem: Lucasfilm Ltd., 2016

Links que podem te interessar:

» Godzilla (Resenha)

» Star Wars: o despertar da força (Resenha)

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Pôster: B O N D, 2016

Rogue One, dirigido por Gareth Edwards; escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy.

Com: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Mads Mikkelsen.

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Procurando Dory

A criança angustiada e emocianada dentro do cinema, em 2003, vendo Procurando Nemo (Finding Nemo), hoje cresceu. Somos adultos, pensamos como adultos e, talvez o principal, nos angustiamos como adultos. Nada mais natural do que esperar, com grande expectativa, a então anunciada continuação de um dos maiores sucessos da história do estúdio Pixar. E se o hype em torno do filme cresceu de maneira natural por todo o histórico envolvendo a agora franquia dos peixinhos de computação gráfica, a tendência para caçarmos defeitos e, inevitavelmente, comparar este Procurando Dory (Finding Dory, 2016) também é alta. Por um lado, é um jogo injusto tratar o novo filme de Andrew Stanton como “inferior”, pois o mais sensato é analisar ambas as obras em sua individualidade: Nemo já tem seu lugar entre os clássicos atuais, Dory talvez alcance o mesmo posto daqui um tempo. Por outro, Finding Dory tem os seus tropeços.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Antes de mais nada, é preciso destacar um ponto forte da obra. Se pararmos para observar com cuidado alguns temas tratados ao longo dos anos pela Pixar, vamos nos deparar com a valorização da amizade em todos os Toy Story, a importância da organização em grupo em Vida de Inseto (A bug’s life, 1998), a inversão do conceito de “medo” em Monstros S. A. (Monsters inc., 2001) e, mais recentemente, em Divertida Mente (Inside out, 2015), o fato de não darmos a atenção devida a uma das emoções mais presentes em nossa vida: a tristeza. Em Procurando Dory não é diferente, temos ali a inclusão social presente desde o seu início, começando pelo desenvolvimento maior da história da protagonista e perpassando por demais criaturas, como a baleia Destiny e sua dificuldade para enxergar, ou o próprio polvo Hank, cuja história provavelmente a Disney irá explorar em uma continuação, já que a personagem possui camadas psicológicas mais profundas e não explícitas nesse filme.

Dado isso, pensemos na estrutura narrativa da animação: seja por uma possível busca por identificação de público, seja por manter-se em território seguro, os roteiristas Andrew Stanton e Victoria Strouse mantêm a mesma ordem de acontecimentos de Procurando Nemo, algo inclusive explicitado pelo próprio Marlin em vários momentos da projeção. Esse ponto pode incomodar nós, os adultos que cresceram ao lado de Nemo, Marlin, Dory e os peixes do aquário. Qual a novidade, nesse sentido, afinal? Para as novas gerações, porém, o filme é um prato cheio, repleto de sequências divertidas, ação e humor físico – a dona Disney precisa lucrar, no final das contas. Há, no entanto, algo muito curioso: em diversos momentos, Dory encontra-se sozinha, sentindo-se desesperada por ver-se sem amigos ou familiares por perto, olhando a esmo pela imensidão marinha e encontrando-se melancólica. Em tais momentos, a paleta de cores do filme torna-se fria, azulada ou esverdeada demais, muitas vezes também extremamente escura (algo que provavelmente predujicará sua experiência caso escolha ver o filme em 3D, uma opção desnecessária, como vem acontecendo cada vez mais).

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

O que me levou a refletir sobre duas coisas, a primeira causando a segunda: Procurando Dory, por baixo do verniz colorido, engraçado e feliz, tem suas camadas de sentimentos e emoções mais sérios, mais obscuros. Estes não são explícitos, jogados gratuitamente para o espectador, mas estão lá, sob a fachada desmiolada de Dory, por trás da carranca ranzinza e de humor involuntário de Marlin. Tais camadas resvalam em algo que está, infelizmente, muito presente na sociedade moderna: uma doença perniciosa chamada depressão. Posso ter levantada uma questão muito séria para um filme infantil? Creio que não tanto. Assim como a protagonista de Divertida Mente torna-se cada vez melancólica com a mudança de cidade, escola e amigos que precisa enfrentar, Dory vê-se dentro de uma centrífuga que mistura o total esquecimento com surtos de memória que, ao mesmo tempo, a fazem seguir em frente e perder-se no nada (ou nonada, como bem colocou Guimarães Rosa), nadando sem rumo e cobrando-se por não lembrar – uma qualidade exaltada, da maneira e no momento errados, por Marlin, o rei da sinceridade amargurada, do ressentimento com tudo e com todos e da paranoia constante.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Aliás, acabamos constatando que Marlin é capaz de não aprender absolutamente nada sobre sua aventura passada (Procurando Dory está, dentro do tempo da narrativa, a um ano longe de Procurando Nemo – uma dilatação temporal que nos custou treze), pendendo sempre entre recusar-se a atender aos apelos da melhor amiga (imaginem se não fosse a melhor…) e acabando por decidir-se a auxiliá-la repentinamente, um vai-e-vem que não adiciona muita coisa ao filme, apenas alguns momentos de humor. É através dele, contudo, que iremos nos reencontrar rapidamente (bem rapidamente) com personagens do filme anterior – como a tartaruga Crush e tio Raia. Há, porém, um contrapeso nesse sentido com o próprio Nemo, ao sempre chamar a atenção do pai para falhas que este comete, tanto nas decisões que devem tomar, quanto em relação a Dory.

Um dos destaques do filme é Hank, o polvo de sete tentáculos e, como Dory faz questão de enfatizar, três corações. Com um humor vacilante entre o ranzinza e o dócil, Hank traz consigo as melhores sequências da animação, como quando decide ajudar Dory após um demorado trato entre as partes (a perda de memória recente de Dory dificulta bastante o processo) ou na extensa cena envolvendo um carrinho de bebê – provavelmente a melhor do filme. Dando apenas pistas de seu passado para o espectador mais atento, Hank visivelmente teve algum trauma envolvendo crianças, chegando ao ponto de preferir viver trancafiado em um aquário do que enfrentar o mar aberto – e quantos de nós não prefere o conforto de nossa cama a socializar com uma multidão? Essa é uma das poucas centelhas da verdadeira Pixar que aparece ao longo de Procurando Dory, uma perda que parece cada vez mais constante nas obras mais recentes do estúdio Há, ainda, espaço para participações boas, mas menores, como a de um ótimo leão-marinho chamado Geraldo, a mergulhão Becky e – pasmem – Marília Grabriela (como ela mesma – no original, é Sigourney Weaver).

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Procurando Dory, contudo, não é dispensável. Mesmo mantendo a estrutura narrativa de seu antecessor, o filme traz bons momentos que agradarão novos e antigos fãs. Seria bem melhor, é claro, se desenvolvesse de maneira mais incisiva seu lado mais profundo; entendo, porém, a decisão dos realizadores, seria necessário mais tempo e talvez isso mudaria completamente o clima do filme, deixando de lado uma das maiores qualidades do primeiro: mesmo dentro de adversidades, é possível rir sem peso na consciência. Nesse ínterim, inclusive, note como a personalidade de Dory é desenhada ainda mais quando Nemo enfatiza sua predisposição por fazer as coisas sem qualquer plano (“O que Dory faria? Ela simplesmente olharia a seu redor e faria a primeira coisa que desse em sua cabeça”), ao mesmo tempo que essa virtude torna-se seu principal “defeito”: o de saber esquecer de tudo e de todos tão bem. Uma verdade muito difícil de ouvir da boca de um amigo, mas algo que somente um amigo, mesmo que em um momento de raiva, poderia dizer de verdade.

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Nota: se a qualidade em Procurando Dory caiu um pouco, o mesmo não se aplica ao curta-metragem da vez, intitulado Piper, projetado antes do filme. Não se esqueça de ficar até o final dos créditos, há uma ótima cena que conclui uma certa pendência…

Pôster

Pôster: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Finding Dory, dirigido por: Andrew Stanton; escrito por: Andrew Stanton e Victoria Strouser.
Originalmente com as vozes de: Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Ed O’Neill, Kaitlin Olson, Hayden Rolence, Ty Burrell, Diane Keaton, Eugene Levy, Idris Elba, Dominic West, Sigourney Weaver.

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Mogli: o menino lobo

Os primeiros acordes de “Jungle beat” começam a tocar logo no início de Mogli: o menino lobo (The jungle book, 2016), uma referência afetiva para qualquer criança que cresceu assistindo à animação clássica – a última supervisionada pessoalmente pelo próprio Walt Disney – de 1967, e tal música já é o suficiente para estabelecer o clima da nova versão, convidando a geração nova a conhecer as aventuras do menino criado entre os lobos e praticamente pegando no colo o adulto que um dia, lá atrás, ouviu-a pela primeira vez ao descobrir um dos filmes mais divertidos da casa do Mickey.

Não são apenas as referências, no entanto, que fazem dessa nova versão um filme interessante. O longa traz de volta ao foco uma das histórias publicadas em Os livros da selva (The jungle books), de Rudyard Kipling, um compilado que juntou as crônicas do autor, publicadas em revistas, a partir de 1894; o que o inglês nunca deve ter imaginado foi a possibilidade de seu personagem mais icônico, um dia, estrelar um filme live action – técnica que mistura atores reais com animação. A mistura, no caso, se dá com o ator Neel Sethi (que interpreta Mogli) e o restante das personagens, todas incorporadas através de criações digitais incrivelmente realistas.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

No comando de toda essa computação gráfica e um ator de carne e osso está Jon Favreau, diretor, entre tantos, dos dois primeiros Homem de ferro (Iron man, 2008 e Iron man 2, 2010) e do ótimo Chef (idem, 2014). Favreau parece não titubear diante de toda a tecnologia envolvida para dar vida a Mogli, apesar de usar câmeras trêmulas em diversas sequências de ação que comprometem um pouco a beleza da coreografia das personagens e a presença do cenário ao redor – muito belos, diga-se de passagem. Tem-se a toca dos lobos, envolvida por uma paleta de cores em tons pastéis, discretos (assim como tais animais ali são); as cascatas dentro da selva, outra referência direta ao clássico de 67; as planícies recobertas por uma relva alta e amarelada, muito propícia a ataques surpresa, entre muitos outros. É notável, inclusive, a forma como o cenário em torno de Mogli se alegra quando este encontra pela primeira vez o preguiçoso e golpista Balu, com flores aqui e ali brotando entre os arbustos, além do amarelo-âmbar reluzindo nos favos de mel cobiçados pelo urso. O mesmo se aplica à parte sombria e enevoada da selva dedicada a abrigar a cobra Kaa, muito mais ameaçadora nesta versão.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Com uma ambientação que parte dos cenários já estipulados no filme clássico, mas os extrapola de maneira positiva, o Mogli de Favreau também reapresenta personagens mais do que conhecidas pelo público – como os já citados Balu, o urso, e Kaa, a cobra –, muda algumas outras, como os elefantes, que possuíam diversas cenas na animação de Walt Disney e, neste, têm um ar mais austero, mais silencioso, além de simplesmente suprimir outras: é o caso do quarteto de abutres que, no filme original, serviram de homenagem aos Beatles (como esquecer da hilária cena com o “e então, qual é a jogada?”) e auxiliam de maneira importante na jornada do protagonista. Tais mudanças, no entanto, não comprometem o enredo, nem o ritmo do longa, fornecendo mais tempo para a caracterização do chipanzé Rei Louie, por exemplo, que aqui está mais ameaçador, cercado por uma escuridão perigosa.

É claro que os espectadores não vão deixar a projeção sem ouvir versões repaginadas – e agradáveis – de versos como “necessário, somente o necessário” e “eu sou o rei do balanço, e brasa eu vou mandar”, músicas estabelecidas através do tempo com o clássico de Disney e que, mesmo agora, dentro de um filme mais sério, mais “realista”, funcionam de maneira orgânica, dando um alívio para a plateia e, ao mesmo tempo, incluindo mais referências.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Outro ponto interessante é como Jon Favreau pensou em abordar a presença dos homens neste The jungle book. Se, no filme de 1967, Mogli repudiava a ideia de voltar para aldeia de homens, no novo longa ele se mostra menos agressivo a tal sugestão. A forma como sua história é contada, inclusive, através (literalmente) dos olhos da cobra Kaa, é uma das principais e mais belas cenas do filme, com transições muito bonitas (esteticamente falando) e fotografia contrastante – priorizando a luz do fogo e sombras projetadas contra a parede de uma caverna, muito significativas para a história.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Aos fãs, um suspiro de alívio; aos estreantes no mundo aventuresco de Mogli, um filme divertido, que não deixa de lado momentos de humor e se dá o direito de ter uma ou duas cenas de susto (podendo levar os espectadores a pularem de suas poltronas). Uma boa opção para crianças e adultos, Mogli: o menino lobo faz questão de fechar sua história com mais uma referência: o livro que deu origem ao filme, sobre um tecido azul, apresenta os créditos finais (a mesma cena do início da animação clássica); portanto, não saia da sala antes de vê-los.

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2016

The jungle book, dirigido por: Jon Favreau; escrito por: Justin Marks (baseado na obra Os livros da selva, escrito por Rudyard Kipling).
Com / vozes originais de: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Scarlett Johansson, Lupita Nyong’o, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, John Favreau, Sam Raimi.

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Os 12 Melhores de 2015

Ano novo, lista nova.

Seguindo a tradição, eis aqui mais uma lista, agora dos melhores filmes que vi em 2015. Lembrando que esta lista não é um ranking (os filmes estão em ordem alfabética), mas uma compilação simples dos que considero os melhores do ano passado – sejam eles melhores por sua direção, roteiro, elenco, fotografia ou até mesmo pelo entretenimento propriamente dito.

Excetuando Boa noite, mamãe (Ich seh, ich seh, 2014), que ainda vai estrear oficialmente aqui no Brasil, e Relatos selvagens (Relatos salvajes, 2014), todos os demais filmes estrearam em 2015 nos cinemas brasileiros.

Se você quer dar uma olhada na lista dos melhores de 2014, é só clicar aqui.

1_Birdman

Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância), 2014; dir: Alejandro González Iñárritu

Lembro que houve muita discussão na internet, há um ano, quando Birdman ganhou o Oscar de Melhor Filme. O favorito, claro, era Boyhood. Arrisco dizer que gostei um tanto mais de Birdman do que da saga de 12 anos do Linklater; obviamente não desmereço esta obra, principalmente por sua experiência cinematográfica única… mas Birdman tem um quê especial para cair nas graças das premiações. É um ótimo filme, com seu texto ácido, suas atuações explosivas e um plano-sequência (forjado, vamos ser honestos) atordoador. Michael Keaton no papel principal vai fazer você ter diversas reações e julgamentos ao que é verdade e mentira nesse longa cômico, dramático, aventuresco e, acima de tudo, cinematográfico.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

2_Boa noite, mamãe

Boa noite, mamãe, 2014; dir: Veronika Franz e Severin Fiala

Se você pretende ver um filme de terror repleto de cenas com sangue jorrando, trilha sonora aumentando o volume repentinamente para pular na poltrona e assassino sendo descoberto no final, Boa noite, mamãe não é a escolha correta. O filme preza por algo que está cada vez mais raro no cinema atual: o velho filme de terror que assusta sem ser gratuito, aquele que brinca com nossos medos psicológicos, com os receios mais primitivos. A premissa da história pode até ser batida e a maioria das pessoas corre o risco de sacar a reviravolta do roteiro antes do momento certo, mas ainda assim vale a pena conferir esse filme estranho – porém competente no que promete cumprir.

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3_Corrente do mal

Corrente do mal, 2014; dir: David Robert Mitchell

Com trilha sonora independente e eletrônica, ambientando o filme como se fosse uma peça rara dos anos 80, Corrente do mal tem todo o estilo cru de um John Carpenter. O vilão do filme, no entanto, é invisível, um serial killer transmitido através de um ato primordial para qualquer ser humano e que começa a se manifestar em uma das épocas mais conturbadas: a adolescência. Junte aí a fotografia inteligente e cortes seguidos por cenas perturbadoras. Se você esperar por um final redondinho, então é melhor parar por aí. It follows não se importa em entregar uma trama com começo, meio e fim, e isso já é muito relevante quando se trata de um terror americano.

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4_Divertida mente

Divertida mente, 2015; dir: Pete Docter e Ronniel Del Carmen

Uma das inspirações para os filmes da Pixar sempre foi Hayao Miyazaki e isso sempre ficou claro, tanto para o espectador quanto para os próprios realizadores. Em Divertida mente, porém, a Pixar parece abraçar de vez as melhores influências que o mestre japonês da animação poderia passar e entrega um filme completamente adulto (mas, ainda assim, perfeitamente direcionado para as crianças). Acompanhar a pequena protagonista através de seus sentimentos não é apenas uma sacada que movimenta o filme do começo ao fim, mas sim tentar não se emocionar com diversos diálogos e, o principal, aprender que sem a tristeza, não seríamos felizes. Complexo demais? De forma alguma. Inside out traduz o que há de mais complicado em nossos cérebros da maneira mais lúdica e bonita possível. Filmão.

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5_O homem irracional

O homem irracional, 2015; dir: Woody Allen

Assistir a um filme de Woody Allen no cinema é sentir-se em casa. Sabemos como ele começa, com seus créditos em ordem alfabética e uma música aconchegante tocando de fundo (um jazz sedutor), acompanhamos logo depois o personagem principal se apresentando através de uma narração off e, a partir daí, Allen pode nos surpreender. Me parece que o momento de inspiração voltou para o cineasta nesse O homem irracional, com uma atuação interessante de Joaquin Phoenix dentro de uma comédia repleta de ironias e diálogos filosóficos. A ironia principal fica para o final do filme. E vale a sessão.

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6_Jurassic world

Jurassic World: o mundo dos dinossauros, 2015; dir: Colin Trevorrow

A volta de uma das franquias mais famosas do cinema é sempre um terreno perigoso: para os fãs, que esperam sempre uma continuação melhor que a anterior; e para o estúdio, na expectativa de fazer milhões ou até bilhões na arrecadação. No caso de Jurassic world, tudo bem para todos. O filme trouxe o divertimento que faltava a Jurassic park III e o clima de aventura que Spielberg prezou no original. É claro que o filme cai sobre os ombros de Bryce Dallas Howard e Chris Pratt, mas ambos dão conta do recado – ou fugir de um tiranossauro rex usando saltos é pouco para você? Obrigatório para os fãs dos dinos.

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7_Mad Max

Mad Max: estrada da fúria, 2015; dir: George Miller

Vamos chover no molhado e elogiar Charlize Theron e sua Imperatriz Furiosa? Falar bem da (proposital) fotografia acelerada? Da loucura que é acompanhar as perseguições e sequências de ação desse filme? Não importa se você não acompanhou os capítulos anteriores da obra de Miller, Mad Max: estrada da fúria é um filmaço. Não perca a oportunidade de ver um guitarrista fazendo solos enquanto é içado de um carro e a trilha sonora industrial de Junkie XL (o DJ responsável pelo remix de “A little less conversation”, de Elvis Presley).

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8_Missão impossível

Missão Impossível: nação secreta, 2015; dir: Christopher McQuarrie

Quem diria que em 2015 ainda veríamos Tom Cruise como o agente secreto Ethan? E o fôlego é grande, para o ator e para o público também. O filme é divertido o bastante e traz Cruise correndo (de verdade) como se não houvesse amanhã e presente (de verdade, sem dublês) em cenas de ação, digamos, um pouco perigosas – como se segurar à porta de um avião enquanto ele decola, por exemplo. E se você acha que a divulgação em massa dessa cena (em trailer e pôsteres) estraga o filme, está enganado: Nação fantasma ainda guarda muitas surpresas e sequências de ação de tirar o chapéu. Pegue a pipoca e prepare-se para ouvir mais uma vez o tema de Missão impossível tocando na tela.

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9_Que horas ela volta

Que horas ela volta?, 2015; dir: Anna Muylaert

O cinema nacional prova, a cada ano, a sua importância e qualidade com filmes como Que horas ela volta?. Enquanto a maioria das salas de cinema do país passam enlatados como Até que a sorte nos separe e afins, o novo filme da diretora Anna Muylaert surpreendeu não apenas pela sua abrangência, mas principalmente por sua repercussão. Repleto de diálogos cortantes e situações constrangedoras para as camadas sociais mais abastadas – ou não, gente rica sempre acha que está certa -, a obra é Regina Casé e vice-versa. Mas também é a jovem atriz Camila Márdila, roubando todas as cenas em que está presente. Se ver os filmes de Leandro Hassum é uma opção, Que horas ela volta? é uma obrigação cultural (num bom sentido, é claro).

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10_Relatos selvagens

Relatos selvagens, 2014; dir: Damián Szifrón

A linha tênue entre o racional e o selvagem. Quantas vezes pensamos em perder o controle nas mais diversas situações? Bem, o diretor Damián Szifrón faz questão de reunir diversos contos nesse longa surpreendente por sua qualidade técnica e humor negro. Prepare-se para presenciar uma das cenas mais inacreditáveis do cinema, se identificar com a vingança de uma noiva em sua própria festa de casamento e rir da desgraça alheia sem um pingo de culpa. A crítica social está injetada em todos os segmentos, então não pense que não há peso no roteiro de Relatos selvagens. Surpreenda-se com o cinema argentino.

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11_Vício inerente

Vício inerente, 2014; dir: Paul Thomas Anderson

Joaquin Phoenix na pele de um detetive que vive mais chapado com maconha do que na realidade em si. Precisa de mais motivos para assistir a Vício inerente? Claro: a direção sempre maestral de PTA, com sua linguagem cinematográfica através da fotografia noir que registra uma Los Angeles dos anos 70. Isso sem contar a trilha sonora e a presença de cena mais do que bem-vinda da jovem Katherine Waterston. E o roteiro é baseado na obra homônima de Thomas Pynchon – anote esse nome para sua próxima leitura.

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12_Whiplash

Whiplash: em busca da perfeição, 2014; dir: Damien Chazelle

Teste fatal para qualquer cardíaco, o filme que rendeu um Oscar para a embasbacante atuação de J. K. Simmons constrói sua tensão aos poucos, mas ela é inevitável da metade para o fim da projeção. Sinta-se na pele de um aprendiz que deseja ultrapassar a perfeição através do comando de um dos professores mais odiosos que o cinema já teve o desprazer de criar. O mais incrível? O diretor de Whiplash foi um dos roteiristas de O último exorcismo – Parte 2.

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Filmes

Star Wars: o despertar da força

Em 1977, ninguém esperava assistir a um filme recheado com efeitos especiais, heróis e vilões lutando com a ajuda de “espadas” luminosas e dois robôs constantemente discutindo – e um deles, inclusive, não emitindo palavra alguma. Parecia que a proposta do jovem roteirista e diretor George Lucas seria realmente um tiro no escuro, tendendo para uma aposta com saldo negativo. Quase quarenta anos depois, Star Wars é uma das – senão a – franquias mais bem-sucedidas de todos os tempos, dando-se o luxo de voltar à vida com mais uma trilogia sendo preparada para o cinema.

Meu ponto, ao pensar em escrever um texto sobre o episódio lançado recentemente, Star wars: o despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), será analisar algumas questões que me incomodam atualmente; nem todas tem um sentido negativo, é claro, mas que, invariavelmente, colaboram para a perpetuação da saga nos cinemas e em todo o universo rentável possível.

Vamos ao filme em si, em primeiro lugar.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

O despertar da força é um filme divertido, sim. Traz sequências de ação muito bem dirigidas por J. J. Abrams (algumas, inclusive, se equiparam ou até transcendem àquelas vistas nos capítulos anteriores da saga), com direito a guinadas da câmera e um mise-en-scène bem preparado, não deixando o espectador perdido enquanto naves se perseguem e diversos disparos coloridos atravessam a tela de um lado a outro. Há também diálogos inspirados, com tempo para piadinhas bem colocadas, referências aos acontecimentos já registrados (“você disse um compactador de lixo?!“) e uma preparação de personagens para os próximos filmes da nova trilogia.

A fotografia também é algo a ser notado. Dan Mindel desenvolve um trabalho que se destaca, deixando os filmes anteriores para trás nesse ponto, já que George Lucas parece não se preocupar tanto com o significado das cores e o contraste entre claro e escuro – apesar de flertar com essas significações na trilogia nova, importando-se em registrar o jovem Anakin Skywalker entre as sombras enquanto adentra o lado negro da Força, por exemplo. A propósito, Mindel é um sujeito experiente, companheiro dos dois Star trek e um Missão impossível de J. J. Abrams, uma afinidade necessária ao entregar um filme tão importante para um grupo de fãs tão grande e atento quanto o de Star wars. Aqui, no entanto, Mindel vai além das obviedades, com seu ápice em uma determinada cena em que o vilão Kylo Ren e outro personagem conversam, em um ambiente predominantemente escuro, quando um facho de luz adentra através de uma abertura que ilumina o local ou quando Kylo Ren tem o rosto coberto por uma iluminação vermelha – enquanto o outro personagem não, evocando diversos símbolos em cena.

O despertar da força destaca-se também por seus efeitos práticos. J. J. Abrams acerta ao filmar em cenários e locações reais como em Abu Dhabi, Irlanda e até na Islândia e deixar de lado as telas verdes e seus cenários digitais. Há também uma quantidade bem grande de personagens manipulados por atores vestindo máscaras, assim como eram as espécies alienígenas que aparecem na trilogia original, excetuando-se a personagem Maz Kanata (criada em computação gráfica, com capturas de movimento a partir do rosto da atriz Lupita Nyong’o) e o vilão Líder Supremo Snoke (também criação digital, a partir dos movimentos de Andy Serkis, o eterno Gollum). Este, inclusive, causa um estranhamento devido a sua qualidade: entre tantos efeitos práticos, Snoke distancia-se ao mostrar-se como uma criatura completamente gerada em computador, lembrando as criações digitais de George Lucas para os episódios I, II e III, que não aparentavam verossimilhança. Já Maz (uma das melhores personagens do novo filme) é cativante o suficiente para nos enganar, parecendo mais real a cada frase dita ou trejeito realizado pela Lupita por trás da máscara de computação gráfica.

Por último, mas não menos importante, temos aqui dois protagonistas essenciais não apenas pelos papeis que desempenham na nova fase da saga, mas por serem uma mulher e um negro. Fugindo do estereótipo de que um herói precisa ser necessariamente um homem – forte e branco -, que irá salvar a mulher – fraca e também branca -, a heroína Rey (interpretada de forma segura pela estreante Daisy Ridey) faz questão de não dar a mão ao futuro amigo Finn enquanto foge de um perigo (“eu sei correr sem ter que dar a mão!“). Finn, por sua vez (interpretado pelo ótimo John Boyega), é responsável por movimentar a trama, além de ter um bom timing com humor.

Agora às questões.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

Analisando rapidamente, considero O despertar da força como uma mistura de Uma nova esperança, (A new hope, 1977) com A ameaça fantasma (The phantom menace, 1999). Não em termos de qualidade técnica, obviamente, mas em relação a dois pontos: sua estrutura narrativa, similar ao episódio IV da saga, e sua introdução de personagens, similar ao episódio I. Entendo que o novo filme precisa realizar duas coisas importantes tanto para a história da saga quanto para o lucro da Disney: juntar os fãs antigos ao apresentar personagens consagrados com as novas caras e, dessa forma, angariar mais fãs.

Não considero, por isso, que O despertar da força seja o melhor filme da saga. É um bom filme, repleto de elementos necessários a uma aventura digna de ser considerada Star wars. Mas, assim como em A ameaça fantasma, é preciso introduzir toda uma gama nova de personagens e suas histórias particulares; além disso, é necessário movimentar a trama com uma perspectiva – aqui, no caso, é a busca por Luke Skywalker e toda a subtrama que o levou a desaparecer – assim como era o futuro do próprio Luke em Uma nova esperança. Há, também, a necessidade de agregar personagens antigos e criar paralelos com os estreantes (se Luke era fielmente escudado por R2-D2, Rey também conta com a ajuda de um droide, BB8; se Darth Vader tinha Lorde Sidious como mentor do lado negro da Força, Kylo Ren conta com o treinamento do Líder Supremo Snoke e por aí vai…). Meu questionamento é: até que ponto essa reciclagem de personagens será benéfica para o desenvolvimento da nova trilogia?

A Disney, é claro, está faturando e vai faturar ainda muito mais. Investiu de maneira correta ao escolher um diretor competente naquilo que faz; teve a importante ajuda da produtora Kathleen Kennedy e contou com a presença de nomes de peso como Lawrence Kasdan no roteiro e os veteranos Harrison Ford e Carrie Fisher no elenco. Resta saber se, nos próximos filmes, veremos mais do que uma introdução a novos personagens. Que a Força esteja com todos nós.

Curiosidade: Daniel Craig interpreta um stormtrooper importante. Ah, e o nome dele é JB-007.

pôster

Pôster: LA, 2015

Star Wars: the force awakens, dirigido por: J. J. Abrams; escrito por: Lawrence Kasdan, J. J. Abrams e Michael Arndt.

Com: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridler, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Gwendoline Christie.

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Filmes

Divertida Mente

Steve Jobs decidiu investir no sonho de John Lasseter quando viu que ele e sua equipe eram obcecados por detalhes na produção de seus pequenos filmes, assim como o fundador da Apple era com seus produtos. Com a ajuda monetária do manda-chuva da Maçã, a Pixar lançou-se no mercado com Toy Story (1995), lá nos anos 90. E o sucesso foi estrondoso. Lançamento após lançamento, o pequeno estúdio foi tomando proporções gigantescas, alimentando parcerias e discussões com outro gigante do ramo: a Disney. Nessa história de rivalidades, a velha estratégia do “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” acabou juntando ambas as empresas; afinal, é melhor dividir lucros do que perder para alguém que até outro dia sequer existia.

Talvez o principal elemento para tanto sucesso como o da Pixar vem de uma solução aparentemente simples, mas nem um pouco fácil: seus filmes, desde o início, prezam por contar histórias de pontos de vista distintos, inusitados. Temos o drama da existência a partir da visão de brinquedos em Toy Story; o sofrimento de viver sob um regime autoritário pelos olhos de formigas em Vida de Inseto (A Bug’s Life, 1998); a rotina exaustiva do trabalho dos monstros ao precisar assustar crianças do mundo todo em Monstros S. A. (Monsters Inc., 2001) e, uma das mais audaciosas (e belas) de todas, a apreciação e poesia da culinária por um… rato. Isso, um rato. Em Ratatouille (2007), a Pixar subverteu a ideia de que o animal visto como um dos mais nojentos pelo ser humano seria capaz de ajudar alguém na cozinha.

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

É claro que a filmografia de um diretor ou, no caso, um estúdio não é perfeita. A Pixar também criou pérolas (no mau sentido) como Carros (Cars, 2006) e Valente (Brave, 2012). É preciso aplaudir de pé os magos da computação gráfica comandados por Lasseter que criaram cada fio de cabelo da heroína Merida; mas é difícil suportar um filme tão… Disney como é Valente, com direito a cantorias sem fim e uma história bem batida. Se a Pixar fazia sucesso era justamente por se distanciar da fórmula Disney ao contar suas histórias, com as crianças rindo do humor físico e de personagens alívio-cômico em cada filme e seus pais se divertindo com as referências inteligentes a outros filmes. Sem contar que os roteiros do estúdio emocionam uma pessoa de qualquer idade, seja acompanhando a amizade improvável entre um senhor rabugento e um escoteiro pentelho ou admirando a beleza muda do amor entre um robô depressivo e uma máquina moderna, curvilínea e flat chamada EVA.

A boa notícia, porém, é que a Pixar parece ter retomado o espírito que tomou conta de boa parte de sua existência lançando agora seu mais novo longa: Divertida Mente (Inside Out, 2015). Aquela fórmula de contar uma história, qualquer que seja, através de uma ótica peculiar e emocionante é trazida de volta agora ao acompanharmos a rotina de uma garota de onze anos chamada Riley. A diferença, no entanto, é que, além de conhecermos para onde Riley e seus pais irão morar depois de uma mudança repentina, sua nova casa, sua nova escola, observamos tudo isso de dentro de sua cabeça. Sim, os astros principais de Divertida Mente são as emoções humanas: a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva e o Nojinho. E é por causa dessa ótica que o novo longa-metragem da Pixar parece tanto com a Pixar oldschool: está ali o humor físico para as crianças, mas também se faz presente a beleza da inventividade do roteiro ao ser mostrado cada “setor” da mente de Riley, com corredores labirínticos de lembranças, ilhas (literalmente) de personalidade, um trem (também literal) do pensamento e um local próprio para a produção de sonhos – e aí adivinhem: sim, claro, o lugar é um estúdio de cinema.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

John Lasseter já admitiu diversas vezes que uma de suas grandes influências sempre foi o mestre animador japonês Hayao Miyazaki, responsável por nada menos que Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro, 1988), Princesa Mononoke (Mononoke-hime, 1997) e, seu mais famoso aqui no Ocidente, A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001). Essa influência é muito visível em Divertida Mente, principalmente porque o filme não preza por sequências frenéticas de ação, muito menos busca um humor barato a qualquer custo para ganhar a atenção do público infantil: o filme, logo de início, foca seus esforços na construção adequada da história. O roteiro apresenta personagens esféricas, completas, algo que já afugenta a perigosa possibilidade de se cair em protótipos, já que a intenção principal é mostrar a vida de uma menina através de suas emoções. Assim, a principal beleza de Divertida Mente é provar para o espectador que mesmo a Alegria sendo responsável pela, obviamente, alegria de Riley, ela pode – e muito -, aprender com a Tristeza. Essa personagem, inclusive, possui um dos arcos dramáticos mais poéticos do filme (é difícil não se emocionar com o pensamento de que nós, como seres humanos, precisamos também da tristeza).

E é assim, a partir de pequenos detalhes tanto imagéticos – a Pixar também continua sendo um estúdio que preza por detalhes técnicos, explodindo nossas visões com cenários muito bem construídos – quanto narrativos: em dado momento, há dois empregados responsáveis por apagar lembranças inúteis da mente de Riley escolhendo quais serão descartadas naquele dia; eles, então, decidem por eliminar os nomes das princesas Disney! E quando a Alegria tenta argumentar contra, não há motivos razoáveis para manter tais dados. Essa alfinetada soa tão apropriada para os dias atuais (ainda mais quando o próprio estúdio busca mudar a imagem de suas princesas como ocorreu no sucesso estrondoso de Frozen) como a piada mais do que bem-vinda sobre aqueles comerciais que insistem em tocar em replay em nossas cabeças. É de tudo isso que o público fã da Pixar sentia falta: a união entre a beleza técnica de uma animação gerada por computador com as peças encaixadas organicamente em um roteiro coeso, capaz de gerar riso e, ao mesmo tempo, lágrimas em um piscar de olhos, nunca soando maniqueísta.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Se a tendência, daqui para frente, seguir esse ritmo apresentado em Divertida Mente, então é seguro afirmar que o estúdio voltou a andar sobre trilhos seguros e anda visitando estações boas do passado. Enquanto Carros apelava demais ao público infantil, apresentando até personagens caricatos (o campeão arrogante, o caipira humilde e engraçado e etc…), a Pixar de agora volta a desenvolver personagens que derrubam esses protótipos, demonstrando ser pessoas – ou, no caso, emoções – repletas de desdobramentos. Pois sim: as emoções também tem emoções, e é poético ver a Alegria chorando ao se encontrar em uma situação aparentemente sem saída ou a Tristeza dando um leve sorriso ao notar que, sim, ela também é útil, e bastante, para um ser humano. Seja ele uma menina de onze anos, um escoteiro pentelho ou um velho rabugento.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Nota: o curta-metragem da vez que é exibido antes do filme chama-se Lava e também é poético, sensível e belo. Uma complementação muito agradável ao longa.

Pôster: BLT Communications, 2015

Pôster: BLT Communications, 2015

Inside Out, dirigido por: Pete Docter; escrito por: Pete Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley.

Originalmente com as vozes de: Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kalling, Kaitlyn Dias.

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