Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2016

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

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Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

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O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

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the-revenant

Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

the-hateful-eight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

julieta

Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

» resenha

the-witch

Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

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Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

» resenha

spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

aquarius

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Filmes

Magia ao Luar

Coube a Colin Firth a responsabilidade de assumir, em Magia ao Luar (Magic in the Moonlight, 2014), a persona que consolidou não só a figura de Woody Allen no cinema contemporâneo, mas também a carreira do cineasta, atualmente lançando um novo longa a cada ano. Esperar uma boa atuação de Firth não é se antecipar erroneamente; neste ponto, o novo filme de Allen está seguro. O que surpreende, porém, é a temática escolhida. Ou melhor, não só a temática, mas de que forma ela é conduzida.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

Belamente fotografado em locações da Riviera Francesa visivelmente escolhidas a dedo, Woody Allen primeiramente parece querer convidar o público para se ambientar não apenas aos seus novos personagens, mas, usando os cenários – sejam eles externos ou internos -, assentar um clima que evoca tanto a dúvida como mistério e fascinação, quanto como a preparação para uma derradeira realidade, brusca e aterradora como ela só. Afinal, observar o universo através da Lua e das estrelas mais brilhantes parece ser uma ideia romântica e reconfortante, mas analisá-lo cirurgicamente pela lente de um grande observatório pode revelar uma imensidão assustadora e, nas palavras de Stanley, o protagonista, “ameaçadora”. A dúvida, dessa forma, é manter-se na fria e dura realidade do cinismo quando ele se depara com uma provável nova charlatã que se auto-intitula médium ou, na melhor das hipóteses, ceder ao que todos parecem concluir: a bela e dócil Sophie (interpretada de forma leve e, ao mesmo tempo, impressionante, por Emma Stone) realmente possui um dom que a possibilita ver através das pessoas e se comunicar com aqueles que já faleceram.

Se os cenários contribuem para a fluidez do roteiro, a década de 20, juntamente com a trilha-sonora, vem colaborar para instituir a principal reflexão da história: nós, em nossa condição limitadamente humana, estamos propensos a sermos felizes apenas quando vivemos sob mentiras que nos confortam? Allen vai brincar com a questão brindando o público com diálogos inspirados entre Stanley e sua “antagonista”: desmascarar o provável (em sua opinião, claro) charlatanismo da moça é o objetivo para o qual seu amigo, Howard (interpretado por Simon McBurney), o convence a desistir de uma viagem para ir à França. Quando ambos se conhecem, a doçura e expressão facial etérea de Sophie entra em um choque delicioso com o semblante rabugento de Stanley – e é engraçado notar como o figurino de Colin Firth vai se alternando durante o filme: primeiramente sóbrio em seus ternos escuros à moda da época, Stanley vai se “clareando” conforme se rende aos encantos mágicos da médium, culminando, inclusive, em um traje leve e totalmente branco, em determinada cena, para logo depois voltar ao seu cientificismo monocromático. Esses detalhes vão sendo colecionados à medida que o filme corre, compondo núcleos temáticos que irão preencher com riqueza o longa.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

E, depois de ser aclamado por Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), criticado por Para Roma, Com Amor (To Rome with Love, 2012) e novamente aplaudido por Blue Jasmine no ano passado, Woody Allen volta a acertar seu bom e velho timing tanto para um tema bem manejado, como para a construção de personagens que seduzem a curiosidade do espectador, gerando um cena pós cena de diálogos que vão e voltam na comédia, no drama e no romance, criando uma sequência de acontecimentos dentro de uma história redondinha, mas que surpreende: a certo ponto, somos também convidados a criar uma nuvem pesada de dúvidas sobre nossas cabeças, assim como Stanley, fazendo com que tentemos desvendar os mistérios de Magia ao Luar e, ao mesmo tempo, nos rendamos ao conforto de aceitar as previsões e adivinhações de Sophie como dogmas confortáveis.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

O mais novo longa escrito e dirigido por Woody Allen é uma obra que não só diverte e emociona, como sugere reflexões ao público por meio de contrastes: Stanley é um mágico famoso, então seu dever é treinar os truques para que pareçam mágica; Sophie se diz médium, possui um dom – não precisa de uma disciplina laboral para impressionar quem a cerca. E enquanto Stanley deseja, mais do que tudo, provar para os outros que a moça não passa de uma farsa, Sophie faz questão de dizer, em certo momento, que há uns anos assistiu ao show de Stanley e ficou impressionada com sua performance… mas a crítica vem certo tempo depois: sua estupefação se desmoronou ao saber que as mágicas do ilusionista não passavam de truques, de simples treino para enganar os olhos das pessoas. Então quem é o mais errado nessa história toda: o mágico que ilude o público? Ou a médium que ilude o povo? Ou ninguém?

Woody Allen vai deixar essa pulga atrás de nossas orelhas.

Pôster: Gravier Productions, 2014

Pôster: Gravier Productions, 2014

Magic in the Moonlight, dirigido e escrito por: Woody Allen.

Com: Colin Firth, Emma Stone, Simon McBurney, Hamish Linklater, Eileen Atkins.

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Filmes

Chef

Vivemos atualmente em uma sociedade que trabalha. Mais do que isso, uma sociedade que preza e cobra por trabalho. Desde crianças, somos acostumados (e até condicionados) a realizar trabalhos e alcançar objetivos: a professora ou professor do ensino fundamental que exige um trabalho escolar em grupo, o da faculdade que pede aquele seminário problemático para ser apresentado à frente de todos os colegas de sala. Aliás, faculdade é um dos objetivos mais almejados pelos jovens de hoje, e pode-se observar que a ânsia por terminar a escola e ingressar diretamente em um curso universitário torna-se cada vez maior, seja por pressão de familiares, da sociedade em torno do sujeito ou simplesmente pelas circunstâncias. As consequências que surgem dessas pressões podem vir a calhar em um momento crucial da vida de qualquer pessoa, levando-a a se questionar se sua escolha de formação acadêmica foi a correta ou, na pior das hipóteses, a melhor. Formar-se em uma faculdade, hoje, não quer dizer exatamente sucesso profissional e pessoal.

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Ao se ver Chef (2014), escrito e dirigido por Jon Favreau, essa é a primeira de várias reflexões que surge para o espectador. O diretor e roteirista também interpreta Carl Casper, um chef aclamado no passado por sua irreverência na criação de pratos próprios e que, atualmente, trabalha como responsável em um restaurante de bairro do controlador Riva (interpretado por Dustin Hoffman). Carl, certo dia, espera a visita de um famoso blogueiro gastronômico que irá saborear e, por consequência, avaliar seus pratos. Daí surge uma divisão de águas na vida do protagonista: ele, explodindo em criatividade, desejando criar novos pratos mais do que nunca, prefere mudar o menu costumeiro do restaurante para surpreender o convidado; seu chefe, ao contrário, não quer arriscar a reputação (boa e segura) do estabelecimento e ordena que Carl mantenha as coisas como estão. Bate-boca de um lado, luta de egos de outro, a situação acaba por culminar em uma decisão raivosa de Carl: se Riva deseja estabilidade, que faça bom proveito: ele se demite.

Divorciado e pai de um filho que não possui sua atenção, Carl vê-se em uma encruzilhada. Por um lado, sua criatividade pulsa constantemente, exigindo dele tempo, dedicação e isolamento do mundo e das pessoas a seu redor; por outro, a ex-mulher Inez (interpretada por Sofía Vergara) volta a insistir em um conselho: abra um food truck, seja seu próprio patrão, busque seus sonhos. A mensagem escondida também é, paradoxalmente, clara: dê atenção para as pessoas que gostam de você. Se Carl viajar de cidade em cidade, vendendo as próprias criações gastronômicas e, de quebra, conhecendo novas experiências – novos sabores -, ele também pode ter a chance de se conhecer e conhecer melhor seu filho, por exemplo. Discussão aqui, reflexões ali, Carl cede às investidas de Inez e cai na estrada.

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Chef, no entanto, não vai se limitar a dar breves e bonitas lições de vida, mostrando como o mundo é feito de oportunidades e como você, sendo espectador, pode também se identificar com a história e passar a buscar os próprios objetivos. Ele vai além ao criar núcleos de personagens com diversas características. Apesar da participação de Dustin Hoffman prezar por uma personagem plana, aquele que apenas vê o lado comercial da coisa e que almeja apenas estabilidade, o filme nos mostra, com bons exemplos cinematográficos, as relações entre pai e filho: em determinada sequência, Carl fica responsável por passar um tempo com o filho. Como o chef não tem tempo para esse tipo de coisa, à época, o filme faz questão de mostrar esse sentimento de desatenção ao resumir o dia pai-e-filho em quadros rápidos, com cortes métricos, em menos de dez segundos. É o filme dizendo que o filho não tem importância para a história, assim como não tem para Carl – mesmo que ele negue isso.

O filme também irá incluir, de forma interessante e bem aproveitada, a presença da tecnologia e as relações rápidas – e virais – que surgem com a Internet: é o blogueiro que critica os pratos, criando uma repercussão gigantesca e irrefreável, é o Twitter que irá auxiliar tanto na queda, como na ascensão de Carl (e as animações dos tweets sendo enviados, na forma de um pequeno pássaro azul que bate asas para fora das cenas são simples, pensadas na medida certa), é o filho que, ao ser aceito finalmente como filho pelo pai, ajuda seu novo negócio ao viralizá-lo através do Twitter, do Facebook, do Vine e de tantas outras redes sociais que disseminam informação em questão de segundos. A associação, então, entre a itinerância da food truck de Carl – aquela que constantemente se muta, se muda e se faz presente em um lugar, ao passo que dali um tempo já não o é mais – e a onipresença da Internet impulsiona o ritmo e a fluidez do roteiro, trazendo o espectador para perto e segredando em seu ouvido: viu, as coisas na vida tem seus enroscos, mas você pode analisar melhor a situação e escrever um objetivo novo.

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Imagem: Aldamisa Entertainment, 2014

Afinal, a proposta de Chef parece ser além de apenas um filme food porn, dedicado a encher nossos olhos com uma fotografia ginecológica em diversos pratos culinários e gastronômicos – mas sim, claro, ele também faz esse papel, ou não haveria propósito -; o filme dirigido por Jon Favreau também quer mostrar aos duvidosos em relação à sua formação, escola, trabalho, vida, enfim, àqueles que se encontram segurando uma faca de dois gumes como Carl se encontrou, que obter determinação é um caminho tortuoso, recheado de conflitos e temperado com alfinetadas. Porém, se o foco é claro e a determinação é conseguida, servir um bom prato não só aos outros, mas também a si mesmo, torna-se um grand finale para qualquer um, independente das escolhas que cozinharam no caminho até aqui.

Pôster:  InSync + BemisBalkind, 2014

Pôster: InSync + BemisBalkind, 2014

Chef, dirigido e escrito por: Jon Favreau.

Com: Jon Favreau, John Leguizamo, Emjay Anthony, Sofía Vergara, Oliver Platt, Dustin Hoffman, Scarlett Johansson, Robert Downey Jr.

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Filmes

Guardiões da Galáxia

Nos anos 90, Joel Schumacher foi responsável por destruir o legado de Batman nos cinemas. Trazendo à tona o Homem-Morcego em dois filmes, o diretor apresentou filmes sem um pingo de seriedade, repleto de cores e mamilos em placas peitorais (sem contar os constrangedores closes nas regiões pélvicas dos heróis enquanto estes mudavam de roupa). Alavancando as vendas dos bonecos licenciados após o lançamento de Batman EternamenteBatman & Robin, Schumacher foi alvo dos fãs até Batman ser resgatado na década seguinte por Christopher Nolan. Construindo um personagem praticamente “novo” no cinema, Nolan acreditava que aquela fase colorida e engraçadinha de um dos heróis mais famosos da DC Comics precisava ser revista, compondo uma nova trilogia realista, introspectiva e sombria. O que nos traz a esse novo exemplar de filme baseado em uma HQ. A pergunta que pode pairar sobre nossas cabeças após uma sessão de Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014) é: por que Guardiões da Galáxia, assim como os dois Batman de Joel Schumacher, não é sério e, mesmo assim, funciona?

Dirigido por James Gunn, que também escreveu o roteiro (ao lado de Nicole Perlman), o novo filme dos estúdios Marvel realmente não se leva a sério. A sua primordial diferença com os Batman felizes de Schumacher é essa. Ao contrário destes, que pretendiam ser um filme íntegro, destacando as qualidades heróicas e nobres de Batman, Guardiões da Galáxia foi feito baseado na piada. A cena que mostra os créditos iniciais já preconiza isso: enquanto entra em um lugar totalmente sombrio e ameaçador, composto por paredões rochosos escuros e pouca luz natural, o protagonista Peter Quill (interpretado por Chris Pratt) coloca fones de ouvido, aperta o play de um velho Walkman, e dança. Dança em um lugar que dá dicas, desde o início, de que algo ali vai dar errado. A música que toca nos fones de Peter preenche a tela também como trilha-sonora, enfatizando ainda mais essa quebra de imagem: enquanto vemos o protagonista se infiltrar cada vez mais entre as cavernas do lugar em busca de um artefato valioso, ao mesmo tempo não nos preocupamos com algum tipo de risco, pois a música pop oitentista tocando alegremente não permite um desconforto.

Imagem: Marvel Studios, 2014

Imagem: Marvel Studios, 2014

E essa ideia vai se repetir por todo o longa, mostrando cada vez mais cenas que vão contra qualquer tipo de seriedade. Aí, portanto, reside o triunfo de Guardiões da Galáxia. Diferentemente de outros filmes, fazer piada de si mesmo e de todas as situações envolvidas faz parte de sua estrutura e história, apresentando para o público um grupo de personagens principais que são desajustados com os outros e com eles mesmos. É daí, portanto, que virão todas as cenas com piadas promovidas pelo uso de cortes (como na cena da fuga da prisão, quando acompanhamos o guaxinim Rocket estraçalhar inimigos com sua arma e, após um corte milimetricamente pensado, vemos Peter tentar convencer um colega presidiário a lhe entregar sua perna mecânica), ou através do próprio visual (enquanto personagens conversam no primeiro plano, outro faz, em segundo plano, exatamente o que os primeiros dizem para não ser feito).

Essa atmosfera de brincadeira também é reafirmada com o design de produção, compondo lugares, paisagens e imagens com muitas cores fortes – até berrantes, em alguns casos -, fazendo com que essa característica esteja presente desde os detalhes dos espaços, até a composição dos próprios personagens. Aliada ao design, a fotografia irá prezar por enquadramentos que expõem essas imagens coloridas, fazendo jus aos grandes filmes de aventura e ficção científica (sim, Star Wars). Aliás, o quinteto principal lembra muito os antológicos personagens criados por George Lucas, influência que se nota desde o material de divulgação – o pôster que mostra os protagonistas evoca imediatamente o do primeiro Star Wars, com laser saindo das armas e as posições de combate dos heróis em destaque, todos em um cenário cósmico.

Imagem: Marvel Studios, 2014

Imagem: Marvel Studios, 2014

Tanto seu design, quanto sua fotografia não completariam a experiência se o elenco não estivesse afinado com seus respectivos personagens. A escolha de Chris Pratt para encabeçar Guardiões da Galáxia foi certeira: criando um Peter Quill engraçado (e desajustado ao mesmo tempo), Pratt é dono das melhores piadas do roteiro, apenas perdendo, de quando em quando, para Rocket e seu humor ranzinza. Aliás, a produção está de parabéns pela computação gráfica empregada ao criar o guaxinim, extremamente realista e assustadoramente humano na tela. Seu companheiro desde início, o humanóide / planta Groot é responsável pelo humor físico do filme – não seria um blockbuster de verão estadunidense sem humor físico para as criancinhas -, enquanto a perigosa e escorregadia Gamora (interpretada por Zoe Saldana) traz mais uma forte personagem feminina que não se deixa levar por embalos amorosos. O guaxinim Rocket foi dublado por Bradley Cooper, assim como Vin Diesel emprestou a voz para Groot (seu melhor papel até então, afinal, ele fala menos de dez palavras o filme todo), singelos detalhes que se perdem com uma sessão dublada, mesmo que o trabalho dos dubladores brasileiros seja ótimo e todos aqueles mesmos argumentos de sempre que vão tentar nos convencer de que a dublagem é a melhor opção para uma sessão de cinema…

Imagem: Marvel Studios, 2014

Imagem: Marvel Studios, 2014

Mas não, Guardiões da Galáxia não é só êxito, e devo apontar aqui duas coisas que incomodam demais no filme (principalmente se você assiste filmes atentando-se aos detalhes): em uma determinada cena, Rocket desliga a gravidade do ambiente para salvar a pele dos protagonistas, e isso fica óbvio e claro para qualquer ser humano que está ali, assistindo a cena. No entanto, o roteiro dá uma escorregada e obriga Gamora a dizer “ele desligou a gravidade lá fora, menos aqui dentro!”. Outra falha é a caracterização de Ronan, o vilão. Possuindo uma voz extremamente grave e carregando um semblante sempre sério ou contorcido por ódio, o vilão de Guardiões da Galáxia dá sono em qualquer pessoa: é mais um daqueles clássicos vilões que querem dominar / destruir o mundo e acabar com a alegria da moçada. Sua voz grave e seus trejeitos podem até lembrar vagamente Darth Vader, mas Ronan está longe de se tornar um vilão que se transforme em um ícone da cultura pop. Mesmo com esse personagem totalmente plano na contramão dos protagonistas, o filme se dá o direito de zoar com a cara de Ronan em diversos momentos, alcançando seu ápice de despreendimento com qualquer tipo de seriedade em uma cena específica, ao final da projeção, quando Peter decide distrair o vilão e acaba compondo uma das cenas mais hilárias de Guardians of the Galaxy.

Se a intenção é assistir ao filme esperando um realismo cru e depressivo de uma trilogia The Dark Knight, por exemplo, a melhor opção é se afastar de Guardiões da Galáxia. O filme é sim divertido e merece uma conferida, mas apenas se você se desprender de qualquer seriedade. Afinal, estamos falando de um filme que quer trazer de volta a sensação de ler uma história em quadrinhos leve e engraçada. A diferença, no entanto, que faz de Guardiões da Galáxia um bom filme, é que não deixaram de lado a sua estrutura, muito menos se descuidaram na composição de personagens e na introdução de um novo universo, que desde já é muito bem-vindo.

Imagem: Marvel Studios, 2014

Imagem: Marvel Studios, 2014

Nota: há duas cenas adicionais após o final, uma no meio e outra no fim dos créditos. A primeira é super engraçada e a segunda revela uma surpresa. Não deixe de conferi-las!

Pôster: BLT Communications, 2014

Pôster: BLT Communications

Guardians of the Galaxy, dirigido por: James Gunn; escrito por: James Gunn, Nicole Perlman.

Com: Chris Pratt, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Dave Bautista, Vin Diesel, Michael Rooker, Benicio Del Toro.

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Filmes

Trapaça

A primeira cena de Trapaça (American Hustle, 2013) começa com uma tomada peculiar. Nela, encontra-se o ator Christian Bale, arrumando seu cabelo ralo e já caracterizado como o caloteiro Irving Rosenfeld. Seria algo comum se o diretor David O. Russell não passasse sua lente por toda a extensão da barriga do ator, quase que sublinhando para seu público que aquela barriga protuberante é real, e não um artifício preparado pela equipe de maquiadores do filme. Pode ser um momento breve e sem significado algum à trama que vai se desenrolar dali pra frente, mas, ao concluir o longa, fica evidente uma coisa em comum desde essa primeira cena: o diretor e roteirista de American Hustle é um cineasta ambicioso e, infelizmente, pretensioso demais.

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Apesar de não ser um filme péssimo, contando com boas atuações aqui e ali e com uma direção de arte cuidadosa com os detalhes que recriaram a década de 70, Trapaça tenta alcançar diversas características ao mesmo tempo, chega a tocá-las por um instante e, subitamente, tropeça e volta ao comum. O roteiro, em um estilo Scorsese demais, pega como muletas criativas diversos recursos narrativos: tem-se ali as narrações em off dos personagens, comentando as ações; uma edição rápida em alguns momentos, acompanhada por uma música instigante; e o vai-e-vem no tempo da narrativa, começando pela metade, voltando para o começo e seguindo em frente a partir desse ponto. São recursos que poderiam deixar o filme interessante, não há dúvida, e em certos momentos até contribuem mesmo para o andar da carruagem… porém, lá na frente, David O. Russell nos deixa com a sensação de que não conseguiu ser convincente.

Em certo momento, em um diálogo aparentemente despretensioso, a personagem de Jennifer Lawrence comenta que é viciada em um finalizador para suas unhas, pois ele possui um aroma doce, mas que, ao mesmo tempo, tem algo de podre por baixo: “dizem que todos os perfumes devem ser assim, bons, mas com cheiro de ‘lixo’ junto”; e complementa: “Irving é viciado nele, não consegue parar de cheirá-lo”. O fato do protagonista “apreciar” um finalizador de unhas é algo simples, besta, mas para aqueles que já estão desconfiados das intenções de O. Russell lá pela metade do filme, esse dado é suficiente para compreendermos o que o novo filme do diretor almeja.

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Se a discussão principal da trama é refutar sobre o que é mais válido – a obra original ou uma falsificação bem feita -, a direção e o roteiro do filme deixa isso claro em todos os aspectos possíveis, talvez até sem ter a intenção. O personagem de Bradley Cooper, por exemplo, é movido por sua ganância dentro de uma ilusão arquitetada até chegar ao ponto de não ter mais por onde escapar; a de Lawrence simplesmente não mede as consequências de suas decisões precipitadas e, quando algo dá errado, ela encontra uma forma de se livrar da culpa, iludindo a si mesma… ou seja, Trapaça joga com essa contraposição a todo tempo: o que é verdadeiro e o que é falso? E, com isso, acaba se mostrando para o público como um filme que também não consegue distinguir o que é um filme verdadeiro do que é uma cópia bem feita de um ótimo filme de um ótimo diretor (oi, Scorsese). Se os bons perfumes devem ter algo de podre em suas camadas mais inferiores, American Hustle acaba exagerando nessas notas, errando a equação e, no fim, mostrando que quer ser um ótimo filme, mas acaba passando a imagem de apenas uma boa imitação da obra original.

Imagem: Columbia Pictures, 2013

Imagem: Columbia Pictures, 2013

É por esse caminho, então, que voltamos à barriga de Christian Bale. O ator poderia ter utilizado maquiagem e a mágica ilusória do próprio cinema para compor o físico de seu personagem. Mas, optando pela verdade que ilude, Irving Rosenfeld aparece na tela como deve ser segundo o roteiro. Uma decisão interessante e genuína, é claro; o que incomoda, no fim da sessão, é como a primeira cena é apresentada: ali, David O. Russell não se contenta em ser elegante e discreto, deixando que seu próprio público se deixe iludir (o diretor também não sabe ser elegante em sua fotografia), ele precisa MOSTRAR para os espectadores que existe sim uma barriga de verdade no corpo do ator e que ela está ali para fazer você acreditar que Trapaça se compromete em ser um bom filme. E é. Mas não é excelente, como David O. Russell provavelmente acreditou enquanto o filmava.

Pôster: BLT Communications, 2013

Pôster: BLT Communications, 2013

American Hustle, dirigido por: David O. Russell; escrito por: Eric Warren Singer, David O. Russell.

Com: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Louis C. K.

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Filmes

Uma Aventura LEGO

As inúmeras peças plásticas de tamanhos, formas e cores variadas já passaram pelas mãos e imaginação de muitas crianças, adolescentes e adultos por todos esses anos em que a LEGO impera entre as lojas de brinquedos. De uma simples brincadeira que leva objetos avulsos a tomarem qualquer forma através da criatividade, o brinquedo transformou-se em franquia. Atualmente, o LEGO já não é apenas um brinquedo, ele faz parte da cultura pop abrangendo personagens conhecidos e transitando por diversas mídias, como os video-games. Agora também abocanha o público através do cinema com Uma Aventura LEGO (The LEGO Movie).

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, a dupla responsável pelos dois Tá Chovendo Hambúrguer (Cloudy With a Chance of Meatballs), o filme conta a história de Emmet, um bonequinho operário comum e igual a todos de sua cidade que acaba encontrando uma relíquia muito poderosa, capaz de destruir todos os planos do maquiavélico Presidente Negócios. Amparado pelos Construtores, personagens que variam do interesse amoroso de Emmet até o próprio Batman, Emmet tem como missão usar tal relíquia para impedir que o Presidente Negócios torture os habitantes de todo o mundo LEGO com sua arma letal.

O ponto mais relevante e importante do roteiro de Uma Aventura LEGO é seu desprendimento com qualquer tipo de seriedade. Não seria viável contar uma história que se passa no mundo das pecinhas, com personagens tão variados, se ela fosse pautada por uma realidade crua e questões sérias. No entanto, os diretores do filme, que também assinam o roteiro, vão inserindo questionamentos interessantes a partir da metade da projeção que não só surpreendem o público, como também enriquecem a narrativa, entregando um desfecho deliciosamente divertido e engraçado. São temas que discutem até onde a imaginação pode ser levada e quais regras devem ser consideradas quando uma brincadeira é feita com LEGO. E o próprio filme é contado através dessa variação, começando com as regras rígidas que o protagonista nos apresenta e, com o andar da carruagem, chegando a situações em que não há regras e, com isso, mostrando as consequências de se “brincar” de “é cada um por si”.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

O que surpreende também é a qualidade técnica da animação. Realizada pela Animal Logic, estúdio responsável por belas animações como A Lenda dos Guaridões (Legend of the Guardians: The Owls of Ga’Hoole, dirigido por Zack Snyder), as peças e os bonecos LEGO ganham vida não só por serem personagens, mas por não deixarem de ser peças. É possível ver a textura plástica de cada personagem nas cenas, além de notar – com um divertimento nerd, admito – que nenhum detalhe foi deixado para trás, pois qualquer elemento daquele mundo é formado por peças, até a água, as bolhas, o fogo, a fumaça, etc.

Composto por diversas cenas com humor físico para as crianças, Uma Aventura LEGO também lembra dos adultos com piadas físicas, mas sutis, outras compostas de silêncio regido por um timing perfeito e, como a marca LEGO pode usar a imagem e os elementos de muitos personagens conhecidos, o filme se aproveita disso para inserir situações com referências, direcionando piadas exclusivas para o público que curte os personagens da DC Comics e de Star Wars, por exemplo. Contando também com uma boa dublagem na versão brasileira (Guilherme Briggs está presente com sua voz versátil em vários personagens, para a alegria da nação), os realizadores escalaram um time peso-pesado para a dublagem original em inglês, conferindo mais alicerce para o longa.

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2014

Provável canditado para as premiações voltadas para as animações em 2015, o filme permite-se ser descontraído, absurdo e sério quando deseja, agradando as diversas faixas etárias que o assiste e demonstrando ser uma história madura em seus aspectos técnico e narrativo. Uma Aventura LEGO é, seguida de Frozen, mais uma boa animação nesse início de ano e que, com suas diversas qualidades, faz com que esqueçamos mais ainda de outras não tão adoráveis assim.

Pôster: Art Machine & Animal Logic, 2014

Pôster: Art Machine & Animal Logic, 2014

The LEGO Movie, dirigido e escrito por: Phil Lord, Christopher Miller.

Originalmente com as vozes de: Chris Pratt, Will Ferrell, Elizabeth Banks, Will Arnett, Morgan Freeman, Liam Neeson, Alison Brie.

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Filmes

Frozen: Uma Aventura Congelante

É engraçado notar que, após a venda da Pixar, a Disney passou a produzir animações com personagens cativantes, visual técnico rico e enredos consistentes. Começou com Enrolados (Tangled, 2010), passou por Detona Ralph (Wreck-It Ralph, 2012) e agora culmina em Frozen: Uma Aventura Congelante, que já se tornou um grande sucesso nos EUA.

Baseada no livro de Hans Christian Andersen, famoso escritor de contos de fada, o filme conta a relação entre duas irmãs, filhas de um rei. Anna, a caçula, adora brincar e sempre convida a irmã mais velha, Elsa, para seus jogos. As duas crianças são diferentes em um ponto, porém: enquanto Anna é uma criança comum, Elsa possui poderes mágicos. Quando quer, ela consegue soltar raios das mãos, criando estalagmites e estalactites de gelo, congelando o chão e as paredes, e, se quiser, consegue transformar um cômodo inteiro em um ringue de patinação. Em uma dessas brincadeiras, Elsa atinge a cabeça da irmã com um de seus raios. O rei e a rainha, preocupados com a saúde da filha, conseguem a ajuda especial de trolls das montanhas, que curam Anna, mas com a condição de que ela esquecesse o que havia acontecido, além da irmã possuir poderes. O rei, então, decide isolar as irmãs, separando-as em quartos diferentes. Quando os pais falecem, Elsa torna-se a rainha: é justamente quando seus poderes voltam à tona.

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

O triunfo de Frozen é sua estrutura simples de conto de fada, que não ousa ir além e, exatamente por essa escolha, acaba não se complicando. O filme, afinal, é visivelmente direcionado para o público infantil, apesar de inserir piadas que agradam os adultos. Mas é também pela presença de personagens que, apesar de não escaparem dos estereótipos típicos de um conto fantástico, conseguem ter um desenvolvimento no desenrolar da história que Frozen captura a atenção do público, mesmo sendo interrompido, a todo instante, por uma música-tema (praticamente todos os personagens cantam uma canção própria, mas esse ponto comento mais pra frente).

Contando com uma equipe encabeçada pela produção de nada menos que John Lasseter, a qualidade técnica da animação surpreende: o uso do 3D apenas beneficia os cenários construídos no computador, criando camadas que começam desde uma profundidade realista até objetos que se projetam para fora da tela (as pontas das estalagmites geladas criadas por Elsa constantemente escapam do cenário, furando os olhos de quem usa os óculos especiais pra ver o filme). É um uso interessante, pois a terceira dimensão foi pensada juntamente com o desenvolvimento do filme, e não depois, criando um efeito orgânico. O 3D também deixa mais real os vários flocos de neve, neblina, galhos e manifestações naturais dos ambientes, proporcionando uma experiência agradável para as crianças, principalmente.

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Frozen também conta com dois personagens que servem de alívio cômico em diversas situações e que são imediatamente carismáticos: Sven, a rena de Kristoff, um rapaz que ajuda Anna, que, apesar de não falar, consegue expressar muito bem suas opiniões (seja através de Kristoff, seja por si mesmo); e Olaf, um boneco de neve mágico, criado por Elsa: simplesmente um dos melhores personagens de animação desde, talvez, a esquecida Dory (também beneficiado pela boa dublagem brasileira, sempre competente nas produções da Disney – quando não resolve escalar o Luciano Huck (!) para o trabalho).

Contando uma história agradável de acompanhar, com personagens bem entrosados e desenvolvidos, um visual muito bem construído e ainda dando-se a liberdade de incluir uma reviravolta no roteiro, Frozen: Uma Aventura Congelante é um bom filme Disney. As músicas, que a todo momento entram pra ajudar a contar a história, quebram um pouco o ritmo em alguns momentos da narrativa, mas compensam por suas composições emocionantes e divertidas. Não seria um filme da Disney sem a presença delas, afinal.

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Imagem: Walt Disney Pictures, 2013

Nota: seguindo a tradição Pixar, antes de Frozen há um divertido curta-metragem intitulado Get a Horse! e protagonizado pelo Mickey das antigas. No entanto, é um curta que precisa ser assistido em 3D pra ser cem por cento aproveitado.

Pôster: Proof

Pôster: Proof

Frozen, dirigido por: Chris Buck e Jennifer Lee; escrito por: Jennifer Lee (baseado na obra de Hans Christian Andersen).

Originalmente com as vozes de: Kristen Bell, Idina Menzel, Jonathan Groff, Santino Fontana, Josh Gad.

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