Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2017

É hora de dizer mais uma vez: ano novo, lista nova.

Como já é tradição aqui on blog, está na hora de colocar as cartas na mesa e escolher os dez filmes que mais me agradaram ao longo do ano passado. Tentei prezar diversos gêneros e, consequentemente, várias temáticas. No final da lista você encontrará um filme bônus (oficialmente ele ainda não estreou no Brasil).

Listas de anos anteriores: 2016, 2015, 2014

10º

Mulher-maravilha (Wonder woman)

2017, dirigido por: Patty Jenkins

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Pôster: B O N D, 2017

Um dos filmes mais elogiados de 2017, Mulher-maravilha soube escapar muito bem do estigma de ser “apenas mais um filme de super-herói”. Patty Jenkins e sua direção com um olhar cuidadoso para a imagem de representatividade da mulher dentro do universo proposto pela personagem da DC Comics fez do filme não apenas um manifesto, mas uma peça de entretenimento puro e muito válida, mostrando ao público todo um universo e construção de personagem que não perde para nenhum outro filme baseado em histórias em quadrinhos. A cereja do bolo, é claro, é a atuação plena de Gal Gadot.

Star Wars: os últimos jedi (Star Wars: the last jedi)

2017, dirigido por: Rian Johnson

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Pôster: LA, 2017

Esqueça a zona de conforto de J. J. Abrams e seu Episódio VII. Não que este seja ruim, mas Rian Johnson definitivamente deixou sua marca na saga Star Wars. Ousado, diferente e, ao mesmo tempo, resgatando os tão bem-vindos alívios cômicos da trilogia clássica, Os últimos jedi não apenas estabelece de vez a nova geração de Star Wars para as novas gerações dentro do público, como também deixa seu legado para o cânone criado por George Lucas. Não dê atenção para pessoas babacas e seus abaixo-assinados irrelevantes, The last jedi é filmaço de primeira categoria e diversão garantida.

Leia a resenha do filme aqui.

Corra! (Get out!)

2017, dirigido por: Jordan Peele

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Pôster: LA, 2017

Não espere que você saiba o que está acontecendo dentro desse filme. Corra! é imprevisível do início ao fim. E o roteiro vai jogar com você o tempo todo, subvertendo inclusive suas próprias obviedades. É um suspense? Sim. É um terror? Sim. É comédia? Doentia, mas sim. Para conferir Get out!, é bom estar com o estômago em dia, pois a atualidade dele vai dar uns belos socos no seu.

Leia a resenha do filme aqui.

Animais noturnos (Nocturnal animals)

2016, dirigido por: Tom Ford

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Pôster: B O N D, 2016

Animais noturnos não possui uma história complexa, muito menos efeitos especiais mirabolantes. Seu foco são seus personagens e como esses lidam com seus próprios sentimentos. A história dentro da história só complementa a força gerada por ressentimentos, ódio e, claro, vingança. Espere por composições de imagens estéticas e atuações primorosas de Amy Adams e Jake Gyllenhaal.

Leia a resenha do filme aqui.

Ao cair da noite (It comes at night)

2017, dirigido por: Trey Edward Shults

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Pôster: InSync Plus, 2017

Dentro de uma onda de filmes de terror cada vez mais autorais e que fogem do estereótipo de que terror equivale a um filme ruim, com personagens rasos e histórias mais finas ainda, Ao cair da noite não é um exemplo que irá deixar você satisfeito. Em nenhum momento ele entrega o que o público quer ou precisa ver. Seu suspense é baseado justamente naquilo que tememos por não sermos capazes de vê-lo. Angustiantes, claustrofóbico e visceral.

Dunkirk (Dunkirk)

2017, dirigido por: Christopher Nolan

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Pôster: WORKS ADV, 2017

Para quem estava acostumado com um Christopher Nolan entregando filmes do Batman com roteiros complexos e desenvolvimento profundo de personagens, ou mesmo filmes com conceitos complexos como A origem (Inception, 2010), Dunkirk pode parecer um longa incompleto, sem nexo. Mas não se engane: o protagonista aqui é a própria guerra enfrentada pelos personagens. Dunkirk é cinema puro: no som e na imagem. O ideal é assisti-lo com uma tela e sistema de sons à altura, para que a experiência seja completa e você se sinta, mesmo que por menos de duas horas, dentro de uma guerra. Terrível.

Leia a resenha do filme aqui.

O filme da minha vida

2017, dirigido por: Selton Mello

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Pôster: Vitrine Filmes, 2017

Está na hora de você parar com essa bobagem de que filme nacional é uma porcaria. Claro que muitos filmes produzidos no nosso país nem merecem ser chamados de “filmes”, tamanha acefalia nos vários exemplos que vemos por aí. O filme da minha vida, porém, vem para tirar de vez essa impressão e, consequentemente, injustiça que praticamos contra o cinema pensado e produzido aqui. Seguindo a imensa qualidade de seu longa anterior, O palhaço (2011), o ator Selton Mello dirige aqui um regionalismo com maestria e serenidade. Destaque para a belíssima fotografia que evoca, em seu tom sépia, uma nostalgia doce, mas, ao mesmo tempo, dolorosa.

A chegada (Arrival)

2016, dirigido por: Denis Villeneuve

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Pôster: Empire Design, 2016

Aparentemente o canadense Denis Villeneuve não consegue fazer um filme ruim. Aqui, o diretor nos apresenta o que poderia ser mais um filme de invasão alienígena, não fosse pelo fato de A chegada não colocar a invasão em si em primeiro lugar; o foco, aqui, é a linguagem: como vamos nos comunicar com esses seres? E como é a linguagem deles? Todos os segredos e enigmas do filme giram em torno da linguagem. Obra-prima, incluindo sua trilha-sonora arrepiante.

Leia a resenha do filme aqui.

It: a coisa (It)

2017, dirigido por: Andy Muschietti

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Pôster: cold open, 2017

A produção de It remonta ao início da década. Mudança de diretores, roteiristas e por aí vai. O que parecia impossível acontecer devido às circunstâncias foi, talvez, a principal supresa positiva dentro do cinema blockbuster de 2017. Baseado em uma das consideradas obras-primas de Stephen King, It: a coisa é uma homenagem não apenas aos grandes monstros e fantasmas das histórias de terror, mas à infância em si. Equilibrando muito bem as doses de sustos e horror com os risos (voluntários ou não), It com toda a certeza foi a melhor opção de entretenimento no ano que passou. Finalmente valeu a pena esperar anos e anos por um filme sair do papel. Estamos ansiosos desde já para o próximo capítulo da história, previsto para 2019.

Leia a resenha do filme aqui.

E aqui há a resenha para o livro de Stephen King.

Moonlight: sob a luz do luar (Moonlight)

2016, dirigido por: Barry Jenkins

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Pôster: InSync Plus, 2016

Poético como versos doces ou música inspirada, arrebatador como um soco no rosto. Moonlight não apenas mereceu seu Oscar de Melhor Filme em 2017, era uma obrigação premiá-lo por sua coragem, sua narrativa fílmica exemplar e sua temática mais do que necessária. A discussão aqui não é apenas em relação aos LGBTs, mas também em relação aos negros e como eles – ainda, infelizmente – estão relegados às margens de nossa sociedade. Não espere por finais felizes.

Cena pós-créditos

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

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Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Sensação do final do ano, Me chame pelo seu nome está arrebatando críticos por todos os festivais em que passa. Queridinho das premiações agora no começo de 2018, o longa realmente não decepciona, seja por seu retrato fidedigno de um verão europeu rodeado por estudiosos, piscinas, praias e pêssegos saboreados de diversas formas, seja pela atuação monstra de Timothée Chalamet ao lado de Armie Hammer. Destaque também para as composições originais de Sufjan Stevens que permeiam o filme e ditam ainda mais o clima de primeiro-amor.

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Dunkirk

“Mikháilov virou-se para olhar: o ponto luminoso da bomba parecia ter parado em seu zênite – na posição em que é totalmente impossível determinar sua direção. Mas isso só durou um instante: a bomba vinha cada vez mais depressa, cada vez mais próxima, de tal modo que já eram visíveis as fagulhas de sua espoleta e se ouvia o assovio fatídico, que descia direto no meio do batalhão.

– Deitem! – gritou a mesma voz assustada.

Mikháilov caiu de barriga para baixo. Praskúkhin, num movimento involuntário, curvou-se até o chão e estreitou as pálpebras; só ouviu como a bomba se chocou na terra dura, em algum lugar bem perto. Passou um segundo que pareceu uma hora – a bomba não explodiu. Praskúkhin assustou-se: será que havia se amedrontado à toa? Talvez a bomba tivesse caído longe e ele tinha apenas a impressão de que o pavio chiava bem perto. Abriu os olhos e, com uma satisfação presunçosa, viu que Mikháilov, a quem devia doze rublos e meio, estava totalmente abaixado, estendido de bruços, juntinho de seus pés, imóvel, quase agarrado a ele. Nesse instante, seus olhos toparam com o pavio aceso da bomba, que rodava a um archin de distância.”

(“Sebastopol em maio”, de Liev Tolstói. In: Contos completos, tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.)

Logo nos primeiros minutos de Dunkirk (idem, 2017), as palavras de Liev Tolstói me vieram à cabeça. Apesar de confortável em minha poltrona, apesar da pipoca estalando entre os dentes e apesar da manteiga derretendo aos poucos na língua, meus olhos grudaram na grande tela enquanto o protagonista corria entre sons de tiros e a iminência cada vez mais forte e palpável de uma morte rápida e gratuita. Sim, Dunkirk pode parecer para alguns um filme desconexo e sem alma para os padrões de Christopher Nolan. Mas é preciso ser frio além do aceitável para não se sentir apreensivo com a tensão constante do longa-metragem mais recente do diretor de Batman: o cavaleiro das trevas (2008), A origem (2010) e Interestelar (2014).

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

É um filme sobre a guerra, afinal. Mas é um filme que prefere a visão subjetiva de quem se encontra em meio ao caos. A câmera de Nolan é, ao mesmo tempo, o correspondente de guerra responsável por nos noticiar de tudo (ou quase tudo) que acontece e também nossos olhos, que contemplam o horror inevitável, o nonsense coletivo. Estamos logo atrás dos ombros de Tommy (interpretado pelo estreante Fionn Whitehead), o primeiro de uma lista enxuta de personagens que passará pelos olhos do público. O silêncio impera de início, mas dali alguns instantes é quebrado abruptamente por sons de tiros e balas ricocheteando pelo cenário deserto de uma cidade qualquer. Sentir a oposição silêncio x som ao longo das quase duas horas de projeção parece ser, sem sombra de dúvida, a sensação de estar em um país em guerra.

E este é um filme quase mudo. Mudo no sentido de diálogos, mas mudo também em relação a uma história propriamente dita. Aos ávidos por roteiros redondos ou amplamente intricados – como os que Nolan e seu irmão usualmente escrevem -, haverá um gosto amargo ao longo de todo filme e, principalmente, quando os créditos finais começarem a aparecer na tela. Não é, apesar de tudo, um problema que afete a experiência em si. Assistir Dunkirk é, em primeiro lugar, testemunhar voos repletos de curvas e manobras sinuosas, bombas explodindo em direção aos nossos olhos em um efeito prático muito mais assustador do que o melhor 3D já criado, a claustrofobia forçada por situações e cenários hostis com a ação humana através da guerra.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Filmes, como ignorado por muitos, são, aliás, histórias contadas através de imagens, através de sons. Então a fotografia de Dunkirk faz questão de libertar soldados, mesmo que por alguns minutos, quando a câmera de Nolan se aproxima entre dois postes em um travelling lento, dando a impressão de que a distância entre eles alarga-se; após o corte, vemos os soldados correrem, vemos aviões se aproximarem ameaçadoramente, vemos bombas caindo do céu. Após tudo acontecer, a câmera agora afasta-se lentamente, em um travelling inverso, e os postes se estreitam, fechando novamente os soldados em suas existências miseráveis, sem esperanças. O mesmo irá ocorrer quase ao fim da projeção, quando a câmera se aproxima por trás do piloto Farrier (interpretado pelo constante colaborador de Nolan, Tom Hardy), um plano muito parecido com aquele que apresenta misteriosamente o Coringa de Batman enquanto este espera pelos comparsas chegarem em uma van. Com a silhueta cortada pelo contraste promovido pelas chamas à sua frente, Farrier observa de maneira suntuosa a obra de arte que criou, uma bela metáfora criada através do avião incendiado.

Muito deve também ao design de som um filme como esse. Alto o bastante para amedrontar o público em momentos certos, baixo também o suficiente para deixar os nervos à flor da pele enquanto se espera o próximo estrondo ou morte iminente, Dunkirk tem êxito em seus dois extremos sonoros pois complementa a imagem de maneira rítmica, fazendo com que a aproximação de um avião torne-se um frio latejante na espinha – inclusive é um eco que entoa o final de “In the flesh?”, de Pink Floyd) – e os tiros contra a lateral de metal de um barco furem também nossos tímpanos, abrindo ainda mais a ferida da tensão e deixando o sangue escorrer por ela.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Por fim, é preciso ressaltar a colcha de retalhos coerente que a montagem cria ao juntar três linhas narrativas com tempos diferentes (uma semana, um dia, uma hora), algo já visto em outros filmes do diretor, como em A origemO cavaleiro das trevas ressurge. Tal opção torna a aproximação entre público e personagens algo mais natural, já que não há diálogos expositivos que apresentem cada pessoa ali envolvida nas cenas, muito menos a necessidade do filme se explicar (menos logo no início, quando um pequeno texto contextualiza o público sobre o que Dunkirk representa dentro da Segunda Guerra Mundial).

Inspirado também pela bela trilha-sonora composta por outro constante colaborador de Nolan, Hans Zimmer, Dunkirk torna-se a experiência mais imersiva proposta por Christopher Nolan até então. Não há reviravoltas capciosas ao final como em Interestelar, não há dúvidas propostas por objetos rodando como em A origem. Mas há algo muito mais forte que em tempos de youtubers e Snapchat torna-se cada vez mais raro e, ao mesmo tempo, necessário: o fato de que é preciso experienciar o cinema, não apenas olhar para a tela como uma criança ou adolescente olha para a incrível e absolutamente inesperada rotação de um spinner é capaz de fazer.

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Pôster: Concept Arts, 2017

Dunkirk, escrito e dirigido por: Christopher Nolan.

Com: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Barry Keoghan, Mark Rylance, Tom Glynn-Carney, Tom Hardy, Jack Lowden, James D’Arcy, Cillian Murphy, Harry Styles, John Nolan, Michael Caine (voz).

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Batman vs Superman: a origem da justiça

Foi-se o tempo de filmes feitos para vender bonecos de super-heróis nas lojas de brinquedos. Apesar de ainda podermos comprá-los para embelezar nossas estantes e aumentar nosso ego, mostrando ao mundo o quanto somos fãs de personagens que tiveram seu (justo) reconhecimento a partir de revistas em quadrinhos ou graphic novels mundialmente aclamadas, as bases de fãs de cada herói continuam a crescer monstruosamente, exigindo adaptações cinematográficas mais elaboradas, mais profundas e mais detalhadas. Não que essas exigências sejam ruins; afinal, é mil vezes preferível assistir ao novo Batman vs Superman: a origem da justiça (Batman v Superman: dawn of justice, 2016) a um Batman despirocado dirigido por Joel Schumacher.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

E se o diretor Zack Snyder foi catapultado ao estrelato sem volta depois de seu 300 (idem, 2006), atingiu o apogeu com o irretocável Watchmen: o filme (Watchmen, 2009), mas, como todo humano, falhou em Sucker punch: mundo surreal (Sucker punch, 2011), agora é necessário parar e avaliar seu trabalho já com indícios autorais – que vêm surgindo de maneira distribuída ao longo de sua filmografia –, como o uso da câmera lenta para fins estéticos e a preferência por uma fotografia guiada pelos contrastes (claro e escuro, cores quentes e cores frias, etc). Tal autoria incorpora ao Batman vs Superman significados que vão além do que é literalmente mostrado em tela, como já na abertura, quando o filme mostra o passado de Bruce Wayne e a morte de seus pais – uma história recontada inúmeras vezes, nos quadrinhos e nos filmes, mas necessária como base dramática para o filme atual –, relacionando a queda do menino Bruce em um buraco profundo com as pérolas do colar da mãe que se espalham ao chão no momento de seu assassinato.

O tema da queda, inclusive, é algo que permeia todo o roteiro do filme, em um mundo repleto de heróis e antagonistas disputando os holofotes para a divulgação de sua verdade, não será incomum também que muitos destes acabem encontrando na queda (seja ela física, psicológica ou moral) um motivo para demonstrar seu verdadeiro eu ou para revelar uma compaixão até então ausente; é um jogo, afinal, de egos, com Batman considerando Superman uma ameaça à Terra e vice-versa, e se há um atrito poderoso aí, nada mais conveniente para aproveitadores perniciosos como Lex Luthor e seu senso de destruição psicológica (um traço acentuado pela atuação de Eisenberg – mais detalhes sobre isso nos próximos parágrafos) que haja uma pitada de caos para a destruição tornar-se maior e mais danosa a todos.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

O que nos leva às atuações de Henry Cavill e Ben Affleck: enquanto o Superman de Cavill continua demonstrando um bom equilíbrio entre a extrema bondade do herói idealizado romântico que o herói ajudou a cunhar nos quadrinhos e os momentos de verdadeira raiva e tristeza representados em um rosto tomado pela dor (mas sem derrubar uma lágrima, é claro), Ben Affleck surge não apenas para dar um reboot completo no Batman da dupla Nolan / Bale, mas também para conferir mais camadas sombrias ao herói, dando-lhe tempo e espaço para uma raiva explosiva e menos para o humor (que ainda existe, apesar de involuntário). A quebra – ou o início da queda de ambos, pensando no tema principal do longa – dá-se com Jesse Eisenberg e seu Lex Luthor, que poderá lembrar traços da atuação de Heath Ledger em Batman: o cavaleiro das trevas (The dark knight, 2008) pelas características de ambos os personagens, como a eminente loucura e o desejo pelo caos e anarquia disfarçados por um humor peculiar. E Eisenberg consegue dominar bem esse humor, deixando o público desconfortável e constrangido, ao mesmo tempo que demonstra gradações ameaçadoras, afinal, Luthor é um vilão – e dos bons, aquele que come quieto. Tem mais espaço para atuações boas? Tem sim: Gal Gadot foi uma aposta certeira do estúdio para encarnar a Mulher Maravilha, uma representante de peso do poder feminino extremamente necessária para equilibrar a saturação de testosterona que atinge níveis altos no clímax do filme.

A propósito, prepare os ouvidos para ouvir uma trilha sonora inspirada, principalmente para introduzir a Mulher Maravilha (ouça a faixa “Is she with you?” para sentir o clima): Hans Zimmer volta à franquia depois de seu trabalho em O homem de aço (Man of steel, 2013), com a mais do que bem-vinda ajuda de Junkie XL [responsável por nada mais que a música de Mad Max: estrada da fúria (Mad Max: fury road, 2015)], compondo temas sombrios, repletos de vozes, metais e batidas estridentes, dando espaço para violinos melancólicos e para a guitarra urgente de Junkie XL – que lembra, agradavelmente, o último Mad Max.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

Se há um contraponto em Batman vs Superman: a origem da justiça, é sua duração. No clímax, o público pode sentir um peso maior para acompanhar a história, que já se desenvolve de maneira densa desde o seu início – introduzir o tema da queda com a morte dos pais de Bruce Wayne não é lá a forma mais alegre de se começar um filme, convenhamos. Não é nada que irá comprometer de maneira irreparável a experiência, mas é algo a se pensar: o poder de síntese, além de demonstrar criatividade quando bem realizado, também traz certa elegância à ficção. Um pequeno pecado em meio a diversas virtudes, porém; o filme irá agradar os fãs e os que esperam por mais desdobramentos da franquia, deixando um enorme gancho para o futuro da Liga da Justiça, que é, inclusive, introduzido de maneira interessante, dentro da história, e não apenas jogado aleatoriamente – a Warner precisa competir com Os Vingadores, afinal. A partir de agora, é esperar por novos filmes e que eles estejam no mesmo patamar deste Batman vs Superman. Tendo a supervisão e produção de Christopher Nolan e a base dos roteiros de Chris Terrio e David S. Goyer, a franquia continuará em boas mãos, até, porém, encontrar sua própria queda. Se isso ocorrer, vamos torcer por um clímax tão bom quanto o de Dawn of justice – só que menos longo, por favor.

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Pôster: WORKS ADV, 2016

Batman v Superman: dawn of justice, dirigido por: Zack Snyder; escrito por: Chris Terrio e David S. Goyer (baseado nos personagens criados para os quadrinhos por Jerry Siegel, Joe Shuster, Bob Kane e Bill Finger).

Com: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Jesse Eisenberg, Jeremy Irons, Amy Adams, Laurence Fishburne, Holly Hunter, Diane Lane.

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Os 15 Melhores de 2014

Confesso que assisti muitos filmes bons em 2014. Prolongar muito a lista de melhores perderia o efeito, bem, de ser uma lista de fim de ano. Assim como no ano passado, não quero transformar minha lista em um ranking, sugerindo que filme x seja melhor que o filme y; por isso os filmes seguirão ordem alfabética para que você se sinta à vontade e escolha aquele que desejar para sua próxima sessão.

(Coloquei e tirei e coloquei novamente diversos filmes na lista. Mas o corte final é o que se segue)

Pôster: Ignition Print, 2013

12 Anos de Escravidão, 2013; dir: Steve McQueen

Sempre fico com o pé atrás com filmes demasiadamente comentados – ainda mais se for um indicado máximo ao Oscar e a todas aquelas premiações de começo de ano. Admito que não tinha muita curiosidade por 12 Anos de Escravidão, por isso assisti o filme sem expectativas. Mas não tem como: Steve McQueen não se acovarda diante da plateia e não toma atalhos para mostrar a realidade crua e aterradora da escravidão. Não apenas pela história, a obra também vale por seus detalhes técnicos e estéticos, dignos de uma boa discussão cinéfila.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Art Machine & Animal Logic, 2014

Uma Aventura LEGO, 2014; dir: Phil Lord, Christopher Miller

Se com a Pixar – e agora com o Disney Animation Studios – nós nos acostumamos a ver animações que pareciam cada vez mais voltadas para o público adulto, deixando para as crianças as piadas de humor físico e afins, foi uma surpresa boa e divertida assistir Uma Aventura LEGO logo no começo do ano. Repleto de referências à cultura pop e nerd, a animação não se prende a nenhum tipo de seriedade e – melhor – assume as características do universo Lego em todos os aspectos. Frenético, colorido e com piadas na medida certa, o filme veio para competir com as outras animações deste ano.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Ignition, 2014

Os Boxtrolls, 2014; dir: Graham Annable, Anthony Stacchi

O estúdio Laika, após ficar mundialmente conhecido por Coraline, voltou aos cinemas, este ano, com um filme que provavelmente irá agradar mais as crianças quando elas estiverem crescidas. Isso porque Os Boxtrolls, apesar de seu carisma em stopmotion e seus monstrengos simpáticos, possui temas incrivelmente sérios, críticos e que desferem tapas de luva de pelica a todo momento em sua plateia. Desde o 3D de imersão até a sua estética que causa estranheza, o filme merece ser não apenas assistido, mas apreciado – na infância e em outros momentos da vida.

Confira a resenha do filme aqui.

Boyhood (Pôster)

Boyhood: da infância à juventude, 2014; dir: Richard Linklater

A premissa de Boyhood é comum: acompanhar a vida de um garoto até a sua adolescência. O diretor Richard Linklater, no entanto, decidiu usar os mesmos atores e filmá-los ano a ano, conferindo uma experiência cinematográfica interessante e que com certeza levará muitas pessoas a se identificarem com as situações vividas pelo protagonista. Não vá com muitas expectativas, porém: o filme é bom e possui um elenco afinadíssimo, mas vale mais pela experiência do que por seu enredo.

Pôster:  InSync + BemisBalkind, 2014

Chef, 2014; dir: Jon Favreau

Não se entregando à tentação de se passar apenas por um food porn simplista, Chef faz questão de encucar em seu espectador diversas reflexões sobre a vida, principalmente sobre nossas escolhas profissionais e de que forma elas nos influenciam. Favreau conduz o filme de forma leve, além de estar cercado de atores que o deixam à vontade para se transformar em um chef que, aos poucos, aprende o valor da paternidade e de sua profissão.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: aSquared Design Group, 2013

Ela, 2013; dir: Spike Jonze

Spike Jonze conseguiu, de forma bela e onírica, criar uma história de amor entre um homem e uma máquina. Talvez o detalhe mais singelo de Ela não seja a voz melódica de Scarlett Johansson, mas a forma como Jonze conduz sua câmera, registrando uma paleta de cores quentes e um sorriso melancólico na magnífica interpretação de Joaquim Phoenix. Mas o filme não estanca as possibilidades em seu lado bonito; o agridoce de Ela também está nas consequências de um amor que une um ser humano e um sistema operacional que não possui vida real – apenas na cabeça do protagonista.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Garota Exemplar, 2014; dir: David Fincher

David Fincher discutiu mais uma vez com chefões de estúdio, mas seu esforço valeu cada segundo: Garota Exemplar não é só uma das melhores surpresas do ano (realmente esperava mais do filme como obra por causa de Fincher, e menos como história por causa de uma autora que não conhecia), como entrega uma das cenas mais chocantes e impactantes do cinema. É de sair da sessão abestalhado, inconformado e desnorteado com tudo o que se viu na tela da sala escura.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Ignition, 2014

Godzilla, 2014; dir: Gareth Edwards

Muita gente chiou com a nova versão de Godzilla. As reclamações foram vastas: o monstrengo demora para aparecer, muito falatório e pouca ação, filme muito escuro. Mas acredito que os fãs de longa data de Gojira mereciam um filme à altura da fama do monstro japonês, e o filme dirigido por Gareth Edwards cumpre, minimamente, com essa missão.

Confira a resenha do filme aqui.

The Grand Budapest Hotel (Pôster)

O Grande Hotel Budapeste, 2014; dir: Wes Anderson

A estética de Wes Anderson é para poucos. Muitas pessoas se incomodam com os enquadramentos metódicos do diretor e as disposições milimetricamente pensadas em cada frame de seus filmes. Mas O Grande Hotel Budapeste traz, além dos maneirismos já mais do que conhecidos de Anderson, uma história divertida, com personagens carismáticos e uma interessante homenagem metalinguística. O diretor, dessa vez, até ousa com cenas gráficas – e acredite, elas são para gerar humor.

Pôster: BLT Communications

Guardiões da Galáxia, 2014; dir: James Gunn

Não consigo me divertir com os filmes dedicados aos heróis da Marvel. Neste ano, porém, deixei meus princípios pessoais de lado e resolvi dar uma chance para Guardiões da Galáxia. E parece que escolhi bem minha estreia no universo Marvel. Carregado de referências aos anos 80, personagens carismáticos e totalmente desprendidos com qualquer tipo de seriedade, o filme ainda faz questão de ser conduzido por uma trilha sonora retrô, pop e dançante. Meio difícil não se deixar levar pelo grupo de heróis mais desajustado já visto no cinema.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Lacuna Filmes, 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, 2014; dir: Daniel Ribeiro

Esperado desde o lançamento do curta que lhe deu origem, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho encanta não só pela direção segura e pelo roteiro que não se rende a estereótipos baratos: o maior diferencial da obra é apresentar uma história de amor adolescente não defendendo a causa gay, mas usando-a como metáfora para passar a mensagem de que amar não enxerga cor, religião, sexo e etc. O protagonista ser cego só reforça essa mensagem mais do que bem vinda para todas as próximas gerações.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Mecanismo Films, 2013

O Homem Duplicado, 2014; dir: Dennis Villeneuve

Baseado no livro de José Saramago, o longa do diretor canadense não deixa nada mastigado para o espectador. Assistir O Homem Duplicado é tentar encontrar sentido em um emaranhado de sequências e metáforas construídas de forma magistral. A atuação precisa e surpreendente de Jake Gyllenhaal só adiciona mais camadas ao desafio.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Concept Arts 2014.

Interestelar, 2014; dir: Christopher Nolan

Interestelar já pode ser considerado o filme em que Christopher Nolan deixa de lado suas preferências cerebrais e engatinha em temas mais emocionais, refletindo, inclusive, sobre o maior deles: o amor. Ligado a isso, o diretor traz uma história que trata sobre o tempo. Em uma projeção que ainda conta com grandes atuações (olá, Matthew McConaughey), efeitos visuais e sonoros que deixam qualquer um vidrado em suas cenas, ainda há tempo para discutir teorias físicas modernas.

Confira a resenha do filme aqui.

Jeune et Jolie (Pôster)

Jovem e Bela, 2013; dir: François Ozon

O mérito do francês Jovem e Bela estar aqui é pelo diretor François Ozon não tratar a protagonista como vítima, mas sim como alguém que assume a prostituição como mera opção de trabalho. Seria curiosidade? Seria prazer? O fato de ser uma adolescente só adiciona mais tempero ao filme belamente fotografado. Leves comparações à Belle de jour são bem aceitas.

Pôster: BLT Communications

O Lobo de Wall Street, 2013; dir: Martin Scorsese

A ideia de assistir Leonardo DiCaprio interpretando um homem inescrupuloso que encontra um meio de ganhar milhões de dólares da maneira mais rápida e ilegal possível, gastando toda a grana com mulheres, sexo, drogas e coisas inimagináveis ao longo de um filme de três horas parece cansativo? Seria, talvez, se O Lobo de Wall Street não tivesse sido dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese. E o ritmo é acelerado além da conta: ao terminar o filme, a impressão é que nós, o público, participamos também de todas as loucuras do protagonista.

Confira a resenha do filme aqui.

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Filmes

Interestelar

Tempo.

Misterioso, desafiador, irreversível.

Amor.

Misterioso, desafiador, irreversível.

Há alguns anos, seria possível falar sobre as questões do tempo e suas implicações na filmografia de Christopher Nolan. A Origem (Inception, 2010) teve como escopo o sonho e suas transformações na realidade – e todas as dúvidas que surgiam a partir daí. O tempo também se configurava como vilão em alguns momentos da trilogia Batman. Mas se em O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) ele era mais um aliado do Coringa, pressionando o protagonista a fazer suas escolhas, agora o tempo transforma-se em algo muito mais aterrorizador, muito mais palpável. E toma esferas de significações para si de forma inerente: enquanto vilão para o piloto e engenheiro Cooper, assim como protagonista para o filme em si. O tempo, afinal, estica-se e comprime-se, mas nunca volta atrás.

E se os detratores das obras de Nolan usavam como principal argumento o fato do diretor e roteirista tratar seus personagens e as relações entre eles de forma altamente cerebral, realista, agora ele decide arriscar questionamentos e filosofias particulares logo no campo do amor, ironicamente em seu filme que irá retratar a dura e devastante realidade da Teoria da Relatividade. É um desafio, sem dúvida, conciliar aspectos tão opostos – a abstração e subjetividade de se falar sobre amor (e o que este é capaz de transformar na realidade de cada um) e a precisão e objetividade exigida pela ciência -, ainda mais quando estes polos serão postos em xeque, justamente por dois cientistas, em uma cena surpreendente para quem acompanha os filmes do diretor e entende que, em sua odisseia pessoal, Nolan está buscando expandir os horizontes de seus personagens não só de forma literal, ali, na tela, mas também de dentro para fora, expondo seus medos e receios para o público de forma que também passe pelas tormentas sentimentais de quem, enfim, ama.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Não será à toa, portanto, que iremos acompanhar escolhas estéticas que irão ressaltar esses aspectos emocionais. Quando a Dra. Brand (interpretada por Anne Hathaway), até então reclusa e mostrando-se neutra a contatos emocionais, decide discutir sobre o amor, Christopher Nolan posicionará sua câmera bem de frente, em uma longa tomada, fechando o plano em seu rosto de forma vagarosa e paciente, aumentando a dramaticidade e objetivando suas intenções: o foco, agora, é o que ela sente, e não o que ela calcula como probabilidade. Em contrapartida, seu interlocutor, Cooper (interpretado por Matthew McConaughey), merecerá apenas um plano comum, sem zoom, sem drama. É um primeiro passo para Nolan em tal campo, mas isso já demonstra uma preocupação em tornar os personagens em algo mais do que peças em um gigantesco xadrez narrativo.

E a sua narrativa continua tão boa quanto em anos anteriores. Valendo-se de uma montagem que aborda vários acontecimentos ao mesmo tempo e que consegue dar conta de todos, emulando uma sensação de harmonia entre os eventos, Interestelar possui elipses elegantes: na partida de Cooper para sua viagem espacial, vemos Matthew McConaughey dirigindo a camionete entre os milharais, afastando-se de sua casa e deixando a família para trás, enquanto ouvimos a contagem regressiva para o lançamento da nave, um recurso que economiza tempo e deixa a narrativa mais fluida para aqueles que ainda irão acompanhar mais de duas horas de diversos eventos, exposições científicas e consequências provenientes das leis da Física. O mesmo vale para uma cena em que Cooper sofre um grande impacto físico e, com um corte brutal, voltamos para a Terra, em meio a um incêndio nas plantações, como se ambos os momentos fossem resultados do tempo, mesmo a relatividade nos lembrando que cada personagem está em seu tempo particular.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

A montagem e seus eventos concomitantes lembrará o ritmo de Inception, o que cria um crescendo em Interestelar, deixando o público mais apreensivo a cada minuto restante de projeção. Essa tensão será pontuada pela inspiradíssima trilha sonora composta por Hans Zimmer, colaborador constante de Nolan, recheada de tique-taques, órgãos cavernosos e batidas metálicas. E se, em planos-gerais que contemplam a vastidão e, ao mesmo tempo, o vazio do espaço, Hans Zimmer irá tocar notas tímidas em seu piano, nos momentos de ação e impacto, o músico nocauteia o público com suas batidas estrondosas, acompanhadas de metais que preenchem tanto o filme, quanto a sala do cinema.

Nada, portanto, seria tão contemplativo e passível de admiração se os efeitos visuais de Interestelar não funcionassem em tela. Numa mescla de efeitos práticos com computação gráfica que Nolan sempre prezou em seus filmes (a realidade, por um lado, precisa ser retratada de forma objetiva mais aqui do que nas obras anteriores), o público poderá conhecer lugares inóspitos com suas belezas particulares – e o plano que mostra a nave Endurance girando sobre os anéis de Saturno demonstra e, ao mesmo tempo, resume a sensação de contemplação e medo diante da constatação de que, sim, somos terrivelmente pequenos e insignificantes diante de tantas coisas orbitando a galáxia, afirmação essa expressa de forma inteligente por um dos personagens do filme, batendo na parede metálica da nave e dizendo “milímetros disso aqui e, lá fora, milhões e milhões de quilômetros de nada que pode nos matar em segundos”.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Essa frase, inclusive, resume a principal angústia de Interstellar: somos seres que vivemos em um planeta perfeito, evoluído para nos abrigar e nos proporcionar uma existência aparentemente duradoura. Mas… até quando? Até que ponto seremos capazes de continuar aqui, protegidos por “milímetros” de gravidade diante de milhões e milhões de quilômetros de um vazio capaz de nos matar em segundos? E, se formos capazes de desbravar novos mundos, descobriremos algo devastador? Estamos a um passo de descobrir outros seres de outras galáxias? Ou nosso egocentrismo nato está correto quando afirmamos nossa solidão entre tantos planetas orbitando todo esse vazio?

E se você ainda não viu o filme, pare de ler agora e só volte depois de ter visto e, se possível, revisto Interestelar. Os próximos parágrafos estão repletos de SPOILERS.

Passeando por fóruns e seção de comentários após ver Interestelar pela primeira vez, observei muitas pessoas discutindo o filme e, principalmente, o seu final. Muitos, inclusive, estavam se gabando por ter premeditado a reviravolta principal do longa, entendendo que o “fantasma” de Murph, desde o início da projeção, era o próprio pai, Cooper. Vendo Interestelar pela segunda vez, pude notar que o roteiro realmente dá dicas, a todo instante, de que Cooper está, no futuro, mandando uma mensagem para a filha entender que ele não deve partir para a viagem espacial – daí os livros na estante da menina caírem e ela, espertamente, interpretar aquilo como uma mensagem criptografada em Morse e, após rápidos rabiscos, ver que os intervalos na estante soletram “STAY”, e que a legenda inteligentemente traduziu para “FICA”, errando na gramática, mas acertando na quantidade de letras necessárias para a sincronização com as falas dos personagens. A primeira dica, inclusive, vem logo depois de Cooper acordar de seu pesadelo, logo no início do filme, e a filha entrar no quarto perguntando “você é meu fantasma?”.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Essas mesmas pessoas que observei se auto-intitularem as donas da verdade da Física (e talvez da vida também, já que são incrivelmente inteligentes e maduras) em seus comentários repletos de “eu já sabia o que ia acontecer no final do filme” e “filme previsível, longo e chato”, talvez não perceberam que o paradoxo do tempo criado a partir do momento em que pensamos “mas se Cooper está no futuro mandando uma mensagem para a filha dizer para ele, no passado, não partir” surge porque Cooper, quando vai se despedir da filha e não cede a seus apelos aparentemente apenas infantis, não está no passado, e sim no presente. E, como o próprio personagem constata dentro do hipercubo que cria uma realidade tridimensional, os seres entendidos como extraterrestres são os próprios humanos, vivendo em um espaço-tempo localizado no futuro e que, precisando de um agente para entender e emitir essa mensagem, mandam Cooper para o espaço e, após adentrar o buraco negro, para o hipercubo onde as peças começam a se encaixar. A mensagem “STAY” enviada para Murph é um ato de medo e desespero do personagem, mas a mensagem codificada no ponteiro do relógio irá corrigir isso; as duas, portanto, servirão de esclarecimento para Murph já adulta e para seu consequente eureka! que irá ajudar a humanidade dentro e fora da Terra.

E, como a Dra. Brand afirma em sua confissão emocional, o tempo não volta, mas a gravidade pode ser utilizada como meio para alterações no espaço e, consequentemente, no tempo. Não somente ela, no entanto: Cooper consegue enviar as mensagens através da gravidade não para qualquer pessoa, mas para Murph, sua filha… era preciso de algo a mais para que isso se concretizasse, um vínculo, algo capaz de distorcer leis.

Amor.

Pôster: Concept Arts 2014.

Pôster: Concept Arts 2014.

Interstellar, dirigido por: Christopher Nolan; escrito por: Jonathan Nolan, Christopher Nolan.

Com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Mackenzie Foy, Jessica Chastain, Ellen Burstyn, Michael Caine.

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