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Batman vs Superman: a origem da justiça

Foi-se o tempo de filmes feitos para vender bonecos de super-heróis nas lojas de brinquedos. Apesar de ainda podermos comprá-los para embelezar nossas estantes e aumentar nosso ego, mostrando ao mundo o quanto somos fãs de personagens que tiveram seu (justo) reconhecimento a partir de revistas em quadrinhos ou graphic novels mundialmente aclamadas, as bases de fãs de cada herói continuam a crescer monstruosamente, exigindo adaptações cinematográficas mais elaboradas, mais profundas e mais detalhadas. Não que essas exigências sejam ruins; afinal, é mil vezes preferível assistir ao novo Batman vs Superman: a origem da justiça (Batman v Superman: dawn of justice, 2016) a um Batman despirocado dirigido por Joel Schumacher.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

E se o diretor Zack Snyder foi catapultado ao estrelato sem volta depois de seu 300 (idem, 2006), atingiu o apogeu com o irretocável Watchmen: o filme (Watchmen, 2009), mas, como todo humano, falhou em Sucker punch: mundo surreal (Sucker punch, 2011), agora é necessário parar e avaliar seu trabalho já com indícios autorais – que vêm surgindo de maneira distribuída ao longo de sua filmografia –, como o uso da câmera lenta para fins estéticos e a preferência por uma fotografia guiada pelos contrastes (claro e escuro, cores quentes e cores frias, etc). Tal autoria incorpora ao Batman vs Superman significados que vão além do que é literalmente mostrado em tela, como já na abertura, quando o filme mostra o passado de Bruce Wayne e a morte de seus pais – uma história recontada inúmeras vezes, nos quadrinhos e nos filmes, mas necessária como base dramática para o filme atual –, relacionando a queda do menino Bruce em um buraco profundo com as pérolas do colar da mãe que se espalham ao chão no momento de seu assassinato.

O tema da queda, inclusive, é algo que permeia todo o roteiro do filme, em um mundo repleto de heróis e antagonistas disputando os holofotes para a divulgação de sua verdade, não será incomum também que muitos destes acabem encontrando na queda (seja ela física, psicológica ou moral) um motivo para demonstrar seu verdadeiro eu ou para revelar uma compaixão até então ausente; é um jogo, afinal, de egos, com Batman considerando Superman uma ameaça à Terra e vice-versa, e se há um atrito poderoso aí, nada mais conveniente para aproveitadores perniciosos como Lex Luthor e seu senso de destruição psicológica (um traço acentuado pela atuação de Eisenberg – mais detalhes sobre isso nos próximos parágrafos) que haja uma pitada de caos para a destruição tornar-se maior e mais danosa a todos.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

O que nos leva às atuações de Henry Cavill e Ben Affleck: enquanto o Superman de Cavill continua demonstrando um bom equilíbrio entre a extrema bondade do herói idealizado romântico que o herói ajudou a cunhar nos quadrinhos e os momentos de verdadeira raiva e tristeza representados em um rosto tomado pela dor (mas sem derrubar uma lágrima, é claro), Ben Affleck surge não apenas para dar um reboot completo no Batman da dupla Nolan / Bale, mas também para conferir mais camadas sombrias ao herói, dando-lhe tempo e espaço para uma raiva explosiva e menos para o humor (que ainda existe, apesar de involuntário). A quebra – ou o início da queda de ambos, pensando no tema principal do longa – dá-se com Jesse Eisenberg e seu Lex Luthor, que poderá lembrar traços da atuação de Heath Ledger em Batman: o cavaleiro das trevas (The dark knight, 2008) pelas características de ambos os personagens, como a eminente loucura e o desejo pelo caos e anarquia disfarçados por um humor peculiar. E Eisenberg consegue dominar bem esse humor, deixando o público desconfortável e constrangido, ao mesmo tempo que demonstra gradações ameaçadoras, afinal, Luthor é um vilão – e dos bons, aquele que come quieto. Tem mais espaço para atuações boas? Tem sim: Gal Gadot foi uma aposta certeira do estúdio para encarnar a Mulher Maravilha, uma representante de peso do poder feminino extremamente necessária para equilibrar a saturação de testosterona que atinge níveis altos no clímax do filme.

A propósito, prepare os ouvidos para ouvir uma trilha sonora inspirada, principalmente para introduzir a Mulher Maravilha (ouça a faixa “Is she with you?” para sentir o clima): Hans Zimmer volta à franquia depois de seu trabalho em O homem de aço (Man of steel, 2013), com a mais do que bem-vinda ajuda de Junkie XL [responsável por nada mais que a música de Mad Max: estrada da fúria (Mad Max: fury road, 2015)], compondo temas sombrios, repletos de vozes, metais e batidas estridentes, dando espaço para violinos melancólicos e para a guitarra urgente de Junkie XL – que lembra, agradavelmente, o último Mad Max.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

Se há um contraponto em Batman vs Superman: a origem da justiça, é sua duração. No clímax, o público pode sentir um peso maior para acompanhar a história, que já se desenvolve de maneira densa desde o seu início – introduzir o tema da queda com a morte dos pais de Bruce Wayne não é lá a forma mais alegre de se começar um filme, convenhamos. Não é nada que irá comprometer de maneira irreparável a experiência, mas é algo a se pensar: o poder de síntese, além de demonstrar criatividade quando bem realizado, também traz certa elegância à ficção. Um pequeno pecado em meio a diversas virtudes, porém; o filme irá agradar os fãs e os que esperam por mais desdobramentos da franquia, deixando um enorme gancho para o futuro da Liga da Justiça, que é, inclusive, introduzido de maneira interessante, dentro da história, e não apenas jogado aleatoriamente – a Warner precisa competir com Os Vingadores, afinal. A partir de agora, é esperar por novos filmes e que eles estejam no mesmo patamar deste Batman vs Superman. Tendo a supervisão e produção de Christopher Nolan e a base dos roteiros de Chris Terrio e David S. Goyer, a franquia continuará em boas mãos, até, porém, encontrar sua própria queda. Se isso ocorrer, vamos torcer por um clímax tão bom quanto o de Dawn of justice – só que menos longo, por favor.

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Pôster: WORKS ADV, 2016

Batman v Superman: dawn of justice, dirigido por: Zack Snyder; escrito por: Chris Terrio e David S. Goyer (baseado nos personagens criados para os quadrinhos por Jerry Siegel, Joe Shuster, Bob Kane e Bill Finger).

Com: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Jesse Eisenberg, Jeremy Irons, Amy Adams, Laurence Fishburne, Holly Hunter, Diane Lane.

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Garota Exemplar

Entre todos os cinismos disparados por David Fincher em seus diversos filmes, Garota Exemplar (Gone Girl, 2014) talvez seja o filme que toma para si diferentes tipos de cinismos e os reúne, em um aglomerado de situações e complicações, deixando para o espectador a responsabilidade de fazer parte de um voyeurismo quase doentio, mas com toda a certeza arrebatador. É um desafio escrever sobre o filme não só contando com sua apurada e refinada parte técnica, mas também por possuir um roteiro afiado, surpreendente e revelador.

Muita gente vai dizer que é filme pretensioso, óbvio e decepcionante. É complicado também rotular Gone Girl com todos esses adjetivos pejorativos quando, após um tempo remoendo e refletindo sobre a última obra de Fincher, você entende que ela é, assumidamente, pretensiosa. Não por um esnobismo próprio e gratuito, mas pela história criada pela americana Gillian Flynn ser um produto de nossos tempos, revelador de uma sociedade extremamente preocupada com a questão da imagem e de que forma ela pode colocar um indivíduo em um pedestal entre holofotes ou, com a mesma força e poder, derrubá-lo deste palco para soterrá-lo com acusações e baixarias. Afinal, as famigeradas selfies que poluem toda rede social atualmente seriam o quê? Humildade?

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Dessa forma, o primeiro choque recebido já está na primeira tomada do filme, uma simples e reveladora exposição formada por um close nos fios louros de Rosamund Pike, atriz britânica exigida por Fincher para que interpretasse Amy, uma das personagens mais intrigantes e instigantes da filmografia do diretor – e que talvez esteja no mesmo nível de complexidade psicológica de Lisbeth Salander, a anti-heroína mais hardcore e inescrupulosa já vista em uma refilmagem americana. Mas voltemos à tomada inicial de Garota Exemplar: a câmera segue dissecando Amy enquanto Nick, seu marido, surge na forma de narração em off, dizendo, em uma voz macia, que seu maior desejo é conhecer os segredos da esposa. Seria comum se a forma de dizer não fosse “gostaria de esmagar seu crânio e desenrolar seus pensamentos”.

Nick, afinal, será o objeto de manipulação tripla: das linhas do roteiro de Flynn, da câmera intrusa de Fincher e dos olhos e julgamento do espectador, aquele que entrará na sala de cinema já ressabiado e observando com cuidado cada movimento e ação de Nick. Não é à toa que David Fincher escolhe Ben Affleck e sua incapacidade – nesse caso, de forma positiva – de expressar o que sente diante de situações dramáticas. Nick é o personagem presente no tabuleiro de xadrez que se vê no meio de um quase xeque-mate e que precisa se defender, e sua neutralidade em meio a tantos acontecimentos estranhos irá colocá-lo em foco: fora Amy, o que Nick também omite? Se esmagássemos seu crânio, o que sairia de lá? O que seria preciso desenrolar?

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

A equipe altamente competente de Fincher, então, irá brincar com o mote da história (o desaparecimento de Amy), preparando créditos iniciais que desaparecem antes da plateia poder ler os nomes. As escolhas estéticas de David Fincher irão seguir pelo mesmo caminho, optando por fade in e fade out toda vez que a história exige uma transição, seja essa de espaço ou de tempo. A fotografia, essencialmente fria, torna-se mais ainda nos constantes flashbacks proporcionados pela narração (também em off) de Amy, recitando as linhas de seu diário. Sai, dessa maneira, o Fincher experimentalista de Quarto do Pânico e entra o diretor clínico, cínico; aquele que irá operar suas lentes desejando contar uma história manipulada que irá ser manipulada e que também manipulará. Une-se, ao fim, todo esse cuidado cinematográfico ao humor involuntário de Gillian Flynn e seu roteiro.

E esse humor vem de forma catártica, no último e revelador ato de Garota Exemplar. A partir desse ponto da história, o público é brindado com a brilhante atuação de Rosamund Pike, provável ganhadora de muitos prêmios nas cerimônias de 2015. E se, com ela, vemos uma explosão de dramaticidade – seja essa manipulada, seja essa manipuladora -, o oposto está na impassividade irritante de Ben Affleck e sua cara de peixe morto, opostos que se atrairão em algum momento, promovendo mais um estranhamento no espectador e adicionando mais tensão à trama. Uma tensão sublinhada pela excelente trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, com direito a um ápice na melhor, mais impactante e, por consequência, mais inacreditável cena de Gone Girl, deixando um espectador desacreditado no que vê lá do conforto de sua poltrona de cinema.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

O tempo, por fim, será o juiz definitivo para Garota Exemplar. Daqui a alguns anos ainda iremos discuti-lo? Nem penso em tocar no ponto “misoginia” aqui pois uma semana e alguns dias ainda não foram suficientes para me decidir se Fincher está brincando com o assunto, se está rindo da possibilidade ou se está realmente disposto a expor, em seu mais recente filme, que não só ele, mas toda uma sociedade pode construir e moldar a imagem de uma mulher… assim como destruí-la da forma mais inesperada. É estar preparado para o pior e ser pego de surpresa com algo mais arrebatador ainda.

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Gone Girl, dirigido por: David Fincher; escrito por: Gillian Flynn (baseado em sua obra, Garota Exemplar)

Com: Rosamund Pike, Ben Affleck, Neil Patrick Harris, Carrie Coon, Tyler Perry.

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