Stranger things 2

Séries

Se um dia a preocupação da TV tradicional era o advento dos serviços de streaming e a possibilidade do espectador escolher o que assistir e quando assistir, hoje já é possível notar um total rendimento ao formato consagrado principalmente pela Netflix: a série. Não é difícil de observar, por exemplo, uma recorrência maior de mudanças em novelas globais, por exemplo, como que uma transição entre o formato de folhetim clássico para o de uma história seriada, passando por alterações no ritmo da trama, aproveitamento da internet – conhecida, atualmente, como “segunda tela” – e até um tratamento mais fílmico na composição de imagens. A Netflix, inclusive, com o passar dos anos, passou de transmissora de conteúdo para produtora, e isso a estabeleceu como modelo a ser seguido.

Dentre seus sucessos de público e mercado, Stranger things  (idem, 2016) chegou no meio de 2016 para suprir a gana de um nicho de público ao mesmo tempo exigente e fiel. Representados de diversas maneiras ao longo da história da TV e também do cinema, os nerds tiveram a oportunidade de ouro de se refestelarem com a série, surtando com inúmeras referências à cultura pop dos anos 80. A fórmula, apesar de pronta para o sucesso, não é muito simples de seguir. Isso devido ao fato de, por ser justamente algo muito palatável ao olhar de diversos grupos, Stranger things poderia dar errado de muitas formas (o elenco poderia afundar a série, o desenvolvimento de personagens poderia morrer ao longo da temporada ou a produção não ser à altura das expectativas geradas pela trama). No entanto, seu enorme sucesso acabou não apenas atingindo o objetivo da fórmula de sucesso, como gerou filhotes ainda mais perigosos: como manter a qualidade de uma primeira temporada redondinha sem decepcionar as expectativas do público.

MV5BM2ZiYjYzZjEtNWRiZS00NGUyLTg0YWQtNGZmMmU5NGFhNjY0XkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,887_AL_

Imagem: Netflix, 2017

Porque, assim como dito anteriormente, a série tem que atingir, em primeiro lugar, seu público cativo; passado por este crivo mais exigente, Stranger things ainda precisa almejar cair no gosto popular em massa, dando conta de não perder um público que passou a ser fiel após conferir a qualidade da primeira temporada. Assim, além de dar continuidade a uma história que desenvolveu um enredo sem pontas soltas – a não ser por aquelas intencionalmente criadas ao fim da primeira temporada -, a série agora não é mais apenas uma aposta que deu certo e fez enorme sucesso, ela representa uma história que já marcou uma geração de espectadores e, dessa forma, precisa contemplá-los cada vez mais positivamente. É o preço a se pagar por arriscar-se através da fórmula “fácil” de sucesso.

Não que isso tenha se tornado um problema dentro da nova temporada. Tirando os tropeços em um determinado episódio – mais sobre isso ao longo do texto -, Stranger Things 2 (idem, 2017) consegue manter a qualidade de trama apresentada no ano passado, com a bem-vinda vantagem de separar um tempo de tela para o desenvolvimento de seus personagens. Assim, se o foco, anteriormente, era desesperar-se para fazer referências aos anos 80, em 2 as coisas ficam mais tranquilas nesse ponto e dá espaço para que Will, Mike, Dustin e Lucas possam brilhar aos poucos durante os nove episódios disponibilizados pela Netflix agora no final de outubro. Mais que isso, os irmãos Duffer, criadores, roteiristas e diretores da série, optam também pela introdução de novos personagens, o que dá um fôlego extra e uma sensação de frescor ao roteiro.

MV5BZWI4N2IwYWEtMGZkZC00NmE1LWI1YzgtOWZmYjY3MjkyODFjXkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,881_AL_

Imagem: Netflix, 2017

É nesse ponto que conhecemos Max (interpretada pela ótima Sadie Sink), aquela que vai se apresentar inicialmente como antagonista da trupe de protagonistas, mas que, aos poucos, passa a se revelar uma grata surpresa à série – uma necessidade de substituição à figura de Eleven (Millie Bobby Brown), relegada um pouco às sombras nesta temporada. Max e seu irmão, Billy (interpretado pelo Power Ranger Dacre Montgomery) – o antagonista humano – são os principais motores de Stranger Things 2, cada um trazendo mais força a seus respectivos núcleos de personagens, ela com os quatro garotos principais, ele com os estereótipos do ensino médio americano. A relação entre os dois atores, aliás, demonstram uma química em suas atuações muito benéfica, principalmente em relação às cenas encabeçadas por ambos, sempre com um viés mais dramático, tenso.

Pegando carona nesses novos fôlegos de elenco, Winona Ryder ainda consegue roubar todas as cenas que protagoniza, mantendo seu ar paranóico herdado da primeira temporada, como se já preconizasse os acontecimentos irrefreáveis deste novo momento. Ao seu lado, no entanto, nosso eterno Samwise Gamgee Sean Astin também vai protagonizar momentos-chave da segunda temporada ao interpretar um par romântico a princípio bobo e ingênuo demais, mas que, conforme os acontecimentos com o “enteado” Will vão se materializando, passa a representar a coragem que surge por meio de atitudes e ideias inesperadas e genuínas.

MV5BNTNmZmE3YjItNzFjMC00ZTcwLTk2NzYtZDY0NjJlNTEwM2ZlL2ltYWdlXkEyXkFqcGdeQXVyNjUwNzk3NDc@._V1_SX1777_CR0,0,1777,982_AL_

É possível esperar a mesma qualidade nas atuações do quarteto principal. Com maiores destaques nesta temporada para Gaten Matarazzo (que interpreta Dustin) e Caleb McLaughlin (intérprete de Lucas), Stranger things 2 passa a priorizar também seus outros personagens principais, dando a estes mais tempo em cena e, consequentemente, mais desenvolvimentos para seus personagens, o que só destaca ainda mais a competência dos jovens atores. O mesmo se aplica a Joe Keery (o responsável por Steve Harrington): inicialmente apresentado como o antagonista entre os jovens na primeira temporada, Steve agora é um personagem que acabou se desenvolvendo para o bem, contando como mais um aliado dos pré-adolescentes protagonistas. Seus percalços sentimentais com a namorada Nancy (Natalia Dyer) adicionam mais tempero ao aprofundamento do personagem, tornando-o mais humano e, dessa maneira, acarretando em um reconhecimento maior com o público.

O que nos leva à dicotomia Will / Eleven. Chamo aqui de dicotomia pois ambos os personagens estão ligados ao que ficou conhecido, ano passado, como “Mundo Invertido”. Enquanto Will (interpretado por Noah Schnapp) é o hospedeiro maligno desta temporada, Eleven mais uma vez precisará equilibrar tal fato com suas habilidades psíquicas e telecinéticas. E é nesse ponto que o roteiro de Stranger things 2 renega um pouco a presença da heroína. Ah, caso não tenha assistido à nova temporada, talvez, a partir deste ponto até final do parágrafo, alguns apontamentos poderão sugerir spoilers, portanto, siga por sua conta e risco. Decidindo por uma jornada do herói solitário, a série vai optar por isolar Eleven (com a desculpa da sociedade não poder vê-la ou conhecê-la, já que “as consequências para todos os envolvidos serão drásticas”) e transformá-la no messias particular de Hawkins aos poucos (por isso sua morte e ressurreição simbólicas ao longo de toda a temporada). E se me permite a continuidade da analogia religiosa, Eleven terá apenas um episódio dedicado totalmente a si – o sétimo da temporada -, um momento em que a heroína irá para seu deserto próprio refletir sobre sua existência, atos e decisões. Infelizmente é o episódio com menor potencial da temporada (e talvez o mais pobre, narrativamente falando, de toda a série), pois seu teor acaba destoando do restante dos capítulos, numa tentativa de sugerir referências a um treinamento jedi às avessas, algo que acaba não colando muito como resultado final.

MV5BMDkyODIwNmYtM2EwZC00ODk4LTljMmUtODI1ZDUyNDUwNDc4XkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,887_AL_

Porém, em compensação, ainda é possível conferir uma trilha sonora inspirada que não apenas estabelece o clima para diversas cenas, como também retoma um clima oitentista muito bem-vindo à série. Aliada à música, a direção de arte se expande aqui para dar vida a novos cenários, mesmo que dentro dos conhecidos desde a primeira temporada; apesar de pecar aqui e ali em sua computação gráfica, a arte empregada no novo vilão da vez (o Monstro das Sombras) compensa as falhas. É bom também divertir-se com as referências de coisas que ainda vão se desenrolar ao longo dos episódios, como o fliperama jogado pelos protagonistas logo no primeiro episódio  – Dig Dug), um jogo que sugere a escavação como forma de combate e salvação – e tal ideia perdurará até o final da temporada – ou a música escolhida especialmente para uma ocasião que envolve todos os protagonistas no último episódio (“Every breath you take”, The Police).

Há mais de um ano eu finalizei minha resenha para Stranger things afirmando que se a qualidade da série perdurasse conforme o passar do tempo, nada mais natural do que esperar por novas temporadas e mais desenvolvimento de tramas e personagens. Agora, porém, é preciso pôr um pouco o pé no freio: agora é o momento para pensarmos se ter inúmeras próximas temporadas será algo realmente benéfico para Stranger thingsStranger things 2 por enquanto está dando conta do recado. Vamos acompanhar de perto daqui para frente.

MV5BMjQ5ODIyODg5Ml5BMl5BanBnXkFtZTgwOTI4Njk5MzI@._V1_SY1000_CR0,0,668,1000_AL_

Pôster: Kyle Lambert, 2017

Stranger things 2, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Justin Doble, Jessie Dickson-Lopez, Kate Trefry; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy, Andrew Stanton, Rebecca Thomas.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Sean Astin, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Sadie Sink, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Dacre Montgomery, Paul Reiser, Linnea Berthelsen.

Anúncios

Os melhores filmes de 2016

Filmes, Listas

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

ex_machina

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

» resenha

rogue-one

Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

cafe-society

O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

» resenha

the-revenant

Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

the-hateful-eight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

julieta

Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

» resenha

the-witch

Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

o-menino-e-o-mundo

Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

» resenha

spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

aquarius

Stranger Things

Séries

Os anos 80 parecem uma época, ao mesmo tempo, tão distante e tão presente entre nós. Mesmo não tendo vivido na década, existe uma identificação tão forte por toda a sua cultura, seja essa produzida pela música, cinema, moda ou TV. Vamos a festas com temática oitentista, nos apaixonamos por clássicos contemporâneos de seu cinema criativo, nostálgico e, claro, também trash. Prova mais recente de todo esse apelo por tal momento histórico é Stranger things (idem, 2016), produção própria da Netflix responsável por todo um furor nas redes sociais desde sua estreia, no dia 15.

Os temas da série são mais do que batidos: retratados em um subúrbio americano, em uma escola e, mais ainda, numa época que trouxe para nós pérolas como E.T. – O extraterrestre (E.T. the extra-terrestrial, 1982) e, um pouco antes, Contatos Imediatos de terceiro grau (Close encounters of the third kind, 1977), Stranger things não se limita aos modelos e estereótipos. Desfila um monte deles durante seus poucos, mas ótimos e concisos oito episódios, é claro, apresentando logo de cara uma sequência digna de qualquer teoria da conspiração e passando por aquela festa adolescente em que o bonitão quer transar logo com a mocinha, enquanto a amiga antissocial vai, invariavelmente, se dar mal. Nesse amontoado de clichês e referências, os irmãos gêmeos Matt e Ross Duffer (creditados como The Duffer Brothers), criadores, roteiristas e diretores da maioria dos episódios, vão superar as expectativas criadas pela própria campanha de marketing realizada pela Netflix ao extrapolar os ânimos de um público cada vez mais sedento por séries bem produzidas e executadas. Stranger things não falha em nenhum destes quesitos, porém.

1

Imagem: Netflix, 2016

Trazendo à tona uma atriz competente, mas esquecida por Hollywood e cia ltda, Winona Ryder vai encabeçar a história interpretando a mãe de um garoto desaparecido logo no primeiro episódio (acalme-se, essa informação não foi um spoiler). Muito fácil de cair em maneirismos histéricos e trejeitos passíveis de avaliações ruins pelos críticos, a personagem Joyce Byers torna-se, a cada episódio, cada vez mais obcecada pela busca de seu caçula; Ryder, no entanto, confere uma autenticidade admirável com sua interpretação que varia entre o drama comedido e a explosão iminente de uma mãe pronta a arriscar qualquer coisa para ter o filho de volta a seus braços. É um alívio, inclusive, observar como uma boa produção, encabeçada por diretores e roteiristas competentes, além de uma empresa que acredita na história a ser contada, reflete de maneira positiva no trabalho do elenco, começando por Winona Ryder e passando, principalmente, pelo quarteto de pré-adolescentes, o verdadeiro grupo de protagonistas de Stranger things.

2

Imagem: Netflix, 2016

Encabeçado por Mike Wheeler (interpretado por Finn Wolfhard), Mestre de Jogo nas campanhas de Dungeons & Dragons jogadas pelos amigos, o grupo ainda conta com Dustin Henderson (Gaten Matarazzo), membro responsável pelas melhores falas nas cenas de discussões e que possui displasia cleidocraniana, uma síndrome responsável por atrasar o crescimento dos dentes permanentes – algo que, obviamente, vai torná-lo alvo de bullies e apelidos maldosos, e Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin), aquele que sempre chama a atenção dos demais para problemas que nem sempre estão visíveis, tornando-se o ponto de equilíbrio entre todos. Will Byers (interpretado por Noah Schnapp) logo deixa o grupo com seu desaparecimento, sendo “substituído” pela garota El (“abreviação para Eleven”), dona absoluta das melhores cenas de Stranger things, graças às características da personagem, mas principalmente devido à magnífica interpretação de Millie Bobby Brown. O quesito “interpretação”, aliás, é o ponto mais forte do quarteto de atores, precisando passar de nuances que exigem humor físico a momentos de intenso drama, com cenas preenchidas por discussões acaloradas ou conversas acompanhadas por dores e lágrimas caindo vagarosamente dos olhos.

3

Imagem: Netflix, 2016

A história não funcionaria tão bem, no entanto, se as boas interpretações parassem em seus protagonistas. Há ainda muito espaço para a inocente, mas interessante Nancy Wheeler (interpretada por Natalia Dyer), a irmã mais velha de Mike; o estranho e complexo Jonathan Byers (Charlie Heaton), irmão mais velho de Will; o chefe de polícia Jim Hopper (interpretado por David Harbour), contraponto necessário à histeria de Joyce, dono de um passado complicado, muito bem explorado e explicitado pelo roteiro da série. No meio de tantas personagens, a história dá conta de relacioná-los de maneira orgânica, apresentando cada um à sua maneira e a seu tempo, deixando ainda espaço para críticas rápidas, mas contundentes (“não sei se meus pais se amam, minha mãe se casou jovem, meu pai vinha de boa família, tinha dinheiro…”“querida, devemos confiar neles, é o nosso governo, eles só querem nosso bem”).

4

E se o elenco apresenta-se tão afinado, a história em si dará conta do restante ao atar tudo aquilo que um verdadeiro fã das narrativas oitentistas mais gosta em um mesmo nó: monstrengo que escapa do laboratório, cientistas fazendo pesquisas ultra-secretas, o grupo nerd que resolve investigar por conta, a briga tão esperada entre o mocinho e o rival babaca e por aí vai. Ainda há fôlego para referências imagéticas? Claro. A filha loirinha e caçula do casal Wheeler aproximando-se da parede, quase a tocando, lembrando a cena mais icônica de Poltergeist: o fenômeno (Poltergeist, 1982); Joyce e Jim entrando no mundo paralelo, ou no “mundo invertido”, descobrindo ovos gigantes à la Alien, o oitavo passageiro (Alien, 1979) e, por quê não?, assim como em Prometheus (idem, 2012) também. Sem contar a telecinese digna de uma Carrie, a estranha (Carrie, 1976), e tantas outras que lembram as mais horripilantes e, por consequência, melhores histórias de um Stephen King em seu melhor fôlego (saudades desse Stephen King…). Já está bom? Ainda não. Planos focando aquele personagem se escondendo do monstrengo vão te lembrar aquele Steven Spielberg aventuresco de Jurassic Park: o parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1993) que só recobrou seu fôlego no ótimo As aventuras de Tintim (The adventures of tintim, 2011); a trilha sonora, toda composta em sintetizadores que gritam anos 80, vão te dar arrepios ao lembrar do tema de John Carpenter para Halloween: a noite do terror (Halloween, 1978), além de estabelecer o clima logo na abertura, talvez a homenagem mais escancarada à década, com suas letras em neon vermelho e pequenos riscos de estática passando pela tela, como uma boa e velha TV que um dia foi responsável por formar gerações aficcionadas por jogos do Atari e embasbacadas com os efeitos mais mirabolantes do cinema proporcionados por aquele VHS alugado na locadora da esquina.

5

Se aliar uma história que consegue abranger tantas referências e modelos de personagens e histórias com uma boa produção parecia um artigo de luxo até tempos atrás, a Netflix parece provar que não é só possível, como muito rentável. Vamos esperar por mais temporadas de Stranger things? Se for para manter a qualidade irretocável desta, vamos sim, com muito afinco. A esperança, inclusive, é obversar que a empresa preza pela qualidade de suas séries – não à toa, recebeu mais de 50 indicações ao Emmy deste ano. Preparem-se: a festa nerd está apenas começando.

Pôster

Pôster: Netflix, 2016

Stranger things, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Jessie Nickson-Lopez, Justin Doble, Paul Dichter, Jessica Mecklenburg, Alison Tatlock; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Ross Partridge.

Procurando Dory

Filmes

A criança angustiada e emocianada dentro do cinema, em 2003, vendo Procurando Nemo (Finding Nemo), hoje cresceu. Somos adultos, pensamos como adultos e, talvez o principal, nos angustiamos como adultos. Nada mais natural do que esperar, com grande expectativa, a então anunciada continuação de um dos maiores sucessos da história do estúdio Pixar. E se o hype em torno do filme cresceu de maneira natural por todo o histórico envolvendo a agora franquia dos peixinhos de computação gráfica, a tendência para caçarmos defeitos e, inevitavelmente, comparar este Procurando Dory (Finding Dory, 2016) também é alta. Por um lado, é um jogo injusto tratar o novo filme de Andrew Stanton como “inferior”, pois o mais sensato é analisar ambas as obras em sua individualidade: Nemo já tem seu lugar entre os clássicos atuais, Dory talvez alcance o mesmo posto daqui um tempo. Por outro, Finding Dory tem os seus tropeços.

1

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Antes de mais nada, é preciso destacar um ponto forte da obra. Se pararmos para observar com cuidado alguns temas tratados ao longo dos anos pela Pixar, vamos nos deparar com a valorização da amizade em todos os Toy Story, a importância da organização em grupo em Vida de Inseto (A bug’s life, 1998), a inversão do conceito de “medo” em Monstros S. A. (Monsters inc., 2001) e, mais recentemente, em Divertida Mente (Inside out, 2015), o fato de não darmos a atenção devida a uma das emoções mais presentes em nossa vida: a tristeza. Em Procurando Dory não é diferente, temos ali a inclusão social presente desde o seu início, começando pelo desenvolvimento maior da história da protagonista e perpassando por demais criaturas, como a baleia Destiny e sua dificuldade para enxergar, ou o próprio polvo Hank, cuja história provavelmente a Disney irá explorar em uma continuação, já que a personagem possui camadas psicológicas mais profundas e não explícitas nesse filme.

Dado isso, pensemos na estrutura narrativa da animação: seja por uma possível busca por identificação de público, seja por manter-se em território seguro, os roteiristas Andrew Stanton e Victoria Strouse mantêm a mesma ordem de acontecimentos de Procurando Nemo, algo inclusive explicitado pelo próprio Marlin em vários momentos da projeção. Esse ponto pode incomodar nós, os adultos que cresceram ao lado de Nemo, Marlin, Dory e os peixes do aquário. Qual a novidade, nesse sentido, afinal? Para as novas gerações, porém, o filme é um prato cheio, repleto de sequências divertidas, ação e humor físico – a dona Disney precisa lucrar, no final das contas. Há, no entanto, algo muito curioso: em diversos momentos, Dory encontra-se sozinha, sentindo-se desesperada por ver-se sem amigos ou familiares por perto, olhando a esmo pela imensidão marinha e encontrando-se melancólica. Em tais momentos, a paleta de cores do filme torna-se fria, azulada ou esverdeada demais, muitas vezes também extremamente escura (algo que provavelmente predujicará sua experiência caso escolha ver o filme em 3D, uma opção desnecessária, como vem acontecendo cada vez mais).

4

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

O que me levou a refletir sobre duas coisas, a primeira causando a segunda: Procurando Dory, por baixo do verniz colorido, engraçado e feliz, tem suas camadas de sentimentos e emoções mais sérios, mais obscuros. Estes não são explícitos, jogados gratuitamente para o espectador, mas estão lá, sob a fachada desmiolada de Dory, por trás da carranca ranzinza e de humor involuntário de Marlin. Tais camadas resvalam em algo que está, infelizmente, muito presente na sociedade moderna: uma doença perniciosa chamada depressão. Posso ter levantada uma questão muito séria para um filme infantil? Creio que não tanto. Assim como a protagonista de Divertida Mente torna-se cada vez melancólica com a mudança de cidade, escola e amigos que precisa enfrentar, Dory vê-se dentro de uma centrífuga que mistura o total esquecimento com surtos de memória que, ao mesmo tempo, a fazem seguir em frente e perder-se no nada (ou nonada, como bem colocou Guimarães Rosa), nadando sem rumo e cobrando-se por não lembrar – uma qualidade exaltada, da maneira e no momento errados, por Marlin, o rei da sinceridade amargurada, do ressentimento com tudo e com todos e da paranoia constante.

2

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Aliás, acabamos constatando que Marlin é capaz de não aprender absolutamente nada sobre sua aventura passada (Procurando Dory está, dentro do tempo da narrativa, a um ano longe de Procurando Nemo – uma dilatação temporal que nos custou treze), pendendo sempre entre recusar-se a atender aos apelos da melhor amiga (imaginem se não fosse a melhor…) e acabando por decidir-se a auxiliá-la repentinamente, um vai-e-vem que não adiciona muita coisa ao filme, apenas alguns momentos de humor. É através dele, contudo, que iremos nos reencontrar rapidamente (bem rapidamente) com personagens do filme anterior – como a tartaruga Crush e tio Raia. Há, porém, um contrapeso nesse sentido com o próprio Nemo, ao sempre chamar a atenção do pai para falhas que este comete, tanto nas decisões que devem tomar, quanto em relação a Dory.

Um dos destaques do filme é Hank, o polvo de sete tentáculos e, como Dory faz questão de enfatizar, três corações. Com um humor vacilante entre o ranzinza e o dócil, Hank traz consigo as melhores sequências da animação, como quando decide ajudar Dory após um demorado trato entre as partes (a perda de memória recente de Dory dificulta bastante o processo) ou na extensa cena envolvendo um carrinho de bebê – provavelmente a melhor do filme. Dando apenas pistas de seu passado para o espectador mais atento, Hank visivelmente teve algum trauma envolvendo crianças, chegando ao ponto de preferir viver trancafiado em um aquário do que enfrentar o mar aberto – e quantos de nós não prefere o conforto de nossa cama a socializar com uma multidão? Essa é uma das poucas centelhas da verdadeira Pixar que aparece ao longo de Procurando Dory, uma perda que parece cada vez mais constante nas obras mais recentes do estúdio Há, ainda, espaço para participações boas, mas menores, como a de um ótimo leão-marinho chamado Geraldo, a mergulhão Becky e – pasmem – Marília Grabriela (como ela mesma – no original, é Sigourney Weaver).

5

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Procurando Dory, contudo, não é dispensável. Mesmo mantendo a estrutura narrativa de seu antecessor, o filme traz bons momentos que agradarão novos e antigos fãs. Seria bem melhor, é claro, se desenvolvesse de maneira mais incisiva seu lado mais profundo; entendo, porém, a decisão dos realizadores, seria necessário mais tempo e talvez isso mudaria completamente o clima do filme, deixando de lado uma das maiores qualidades do primeiro: mesmo dentro de adversidades, é possível rir sem peso na consciência. Nesse ínterim, inclusive, note como a personalidade de Dory é desenhada ainda mais quando Nemo enfatiza sua predisposição por fazer as coisas sem qualquer plano (“O que Dory faria? Ela simplesmente olharia a seu redor e faria a primeira coisa que desse em sua cabeça”), ao mesmo tempo que essa virtude torna-se seu principal “defeito”: o de saber esquecer de tudo e de todos tão bem. Uma verdade muito difícil de ouvir da boca de um amigo, mas algo que somente um amigo, mesmo que em um momento de raiva, poderia dizer de verdade.

3

Nota: se a qualidade em Procurando Dory caiu um pouco, o mesmo não se aplica ao curta-metragem da vez, intitulado Piper, projetado antes do filme. Não se esqueça de ficar até o final dos créditos, há uma ótima cena que conclui uma certa pendência…

Pôster

Pôster: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Finding Dory, dirigido por: Andrew Stanton; escrito por: Andrew Stanton e Victoria Strouser.
Originalmente com as vozes de: Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Ed O’Neill, Kaitlin Olson, Hayden Rolence, Ty Burrell, Diane Keaton, Eugene Levy, Idris Elba, Dominic West, Sigourney Weaver.

Mogli: o menino lobo

Filmes

Os primeiros acordes de “Jungle beat” começam a tocar logo no início de Mogli: o menino lobo (The jungle book, 2016), uma referência afetiva para qualquer criança que cresceu assistindo à animação clássica – a última supervisionada pessoalmente pelo próprio Walt Disney – de 1967, e tal música já é o suficiente para estabelecer o clima da nova versão, convidando a geração nova a conhecer as aventuras do menino criado entre os lobos e praticamente pegando no colo o adulto que um dia, lá atrás, ouviu-a pela primeira vez ao descobrir um dos filmes mais divertidos da casa do Mickey.

Não são apenas as referências, no entanto, que fazem dessa nova versão um filme interessante. O longa traz de volta ao foco uma das histórias publicadas em Os livros da selva (The jungle books), de Rudyard Kipling, um compilado que juntou as crônicas do autor, publicadas em revistas, a partir de 1894; o que o inglês nunca deve ter imaginado foi a possibilidade de seu personagem mais icônico, um dia, estrelar um filme live action – técnica que mistura atores reais com animação. A mistura, no caso, se dá com o ator Neel Sethi (que interpreta Mogli) e o restante das personagens, todas incorporadas através de criações digitais incrivelmente realistas.

image

Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

No comando de toda essa computação gráfica e um ator de carne e osso está Jon Favreau, diretor, entre tantos, dos dois primeiros Homem de ferro (Iron man, 2008 e Iron man 2, 2010) e do ótimo Chef (idem, 2014). Favreau parece não titubear diante de toda a tecnologia envolvida para dar vida a Mogli, apesar de usar câmeras trêmulas em diversas sequências de ação que comprometem um pouco a beleza da coreografia das personagens e a presença do cenário ao redor – muito belos, diga-se de passagem. Tem-se a toca dos lobos, envolvida por uma paleta de cores em tons pastéis, discretos (assim como tais animais ali são); as cascatas dentro da selva, outra referência direta ao clássico de 67; as planícies recobertas por uma relva alta e amarelada, muito propícia a ataques surpresa, entre muitos outros. É notável, inclusive, a forma como o cenário em torno de Mogli se alegra quando este encontra pela primeira vez o preguiçoso e golpista Balu, com flores aqui e ali brotando entre os arbustos, além do amarelo-âmbar reluzindo nos favos de mel cobiçados pelo urso. O mesmo se aplica à parte sombria e enevoada da selva dedicada a abrigar a cobra Kaa, muito mais ameaçadora nesta versão.

image

Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Com uma ambientação que parte dos cenários já estipulados no filme clássico, mas os extrapola de maneira positiva, o Mogli de Favreau também reapresenta personagens mais do que conhecidas pelo público – como os já citados Balu, o urso, e Kaa, a cobra –, muda algumas outras, como os elefantes, que possuíam diversas cenas na animação de Walt Disney e, neste, têm um ar mais austero, mais silencioso, além de simplesmente suprimir outras: é o caso do quarteto de abutres que, no filme original, serviram de homenagem aos Beatles (como esquecer da hilária cena com o “e então, qual é a jogada?”) e auxiliam de maneira importante na jornada do protagonista. Tais mudanças, no entanto, não comprometem o enredo, nem o ritmo do longa, fornecendo mais tempo para a caracterização do chipanzé Rei Louie, por exemplo, que aqui está mais ameaçador, cercado por uma escuridão perigosa.

É claro que os espectadores não vão deixar a projeção sem ouvir versões repaginadas – e agradáveis – de versos como “necessário, somente o necessário” e “eu sou o rei do balanço, e brasa eu vou mandar”, músicas estabelecidas através do tempo com o clássico de Disney e que, mesmo agora, dentro de um filme mais sério, mais “realista”, funcionam de maneira orgânica, dando um alívio para a plateia e, ao mesmo tempo, incluindo mais referências.

image

Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Outro ponto interessante é como Jon Favreau pensou em abordar a presença dos homens neste The jungle book. Se, no filme de 1967, Mogli repudiava a ideia de voltar para aldeia de homens, no novo longa ele se mostra menos agressivo a tal sugestão. A forma como sua história é contada, inclusive, através (literalmente) dos olhos da cobra Kaa, é uma das principais e mais belas cenas do filme, com transições muito bonitas (esteticamente falando) e fotografia contrastante – priorizando a luz do fogo e sombras projetadas contra a parede de uma caverna, muito significativas para a história.

image

Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Aos fãs, um suspiro de alívio; aos estreantes no mundo aventuresco de Mogli, um filme divertido, que não deixa de lado momentos de humor e se dá o direito de ter uma ou duas cenas de susto (podendo levar os espectadores a pularem de suas poltronas). Uma boa opção para crianças e adultos, Mogli: o menino lobo faz questão de fechar sua história com mais uma referência: o livro que deu origem ao filme, sobre um tecido azul, apresenta os créditos finais (a mesma cena do início da animação clássica); portanto, não saia da sala antes de vê-los.

image

Pôster: BLT Communications, LLC, 2016

The jungle book, dirigido por: Jon Favreau; escrito por: Justin Marks (baseado na obra Os livros da selva, escrito por Rudyard Kipling).
Com / vozes originais de: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Scarlett Johansson, Lupita Nyong’o, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, John Favreau, Sam Raimi.

Batman vs Superman: a origem da justiça

Filmes

Foi-se o tempo de filmes feitos para vender bonecos de super-heróis nas lojas de brinquedos. Apesar de ainda podermos comprá-los para embelezar nossas estantes e aumentar nosso ego, mostrando ao mundo o quanto somos fãs de personagens que tiveram seu (justo) reconhecimento a partir de revistas em quadrinhos ou graphic novels mundialmente aclamadas, as bases de fãs de cada herói continuam a crescer monstruosamente, exigindo adaptações cinematográficas mais elaboradas, mais profundas e mais detalhadas. Não que essas exigências sejam ruins; afinal, é mil vezes preferível assistir ao novo Batman vs Superman: a origem da justiça (Batman v Superman: dawn of justice, 2016) a um Batman despirocado dirigido por Joel Schumacher.

image

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

E se o diretor Zack Snyder foi catapultado ao estrelato sem volta depois de seu 300 (idem, 2006), atingiu o apogeu com o irretocável Watchmen: o filme (Watchmen, 2009), mas, como todo humano, falhou em Sucker punch: mundo surreal (Sucker punch, 2011), agora é necessário parar e avaliar seu trabalho já com indícios autorais – que vêm surgindo de maneira distribuída ao longo de sua filmografia –, como o uso da câmera lenta para fins estéticos e a preferência por uma fotografia guiada pelos contrastes (claro e escuro, cores quentes e cores frias, etc). Tal autoria incorpora ao Batman vs Superman significados que vão além do que é literalmente mostrado em tela, como já na abertura, quando o filme mostra o passado de Bruce Wayne e a morte de seus pais – uma história recontada inúmeras vezes, nos quadrinhos e nos filmes, mas necessária como base dramática para o filme atual –, relacionando a queda do menino Bruce em um buraco profundo com as pérolas do colar da mãe que se espalham ao chão no momento de seu assassinato.

O tema da queda, inclusive, é algo que permeia todo o roteiro do filme, em um mundo repleto de heróis e antagonistas disputando os holofotes para a divulgação de sua verdade, não será incomum também que muitos destes acabem encontrando na queda (seja ela física, psicológica ou moral) um motivo para demonstrar seu verdadeiro eu ou para revelar uma compaixão até então ausente; é um jogo, afinal, de egos, com Batman considerando Superman uma ameaça à Terra e vice-versa, e se há um atrito poderoso aí, nada mais conveniente para aproveitadores perniciosos como Lex Luthor e seu senso de destruição psicológica (um traço acentuado pela atuação de Eisenberg – mais detalhes sobre isso nos próximos parágrafos) que haja uma pitada de caos para a destruição tornar-se maior e mais danosa a todos.

image

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

O que nos leva às atuações de Henry Cavill e Ben Affleck: enquanto o Superman de Cavill continua demonstrando um bom equilíbrio entre a extrema bondade do herói idealizado romântico que o herói ajudou a cunhar nos quadrinhos e os momentos de verdadeira raiva e tristeza representados em um rosto tomado pela dor (mas sem derrubar uma lágrima, é claro), Ben Affleck surge não apenas para dar um reboot completo no Batman da dupla Nolan / Bale, mas também para conferir mais camadas sombrias ao herói, dando-lhe tempo e espaço para uma raiva explosiva e menos para o humor (que ainda existe, apesar de involuntário). A quebra – ou o início da queda de ambos, pensando no tema principal do longa – dá-se com Jesse Eisenberg e seu Lex Luthor, que poderá lembrar traços da atuação de Heath Ledger em Batman: o cavaleiro das trevas (The dark knight, 2008) pelas características de ambos os personagens, como a eminente loucura e o desejo pelo caos e anarquia disfarçados por um humor peculiar. E Eisenberg consegue dominar bem esse humor, deixando o público desconfortável e constrangido, ao mesmo tempo que demonstra gradações ameaçadoras, afinal, Luthor é um vilão – e dos bons, aquele que come quieto. Tem mais espaço para atuações boas? Tem sim: Gal Gadot foi uma aposta certeira do estúdio para encarnar a Mulher Maravilha, uma representante de peso do poder feminino extremamente necessária para equilibrar a saturação de testosterona que atinge níveis altos no clímax do filme.

A propósito, prepare os ouvidos para ouvir uma trilha sonora inspirada, principalmente para introduzir a Mulher Maravilha (ouça a faixa “Is she with you?” para sentir o clima): Hans Zimmer volta à franquia depois de seu trabalho em O homem de aço (Man of steel, 2013), com a mais do que bem-vinda ajuda de Junkie XL [responsável por nada mais que a música de Mad Max: estrada da fúria (Mad Max: fury road, 2015)], compondo temas sombrios, repletos de vozes, metais e batidas estridentes, dando espaço para violinos melancólicos e para a guitarra urgente de Junkie XL – que lembra, agradavelmente, o último Mad Max.

image

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

Se há um contraponto em Batman vs Superman: a origem da justiça, é sua duração. No clímax, o público pode sentir um peso maior para acompanhar a história, que já se desenvolve de maneira densa desde o seu início – introduzir o tema da queda com a morte dos pais de Bruce Wayne não é lá a forma mais alegre de se começar um filme, convenhamos. Não é nada que irá comprometer de maneira irreparável a experiência, mas é algo a se pensar: o poder de síntese, além de demonstrar criatividade quando bem realizado, também traz certa elegância à ficção. Um pequeno pecado em meio a diversas virtudes, porém; o filme irá agradar os fãs e os que esperam por mais desdobramentos da franquia, deixando um enorme gancho para o futuro da Liga da Justiça, que é, inclusive, introduzido de maneira interessante, dentro da história, e não apenas jogado aleatoriamente – a Warner precisa competir com Os Vingadores, afinal. A partir de agora, é esperar por novos filmes e que eles estejam no mesmo patamar deste Batman vs Superman. Tendo a supervisão e produção de Christopher Nolan e a base dos roteiros de Chris Terrio e David S. Goyer, a franquia continuará em boas mãos, até, porém, encontrar sua própria queda. Se isso ocorrer, vamos torcer por um clímax tão bom quanto o de Dawn of justice – só que menos longo, por favor.

image

Pôster: WORKS ADV, 2016

Batman v Superman: dawn of justice, dirigido por: Zack Snyder; escrito por: Chris Terrio e David S. Goyer (baseado nos personagens criados para os quadrinhos por Jerry Siegel, Joe Shuster, Bob Kane e Bill Finger).

Com: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Jesse Eisenberg, Jeremy Irons, Amy Adams, Laurence Fishburne, Holly Hunter, Diane Lane.

Star Wars: o despertar da força

Filmes

Em 1977, ninguém esperava assistir a um filme recheado com efeitos especiais, heróis e vilões lutando com a ajuda de “espadas” luminosas e dois robôs constantemente discutindo – e um deles, inclusive, não emitindo palavra alguma. Parecia que a proposta do jovem roteirista e diretor George Lucas seria realmente um tiro no escuro, tendendo para uma aposta com saldo negativo. Quase quarenta anos depois, Star Wars é uma das – senão a – franquias mais bem-sucedidas de todos os tempos, dando-se o luxo de voltar à vida com mais uma trilogia sendo preparada para o cinema.

Meu ponto, ao pensar em escrever um texto sobre o episódio lançado recentemente, Star wars: o despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), será analisar algumas questões que me incomodam atualmente; nem todas tem um sentido negativo, é claro, mas que, invariavelmente, colaboram para a perpetuação da saga nos cinemas e em todo o universo rentável possível.

Vamos ao filme em si, em primeiro lugar.

2

Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

O despertar da força é um filme divertido, sim. Traz sequências de ação muito bem dirigidas por J. J. Abrams (algumas, inclusive, se equiparam ou até transcendem àquelas vistas nos capítulos anteriores da saga), com direito a guinadas da câmera e um mise-en-scène bem preparado, não deixando o espectador perdido enquanto naves se perseguem e diversos disparos coloridos atravessam a tela de um lado a outro. Há também diálogos inspirados, com tempo para piadinhas bem colocadas, referências aos acontecimentos já registrados (“você disse um compactador de lixo?!“) e uma preparação de personagens para os próximos filmes da nova trilogia.

A fotografia também é algo a ser notado. Dan Mindel desenvolve um trabalho que se destaca, deixando os filmes anteriores para trás nesse ponto, já que George Lucas parece não se preocupar tanto com o significado das cores e o contraste entre claro e escuro – apesar de flertar com essas significações na trilogia nova, importando-se em registrar o jovem Anakin Skywalker entre as sombras enquanto adentra o lado negro da Força, por exemplo. A propósito, Mindel é um sujeito experiente, companheiro dos dois Star trek e um Missão impossível de J. J. Abrams, uma afinidade necessária ao entregar um filme tão importante para um grupo de fãs tão grande e atento quanto o de Star wars. Aqui, no entanto, Mindel vai além das obviedades, com seu ápice em uma determinada cena em que o vilão Kylo Ren e outro personagem conversam, em um ambiente predominantemente escuro, quando um facho de luz adentra através de uma abertura que ilumina o local ou quando Kylo Ren tem o rosto coberto por uma iluminação vermelha – enquanto o outro personagem não, evocando diversos símbolos em cena.

O despertar da força destaca-se também por seus efeitos práticos. J. J. Abrams acerta ao filmar em cenários e locações reais como em Abu Dhabi, Irlanda e até na Islândia e deixar de lado as telas verdes e seus cenários digitais. Há também uma quantidade bem grande de personagens manipulados por atores vestindo máscaras, assim como eram as espécies alienígenas que aparecem na trilogia original, excetuando-se a personagem Maz Kanata (criada em computação gráfica, com capturas de movimento a partir do rosto da atriz Lupita Nyong’o) e o vilão Líder Supremo Snoke (também criação digital, a partir dos movimentos de Andy Serkis, o eterno Gollum). Este, inclusive, causa um estranhamento devido a sua qualidade: entre tantos efeitos práticos, Snoke distancia-se ao mostrar-se como uma criatura completamente gerada em computador, lembrando as criações digitais de George Lucas para os episódios I, II e III, que não aparentavam verossimilhança. Já Maz (uma das melhores personagens do novo filme) é cativante o suficiente para nos enganar, parecendo mais real a cada frase dita ou trejeito realizado pela Lupita por trás da máscara de computação gráfica.

Por último, mas não menos importante, temos aqui dois protagonistas essenciais não apenas pelos papeis que desempenham na nova fase da saga, mas por serem uma mulher e um negro. Fugindo do estereótipo de que um herói precisa ser necessariamente um homem – forte e branco -, que irá salvar a mulher – fraca e também branca -, a heroína Rey (interpretada de forma segura pela estreante Daisy Ridey) faz questão de não dar a mão ao futuro amigo Finn enquanto foge de um perigo (“eu sei correr sem ter que dar a mão!“). Finn, por sua vez (interpretado pelo ótimo John Boyega), é responsável por movimentar a trama, além de ter um bom timing com humor.

Agora às questões.

4

Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

Analisando rapidamente, considero O despertar da força como uma mistura de Uma nova esperança, (A new hope, 1977) com A ameaça fantasma (The phantom menace, 1999). Não em termos de qualidade técnica, obviamente, mas em relação a dois pontos: sua estrutura narrativa, similar ao episódio IV da saga, e sua introdução de personagens, similar ao episódio I. Entendo que o novo filme precisa realizar duas coisas importantes tanto para a história da saga quanto para o lucro da Disney: juntar os fãs antigos ao apresentar personagens consagrados com as novas caras e, dessa forma, angariar mais fãs.

Não considero, por isso, que O despertar da força seja o melhor filme da saga. É um bom filme, repleto de elementos necessários a uma aventura digna de ser considerada Star wars. Mas, assim como em A ameaça fantasma, é preciso introduzir toda uma gama nova de personagens e suas histórias particulares; além disso, é necessário movimentar a trama com uma perspectiva – aqui, no caso, é a busca por Luke Skywalker e toda a subtrama que o levou a desaparecer – assim como era o futuro do próprio Luke em Uma nova esperança. Há, também, a necessidade de agregar personagens antigos e criar paralelos com os estreantes (se Luke era fielmente escudado por R2-D2, Rey também conta com a ajuda de um droide, BB8; se Darth Vader tinha Lorde Sidious como mentor do lado negro da Força, Kylo Ren conta com o treinamento do Líder Supremo Snoke e por aí vai…). Meu questionamento é: até que ponto essa reciclagem de personagens será benéfica para o desenvolvimento da nova trilogia?

A Disney, é claro, está faturando e vai faturar ainda muito mais. Investiu de maneira correta ao escolher um diretor competente naquilo que faz; teve a importante ajuda da produtora Kathleen Kennedy e contou com a presença de nomes de peso como Lawrence Kasdan no roteiro e os veteranos Harrison Ford e Carrie Fisher no elenco. Resta saber se, nos próximos filmes, veremos mais do que uma introdução a novos personagens. Que a Força esteja com todos nós.

Curiosidade: Daniel Craig interpreta um stormtrooper importante. Ah, e o nome dele é JB-007.

pôster

Pôster: LA, 2015

Star Wars: the force awakens, dirigido por: J. J. Abrams; escrito por: Lawrence Kasdan, J. J. Abrams e Michael Arndt.

Com: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridler, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Gwendoline Christie.

Divertida Mente

Filmes

Steve Jobs decidiu investir no sonho de John Lasseter quando viu que ele e sua equipe eram obcecados por detalhes na produção de seus pequenos filmes, assim como o fundador da Apple era com seus produtos. Com a ajuda monetária do manda-chuva da Maçã, a Pixar lançou-se no mercado com Toy Story (1995), lá nos anos 90. E o sucesso foi estrondoso. Lançamento após lançamento, o pequeno estúdio foi tomando proporções gigantescas, alimentando parcerias e discussões com outro gigante do ramo: a Disney. Nessa história de rivalidades, a velha estratégia do “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” acabou juntando ambas as empresas; afinal, é melhor dividir lucros do que perder para alguém que até outro dia sequer existia.

Talvez o principal elemento para tanto sucesso como o da Pixar vem de uma solução aparentemente simples, mas nem um pouco fácil: seus filmes, desde o início, prezam por contar histórias de pontos de vista distintos, inusitados. Temos o drama da existência a partir da visão de brinquedos em Toy Story; o sofrimento de viver sob um regime autoritário pelos olhos de formigas em Vida de Inseto (A Bug’s Life, 1998); a rotina exaustiva do trabalho dos monstros ao precisar assustar crianças do mundo todo em Monstros S. A. (Monsters Inc., 2001) e, uma das mais audaciosas (e belas) de todas, a apreciação e poesia da culinária por um… rato. Isso, um rato. Em Ratatouille (2007), a Pixar subverteu a ideia de que o animal visto como um dos mais nojentos pelo ser humano seria capaz de ajudar alguém na cozinha.

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

É claro que a filmografia de um diretor ou, no caso, um estúdio não é perfeita. A Pixar também criou pérolas (no mau sentido) como Carros (Cars, 2006) e Valente (Brave, 2012). É preciso aplaudir de pé os magos da computação gráfica comandados por Lasseter que criaram cada fio de cabelo da heroína Merida; mas é difícil suportar um filme tão… Disney como é Valente, com direito a cantorias sem fim e uma história bem batida. Se a Pixar fazia sucesso era justamente por se distanciar da fórmula Disney ao contar suas histórias, com as crianças rindo do humor físico e de personagens alívio-cômico em cada filme e seus pais se divertindo com as referências inteligentes a outros filmes. Sem contar que os roteiros do estúdio emocionam uma pessoa de qualquer idade, seja acompanhando a amizade improvável entre um senhor rabugento e um escoteiro pentelho ou admirando a beleza muda do amor entre um robô depressivo e uma máquina moderna, curvilínea e flat chamada EVA.

A boa notícia, porém, é que a Pixar parece ter retomado o espírito que tomou conta de boa parte de sua existência lançando agora seu mais novo longa: Divertida Mente (Inside Out, 2015). Aquela fórmula de contar uma história, qualquer que seja, através de uma ótica peculiar e emocionante é trazida de volta agora ao acompanharmos a rotina de uma garota de onze anos chamada Riley. A diferença, no entanto, é que, além de conhecermos para onde Riley e seus pais irão morar depois de uma mudança repentina, sua nova casa, sua nova escola, observamos tudo isso de dentro de sua cabeça. Sim, os astros principais de Divertida Mente são as emoções humanas: a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva e o Nojinho. E é por causa dessa ótica que o novo longa-metragem da Pixar parece tanto com a Pixar oldschool: está ali o humor físico para as crianças, mas também se faz presente a beleza da inventividade do roteiro ao ser mostrado cada “setor” da mente de Riley, com corredores labirínticos de lembranças, ilhas (literalmente) de personalidade, um trem (também literal) do pensamento e um local próprio para a produção de sonhos – e aí adivinhem: sim, claro, o lugar é um estúdio de cinema.

2

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

John Lasseter já admitiu diversas vezes que uma de suas grandes influências sempre foi o mestre animador japonês Hayao Miyazaki, responsável por nada menos que Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro, 1988), Princesa Mononoke (Mononoke-hime, 1997) e, seu mais famoso aqui no Ocidente, A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001). Essa influência é muito visível em Divertida Mente, principalmente porque o filme não preza por sequências frenéticas de ação, muito menos busca um humor barato a qualquer custo para ganhar a atenção do público infantil: o filme, logo de início, foca seus esforços na construção adequada da história. O roteiro apresenta personagens esféricas, completas, algo que já afugenta a perigosa possibilidade de se cair em protótipos, já que a intenção principal é mostrar a vida de uma menina através de suas emoções. Assim, a principal beleza de Divertida Mente é provar para o espectador que mesmo a Alegria sendo responsável pela, obviamente, alegria de Riley, ela pode – e muito -, aprender com a Tristeza. Essa personagem, inclusive, possui um dos arcos dramáticos mais poéticos do filme (é difícil não se emocionar com o pensamento de que nós, como seres humanos, precisamos também da tristeza).

E é assim, a partir de pequenos detalhes tanto imagéticos – a Pixar também continua sendo um estúdio que preza por detalhes técnicos, explodindo nossas visões com cenários muito bem construídos – quanto narrativos: em dado momento, há dois empregados responsáveis por apagar lembranças inúteis da mente de Riley escolhendo quais serão descartadas naquele dia; eles, então, decidem por eliminar os nomes das princesas Disney! E quando a Alegria tenta argumentar contra, não há motivos razoáveis para manter tais dados. Essa alfinetada soa tão apropriada para os dias atuais (ainda mais quando o próprio estúdio busca mudar a imagem de suas princesas como ocorreu no sucesso estrondoso de Frozen) como a piada mais do que bem-vinda sobre aqueles comerciais que insistem em tocar em replay em nossas cabeças. É de tudo isso que o público fã da Pixar sentia falta: a união entre a beleza técnica de uma animação gerada por computador com as peças encaixadas organicamente em um roteiro coeso, capaz de gerar riso e, ao mesmo tempo, lágrimas em um piscar de olhos, nunca soando maniqueísta.

3

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Se a tendência, daqui para frente, seguir esse ritmo apresentado em Divertida Mente, então é seguro afirmar que o estúdio voltou a andar sobre trilhos seguros e anda visitando estações boas do passado. Enquanto Carros apelava demais ao público infantil, apresentando até personagens caricatos (o campeão arrogante, o caipira humilde e engraçado e etc…), a Pixar de agora volta a desenvolver personagens que derrubam esses protótipos, demonstrando ser pessoas – ou, no caso, emoções – repletas de desdobramentos. Pois sim: as emoções também tem emoções, e é poético ver a Alegria chorando ao se encontrar em uma situação aparentemente sem saída ou a Tristeza dando um leve sorriso ao notar que, sim, ela também é útil, e bastante, para um ser humano. Seja ele uma menina de onze anos, um escoteiro pentelho ou um velho rabugento.

4

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Nota: o curta-metragem da vez que é exibido antes do filme chama-se Lava e também é poético, sensível e belo. Uma complementação muito agradável ao longa.

Pôster: BLT Communications, 2015

Pôster: BLT Communications, 2015

Inside Out, dirigido por: Pete Docter; escrito por: Pete Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley.

Originalmente com as vozes de: Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kalling, Kaitlyn Dias.

Jurassic World: o mundo dos dinossauros

Filmes

Se o deslumbramento era a primeira reação dos visitantes no primeiro Jurassic Park (1993), mesmo que esses visitantes fossem as cobaias – paleontólogos, cientistas e um advogado para completar o time -, essa sensação se intensifica agora, vinte e dois anos depois, com o parque jurássico realmente aberto ao público. A questão, no entanto, que vem a calhar, é se os responsáveis pelo empreendimento aprenderam com os erros do passado. Aparentemente, a resposta é positiva. O Jurassic Park agora é Jurassic World e, diariamente, recebe mais de vinte mil pessoas desejosas por dentes, garras e rugidos.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Assistir Jurassic World é um teste de nostalgia para aqueles que passaram a infância se emocionando com as aventuras dirigidas por Steven Spielberg lá nos idos dos anos 90. O novo filme da franquia traz à tona diversos momentos que remetem ao original: está lá a perseguição composta por velociraptors sedentos por criancinhas indefesas (alguém se lembra de uma certa cena em uma cozinha?), assim como uma angustiante sequência em que o dinossauro alfa da vez – uma criação louca de laboratório, claro – enclausura os irmãos dentro de uma redoma de vidro (retomar a cena de outros dois irmãos encurralados por um T-Rex em um jipe não é mera coincidência). Essas referências não soam forçadas, porém; são inclusões orgânicas à trama de Jurassic World, e funcionam bem nela.

Para sustentar a história, inclusive, o mocinho da vez é nada menos que Chris Pratt. Se a presença do ator é crucial para Guardiões da Galáxia, por exemplo, aqui ele encarna o treinador de animais (ou melhor, de dinossauros) Owen da forma mais Indiana Jones possível, com momentos para piadinhas, humor físico e atos de bravura, obviamente. Para dar equilíbrio, complementando as características da personagem, o roteiro escrito a oito mãos (sim, assustador, mas soa pior do que realmente é) traz a responsável pelo parque, Claire, interpretada por Bryce Dallas Howard. É interessante notar que, apesar de acompanhar diversos núcelos de acontecimentos durante a projeção, Howard mantém uma atuação que pode até parecer forçada, mecânica, no começo; mas é a parceria entre sua personagem com a de Pratt que faz as coisas caminharem bem, passando de momentos mais dramáticos para outros de puro humor, salpicados por diálogos e cenas de tensão. Enquanto um representa o olhar a favor dos animais do parque, a outra precisa equilibrar essa visão com a relação que mantém com o parque como empresa – sem dinheiro ele não existe, afinal.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Da mesma forma que Claire necessita criar uma relação com Owen, a moça precisa acompanhar a visita dos dois sobrinhos: Gray, o mais novo (interpretado por Ty Simpkins), e Zach, o maior (interpretado por Nick Robinson). Gray é a personagem da vez que sabe os nomes de todas as espécies de dinossauros, calculando até a quantidade de dentes necessária para se derrotar uma das bestas colossais, enquanto o irmão mais velho está mais interessado no celular e nos exemplares do sexo oposto que estão nas filas das atrações. Se no primeiro filme tínhamos irmãos sem a presença de figuras paternas, substituídas pelos paleontólogos, aqui vemos os pais… que estão em processo de divórcio. Claire, a tia, é a responsável por manter essa ligação familiar, tirando apenas o detalhe de que ela não vê os sobrinhos há sete anos.

O público, então, acompanha essas quebras de ligações entre as personagens. Quando se unem uns aos outros, é por forças maiores, como a fuga do dinossauro projetado em laboratório que tecnicamente não deveria escapar (ou melhor, não deveria existir) ou quando o buraco na cerca convida para um passeio clandestino que não vai, claramente, resultar em um bom negócio. Daí vem as cenas de ação do longa, bem dirigidas por Colin Trevorrow. O diretor varia entre tomadas aéreas e câmeras ágeis, ora agilizando na correria, ora aumentando a tensão e o suspense com planos-detalhes bem executados.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Uma questão a se pensar é sobre essa ânsia em querer tudo maior, melhor e mais barulhento tanto em relação ao público do parque, quanto do próprio empresário (interpretado por Irrfan Khan). Em vários momentos, Claire justifica a existência da fêmea Indominus rex dessa maneira: criamos esse dinossauro colossal e terrivelmente perigoso porque nossos visitantes são exigentes. Mas então é isso? O público quer sempre mais… e é só juntar com a ganância egocêntrica de uma empresa detentora de um laboratório de ponta para que dê certo? Obviamente o controle não existe, não importa quantos metros de altura as paredes de uma cerca têm ou se a tecnologia pode implantar um chip capaz de rastrear e dar choque no animal se ele transgredir limites. Como diria Ian Malcolm, talvez o melhor personagem de Jurassic Park: “a natureza sempre encontra um meio”. E esse meio pode não ser o mais bonzinho.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Jurassic World vai unir, de forma natural, essas questões éticas e um tanto mais profundas com um teor mais aventuresco, mais terror durante toda a trama. Há espaço para o deslumbramento em si (a cena do dinossauro aquático se alimentando de um tubarão em frente ao público é de encher os olhos), para a tensão (o Indominus rex perseguindo meio mundo durante todo o filme) e até para gags visuais (a pata da pomba no início da projeção). Para os saudosistas, há ainda tempo para relembrar velhos cenários tomados pela floresta – afinal, são vinte e dois anos – ao som de um piano triste tocando o tema composto por John Williams. É um filme que poderia levar a história para muitos erros (vide Jurassic Park III, 2001), mas que se mantém dentro de um roteiro seguro e de uma direção que não peca por excessos. Se há algo dispensável em Jurassic World é seu 3D, vergonhosamente convertido e unicamente caça-níquel. De resto, o filme é um belo convite para as novas gerações sedentas por tudo melhor, maior e mais barulhento. E bota barulho nisso.

Pôster: BOND, 2015

Pôster: BOND, 2015

Jurassic World, dirigido por: Colin Trevorrow; escrito por: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly.

Com: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Ty Simpkins, Nick Robinson, Irrfan Khan, Omar Sy, BD Wong.

Os 15 Melhores de 2014

Filmes, Listas

Confesso que assisti muitos filmes bons em 2014. Prolongar muito a lista de melhores perderia o efeito, bem, de ser uma lista de fim de ano. Assim como no ano passado, não quero transformar minha lista em um ranking, sugerindo que filme x seja melhor que o filme y; por isso os filmes seguirão ordem alfabética para que você se sinta à vontade e escolha aquele que desejar para sua próxima sessão.

(Coloquei e tirei e coloquei novamente diversos filmes na lista. Mas o corte final é o que se segue)

Pôster: Ignition Print, 2013

12 Anos de Escravidão, 2013; dir: Steve McQueen

Sempre fico com o pé atrás com filmes demasiadamente comentados – ainda mais se for um indicado máximo ao Oscar e a todas aquelas premiações de começo de ano. Admito que não tinha muita curiosidade por 12 Anos de Escravidão, por isso assisti o filme sem expectativas. Mas não tem como: Steve McQueen não se acovarda diante da plateia e não toma atalhos para mostrar a realidade crua e aterradora da escravidão. Não apenas pela história, a obra também vale por seus detalhes técnicos e estéticos, dignos de uma boa discussão cinéfila.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Art Machine & Animal Logic, 2014

Uma Aventura LEGO, 2014; dir: Phil Lord, Christopher Miller

Se com a Pixar – e agora com o Disney Animation Studios – nós nos acostumamos a ver animações que pareciam cada vez mais voltadas para o público adulto, deixando para as crianças as piadas de humor físico e afins, foi uma surpresa boa e divertida assistir Uma Aventura LEGO logo no começo do ano. Repleto de referências à cultura pop e nerd, a animação não se prende a nenhum tipo de seriedade e – melhor – assume as características do universo Lego em todos os aspectos. Frenético, colorido e com piadas na medida certa, o filme veio para competir com as outras animações deste ano.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Ignition, 2014

Os Boxtrolls, 2014; dir: Graham Annable, Anthony Stacchi

O estúdio Laika, após ficar mundialmente conhecido por Coraline, voltou aos cinemas, este ano, com um filme que provavelmente irá agradar mais as crianças quando elas estiverem crescidas. Isso porque Os Boxtrolls, apesar de seu carisma em stopmotion e seus monstrengos simpáticos, possui temas incrivelmente sérios, críticos e que desferem tapas de luva de pelica a todo momento em sua plateia. Desde o 3D de imersão até a sua estética que causa estranheza, o filme merece ser não apenas assistido, mas apreciado – na infância e em outros momentos da vida.

Confira a resenha do filme aqui.

Boyhood (Pôster)

Boyhood: da infância à juventude, 2014; dir: Richard Linklater

A premissa de Boyhood é comum: acompanhar a vida de um garoto até a sua adolescência. O diretor Richard Linklater, no entanto, decidiu usar os mesmos atores e filmá-los ano a ano, conferindo uma experiência cinematográfica interessante e que com certeza levará muitas pessoas a se identificarem com as situações vividas pelo protagonista. Não vá com muitas expectativas, porém: o filme é bom e possui um elenco afinadíssimo, mas vale mais pela experiência do que por seu enredo.

Pôster:  InSync + BemisBalkind, 2014

Chef, 2014; dir: Jon Favreau

Não se entregando à tentação de se passar apenas por um food porn simplista, Chef faz questão de encucar em seu espectador diversas reflexões sobre a vida, principalmente sobre nossas escolhas profissionais e de que forma elas nos influenciam. Favreau conduz o filme de forma leve, além de estar cercado de atores que o deixam à vontade para se transformar em um chef que, aos poucos, aprende o valor da paternidade e de sua profissão.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: aSquared Design Group, 2013

Ela, 2013; dir: Spike Jonze

Spike Jonze conseguiu, de forma bela e onírica, criar uma história de amor entre um homem e uma máquina. Talvez o detalhe mais singelo de Ela não seja a voz melódica de Scarlett Johansson, mas a forma como Jonze conduz sua câmera, registrando uma paleta de cores quentes e um sorriso melancólico na magnífica interpretação de Joaquim Phoenix. Mas o filme não estanca as possibilidades em seu lado bonito; o agridoce de Ela também está nas consequências de um amor que une um ser humano e um sistema operacional que não possui vida real – apenas na cabeça do protagonista.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Garota Exemplar, 2014; dir: David Fincher

David Fincher discutiu mais uma vez com chefões de estúdio, mas seu esforço valeu cada segundo: Garota Exemplar não é só uma das melhores surpresas do ano (realmente esperava mais do filme como obra por causa de Fincher, e menos como história por causa de uma autora que não conhecia), como entrega uma das cenas mais chocantes e impactantes do cinema. É de sair da sessão abestalhado, inconformado e desnorteado com tudo o que se viu na tela da sala escura.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Ignition, 2014

Godzilla, 2014; dir: Gareth Edwards

Muita gente chiou com a nova versão de Godzilla. As reclamações foram vastas: o monstrengo demora para aparecer, muito falatório e pouca ação, filme muito escuro. Mas acredito que os fãs de longa data de Gojira mereciam um filme à altura da fama do monstro japonês, e o filme dirigido por Gareth Edwards cumpre, minimamente, com essa missão.

Confira a resenha do filme aqui.

The Grand Budapest Hotel (Pôster)

O Grande Hotel Budapeste, 2014; dir: Wes Anderson

A estética de Wes Anderson é para poucos. Muitas pessoas se incomodam com os enquadramentos metódicos do diretor e as disposições milimetricamente pensadas em cada frame de seus filmes. Mas O Grande Hotel Budapeste traz, além dos maneirismos já mais do que conhecidos de Anderson, uma história divertida, com personagens carismáticos e uma interessante homenagem metalinguística. O diretor, dessa vez, até ousa com cenas gráficas – e acredite, elas são para gerar humor.

Pôster: BLT Communications

Guardiões da Galáxia, 2014; dir: James Gunn

Não consigo me divertir com os filmes dedicados aos heróis da Marvel. Neste ano, porém, deixei meus princípios pessoais de lado e resolvi dar uma chance para Guardiões da Galáxia. E parece que escolhi bem minha estreia no universo Marvel. Carregado de referências aos anos 80, personagens carismáticos e totalmente desprendidos com qualquer tipo de seriedade, o filme ainda faz questão de ser conduzido por uma trilha sonora retrô, pop e dançante. Meio difícil não se deixar levar pelo grupo de heróis mais desajustado já visto no cinema.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Lacuna Filmes, 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, 2014; dir: Daniel Ribeiro

Esperado desde o lançamento do curta que lhe deu origem, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho encanta não só pela direção segura e pelo roteiro que não se rende a estereótipos baratos: o maior diferencial da obra é apresentar uma história de amor adolescente não defendendo a causa gay, mas usando-a como metáfora para passar a mensagem de que amar não enxerga cor, religião, sexo e etc. O protagonista ser cego só reforça essa mensagem mais do que bem vinda para todas as próximas gerações.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Mecanismo Films, 2013

O Homem Duplicado, 2014; dir: Dennis Villeneuve

Baseado no livro de José Saramago, o longa do diretor canadense não deixa nada mastigado para o espectador. Assistir O Homem Duplicado é tentar encontrar sentido em um emaranhado de sequências e metáforas construídas de forma magistral. A atuação precisa e surpreendente de Jake Gyllenhaal só adiciona mais camadas ao desafio.

Confira a resenha do filme aqui.

Pôster: Concept Arts 2014.

Interestelar, 2014; dir: Christopher Nolan

Interestelar já pode ser considerado o filme em que Christopher Nolan deixa de lado suas preferências cerebrais e engatinha em temas mais emocionais, refletindo, inclusive, sobre o maior deles: o amor. Ligado a isso, o diretor traz uma história que trata sobre o tempo. Em uma projeção que ainda conta com grandes atuações (olá, Matthew McConaughey), efeitos visuais e sonoros que deixam qualquer um vidrado em suas cenas, ainda há tempo para discutir teorias físicas modernas.

Confira a resenha do filme aqui.

Jeune et Jolie (Pôster)

Jovem e Bela, 2013; dir: François Ozon

O mérito do francês Jovem e Bela estar aqui é pelo diretor François Ozon não tratar a protagonista como vítima, mas sim como alguém que assume a prostituição como mera opção de trabalho. Seria curiosidade? Seria prazer? O fato de ser uma adolescente só adiciona mais tempero ao filme belamente fotografado. Leves comparações à Belle de jour são bem aceitas.

Pôster: BLT Communications

O Lobo de Wall Street, 2013; dir: Martin Scorsese

A ideia de assistir Leonardo DiCaprio interpretando um homem inescrupuloso que encontra um meio de ganhar milhões de dólares da maneira mais rápida e ilegal possível, gastando toda a grana com mulheres, sexo, drogas e coisas inimagináveis ao longo de um filme de três horas parece cansativo? Seria, talvez, se O Lobo de Wall Street não tivesse sido dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese. E o ritmo é acelerado além da conta: ao terminar o filme, a impressão é que nós, o público, participamos também de todas as loucuras do protagonista.

Confira a resenha do filme aqui.