Filmes

Star Wars: os últimos jedi

Se você prestar bastante atenção, Os últimos jedi (Star Wars: the last jedi, 2017) possui uma tríade de personagens que representam muito bem seus vários tipos de fãs. Tem-se, ali, Luke Skywalker (interpretado por Mark Hamill), o que é análogo aos fãs mais exigentes – poderia chamá-los de babacas, em muitos casos, mas vamos imaginar que vivemos em um mundo ideal; tem-se, também, a heroína Rey (interpretada por Daisy Ridley), representante do fã empolgado, aquele que precisa, mais do que tudo, ver o que acontecerá caso o fã exigente concorde com suas propostas; e, por último, tem-se Kylo Ren (interpretado por Adam Driver), o fã que já cansou de todo o bê-a-bá dos filmes mais antigos e precisa urgentemente recomeçar com ares novos uma franquia que já dura assustadores 40 anos.

A sorte de Os últimos jedi foi ter caído nas mãos de Rian Johnson. Diretor de poucos filmes (apenas um despontou mais no meio hollywoodiano – Looper: assassinos do futuro) e, entre outros, do episódio que talvez gerou mais polêmica dentro da série Breaking bad (“Fly” – isso mesmo, o famigerado episódio da mosca), Johnson permaneceu com uma bomba-relógio em suas mãos por pelo menos dois anos desde a estreia bem sucedida de O despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), pois, além de dar continuidade a uma das sagas com mais fãs em sua base, o diretor precisava trazer ares novos, assim como Kylo Rey deseja, mais do que tudo, dentro desse Episódio VIII. E digo que o filme teve sorte ao cair nas mãos de Rian Johnson porque, sim, Os últimos jedi é um filme muito interessante, diga-se de passagem. E o que o torna mais interessante talvez seja a ousadia pontuada de Johnson (que também escreveu o roteiro); pontuada pois o oitavo episódio de Star Wars não é um filme com mudanças espetaculares de roteiro ou cheio de ameaças ao cânone de George Lucas: Johnson sabe em que terreno está pisando e vai adicionar elementos aqui e ali que mudam o tom dentro dessa nova trilogia, mas talvez sem que o público, no geral, perceba. A saber.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Apesar de presente também no filme anterior, o alívio cômico é mais endossado nesse. É um detalhe que pode não pesar muito na balança final de “coisas que prejudicaram ou ajudaram o novo Star Wars”, se você pensar com cuidado, mas não esqueçamos de seu princípio básico: a diversão. Ora, ainda estamos falando de um filme, em sua, de aventura. Envolve aspectos de sci-fi, obviamente, mas Star Wars não deve ser desclassificado como um bom e velho filme-pipoca. É claro que toda a proporção alcançada pela saga eclipsou essa característica tão esquecida nos filmes do gênero atuais. Lembro-me, inclusive, que o último mais agradável nesse sentido, a ponto de dar um fôlego mais do que bem-vindo à filmografia de Steven Spielberg foi em 2011, com Tintim. É um filme que abraça os conceitos do filme-aventura e cria sequências de ação de encher os olhos e, ao mesmo tempo, não deixa de lado a comicidade das situações ali presentes. Há momentos, em Os últimos jedi, que um determinado comentário, um certo trejeito em um personagem ou até mesmo humor físico são empregados para que a plateia se divirta. E isso não é um crime à nossa inteligência.

Se em O despertar da força não poderia faltar os flares característicos de J. J. Abrams dentro de sua fotografia, Os últimos jedi traz rimas visuais esteticamente muito bonitas. Mas não para apenas na estética, Rian Johnson e o diretor de fotografia Steve Yedlin (parceiro de Johnson em outros dois longas do diretor e também responsável pela fotografia da adaptação mais recente de Carrie: a estranha, 2013) empregam significados muito particulares em cada rima ou sobreplano. E o mais interessante: não são significados impossíveis ou “cults” demais para o grande público não entender; são casos como quando Rey encontra-se contra a câmera, sua silhueta recortada pelo cenário que a envolve, para, logo depois do corte, vermos Kylo Ren na mesma posição de câmera, quase que “substituindo” a personagem anterior, num contraste bonito esteticamente falando e, ao mesmo tempo, com grande significado para a história ali contada. Johnson também retoma elementos clássicos do cinema, como uma cena de grande tempestade quando as personagens presentes encontram-se em um embate, ou uma fotografia bem avermelhada para introduzir o vilão do filme.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Comentei ali em cima um pouco da característica aventuresca do filme a partir do humor e dos alívios cômicos. Mas The last jedi vai além do humor nesse sentido. Há grandes sequências de ação para agradar os fãs, sejam os mais exigentes ou os presentes apenas pela diversão; em destaque: a sequência inicial com o piloto Poe Dameron (interpretado por Oscar Isaac) e seu fiel amigo de lata BB-8 e a debandada protagonizada por Finn (interpretado por John Boyega) e uma das novas personagens Rose (interpretada por Kelly Marie Tran). Ambas as cenas mostram o poder de entretenimento que Star Wars ainda pode produzir com suas novas histórias, mas, além disso, provam que Johnson é um diretor ciente de seu público diversificado a partir da introdução da saga com The force awakens: é preciso mostrar o que o público mais antigo e conservador quer ver e, ao mesmo tempo, introduzir elementos novos ou esquecidos para que o público novo e “transgressor” saia da sessão satisfeito. Não é um equilíbrio fácil de se encontrar e, quando encontrado, acertá-lo de maneira interessante; mas, ao aliar tais elementos de aventura e, além disso, introduzir aos poucos novas personagens – além de Rose, temos agora a presença da Vice-Almirante Holdo (interpretada por Laura Dern, fazendo os corações dos fãs de Jurassic Park suspirarem) -, Rian Johnson consegue entregar um episódio que sustenta a responsabilidade de toda a exigência de diversas gerações de público.

Aos poucos, a Disney começa a realizar aquilo que o “fã-Kylo-Ren” deseja: o que ficou no passado, é pra deixar lá. Com respeito, é claro, mas ainda assim é melhor deixar no passado. Não é à toa seu grande investimento em histórias paralelas que preencham lacunas no universo Star Wars, trazendo diretores com um pegada um pouco mais indie em Rogue One, por exemplo, e seguindo a tática de entregar o primeiro episódio da nova trilogia (a introdução para novas gerações de fãs e, consequentemente, novos consumidores de Star Wars) para mãos mais seguras, passar o bastão para um diretor mais “ousado”, em termos, no episódio de transição e, lá no final da trilogia, voltar para o colo mais seguro. É um projeto de saga bem seguro, devemos admitir. Por enquanto, tudo corre dentro do esperado; mesmo para um episódio de transição, o que mais pode gerar problemas por não conter, em tese, nem o começo nem o final da história (é só lembrarmos de grandes exemplos, como As duas torres, 2002, e O baú da morte, 2005, além de outros episódios de transição fora de trilogias, como Harry Potter e o enigma do príncipe, 2009), Os últimos jedi agrada por não carregar o peso de ser uma transição, é um filme que não faz questão de vestir tal designação e, justamente por isso, funciona muito bem.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Em 2015, eu escrevi que restava saber se, para os próximos filmes, a Disney iria além da introdução de novos personagens. Parece que a Força ainda está com todos nós.

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Pôster: B O N D, 2017

Star Wars: the last jedi, escrito e dirigido por: Rian Johnson.

Com: Carrie Fisher, Mark Hamill, Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Joonas Suotamo

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Séries

Stranger things 2

Se um dia a preocupação da TV tradicional era o advento dos serviços de streaming e a possibilidade do espectador escolher o que assistir e quando assistir, hoje já é possível notar um total rendimento ao formato consagrado principalmente pela Netflix: a série. Não é difícil de observar, por exemplo, uma recorrência maior de mudanças em novelas globais, por exemplo, como que uma transição entre o formato de folhetim clássico para o de uma história seriada, passando por alterações no ritmo da trama, aproveitamento da internet – conhecida, atualmente, como “segunda tela” – e até um tratamento mais fílmico na composição de imagens. A Netflix, inclusive, com o passar dos anos, passou de transmissora de conteúdo para produtora, e isso a estabeleceu como modelo a ser seguido.

Dentre seus sucessos de público e mercado, Stranger things  (idem, 2016) chegou no meio de 2016 para suprir a gana de um nicho de público ao mesmo tempo exigente e fiel. Representados de diversas maneiras ao longo da história da TV e também do cinema, os nerds tiveram a oportunidade de ouro de se refestelarem com a série, surtando com inúmeras referências à cultura pop dos anos 80. A fórmula, apesar de pronta para o sucesso, não é muito simples de seguir. Isso devido ao fato de, por ser justamente algo muito palatável ao olhar de diversos grupos, Stranger things poderia dar errado de muitas formas (o elenco poderia afundar a série, o desenvolvimento de personagens poderia morrer ao longo da temporada ou a produção não ser à altura das expectativas geradas pela trama). No entanto, seu enorme sucesso acabou não apenas atingindo o objetivo da fórmula de sucesso, como gerou filhotes ainda mais perigosos: como manter a qualidade de uma primeira temporada redondinha sem decepcionar as expectativas do público.

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Imagem: Netflix, 2017

Porque, assim como dito anteriormente, a série tem que atingir, em primeiro lugar, seu público cativo; passado por este crivo mais exigente, Stranger things ainda precisa almejar cair no gosto popular em massa, dando conta de não perder um público que passou a ser fiel após conferir a qualidade da primeira temporada. Assim, além de dar continuidade a uma história que desenvolveu um enredo sem pontas soltas – a não ser por aquelas intencionalmente criadas ao fim da primeira temporada -, a série agora não é mais apenas uma aposta que deu certo e fez enorme sucesso, ela representa uma história que já marcou uma geração de espectadores e, dessa forma, precisa contemplá-los cada vez mais positivamente. É o preço a se pagar por arriscar-se através da fórmula “fácil” de sucesso.

Não que isso tenha se tornado um problema dentro da nova temporada. Tirando os tropeços em um determinado episódio – mais sobre isso ao longo do texto -, Stranger Things 2 (idem, 2017) consegue manter a qualidade de trama apresentada no ano passado, com a bem-vinda vantagem de separar um tempo de tela para o desenvolvimento de seus personagens. Assim, se o foco, anteriormente, era desesperar-se para fazer referências aos anos 80, em 2 as coisas ficam mais tranquilas nesse ponto e dá espaço para que Will, Mike, Dustin e Lucas possam brilhar aos poucos durante os nove episódios disponibilizados pela Netflix agora no final de outubro. Mais que isso, os irmãos Duffer, criadores, roteiristas e diretores da série, optam também pela introdução de novos personagens, o que dá um fôlego extra e uma sensação de frescor ao roteiro.

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Imagem: Netflix, 2017

É nesse ponto que conhecemos Max (interpretada pela ótima Sadie Sink), aquela que vai se apresentar inicialmente como antagonista da trupe de protagonistas, mas que, aos poucos, passa a se revelar uma grata surpresa à série – uma necessidade de substituição à figura de Eleven (Millie Bobby Brown), relegada um pouco às sombras nesta temporada. Max e seu irmão, Billy (interpretado pelo Power Ranger Dacre Montgomery) – o antagonista humano – são os principais motores de Stranger Things 2, cada um trazendo mais força a seus respectivos núcleos de personagens, ela com os quatro garotos principais, ele com os estereótipos do ensino médio americano. A relação entre os dois atores, aliás, demonstram uma química em suas atuações muito benéfica, principalmente em relação às cenas encabeçadas por ambos, sempre com um viés mais dramático, tenso.

Pegando carona nesses novos fôlegos de elenco, Winona Ryder ainda consegue roubar todas as cenas que protagoniza, mantendo seu ar paranóico herdado da primeira temporada, como se já preconizasse os acontecimentos irrefreáveis deste novo momento. Ao seu lado, no entanto, nosso eterno Samwise Gamgee Sean Astin também vai protagonizar momentos-chave da segunda temporada ao interpretar um par romântico a princípio bobo e ingênuo demais, mas que, conforme os acontecimentos com o “enteado” Will vão se materializando, passa a representar a coragem que surge por meio de atitudes e ideias inesperadas e genuínas.

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É possível esperar a mesma qualidade nas atuações do quarteto principal. Com maiores destaques nesta temporada para Gaten Matarazzo (que interpreta Dustin) e Caleb McLaughlin (intérprete de Lucas), Stranger things 2 passa a priorizar também seus outros personagens principais, dando a estes mais tempo em cena e, consequentemente, mais desenvolvimentos para seus personagens, o que só destaca ainda mais a competência dos jovens atores. O mesmo se aplica a Joe Keery (o responsável por Steve Harrington): inicialmente apresentado como o antagonista entre os jovens na primeira temporada, Steve agora é um personagem que acabou se desenvolvendo para o bem, contando como mais um aliado dos pré-adolescentes protagonistas. Seus percalços sentimentais com a namorada Nancy (Natalia Dyer) adicionam mais tempero ao aprofundamento do personagem, tornando-o mais humano e, dessa maneira, acarretando em um reconhecimento maior com o público.

O que nos leva à dicotomia Will / Eleven. Chamo aqui de dicotomia pois ambos os personagens estão ligados ao que ficou conhecido, ano passado, como “Mundo Invertido”. Enquanto Will (interpretado por Noah Schnapp) é o hospedeiro maligno desta temporada, Eleven mais uma vez precisará equilibrar tal fato com suas habilidades psíquicas e telecinéticas. E é nesse ponto que o roteiro de Stranger things 2 renega um pouco a presença da heroína. Ah, caso não tenha assistido à nova temporada, talvez, a partir deste ponto até final do parágrafo, alguns apontamentos poderão sugerir spoilers, portanto, siga por sua conta e risco. Decidindo por uma jornada do herói solitário, a série vai optar por isolar Eleven (com a desculpa da sociedade não poder vê-la ou conhecê-la, já que “as consequências para todos os envolvidos serão drásticas”) e transformá-la no messias particular de Hawkins aos poucos (por isso sua morte e ressurreição simbólicas ao longo de toda a temporada). E se me permite a continuidade da analogia religiosa, Eleven terá apenas um episódio dedicado totalmente a si – o sétimo da temporada -, um momento em que a heroína irá para seu deserto próprio refletir sobre sua existência, atos e decisões. Infelizmente é o episódio com menor potencial da temporada (e talvez o mais pobre, narrativamente falando, de toda a série), pois seu teor acaba destoando do restante dos capítulos, numa tentativa de sugerir referências a um treinamento jedi às avessas, algo que acaba não colando muito como resultado final.

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Porém, em compensação, ainda é possível conferir uma trilha sonora inspirada que não apenas estabelece o clima para diversas cenas, como também retoma um clima oitentista muito bem-vindo à série. Aliada à música, a direção de arte se expande aqui para dar vida a novos cenários, mesmo que dentro dos conhecidos desde a primeira temporada; apesar de pecar aqui e ali em sua computação gráfica, a arte empregada no novo vilão da vez (o Monstro das Sombras) compensa as falhas. É bom também divertir-se com as referências de coisas que ainda vão se desenrolar ao longo dos episódios, como o fliperama jogado pelos protagonistas logo no primeiro episódio  – Dig Dug), um jogo que sugere a escavação como forma de combate e salvação – e tal ideia perdurará até o final da temporada – ou a música escolhida especialmente para uma ocasião que envolve todos os protagonistas no último episódio (“Every breath you take”, The Police).

Há mais de um ano eu finalizei minha resenha para Stranger things afirmando que se a qualidade da série perdurasse conforme o passar do tempo, nada mais natural do que esperar por novas temporadas e mais desenvolvimento de tramas e personagens. Agora, porém, é preciso pôr um pouco o pé no freio: agora é o momento para pensarmos se ter inúmeras próximas temporadas será algo realmente benéfico para Stranger thingsStranger things 2 por enquanto está dando conta do recado. Vamos acompanhar de perto daqui para frente.

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Pôster: Kyle Lambert, 2017

Stranger things 2, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Justin Doble, Jessie Dickson-Lopez, Kate Trefry; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy, Andrew Stanton, Rebecca Thomas.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Sean Astin, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Sadie Sink, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Dacre Montgomery, Paul Reiser, Linnea Berthelsen.

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Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2016

É hora de dizer: ano novo, lista nova.

Mas nesse ano resolvi mudar um pouco. Minha lista de melhores de 2016 tem 10 filmes, e eles estão dispostos em um ranking pessoal (e coloquei-os nas seguintes posições por diversos motivos, temática, execução, direção, roteiro, fotografia…). Nem todos os filmes listados aqui estrearam propriamente no Brasil ano passado, é bom enfatizar.

Se você está precisando de indicações de filmes para assistir, aqui vão dez dos que mais me agradaram no ano passado.

10º

Ex Machina: instinto artificial

dirigido por: Alex Garland

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Rogue One: uma história Star Wars

dirigido por: Gareth Edwards

» resenha

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Pôster: LA, 2016

Café Society

dirigido por: Woody Allen

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O Regresso

dirigido por: Alejandro González Iñárritu

» resenha

the-revenant

Os Oito Odiados

dirigido por: Quentin Tarantino

» resenha

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Julieta

dirigido por: Pedro Almodóvar

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Pôster: Barfutura, 2016

A Bruxa

dirigido por: Robert Eggers

» resenha

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Pôster: Gravillis Inc., 2016

O Menino e o Mundo

dirigido por: Alê Abreu

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Spotlight: segredos revelados

dirigido por: Tom McCarthy

» resenha

spotlight

Pôster: BLT Communications, LLC, 2015

Aquarius

dirigido por: Kleber Mendonça Filho

aquarius

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Séries

Stranger Things

Os anos 80 parecem uma época, ao mesmo tempo, tão distante e tão presente entre nós. Mesmo não tendo vivido na década, existe uma identificação tão forte por toda a sua cultura, seja essa produzida pela música, cinema, moda ou TV. Vamos a festas com temática oitentista, nos apaixonamos por clássicos contemporâneos de seu cinema criativo, nostálgico e, claro, também trash. Prova mais recente de todo esse apelo por tal momento histórico é Stranger things (idem, 2016), produção própria da Netflix responsável por todo um furor nas redes sociais desde sua estreia, no dia 15.

Os temas da série são mais do que batidos: retratados em um subúrbio americano, em uma escola e, mais ainda, numa época que trouxe para nós pérolas como E.T. – O extraterrestre (E.T. the extra-terrestrial, 1982) e, um pouco antes, Contatos Imediatos de terceiro grau (Close encounters of the third kind, 1977), Stranger things não se limita aos modelos e estereótipos. Desfila um monte deles durante seus poucos, mas ótimos e concisos oito episódios, é claro, apresentando logo de cara uma sequência digna de qualquer teoria da conspiração e passando por aquela festa adolescente em que o bonitão quer transar logo com a mocinha, enquanto a amiga antissocial vai, invariavelmente, se dar mal. Nesse amontoado de clichês e referências, os irmãos gêmeos Matt e Ross Duffer (creditados como The Duffer Brothers), criadores, roteiristas e diretores da maioria dos episódios, vão superar as expectativas criadas pela própria campanha de marketing realizada pela Netflix ao extrapolar os ânimos de um público cada vez mais sedento por séries bem produzidas e executadas. Stranger things não falha em nenhum destes quesitos, porém.

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Imagem: Netflix, 2016

Trazendo à tona uma atriz competente, mas esquecida por Hollywood e cia ltda, Winona Ryder vai encabeçar a história interpretando a mãe de um garoto desaparecido logo no primeiro episódio (acalme-se, essa informação não foi um spoiler). Muito fácil de cair em maneirismos histéricos e trejeitos passíveis de avaliações ruins pelos críticos, a personagem Joyce Byers torna-se, a cada episódio, cada vez mais obcecada pela busca de seu caçula; Ryder, no entanto, confere uma autenticidade admirável com sua interpretação que varia entre o drama comedido e a explosão iminente de uma mãe pronta a arriscar qualquer coisa para ter o filho de volta a seus braços. É um alívio, inclusive, observar como uma boa produção, encabeçada por diretores e roteiristas competentes, além de uma empresa que acredita na história a ser contada, reflete de maneira positiva no trabalho do elenco, começando por Winona Ryder e passando, principalmente, pelo quarteto de pré-adolescentes, o verdadeiro grupo de protagonistas de Stranger things.

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Imagem: Netflix, 2016

Encabeçado por Mike Wheeler (interpretado por Finn Wolfhard), Mestre de Jogo nas campanhas de Dungeons & Dragons jogadas pelos amigos, o grupo ainda conta com Dustin Henderson (Gaten Matarazzo), membro responsável pelas melhores falas nas cenas de discussões e que possui displasia cleidocraniana, uma síndrome responsável por atrasar o crescimento dos dentes permanentes – algo que, obviamente, vai torná-lo alvo de bullies e apelidos maldosos, e Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin), aquele que sempre chama a atenção dos demais para problemas que nem sempre estão visíveis, tornando-se o ponto de equilíbrio entre todos. Will Byers (interpretado por Noah Schnapp) logo deixa o grupo com seu desaparecimento, sendo “substituído” pela garota El (“abreviação para Eleven”), dona absoluta das melhores cenas de Stranger things, graças às características da personagem, mas principalmente devido à magnífica interpretação de Millie Bobby Brown. O quesito “interpretação”, aliás, é o ponto mais forte do quarteto de atores, precisando passar de nuances que exigem humor físico a momentos de intenso drama, com cenas preenchidas por discussões acaloradas ou conversas acompanhadas por dores e lágrimas caindo vagarosamente dos olhos.

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Imagem: Netflix, 2016

A história não funcionaria tão bem, no entanto, se as boas interpretações parassem em seus protagonistas. Há ainda muito espaço para a inocente, mas interessante Nancy Wheeler (interpretada por Natalia Dyer), a irmã mais velha de Mike; o estranho e complexo Jonathan Byers (Charlie Heaton), irmão mais velho de Will; o chefe de polícia Jim Hopper (interpretado por David Harbour), contraponto necessário à histeria de Joyce, dono de um passado complicado, muito bem explorado e explicitado pelo roteiro da série. No meio de tantas personagens, a história dá conta de relacioná-los de maneira orgânica, apresentando cada um à sua maneira e a seu tempo, deixando ainda espaço para críticas rápidas, mas contundentes (“não sei se meus pais se amam, minha mãe se casou jovem, meu pai vinha de boa família, tinha dinheiro…”“querida, devemos confiar neles, é o nosso governo, eles só querem nosso bem”).

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E se o elenco apresenta-se tão afinado, a história em si dará conta do restante ao atar tudo aquilo que um verdadeiro fã das narrativas oitentistas mais gosta em um mesmo nó: monstrengo que escapa do laboratório, cientistas fazendo pesquisas ultra-secretas, o grupo nerd que resolve investigar por conta, a briga tão esperada entre o mocinho e o rival babaca e por aí vai. Ainda há fôlego para referências imagéticas? Claro. A filha loirinha e caçula do casal Wheeler aproximando-se da parede, quase a tocando, lembrando a cena mais icônica de Poltergeist: o fenômeno (Poltergeist, 1982); Joyce e Jim entrando no mundo paralelo, ou no “mundo invertido”, descobrindo ovos gigantes à la Alien, o oitavo passageiro (Alien, 1979) e, por quê não?, assim como em Prometheus (idem, 2012) também. Sem contar a telecinese digna de uma Carrie, a estranha (Carrie, 1976), e tantas outras que lembram as mais horripilantes e, por consequência, melhores histórias de um Stephen King em seu melhor fôlego (saudades desse Stephen King…). Já está bom? Ainda não. Planos focando aquele personagem se escondendo do monstrengo vão te lembrar aquele Steven Spielberg aventuresco de Jurassic Park: o parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1993) que só recobrou seu fôlego no ótimo As aventuras de Tintim (The adventures of tintim, 2011); a trilha sonora, toda composta em sintetizadores que gritam anos 80, vão te dar arrepios ao lembrar do tema de John Carpenter para Halloween: a noite do terror (Halloween, 1978), além de estabelecer o clima logo na abertura, talvez a homenagem mais escancarada à década, com suas letras em neon vermelho e pequenos riscos de estática passando pela tela, como uma boa e velha TV que um dia foi responsável por formar gerações aficcionadas por jogos do Atari e embasbacadas com os efeitos mais mirabolantes do cinema proporcionados por aquele VHS alugado na locadora da esquina.

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Se aliar uma história que consegue abranger tantas referências e modelos de personagens e histórias com uma boa produção parecia um artigo de luxo até tempos atrás, a Netflix parece provar que não é só possível, como muito rentável. Vamos esperar por mais temporadas de Stranger things? Se for para manter a qualidade irretocável desta, vamos sim, com muito afinco. A esperança, inclusive, é obversar que a empresa preza pela qualidade de suas séries – não à toa, recebeu mais de 50 indicações ao Emmy deste ano. Preparem-se: a festa nerd está apenas começando.

Pôster

Pôster: Netflix, 2016

Stranger things, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Jessie Nickson-Lopez, Justin Doble, Paul Dichter, Jessica Mecklenburg, Alison Tatlock; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Ross Partridge.

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Filmes

Procurando Dory

A criança angustiada e emocianada dentro do cinema, em 2003, vendo Procurando Nemo (Finding Nemo), hoje cresceu. Somos adultos, pensamos como adultos e, talvez o principal, nos angustiamos como adultos. Nada mais natural do que esperar, com grande expectativa, a então anunciada continuação de um dos maiores sucessos da história do estúdio Pixar. E se o hype em torno do filme cresceu de maneira natural por todo o histórico envolvendo a agora franquia dos peixinhos de computação gráfica, a tendência para caçarmos defeitos e, inevitavelmente, comparar este Procurando Dory (Finding Dory, 2016) também é alta. Por um lado, é um jogo injusto tratar o novo filme de Andrew Stanton como “inferior”, pois o mais sensato é analisar ambas as obras em sua individualidade: Nemo já tem seu lugar entre os clássicos atuais, Dory talvez alcance o mesmo posto daqui um tempo. Por outro, Finding Dory tem os seus tropeços.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Antes de mais nada, é preciso destacar um ponto forte da obra. Se pararmos para observar com cuidado alguns temas tratados ao longo dos anos pela Pixar, vamos nos deparar com a valorização da amizade em todos os Toy Story, a importância da organização em grupo em Vida de Inseto (A bug’s life, 1998), a inversão do conceito de “medo” em Monstros S. A. (Monsters inc., 2001) e, mais recentemente, em Divertida Mente (Inside out, 2015), o fato de não darmos a atenção devida a uma das emoções mais presentes em nossa vida: a tristeza. Em Procurando Dory não é diferente, temos ali a inclusão social presente desde o seu início, começando pelo desenvolvimento maior da história da protagonista e perpassando por demais criaturas, como a baleia Destiny e sua dificuldade para enxergar, ou o próprio polvo Hank, cuja história provavelmente a Disney irá explorar em uma continuação, já que a personagem possui camadas psicológicas mais profundas e não explícitas nesse filme.

Dado isso, pensemos na estrutura narrativa da animação: seja por uma possível busca por identificação de público, seja por manter-se em território seguro, os roteiristas Andrew Stanton e Victoria Strouse mantêm a mesma ordem de acontecimentos de Procurando Nemo, algo inclusive explicitado pelo próprio Marlin em vários momentos da projeção. Esse ponto pode incomodar nós, os adultos que cresceram ao lado de Nemo, Marlin, Dory e os peixes do aquário. Qual a novidade, nesse sentido, afinal? Para as novas gerações, porém, o filme é um prato cheio, repleto de sequências divertidas, ação e humor físico – a dona Disney precisa lucrar, no final das contas. Há, no entanto, algo muito curioso: em diversos momentos, Dory encontra-se sozinha, sentindo-se desesperada por ver-se sem amigos ou familiares por perto, olhando a esmo pela imensidão marinha e encontrando-se melancólica. Em tais momentos, a paleta de cores do filme torna-se fria, azulada ou esverdeada demais, muitas vezes também extremamente escura (algo que provavelmente predujicará sua experiência caso escolha ver o filme em 3D, uma opção desnecessária, como vem acontecendo cada vez mais).

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

O que me levou a refletir sobre duas coisas, a primeira causando a segunda: Procurando Dory, por baixo do verniz colorido, engraçado e feliz, tem suas camadas de sentimentos e emoções mais sérios, mais obscuros. Estes não são explícitos, jogados gratuitamente para o espectador, mas estão lá, sob a fachada desmiolada de Dory, por trás da carranca ranzinza e de humor involuntário de Marlin. Tais camadas resvalam em algo que está, infelizmente, muito presente na sociedade moderna: uma doença perniciosa chamada depressão. Posso ter levantada uma questão muito séria para um filme infantil? Creio que não tanto. Assim como a protagonista de Divertida Mente torna-se cada vez melancólica com a mudança de cidade, escola e amigos que precisa enfrentar, Dory vê-se dentro de uma centrífuga que mistura o total esquecimento com surtos de memória que, ao mesmo tempo, a fazem seguir em frente e perder-se no nada (ou nonada, como bem colocou Guimarães Rosa), nadando sem rumo e cobrando-se por não lembrar – uma qualidade exaltada, da maneira e no momento errados, por Marlin, o rei da sinceridade amargurada, do ressentimento com tudo e com todos e da paranoia constante.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Aliás, acabamos constatando que Marlin é capaz de não aprender absolutamente nada sobre sua aventura passada (Procurando Dory está, dentro do tempo da narrativa, a um ano longe de Procurando Nemo – uma dilatação temporal que nos custou treze), pendendo sempre entre recusar-se a atender aos apelos da melhor amiga (imaginem se não fosse a melhor…) e acabando por decidir-se a auxiliá-la repentinamente, um vai-e-vem que não adiciona muita coisa ao filme, apenas alguns momentos de humor. É através dele, contudo, que iremos nos reencontrar rapidamente (bem rapidamente) com personagens do filme anterior – como a tartaruga Crush e tio Raia. Há, porém, um contrapeso nesse sentido com o próprio Nemo, ao sempre chamar a atenção do pai para falhas que este comete, tanto nas decisões que devem tomar, quanto em relação a Dory.

Um dos destaques do filme é Hank, o polvo de sete tentáculos e, como Dory faz questão de enfatizar, três corações. Com um humor vacilante entre o ranzinza e o dócil, Hank traz consigo as melhores sequências da animação, como quando decide ajudar Dory após um demorado trato entre as partes (a perda de memória recente de Dory dificulta bastante o processo) ou na extensa cena envolvendo um carrinho de bebê – provavelmente a melhor do filme. Dando apenas pistas de seu passado para o espectador mais atento, Hank visivelmente teve algum trauma envolvendo crianças, chegando ao ponto de preferir viver trancafiado em um aquário do que enfrentar o mar aberto – e quantos de nós não prefere o conforto de nossa cama a socializar com uma multidão? Essa é uma das poucas centelhas da verdadeira Pixar que aparece ao longo de Procurando Dory, uma perda que parece cada vez mais constante nas obras mais recentes do estúdio Há, ainda, espaço para participações boas, mas menores, como a de um ótimo leão-marinho chamado Geraldo, a mergulhão Becky e – pasmem – Marília Grabriela (como ela mesma – no original, é Sigourney Weaver).

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Procurando Dory, contudo, não é dispensável. Mesmo mantendo a estrutura narrativa de seu antecessor, o filme traz bons momentos que agradarão novos e antigos fãs. Seria bem melhor, é claro, se desenvolvesse de maneira mais incisiva seu lado mais profundo; entendo, porém, a decisão dos realizadores, seria necessário mais tempo e talvez isso mudaria completamente o clima do filme, deixando de lado uma das maiores qualidades do primeiro: mesmo dentro de adversidades, é possível rir sem peso na consciência. Nesse ínterim, inclusive, note como a personalidade de Dory é desenhada ainda mais quando Nemo enfatiza sua predisposição por fazer as coisas sem qualquer plano (“O que Dory faria? Ela simplesmente olharia a seu redor e faria a primeira coisa que desse em sua cabeça”), ao mesmo tempo que essa virtude torna-se seu principal “defeito”: o de saber esquecer de tudo e de todos tão bem. Uma verdade muito difícil de ouvir da boca de um amigo, mas algo que somente um amigo, mesmo que em um momento de raiva, poderia dizer de verdade.

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Nota: se a qualidade em Procurando Dory caiu um pouco, o mesmo não se aplica ao curta-metragem da vez, intitulado Piper, projetado antes do filme. Não se esqueça de ficar até o final dos créditos, há uma ótima cena que conclui uma certa pendência…

Pôster

Pôster: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Finding Dory, dirigido por: Andrew Stanton; escrito por: Andrew Stanton e Victoria Strouser.
Originalmente com as vozes de: Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Ed O’Neill, Kaitlin Olson, Hayden Rolence, Ty Burrell, Diane Keaton, Eugene Levy, Idris Elba, Dominic West, Sigourney Weaver.

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Filmes

Mogli: o menino lobo

Os primeiros acordes de “Jungle beat” começam a tocar logo no início de Mogli: o menino lobo (The jungle book, 2016), uma referência afetiva para qualquer criança que cresceu assistindo à animação clássica – a última supervisionada pessoalmente pelo próprio Walt Disney – de 1967, e tal música já é o suficiente para estabelecer o clima da nova versão, convidando a geração nova a conhecer as aventuras do menino criado entre os lobos e praticamente pegando no colo o adulto que um dia, lá atrás, ouviu-a pela primeira vez ao descobrir um dos filmes mais divertidos da casa do Mickey.

Não são apenas as referências, no entanto, que fazem dessa nova versão um filme interessante. O longa traz de volta ao foco uma das histórias publicadas em Os livros da selva (The jungle books), de Rudyard Kipling, um compilado que juntou as crônicas do autor, publicadas em revistas, a partir de 1894; o que o inglês nunca deve ter imaginado foi a possibilidade de seu personagem mais icônico, um dia, estrelar um filme live action – técnica que mistura atores reais com animação. A mistura, no caso, se dá com o ator Neel Sethi (que interpreta Mogli) e o restante das personagens, todas incorporadas através de criações digitais incrivelmente realistas.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

No comando de toda essa computação gráfica e um ator de carne e osso está Jon Favreau, diretor, entre tantos, dos dois primeiros Homem de ferro (Iron man, 2008 e Iron man 2, 2010) e do ótimo Chef (idem, 2014). Favreau parece não titubear diante de toda a tecnologia envolvida para dar vida a Mogli, apesar de usar câmeras trêmulas em diversas sequências de ação que comprometem um pouco a beleza da coreografia das personagens e a presença do cenário ao redor – muito belos, diga-se de passagem. Tem-se a toca dos lobos, envolvida por uma paleta de cores em tons pastéis, discretos (assim como tais animais ali são); as cascatas dentro da selva, outra referência direta ao clássico de 67; as planícies recobertas por uma relva alta e amarelada, muito propícia a ataques surpresa, entre muitos outros. É notável, inclusive, a forma como o cenário em torno de Mogli se alegra quando este encontra pela primeira vez o preguiçoso e golpista Balu, com flores aqui e ali brotando entre os arbustos, além do amarelo-âmbar reluzindo nos favos de mel cobiçados pelo urso. O mesmo se aplica à parte sombria e enevoada da selva dedicada a abrigar a cobra Kaa, muito mais ameaçadora nesta versão.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Com uma ambientação que parte dos cenários já estipulados no filme clássico, mas os extrapola de maneira positiva, o Mogli de Favreau também reapresenta personagens mais do que conhecidas pelo público – como os já citados Balu, o urso, e Kaa, a cobra –, muda algumas outras, como os elefantes, que possuíam diversas cenas na animação de Walt Disney e, neste, têm um ar mais austero, mais silencioso, além de simplesmente suprimir outras: é o caso do quarteto de abutres que, no filme original, serviram de homenagem aos Beatles (como esquecer da hilária cena com o “e então, qual é a jogada?”) e auxiliam de maneira importante na jornada do protagonista. Tais mudanças, no entanto, não comprometem o enredo, nem o ritmo do longa, fornecendo mais tempo para a caracterização do chipanzé Rei Louie, por exemplo, que aqui está mais ameaçador, cercado por uma escuridão perigosa.

É claro que os espectadores não vão deixar a projeção sem ouvir versões repaginadas – e agradáveis – de versos como “necessário, somente o necessário” e “eu sou o rei do balanço, e brasa eu vou mandar”, músicas estabelecidas através do tempo com o clássico de Disney e que, mesmo agora, dentro de um filme mais sério, mais “realista”, funcionam de maneira orgânica, dando um alívio para a plateia e, ao mesmo tempo, incluindo mais referências.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Outro ponto interessante é como Jon Favreau pensou em abordar a presença dos homens neste The jungle book. Se, no filme de 1967, Mogli repudiava a ideia de voltar para aldeia de homens, no novo longa ele se mostra menos agressivo a tal sugestão. A forma como sua história é contada, inclusive, através (literalmente) dos olhos da cobra Kaa, é uma das principais e mais belas cenas do filme, com transições muito bonitas (esteticamente falando) e fotografia contrastante – priorizando a luz do fogo e sombras projetadas contra a parede de uma caverna, muito significativas para a história.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Aos fãs, um suspiro de alívio; aos estreantes no mundo aventuresco de Mogli, um filme divertido, que não deixa de lado momentos de humor e se dá o direito de ter uma ou duas cenas de susto (podendo levar os espectadores a pularem de suas poltronas). Uma boa opção para crianças e adultos, Mogli: o menino lobo faz questão de fechar sua história com mais uma referência: o livro que deu origem ao filme, sobre um tecido azul, apresenta os créditos finais (a mesma cena do início da animação clássica); portanto, não saia da sala antes de vê-los.

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2016

The jungle book, dirigido por: Jon Favreau; escrito por: Justin Marks (baseado na obra Os livros da selva, escrito por Rudyard Kipling).
Com / vozes originais de: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Scarlett Johansson, Lupita Nyong’o, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, John Favreau, Sam Raimi.

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Filmes

Batman vs Superman: a origem da justiça

Foi-se o tempo de filmes feitos para vender bonecos de super-heróis nas lojas de brinquedos. Apesar de ainda podermos comprá-los para embelezar nossas estantes e aumentar nosso ego, mostrando ao mundo o quanto somos fãs de personagens que tiveram seu (justo) reconhecimento a partir de revistas em quadrinhos ou graphic novels mundialmente aclamadas, as bases de fãs de cada herói continuam a crescer monstruosamente, exigindo adaptações cinematográficas mais elaboradas, mais profundas e mais detalhadas. Não que essas exigências sejam ruins; afinal, é mil vezes preferível assistir ao novo Batman vs Superman: a origem da justiça (Batman v Superman: dawn of justice, 2016) a um Batman despirocado dirigido por Joel Schumacher.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

E se o diretor Zack Snyder foi catapultado ao estrelato sem volta depois de seu 300 (idem, 2006), atingiu o apogeu com o irretocável Watchmen: o filme (Watchmen, 2009), mas, como todo humano, falhou em Sucker punch: mundo surreal (Sucker punch, 2011), agora é necessário parar e avaliar seu trabalho já com indícios autorais – que vêm surgindo de maneira distribuída ao longo de sua filmografia –, como o uso da câmera lenta para fins estéticos e a preferência por uma fotografia guiada pelos contrastes (claro e escuro, cores quentes e cores frias, etc). Tal autoria incorpora ao Batman vs Superman significados que vão além do que é literalmente mostrado em tela, como já na abertura, quando o filme mostra o passado de Bruce Wayne e a morte de seus pais – uma história recontada inúmeras vezes, nos quadrinhos e nos filmes, mas necessária como base dramática para o filme atual –, relacionando a queda do menino Bruce em um buraco profundo com as pérolas do colar da mãe que se espalham ao chão no momento de seu assassinato.

O tema da queda, inclusive, é algo que permeia todo o roteiro do filme, em um mundo repleto de heróis e antagonistas disputando os holofotes para a divulgação de sua verdade, não será incomum também que muitos destes acabem encontrando na queda (seja ela física, psicológica ou moral) um motivo para demonstrar seu verdadeiro eu ou para revelar uma compaixão até então ausente; é um jogo, afinal, de egos, com Batman considerando Superman uma ameaça à Terra e vice-versa, e se há um atrito poderoso aí, nada mais conveniente para aproveitadores perniciosos como Lex Luthor e seu senso de destruição psicológica (um traço acentuado pela atuação de Eisenberg – mais detalhes sobre isso nos próximos parágrafos) que haja uma pitada de caos para a destruição tornar-se maior e mais danosa a todos.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

O que nos leva às atuações de Henry Cavill e Ben Affleck: enquanto o Superman de Cavill continua demonstrando um bom equilíbrio entre a extrema bondade do herói idealizado romântico que o herói ajudou a cunhar nos quadrinhos e os momentos de verdadeira raiva e tristeza representados em um rosto tomado pela dor (mas sem derrubar uma lágrima, é claro), Ben Affleck surge não apenas para dar um reboot completo no Batman da dupla Nolan / Bale, mas também para conferir mais camadas sombrias ao herói, dando-lhe tempo e espaço para uma raiva explosiva e menos para o humor (que ainda existe, apesar de involuntário). A quebra – ou o início da queda de ambos, pensando no tema principal do longa – dá-se com Jesse Eisenberg e seu Lex Luthor, que poderá lembrar traços da atuação de Heath Ledger em Batman: o cavaleiro das trevas (The dark knight, 2008) pelas características de ambos os personagens, como a eminente loucura e o desejo pelo caos e anarquia disfarçados por um humor peculiar. E Eisenberg consegue dominar bem esse humor, deixando o público desconfortável e constrangido, ao mesmo tempo que demonstra gradações ameaçadoras, afinal, Luthor é um vilão – e dos bons, aquele que come quieto. Tem mais espaço para atuações boas? Tem sim: Gal Gadot foi uma aposta certeira do estúdio para encarnar a Mulher Maravilha, uma representante de peso do poder feminino extremamente necessária para equilibrar a saturação de testosterona que atinge níveis altos no clímax do filme.

A propósito, prepare os ouvidos para ouvir uma trilha sonora inspirada, principalmente para introduzir a Mulher Maravilha (ouça a faixa “Is she with you?” para sentir o clima): Hans Zimmer volta à franquia depois de seu trabalho em O homem de aço (Man of steel, 2013), com a mais do que bem-vinda ajuda de Junkie XL [responsável por nada mais que a música de Mad Max: estrada da fúria (Mad Max: fury road, 2015)], compondo temas sombrios, repletos de vozes, metais e batidas estridentes, dando espaço para violinos melancólicos e para a guitarra urgente de Junkie XL – que lembra, agradavelmente, o último Mad Max.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2016

Se há um contraponto em Batman vs Superman: a origem da justiça, é sua duração. No clímax, o público pode sentir um peso maior para acompanhar a história, que já se desenvolve de maneira densa desde o seu início – introduzir o tema da queda com a morte dos pais de Bruce Wayne não é lá a forma mais alegre de se começar um filme, convenhamos. Não é nada que irá comprometer de maneira irreparável a experiência, mas é algo a se pensar: o poder de síntese, além de demonstrar criatividade quando bem realizado, também traz certa elegância à ficção. Um pequeno pecado em meio a diversas virtudes, porém; o filme irá agradar os fãs e os que esperam por mais desdobramentos da franquia, deixando um enorme gancho para o futuro da Liga da Justiça, que é, inclusive, introduzido de maneira interessante, dentro da história, e não apenas jogado aleatoriamente – a Warner precisa competir com Os Vingadores, afinal. A partir de agora, é esperar por novos filmes e que eles estejam no mesmo patamar deste Batman vs Superman. Tendo a supervisão e produção de Christopher Nolan e a base dos roteiros de Chris Terrio e David S. Goyer, a franquia continuará em boas mãos, até, porém, encontrar sua própria queda. Se isso ocorrer, vamos torcer por um clímax tão bom quanto o de Dawn of justice – só que menos longo, por favor.

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Pôster: WORKS ADV, 2016

Batman v Superman: dawn of justice, dirigido por: Zack Snyder; escrito por: Chris Terrio e David S. Goyer (baseado nos personagens criados para os quadrinhos por Jerry Siegel, Joe Shuster, Bob Kane e Bill Finger).

Com: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Jesse Eisenberg, Jeremy Irons, Amy Adams, Laurence Fishburne, Holly Hunter, Diane Lane.

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