Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2018

10º

Jogador Nº 1 (Ready Player One)

2018, dirigido por: Steven Spielberg

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Pôster: BO N D, 2018

Provavelmente não é o melhor filme do diretor que nos trouxe de volta dinossauros adormecidos há 65 milhões de anos ou conferiu camadas de realismo e comédia ao detetive mais topetudo – literalmente – que a Bélgica já inventou, mas se sua intenção é assistir a um filme blockbuster repleto de cenas de ação, inventividade e inúmeras referências aos anos 80 (contando com uma sequência primorosa que recria um dos clássicos de Stanley Kubrick), talvez Jogador Nº 1 seja sua opção mais segura para este ano. O filme vai sobreviver às décadas que virão e vai se tornar um clássico? Com o currículo de Steven Spielberg, muito possivelmente não, mas vale pela diversão e pelas risadas.

Halloween (Halloween)

2018, dirigido por: David Gordon Green

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Pôster: LA, 2018

Não fosse pelas inúmeras sequências e remakes já realizados, eu poderia aqui dizer que seria arriscado continuar a história de um já clássico cult dos filmes de terror. No entanto, o Halloween de 40 anos depois de seu original soa fresco, revigorante e – o mais importante aqui – assustador. Não assustador a ponto de deixar o espectador sem dormir durante uma semana, é claro, mas a tensão gerada por suas sequências de perseguição e o uso de steadycam não só lembram a criação de John Carpenter, como também apresenta às novas gerações o que um bom filme de serial killer pode mostrar de verdade. E diferentemente das sequências e refilmagens realizadas nas décadas passadas, este Halloween conta com a segurança de nada menos que sua própria scream queen Jamie Lee Curtis na produção, além do patrono John Carpenter. Arrepie-se mais uma vez com a famigerada trilha sonora clássica e o andar lento de Michael Myers

Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody)

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Pôster: WORKS ADV, 2018

2018, dirigido por: Bryan Singer

Bohemian Rhapsody pode se encaixar em vários gêneros fílmicos, pois vai desde uma biografia até o filme-pipoca. Emocionante, divertido e, em alguns momentos, também engraçado, a trajetória da banda Queen aqui retratada pode não se ater completamente aos fatos reais, mas faz uso dessa “licença poética” para aprimorar a dramatização do que foi a vida de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e John Deacon. Repleto de músicas da banda mais diversa do rock de todos os tempos, o filme ainda ousa – e consegue – recriar a antológica apresentação no Live Aid de maneira impecável. Era necessário? Não. Funcionou plenamente para a catarse do filme? Com toda a certeza.

Leia a resenha do filme aqui.

Missão: impossível – Efeito Fallout  (Mission: impossible – Fallout)

2018, dirigido por: Christopher McQuarrie

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Pôster: LA, 2018

Ser uma franquia de ação em plena atividade desde a metade dos anos 90 e continuar gerando milhões e milhões de bilheteria não é um feito a ser ignorado. Mesmo para aqueles que não são amantes dos filmes de ação praticamente sem roteiro e com direito a muitas explosões sem sentido (cof, cof, Michael Bay), Missão: impossível é irresistível. Apesar de alguns tropeços terem ocorrido, como no sofrível segundo capítulo, a série de filmes parece ter ganhado um novo e revigorado fôlego nas mãos de Christopher McQuarrie, responsável pelos roteiros e direção deste e do filme anterior. Claro, não seria possível encontrar-se no patamar atual se não fosse pelo sensacional Protocolo fantasma, de 2011, dirigido por Brad Bird, é bom lembrar. Porém, é em Efeito Fallout que talvez a série Missão: impossível atinge seu ápice. Não abandonando a fórmula de misturar ação, toques de humor e sequências de tirar o fôlego, o vigor do filme só se compara à entrega completa que seu protagonista veterano, Tom Cruise, faz do início ao fim.

A forma da água (The shape of water)

2017, dirigido por: Guillermo del Toro

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Pôster: MIDNIGHT OIL, 2017

Muita gente torceu o nariz para a última produção de Guillermo del Toro, talvez porque ela tenha sido ovacionada em praticamente todas as competições e premiações pelas quais passou. Seu apogeu, é claro, foi a consagração com os Oscar, principalmente, de Melhor Direção e Melhor Filme. Apesar de ter competido com o ótimo Três anúncios para um crimeA forma da água ser reconhecido como Melhor Filme pela Academia não foi um erro, a meu ver. Além de sua homenagem direta e indireta para a sétima arte, o filme do mexicano presta seu respeito também para as minorias. De maneira sutil e artística, A forma da água é uma ode aos desajustados. Ao apresentar uma mulher como protagonista, cuja melhor amiga é negra e o melhor amigo é gay, e que enfrenta um vilão homem, heterossexual e branco, os subtextos da história não podem e não devem ser ignorados. Isso tudo sem contar a extrema beleza – no sentido estético mesmo – com que nossos olhos são brindados com sua fotografia, seu design de produção e também seu figurino.

Três anúncios para um crime (Three billboards outside Ebbing, Missouri)

2017, dirigido por: Martin McDonagh

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Pôster: B O N D, 2017

Cru, cáustico e doloroso. Talvez sejam três palavras mais apropriadas para definir Três anúncios para um crime. Não apenas a motivação principal que leva Mildred, sua protagonista, a colocar três outdoors para escancarar um crime e a consequente vergonha que o cerca por causa da polícia local, o filme faz questão de retratar ali tipos extremamente interessantes que fazem a história borbulhar o ódio e a vingança estampados na sempre excelente Frances McDormand. Além disso, Três anúncios para um crime conta com sequências cinematográficas elaboradas, como a da grande discussão que se passa entre um policial e outro personagem, culminando em consequências as quais apresentam o principal motivador da população de Ebbing: o preconceito.

Viva: a vida é uma festa (Coco)

2017, dirigido por: Lee Unkrich e Adrian Molina

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Pôster: eclipse, 2017

Se a Disney, agora dona da Pixar, da Marvel, de você, de mim e de todos nós, anda decepcionando com sequências desnecessárias a já clássicos como Procurando Nemo ou, ainda mais, decidiu embarcar de vez no terreno ainda desconhecido dos filmes live action, essa desconfiança não pode se aplicar a Viva. Ao mesmo tempo com uma estrutura clássica do protagonista que precisa enfrentar a própria família para provar que seus gostos artísticos são importantes e inventivo ao recriar em animação toda uma rica cultura proveniente do povo mexicano, o filme também conta com referências ao mito de entrar no submundo (ou mundo dos mortos), uma história contatada pelos nossos antigos antepassados, na Roma e na Grécia. Mas as principais características e, consequentemente, virtudes de Viva são a leveza e a delicadeza com que trabalha uma questão nem sempre fácil: a morte. Prepare os lencinhos, a carga emotiva é fortíssima.

Um lugar silencioso (A quiet place)

2018, dirigido por: John Krasinski

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2018

Em meio a um mar de filmes inúteis que cada vez mais mancham o gênero terror, é muito revigorante ser brindado com gratas surpresas como Um lugar silencioso. Surpreendente não apenas pelo fato de revelar o ator John Krasinski como um excelente e promissor diretor cinematográfico, o filme faz o espectador temer a presença do som – que, mais do que a imagem em um filme de terror, é essencial para a trama se desenvolver -, o que já o torna um interessante exercício de cinema de gênero. Além da história original, é impossível deixar de admirar as atuações de Emily Blunt e, principalmente, dos filhos, Millicent Simmonds e Noah Jupe. O que uma ótima direção não faz para que um filme flua de maneira impecável.

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

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Um filme que brinda ao verão e ao amor de verão é uma boa tentativa de definir Me chame pelo seu nome. O longa mistura a leveza e a intensidade do amor entre Elio e Oliver sem cair em clichês e tendências perigosas que tratariam o relato em mais um filme específico para o público GLBT. Me chame pelo seu nome nada mais é do que a história de um amor entre duas pessoas, acima de tudo, e uma das cenas finais, em um diálogo entre Elio e seu pai, prova a delicadeza com que o roteiro pretendia desde o início. Destaque também para a ótima trilha-sonora, que conta com composições de Sufjan Stevens.

Leia a resenha do filme aqui.

Hereditário (Hereditary)

2018, dirigido por: Ari Aster

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Pôster: Gravillis Inc., 2018

Se Viva trata do tema morte com a delicadeza que um filme voltado para o público infantil exige, Hereditário é o extremo oposto desse espectro. Assim como Um lugar silencioso surpreendeu por sua originalidade e direção primorosa, este é exemplo de que o terror não é um gênero menor, e muito menos está esquecido pelos grandes diretores. E apesar de ser sua estreia, o diretor Ari Aster nos entrega uma obra não apenas ousada em sua frequente construção de cenários, sequências e sons com a intenção de arquitetar uma tensão pesada, mas também inventiva, seja em como apresenta os elementos de terror – reflexos de luzes representando espíritos, corpos flutuantes em meio a uma ausência de sons -, seja no trabalho cuidadoso com os atores, que se entregam aos papeis. Além de todos esses elementos, Hereditário também traz uma trilha-sonora claustrofóbico, imergindo ainda mais o espectador no terror – que, ainda bem, não é óbvio em nenhum aspecto.

Leia a resenha do filme aqui.

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Filmes

Hereditário

Lidamos com a morte em apenas dois momentos: quando alguém muito próximo falece, deixando-nos com uma dor particular e imensurável, e quando nós mesmos nos encontramos na mesma situação. Mas pensar sobre a morte é um caso mais amplo. Nas artes, por exemplo, há inúmeros exemplos de como autores, pintores, músicos, diretores e atores pensaram a morte e a interpretaram em seus mais diversos níveis e tipos. Desde os antigos gregos e romanos com seus mitos até as atuais formas de se narrar histórias – com o cinema e, mais atuante agora, as séries -, o ser humano fascina e é fascinado pela ideia de perecer: tudo termina por ali mesmo, tornando-se um imenso vazio sem precedentes, ou vamos para outro espaço e tempo?

No cinema, mais propriamente no cinema de terror, a morte é um tema universal e é representada de maneiras mil. O assassino em série que possui o superpoder de continuar ressuscitando em sequências que nunca acabam; a ameaça invisível de um espírito maligno que possui uma garota cuja vida depende de um exorcismo e da crença de uma mãe cética; a claustrofobia de uma única mulher em uma nave a esmo no espaço, à espera por ser dilacerada viva por um organismo hostil e alienígena que surgiu das entranhas de um ex-companheiro de viagem. O leque de variações de como a morte é representada e executada no cinema de terror é amplo, a ponto de nos apresentar exemplos verdadeiramente aterrorizantes e outros muito risíveis – e, muitas vezes, é capaz de nos fazer tremer através do riso, esta válvula de escape para nervos em frangalhos.

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Imagem: A24, 2018

Algo que já comentei em minha resenha sobre A bruxa, filme inclusive da mesma safra da produtora A24, o terror vem mudando um pouco sua identidade ao longo dos últimos anos. Sim, ainda temos inúmeros filmes produzidos com a intenção de assustar o público apenas com sustos na sala de cinema, mas que caem no esquecimento logo que as luzes se acendem; porém, vemos, hoje, um movimento que se preocupa mais com a tensão causada pela história contada através de imagem e de som do que se a plateia vai literalmente pular de susto em suas poltronas. Em A bruxa, a narrativa lenta e arrastada, aliada à fotografia e trilha sonora impactante, afastou muito público que buscava sangue e tripas, cenas óbvias e diálogos manjados. É uma relação interessante a do grande público com o terror, aliás: desejam filmes óbvios, mas reclamam destes; e quando têm exemplares que saem do esperado, reclamam também (até com mais veemência). Em parte, há a indústria cinematográfica, esta que moldou, ao longo das décadas, o público, a ponto de fazê-lo querer o que quer sem saber bem ao certo porque o quer; se a própria indústria continuasse apenas com essa linha de produção, minha argumentação pararia por aqui. Não é o caso, no entanto.

Exemplos como A bruxaCorra!Ao cair da noite provam basicamente duas coisas: 1) a indústria pode, sim, investir em filmes de terror que saem do óbvio e do esperado e 2) a consequência de tal decisão resulta em outra tese também provada com esses e outros exemplos: filmes de terror não são um subgênero fílmico, eles também podem criar, apresentar e provocar arte. Se O exorcista foi e ainda é um exemplo do filme que usa o terror para contar uma história demasiada humana, alguns filmes contemporâneos também possuem o cacife de aterrorizar sem apelar para o torture porn de um O albergue ou explorar um filme bem-sucedido (tanto como arte, quanto como mina de dinheiro) como Invocação do mal, a ponto de espremer a última gota do sumo com sequências sem fim e spin offs disso e daquilo, secando a fonte que deveria estar preservada. Como, enfim, juntar a concepção de morte, tão obrigatoriamente batida ao longo de anos e anos de cinema de terror, e conceitos que se afastam do óbvio para assustar, de verdade, um público?

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Imagem: A24, 2018

Comecemos pela divulgação. Vivemos em tempos modernos, e tempos modernos significam propagação rápida de fatos e notícias, mas principalmente de mentiras. Na era das fake news, o cinema pode (e, em determinados níveis, como é o caso aqui, até deve) tomar para si a ideia de enganar seu público. E aqui vai meu primeiro cumprimento a Hereditário (Hereditary, 2018) e seu time de publicitários: se o público deseja filmes de terror óbvios, nada melhor do que divulgar o filme com um trailer falso. Não que seu conteúdo não esteja no filme, pois está; mas a montagem das peças de divulgação do longa levam o espectador a ter uma outra impressão do filme: vou assistir a um filme de terror sobre espíritos, possessão e, invariavelmente, morte. Isso é verdade? Sim. Mas não da forma que é divulgada pelos trailers.

Se você já enganou o público com a campanha de marketing e provocou um burburinho o suficiente para atrair audiência, agora é esperar pela quebra de expectativa. Claro, há um relação de causa e consequência muito esperada na estratégia de se criar um trailer com uma montagem apelativa ao grande público: ao saírem do cinema, essas pessoas vão saber que foram enganadas. E é nesse ponto que reside o divisor de águas para o diretor, o roteirista e os produtores: perco grande parte do meu público, mas conquisto aqueles que foram ao cinema não pela divulgação, e sim pela arte cinematográfica. Dentro da indústria existe o risco envolvendo um fator essencial chamado dinheiro, mas, nos últimos anos, aqui e ali vemos lançamentos que se arriscam cada vez mais, mesmo com tal agravante rondando ameaçadoramente as produções. No caso de Hereditário, houve uma junção muito favorável à realização do filme: o diretor e roteirista estreante Ari Aster e sua condução lúcida, a presença forte e extremamente profissional de Toni Collette (não apenas como atriz, mas também como produtora) e o sinal verde da produtora A24, que já colheu outros bons frutos com outras produções do gênero.

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Imagem: A24, 2018

Com divulgação e público meio que garantidos, podemos então mergulhar em Hereditário como narrativa, alegoria e todos os outros aspectos que surgem a partir do próprio filme e sua execução. Falar sobre a história em si é um terreno perigoso para quem ainda não viu o filme, ou cenas impactantes se esvaem, mas o longa é, basicamente, um conto sobre medo. Medo não apenas no sentido geral de qualquer filme de terror, mas medos e suas infinitas extensões. A filha com medo da sociedade que a cerca, o filho com medo de não ser incluso em um grupo social, o pai com medo por não poder mais aguentar as pressões, a mãe com medo pois precisa lidar com perdas inestimáveis em um intervalo de tempo muito curto. O medo metafórico, o medo literal. O medo na urgência de uma garganta fechada pela alergia a nozes. O medo de encarar um diálogo familiar pois a atmosfera em um jantar em família é pesada demais para respirar – assim como na garganta fechada pela alergia. O medo de ver um copo se mexendo sozinho em cima de uma mesa ao constatar que existe o além e seus espíritos.

E se a protagonista, Annie (brilhantemente interpretada por Toni Collette), começa a perder o controle sobre o próprio trabalho (a confecção de miniaturas, sejam elas de casas, estruturas ou cenas do dia-a-dia), e, paralelamente, a cena que abre Hereditário quebra com a visão neutra da narrativa ao sugerir um subjetivismo partindo da própria protagonista, em algum momento também perderemos, como público, o nosso controle sobre os fatos que ali se desenrolam. Isso porque o roteiro do próprio Aster parece seguir, até determinado momento do longa, a estrutura clássica de um filme de terror, com as sequências impactantes aumentando sua intensidade aos poucos – primeiro, a decapitação da ave, depois a decapitação do humano (uma ironia, aqui, tanto imagética quanto narrativa); mas o eixo principal de Hereditary não está na intensidade que ali aumenta exponencialmente, está nos soslaios que o roteiro executa com o sobrenatural – e até com o maravilhoso. Então, ao mesmo tempo em que o público está cético com determinadas características que se apresentam em algumas cenas, logo depois a imagem nos prova que algo ali não é natural, não faz parte do real per se. Se estamos sob as rédeas de uma visão subjetiva, a narrativa não pode ser científica.

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Imagem: A24, 2018

Há, também, aliado a essa questão, o posicionamento da câmera em diversos momentos. Na própria cena inicial já citada, o enquadramento é proposital não apenas para mostrar um local de suma importância para os momentos finais do filme, mas também para sugerir esse acúmulo de camadas: o local está dentro da visão de uma janela, e o vemos através da abertura da janela, ou seja, nosso olho vê através de um outro “olho”, ou, por extensão, nossa visão enxerga aquilo que outra visão nos quer mostrar. O girar lento da câmera e seu mergulho dentro de uma outra abertura – agora já sugerindo mais literalmente a nossa submissão ao subjetivismo – indica, de maneira bem sutil, que estamos prestes a ver um filme de terror que não cairá no estilo de câmera tremida / na mão, mas que amedronta com a lentidão e o esticamento sem fim de tomadas e, por consequência, da tensão do público.

No entanto, fotografia vai além da câmera para assustar sua audiência. O olho vermelho da janela na escuridão, a sugestão de alguém estar parado no canto de um cômodo, mas estar escuro demais para definirmos se há realmente alguém ali, a imagem estática de uma casa da árvore que se quebra com o flutuar literal e silencioso de uma pessoa. A transição do dia para a noite e da noite para o dia em cortes bruscos, o choque com a imagem de carne em decomposição sendo devorada por pequenas criaturas rastejantes em um close lento e cirúrgico, a sutil mas impactante diferença entre feições no rosto de Anne ao sair do grito silencioso para a contemplação quase apática de alguém possuído por um espírito maligno. Todas essas nuances desfilam pela tela nesse vai-e-vem entre o real e o sobrenatural, o sobrenatural e o maravilhoso, atordoando psicologicamente a plateia que não sabe se fica boquiaberta ou se ri; a estrutura clássica da tensão que aumenta está ali o tempo todo na narrativa, mas dentro dela há variações com picos impactantes que vão desestabilizando não apenas quem assiste, mas também a própria tensão geral da narrativa.

Aliado e coroando todos esses elementos anteriores, temos as atuações. O quarteto principal, composto por Toni Collette como a mãe, Annie; por Gabriel Byrne como o pai, Steve; por Alex Wolff, como o filho, Peter; e, por fim, por Milly Shapiro como a filha, Charlie, é a força-motriz de Hereditário. Com todas as nuances possíveis, Toni Collette confere à Annie alguém não só atormentada por todo um passado familiar complexo e repleto de traumas, mas também que se esvai numa loucura cada vez mais iminente; sua atuação vai desde momentos mais intensos, como na cena de discussão à mesa do jantar, até sutilezas, como quando confessa algo ao filho que talvez choque mais do que determinadas cenas mais gráficas. Gabriel Byrne, por sua vez, traz a Steve uma calma e um equilíbrio contrastante ao resto da família; lógico, em determinado ponto ele também vai quebrar emocionalmente, e é interessante observar como a cena em que isso acontece é o ponto de partida para que, dentro da narrativa do filme, as coisas comecem a degringolar de vez. E se Peter é o clássico adolescente tentando encontrar sua turma, Alex Wolff projeta em seu rosto não apenas traços blasé de qualquer jovem entediado com a existência, mas de medo e pavor que o transformam em uma verdadeira criança aterrorizada na presença de elementos sobrenaturais. Milly Shapiro, o grande achado da produção, presenteia o público em praticamente todas as cenas em que aparece com seu jeito estranho de se portar, com sua mania de emitir muxoxos audíveis (um tique que assombra em diversos níveis a história do filme) e com seu olhar vazio.

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Imagem: A24, 2018

Além de todo o cuidado com as diversos detalhes, o design de produção trata de maneira excelente a composição dos ambientes internos com elementos importantes, como o estúdio de Annie e suas miniaturas e post-its lembrando-a de tarefas simples (uma piscadela para sua futura demência / perda de memória e, consequentemente, identidade); o quarto de Charlie e sua parede repleta de papeis e ilustrações; a escrivaninha de Peter, limpa, organizada e com cores que transmitem o equilíbrio e a seriedade do personagem; os pertences da falecida mãe de Annie, passado que serve de base para o início da narrativa e também como contato para a parte sobrenatural do longa; e, por fim, a casa na árvore, lugar banhado ora pela luz vermelho-sangue do aquecedor, ora pelo amarelo-sol no final da projeção.

E se Hereditário é uma ode ao Medo – não apenas a morte -, sua estrofe final, ou os últimos quinze minutos de filme, é o teste absoluto para o público. Gostando ou não da narrativa proposta pelo longa, é inevitável não se sentir tenso com a sequência que se inicia de maneira sutil ao mostrar um vulto branco passando pela porta do quarto de Steve e vai aumentando a intensidade conforme este caminha pela casa (em cenas cuja posição da câmera e o andar lento do personagem remetem muito a O iluminado, ainda mais com a presença da trilha sonora baseada em sintetizadores, reforçando ainda mais a sugestão entre ambos os filmes) até eclodir em uma desenfreada corrida por saídas (e que, invariavelmente, desembocam em espaços cada vez mais fechados). Os minutos finais, quebrando com todas as expectativas, vão permear por caminhos lentos e contemplativos, criando imagens arrepiantes não por aquilo que mostra, mas pelos elementos que sugerem – além da tensão gerada pelo silêncio, este que é cortado por um coro de vozes. O local da cena, como cereja do bolo, termina onde tudo começa, em uma rima visual / narrativa deliciosa.

pôster

Pôster: Gravillis Inc., 2018

Hereditary, dirigido e escrito por: Ari Aster.

Com: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd.

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