Stranger things 2

Séries

Se um dia a preocupação da TV tradicional era o advento dos serviços de streaming e a possibilidade do espectador escolher o que assistir e quando assistir, hoje já é possível notar um total rendimento ao formato consagrado principalmente pela Netflix: a série. Não é difícil de observar, por exemplo, uma recorrência maior de mudanças em novelas globais, por exemplo, como que uma transição entre o formato de folhetim clássico para o de uma história seriada, passando por alterações no ritmo da trama, aproveitamento da internet – conhecida, atualmente, como “segunda tela” – e até um tratamento mais fílmico na composição de imagens. A Netflix, inclusive, com o passar dos anos, passou de transmissora de conteúdo para produtora, e isso a estabeleceu como modelo a ser seguido.

Dentre seus sucessos de público e mercado, Stranger things  (idem, 2016) chegou no meio de 2016 para suprir a gana de um nicho de público ao mesmo tempo exigente e fiel. Representados de diversas maneiras ao longo da história da TV e também do cinema, os nerds tiveram a oportunidade de ouro de se refestelarem com a série, surtando com inúmeras referências à cultura pop dos anos 80. A fórmula, apesar de pronta para o sucesso, não é muito simples de seguir. Isso devido ao fato de, por ser justamente algo muito palatável ao olhar de diversos grupos, Stranger things poderia dar errado de muitas formas (o elenco poderia afundar a série, o desenvolvimento de personagens poderia morrer ao longo da temporada ou a produção não ser à altura das expectativas geradas pela trama). No entanto, seu enorme sucesso acabou não apenas atingindo o objetivo da fórmula de sucesso, como gerou filhotes ainda mais perigosos: como manter a qualidade de uma primeira temporada redondinha sem decepcionar as expectativas do público.

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Imagem: Netflix, 2017

Porque, assim como dito anteriormente, a série tem que atingir, em primeiro lugar, seu público cativo; passado por este crivo mais exigente, Stranger things ainda precisa almejar cair no gosto popular em massa, dando conta de não perder um público que passou a ser fiel após conferir a qualidade da primeira temporada. Assim, além de dar continuidade a uma história que desenvolveu um enredo sem pontas soltas – a não ser por aquelas intencionalmente criadas ao fim da primeira temporada -, a série agora não é mais apenas uma aposta que deu certo e fez enorme sucesso, ela representa uma história que já marcou uma geração de espectadores e, dessa forma, precisa contemplá-los cada vez mais positivamente. É o preço a se pagar por arriscar-se através da fórmula “fácil” de sucesso.

Não que isso tenha se tornado um problema dentro da nova temporada. Tirando os tropeços em um determinado episódio – mais sobre isso ao longo do texto -, Stranger Things 2 (idem, 2017) consegue manter a qualidade de trama apresentada no ano passado, com a bem-vinda vantagem de separar um tempo de tela para o desenvolvimento de seus personagens. Assim, se o foco, anteriormente, era desesperar-se para fazer referências aos anos 80, em 2 as coisas ficam mais tranquilas nesse ponto e dá espaço para que Will, Mike, Dustin e Lucas possam brilhar aos poucos durante os nove episódios disponibilizados pela Netflix agora no final de outubro. Mais que isso, os irmãos Duffer, criadores, roteiristas e diretores da série, optam também pela introdução de novos personagens, o que dá um fôlego extra e uma sensação de frescor ao roteiro.

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Imagem: Netflix, 2017

É nesse ponto que conhecemos Max (interpretada pela ótima Sadie Sink), aquela que vai se apresentar inicialmente como antagonista da trupe de protagonistas, mas que, aos poucos, passa a se revelar uma grata surpresa à série – uma necessidade de substituição à figura de Eleven (Millie Bobby Brown), relegada um pouco às sombras nesta temporada. Max e seu irmão, Billy (interpretado pelo Power Ranger Dacre Montgomery) – o antagonista humano – são os principais motores de Stranger Things 2, cada um trazendo mais força a seus respectivos núcleos de personagens, ela com os quatro garotos principais, ele com os estereótipos do ensino médio americano. A relação entre os dois atores, aliás, demonstram uma química em suas atuações muito benéfica, principalmente em relação às cenas encabeçadas por ambos, sempre com um viés mais dramático, tenso.

Pegando carona nesses novos fôlegos de elenco, Winona Ryder ainda consegue roubar todas as cenas que protagoniza, mantendo seu ar paranóico herdado da primeira temporada, como se já preconizasse os acontecimentos irrefreáveis deste novo momento. Ao seu lado, no entanto, nosso eterno Samwise Gamgee Sean Astin também vai protagonizar momentos-chave da segunda temporada ao interpretar um par romântico a princípio bobo e ingênuo demais, mas que, conforme os acontecimentos com o “enteado” Will vão se materializando, passa a representar a coragem que surge por meio de atitudes e ideias inesperadas e genuínas.

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É possível esperar a mesma qualidade nas atuações do quarteto principal. Com maiores destaques nesta temporada para Gaten Matarazzo (que interpreta Dustin) e Caleb McLaughlin (intérprete de Lucas), Stranger things 2 passa a priorizar também seus outros personagens principais, dando a estes mais tempo em cena e, consequentemente, mais desenvolvimentos para seus personagens, o que só destaca ainda mais a competência dos jovens atores. O mesmo se aplica a Joe Keery (o responsável por Steve Harrington): inicialmente apresentado como o antagonista entre os jovens na primeira temporada, Steve agora é um personagem que acabou se desenvolvendo para o bem, contando como mais um aliado dos pré-adolescentes protagonistas. Seus percalços sentimentais com a namorada Nancy (Natalia Dyer) adicionam mais tempero ao aprofundamento do personagem, tornando-o mais humano e, dessa maneira, acarretando em um reconhecimento maior com o público.

O que nos leva à dicotomia Will / Eleven. Chamo aqui de dicotomia pois ambos os personagens estão ligados ao que ficou conhecido, ano passado, como “Mundo Invertido”. Enquanto Will (interpretado por Noah Schnapp) é o hospedeiro maligno desta temporada, Eleven mais uma vez precisará equilibrar tal fato com suas habilidades psíquicas e telecinéticas. E é nesse ponto que o roteiro de Stranger things 2 renega um pouco a presença da heroína. Ah, caso não tenha assistido à nova temporada, talvez, a partir deste ponto até final do parágrafo, alguns apontamentos poderão sugerir spoilers, portanto, siga por sua conta e risco. Decidindo por uma jornada do herói solitário, a série vai optar por isolar Eleven (com a desculpa da sociedade não poder vê-la ou conhecê-la, já que “as consequências para todos os envolvidos serão drásticas”) e transformá-la no messias particular de Hawkins aos poucos (por isso sua morte e ressurreição simbólicas ao longo de toda a temporada). E se me permite a continuidade da analogia religiosa, Eleven terá apenas um episódio dedicado totalmente a si – o sétimo da temporada -, um momento em que a heroína irá para seu deserto próprio refletir sobre sua existência, atos e decisões. Infelizmente é o episódio com menor potencial da temporada (e talvez o mais pobre, narrativamente falando, de toda a série), pois seu teor acaba destoando do restante dos capítulos, numa tentativa de sugerir referências a um treinamento jedi às avessas, algo que acaba não colando muito como resultado final.

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Porém, em compensação, ainda é possível conferir uma trilha sonora inspirada que não apenas estabelece o clima para diversas cenas, como também retoma um clima oitentista muito bem-vindo à série. Aliada à música, a direção de arte se expande aqui para dar vida a novos cenários, mesmo que dentro dos conhecidos desde a primeira temporada; apesar de pecar aqui e ali em sua computação gráfica, a arte empregada no novo vilão da vez (o Monstro das Sombras) compensa as falhas. É bom também divertir-se com as referências de coisas que ainda vão se desenrolar ao longo dos episódios, como o fliperama jogado pelos protagonistas logo no primeiro episódio  – Dig Dug), um jogo que sugere a escavação como forma de combate e salvação – e tal ideia perdurará até o final da temporada – ou a música escolhida especialmente para uma ocasião que envolve todos os protagonistas no último episódio (“Every breath you take”, The Police).

Há mais de um ano eu finalizei minha resenha para Stranger things afirmando que se a qualidade da série perdurasse conforme o passar do tempo, nada mais natural do que esperar por novas temporadas e mais desenvolvimento de tramas e personagens. Agora, porém, é preciso pôr um pouco o pé no freio: agora é o momento para pensarmos se ter inúmeras próximas temporadas será algo realmente benéfico para Stranger thingsStranger things 2 por enquanto está dando conta do recado. Vamos acompanhar de perto daqui para frente.

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Pôster: Kyle Lambert, 2017

Stranger things 2, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Justin Doble, Jessie Dickson-Lopez, Kate Trefry; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy, Andrew Stanton, Rebecca Thomas.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Sean Astin, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Sadie Sink, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Dacre Montgomery, Paul Reiser, Linnea Berthelsen.

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Procurando Dory

Filmes

A criança angustiada e emocianada dentro do cinema, em 2003, vendo Procurando Nemo (Finding Nemo), hoje cresceu. Somos adultos, pensamos como adultos e, talvez o principal, nos angustiamos como adultos. Nada mais natural do que esperar, com grande expectativa, a então anunciada continuação de um dos maiores sucessos da história do estúdio Pixar. E se o hype em torno do filme cresceu de maneira natural por todo o histórico envolvendo a agora franquia dos peixinhos de computação gráfica, a tendência para caçarmos defeitos e, inevitavelmente, comparar este Procurando Dory (Finding Dory, 2016) também é alta. Por um lado, é um jogo injusto tratar o novo filme de Andrew Stanton como “inferior”, pois o mais sensato é analisar ambas as obras em sua individualidade: Nemo já tem seu lugar entre os clássicos atuais, Dory talvez alcance o mesmo posto daqui um tempo. Por outro, Finding Dory tem os seus tropeços.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Antes de mais nada, é preciso destacar um ponto forte da obra. Se pararmos para observar com cuidado alguns temas tratados ao longo dos anos pela Pixar, vamos nos deparar com a valorização da amizade em todos os Toy Story, a importância da organização em grupo em Vida de Inseto (A bug’s life, 1998), a inversão do conceito de “medo” em Monstros S. A. (Monsters inc., 2001) e, mais recentemente, em Divertida Mente (Inside out, 2015), o fato de não darmos a atenção devida a uma das emoções mais presentes em nossa vida: a tristeza. Em Procurando Dory não é diferente, temos ali a inclusão social presente desde o seu início, começando pelo desenvolvimento maior da história da protagonista e perpassando por demais criaturas, como a baleia Destiny e sua dificuldade para enxergar, ou o próprio polvo Hank, cuja história provavelmente a Disney irá explorar em uma continuação, já que a personagem possui camadas psicológicas mais profundas e não explícitas nesse filme.

Dado isso, pensemos na estrutura narrativa da animação: seja por uma possível busca por identificação de público, seja por manter-se em território seguro, os roteiristas Andrew Stanton e Victoria Strouse mantêm a mesma ordem de acontecimentos de Procurando Nemo, algo inclusive explicitado pelo próprio Marlin em vários momentos da projeção. Esse ponto pode incomodar nós, os adultos que cresceram ao lado de Nemo, Marlin, Dory e os peixes do aquário. Qual a novidade, nesse sentido, afinal? Para as novas gerações, porém, o filme é um prato cheio, repleto de sequências divertidas, ação e humor físico – a dona Disney precisa lucrar, no final das contas. Há, no entanto, algo muito curioso: em diversos momentos, Dory encontra-se sozinha, sentindo-se desesperada por ver-se sem amigos ou familiares por perto, olhando a esmo pela imensidão marinha e encontrando-se melancólica. Em tais momentos, a paleta de cores do filme torna-se fria, azulada ou esverdeada demais, muitas vezes também extremamente escura (algo que provavelmente predujicará sua experiência caso escolha ver o filme em 3D, uma opção desnecessária, como vem acontecendo cada vez mais).

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

O que me levou a refletir sobre duas coisas, a primeira causando a segunda: Procurando Dory, por baixo do verniz colorido, engraçado e feliz, tem suas camadas de sentimentos e emoções mais sérios, mais obscuros. Estes não são explícitos, jogados gratuitamente para o espectador, mas estão lá, sob a fachada desmiolada de Dory, por trás da carranca ranzinza e de humor involuntário de Marlin. Tais camadas resvalam em algo que está, infelizmente, muito presente na sociedade moderna: uma doença perniciosa chamada depressão. Posso ter levantada uma questão muito séria para um filme infantil? Creio que não tanto. Assim como a protagonista de Divertida Mente torna-se cada vez melancólica com a mudança de cidade, escola e amigos que precisa enfrentar, Dory vê-se dentro de uma centrífuga que mistura o total esquecimento com surtos de memória que, ao mesmo tempo, a fazem seguir em frente e perder-se no nada (ou nonada, como bem colocou Guimarães Rosa), nadando sem rumo e cobrando-se por não lembrar – uma qualidade exaltada, da maneira e no momento errados, por Marlin, o rei da sinceridade amargurada, do ressentimento com tudo e com todos e da paranoia constante.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Aliás, acabamos constatando que Marlin é capaz de não aprender absolutamente nada sobre sua aventura passada (Procurando Dory está, dentro do tempo da narrativa, a um ano longe de Procurando Nemo – uma dilatação temporal que nos custou treze), pendendo sempre entre recusar-se a atender aos apelos da melhor amiga (imaginem se não fosse a melhor…) e acabando por decidir-se a auxiliá-la repentinamente, um vai-e-vem que não adiciona muita coisa ao filme, apenas alguns momentos de humor. É através dele, contudo, que iremos nos reencontrar rapidamente (bem rapidamente) com personagens do filme anterior – como a tartaruga Crush e tio Raia. Há, porém, um contrapeso nesse sentido com o próprio Nemo, ao sempre chamar a atenção do pai para falhas que este comete, tanto nas decisões que devem tomar, quanto em relação a Dory.

Um dos destaques do filme é Hank, o polvo de sete tentáculos e, como Dory faz questão de enfatizar, três corações. Com um humor vacilante entre o ranzinza e o dócil, Hank traz consigo as melhores sequências da animação, como quando decide ajudar Dory após um demorado trato entre as partes (a perda de memória recente de Dory dificulta bastante o processo) ou na extensa cena envolvendo um carrinho de bebê – provavelmente a melhor do filme. Dando apenas pistas de seu passado para o espectador mais atento, Hank visivelmente teve algum trauma envolvendo crianças, chegando ao ponto de preferir viver trancafiado em um aquário do que enfrentar o mar aberto – e quantos de nós não prefere o conforto de nossa cama a socializar com uma multidão? Essa é uma das poucas centelhas da verdadeira Pixar que aparece ao longo de Procurando Dory, uma perda que parece cada vez mais constante nas obras mais recentes do estúdio Há, ainda, espaço para participações boas, mas menores, como a de um ótimo leão-marinho chamado Geraldo, a mergulhão Becky e – pasmem – Marília Grabriela (como ela mesma – no original, é Sigourney Weaver).

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Procurando Dory, contudo, não é dispensável. Mesmo mantendo a estrutura narrativa de seu antecessor, o filme traz bons momentos que agradarão novos e antigos fãs. Seria bem melhor, é claro, se desenvolvesse de maneira mais incisiva seu lado mais profundo; entendo, porém, a decisão dos realizadores, seria necessário mais tempo e talvez isso mudaria completamente o clima do filme, deixando de lado uma das maiores qualidades do primeiro: mesmo dentro de adversidades, é possível rir sem peso na consciência. Nesse ínterim, inclusive, note como a personalidade de Dory é desenhada ainda mais quando Nemo enfatiza sua predisposição por fazer as coisas sem qualquer plano (“O que Dory faria? Ela simplesmente olharia a seu redor e faria a primeira coisa que desse em sua cabeça”), ao mesmo tempo que essa virtude torna-se seu principal “defeito”: o de saber esquecer de tudo e de todos tão bem. Uma verdade muito difícil de ouvir da boca de um amigo, mas algo que somente um amigo, mesmo que em um momento de raiva, poderia dizer de verdade.

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Nota: se a qualidade em Procurando Dory caiu um pouco, o mesmo não se aplica ao curta-metragem da vez, intitulado Piper, projetado antes do filme. Não se esqueça de ficar até o final dos créditos, há uma ótima cena que conclui uma certa pendência…

Pôster

Pôster: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2016

Finding Dory, dirigido por: Andrew Stanton; escrito por: Andrew Stanton e Victoria Strouser.
Originalmente com as vozes de: Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Ed O’Neill, Kaitlin Olson, Hayden Rolence, Ty Burrell, Diane Keaton, Eugene Levy, Idris Elba, Dominic West, Sigourney Weaver.