Filmes

Bohemian Rhapsody

A sensação de assistir à apresentação de uma banda, ao vivo, muitas vezes é indescritível. Quando se é fã de determinado grupo ou artista, a música por eles composta possui uma importância e, mais, uma significação muito intensa para aquele que os admira. As palavras cantadas pelo artista não são apenas um amontoado de dizeres que combinam com a melodia e o arranjo da música, pode tornar-se aquilo que comumente chamamos de poesia: a brincadeira, o jogo, o manuseio com as palavras cujo objetivo é mexer com nossos sentidos, nossos sentimentos e a nossa relação com o mundo à nossa volta.

Grandes artistas ao longo das eras, mexeram com seu público. Seja de forma positiva, ao elevar o espírito de multidões, seja de forma negativa, ao provocar no público uma reação que este não esperava (ou não desejava). O grande artista, aquele que muito provavelmente será lembrado e redescoberto pelas gerações mais novas, no entanto, provoca ambas. Sim, por mais que você possa começar a gostar de determinado performer, algumas atitudes dele podem incomodar em certo nível ou, ao contrário, pode-se reagir a um grande artista a partir de algo terrível aos seus olhos e, com o tempo, a admiração surgir aos poucos, como resultado do processo que se iniciou com a impressão negativa de início.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

Há, também, o grande artista que, independentemente de provocações positivas ou negativas, possui um talento inegável de elevar multidões. Seja por sua voz, por sua atuação em palco, por sua habilidade nas composições,  ou todas as opções anteriores ao mesmo tempo, esse grande artista torna o público hipnotizado por aquilo que, muitas vezes, chamamos de “presença de palco”, a ponto de inspirar as pessoas – em um nível mais sutil, ao fazer com que o espectador de seu show saia do evento sentindo-se elevado pela música, ou em um nível mais forte, incentivando tal espectador a buscar, um dia, em ser como o artista que tanto admira.

Freddie Mercury, ou Farrokh Bulsara, é todos esses artistas ao mesmo tempo. Uma das provas do poder de seus inúmeros dons artísticos é o fato de quase todas as pessoas ao nosso redor, mesmo não conhecendo sua história ou a trajetória do Queen terem, pelo menos uma vez na vida, ouvido uma de suas músicas, direta ou indiretamente. Mais: conhecerem a figura de Freddie Mercury. Assim como qualquer artista ou obra de arte famosa, a performance em palco de Freddie Mercury é, indiscutivelmente, uma representação icônica do grande artista musical que foi, é e sempre será dentro do imaginário popular.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

Por isso – e muitos outros detalhes que não cabem nesse pequeno texto -, é grande a responsabilidade que recai sobre os ombros de Rami Malek. O ator, mundialmente conhecido pela série Mr. Robot, não apenas precisou dar conta de replicar, na telona, os trejeitos, olhares, maneirismos, empostação de voz e linguagem corporal de palco de  Mercury, como conferir uma camada a mais em sua atuação no que se refere à dramatização da vida do vocalista do Queen. Isso porque não vemos, ali, na tela do cinema, a vida e a trajetória em si do ídolo. O que assistimos é a uma representação dramática, em pouco mais de duas horas, do torvelinho de coisas que foi a vivência e a composição artística de Freddie Mercury. Mais à frente volto a esse ponto.

Assim, o que vemos em Bohemian Rhapsody (idem, 2018) é um ator encarando a hercúlea tarefa de aproximar-se ao “personagem” real. E consegue. O público não só crê, em algum nível, que está diante do Freddie Mercury real, como também emociona-se quando ali na tela vê o compositor com os olhos marejados ao criar uma nova música, ou quando identifica-se com um artista atormentado pelos períodos obscuros de vazios existenciais. Afinal, Freddie Mercury não era apenas um cantor mediano cuja tarefa era subir ao palco para agradar grandes produtores da indústria e vender discos.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

Outro aspecto abordado no longa e que, de certa forma, confere ritmo ao roteiro, é a dinâmica entre os quatro integrantes da banda. Se Freddie era o frontman do Queen, o carro-chefe avassalador, os demais também eram peças necessárias para que a fórmula musical funcionasse bem: Brian May (interpretado Gwilym Lee) e sua habilidade monstruosa com a guitarra, Roger Taylor (interpretado por Ben Hardy) e a explosão proveniente de sua bateria e demais percussões, e John Deacon (interpretado por Joe Mazzello) e a inventividade inegável que nos trouxe o riff de seu baixo em “Another one bites the dust”. E em Bohemian Rhapsody a química que ebuliu a arte musical do Queen é muito bem representada pelos atores que representam os demais membros do grupo, não apenas pelo carisma e, muitas vezes, ótimo timing com momentos de humor, mas principalmente pela assustadora aproximação na aparência – todos são muito semelhantes às suas versões reais.

E se o filme conta com um ator talentoso para a representação de Freddie Mercury, e mais três outros atores cuja química transparece de maneira irrefutável na tela, há de se discutir sobre as alterações realizadas pelos escritores Anthony McCarten e Peter Morgan. Há três pontos cruciais mostrados em Bohemian Rhapsody que se diferem bastante da realidade*: 1) toda a cena de discussão com o produtor Ray Foster (personagem fictício e muito bem pontuado pelo veterano Mike Myers) sobre considerar a música “Bohemian Rhapsody” como single (para tocar nas rádios e ser lançada como, na época, disco compacto) soa, e é, extremamente exagerada; 2) apesar de realmente ter gravado discos solo, Freddie Mercury nunca discutiu com os demais integrantes, nem se separou da banda; 3) a descoberta da AIDS não ocorreu antes do evento Live Aid (o clímax escolhido para o longa), mas sim posteriormente. Tais fatos e suas modificações podem incomodar o fã de longa data. Mas, analisando o filme por aquilo que ele representa (um filme – e de entretenimento, no caso), essas mudanças casam com a camada dramática apresentada ao público. Assim, para o espectador que não conhece os detalhes da vida e obra da banda, esses três aspectos tornam-se fonte de humor, drama e melodrama, respectivamente. E, para um filme hollywoodiano, nada melhor do que tais temperos.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

No final das contas, o personagem principal e mais importante – até mais importante do que a figura de Freddie Mercury -, a música do Queen, é quem impera em toda a produção. Ela é o motor desde a vinheta da 20th Century Fox (aqui executada com guitarras) até os últimos segundos dos créditos finais. É com ela que os pontos dramáticos são pontuados, os momentos catárticos (e são vários) são propulsionados e as emoções são despertadas das maneiras mais sutis – não à toa, o famoso “ay-oh” de Freddie, entoado por apenas uma pessoa, em uma determinada cena, dentro de uma situação delicada, pode mexer com o público de maneira poderosa. E é com ela que nos despedimos dos personagens da tela, das histórias reais e ficcionais do roteiro, mas, acima de tudo, é com ela que saímos do cinema com a certeza de que o show deve continuar.

* as informações foram retiradas dessa análise

pôster

Pôster: Gravillis Inc., 2018

Bohemian Rhapsody, dirigido por: Bryan Singer; escrito por: Anthony McCarten.

Com: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joe Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker.

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