Listas, Música

Os melhores discos de 2018

Nem só de brigas por política, memes e tristezas vive o brasileiro. O último mês do ano, além de sua parada obrigatória no especial de final de ano do Roberto Carlos e da retrospectiva na Globo que existe para nos deprimir, é o momento ideal para fazer aquelas listinhas preciosas de melhores alguma coisa.

Podemos dizer que 2018 foi um ano interessante para os lançamentos musicais, e a lista que você vai conferir daqui a pouco foi uma tentativa de percorrer por diversos gêneros musicais, sem deixar de ouvir um bom indie ou pop, os estilos que mais me agradam.

Como toda edição, nesse link você pode conferir os melhores discos do ano passado.

Deixe seus preconceitos de lado e confira agora os doze melhores álbuns deste ano, na minha singela opinião.

“Dancing queen”, por Cher

cher

Tentar apresentar Cher em poucas linhas é uma tarefa impossível e até inapropriada. A longeva carreira e as inúmeras atuações no entretenimento, que transpõem o mundo musical, fazem de Cher não apenas uma grande artista, mas principalmente um ícone consolidado do mundo pop. Para alegria geral dos fãs de outro ícone pop, a banda sueca ABBA, Cher decidiu ir além de sua participação no filme Mamma mia! Lá vamos nós de novo (Mamma mia! Here we go again, 2018) e lançou um álbum de estúdio com covers de algumas músicas daqueles que nos trouxeram inúmeros hits nos anos 70 e 80. Com uma roupagem atual, mas sem perder a essência abbesca, as versões cantadas por Cher podem soar estranhas em um primeiro momento, principalmente para aqueles acostumados com as originais por tanto tempo – isso devido ao fato do ABBA raramente liberar suas canções para que outros as utilizem como samples ou mesmo como covers -, mas, em uma segunda audição, dificilmente Dancing queen irá desagradar. De versões mais próximas das originais como a faixa-título (dificilmente um cover muito peculiar de “Dancing queen” soaria bom) até outras com toques mais particulares de Cher, como “Waterloo” e sua batida forte, com um apelo muito mais dançante, ou “Chiquitita” e seu ar flamenco, Dancing queen é fácil um dos melhores álbuns lançados esse ano, ainda mais para quem gosta de um bom e velho pop para não botar defeito.

» “SOS

“Chris”, por Christine and the Queens

christine and the queens

Esteja preparado para Christine and the Queens. A francesa é um ótimo exemplo para rebater aqueles que dizem que o alternativo não inova mais. Com sua voz forte, seus arranjos eletrônicos e as letras cheias de uma crueza e causticidade muito peculiares, o álbum – lançado em duas versões, uma no original francês e outra para o mercado internacional, em inglês – lembra muito a sonoridade de algumas cantoras brasileiras dos anos 80 e 90, como Deborah Blando e Marina Lima. Além disso, suas músicas trazem um tom de melancolia que se confunde com as batidas e sintetizadores espalhados ao longo das onze faixas. Não há como passar batido pelo niilismo e flertes com o suicídio em “Doesn’t matter” ou pelo feminismo cru e direto em “Damn (what must a womann do)”. E não para por aí: Christine and the Queens ainda desconstrói a obra do pintor Goya em “Goya Soda” e critica de leve a liquidez dos relacionamentos atuais com “What’s-her-face”.

» “Doesn’t matter

“Happy xmas”, por Eric Clapton

eric clapton

Assim como Cher dispensa preâmbulos para o mundo pop, Eric Clapton também o faz quando falamos sobre blues. O guitarrista coleciona invejáveis números ao longo de sua extensa carreira, mas o que parecia uma ideia completamente deslocada para a imagem que representa no imaginário coletivo acabou acontecendo agora em 2018: um disco de Natal. É comum, principalmente para os mercados fonográficos americano e europeu, artistas lançarem um álbum temático no período de fim de ano, especialmente quando se fala sobre Natal. Na maioria das vezes com intenções puramente mercadológicas, um álbum de Natal, no geral, costuma ter reações extremas por parte do público: ou faz muito sucesso, ou se torna um fracasso completo. Tratando-se de Eric Clapton, a estranheza de se estar prestes a ouvir um álbum natalino do Eric Clapton se esvai em questão de segundos logo nos primeiros acordes da primeira faixa, “White Christmas”. O artista não decepciona seus fãs de longa data, assim como os novos ouvintes. Num misto de regravações de tradicionais músicas natalinas e composições próprias para o álbum, Clapton faz de Happy xmas um agradável, surpreendente e delicioso álbum de blues natalino. Destaque também para sua versão de “Silent night”: um misto de música gospel, blues e mais outros elementos que a tornam uma “Noite feliz” como nunca antes ouvida.

» “Home for the holidays

“God’s favorite costumer”, por Father John Misty

father john misty

Josh Tillman já passou por algumas bandas, inclusive pelos Fleet Foxes. Mas, de uns anos para cá, parece que o moniker Father John Misty lhe caiu bem. E é o que o seu trabalho mais recente, God’s favorite costumer sugere através das belas composições. Evocando um Elton John de início de carreira, com mistos de artista solitário tocando em um pub, Tillman traz, com suas letras, um humor que pende entre o autoparódico e o amargurado, falando sobre encontros, poemas e a tarefa de um compositor. God’s favorite costumer sugere sua melancolia e contemplação ao nada desde a capa, inclusive, mostrando um Father John Misty à la David Bowie, banhado em cores que tornam sua tristeza ainda mais proeminente. Caso você esteja procurando um artista novo para ouvir, eis sua chance.

» “Date night

“Man of the woods”, por Justin Timberlake

justin timberlake

Nascido em uma carreira de menino prodígio dentro da TV, transposto para uma boyband e catapultado para o sucesso de uma carreira solo, é inegável o talento de Justin Timberlake. Aventurando-se no cinema também como ator, o cantor nunca deixou de lado sua veia musical, que é forte. A aclamação da crítica chegou em seu álbum de estúdio de 2006, FutureSex/LoveSounds, permaneceu com The 20/20 experience, de 2013 e, agora, alça mais voos com o indiscutivelmente ótimo Man of the woods. Trabalhando com colaboradores de longa data como Timbaland, Danja e The Neptunes (especialmente  Pharrell Williams), o som desse novo trabalho é um jam interminável, com músicas que aumentam o ritmo do álbum em um crescendo aparentemente sem fim, chegando a um ápice quase transcendental. Do início cheio de volúpia com “Filthy” e os interlúdios que referenciam a temática permeada no título e no conceito de mundo selvagem e como fazer parte dele, Man of the woods é, ao mesmo tempo, uma originalidade exercitada pelo já estilo consagrado de Timberlake e sua reverência a mestres como Michael Jackson.

» “Filthy

“Golden”, por Kylie Minogue

kylie minogue

Se Madonna é a Rainha do Pop e Britney Spears a Princesa, em que patamar colocamos Kylie Minogue? A resposta mais tranquila e direta é: em nenhum. Minogue não é uma artista que se mistura à gentalha, como diria Dona Florinda, mas, aqui, é num bom sentido. Isso porque sua elegância e bom gosto em todos os elementos que relaciona com sua música a impedem de estar no patamar do pop farofa das demais cantoras e divas pop. Não me entenda mal, o pop farofa também é preciso. Mas Kylie Minogue compõe o pop às vezes chiclete, às vezes europeu demais para bombar no rádio ou torná-la a cantora mais conhecida de todos os tempos. No fundo, Kylie Minogue não precisa disso. Sua carreira, mais consolidada do que nunca agora com o lançamento de Golden, prova que, para fazer sucesso, não é preciso apelar. Golden, aliás, é a incursão da cantora em terras até então não visitadas, como a música country e a influência do som de Nashville, cidade americana que influenciou a temática e as letras do álbum, sem contar os arranjos. Assim, apesar de soar estranho em um primeiro momento, logo os ouvidos se acostumam com os banjos, violinos e violões de todos os tipos ao longo das músicas. É claro que há os singles prontos, como em qualquer outro disco de Kylie Minogue; aqui, no caso, falo do carro-chefe “Dancing”, da ótima “Stop me from falling” e da poderosa “Live a little”. Mas existe espaço para incursões mais profundas no country propriamente dito, como “A lifetime to repair” e um pop mais etéreo como em “Lost without you”. Mais uma vez, a australiana acerta a mão.

» “Dancing

“When the night calls”, por Mt. Desolation

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O projeto paralelo do ex-Keane Tim Rice-Oxley que teve início em 2010 mudou. Se há oito anos a intenção era formar uma banda de country-folk alternativo a partir de integrantes de várias outras bandas, agora a composição ficou mais enxuta. Resumida basicamente nos dois integrantes principais do começo, o próprio Tim e Jesse Quin, Mt. Desolation demorou longos e arrastados oito anos para lançar seu segundo álbum de estúdio. Entre o primeiro e esse atual, nada relativo à banda pareceu surgir na internet. Após o fim do Keane, aparentemente Tim e Jesse decidiram trabalhar novamente no projeto e When the night calls foi parido. Para os fãs, a espera compensou. Apesar de não ter a mesma bad vibe do álbum de estreia, o novo trabalho não deixa a desejar nesse aspecto: faixas como “By the river” e “Valentine” provam que Mt. Desolation existe ainda para falar das tristezas da vida. Mas o lado oposto também aparece – e mais nesse disco – para dar uma animada, com músicas como “Someday, somehow” e, podemos até ousar chamá-la assim, a dançante “How to fly”. Se country alternativo era um gênero que você jamais achou que existia, está na hora de dar uma olhada em Mt. Desolation.

» “On your way

“Simulation theory”, por Muse

muse

Se em 2009 o álbum The resistance apareceu para tornar Muse mainstream de uma maneira sem volta, talvez The 2nd law, o trabalho seguinte, de 2012, deixou mais claro que a banda agora era, de vez, mais uma que lotaria estádios para shows pirotécnicos e catarses sem fim. O misto de cordas e eletrônico sempre esteve presente em sua discografia, mas em Simulation theory, seu novo trabalho, tudo atinge um outro patamar. Isso porque, na parte eletrônica, a banda decidiu tirar todos os sintetizadores do baú e colocá-los para brilhar na maior parte do álbum. Assim, ao ouvir o novo disco, facilmente é possível fazer ligações com trilhas-sonoras que abusam do recurso oitentista, como a do filme Tron: o legado (Tron legacy, 2010) e da série Stranger things, da Netflix. No geral, não é algo que incomoda, apesar de soar um apelo mais comercial do que conceitual. De qualquer maneira, não é um álbum descartável, com uma abertura já apoteótica com “Algorithm” e, logo na sequência, a arrasa-quarteirões “The dark side”. Há um flerte com um Daft Punk da era Human after all em “Propaganda” e de Discovery em “Blockades” – esta, inclusive, lembra muito as músicas do Muse em The resistance – além de uma quase-balada em “Something Human”. No geral, por tomarem um caminho mais fechado com o estilo anos 80, talvez Simulation theory não resista ao tempo. A conferir.

» “Algorithm

“Egypt station”, por Paul McCartney

paul mccartney

Talvez Egypt Station seja um 8 ou 80 para os fãs do ex-beatle. Isso porque, além de Paul McCartney permitir influências de produtores atuais na maioria das faixas – algo preocupante para fãs de longa data, no sentido de a “originalidade” de Paul não ficar tanto em evidência -, Egypt station é um álbum conceitual. Não à toa, a faixa de abertura é um prólogo de poucos segundos apenas com sons reais de uma estação de trem. Ou seja, conceitualmente Paul McCartney vai nos levar para uma viagem de trem, passando por diversas estações – e cada música seguinte representa uma delas. De início, “I don’t know” já mostra um McCartney a todo vapor, numa balada formada por voz e piano, para logo depois pararmos na estação “Come on to me”, um pop-rock chiclete, com direito a riffs viciantes e uma batida ritmada que dificilmente vai sair da cabeça depois de uma primeira audição. As duas músicas, inclusive, foram escolhidas para formarem o primeiro single do disco. Há, também, incursões mais, digamos, diferentonas para a carreira de Paul McCartney, como nas faixas “Who cares” e “Fuh you” – esta provavelmente vai enfurecer alguns fãs, já que possui um letra bastante rasa, muito incomum na carreira solo do ex-beatle. Inclusive há uma parada no Brasil com “Back in Brazil”. É cheia de clichês musicais na visão do gringo que olha nosso país lá de fora? Sim. Mas dá para perdoar por ser Paul McCartney? Claro.

» “Back in Brazil

“Young romance”, por Roosevelt

roosevelt

Se você é alguém que gosta de um pop alternativo, com elementos eletrônicos e uma camada de sons etéreos, está perdendo tempo se não ouviu Roosevelt ainda. O alemão (mas que canta em inglês) surgiu mais proeminentemente em 2016 com suas estreia homônima, um álbum irretocável. Agora, dois anos depois, o cantor nos brinda com mais uma joia rara da atualidade com Young romance. Os elementos eletrônicos continuam no centro das atenções aqui, mas, assim como o próprio trabalho com as imagens de capa e videoclipes sugere, Young romance é um álbum muito mais ensolarado que o Roosevelt. Do introspectivo para o expansivo, Roosevelt não decepciona. Expande seus horizontes, na verdade, ao trazer camadas mais alegres com “Under the sun” e a ótima “Losing touch” – impossível ao menos não batucar os pés com esta última. Ainda há, porém, espaço para a contemplação mais amena, como em “Yr love” e “Getaway”. Espere também por ouvir metais inspirados como no final de “Shadows” e uma bateria forte em “Illusions”, como o artista já fazia lá no seu primeiro álbum.

» “Losing touch

“Brasileiro”, por Silva

silva

Aparentemente os dias de synth pop alternativo do nacional Silva acabaram. O cantor, que começou de maneira literalmente tímida no cenário musical brasileiro, alçou voos cada vez maiores, saindo do introspectivo Claridão, de 2012, para o mais conceitual e alegre Vista pro mar, de 2014. Em 2015, tornou o simples uma virtude com o econômico em arranjos Júpiter. Parou um tempo para se dedicar ao projeto de covers Silva canta Marisa, o que já demonstrava sua inclinação para caminhos de MPB. E por ali ficou. A prova física é seu novo álbum, Brasileiro. Do nome e da capa às músicas, com suas letras que voltam a atenção para o nosso Brasil e arranjos que gritam Caetano, Gal, Bethânia e Chico Buarque, Brasileiro parece ser uma marca para um artista em constante ebulição. A diferença, agora, é que muito provavelmente não teremos mais um Silva mergulhado nos sintetizadores da era Claridão, já que o nome da primeira faixa indica que “Nada será mais como era antes”. Se isso é algo bom ou ruim, só o tempo dirá. Por enquanto, dá para aproveitar a beleza sem medidas de músicas como “Prova dos nove”, “Milhões de vozes” (esta em parceria com Arnaldo Antunes na composição) e “Guerra de amor”. O misto do Silva de Vista pro mar com o de Brasileiro surge no principal single do disco, “A cor é rosa”. Há, ainda, surpresas instrumentais com “Sapucaia” e “Palmeira”.

» “A cor é rosa

“Bloom”, por Troye Sivan

troye sivan

Assim como qualquer artista pop talentoso, Troye Sivan libertou-se das amarras do álbum de estreia. E como todos questionam o artista que faz sucesso logo no primeiro trabalho se este vai manter o sucesso com o segundo disco, esperava-se muito daquele que, muito novo, alçou patamares grandes em um mercado musical competitivo com Blue Neighbourhood, em 2015. A resposta veio em um álbum pop curto, de pouco mais de meia hora, mas que encara com perfeição a máxima de que menos é mais. Conciso, direto, irretocável. Bloom é uma libertação não apenas pessoal e íntima de Sivan, buscando letras autobiográficas que permeiam sua sexualidade e como ela afeta os arredores de sua vivência, mas seu crescimento como artista, seja seu lado cantor, seja seu lado compositor. O disco é um misto de dedicações, seja ao amor, seja ao sexo, seja ao desapego, seja à tristeza. Aliado a produtores tão talentosos quanto ele, como Ariel Rechtshaid (que produziu para HAIM, Kylie Minogue, Brandon Flowers e Adele), Troye Sivan entrega um segundo trabalho honesto, assumindo o pop como vestimenta perfeita para aquilo que ele deseja falar.

» “My my my!

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Filmes

Nasce uma estrela

Em dois momentos calorosos de Nasce uma estrela (A star is born, 2018), Ally, a protagonista do longa, parte para a briga. No primeiro, ao tentar defender a privacidade de um rapaz que acabou de conhecer; no segundo, contra esse mesmo rapaz, mas agora porque ambos se encontram casados e, em um certo nível, se odeiam. Essas duas cenas têm, tirando os óbvios momentos musicais – que também são muito fortes (porém não todos, é preciso enfatizar) -, um enorme potencial para a história do filme. Ou teriam, pois são apenas duas parcas faíscas logo descartadas pelos roteiristas.

Talvez esse descuido seja resultado de uma história que já passou por diversas versões na própria Hollywood. O roteiro desse reconto mais recente, por exemplo, baseia-se no roteiro de 1976 que, por sua vez, inspira-se no de 1954. Chega a ser levemente vergonhoso saber que uma história tão requentada ainda pode ser contada mais uma vez, afinal, pouquíssimas pessoas aturam café velho colocado novamente no fogo para uma tentativa pífia de agradar o paladar de alguém. No entanto, dependendo do tratamento dado para a história e como ela é conduzida por seu diretor, é possível acompanhar um remake no mínimo respeitoso à obra original (ou, aqui, às obras). Não é o caso.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Não que o ator Bradley Cooper seja incompetente. Sabemos que ele não é. Como ator, pelo menos, cumpre seu papel. Não é o melhor e mais empolgante ator do mundo, mas entrega um Jack honesto. Jack, aliás, é um personagem que cambaleia entre o clássico alcoólatra irrecuperável e o ultrarromântico idealizado: ora se entrega ao copo de bebida ou à cocaína quando percebe que, mais uma vez, a vida lhe escapa entre os dedos, ora trata a mulher que literalmente acabou de conhecer como a principal musa de sua vida. Claro que, para uma audiência no geral, o romance que se inicia entre ele e Ally é algo, digamos, “bonito” de se ver, já que conta com piadinhas leves sobre anatomia facial da moça (uma piada que obviamente vai se tornar bordão ao longo do filme), troca de olhares intensos e todos os clichês possíveis de comédia romântica para acompanhar.

Mas se analisarmos com cuidado o desenvolvimento da própria narrativa e como esses personagens se movem nela e, mais ainda, como eles se expandem nela, o buraco começa a ficar mais embaixo. Isso porque tudo parece, ao mesmo tempo e estranhamente, rápido e lento demais. Explico: o filme tem dolorosas, arrastadas e tediosas 2h16 de duração e, ainda assim, toda a sequência de acontecimentos parece se dar de maneira muito rápida e artificial. Em breves momentos, conhecemos Jack, para logo depois conhecermos Ally, para logo depois sabermos que ela canta magnificamente bem, para logo depois vermos os dois se encontrando, para logo depois ambos se apaixonarem perdidamente e por aí vai. Um tédio sem fim.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Porém, existe a música salpicada nesse marasmo todo. E aí não há escapatória, porque de maneira muito esperta a produção do longa escalou nada menos que Lady Gaga para o papel de Ally. E mesmo que o público não goste do estilo musical da cantora, é inconcebível esse mesmo público não reconhecer nela uma baita cantora – não só talentosa, como verdadeiramente artística. Suas músicas, sua interpretação e suas nuances vocálicas são respiros muito bem-vindas durante a projeção. Momentaneamente saímos da chatice sem fim de um roteiro magro sobre um cantor alcoólatra que não define mais a realidade de sua realidade e sua repentina paixão sem medidas por uma cantora talentosa, e é o que salva.

No entanto, a estrela principal da obra não é a personagem Ally. É, em suma, sua intérprete, Lady Gaga. Não apenas pela potência de sua voz, sua interpretação impecável como verdadeira cantora, mas porque o que vemos na tela pode não ser apenas uma ficção que está no processo de diversas versões desde os anos 50, e sim a história da própria Gaga, resguardadas as devidas diferenças. Temos ali uma desconhecida que trabalha naquilo que não gosta, mas tenta se inserir no mundo da música de alguma forma. Quando é descoberta por um produtor, passa a se vender para um pop genérico, insosso e desesperador de acompanhar. Inclusive, talvez esse momento seja o maior furo do roteiro de Nasce uma estrela: se no início do filme Ally faz questão de mostrar seu descontentamento com aqueles que comandam a indústria da música – os homens, é claro -, logo depois ela mesma vai se render a um homem que a manipula de diversas formas através da maneira, talvez, mais sacana de se manipular alguém: a passivo-agressiva. É com esses deslizes que o filme vai perdendo as próprias tentativas de criar personagens marcantes. Ao fim, eles parecem planos feito herói e mocinha de novela das sete.

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Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Se a intenção de A star is born era ser um filme musical, podemos dizer que foi razoavelmente bem sucedido – mas a direção nada criativa de Bradley Cooper nesse sentido não ajuda a trazer brilhantismo para os números musicais. Se a intenção era ser um romance, mirou no romântico clássico, acertou o folhetim barato de revista erótica de banca, uma coisa meio Sabrina. Se a intenção era ser um filme com toques de comédia, devemos admitir que faz algumas tentativas com bons resultados, mas que se perdem no melodrama grudento da maior parte do longa. Por fim, se a intenção era fazer sucesso, tristemente tudo isso que critiquei antes será, sem dúvida alguma, elementos prontos para alavancar a bilheteria do filme. Afinal, é um longa-metragem estrelando Lady Gaga e Bradley Cooper, com muito romance, comédia, drama e um toque de melancolia sem-vergonha. Ah, tem também uma morte pra fazer todo mundo chorar. Pode ser dela, pode ser dele, pode ser do cachorro. Qualquer uma vai fazer o seu amigo vender o filme para você dizendo que foi um filme “lindo, maravilhoso, me fez chorar muito”. Mas não se engane. É um filme raso. Bem raso. Talvez seja por isso que a própria Lady Gaga canta uma música chamada “Shallow”.

pôster

Pôster: InSync Plus, 2018

A star is born, dirigido por: Bradley Cooper; escrito por: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters (baseado nos roteiros de Moss Hart, de 1954, e de John Gregory Dunne, Joan Didion e Frank Pierson, de 1976 – cujas histórias são baseadas numa história de William Wellman e Robert Carson).

Com: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot, Anthony Ramos, Rafi Gavron, Andrew Dice Clay.

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Filmes

Hereditário

Lidamos com a morte em apenas dois momentos: quando alguém muito próximo falece, deixando-nos com uma dor particular e imensurável, e quando nós mesmos nos encontramos na mesma situação. Mas pensar sobre a morte é um caso mais amplo. Nas artes, por exemplo, há inúmeros exemplos de como autores, pintores, músicos, diretores e atores pensaram a morte e a interpretaram em seus mais diversos níveis e tipos. Desde os antigos gregos e romanos com seus mitos até as atuais formas de se narrar histórias – com o cinema e, mais atuante agora, as séries -, o ser humano fascina e é fascinado pela ideia de perecer: tudo termina por ali mesmo, tornando-se um imenso vazio sem precedentes, ou vamos para outro espaço e tempo?

No cinema, mais propriamente no cinema de terror, a morte é um tema universal e é representada de maneiras mil. O assassino em série que possui o superpoder de continuar ressuscitando em sequências que nunca acabam; a ameaça invisível de um espírito maligno que possui uma garota cuja vida depende de um exorcismo e da crença de uma mãe cética; a claustrofobia de uma única mulher em uma nave a esmo no espaço, à espera por ser dilacerada viva por um organismo hostil e alienígena que surgiu das entranhas de um ex-companheiro de viagem. O leque de variações de como a morte é representada e executada no cinema de terror é amplo, a ponto de nos apresentar exemplos verdadeiramente aterrorizantes e outros muito risíveis – e, muitas vezes, é capaz de nos fazer tremer através do riso, esta válvula de escape para nervos em frangalhos.

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Imagem: A24, 2018

Algo que já comentei em minha resenha sobre A bruxa, filme inclusive da mesma safra da produtora A24, o terror vem mudando um pouco sua identidade ao longo dos últimos anos. Sim, ainda temos inúmeros filmes produzidos com a intenção de assustar o público apenas com sustos na sala de cinema, mas que caem no esquecimento logo que as luzes se acendem; porém, vemos, hoje, um movimento que se preocupa mais com a tensão causada pela história contada através de imagem e de som do que se a plateia vai literalmente pular de susto em suas poltronas. Em A bruxa, a narrativa lenta e arrastada, aliada à fotografia e trilha sonora impactante, afastou muito público que buscava sangue e tripas, cenas óbvias e diálogos manjados. É uma relação interessante a do grande público com o terror, aliás: desejam filmes óbvios, mas reclamam destes; e quando têm exemplares que saem do esperado, reclamam também (até com mais veemência). Em parte, há a indústria cinematográfica, esta que moldou, ao longo das décadas, o público, a ponto de fazê-lo querer o que quer sem saber bem ao certo porque o quer; se a própria indústria continuasse apenas com essa linha de produção, minha argumentação pararia por aqui. Não é o caso, no entanto.

Exemplos como A bruxaCorra!Ao cair da noite provam basicamente duas coisas: 1) a indústria pode, sim, investir em filmes de terror que saem do óbvio e do esperado e 2) a consequência de tal decisão resulta em outra tese também provada com esses e outros exemplos: filmes de terror não são um subgênero fílmico, eles também podem criar, apresentar e provocar arte. Se O exorcista foi e ainda é um exemplo do filme que usa o terror para contar uma história demasiada humana, alguns filmes contemporâneos também possuem o cacife de aterrorizar sem apelar para o torture porn de um O albergue ou explorar um filme bem-sucedido (tanto como arte, quanto como mina de dinheiro) como Invocação do mal, a ponto de espremer a última gota do sumo com sequências sem fim e spin offs disso e daquilo, secando a fonte que deveria estar preservada. Como, enfim, juntar a concepção de morte, tão obrigatoriamente batida ao longo de anos e anos de cinema de terror, e conceitos que se afastam do óbvio para assustar, de verdade, um público?

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Imagem: A24, 2018

Comecemos pela divulgação. Vivemos em tempos modernos, e tempos modernos significam propagação rápida de fatos e notícias, mas principalmente de mentiras. Na era das fake news, o cinema pode (e, em determinados níveis, como é o caso aqui, até deve) tomar para si a ideia de enganar seu público. E aqui vai meu primeiro cumprimento a Hereditário (Hereditary, 2018) e seu time de publicitários: se o público deseja filmes de terror óbvios, nada melhor do que divulgar o filme com um trailer falso. Não que seu conteúdo não esteja no filme, pois está; mas a montagem das peças de divulgação do longa levam o espectador a ter uma outra impressão do filme: vou assistir a um filme de terror sobre espíritos, possessão e, invariavelmente, morte. Isso é verdade? Sim. Mas não da forma que é divulgada pelos trailers.

Se você já enganou o público com a campanha de marketing e provocou um burburinho o suficiente para atrair audiência, agora é esperar pela quebra de expectativa. Claro, há um relação de causa e consequência muito esperada na estratégia de se criar um trailer com uma montagem apelativa ao grande público: ao saírem do cinema, essas pessoas vão saber que foram enganadas. E é nesse ponto que reside o divisor de águas para o diretor, o roteirista e os produtores: perco grande parte do meu público, mas conquisto aqueles que foram ao cinema não pela divulgação, e sim pela arte cinematográfica. Dentro da indústria existe o risco envolvendo um fator essencial chamado dinheiro, mas, nos últimos anos, aqui e ali vemos lançamentos que se arriscam cada vez mais, mesmo com tal agravante rondando ameaçadoramente as produções. No caso de Hereditário, houve uma junção muito favorável à realização do filme: o diretor e roteirista estreante Ari Aster e sua condução lúcida, a presença forte e extremamente profissional de Toni Collette (não apenas como atriz, mas também como produtora) e o sinal verde da produtora A24, que já colheu outros bons frutos com outras produções do gênero.

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Imagem: A24, 2018

Com divulgação e público meio que garantidos, podemos então mergulhar em Hereditário como narrativa, alegoria e todos os outros aspectos que surgem a partir do próprio filme e sua execução. Falar sobre a história em si é um terreno perigoso para quem ainda não viu o filme, ou cenas impactantes se esvaem, mas o longa é, basicamente, um conto sobre medo. Medo não apenas no sentido geral de qualquer filme de terror, mas medos e suas infinitas extensões. A filha com medo da sociedade que a cerca, o filho com medo de não ser incluso em um grupo social, o pai com medo por não poder mais aguentar as pressões, a mãe com medo pois precisa lidar com perdas inestimáveis em um intervalo de tempo muito curto. O medo metafórico, o medo literal. O medo na urgência de uma garganta fechada pela alergia a nozes. O medo de encarar um diálogo familiar pois a atmosfera em um jantar em família é pesada demais para respirar – assim como na garganta fechada pela alergia. O medo de ver um copo se mexendo sozinho em cima de uma mesa ao constatar que existe o além e seus espíritos.

E se a protagonista, Annie (brilhantemente interpretada por Toni Collette), começa a perder o controle sobre o próprio trabalho (a confecção de miniaturas, sejam elas de casas, estruturas ou cenas do dia-a-dia), e, paralelamente, a cena que abre Hereditário quebra com a visão neutra da narrativa ao sugerir um subjetivismo partindo da própria protagonista, em algum momento também perderemos, como público, o nosso controle sobre os fatos que ali se desenrolam. Isso porque o roteiro do próprio Aster parece seguir, até determinado momento do longa, a estrutura clássica de um filme de terror, com as sequências impactantes aumentando sua intensidade aos poucos – primeiro, a decapitação da ave, depois a decapitação do humano (uma ironia, aqui, tanto imagética quanto narrativa); mas o eixo principal de Hereditary não está na intensidade que ali aumenta exponencialmente, está nos soslaios que o roteiro executa com o sobrenatural – e até com o maravilhoso. Então, ao mesmo tempo em que o público está cético com determinadas características que se apresentam em algumas cenas, logo depois a imagem nos prova que algo ali não é natural, não faz parte do real per se. Se estamos sob as rédeas de uma visão subjetiva, a narrativa não pode ser científica.

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Imagem: A24, 2018

Há, também, aliado a essa questão, o posicionamento da câmera em diversos momentos. Na própria cena inicial já citada, o enquadramento é proposital não apenas para mostrar um local de suma importância para os momentos finais do filme, mas também para sugerir esse acúmulo de camadas: o local está dentro da visão de uma janela, e o vemos através da abertura da janela, ou seja, nosso olho vê através de um outro “olho”, ou, por extensão, nossa visão enxerga aquilo que outra visão nos quer mostrar. O girar lento da câmera e seu mergulho dentro de uma outra abertura – agora já sugerindo mais literalmente a nossa submissão ao subjetivismo – indica, de maneira bem sutil, que estamos prestes a ver um filme de terror que não cairá no estilo de câmera tremida / na mão, mas que amedronta com a lentidão e o esticamento sem fim de tomadas e, por consequência, da tensão do público.

No entanto, fotografia vai além da câmera para assustar sua audiência. O olho vermelho da janela na escuridão, a sugestão de alguém estar parado no canto de um cômodo, mas estar escuro demais para definirmos se há realmente alguém ali, a imagem estática de uma casa da árvore que se quebra com o flutuar literal e silencioso de uma pessoa. A transição do dia para a noite e da noite para o dia em cortes bruscos, o choque com a imagem de carne em decomposição sendo devorada por pequenas criaturas rastejantes em um close lento e cirúrgico, a sutil mas impactante diferença entre feições no rosto de Anne ao sair do grito silencioso para a contemplação quase apática de alguém possuído por um espírito maligno. Todas essas nuances desfilam pela tela nesse vai-e-vem entre o real e o sobrenatural, o sobrenatural e o maravilhoso, atordoando psicologicamente a plateia que não sabe se fica boquiaberta ou se ri; a estrutura clássica da tensão que aumenta está ali o tempo todo na narrativa, mas dentro dela há variações com picos impactantes que vão desestabilizando não apenas quem assiste, mas também a própria tensão geral da narrativa.

Aliado e coroando todos esses elementos anteriores, temos as atuações. O quarteto principal, composto por Toni Collette como a mãe, Annie; por Gabriel Byrne como o pai, Steve; por Alex Wolff, como o filho, Peter; e, por fim, por Milly Shapiro como a filha, Charlie, é a força-motriz de Hereditário. Com todas as nuances possíveis, Toni Collette confere à Annie alguém não só atormentada por todo um passado familiar complexo e repleto de traumas, mas também que se esvai numa loucura cada vez mais iminente; sua atuação vai desde momentos mais intensos, como na cena de discussão à mesa do jantar, até sutilezas, como quando confessa algo ao filho que talvez choque mais do que determinadas cenas mais gráficas. Gabriel Byrne, por sua vez, traz a Steve uma calma e um equilíbrio contrastante ao resto da família; lógico, em determinado ponto ele também vai quebrar emocionalmente, e é interessante observar como a cena em que isso acontece é o ponto de partida para que, dentro da narrativa do filme, as coisas comecem a degringolar de vez. E se Peter é o clássico adolescente tentando encontrar sua turma, Alex Wolff projeta em seu rosto não apenas traços blasé de qualquer jovem entediado com a existência, mas de medo e pavor que o transformam em uma verdadeira criança aterrorizada na presença de elementos sobrenaturais. Milly Shapiro, o grande achado da produção, presenteia o público em praticamente todas as cenas em que aparece com seu jeito estranho de se portar, com sua mania de emitir muxoxos audíveis (um tique que assombra em diversos níveis a história do filme) e com seu olhar vazio.

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Imagem: A24, 2018

Além de todo o cuidado com as diversos detalhes, o design de produção trata de maneira excelente a composição dos ambientes internos com elementos importantes, como o estúdio de Annie e suas miniaturas e post-its lembrando-a de tarefas simples (uma piscadela para sua futura demência / perda de memória e, consequentemente, identidade); o quarto de Charlie e sua parede repleta de papeis e ilustrações; a escrivaninha de Peter, limpa, organizada e com cores que transmitem o equilíbrio e a seriedade do personagem; os pertences da falecida mãe de Annie, passado que serve de base para o início da narrativa e também como contato para a parte sobrenatural do longa; e, por fim, a casa na árvore, lugar banhado ora pela luz vermelho-sangue do aquecedor, ora pelo amarelo-sol no final da projeção.

E se Hereditário é uma ode ao Medo – não apenas a morte -, sua estrofe final, ou os últimos quinze minutos de filme, é o teste absoluto para o público. Gostando ou não da narrativa proposta pelo longa, é inevitável não se sentir tenso com a sequência que se inicia de maneira sutil ao mostrar um vulto branco passando pela porta do quarto de Steve e vai aumentando a intensidade conforme este caminha pela casa (em cenas cuja posição da câmera e o andar lento do personagem remetem muito a O iluminado, ainda mais com a presença da trilha sonora baseada em sintetizadores, reforçando ainda mais a sugestão entre ambos os filmes) até eclodir em uma desenfreada corrida por saídas (e que, invariavelmente, desembocam em espaços cada vez mais fechados). Os minutos finais, quebrando com todas as expectativas, vão permear por caminhos lentos e contemplativos, criando imagens arrepiantes não por aquilo que mostra, mas pelos elementos que sugerem – além da tensão gerada pelo silêncio, este que é cortado por um coro de vozes. O local da cena, como cereja do bolo, termina onde tudo começa, em uma rima visual / narrativa deliciosa.

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Pôster: Gravillis Inc., 2018

Hereditary, dirigido e escrito por: Ari Aster.

Com: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd.

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Filmes

Me chame pelo seu nome

Talvez um dos sentimentos mais puros e cristalinos que um ser humano pode vivenciar é o amor verdadeiro. Apesar dessa ideia soar um tanto piegas, amar intensamente alguém pode trazer todas as sensações boas possíveis produzidas por nosso cérebro – se você pensar racionalmente -, assim como as dores imensas provenientes do coração – se lembrarmos de nosso campo sentimental. Amar, portanto, é uma via dupla recompensadora e dolorosa, calmante e destruidora. E a ideia de amar intensamente pela primeira vez é um tema inspirador de muitas obras em todas as artes, seja na música, na poesia ou, nesse caso, no cinema. Amar intensamente pela primeira vez durante um verão italiano, então, soa perigosamente clichê e, ao mesmo tempo, belo. Belo porque encanta, belo porque dói.

Ao longo de suas mais de duas horas de duração, Me chame pelo seu nome (Call me by your name, 2017) cumpre com a missão de apresentar-nos uma história leve como água mineral, e, no entanto, permeada com tormentas e quedas d’água que passam, principalmente, pela cabeça do protagonista, Elio (interpretado pelo talentoso Timothée Chalamet), em seu aprendizado de verão sobre como amar é recompensador, sobre como crescer é doloroso. Em certo momento, seu companheiro de aventuras sentimentais, Oliver (interpretado pelo também talentoso Armie Hammer), pergunta o que ele faz lá, naquela cidade pequena italiana, durante todo o verão; “leio, transcrevo minha música”, é a resposta imediata. Um projeto de verão similar às águas onde Elio costuma se banhar – calmas, paradas e, nas palavras de Oliver, também congelantes.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

A água, inclusive, é um elemento utilizado de maneira inteligente pelo roteirista James Ivory e pelo diretor Luca Guadagnino. Na primeira cena de socialização de Elio e Oliver, no jogo de vôlei com os adolescentes e jovens locais, o protagonista está prestes a entregar uma garrafa de água gelada (um alívio oposto ao sol escaldante de verão, principalmente pra quem está jogando vôlei) para um dos amigos quando Oliver, sem avisar, rouba a garrafa das mãos de Elio e toma um gole. Depois, será o momento em que Elio percebe a não-volta do sentimento que passa a nutrir por Oliver, então decide levá-lo para o seu “local”, como ele mesmo o define. O microcosmo de Elio é um oásis de água das montanhas represada no meio de campos verdejantes, água essa com nascente nas montanhas próximas, como o próprio protagonista faz questão de dizer – “tem algo que você não saiba?” é o questionamento de Oliver em outra cena; Elio está saindo da adolescência, diante de um homem mais velho e, tecnicamente, mais experiente: ele precisa provar-se, afinal. Por último, no arco dramático do casal Elio e Oliver, temos a presença das águas da montanha; porém, diferentemente da pequena represa particular e calma de Elio, essas águas são agitadas, perigosas – ameaçadoras até. É a metáfora de Ivory-Guadagnino avisando Elio que tempos conturbados estão próximos, mesmo que ele não saiba ou ignore, em estado de negação.

Assim, as alterações emocionais causadas pelo amor de verão de Elio e Oliver estarão presentes em muitos detalhes de Me chame pelo seu nome, desde as nuances na linguagem corporal trabalhada por Chalamet e seu Elio inseguro, passional e, algumas vezes, infantil, até a preocupação de Oliver, este que, ao notar o amor irrefreável surgindo entre ele e Elio, por diversas vezes hesita e até impede do jovem continuar demonstrando seus sentimentos de forma física, repetindo que conhece suas próprias atitudes e que não quer decepcioná-lo. As construções dos dois personagens, dessa forma, seguem um ritmo ao mesmo tempo parecido e particular, cada um a seu estilo: Elio, de início, esnobando a presença do mais velho forasteiro e, com o tempo, deixando-se levar pela paixão irrefreável que toma conta de si; Oliver, a princípio tomando suas decisões de maneira cautelosa (cautelosa em demasia, como na cena do vôlei), e mais tarde também entregando-se ao amor. Ambos, inclusive, irão mostrar um para o outro e, ao mesmo tempo, para eles mesmos, que também podem e conseguem atrair e se relacionar com garotas, um jogo de gato e rato que acaba aumentando ainda mais a tensão sexual e amorosa entre os dois rapazes.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

E apesar de todo o retrato idílico que o amor de Elio e Oliver provoca ao longo do filme, a porção final, arrebatadora a seu modo, vem para nos lembrar do outro lado do amor verdadeiro: a dor. No início do filme, em uma cena muito rápida, a narrativa esbarra na citação de Heráclito sobre não podermos entrar duas vezes num mesmo rio – na segunda vez, mesmo que estejamos no mesmo rio que entramos anteriormente, suas águas já são outras, aquelas primeiras já passaram e estão há muito longe de nós; e, por consequência, nós também somos outras pessoas, também mudadas, também com outras águas fluindo em nós -, e, ao final, a metáfora da água, que começou parada, calma, passou pela água gelada, pelo suor, pelo sumo do pêssego e pelas cachoeiras revoltosas e ameaçadoras, agora transforma-se em flocos de neve, em uma paisagem homogênea e confortante – mas que não deixa de ameaçar Elio. Antes, porém, ele recebe uma das lições mais valiosas que um pai pode dar a seu filho: a natureza sempre arranja meios de atingir nossos pontos mais fracos. Em uma cena de monólogo inspirada, o pai de Elio (interpretado por Michael Stuhlbarg) emocionará não apenas o filho, mas todo o público que acompanha o longa.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

Tal qual um dos epigramas gregos mais verdadeiros à arte, “a beleza é dura, é cruel, é chocante”, tópico inclusive discutido entre o pai de Elio e Oliver enquanto contemplam slides de esculturas gregas e sua imitação perfeita da estética do corpo humano, Call me by your name é uma alegoria bela e cruel a seu modo. Assim como Oliver entra nas águas calmas e congelantes de Elio, em um batizado pagão e sem volta; assim como Elio penetra o pêssego buscando uma água mais doce e arrepende-se imediatamente de seu ato “impuro”; assim como nenhum dos dois permanecem os mesmos após um misturar-se à água do outro – inclusive misturando seus próprios nomes -, o público também não é o mesmo ao contemplar a cena final de Me chame pelo seu nome. Fria como a neve lá fora, indiferente como as chamas que crepitam diante do rosto belo e chocante de Elio, a arte da obra de Luca Guadagnino flui em nós, doce como um pêssego vibrante ao sol de verão, amarga como uma despedida sem volta.

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Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Call me by your name, dirigido por Luca Guadagnino, escrito por James Ivory (baseado no livro Me chame pelo seu nome, de André Aciman).

Com: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Vanda Capriolo, André Aciman.

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Séries

Black mirror

O que mais nos assusta em Black mirror? A tecnologia avançada? As reviravoltas na maioria dos episódios? Ou a soma desses dois fatores e a capacidade inata do ser humano causar dor através de sentimentos mais profundos como o amor, o ódio, a inveja e a ganância? Parece não haver um consenso que responda tais questões, e esse talvez seja o ponto de maior sucesso da série britânica, responsável por índices grandes de audiência e de discussões pós-transmissão dos episódios desde sua estreia em dezembro de 2011.

O consenso, aqui, não deve necessariamente existir, já que, estruturalmente, Black mirror não se prende a um núcleo apenas de personagens e arcos dramáticos, trazendo uma nova história e sua respectiva (ou não) conclusão ao final de cada episódio. Assim, enquanto uma parcela da audiência vai se sentir frustrada com o desenrolar dos fatores em determinado capítulo, é bem provável que um outro grupo considere a mesma história um primor da narrativa moderna. E “frustração” parece ser a sensação mais buscada pelo criador e principal roteirista da série, Charlie Brooker, em seus espectadores.

Dentre tantos encontros e desencontros dentro dos consensos pertinentes à qualidade de Black mirror, é inegável que seu grande sucesso e consequente repercussão dá-se porque a série não se rende às pressões midiáticas para tornar-se, ao longo do tempo, mais “palpável” em busca de mais audiência. Black mirror é idealizada e, vejam bem, realizada para que você se sinta frustrado. E essa frustração pode vir de duas formas: a partir de uma história que não terminou da forma como você, mero espectador, gostaria que acabasse; ou a partir das conclusões que alguns episódios podem sugerir a você através dos temas e discussões levantados ao longo de seus roteiros.

Ou seja, ou nos frustramos porque o final não era aquele que gostaríamos, ou nos frustramos porque, dependendo do resultado das ações dos personagens, somos humanos como aqueles retratados na série, mesmo alocados em um espaço-tempo distópico, a par de uma tecnologia preponderante, e, dessa maneira, igualmente passíveis de errar e nos levarmos a consequências como as retratadas nas histórias da série. Assim, Black mirror começa a pesar em nossas costas quando passamos a perceber que o problema ali presente não é a tecnologia, nem o uso que os humanos fazem dela; o problema são os humanos, seres paradoxais a ponto de desenvolverem tecnologias impressionantes, mas ainda incapazes de utilizá-las de maneira exemplar, já que, apesar de evoluídos, ainda somos irracionais e passionais o bastante para nos frustrar das piores maneiras possíveis.

Com tudo isso em mente, os fãs da série e os novatos receberam de maneira bem negativa a notícia de que o Channel 4, rede televisiva britânica, não veicularia mais Black mirror além das duas primeiras curtíssimas temporadas – 3 episódios cada – e seu especial de Natal. O alívio (e surpresa também) veio com a confirmação de que a série voltaria para as telas do público, mas agora com a Netflix. Sintam a ironia. Por um lado, isso poderia ser uma boa notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas; já do outro, isso poderia ser uma péssima notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas. E a segunda possibilidade parece refletir agora na recém-lançada quarta temporada, no final de dezembro de 2017.

Dois anos após o especial de Natal transmitido pelo Channel 4, a Netflix anunciou a compra dos direitos da série e a produção de 12 episódios, que seriam divididos em duas novas temporadas. Apesar da qualidade dos seis primeiros, incluindo aí suas estruturas e o estilo peculiar de Black mirror apresentar personagens e histórias sem esperanças, tendendo para conclusões pessimistas e, por vezes, até niilistas – excluindo-se, aqui, obviamente, o drama com ares idílicos “San Junipero”, o alívio da terceira temporada -, os seis últimos episódios da mais nova temporada merecem uma análise mais pormenorizada. Já podemos afirmar, de antemão, que Black mirror não mantém mais sua uniformidade em relação à qualidade e à capacidade de nos surpreender. A questão principal, então, é: isso necessariamente é ruim?

Os episódios

Antes de partir para uma análise de cada episódio da quarta e mais recente temporada, aviso que não haverá spoilers aqui prejudicando as sessões de cada um depois, caso você ainda não os tenha visto.

Seguindo uma tendência já observada na temporada anterior, Charlie Brooker preparou episódios mais longos (o primeiro, “USS Callister”, com quase 1h20 de duração), deixando mais espaço para o desenvolvimento de personagens e, no caso do último capítulo, “Black Museum”, mais tempo de cena para o desenrolar dos três “contos” que ali se entrelaçam. Num mundo atual, onde a modernidade ordena uma agilidade para tudo o que produzimos e consumimos, é de se notar que Black mirror, ainda mais por comentar tópicos relacionados à tecnologia e, consequentemente, à sua efemeridade, traga episódios que ultrapassem a marca de uma hora, um verdadeiro suplício para diversas pessoas acostumadas com o ritmo frenético das produções dos últimos anos – ainda mais quando se fala em séries.

O foco, na 4ª temporada, ainda é as relações humanas em um futuro incerto, mas dominado pelo uso da tecnologia. Apesar de flertar com a ficção científica e elementos de narrativas distópicas (mais acentuado no quarto episódio, “Hang the DJ”), a intenção de Black mirror é escanear, de diversas maneiras, o comportamento humano, cercado e cerceado por seus sentimentos, tentando se equilibrar entre a razão e a emoção constantemente. Sendo a tecnologia um canalizador ou um energético para as decisões humanas, ela pode ser considerada, ainda, dentro da série, o “pano de fundo”, e não necessariamente a protagonista (como vemos no terceiro episódio, “Crocodile”).

  • “USS Callister”

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Imagem: Netflix, 2017

O primeiro episódio da 4ª temporada potencializa a visão de Black mirror de como a tecnologia possibilita, mas não estimula as atitudes negativas do ser humano. Isso fica claro a partir do jogo de aparências que o roteiro cria com o protagonista.

A princípio demonstrando, para o espectador, atitudes mais introvertidas e sua inegável subordinação ao provável antagonista do episódio, ele passa de mocinho a vilão em questão de minutos, e isso não é obra do personagem em si, mas do roteiro: estruturada a partir de uma homenagem a Star trek, e, por isso, filmada em um aspecto de tela mais largo, dando um ar mais cinematográfico para o episódio, a história vai montar o caráter do protagonista por meio da visão de uma das personagens, que tem sua visão de admiradora quebrada com o desenrolar dos acontecimentos. Tal visão – e sua mudança – é importante para o julgamento do público.

Apesar de não acentuar tanto seu “quê” de Black mirror, “USS Callister” possui méritos ao desenvolver um personagem com “síndrome de Deus” crível e, ao mesmo tempo, estereotipado, sem cair em um aspecto novelesco. É uma história que esbarra na imagem clássica do nerd antissocial e desmonta sem necessariamente, com isso, afirmar que tal imagem clássica seja o problema para as atitudes do personagem.

  • “Arkangel”

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Imagem: Netflix, 2017

O segundo episódio retrata um tema muito caro à literatura e ao cinema mundiais: a relação mãe e filho. Aqui, porém, teremos a adição da tecnologia como tempero para os problemas que vão explodir de maneira inevitável.

“Arkangel” é o primeiro episódio de Black mirror dirigido por uma mulher e, logo de cara, temos Jodie Foster no comando da produção. Talvez isso reflita na qualidade das atuações aqui, com Rosemarie DeWitt (de La la land, 2016) interpretando a mãe e Brenna Harding a filha, a dupla que conduz o ritmo e a história. A ligação tecnológica entre mãe e filha cria um cordão umbilical high-tech sem volta, potencializando a sensação de propriedade que Marie tem sobre Sara. E, diferentemente do episódio anterior, “Arkangel” traz alguns elementos que retomam a sensação amarga de que estamos acompanhando não apenas uma história comum, mas sim um episódio de Black mirror.

  • “Crocodile”

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Imagem: Netflix, 2017

Porém é aqui, com “Crocodile”, que o fundo do poço das emoções humanas se aproxima mais do espectador.

Com o roteiro mais bem estruturado da temporada, o episódio vai entrelaçar duas histórias, num ritmo que se torna cada vez mais pesado de acompanhar conforme os minutos vão passando. “Crocodile” é o exemplo máximo, na 4ª temporada, de que a tecnologia presente dentro da história está ali apenas como base, pois as ações da protagonista, Mia Nolan (interpretada pela ótima Andrea Riseborough), são os principais pontos do episódio, variando do medo ao mais profundo desespero.

É nesse terceiro episódio que Black mirror volta às suas origens, apresentando uma história que prende o espectador através, inicialmente, de uma tensão, passa pelo suspense e chega ao seu ápice com sequências sem volta, legando ao público  uma sensação de amargor e desesperança.

  • “Hang the DJ”

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Imagem: Netflix, 2017

Assim como o “San Junipero” da terceira temporada, “Hang the DJ” traz uma pausa saudável para o ritmo de histórias mais negativas, com seu pico em “Crocodile”.

Apesar de haver, aqui, ainda, aspectos mais melancólicos que endereçam mensagens bem claras a toda uma geração baseada em encontros amorosos ou sexuais promovidos por aplicativos de celular, “Hang the DJ” usa a motivação de revolução dentro de um ambiente opressor e distópico para desenvolver seus personagens. O casal protagonista desperta a simpatia do público em questão de minutos, e, com isso, passamos a sofrer junto com os personagens quando as regras do sistema em que vivem começam a influenciar demais em suas vidas.

  • “Metalhead”

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Imagem: Netflix, 2017

Já “Metalhead” é o grande escorregão de Charlie Brooker. São quarenta minutos de completo desperdício de vida.

Movido por uma protagonista que não se sustenta, já que o roteiro não entrega para o público motivações suficiente para que ela aja da maneira que age, um vilão ultra-tecnológico que também não apresenta nenhum propósito a não ser matar e coadjuvantes completamente inúteis (em todos os sentidos, dentro e fora da narrativa), o episódio é completamente esquecível.

“Ah, mas há referências à Revolução dos bichos, de George Orwell e uma fotografia em preto e branco muito bonita”. Pois é, mas e a relação disso tudo dentro dos significados da narrativa? Completamente rasa. Roteiro preguiçoso, personagens planos e uma cena final enervante (no pior sentido do termo).

  • “Black Museum”

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Imagem: Netflix, 2017

Após o desastre de “Metalhead”, “Black Museum” retoma a qualidade tão conhecida de Black mirror, trazendo tensão e aditivando ações humanas terríveis através da tecnologia.

O grande mérito do episódio não é, porém, seu final “surpreendente”, mas sim a estrutura de sua narrativa: com um personagem servindo de narrador para outras histórias dentro da história, “Black Museum” tem um ar de livro de contos de Stephen King, e uma das histórias contada pelo personagem, inclusive, poderia ter desenvolvimento próprio.

Essa história foi baseada num conto escrito por Penn Jillette, mas nunca publicado. O autor tentou publicá-la no final da década de 80, mas seu editor achou o conteúdo muito “sombrio”. Ele também tentou transformá-la em filme, na época, mas foi recusada novamente. Muitos anos depois, Jillette almoçou com Charlie Brooker e comentou sobre seu conto renegado. O criador de Black mirror gostou da ideia no mesmo momento e prometeu incluí-la, de alguma forma, na série. Cumprindo com sua palavra, Brooker baseou-se na história de Penn Jillette, intitulada “Pain addict”, para rechear grande parte de “Black Museum”.

E é “Pain addict” que devolve o tom de Black mirror para seu devido ritmo após o desastre em “Metalhead”.

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Pôster: LA, 2017

Black mirror, criada por: Charlie Brooker; escrita por: Charlie Brooker, William Bridges; dirigida por: Jodie Foster, Toby Haynes, John Hillcoat, Colm McCarthy, David Slade, Timothy Van Patten.

Com: Daniel Lapaine, Michaela Coel, Georgina Campbell, Rosemarie DeWitt, Douglas Hodge, Maxine Peake, Jesse Plemons, Andrea Riseborough, Joe Cole, Brenna Harding.

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