Filmes

Hereditário

Lidamos com a morte em apenas dois momentos: quando alguém muito próximo falece, deixando-nos com uma dor particular e imensurável, e quando nós mesmos nos encontramos na mesma situação. Mas pensar sobre a morte é um caso mais amplo. Nas artes, por exemplo, há inúmeros exemplos de como autores, pintores, músicos, diretores e atores pensaram a morte e a interpretaram em seus mais diversos níveis e tipos. Desde os antigos gregos e romanos com seus mitos até as atuais formas de se narrar histórias – com o cinema e, mais atuante agora, as séries -, o ser humano fascina e é fascinado pela ideia de perecer: tudo termina por ali mesmo, tornando-se um imenso vazio sem precedentes, ou vamos para outro espaço e tempo?

No cinema, mais propriamente no cinema de terror, a morte é um tema universal e é representada de maneiras mil. O assassino em série que possui o superpoder de continuar ressuscitando em sequências que nunca acabam; a ameaça invisível de um espírito maligno que possui uma garota cuja vida depende de um exorcismo e da crença de uma mãe cética; a claustrofobia de uma única mulher em uma nave a esmo no espaço, à espera por ser dilacerada viva por um organismo hostil e alienígena que surgiu das entranhas de um ex-companheiro de viagem. O leque de variações de como a morte é representada e executada no cinema de terror é amplo, a ponto de nos apresentar exemplos verdadeiramente aterrorizantes e outros muito risíveis – e, muitas vezes, é capaz de nos fazer tremer através do riso, esta válvula de escape para nervos em frangalhos.

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Imagem: A24, 2018

Algo que já comentei em minha resenha sobre A bruxa, filme inclusive da mesma safra da produtora A24, o terror vem mudando um pouco sua identidade ao longo dos últimos anos. Sim, ainda temos inúmeros filmes produzidos com a intenção de assustar o público apenas com sustos na sala de cinema, mas que caem no esquecimento logo que as luzes se acendem; porém, vemos, hoje, um movimento que se preocupa mais com a tensão causada pela história contada através de imagem e de som do que se a plateia vai literalmente pular de susto em suas poltronas. Em A bruxa, a narrativa lenta e arrastada, aliada à fotografia e trilha sonora impactante, afastou muito público que buscava sangue e tripas, cenas óbvias e diálogos manjados. É uma relação interessante a do grande público com o terror, aliás: desejam filmes óbvios, mas reclamam destes; e quando têm exemplares que saem do esperado, reclamam também (até com mais veemência). Em parte, há a indústria cinematográfica, esta que moldou, ao longo das décadas, o público, a ponto de fazê-lo querer o que quer sem saber bem ao certo porque o quer; se a própria indústria continuasse apenas com essa linha de produção, minha argumentação pararia por aqui. Não é o caso, no entanto.

Exemplos como A bruxaCorra!Ao cair da noite provam basicamente duas coisas: 1) a indústria pode, sim, investir em filmes de terror que saem do óbvio e do esperado e 2) a consequência de tal decisão resulta em outra tese também provada com esses e outros exemplos: filmes de terror não são um subgênero fílmico, eles também podem criar, apresentar e provocar arte. Se O exorcista foi e ainda é um exemplo do filme que usa o terror para contar uma história demasiada humana, alguns filmes contemporâneos também possuem o cacife de aterrorizar sem apelar para o torture porn de um O albergue ou explorar um filme bem-sucedido (tanto como arte, quanto como mina de dinheiro) como Invocação do mal, a ponto de espremer a última gota do sumo com sequências sem fim e spin offs disso e daquilo, secando a fonte que deveria estar preservada. Como, enfim, juntar a concepção de morte, tão obrigatoriamente batida ao longo de anos e anos de cinema de terror, e conceitos que se afastam do óbvio para assustar, de verdade, um público?

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Imagem: A24, 2018

Comecemos pela divulgação. Vivemos em tempos modernos, e tempos modernos significam propagação rápida de fatos e notícias, mas principalmente de mentiras. Na era das fake news, o cinema pode (e, em determinados níveis, como é o caso aqui, até deve) tomar para si a ideia de enganar seu público. E aqui vai meu primeiro cumprimento a Hereditário (Hereditary, 2018) e seu time de publicitários: se o público deseja filmes de terror óbvios, nada melhor do que divulgar o filme com um trailer falso. Não que seu conteúdo não esteja no filme, pois está; mas a montagem das peças de divulgação do longa levam o espectador a ter uma outra impressão do filme: vou assistir a um filme de terror sobre espíritos, possessão e, invariavelmente, morte. Isso é verdade? Sim. Mas não da forma que é divulgada pelos trailers.

Se você já enganou o público com a campanha de marketing e provocou um burburinho o suficiente para atrair audiência, agora é esperar pela quebra de expectativa. Claro, há um relação de causa e consequência muito esperada na estratégia de se criar um trailer com uma montagem apelativa ao grande público: ao saírem do cinema, essas pessoas vão saber que foram enganadas. E é nesse ponto que reside o divisor de águas para o diretor, o roteirista e os produtores: perco grande parte do meu público, mas conquisto aqueles que foram ao cinema não pela divulgação, e sim pela arte cinematográfica. Dentro da indústria existe o risco envolvendo um fator essencial chamado dinheiro, mas, nos últimos anos, aqui e ali vemos lançamentos que se arriscam cada vez mais, mesmo com tal agravante rondando ameaçadoramente as produções. No caso de Hereditário, houve uma junção muito favorável à realização do filme: o diretor e roteirista estreante Ari Aster e sua condução lúcida, a presença forte e extremamente profissional de Toni Collette (não apenas como atriz, mas também como produtora) e o sinal verde da produtora A24, que já colheu outros bons frutos com outras produções do gênero.

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Imagem: A24, 2018

Com divulgação e público meio que garantidos, podemos então mergulhar em Hereditário como narrativa, alegoria e todos os outros aspectos que surgem a partir do próprio filme e sua execução. Falar sobre a história em si é um terreno perigoso para quem ainda não viu o filme, ou cenas impactantes se esvaem, mas o longa é, basicamente, um conto sobre medo. Medo não apenas no sentido geral de qualquer filme de terror, mas medos e suas infinitas extensões. A filha com medo da sociedade que a cerca, o filho com medo de não ser incluso em um grupo social, o pai com medo por não poder mais aguentar as pressões, a mãe com medo pois precisa lidar com perdas inestimáveis em um intervalo de tempo muito curto. O medo metafórico, o medo literal. O medo na urgência de uma garganta fechada pela alergia a nozes. O medo de encarar um diálogo familiar pois a atmosfera em um jantar em família é pesada demais para respirar – assim como na garganta fechada pela alergia. O medo de ver um copo se mexendo sozinho em cima de uma mesa ao constatar que existe o além e seus espíritos.

E se a protagonista, Annie (brilhantemente interpretada por Toni Collette), começa a perder o controle sobre o próprio trabalho (a confecção de miniaturas, sejam elas de casas, estruturas ou cenas do dia-a-dia), e, paralelamente, a cena que abre Hereditário quebra com a visão neutra da narrativa ao sugerir um subjetivismo partindo da própria protagonista, em algum momento também perderemos, como público, o nosso controle sobre os fatos que ali se desenrolam. Isso porque o roteiro do próprio Aster parece seguir, até determinado momento do longa, a estrutura clássica de um filme de terror, com as sequências impactantes aumentando sua intensidade aos poucos – primeiro, a decapitação da ave, depois a decapitação do humano (uma ironia, aqui, tanto imagética quanto narrativa); mas o eixo principal de Hereditary não está na intensidade que ali aumenta exponencialmente, está nos soslaios que o roteiro executa com o sobrenatural – e até com o maravilhoso. Então, ao mesmo tempo em que o público está cético com determinadas características que se apresentam em algumas cenas, logo depois a imagem nos prova que algo ali não é natural, não faz parte do real per se. Se estamos sob as rédeas de uma visão subjetiva, a narrativa não pode ser científica.

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Imagem: A24, 2018

Há, também, aliado a essa questão, o posicionamento da câmera em diversos momentos. Na própria cena inicial já citada, o enquadramento é proposital não apenas para mostrar um local de suma importância para os momentos finais do filme, mas também para sugerir esse acúmulo de camadas: o local está dentro da visão de uma janela, e o vemos através da abertura da janela, ou seja, nosso olho vê através de um outro “olho”, ou, por extensão, nossa visão enxerga aquilo que outra visão nos quer mostrar. O girar lento da câmera e seu mergulho dentro de uma outra abertura – agora já sugerindo mais literalmente a nossa submissão ao subjetivismo – indica, de maneira bem sutil, que estamos prestes a ver um filme de terror que não cairá no estilo de câmera tremida / na mão, mas que amedronta com a lentidão e o esticamento sem fim de tomadas e, por consequência, da tensão do público.

No entanto, fotografia vai além da câmera para assustar sua audiência. O olho vermelho da janela na escuridão, a sugestão de alguém estar parado no canto de um cômodo, mas estar escuro demais para definirmos se há realmente alguém ali, a imagem estática de uma casa da árvore que se quebra com o flutuar literal e silencioso de uma pessoa. A transição do dia para a noite e da noite para o dia em cortes bruscos, o choque com a imagem de carne em decomposição sendo devorada por pequenas criaturas rastejantes em um close lento e cirúrgico, a sutil mas impactante diferença entre feições no rosto de Anne ao sair do grito silencioso para a contemplação quase apática de alguém possuído por um espírito maligno. Todas essas nuances desfilam pela tela nesse vai-e-vem entre o real e o sobrenatural, o sobrenatural e o maravilhoso, atordoando psicologicamente a plateia que não sabe se fica boquiaberta ou se ri; a estrutura clássica da tensão que aumenta está ali o tempo todo na narrativa, mas dentro dela há variações com picos impactantes que vão desestabilizando não apenas quem assiste, mas também a própria tensão geral da narrativa.

Aliado e coroando todos esses elementos anteriores, temos as atuações. O quarteto principal, composto por Toni Collette como a mãe, Annie; por Gabriel Byrne como o pai, Steve; por Alex Wolff, como o filho, Peter; e, por fim, por Milly Shapiro como a filha, Charlie, é a força-motriz de Hereditário. Com todas as nuances possíveis, Toni Collette confere à Annie alguém não só atormentada por todo um passado familiar complexo e repleto de traumas, mas também que se esvai numa loucura cada vez mais iminente; sua atuação vai desde momentos mais intensos, como na cena de discussão à mesa do jantar, até sutilezas, como quando confessa algo ao filho que talvez choque mais do que determinadas cenas mais gráficas. Gabriel Byrne, por sua vez, traz a Steve uma calma e um equilíbrio contrastante ao resto da família; lógico, em determinado ponto ele também vai quebrar emocionalmente, e é interessante observar como a cena em que isso acontece é o ponto de partida para que, dentro da narrativa do filme, as coisas comecem a degringolar de vez. E se Peter é o clássico adolescente tentando encontrar sua turma, Alex Wolff projeta em seu rosto não apenas traços blasé de qualquer jovem entediado com a existência, mas de medo e pavor que o transformam em uma verdadeira criança aterrorizada na presença de elementos sobrenaturais. Milly Shapiro, o grande achado da produção, presenteia o público em praticamente todas as cenas em que aparece com seu jeito estranho de se portar, com sua mania de emitir muxoxos audíveis (um tique que assombra em diversos níveis a história do filme) e com seu olhar vazio.

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Imagem: A24, 2018

Além de todo o cuidado com as diversos detalhes, o design de produção trata de maneira excelente a composição dos ambientes internos com elementos importantes, como o estúdio de Annie e suas miniaturas e post-its lembrando-a de tarefas simples (uma piscadela para sua futura demência / perda de memória e, consequentemente, identidade); o quarto de Charlie e sua parede repleta de papeis e ilustrações; a escrivaninha de Peter, limpa, organizada e com cores que transmitem o equilíbrio e a seriedade do personagem; os pertences da falecida mãe de Annie, passado que serve de base para o início da narrativa e também como contato para a parte sobrenatural do longa; e, por fim, a casa na árvore, lugar banhado ora pela luz vermelho-sangue do aquecedor, ora pelo amarelo-sol no final da projeção.

E se Hereditário é uma ode ao Medo – não apenas a morte -, sua estrofe final, ou os últimos quinze minutos de filme, é o teste absoluto para o público. Gostando ou não da narrativa proposta pelo longa, é inevitável não se sentir tenso com a sequência que se inicia de maneira sutil ao mostrar um vulto branco passando pela porta do quarto de Steve e vai aumentando a intensidade conforme este caminha pela casa (em cenas cuja posição da câmera e o andar lento do personagem remetem muito a O iluminado, ainda mais com a presença da trilha sonora baseada em sintetizadores, reforçando ainda mais a sugestão entre ambos os filmes) até eclodir em uma desenfreada corrida por saídas (e que, invariavelmente, desembocam em espaços cada vez mais fechados). Os minutos finais, quebrando com todas as expectativas, vão permear por caminhos lentos e contemplativos, criando imagens arrepiantes não por aquilo que mostra, mas pelos elementos que sugerem – além da tensão gerada pelo silêncio, este que é cortado por um coro de vozes. O local da cena, como cereja do bolo, termina onde tudo começa, em uma rima visual / narrativa deliciosa.

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Pôster: Gravillis Inc., 2018

Hereditary, dirigido e escrito por: Ari Aster.

Com: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd.

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Filmes

Me chame pelo seu nome

Talvez um dos sentimentos mais puros e cristalinos que um ser humano pode vivenciar é o amor verdadeiro. Apesar dessa ideia soar um tanto piegas, amar intensamente alguém pode trazer todas as sensações boas possíveis produzidas por nosso cérebro – se você pensar racionalmente -, assim como as dores imensas provenientes do coração – se lembrarmos de nosso campo sentimental. Amar, portanto, é uma via dupla recompensadora e dolorosa, calmante e destruidora. E a ideia de amar intensamente pela primeira vez é um tema inspirador de muitas obras em todas as artes, seja na música, na poesia ou, nesse caso, no cinema. Amar intensamente pela primeira vez durante um verão italiano, então, soa perigosamente clichê e, ao mesmo tempo, belo. Belo porque encanta, belo porque dói.

Ao longo de suas mais de duas horas de duração, Me chame pelo seu nome (Call me by your name, 2017) cumpre com a missão de apresentar-nos uma história leve como água mineral, e, no entanto, permeada com tormentas e quedas d’água que passam, principalmente, pela cabeça do protagonista, Elio (interpretado pelo talentoso Timothée Chalamet), em seu aprendizado de verão sobre como amar é recompensador, sobre como crescer é doloroso. Em certo momento, seu companheiro de aventuras sentimentais, Oliver (interpretado pelo também talentoso Armie Hammer), pergunta o que ele faz lá, naquela cidade pequena italiana, durante todo o verão; “leio, transcrevo minha música”, é a resposta imediata. Um projeto de verão similar às águas onde Elio costuma se banhar – calmas, paradas e, nas palavras de Oliver, também congelantes.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

A água, inclusive, é um elemento utilizado de maneira inteligente pelo roteirista James Ivory e pelo diretor Luca Guadagnino. Na primeira cena de socialização de Elio e Oliver, no jogo de vôlei com os adolescentes e jovens locais, o protagonista está prestes a entregar uma garrafa de água gelada (um alívio oposto ao sol escaldante de verão, principalmente pra quem está jogando vôlei) para um dos amigos quando Oliver, sem avisar, rouba a garrafa das mãos de Elio e toma um gole. Depois, será o momento em que Elio percebe a não-volta do sentimento que passa a nutrir por Oliver, então decide levá-lo para o seu “local”, como ele mesmo o define. O microcosmo de Elio é um oásis de água das montanhas represada no meio de campos verdejantes, água essa com nascente nas montanhas próximas, como o próprio protagonista faz questão de dizer – “tem algo que você não saiba?” é o questionamento de Oliver em outra cena; Elio está saindo da adolescência, diante de um homem mais velho e, tecnicamente, mais experiente: ele precisa provar-se, afinal. Por último, no arco dramático do casal Elio e Oliver, temos a presença das águas da montanha; porém, diferentemente da pequena represa particular e calma de Elio, essas águas são agitadas, perigosas – ameaçadoras até. É a metáfora de Ivory-Guadagnino avisando Elio que tempos conturbados estão próximos, mesmo que ele não saiba ou ignore, em estado de negação.

Assim, as alterações emocionais causadas pelo amor de verão de Elio e Oliver estarão presentes em muitos detalhes de Me chame pelo seu nome, desde as nuances na linguagem corporal trabalhada por Chalamet e seu Elio inseguro, passional e, algumas vezes, infantil, até a preocupação de Oliver, este que, ao notar o amor irrefreável surgindo entre ele e Elio, por diversas vezes hesita e até impede do jovem continuar demonstrando seus sentimentos de forma física, repetindo que conhece suas próprias atitudes e que não quer decepcioná-lo. As construções dos dois personagens, dessa forma, seguem um ritmo ao mesmo tempo parecido e particular, cada um a seu estilo: Elio, de início, esnobando a presença do mais velho forasteiro e, com o tempo, deixando-se levar pela paixão irrefreável que toma conta de si; Oliver, a princípio tomando suas decisões de maneira cautelosa (cautelosa em demasia, como na cena do vôlei), e mais tarde também entregando-se ao amor. Ambos, inclusive, irão mostrar um para o outro e, ao mesmo tempo, para eles mesmos, que também podem e conseguem atrair e se relacionar com garotas, um jogo de gato e rato que acaba aumentando ainda mais a tensão sexual e amorosa entre os dois rapazes.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

E apesar de todo o retrato idílico que o amor de Elio e Oliver provoca ao longo do filme, a porção final, arrebatadora a seu modo, vem para nos lembrar do outro lado do amor verdadeiro: a dor. No início do filme, em uma cena muito rápida, a narrativa esbarra na citação de Heráclito sobre não podermos entrar duas vezes num mesmo rio – na segunda vez, mesmo que estejamos no mesmo rio que entramos anteriormente, suas águas já são outras, aquelas primeiras já passaram e estão há muito longe de nós; e, por consequência, nós também somos outras pessoas, também mudadas, também com outras águas fluindo em nós -, e, ao final, a metáfora da água, que começou parada, calma, passou pela água gelada, pelo suor, pelo sumo do pêssego e pelas cachoeiras revoltosas e ameaçadoras, agora transforma-se em flocos de neve, em uma paisagem homogênea e confortante – mas que não deixa de ameaçar Elio. Antes, porém, ele recebe uma das lições mais valiosas que um pai pode dar a seu filho: a natureza sempre arranja meios de atingir nossos pontos mais fracos. Em uma cena de monólogo inspirada, o pai de Elio (interpretado por Michael Stuhlbarg) emocionará não apenas o filho, mas todo o público que acompanha o longa.

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Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

Tal qual um dos epigramas gregos mais verdadeiros à arte, “a beleza é dura, é cruel, é chocante”, tópico inclusive discutido entre o pai de Elio e Oliver enquanto contemplam slides de esculturas gregas e sua imitação perfeita da estética do corpo humano, Call me by your name é uma alegoria bela e cruel a seu modo. Assim como Oliver entra nas águas calmas e congelantes de Elio, em um batizado pagão e sem volta; assim como Elio penetra o pêssego buscando uma água mais doce e arrepende-se imediatamente de seu ato “impuro”; assim como nenhum dos dois permanecem os mesmos após um misturar-se à água do outro – inclusive misturando seus próprios nomes -, o público também não é o mesmo ao contemplar a cena final de Me chame pelo seu nome. Fria como a neve lá fora, indiferente como as chamas que crepitam diante do rosto belo e chocante de Elio, a arte da obra de Luca Guadagnino flui em nós, doce como um pêssego vibrante ao sol de verão, amarga como uma despedida sem volta.

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Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Call me by your name, dirigido por Luca Guadagnino, escrito por James Ivory (baseado no livro Me chame pelo seu nome, de André Aciman).

Com: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Vanda Capriolo, André Aciman.

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Séries

Black mirror

O que mais nos assusta em Black mirror? A tecnologia avançada? As reviravoltas na maioria dos episódios? Ou a soma desses dois fatores e a capacidade inata do ser humano causar dor através de sentimentos mais profundos como o amor, o ódio, a inveja e a ganância? Parece não haver um consenso que responda tais questões, e esse talvez seja o ponto de maior sucesso da série britânica, responsável por índices grandes de audiência e de discussões pós-transmissão dos episódios desde sua estreia em dezembro de 2011.

O consenso, aqui, não deve necessariamente existir, já que, estruturalmente, Black mirror não se prende a um núcleo apenas de personagens e arcos dramáticos, trazendo uma nova história e sua respectiva (ou não) conclusão ao final de cada episódio. Assim, enquanto uma parcela da audiência vai se sentir frustrada com o desenrolar dos fatores em determinado capítulo, é bem provável que um outro grupo considere a mesma história um primor da narrativa moderna. E “frustração” parece ser a sensação mais buscada pelo criador e principal roteirista da série, Charlie Brooker, em seus espectadores.

Dentre tantos encontros e desencontros dentro dos consensos pertinentes à qualidade de Black mirror, é inegável que seu grande sucesso e consequente repercussão dá-se porque a série não se rende às pressões midiáticas para tornar-se, ao longo do tempo, mais “palpável” em busca de mais audiência. Black mirror é idealizada e, vejam bem, realizada para que você se sinta frustrado. E essa frustração pode vir de duas formas: a partir de uma história que não terminou da forma como você, mero espectador, gostaria que acabasse; ou a partir das conclusões que alguns episódios podem sugerir a você através dos temas e discussões levantados ao longo de seus roteiros.

Ou seja, ou nos frustramos porque o final não era aquele que gostaríamos, ou nos frustramos porque, dependendo do resultado das ações dos personagens, somos humanos como aqueles retratados na série, mesmo alocados em um espaço-tempo distópico, a par de uma tecnologia preponderante, e, dessa maneira, igualmente passíveis de errar e nos levarmos a consequências como as retratadas nas histórias da série. Assim, Black mirror começa a pesar em nossas costas quando passamos a perceber que o problema ali presente não é a tecnologia, nem o uso que os humanos fazem dela; o problema são os humanos, seres paradoxais a ponto de desenvolverem tecnologias impressionantes, mas ainda incapazes de utilizá-las de maneira exemplar, já que, apesar de evoluídos, ainda somos irracionais e passionais o bastante para nos frustrar das piores maneiras possíveis.

Com tudo isso em mente, os fãs da série e os novatos receberam de maneira bem negativa a notícia de que o Channel 4, rede televisiva britânica, não veicularia mais Black mirror além das duas primeiras curtíssimas temporadas – 3 episódios cada – e seu especial de Natal. O alívio (e surpresa também) veio com a confirmação de que a série voltaria para as telas do público, mas agora com a Netflix. Sintam a ironia. Por um lado, isso poderia ser uma boa notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas; já do outro, isso poderia ser uma péssima notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas. E a segunda possibilidade parece refletir agora na recém-lançada quarta temporada, no final de dezembro de 2017.

Dois anos após o especial de Natal transmitido pelo Channel 4, a Netflix anunciou a compra dos direitos da série e a produção de 12 episódios, que seriam divididos em duas novas temporadas. Apesar da qualidade dos seis primeiros, incluindo aí suas estruturas e o estilo peculiar de Black mirror apresentar personagens e histórias sem esperanças, tendendo para conclusões pessimistas e, por vezes, até niilistas – excluindo-se, aqui, obviamente, o drama com ares idílicos “San Junipero”, o alívio da terceira temporada -, os seis últimos episódios da mais nova temporada merecem uma análise mais pormenorizada. Já podemos afirmar, de antemão, que Black mirror não mantém mais sua uniformidade em relação à qualidade e à capacidade de nos surpreender. A questão principal, então, é: isso necessariamente é ruim?

Os episódios

Antes de partir para uma análise de cada episódio da quarta e mais recente temporada, aviso que não haverá spoilers aqui prejudicando as sessões de cada um depois, caso você ainda não os tenha visto.

Seguindo uma tendência já observada na temporada anterior, Charlie Brooker preparou episódios mais longos (o primeiro, “USS Callister”, com quase 1h20 de duração), deixando mais espaço para o desenvolvimento de personagens e, no caso do último capítulo, “Black Museum”, mais tempo de cena para o desenrolar dos três “contos” que ali se entrelaçam. Num mundo atual, onde a modernidade ordena uma agilidade para tudo o que produzimos e consumimos, é de se notar que Black mirror, ainda mais por comentar tópicos relacionados à tecnologia e, consequentemente, à sua efemeridade, traga episódios que ultrapassem a marca de uma hora, um verdadeiro suplício para diversas pessoas acostumadas com o ritmo frenético das produções dos últimos anos – ainda mais quando se fala em séries.

O foco, na 4ª temporada, ainda é as relações humanas em um futuro incerto, mas dominado pelo uso da tecnologia. Apesar de flertar com a ficção científica e elementos de narrativas distópicas (mais acentuado no quarto episódio, “Hang the DJ”), a intenção de Black mirror é escanear, de diversas maneiras, o comportamento humano, cercado e cerceado por seus sentimentos, tentando se equilibrar entre a razão e a emoção constantemente. Sendo a tecnologia um canalizador ou um energético para as decisões humanas, ela pode ser considerada, ainda, dentro da série, o “pano de fundo”, e não necessariamente a protagonista (como vemos no terceiro episódio, “Crocodile”).

  • “USS Callister”

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Imagem: Netflix, 2017

O primeiro episódio da 4ª temporada potencializa a visão de Black mirror de como a tecnologia possibilita, mas não estimula as atitudes negativas do ser humano. Isso fica claro a partir do jogo de aparências que o roteiro cria com o protagonista.

A princípio demonstrando, para o espectador, atitudes mais introvertidas e sua inegável subordinação ao provável antagonista do episódio, ele passa de mocinho a vilão em questão de minutos, e isso não é obra do personagem em si, mas do roteiro: estruturada a partir de uma homenagem a Star trek, e, por isso, filmada em um aspecto de tela mais largo, dando um ar mais cinematográfico para o episódio, a história vai montar o caráter do protagonista por meio da visão de uma das personagens, que tem sua visão de admiradora quebrada com o desenrolar dos acontecimentos. Tal visão – e sua mudança – é importante para o julgamento do público.

Apesar de não acentuar tanto seu “quê” de Black mirror, “USS Callister” possui méritos ao desenvolver um personagem com “síndrome de Deus” crível e, ao mesmo tempo, estereotipado, sem cair em um aspecto novelesco. É uma história que esbarra na imagem clássica do nerd antissocial e desmonta sem necessariamente, com isso, afirmar que tal imagem clássica seja o problema para as atitudes do personagem.

  • “Arkangel”

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Imagem: Netflix, 2017

O segundo episódio retrata um tema muito caro à literatura e ao cinema mundiais: a relação mãe e filho. Aqui, porém, teremos a adição da tecnologia como tempero para os problemas que vão explodir de maneira inevitável.

“Arkangel” é o primeiro episódio de Black mirror dirigido por uma mulher e, logo de cara, temos Jodie Foster no comando da produção. Talvez isso reflita na qualidade das atuações aqui, com Rosemarie DeWitt (de La la land, 2016) interpretando a mãe e Brenna Harding a filha, a dupla que conduz o ritmo e a história. A ligação tecnológica entre mãe e filha cria um cordão umbilical high-tech sem volta, potencializando a sensação de propriedade que Marie tem sobre Sara. E, diferentemente do episódio anterior, “Arkangel” traz alguns elementos que retomam a sensação amarga de que estamos acompanhando não apenas uma história comum, mas sim um episódio de Black mirror.

  • “Crocodile”

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Imagem: Netflix, 2017

Porém é aqui, com “Crocodile”, que o fundo do poço das emoções humanas se aproxima mais do espectador.

Com o roteiro mais bem estruturado da temporada, o episódio vai entrelaçar duas histórias, num ritmo que se torna cada vez mais pesado de acompanhar conforme os minutos vão passando. “Crocodile” é o exemplo máximo, na 4ª temporada, de que a tecnologia presente dentro da história está ali apenas como base, pois as ações da protagonista, Mia Nolan (interpretada pela ótima Andrea Riseborough), são os principais pontos do episódio, variando do medo ao mais profundo desespero.

É nesse terceiro episódio que Black mirror volta às suas origens, apresentando uma história que prende o espectador através, inicialmente, de uma tensão, passa pelo suspense e chega ao seu ápice com sequências sem volta, legando ao público  uma sensação de amargor e desesperança.

  • “Hang the DJ”

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Imagem: Netflix, 2017

Assim como o “San Junipero” da terceira temporada, “Hang the DJ” traz uma pausa saudável para o ritmo de histórias mais negativas, com seu pico em “Crocodile”.

Apesar de haver, aqui, ainda, aspectos mais melancólicos que endereçam mensagens bem claras a toda uma geração baseada em encontros amorosos ou sexuais promovidos por aplicativos de celular, “Hang the DJ” usa a motivação de revolução dentro de um ambiente opressor e distópico para desenvolver seus personagens. O casal protagonista desperta a simpatia do público em questão de minutos, e, com isso, passamos a sofrer junto com os personagens quando as regras do sistema em que vivem começam a influenciar demais em suas vidas.

  • “Metalhead”

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Imagem: Netflix, 2017

Já “Metalhead” é o grande escorregão de Charlie Brooker. São quarenta minutos de completo desperdício de vida.

Movido por uma protagonista que não se sustenta, já que o roteiro não entrega para o público motivações suficiente para que ela aja da maneira que age, um vilão ultra-tecnológico que também não apresenta nenhum propósito a não ser matar e coadjuvantes completamente inúteis (em todos os sentidos, dentro e fora da narrativa), o episódio é completamente esquecível.

“Ah, mas há referências à Revolução dos bichos, de George Orwell e uma fotografia em preto e branco muito bonita”. Pois é, mas e a relação disso tudo dentro dos significados da narrativa? Completamente rasa. Roteiro preguiçoso, personagens planos e uma cena final enervante (no pior sentido do termo).

  • “Black Museum”

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Imagem: Netflix, 2017

Após o desastre de “Metalhead”, “Black Museum” retoma a qualidade tão conhecida de Black mirror, trazendo tensão e aditivando ações humanas terríveis através da tecnologia.

O grande mérito do episódio não é, porém, seu final “surpreendente”, mas sim a estrutura de sua narrativa: com um personagem servindo de narrador para outras histórias dentro da história, “Black Museum” tem um ar de livro de contos de Stephen King, e uma das histórias contada pelo personagem, inclusive, poderia ter desenvolvimento próprio.

Essa história foi baseada num conto escrito por Penn Jillette, mas nunca publicado. O autor tentou publicá-la no final da década de 80, mas seu editor achou o conteúdo muito “sombrio”. Ele também tentou transformá-la em filme, na época, mas foi recusada novamente. Muitos anos depois, Jillette almoçou com Charlie Brooker e comentou sobre seu conto renegado. O criador de Black mirror gostou da ideia no mesmo momento e prometeu incluí-la, de alguma forma, na série. Cumprindo com sua palavra, Brooker baseou-se na história de Penn Jillette, intitulada “Pain addict”, para rechear grande parte de “Black Museum”.

E é “Pain addict” que devolve o tom de Black mirror para seu devido ritmo após o desastre em “Metalhead”.

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Pôster: LA, 2017

Black mirror, criada por: Charlie Brooker; escrita por: Charlie Brooker, William Bridges; dirigida por: Jodie Foster, Toby Haynes, John Hillcoat, Colm McCarthy, David Slade, Timothy Van Patten.

Com: Daniel Lapaine, Michaela Coel, Georgina Campbell, Rosemarie DeWitt, Douglas Hodge, Maxine Peake, Jesse Plemons, Andrea Riseborough, Joe Cole, Brenna Harding.

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