Séries

Mad men

Fui atraído pela ideia de iniciar Mad men (Idem, 2007-2015) com a proposta da série em retratar a rotina de uma agência publicitária americana nos idos dos anos 1960. Como formado na área de Letras, meu interesse pela palavra e pela imagem e seu mais variado uso pelas áreas do conhecimento humano invariavelmente passa pela propaganda. Ao saber que Mad men mostrava os bastidores do mundo publicitário, pensei, por um momento, que acompanharia os processos de criação de uma propaganda e as consequências de sua veiculação.

Pobre de mim.

Não que a série tenha me decepcionado nesse nível. Em diversos episódios, é possível conhecer os procedimentos utilizados para se convencer, em primeiro lugar, os executivos da empresa que pagarão pelos anúncios a serem produzidos, e, depois, o grande público, aquele que consumirá o produto vendido.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Porém, Mad men é uma narrativa profunda, vai muito além da casca publicitária, da rotina nova-iorquina do pós-guerra. Enveredar por seus episódios é aprofundar-se em personagens rasos e complexos – rasos em caráter, complexos psicologicamente; é ver-se em um redemoinho de reflexões sobre como nos consideramos meros produtos em uma loja – pior, em uma propaganda -, como nos tornamos os produtos que almejamos obter.

Alie, agora, todo esse pano de fundo com um tratamento visual apurado. Claro, seria no mínimo irônico assistir a uma série que tem como temática principal a imagem das coisas (coisas-objeto, coisas-produto, coisas-pessoa) se essa não prezasse por sua própria imagem.

Alie, também, a atuação de cada profissional ali presente para trazer à vida personagens, como já disse, muito rasos em suas imagens próprias, mas abismais em seus complexos e problemáticas pessoais. Alie, por fim, dois elementos que funcionam como combustíveis para a narrativa completar-se em uma obra audiovisual digna de prêmios – como todos que merecidamente colecionou – e, mais importante ainda, de nossa atenção: os contextos históricos de cada década pelas quais Mad men passa – os falsos inocentes e morais anos 60, os exóticos anos 70, os decadentes anos 80 – e, talvez acima de tudo em determinados episódios e cenas específicas, a apurada trilha-sonora.

O vazio

Talvez, além da imagem, a temática mais trabalhada ao longo das sete temporadas seja o vazio inerente ao ser humano. Presente em todos nós, em maior ou menor grau, o vazio tonifica-se aqui devido ao meio em que os personagens se encontram: cidade grande, rotinas automatizadas, meio capitalista de produção e consumo de itens descartáveis para uma sociedade refém do descartável. Dificilmente haverá, ali, alguém preocupado com algo além das próprias roupas, cabelos, sapatos, bolsas, maquiagens. Porém, o jogo temático de Mad men já começa por aí: achamos, como plateia, que ali não há personagens com personalidade, apenas fantoches manipulados por uma indústria fadada à falência.

Mas é o vazio que realmente importa.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Assim, em diversos episódios, é possível notar cenas escritas apenas para explorar esse vazio que emana do personagem, do meio em que se encontra, dos assuntos que trata com outros personagens ou tudo ao mesmo tempo. Vemos, portanto, cenas com o protagonista contemplando o horizonte cinza de Nova York a partir da janela de seu escritório; os céus a partir de um cenário externo, no campo; o mar a partir da praia onde finge estar em férias com a esposa; a piscina azul e convidativa do hotel no qual se hospeda para criar mentiras confortáveis a seus clientes e pessoas com quem deseja se relacionar para preencher vazios dentro de vazios. E os vazios encontram-se também, mais perigosos ainda, nos espaços fechados: o sócio tentando suicídio dentro do carro fechado, o sócio enforcando-se dentro do cubículo onde trabalha, as traições conjugais dentro de quartos de hotéis, dentro de carros, dentro do apartamento da vizinha. Não à toa, a própria abertura mostra o publicitário caindo em um redemoinho de propagandas (mentiras) em direção ao nada branco (vazio), para, logo depois, cortar a cena e dar um zoom out que sai das costas desse publicitário – e ele está, vejam só, contemplando, vejam só, o vazio novamente.

Mad men, então, ao trabalhar com esse vazio inerente, jogará com o público a partir de seus julgamentos morais. Apesar de casados, protagonistas e personagens secundários traem seus respectivos parceiros. Apesar de comprometidos com determinada empresa, protagonistas e personagens secundários encontram-se com a concorrência para possíveis acordos profissionais mais vantajosos. Apesar de possuírem determinadas convicções político-sociais e convicções religiosas, protagonistas e personagens secundários dançarão conforme a música ditar e o dinheiro cair na conta. Não há como negar que esse vazio é algo atraente, ainda mais quando alia-se a temática com o visual chic do decadentismo banhado a glamour vintage, com a presença de cigarros acesos, taças de vinho, ambientes esfumaçados e todo um clima de cinema noir.

Não há como negar também, como consequência de toda a construção narrativa da série, a atração que surge em nós para cada personagem.

Joan

Assim como Peggy, a qual tratarei com detalhes mais adiante, Joan Harris possui um arco narrativo de ascensão. Apesar de ser apresentada logo de início como alguém subalterna dentro da agência, sua posição ainda impõe um determinado poder sobre diversas personagens – essencialmente femininas -, o que cria um apelo certeiro ao público.

Há um misto de poder com fragilidade em  Joan.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Sua principal defesa dentro daquele meio social intricado é impor-se com palavras que corroem e olhos que perfuram. Aos homens, fica também reservado seu visual proeminente, com direito a cabelos e lábios vermelhos como fogo e peitos naturalmente avantajados, uma distração quase publicitária para homens heterossexuais com infindáveis dólares em suas carteiras.

Por dentro, porém, Joan encolhe-se diante da impossibilidade de manter um relacionamento fixo, idealizado por ela mesma em diversos momentos, mas que não passa de uma propaganda própria para se iludir – todos nós precisamos de um sonho inalcançável para acreditarmos em um sentido na vida, mesmo que esse sonho e, consequentemente, o sentido, não exista.

Roger

Cínico, realista e atraente por todos os motivos errados.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Dentre todos os personagens apresentados por Mad men, um dos principais sócios da inicialmente Sterling-Cooper talvez seja o mais honesto – mesmo que cultive, ao longo dos anos, a imagem do canalha sem conserto. Honesto pois, ao ser cínico, trabalha com acidez as verdades que muitas vezes precisam ser realmente ditas; ao ser realista, mantém-se no poder econômico no qual se encontra e, claro, não deseja perder; ao permanecer atraente, mesmo sendo mais velhos que os demais, trabalha a imagem-própria a seu favor.

O conjunto, portanto, é apelativo demais para se deixar passar batido.

Peter

Egoísta.

Não há adjetivo melhor para Pete Campbell.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Talvez poderíamos incluir aqui também a ambição como parte principal de sua composição como personagem, mas, mais cedo ou mais tarde, ela também transforma-se em egoísmo. Se seu cliente não está contente, é porque a agência não acredita em seu potencial; se decidem por alterar os trâmites de uma determinada negociação, é porque a conta é dele; se seu casamento desmoronou e a relação com sua filha é tênue, é porque ninguém o compreende.

O eterno adolescente.

Betty

Não há como não suspirar ao pensar em Betty Draper.

Ela é, com toda a certeza, a personagem-modelo para a ideia que comentei logo no início sobre Mad men trabalhar com a imagem de cada personagem para que pensemos justamente no vazio intrínseco à história.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aqui temos um arco clássico de ascensão e decadência. A fútil mulher suburbana, loira, rica, dona-de-casa e refém do marido e filhos. Impossível não olhar para Betty e sua existência e não pensar em Ana, a complexa, mas aparente fútil, personagem de Clarice Lispector para seu grandioso conto “Amor”. Um dia, Betty Draper também assiste ao cego mascando chicles. Um dia, os ovos na sacola de crochê de Betty também caem por causa do solavanco do bonde. Um dia, Betty Draper também entra em uma epifania.

E como é saboroso acompanhar o amor e o ódio que disputam lugar em nós enquanto acompanhamos sua subida e inevitável descida. Acompanhar seu fim pode deixar um gosto amargo, mas jamais indigno.

Peggy

Inicialmente a doce, inocente, ingênua e, muitas vezes, burra Peggy nos encanta com seu olhar cheio de brilho, daqueles que pertencem à adolescente forasteira, daquela de repente morando na cidade grande, trabalhando numa respeitosa e emergente agência de publicidade, secretária do já lendário e eternamente misterioso Don Draper.

Porém, o que parecia o enredo de A redoma de vidro, de Sylvia Plath, torna-se algo inesperado com a primeira quebra narrativa que a personagem sofre ao ver-se grávida e, sem (aparentemente) remorsos, consequente desejo de livrar-se do próprio filho – seu futuro profissional não comporta uma criança. E, ao longo das sete temporadas, o público acompanha mais e mais quebras narrativas em Peggy. Apesar de sua casca de personagem óbvia, Peggy nos prova que, cada vez mais, vai se tornando seu pior nêmesis: a figura de homem frio cristalizada em Don Draper.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aliás, a grande importância no enredo de Peggy é a necessidade (assim como Joan, em um menor nível) de tornar-se um homem – não literalmente, claro, mas ser considerada de igual para igual dentro do ambiente profissional no qual vai galgando novas posições conforme suas habilidades são demonstradas e provadas arduamente. Estamos, inicialmente, nos anos 1960, e nos anos 60 é preciso ser homem para ser alguém.

(Não que hoje seja diferente)

Também funcionando como alívio cômico – na maioria massiva das vezes, destilando um humor involuntário no público que prova mais uma vez a elegância da produção da série -, Peggy vai se equilibrar (e desequilibrar) na linha tênue entre submissa silenciosa e tirana irremediável. O poder sobe à cabeça de todos, é óbvio. E é divertido observar como ela vai lidar com tal fato.

Don Draper

Falar sobre Don Draper renderia muitas linhas. Mas tentarei ser conciso.

Sua imagem dentro da série é a canalizadora de todas as temáticas abordadas nos demais personagens ao longo das temporadas.

Frio, soturno, talentoso e atraente, Don Draper cresceu em ambientes e vivenciou situação ao longo da vida que se tornam ingredientes minuciosos na composição de seu eu publicitário. Ele precisa inventar verdades, como o subtítulo da adaptação brasileira do título nos diz, e, para isso, precisa saber mentir bem. E ele sabe.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Seu talento, portanto, é um constructo cuidadoso proveniente não apenas das estratégias que usa para convencer seus clientes a pagarem por mentiras a serem contadas sobre seus produtos (a mentira na mentira, um mise en abyme inevitável), mas também das mentiras que conta às suas esposas, às suas amantes, aos seus filhos, aos seus colegas de trabalho e, principalmente, a si mesmo.

Don Draper não é importante para a série apenas por ser homem, engomadinho, sexy, talentoso e um mentiroso nato. Don é uma propaganda viva. E como tem consciência disso, usará todas as artimanhas disponíveis em si próprio e ao seu redor para que isso cause qualquer resultado, seja ele direcionado à agência, à sua família, às suas amantes, à sua conta bancária ou a si mesmo.

Don Draper é, portanto, cada um de nós.

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Pôster: The Refinery (fotografia por: Frank Ockenfels)

Mad men, criada por: Matthew Weiner; escrita por: Matthew Weiner, Jonathan Igla, Kater Gordon, André Jacquemetton, Maria Jacquemetton, Erin Levy, Carly Wray, Lisa Albert, Semi Chellas, Robin Veith, Dahvi Walter, Bridget Bedard, Tom Palmer, Chris Provenzano, Marti Noxon, Brett Johnson, Cathryn Humphris, Janet Leahy, Jonathan Abrahams, Victor Levin, Tom Smuts, Jane Anderson, Rick Cleveland, Andrew Colville, Keith Huff, Tracy McMillan, Frank Pierson, Jason Grote, Heather Jens Bladt, David Iserson; dirigida por: Phil Abraham, Michael Uppendahl, Jennifer Getzinger, Matthew Weiner, Scott Hornbacher, Lesli Linka Glatter, Tim Hunter, John Slattery, Andrew Bernstein, Alan Taylor, Chris Manley, Jon Hamm, Ed Bianchi, Paul Feig, Barbet Schroeder, Daisy von Scherler Mayer, Lynn Shelton, Matt Shakman, Jared Harris.

Com: John Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, John Slattery, Kiernan Shipka, Robert Morse, Christopher Stanley, Jessica Paré, Jay R. Ferguson, Alison Brie, Jared Harris, Kavin Rahm, Mason Vale Cotton, Ben Fieldman, Mark Moses, Teyonah Parris, Stephanie Drake, Jared Gilmore, Talia Balsam, Marten Holden Weiner, Elizabeth Rice.

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Filmes, Listas

Os 12 Melhores de 2015

Ano novo, lista nova.

Seguindo a tradição, eis aqui mais uma lista, agora dos melhores filmes que vi em 2015. Lembrando que esta lista não é um ranking (os filmes estão em ordem alfabética), mas uma compilação simples dos que considero os melhores do ano passado – sejam eles melhores por sua direção, roteiro, elenco, fotografia ou até mesmo pelo entretenimento propriamente dito.

Excetuando Boa noite, mamãe (Ich seh, ich seh, 2014), que ainda vai estrear oficialmente aqui no Brasil, e Relatos selvagens (Relatos salvajes, 2014), todos os demais filmes estrearam em 2015 nos cinemas brasileiros.

Se você quer dar uma olhada na lista dos melhores de 2014, é só clicar aqui.

1_Birdman

Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância), 2014; dir: Alejandro González Iñárritu

Lembro que houve muita discussão na internet, há um ano, quando Birdman ganhou o Oscar de Melhor Filme. O favorito, claro, era Boyhood. Arrisco dizer que gostei um tanto mais de Birdman do que da saga de 12 anos do Linklater; obviamente não desmereço esta obra, principalmente por sua experiência cinematográfica única… mas Birdman tem um quê especial para cair nas graças das premiações. É um ótimo filme, com seu texto ácido, suas atuações explosivas e um plano-sequência (forjado, vamos ser honestos) atordoador. Michael Keaton no papel principal vai fazer você ter diversas reações e julgamentos ao que é verdade e mentira nesse longa cômico, dramático, aventuresco e, acima de tudo, cinematográfico.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

2_Boa noite, mamãe

Boa noite, mamãe, 2014; dir: Veronika Franz e Severin Fiala

Se você pretende ver um filme de terror repleto de cenas com sangue jorrando, trilha sonora aumentando o volume repentinamente para pular na poltrona e assassino sendo descoberto no final, Boa noite, mamãe não é a escolha correta. O filme preza por algo que está cada vez mais raro no cinema atual: o velho filme de terror que assusta sem ser gratuito, aquele que brinca com nossos medos psicológicos, com os receios mais primitivos. A premissa da história pode até ser batida e a maioria das pessoas corre o risco de sacar a reviravolta do roteiro antes do momento certo, mas ainda assim vale a pena conferir esse filme estranho – porém competente no que promete cumprir.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

3_Corrente do mal

Corrente do mal, 2014; dir: David Robert Mitchell

Com trilha sonora independente e eletrônica, ambientando o filme como se fosse uma peça rara dos anos 80, Corrente do mal tem todo o estilo cru de um John Carpenter. O vilão do filme, no entanto, é invisível, um serial killer transmitido através de um ato primordial para qualquer ser humano e que começa a se manifestar em uma das épocas mais conturbadas: a adolescência. Junte aí a fotografia inteligente e cortes seguidos por cenas perturbadoras. Se você esperar por um final redondinho, então é melhor parar por aí. It follows não se importa em entregar uma trama com começo, meio e fim, e isso já é muito relevante quando se trata de um terror americano.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

4_Divertida mente

Divertida mente, 2015; dir: Pete Docter e Ronniel Del Carmen

Uma das inspirações para os filmes da Pixar sempre foi Hayao Miyazaki e isso sempre ficou claro, tanto para o espectador quanto para os próprios realizadores. Em Divertida mente, porém, a Pixar parece abraçar de vez as melhores influências que o mestre japonês da animação poderia passar e entrega um filme completamente adulto (mas, ainda assim, perfeitamente direcionado para as crianças). Acompanhar a pequena protagonista através de seus sentimentos não é apenas uma sacada que movimenta o filme do começo ao fim, mas sim tentar não se emocionar com diversos diálogos e, o principal, aprender que sem a tristeza, não seríamos felizes. Complexo demais? De forma alguma. Inside out traduz o que há de mais complicado em nossos cérebros da maneira mais lúdica e bonita possível. Filmão.

Clique aqui para ler a resenha do filme e aqui para ver seu trailer.

5_O homem irracional

O homem irracional, 2015; dir: Woody Allen

Assistir a um filme de Woody Allen no cinema é sentir-se em casa. Sabemos como ele começa, com seus créditos em ordem alfabética e uma música aconchegante tocando de fundo (um jazz sedutor), acompanhamos logo depois o personagem principal se apresentando através de uma narração off e, a partir daí, Allen pode nos surpreender. Me parece que o momento de inspiração voltou para o cineasta nesse O homem irracional, com uma atuação interessante de Joaquin Phoenix dentro de uma comédia repleta de ironias e diálogos filosóficos. A ironia principal fica para o final do filme. E vale a sessão.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

6_Jurassic world

Jurassic World: o mundo dos dinossauros, 2015; dir: Colin Trevorrow

A volta de uma das franquias mais famosas do cinema é sempre um terreno perigoso: para os fãs, que esperam sempre uma continuação melhor que a anterior; e para o estúdio, na expectativa de fazer milhões ou até bilhões na arrecadação. No caso de Jurassic world, tudo bem para todos. O filme trouxe o divertimento que faltava a Jurassic park III e o clima de aventura que Spielberg prezou no original. É claro que o filme cai sobre os ombros de Bryce Dallas Howard e Chris Pratt, mas ambos dão conta do recado – ou fugir de um tiranossauro rex usando saltos é pouco para você? Obrigatório para os fãs dos dinos.

Clique aqui para ler a resenha do filme e aqui para ver seu trailer.

7_Mad Max

Mad Max: estrada da fúria, 2015; dir: George Miller

Vamos chover no molhado e elogiar Charlize Theron e sua Imperatriz Furiosa? Falar bem da (proposital) fotografia acelerada? Da loucura que é acompanhar as perseguições e sequências de ação desse filme? Não importa se você não acompanhou os capítulos anteriores da obra de Miller, Mad Max: estrada da fúria é um filmaço. Não perca a oportunidade de ver um guitarrista fazendo solos enquanto é içado de um carro e a trilha sonora industrial de Junkie XL (o DJ responsável pelo remix de “A little less conversation”, de Elvis Presley).

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8_Missão impossível

Missão Impossível: nação secreta, 2015; dir: Christopher McQuarrie

Quem diria que em 2015 ainda veríamos Tom Cruise como o agente secreto Ethan? E o fôlego é grande, para o ator e para o público também. O filme é divertido o bastante e traz Cruise correndo (de verdade) como se não houvesse amanhã e presente (de verdade, sem dublês) em cenas de ação, digamos, um pouco perigosas – como se segurar à porta de um avião enquanto ele decola, por exemplo. E se você acha que a divulgação em massa dessa cena (em trailer e pôsteres) estraga o filme, está enganado: Nação fantasma ainda guarda muitas surpresas e sequências de ação de tirar o chapéu. Pegue a pipoca e prepare-se para ouvir mais uma vez o tema de Missão impossível tocando na tela.

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9_Que horas ela volta

Que horas ela volta?, 2015; dir: Anna Muylaert

O cinema nacional prova, a cada ano, a sua importância e qualidade com filmes como Que horas ela volta?. Enquanto a maioria das salas de cinema do país passam enlatados como Até que a sorte nos separe e afins, o novo filme da diretora Anna Muylaert surpreendeu não apenas pela sua abrangência, mas principalmente por sua repercussão. Repleto de diálogos cortantes e situações constrangedoras para as camadas sociais mais abastadas – ou não, gente rica sempre acha que está certa -, a obra é Regina Casé e vice-versa. Mas também é a jovem atriz Camila Márdila, roubando todas as cenas em que está presente. Se ver os filmes de Leandro Hassum é uma opção, Que horas ela volta? é uma obrigação cultural (num bom sentido, é claro).

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10_Relatos selvagens

Relatos selvagens, 2014; dir: Damián Szifrón

A linha tênue entre o racional e o selvagem. Quantas vezes pensamos em perder o controle nas mais diversas situações? Bem, o diretor Damián Szifrón faz questão de reunir diversos contos nesse longa surpreendente por sua qualidade técnica e humor negro. Prepare-se para presenciar uma das cenas mais inacreditáveis do cinema, se identificar com a vingança de uma noiva em sua própria festa de casamento e rir da desgraça alheia sem um pingo de culpa. A crítica social está injetada em todos os segmentos, então não pense que não há peso no roteiro de Relatos selvagens. Surpreenda-se com o cinema argentino.

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11_Vício inerente

Vício inerente, 2014; dir: Paul Thomas Anderson

Joaquin Phoenix na pele de um detetive que vive mais chapado com maconha do que na realidade em si. Precisa de mais motivos para assistir a Vício inerente? Claro: a direção sempre maestral de PTA, com sua linguagem cinematográfica através da fotografia noir que registra uma Los Angeles dos anos 70. Isso sem contar a trilha sonora e a presença de cena mais do que bem-vinda da jovem Katherine Waterston. E o roteiro é baseado na obra homônima de Thomas Pynchon – anote esse nome para sua próxima leitura.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

12_Whiplash

Whiplash: em busca da perfeição, 2014; dir: Damien Chazelle

Teste fatal para qualquer cardíaco, o filme que rendeu um Oscar para a embasbacante atuação de J. K. Simmons constrói sua tensão aos poucos, mas ela é inevitável da metade para o fim da projeção. Sinta-se na pele de um aprendiz que deseja ultrapassar a perfeição através do comando de um dos professores mais odiosos que o cinema já teve o desprazer de criar. O mais incrível? O diretor de Whiplash foi um dos roteiristas de O último exorcismo – Parte 2.

Clique aqui para ler a resenha do filme e aqui para ver seu trailer.

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Filmes

Whiplash: Em busca da perfeição

É difícil de acreditar que a mesma mente que trabalhou no roteiro de O Último Exorcismo – Parte 2 (The Last Exorcism Part II, 2013), concebeu, em 2014, Whiplash. Talvez Damien Chazelle seja a prova viva de que talento e dedicação não estão diretamente ligados a uma carreira brilhante, com sucessos e obras de arte do começo ao fim, sem nenhum tropeço no meio da caminhada rumo aos intermináveis prêmios em cerimônias pomposas e ao reconhecimento de público e crítica. Aliás, acompanhar ao seu mais recente filme exige um espectador preparado para muitos detalhes, mas principalmente para um aparente interminável exercício de resistência a uma tensão e a um sadismo crescentes.

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Digo tensão pois é difícil de resistir a um desvio de olhar da tela quando J. K. Simmons adentra o cenário (ou seria melhor dizer palco?), deixando a atmosfera do filme pesada com sua presença autoritária. E essa tensão vai aumentando, aos poucos, quando Andrew (enlouquecidamente interpretado por Miles Teller) é convidado a ser integrante de sua banda e, com o tempo, vai sentindo que o clima ao redor de Fletcher não é nem um pouco fácil. As coisas não melhoram enquanto Andrew comete uma sucessão de erros ínfimos aos olhos de leigos, mas extremamente cruciais para os ouvidos apurados de Fletcher. E digo sadismo pois a lente de Chazelle parece encaminhar os olhos do público para uma apreciação quase voyeur, quase prazerosa ao se observar o sofrimento daquele aluno – com direito a closes ginecológicos nas feridas dos dedos de Andrew enquanto este treina em sua bateria ou quando resolve por as mãos dentro de um recipiente com gelo, na esperança ilusória de que aquele momento de alívio será o suficiente para as dores internas que irá sofrer a todo o momento sob a baqueta de Fletcher.

J. K. Simmons irá compor, dessa forma, um Fletcher que exala poder sobre os demais a partir de sua presença física. O fato de entrar em um cômodo abrindo as portas com força, como se invadisse o local, já demonstra o poder que a personagem deseja instaurar ao seu redor. E, ao conferir ao professor uma personalidade forte mas, ao mesmo tempo, pendular, em que em um momento é explosiva e inesperada ao jogar instrumentos contra os próprios alunos, em outra é dócil e paciente ao pedir, educadamente, para que Andrew tente de novo um certo movimento na bateria ou quando conversa com a pequena filha de um velho amigo, a tratando como um verdadeiro pai, Simmons atrai o espectador por meio de um estranhamento: se ele é uma pessoa tão detestável, por que ainda continuo aqui, assistindo a esse filme e tentando acompanhar o sofrimento de Andrew nas mãos desse desgraçado?

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

De maneira oposta, mas com igual qualidade, Miles Teller dá a Andrew um ar de determinação que se mistura com uma insegurança tipicamente jovial: se ele é capaz de estraçalhar as juntas dos próprios dedos de tanto treinar um movimento na bateria, não se sente totalmente confiante diante de uma garota ou durante um encontro – e o fato de preferir o término do namoro para poder se dedicar mais ainda à música demonstra sua obsessão para que cada nota proferida por suas baquetas sejam cuidadosa e aplicadamente perfeitas. E é nessa obsessão que ele se liga à Fletcher: enquanto o aluno almeja um status dentro da música, idealizando seus objetivos ao admirar os ídolos em pôsteres pregados na parede do quarto, o professor exige o melhor do aluno, levando-o à exaustão física, se necessário, para que o público de uma apresentação da escola admire o trabalho não apenas da banda em cima do palco, mas principalmente daquele que está à frente dela, conduzindo com aparente calma, mas de queixo presunçosamente erguido.

As duas interpretações, assim, irão conduzir o ritmo do filme e regular o nível entre tensão e sadismo; em um momento acompanhamos, roendo as unhas, através da visão de Chazelle, Andrew tocando de frente para Fletcher, e em outros estamos já ali, esperando um erro a qualquer momento, só para dar uma espiadinha em como será a reação do professor, qual será sua próxima ideia para humilhar os próprios alunos e se ele vai ousar jogar mais uma parte da bateria contra qualquer um que ouse errar uma nota. E se a cena final de Whiplash rima visualmente com a cena final de Cisne Negro (Black Swan, 2010), a diferença aqui é que Andrew não possui uma obsessão que lhe entrega um duplo em sua própria identidade, destruindo sua própria personalidade, mas faz com que ele tente buscar uma vitória que alimentará seus objetivos, mesmo que eles pareçam mesquinhos em um momento inicial.

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Whiplash, então, acaba tornando-se um filme não apenas que deseja passar uma mensagem batida de superação aluno-professor, mas que testa os limites também do público ao exibir um ritmo em sua montagem que acompanha as batidas da bateria de Andrew, ou com cortes estratégicos em sua edição para, como já preconizava Eisenstein há muitos anos, emular um ritmo também para o espectador que mantém os olhos ali grudados na tela, desejando que Andrew acerte as notas no ritmo exato que Fletcher exige ou para que não cometa um erro demasiadamente idiota no meio de uma apresentação ao vivo. O suor que pinga dos cabelos do jovem protagonista parece também cair dos nossos, e essa ligação se dá através da tensão criada pelas imagens bem conduzidas por Damien Chazelle. O que faz com que eu admire mais uma vez a irônica mudança de escolha de projeto do diretor de um ano para o outro, saindo de um terror barato para um filme com detalhes técnicos e dramáticos de uma profundidade tão únicas. Talvez Whiplash era a chance que Chazelle precisava para mostrar ao mundo o seu talento como roteirista ao compor uma história boa e como diretor ao trabalhar com atores talentosos e extrair destes o melhor para suas performances, assim como o próprio Fletcher deseja, mesmo que seja de uma maneira menos convencional.

Pôster: Cardinal Communications USA, 2014

Pôster: Cardinal Communications USA, 2014

Whiplash, dirigido e escrito por: Damien Chazelle.

Com: Miles Teller, J. K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist.

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Filmes

Interestelar

Tempo.

Misterioso, desafiador, irreversível.

Amor.

Misterioso, desafiador, irreversível.

Há alguns anos, seria possível falar sobre as questões do tempo e suas implicações na filmografia de Christopher Nolan. A Origem (Inception, 2010) teve como escopo o sonho e suas transformações na realidade – e todas as dúvidas que surgiam a partir daí. O tempo também se configurava como vilão em alguns momentos da trilogia Batman. Mas se em O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) ele era mais um aliado do Coringa, pressionando o protagonista a fazer suas escolhas, agora o tempo transforma-se em algo muito mais aterrorizador, muito mais palpável. E toma esferas de significações para si de forma inerente: enquanto vilão para o piloto e engenheiro Cooper, assim como protagonista para o filme em si. O tempo, afinal, estica-se e comprime-se, mas nunca volta atrás.

E se os detratores das obras de Nolan usavam como principal argumento o fato do diretor e roteirista tratar seus personagens e as relações entre eles de forma altamente cerebral, realista, agora ele decide arriscar questionamentos e filosofias particulares logo no campo do amor, ironicamente em seu filme que irá retratar a dura e devastante realidade da Teoria da Relatividade. É um desafio, sem dúvida, conciliar aspectos tão opostos – a abstração e subjetividade de se falar sobre amor (e o que este é capaz de transformar na realidade de cada um) e a precisão e objetividade exigida pela ciência -, ainda mais quando estes polos serão postos em xeque, justamente por dois cientistas, em uma cena surpreendente para quem acompanha os filmes do diretor e entende que, em sua odisseia pessoal, Nolan está buscando expandir os horizontes de seus personagens não só de forma literal, ali, na tela, mas também de dentro para fora, expondo seus medos e receios para o público de forma que também passe pelas tormentas sentimentais de quem, enfim, ama.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Não será à toa, portanto, que iremos acompanhar escolhas estéticas que irão ressaltar esses aspectos emocionais. Quando a Dra. Brand (interpretada por Anne Hathaway), até então reclusa e mostrando-se neutra a contatos emocionais, decide discutir sobre o amor, Christopher Nolan posicionará sua câmera bem de frente, em uma longa tomada, fechando o plano em seu rosto de forma vagarosa e paciente, aumentando a dramaticidade e objetivando suas intenções: o foco, agora, é o que ela sente, e não o que ela calcula como probabilidade. Em contrapartida, seu interlocutor, Cooper (interpretado por Matthew McConaughey), merecerá apenas um plano comum, sem zoom, sem drama. É um primeiro passo para Nolan em tal campo, mas isso já demonstra uma preocupação em tornar os personagens em algo mais do que peças em um gigantesco xadrez narrativo.

E a sua narrativa continua tão boa quanto em anos anteriores. Valendo-se de uma montagem que aborda vários acontecimentos ao mesmo tempo e que consegue dar conta de todos, emulando uma sensação de harmonia entre os eventos, Interestelar possui elipses elegantes: na partida de Cooper para sua viagem espacial, vemos Matthew McConaughey dirigindo a camionete entre os milharais, afastando-se de sua casa e deixando a família para trás, enquanto ouvimos a contagem regressiva para o lançamento da nave, um recurso que economiza tempo e deixa a narrativa mais fluida para aqueles que ainda irão acompanhar mais de duas horas de diversos eventos, exposições científicas e consequências provenientes das leis da Física. O mesmo vale para uma cena em que Cooper sofre um grande impacto físico e, com um corte brutal, voltamos para a Terra, em meio a um incêndio nas plantações, como se ambos os momentos fossem resultados do tempo, mesmo a relatividade nos lembrando que cada personagem está em seu tempo particular.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

A montagem e seus eventos concomitantes lembrará o ritmo de Inception, o que cria um crescendo em Interestelar, deixando o público mais apreensivo a cada minuto restante de projeção. Essa tensão será pontuada pela inspiradíssima trilha sonora composta por Hans Zimmer, colaborador constante de Nolan, recheada de tique-taques, órgãos cavernosos e batidas metálicas. E se, em planos-gerais que contemplam a vastidão e, ao mesmo tempo, o vazio do espaço, Hans Zimmer irá tocar notas tímidas em seu piano, nos momentos de ação e impacto, o músico nocauteia o público com suas batidas estrondosas, acompanhadas de metais que preenchem tanto o filme, quanto a sala do cinema.

Nada, portanto, seria tão contemplativo e passível de admiração se os efeitos visuais de Interestelar não funcionassem em tela. Numa mescla de efeitos práticos com computação gráfica que Nolan sempre prezou em seus filmes (a realidade, por um lado, precisa ser retratada de forma objetiva mais aqui do que nas obras anteriores), o público poderá conhecer lugares inóspitos com suas belezas particulares – e o plano que mostra a nave Endurance girando sobre os anéis de Saturno demonstra e, ao mesmo tempo, resume a sensação de contemplação e medo diante da constatação de que, sim, somos terrivelmente pequenos e insignificantes diante de tantas coisas orbitando a galáxia, afirmação essa expressa de forma inteligente por um dos personagens do filme, batendo na parede metálica da nave e dizendo “milímetros disso aqui e, lá fora, milhões e milhões de quilômetros de nada que pode nos matar em segundos”.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Essa frase, inclusive, resume a principal angústia de Interstellar: somos seres que vivemos em um planeta perfeito, evoluído para nos abrigar e nos proporcionar uma existência aparentemente duradoura. Mas… até quando? Até que ponto seremos capazes de continuar aqui, protegidos por “milímetros” de gravidade diante de milhões e milhões de quilômetros de um vazio capaz de nos matar em segundos? E, se formos capazes de desbravar novos mundos, descobriremos algo devastador? Estamos a um passo de descobrir outros seres de outras galáxias? Ou nosso egocentrismo nato está correto quando afirmamos nossa solidão entre tantos planetas orbitando todo esse vazio?

E se você ainda não viu o filme, pare de ler agora e só volte depois de ter visto e, se possível, revisto Interestelar. Os próximos parágrafos estão repletos de SPOILERS.

Passeando por fóruns e seção de comentários após ver Interestelar pela primeira vez, observei muitas pessoas discutindo o filme e, principalmente, o seu final. Muitos, inclusive, estavam se gabando por ter premeditado a reviravolta principal do longa, entendendo que o “fantasma” de Murph, desde o início da projeção, era o próprio pai, Cooper. Vendo Interestelar pela segunda vez, pude notar que o roteiro realmente dá dicas, a todo instante, de que Cooper está, no futuro, mandando uma mensagem para a filha entender que ele não deve partir para a viagem espacial – daí os livros na estante da menina caírem e ela, espertamente, interpretar aquilo como uma mensagem criptografada em Morse e, após rápidos rabiscos, ver que os intervalos na estante soletram “STAY”, e que a legenda inteligentemente traduziu para “FICA”, errando na gramática, mas acertando na quantidade de letras necessárias para a sincronização com as falas dos personagens. A primeira dica, inclusive, vem logo depois de Cooper acordar de seu pesadelo, logo no início do filme, e a filha entrar no quarto perguntando “você é meu fantasma?”.

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Imagem: Warner Bros. e Paramount Pictures, 2014

Essas mesmas pessoas que observei se auto-intitularem as donas da verdade da Física (e talvez da vida também, já que são incrivelmente inteligentes e maduras) em seus comentários repletos de “eu já sabia o que ia acontecer no final do filme” e “filme previsível, longo e chato”, talvez não perceberam que o paradoxo do tempo criado a partir do momento em que pensamos “mas se Cooper está no futuro mandando uma mensagem para a filha dizer para ele, no passado, não partir” surge porque Cooper, quando vai se despedir da filha e não cede a seus apelos aparentemente apenas infantis, não está no passado, e sim no presente. E, como o próprio personagem constata dentro do hipercubo que cria uma realidade tridimensional, os seres entendidos como extraterrestres são os próprios humanos, vivendo em um espaço-tempo localizado no futuro e que, precisando de um agente para entender e emitir essa mensagem, mandam Cooper para o espaço e, após adentrar o buraco negro, para o hipercubo onde as peças começam a se encaixar. A mensagem “STAY” enviada para Murph é um ato de medo e desespero do personagem, mas a mensagem codificada no ponteiro do relógio irá corrigir isso; as duas, portanto, servirão de esclarecimento para Murph já adulta e para seu consequente eureka! que irá ajudar a humanidade dentro e fora da Terra.

E, como a Dra. Brand afirma em sua confissão emocional, o tempo não volta, mas a gravidade pode ser utilizada como meio para alterações no espaço e, consequentemente, no tempo. Não somente ela, no entanto: Cooper consegue enviar as mensagens através da gravidade não para qualquer pessoa, mas para Murph, sua filha… era preciso de algo a mais para que isso se concretizasse, um vínculo, algo capaz de distorcer leis.

Amor.

Pôster: Concept Arts 2014.

Pôster: Concept Arts 2014.

Interstellar, dirigido por: Christopher Nolan; escrito por: Jonathan Nolan, Christopher Nolan.

Com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Mackenzie Foy, Jessica Chastain, Ellen Burstyn, Michael Caine.

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Filmes

Garota Exemplar

Entre todos os cinismos disparados por David Fincher em seus diversos filmes, Garota Exemplar (Gone Girl, 2014) talvez seja o filme que toma para si diferentes tipos de cinismos e os reúne, em um aglomerado de situações e complicações, deixando para o espectador a responsabilidade de fazer parte de um voyeurismo quase doentio, mas com toda a certeza arrebatador. É um desafio escrever sobre o filme não só contando com sua apurada e refinada parte técnica, mas também por possuir um roteiro afiado, surpreendente e revelador.

Muita gente vai dizer que é filme pretensioso, óbvio e decepcionante. É complicado também rotular Gone Girl com todos esses adjetivos pejorativos quando, após um tempo remoendo e refletindo sobre a última obra de Fincher, você entende que ela é, assumidamente, pretensiosa. Não por um esnobismo próprio e gratuito, mas pela história criada pela americana Gillian Flynn ser um produto de nossos tempos, revelador de uma sociedade extremamente preocupada com a questão da imagem e de que forma ela pode colocar um indivíduo em um pedestal entre holofotes ou, com a mesma força e poder, derrubá-lo deste palco para soterrá-lo com acusações e baixarias. Afinal, as famigeradas selfies que poluem toda rede social atualmente seriam o quê? Humildade?

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Dessa forma, o primeiro choque recebido já está na primeira tomada do filme, uma simples e reveladora exposição formada por um close nos fios louros de Rosamund Pike, atriz britânica exigida por Fincher para que interpretasse Amy, uma das personagens mais intrigantes e instigantes da filmografia do diretor – e que talvez esteja no mesmo nível de complexidade psicológica de Lisbeth Salander, a anti-heroína mais hardcore e inescrupulosa já vista em uma refilmagem americana. Mas voltemos à tomada inicial de Garota Exemplar: a câmera segue dissecando Amy enquanto Nick, seu marido, surge na forma de narração em off, dizendo, em uma voz macia, que seu maior desejo é conhecer os segredos da esposa. Seria comum se a forma de dizer não fosse “gostaria de esmagar seu crânio e desenrolar seus pensamentos”.

Nick, afinal, será o objeto de manipulação tripla: das linhas do roteiro de Flynn, da câmera intrusa de Fincher e dos olhos e julgamento do espectador, aquele que entrará na sala de cinema já ressabiado e observando com cuidado cada movimento e ação de Nick. Não é à toa que David Fincher escolhe Ben Affleck e sua incapacidade – nesse caso, de forma positiva – de expressar o que sente diante de situações dramáticas. Nick é o personagem presente no tabuleiro de xadrez que se vê no meio de um quase xeque-mate e que precisa se defender, e sua neutralidade em meio a tantos acontecimentos estranhos irá colocá-lo em foco: fora Amy, o que Nick também omite? Se esmagássemos seu crânio, o que sairia de lá? O que seria preciso desenrolar?

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

A equipe altamente competente de Fincher, então, irá brincar com o mote da história (o desaparecimento de Amy), preparando créditos iniciais que desaparecem antes da plateia poder ler os nomes. As escolhas estéticas de David Fincher irão seguir pelo mesmo caminho, optando por fade in e fade out toda vez que a história exige uma transição, seja essa de espaço ou de tempo. A fotografia, essencialmente fria, torna-se mais ainda nos constantes flashbacks proporcionados pela narração (também em off) de Amy, recitando as linhas de seu diário. Sai, dessa maneira, o Fincher experimentalista de Quarto do Pânico e entra o diretor clínico, cínico; aquele que irá operar suas lentes desejando contar uma história manipulada que irá ser manipulada e que também manipulará. Une-se, ao fim, todo esse cuidado cinematográfico ao humor involuntário de Gillian Flynn e seu roteiro.

E esse humor vem de forma catártica, no último e revelador ato de Garota Exemplar. A partir desse ponto da história, o público é brindado com a brilhante atuação de Rosamund Pike, provável ganhadora de muitos prêmios nas cerimônias de 2015. E se, com ela, vemos uma explosão de dramaticidade – seja essa manipulada, seja essa manipuladora -, o oposto está na impassividade irritante de Ben Affleck e sua cara de peixe morto, opostos que se atrairão em algum momento, promovendo mais um estranhamento no espectador e adicionando mais tensão à trama. Uma tensão sublinhada pela excelente trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, com direito a um ápice na melhor, mais impactante e, por consequência, mais inacreditável cena de Gone Girl, deixando um espectador desacreditado no que vê lá do conforto de sua poltrona de cinema.

Imagem: 20th Century Fox, 2014

Imagem: 20th Century Fox, 2014

O tempo, por fim, será o juiz definitivo para Garota Exemplar. Daqui a alguns anos ainda iremos discuti-lo? Nem penso em tocar no ponto “misoginia” aqui pois uma semana e alguns dias ainda não foram suficientes para me decidir se Fincher está brincando com o assunto, se está rindo da possibilidade ou se está realmente disposto a expor, em seu mais recente filme, que não só ele, mas toda uma sociedade pode construir e moldar a imagem de uma mulher… assim como destruí-la da forma mais inesperada. É estar preparado para o pior e ser pego de surpresa com algo mais arrebatador ainda.

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Pôster: Kellerhouse Inc, 2014

Gone Girl, dirigido por: David Fincher; escrito por: Gillian Flynn (baseado em sua obra, Garota Exemplar)

Com: Rosamund Pike, Ben Affleck, Neil Patrick Harris, Carrie Coon, Tyler Perry.

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Filmes

Os Boxtrolls

O estúdio Laika surpreende de novo. Não apenas pela temática e pelas críticas que atira sem piedade com Os Boxtrolls (The Boxtrolls, 2014), mas por ser um dos pouquíssimos estúdios que, nessa atualidade efêmera e ansiosa por mais computação gráfica, ainda mantém-se fiel ao modo artesanal e extremamente artístico da animação em stop motion. Cada detalhe dos cenários e personagens exibidos na tela ressaltam esse carinho e – principalmente – paciência dos realizadores em criar, movimento por movimento, um filme que não apenas faz questão de entregar uma animação de primeiríssima qualidade, mas também o faz satisfazendo o público adulto com uma trama encorpada, composta por uma gama de personagens que não se rendem ao apego fácil do público.

Se em 2009 tivemos a oportunidade de ver a negligência de pais e o perigo de se desejar as coisas com muito afinco em Coraline e o Mundo Secreto (Coraline), em 2012 foi a vez de ParaNorman focar o bullying, de maneira inteligente, mostrando que uma animação não deve seguir  um padrão, seja estético, seja temático. Agora, Os Boxtrolls traz à tona uma história antiga e, ao mesmo tempo, extremamente atual: o poder de um soberano sobre seus vassalos e qual a problemática que gira em torno disso. O filme, então, vai abordar questões como a necessidade de tomar o poder apenas por possuí-lo; a subserviência de uma classe social por meio da intimidação e da perseguição; a propaganda mentirosa e manipuladora e, principalmente, a capacidade (ou a falta) de definir um gênero – seja ele no aspecto social ou individual.

Imagem: Universal Pictures, 2014

Imagem: Universal Pictures, 2014

Para o antagonista da trama, Archibald Snatcher (dublado origiinalmente por Ben Kingsley), o importante é possuir o chapéu branco de Lord Portley-Rind, símbolo de poder e soberania na cidadezinha de Cheesebridge. O feioso exterminador deseja o poder por desejar, e seu único fim é participar da degustação de queijos promovida pelo Lord, em companhia de seus colegas nobres. A ironia, portanto, é que Archibald não quer ser o principal membro da alta sociedade de Cheesebridge para comandá-la, mas para ter acesso a seus privilégios – assim como Lord Portley-Rind faz. A identidade, para Archibald, se definirá a partir do momento em que seu longo chapéu vermelho for substituído pelo alvo chapéu do lorde.

Lord Portley-Rind (dublado originalmente por Jared Harris), inclusive, é dono das falas que mais expõem as críticas que Os Boxtrolls direcionam ao público: a primeira cena protagonizada pela personagem, por exemplo, já mostra como a negligência é sua principal virtude, tanto para os problemas sociais de Cheesebridge, como para a educação e formação social de sua filha, a mimada Winnie. Os queijos, de variados formatos, tamanhos e sabores, parecem ser a única variedade que interessa a Portley-Rind, e eles são o símbolo de sua riqueza, de seu poder e, consequentemente, de sua ignorância – a ponto de negar um fato, mesmo que ele se apresente, em carne e osso, em sua face. Tal negligência é odiada por Winnie (dublada por Elle Fanning), a filha única que, por meio da indiferença do pai, vai, logicamente, exigir ser o centro das atenções em todas as cenas que aparece.

Imagem: Universal Pictures, 2014

Imagem: Universal Pictures, 2014

Ela é, portanto, a que representa a camada social mais manipulada pelas mentiras de Archibald (o agente midiático de Cheesebridge, espalhando aos quatro ventos informações que distorcem a realidade e criam verdades direcionadas para seus interesses) ao afirmar, com todas as forças, o vilanismo e o terrorismo executados pelas pequenas criaturas que dão título ao longa. Winnie, porém, ironicamente, vai se transformar naquela que faz uma ponte entre a verdade sobre os Boxtrolls (e também sobre Ovo, o garoto criado pelos monstrinhos) e a realidade cega da população da cidade, amedrontada com a verdade absoluta de Archibald. É ela que irá ajudar Ovo a contar a verdade para o lorde e, com isso, também irá descobrir – por si só -, como o próprio pai não pode ser considerado um exemplo verdadeiro de paternidade.

E Ovo (dublado por Isaac Hempstead Wright – o Bran, de Game of Thrones), por fim, apesar de ser estruturalmente o protagonista d’Os Boxtrolls, acaba tornando-se uma das peças desse grande tabuleiro de xadrez. Isso não é um ponto negativo dentro da narrativa do filme, principalmente porque é ele quem vai simbolizar a busca por uma identidade. E é ele que irá dar uma das várias belas lições promulgadas pela animação: as coisas foram feitas para serem adereços, e não para definir o que as pessoas são ou vão tornar-se. Esse tapa com luva de pelica bate no rosto de um outro personagem, mas seu efeito é sentido por aqueles que estão na plateia, bisbilhotando o filme.

Imagem: Universal Pictures, 2014

Imagem: Universal Pictures, 2014

Esses núcleos funcionam em perfeita harmonia com as demais características do filme: a equipe responsável por The Boxtrolls toma todos os cuidados possíveis para entregar uma animação feita muito mais para adultos do que para o público infantil. É difícil, por exemplo, encontrar piadas de humor físico; elas estão lá, mas não para propriamente fazer rir. O que se encontra são gags inteligentes e muito bem adicionadas ao roteiro, dando um toque de sutileza e bom-senso ao longa, meio que dizendo “tomamos cuidado até para fazer piadas”. E esse cuidado acaba transformando uma breve história em algo muito maior, desde a parte imagética (a primeira tomada que mostra os Boxtrolls saindo dos esgotos é a sobreposição das sombras dos monstrinhos sobre um cartaz onde se lê “Cheesebridge”, como se a mensagem inicial dissesse “esses monstros nojentos e obscuros são os responsáveis por lançar uma sombra sobre nossa cidade) até detalhes nas falas das personagens (Archibald não manda seus vassalos atrás dos Boxtrolls com um “pegue-os!”, mas sim com um “adquira-os!”).

Por fim, todas as camadas na narrativa, que suscitam interpretações e simbolismos sem medidas, casam completamente com a estética já estabelecida pelo Laika, importando-se em mostrar personagens animados que não seguem padrões de animações fofinhas; o intuito aqui não é agradar os olhos por meio da modelagem facilitada de um computador, mas através do trabalho servil com a arte: as personagens e tudo o mais que se movimenta dentro dos quadros do filme são frutos do cuidado dos animadores – fato ironizado por um personagem na cena pós-créditos, obrigatória para todo cinéfilo e esclarecedora para os leigos. E esse cuidado irá transparecer em cada cena d’Os Boxtrolls, principalmente nos closes fechados nos rostos das personagens.

Imagem: Universal Pictures, 2014

Imagem: Universal Pictures, 2014

Se o filme não agradar completamente as crianças hoje, daqui alguns anos ele poderá ser assistido novamente com um novo olhar. E, daqui mais um longo tempo, as crianças que o viram pela primeira vez talvez sejam adolescentes ou adultos informados o suficiente para captar todas as mensagens e críticas que Os Boxtrolls tem na manga e fora dela. Isso, é claro, se essas pessoas não se deixarem levar pela manipulação de ideias e souberem discernir, individualmente, tudo aquilo que chega por meio de informações, imagens e textos. A ironia fina e final de Os Boxtrolls é essa: só entende as críticas feitas no filme aqueles que estão fora das rédeas mostradas como crítica no próprio filme.

Essa é a diferença abissal entre as animações dos estúdios Laika e um comercial e gratuito Alvin e os Esquilos, por exemplo.

Pôster: Ignition, 2014

Pôster: Ignition, 2014

The Boxtrolls, dirigido por: Graham Annable, Anthony Stacchi; escrito por: Irena Brignull, Adam Pava (baseado na obra Here Be Monsters!, de Alan Snow).

Originalmente com as vozes de: Isaac Hempstead Wright, Elle Fanning, Ben Kingsley, Jared Harris, Nick Frost, Richard Ayoade, Tracy Morgan.

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Filmes

Magia ao Luar

Coube a Colin Firth a responsabilidade de assumir, em Magia ao Luar (Magic in the Moonlight, 2014), a persona que consolidou não só a figura de Woody Allen no cinema contemporâneo, mas também a carreira do cineasta, atualmente lançando um novo longa a cada ano. Esperar uma boa atuação de Firth não é se antecipar erroneamente; neste ponto, o novo filme de Allen está seguro. O que surpreende, porém, é a temática escolhida. Ou melhor, não só a temática, mas de que forma ela é conduzida.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

Belamente fotografado em locações da Riviera Francesa visivelmente escolhidas a dedo, Woody Allen primeiramente parece querer convidar o público para se ambientar não apenas aos seus novos personagens, mas, usando os cenários – sejam eles externos ou internos -, assentar um clima que evoca tanto a dúvida como mistério e fascinação, quanto como a preparação para uma derradeira realidade, brusca e aterradora como ela só. Afinal, observar o universo através da Lua e das estrelas mais brilhantes parece ser uma ideia romântica e reconfortante, mas analisá-lo cirurgicamente pela lente de um grande observatório pode revelar uma imensidão assustadora e, nas palavras de Stanley, o protagonista, “ameaçadora”. A dúvida, dessa forma, é manter-se na fria e dura realidade do cinismo quando ele se depara com uma provável nova charlatã que se auto-intitula médium ou, na melhor das hipóteses, ceder ao que todos parecem concluir: a bela e dócil Sophie (interpretada de forma leve e, ao mesmo tempo, impressionante, por Emma Stone) realmente possui um dom que a possibilita ver através das pessoas e se comunicar com aqueles que já faleceram.

Se os cenários contribuem para a fluidez do roteiro, a década de 20, juntamente com a trilha-sonora, vem colaborar para instituir a principal reflexão da história: nós, em nossa condição limitadamente humana, estamos propensos a sermos felizes apenas quando vivemos sob mentiras que nos confortam? Allen vai brincar com a questão brindando o público com diálogos inspirados entre Stanley e sua “antagonista”: desmascarar o provável (em sua opinião, claro) charlatanismo da moça é o objetivo para o qual seu amigo, Howard (interpretado por Simon McBurney), o convence a desistir de uma viagem para ir à França. Quando ambos se conhecem, a doçura e expressão facial etérea de Sophie entra em um choque delicioso com o semblante rabugento de Stanley – e é engraçado notar como o figurino de Colin Firth vai se alternando durante o filme: primeiramente sóbrio em seus ternos escuros à moda da época, Stanley vai se “clareando” conforme se rende aos encantos mágicos da médium, culminando, inclusive, em um traje leve e totalmente branco, em determinada cena, para logo depois voltar ao seu cientificismo monocromático. Esses detalhes vão sendo colecionados à medida que o filme corre, compondo núcleos temáticos que irão preencher com riqueza o longa.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

E, depois de ser aclamado por Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), criticado por Para Roma, Com Amor (To Rome with Love, 2012) e novamente aplaudido por Blue Jasmine no ano passado, Woody Allen volta a acertar seu bom e velho timing tanto para um tema bem manejado, como para a construção de personagens que seduzem a curiosidade do espectador, gerando um cena pós cena de diálogos que vão e voltam na comédia, no drama e no romance, criando uma sequência de acontecimentos dentro de uma história redondinha, mas que surpreende: a certo ponto, somos também convidados a criar uma nuvem pesada de dúvidas sobre nossas cabeças, assim como Stanley, fazendo com que tentemos desvendar os mistérios de Magia ao Luar e, ao mesmo tempo, nos rendamos ao conforto de aceitar as previsões e adivinhações de Sophie como dogmas confortáveis.

Imagem: Gravier Productions, 2014

Imagem: Gravier Productions, 2014

O mais novo longa escrito e dirigido por Woody Allen é uma obra que não só diverte e emociona, como sugere reflexões ao público por meio de contrastes: Stanley é um mágico famoso, então seu dever é treinar os truques para que pareçam mágica; Sophie se diz médium, possui um dom – não precisa de uma disciplina laboral para impressionar quem a cerca. E enquanto Stanley deseja, mais do que tudo, provar para os outros que a moça não passa de uma farsa, Sophie faz questão de dizer, em certo momento, que há uns anos assistiu ao show de Stanley e ficou impressionada com sua performance… mas a crítica vem certo tempo depois: sua estupefação se desmoronou ao saber que as mágicas do ilusionista não passavam de truques, de simples treino para enganar os olhos das pessoas. Então quem é o mais errado nessa história toda: o mágico que ilude o público? Ou a médium que ilude o povo? Ou ninguém?

Woody Allen vai deixar essa pulga atrás de nossas orelhas.

Pôster: Gravier Productions, 2014

Pôster: Gravier Productions, 2014

Magic in the Moonlight, dirigido e escrito por: Woody Allen.

Com: Colin Firth, Emma Stone, Simon McBurney, Hamish Linklater, Eileen Atkins.

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