Séries

Mad men

Fui atraído pela ideia de iniciar Mad men (Idem, 2007-2015) com a proposta da série em retratar a rotina de uma agência publicitária americana nos idos dos anos 1960. Como formado na área de Letras, meu interesse pela palavra e pela imagem e seu mais variado uso pelas áreas do conhecimento humano invariavelmente passa pela propaganda. Ao saber que Mad men mostrava os bastidores do mundo publicitário, pensei, por um momento, que acompanharia os processos de criação de uma propaganda e as consequências de sua veiculação.

Pobre de mim.

Não que a série tenha me decepcionado nesse nível. Em diversos episódios, é possível conhecer os procedimentos utilizados para se convencer, em primeiro lugar, os executivos da empresa que pagarão pelos anúncios a serem produzidos, e, depois, o grande público, aquele que consumirá o produto vendido.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Porém, Mad men é uma narrativa profunda, vai muito além da casca publicitária, da rotina nova-iorquina do pós-guerra. Enveredar por seus episódios é aprofundar-se em personagens rasos e complexos – rasos em caráter, complexos psicologicamente; é ver-se em um redemoinho de reflexões sobre como nos consideramos meros produtos em uma loja – pior, em uma propaganda -, como nos tornamos os produtos que almejamos obter.

Alie, agora, todo esse pano de fundo com um tratamento visual apurado. Claro, seria no mínimo irônico assistir a uma série que tem como temática principal a imagem das coisas (coisas-objeto, coisas-produto, coisas-pessoa) se essa não prezasse por sua própria imagem.

Alie, também, a atuação de cada profissional ali presente para trazer à vida personagens, como já disse, muito rasos em suas imagens próprias, mas abismais em seus complexos e problemáticas pessoais. Alie, por fim, dois elementos que funcionam como combustíveis para a narrativa completar-se em uma obra audiovisual digna de prêmios – como todos que merecidamente colecionou – e, mais importante ainda, de nossa atenção: os contextos históricos de cada década pelas quais Mad men passa – os falsos inocentes e morais anos 60, os exóticos anos 70, os decadentes anos 80 – e, talvez acima de tudo em determinados episódios e cenas específicas, a apurada trilha-sonora.

O vazio

Talvez, além da imagem, a temática mais trabalhada ao longo das sete temporadas seja o vazio inerente ao ser humano. Presente em todos nós, em maior ou menor grau, o vazio tonifica-se aqui devido ao meio em que os personagens se encontram: cidade grande, rotinas automatizadas, meio capitalista de produção e consumo de itens descartáveis para uma sociedade refém do descartável. Dificilmente haverá, ali, alguém preocupado com algo além das próprias roupas, cabelos, sapatos, bolsas, maquiagens. Porém, o jogo temático de Mad men já começa por aí: achamos, como plateia, que ali não há personagens com personalidade, apenas fantoches manipulados por uma indústria fadada à falência.

Mas é o vazio que realmente importa.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Assim, em diversos episódios, é possível notar cenas escritas apenas para explorar esse vazio que emana do personagem, do meio em que se encontra, dos assuntos que trata com outros personagens ou tudo ao mesmo tempo. Vemos, portanto, cenas com o protagonista contemplando o horizonte cinza de Nova York a partir da janela de seu escritório; os céus a partir de um cenário externo, no campo; o mar a partir da praia onde finge estar em férias com a esposa; a piscina azul e convidativa do hotel no qual se hospeda para criar mentiras confortáveis a seus clientes e pessoas com quem deseja se relacionar para preencher vazios dentro de vazios. E os vazios encontram-se também, mais perigosos ainda, nos espaços fechados: o sócio tentando suicídio dentro do carro fechado, o sócio enforcando-se dentro do cubículo onde trabalha, as traições conjugais dentro de quartos de hotéis, dentro de carros, dentro do apartamento da vizinha. Não à toa, a própria abertura mostra o publicitário caindo em um redemoinho de propagandas (mentiras) em direção ao nada branco (vazio), para, logo depois, cortar a cena e dar um zoom out que sai das costas desse publicitário – e ele está, vejam só, contemplando, vejam só, o vazio novamente.

Mad men, então, ao trabalhar com esse vazio inerente, jogará com o público a partir de seus julgamentos morais. Apesar de casados, protagonistas e personagens secundários traem seus respectivos parceiros. Apesar de comprometidos com determinada empresa, protagonistas e personagens secundários encontram-se com a concorrência para possíveis acordos profissionais mais vantajosos. Apesar de possuírem determinadas convicções político-sociais e convicções religiosas, protagonistas e personagens secundários dançarão conforme a música ditar e o dinheiro cair na conta. Não há como negar que esse vazio é algo atraente, ainda mais quando alia-se a temática com o visual chic do decadentismo banhado a glamour vintage, com a presença de cigarros acesos, taças de vinho, ambientes esfumaçados e todo um clima de cinema noir.

Não há como negar também, como consequência de toda a construção narrativa da série, a atração que surge em nós para cada personagem.

Joan

Assim como Peggy, a qual tratarei com detalhes mais adiante, Joan Harris possui um arco narrativo de ascensão. Apesar de ser apresentada logo de início como alguém subalterna dentro da agência, sua posição ainda impõe um determinado poder sobre diversas personagens – essencialmente femininas -, o que cria um apelo certeiro ao público.

Há um misto de poder com fragilidade em  Joan.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Sua principal defesa dentro daquele meio social intricado é impor-se com palavras que corroem e olhos que perfuram. Aos homens, fica também reservado seu visual proeminente, com direito a cabelos e lábios vermelhos como fogo e peitos naturalmente avantajados, uma distração quase publicitária para homens heterossexuais com infindáveis dólares em suas carteiras.

Por dentro, porém, Joan encolhe-se diante da impossibilidade de manter um relacionamento fixo, idealizado por ela mesma em diversos momentos, mas que não passa de uma propaganda própria para se iludir – todos nós precisamos de um sonho inalcançável para acreditarmos em um sentido na vida, mesmo que esse sonho e, consequentemente, o sentido, não exista.

Roger

Cínico, realista e atraente por todos os motivos errados.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Dentre todos os personagens apresentados por Mad men, um dos principais sócios da inicialmente Sterling-Cooper talvez seja o mais honesto – mesmo que cultive, ao longo dos anos, a imagem do canalha sem conserto. Honesto pois, ao ser cínico, trabalha com acidez as verdades que muitas vezes precisam ser realmente ditas; ao ser realista, mantém-se no poder econômico no qual se encontra e, claro, não deseja perder; ao permanecer atraente, mesmo sendo mais velhos que os demais, trabalha a imagem-própria a seu favor.

O conjunto, portanto, é apelativo demais para se deixar passar batido.

Peter

Egoísta.

Não há adjetivo melhor para Pete Campbell.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Talvez poderíamos incluir aqui também a ambição como parte principal de sua composição como personagem, mas, mais cedo ou mais tarde, ela também transforma-se em egoísmo. Se seu cliente não está contente, é porque a agência não acredita em seu potencial; se decidem por alterar os trâmites de uma determinada negociação, é porque a conta é dele; se seu casamento desmoronou e a relação com sua filha é tênue, é porque ninguém o compreende.

O eterno adolescente.

Betty

Não há como não suspirar ao pensar em Betty Draper.

Ela é, com toda a certeza, a personagem-modelo para a ideia que comentei logo no início sobre Mad men trabalhar com a imagem de cada personagem para que pensemos justamente no vazio intrínseco à história.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aqui temos um arco clássico de ascensão e decadência. A fútil mulher suburbana, loira, rica, dona-de-casa e refém do marido e filhos. Impossível não olhar para Betty e sua existência e não pensar em Ana, a complexa, mas aparente fútil, personagem de Clarice Lispector para seu grandioso conto “Amor”. Um dia, Betty Draper também assiste ao cego mascando chicles. Um dia, os ovos na sacola de crochê de Betty também caem por causa do solavanco do bonde. Um dia, Betty Draper também entra em uma epifania.

E como é saboroso acompanhar o amor e o ódio que disputam lugar em nós enquanto acompanhamos sua subida e inevitável descida. Acompanhar seu fim pode deixar um gosto amargo, mas jamais indigno.

Peggy

Inicialmente a doce, inocente, ingênua e, muitas vezes, burra Peggy nos encanta com seu olhar cheio de brilho, daqueles que pertencem à adolescente forasteira, daquela de repente morando na cidade grande, trabalhando numa respeitosa e emergente agência de publicidade, secretária do já lendário e eternamente misterioso Don Draper.

Porém, o que parecia o enredo de A redoma de vidro, de Sylvia Plath, torna-se algo inesperado com a primeira quebra narrativa que a personagem sofre ao ver-se grávida e, sem (aparentemente) remorsos, consequente desejo de livrar-se do próprio filho – seu futuro profissional não comporta uma criança. E, ao longo das sete temporadas, o público acompanha mais e mais quebras narrativas em Peggy. Apesar de sua casca de personagem óbvia, Peggy nos prova que, cada vez mais, vai se tornando seu pior nêmesis: a figura de homem frio cristalizada em Don Draper.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aliás, a grande importância no enredo de Peggy é a necessidade (assim como Joan, em um menor nível) de tornar-se um homem – não literalmente, claro, mas ser considerada de igual para igual dentro do ambiente profissional no qual vai galgando novas posições conforme suas habilidades são demonstradas e provadas arduamente. Estamos, inicialmente, nos anos 1960, e nos anos 60 é preciso ser homem para ser alguém.

(Não que hoje seja diferente)

Também funcionando como alívio cômico – na maioria massiva das vezes, destilando um humor involuntário no público que prova mais uma vez a elegância da produção da série -, Peggy vai se equilibrar (e desequilibrar) na linha tênue entre submissa silenciosa e tirana irremediável. O poder sobe à cabeça de todos, é óbvio. E é divertido observar como ela vai lidar com tal fato.

Don Draper

Falar sobre Don Draper renderia muitas linhas. Mas tentarei ser conciso.

Sua imagem dentro da série é a canalizadora de todas as temáticas abordadas nos demais personagens ao longo das temporadas.

Frio, soturno, talentoso e atraente, Don Draper cresceu em ambientes e vivenciou situação ao longo da vida que se tornam ingredientes minuciosos na composição de seu eu publicitário. Ele precisa inventar verdades, como o subtítulo da adaptação brasileira do título nos diz, e, para isso, precisa saber mentir bem. E ele sabe.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Seu talento, portanto, é um constructo cuidadoso proveniente não apenas das estratégias que usa para convencer seus clientes a pagarem por mentiras a serem contadas sobre seus produtos (a mentira na mentira, um mise en abyme inevitável), mas também das mentiras que conta às suas esposas, às suas amantes, aos seus filhos, aos seus colegas de trabalho e, principalmente, a si mesmo.

Don Draper não é importante para a série apenas por ser homem, engomadinho, sexy, talentoso e um mentiroso nato. Don é uma propaganda viva. E como tem consciência disso, usará todas as artimanhas disponíveis em si próprio e ao seu redor para que isso cause qualquer resultado, seja ele direcionado à agência, à sua família, às suas amantes, à sua conta bancária ou a si mesmo.

Don Draper é, portanto, cada um de nós.

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Pôster: The Refinery (fotografia por: Frank Ockenfels)

Mad men, criada por: Matthew Weiner; escrita por: Matthew Weiner, Jonathan Igla, Kater Gordon, André Jacquemetton, Maria Jacquemetton, Erin Levy, Carly Wray, Lisa Albert, Semi Chellas, Robin Veith, Dahvi Walter, Bridget Bedard, Tom Palmer, Chris Provenzano, Marti Noxon, Brett Johnson, Cathryn Humphris, Janet Leahy, Jonathan Abrahams, Victor Levin, Tom Smuts, Jane Anderson, Rick Cleveland, Andrew Colville, Keith Huff, Tracy McMillan, Frank Pierson, Jason Grote, Heather Jens Bladt, David Iserson; dirigida por: Phil Abraham, Michael Uppendahl, Jennifer Getzinger, Matthew Weiner, Scott Hornbacher, Lesli Linka Glatter, Tim Hunter, John Slattery, Andrew Bernstein, Alan Taylor, Chris Manley, Jon Hamm, Ed Bianchi, Paul Feig, Barbet Schroeder, Daisy von Scherler Mayer, Lynn Shelton, Matt Shakman, Jared Harris.

Com: John Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, John Slattery, Kiernan Shipka, Robert Morse, Christopher Stanley, Jessica Paré, Jay R. Ferguson, Alison Brie, Jared Harris, Kavin Rahm, Mason Vale Cotton, Ben Fieldman, Mark Moses, Teyonah Parris, Stephanie Drake, Jared Gilmore, Talia Balsam, Marten Holden Weiner, Elizabeth Rice.

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Filmes

A Vida Secreta de Walter Mitty

Há algum tempo não se via um filme que acompanhava um protagonista solitário e cabisbaixo, incapaz de se declarar para a pessoa amada ou viver qualquer tipo de aventura. Walter Mitty é um personagem assim, com o diferencial de sair do ar a todo momento, se imaginando em situações que vão do mais simples pensamento até a uma cena absurda, como surfar no asfalto das ruas no centro da cidade. As surpresas, então, passam a tomar conta da vida de Walter quando ele resolve ir atrás de um negativo perdido de um rolo de fotografias, e o público acompanha essas surpresas ao longo da pequena grande jornada do protagonista.

Dirigido e protagonizado por Ben Stiller, o filme carrega um clima leve, pontuado por piadas aqui e ali e contando com trechos um pouco absurdos, como já mencionado. Stiller cria um personagem que não se torna memorável com seus feitos e diálogos, mas que possui um certo carisma exatamente por ser um típico solitário e antissocial. O mais interessante é ver sua relação com a mãe e a irmã: esta possui um jeito deslocado e ao mesmo tempo engraçado, enquanto a mãe passa aquela sensação boa de apoio familiar.

Imagem: Twentieth Century Fox, 2013

Imagem: Twentieth Century Fox, 2013

Não perdendo tempo em explicar qual é o motivo para Walter abandonar sua rotina silenciosa e partir para uma viagem agitada, o roteiro deixa um pouco a desejar quando sempre apresenta um personagem disposto, sem qualquer objeção, a ajudar Walter, dando-lhe informações exatas sobre Sean O’Connell, o fotógrafo que procura, e como fazer para chegar até o lugar onde o artista se encontra. E isso acontece em todos os lugares por onde passa (tentar trocar um boneco de borracha que estica os braços por um skate longboard sem saber falar a língua local e ainda conseguir? Oi?). O roteiro, no entanto, passa a confundir de maneira divertida o espectador quando propõe algumas situações inesperadas, fazendo o público desconfiar se aquilo que está acontecendo é realmente aquilo ou se Walter apenas continua a sonhar acordado, algo que o próprio protagonista pergunta, com um humor involuntário, em determinada cena.

A forma como Ben Stiller filma A Vida Secreta de Walter Mitty também merece destaque. Começando com um enquadramento geométrico e se desestabilizando dentro das epifanias de Walter (a cena do surf no asfalto é uma engraçada referência a Matrix, reforçada pela edição e pela trilha sonora), sua forma de enxergar a história só derrapa um pouco quando insiste em mostrar Walter correndo, em câmera lenta, enquanto uma música motivadora toca toda vez que o protagonista está se preparando para dar o próximo passo em sua aventura. As inserções gráficas que repetidamente se dá nas cenas, imitando o layout de uma revista (local de trabalho de Walter, a propósito), não atrapalham o andamento da narrativa, mas em certos momentos tornam-se dispensáveis.

Imagem: Twentieth Century Fox, 2013

Imagem: Twentieth Century Fox, 2013

A Vida Secreta de Walter Mitty mostra que muitas vezes é preciso dar um simples passo pra se aventurar, mas também fantasia, assim como o próprio Walter, quando não reflete que no mundo real dificilmente seria possível conseguir ajuda em algumas situações de risco ou que tudo pode ser simplesmente belo e pacífico. Acerta, no entanto, em uma cena em que Sean O’Connell, interpretado na medida certa por Sean Penn, há horas esperando por um leopardo aparecer na lente de sua câmera, para e apenas observa quando o animal é enquadrado. Seu argumento por perder a imagem rara? “Às vezes eu apenas aproveito o momento”.

Pôster: Midnight Oil Creative

Pôster: Midnight Oil Creative

The Secret Life of Walter Mitty, dirigido por: Ben Stiller; escrito por: Steve Conrad (baseado em um conto de James Thurber).

Com: Ben Stiller, Kristen Wiig, Sean Penn, Shirley MacLaine, Adrian Martinez, Adam Scott.

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Filmes

Blue Jasmine

Blue Jasmine é um filme sobre estereótipos. Da socialite acostumada a uma vida luxuosa que de repente precisa trabalhar à pobretona que precisa ralar em um emprego comum pra garantir seu sustento, Woody Allen escreve personagens que carregam cada um seu fardo generalizado, como um rótulo, e que precisam se livrar destes ou, em várias ocasiões, são julgados e massacrados por possuírem uma determinada etiqueta. É também um filme que trata da convivência de duas sensações muito humanas: os pequenos momentos de felicidade e os grandes períodos amargos de tristeza, confusão e depressão.

Jasmine, interpretada por Cate Blanchett, foi adotada quando era criança e cresceu ao lado de uma irmã, também adotada. Já crescida, conheceu Hal, largou a faculdade de Antropologia que cursava e transformou-se em uma socialite de primeiro nível em Nova York, sustentada pelo dinheiro, luxo e mimos do marido, organizando jantares beneficientes e fazendo compras junto com as amigas. Certo dia, Hal é descoberto em suas falcatruas e é preso, perdendo todo o império que possuía. Jasmine, por consequência, perde seu status, volta a ser pobre e, não vendo mais saída, retorna para San Francisco, pedindo abrigo à irmã.

Imagem: Sony Pictures Classics, 2013

Imagem: Sony Pictures Classics, 2013

A irmã, Ginger, interpretada por Sally Hawkins, manteve-se em San Francisco com uma vida humilde. Casou-se com um empreiteiro, Augie, tendo dois filhos. Certo dia, o casal ganha uma quantia absurda na loteria e resolve investir o dinheiro em um negócio próprio. Em uma visita a Jasmine em Nova York, Ginger pede conselhos para a irmã e o cunhado, levando Augie a abrir uma empresa em sociedade com Hal. Quando o FBI descobre as fraudes cometidas pelo marido de Jasmine, Ginger e seu marido voltam para a pobreza. O casamento, no entanto, desmorona. Assim, a queda de Hal une, obrigatoriamente, as duas irmãs. Os conflitos começam a crescer quando o novo namorado de Ginger, Chili, um ogro sem papas na língua, resolve “falar as verdades” para Jasmine, acusando-a da verdadeira culpada da pobreza de Ginger. Jasmine, porém, revida tais acusações alegando que não se envolvia com os negócios do ex-marido.

Escolhendo mostrar esses fatos através de uma abordagem diferente, Woody Allen os conta para o espectador através de flashbacks que intervém a narrativa a todo momento. Era esperado, então, ocorrer várias quebras na narrativa do filme, mas Allen é esperto o bastante para inserir tais lembranças nos momentos de pausa que Jasmine faz para justamente lembrar do que aconteceu no passado. Ou seja, o espectador só sabe do que ocorreu anteriormente a partir das lembranças que também atingem a protagonista, um recurso que une a ação do filme com a expectativa curiosa do público.

Imagem: Sony Pictures Classics, 2013

Imagem: Sony Pictures Classics, 2013

E se Blue Jasmine conta os diferentes estereótipos através de situações alegres e tristes, isso se deve ao roteiro simples, mas dinâmico e bem construído de Allen e, principalmente, às atuações realizadas. Cate Blanchett é, com toda a certeza, a estrela do longa: a atriz constrói uma Jasmine ao mesmo tempo extremamente antipática e frágil, revelando uma surpreendente protagonista que, apesar de não desejar ser a queridinha do público, acaba ganhando a atenção dos espectadores por revelar-se humana em sua fragilidade. Já Sally Hawkins interpreta uma Ginger humilde, a todo momento contrapondo o peso imenso que é Jasmine em cena, demonstrando ser uma mulher simples e também frágil com as coisas que aconteceram em sua vida. É a partir das duas personagens que os demais vão se desenvolver ao longo do filme, girando em torno de suas necessidades e ambições, sejam elas grandes ou simples.

Allen também apresenta uma boa história quando espera pelos momentos certos para desencadear determinadas ações, gerando novos conflitos entre os personagens. O diretor faz questão de apresentar Jasmine e Ginger, cada uma a sua maneira, relacioná-las novamente, mostrar seus passados particulares com os flashbacks ao longo do filme e, por fim, decide por conclusões diferentes para cada uma, reafirmando as diferenças existentes entre as irmãs e as imprevisibilidades que podem ocorrer – e que a trama pontua desde o começo – na rotina de cada uma. Ao fim, Blue Jasmine prova que para determinadas coisas não há mudanças: não adiantou Jasmine mudar seu nome, batizada originalmente como Jeanette, por achar que o novo combinava melhor com seu status; a vida e suas ações determinantes mostram sempre que um encontro inesperado ou uma informação escondida que vem à tona podem mudar completamente o rumo daquilo que estava cuidadosamente planejado.

Imagem: Sony Pictures Classics, 2013

Imagem: Sony Pictures Classics, 2013

Pôster: Cardinal Communications USA

Pôster: Cardinal Communications USA

Blue Jasmine, dirigido e escrito por Woody Allen.

Com: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin, Andrew Dice Clay, Bobby Cannavale, Peter Sarsgaard.

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Filmes

O Hobbit: A Desolação de Smaug

O Hobbit nasceu como um projeto de adaptação cinematográfica problemático. Desde as brigas entre Warner e MGM, passando por dificuldades na concepção dos detalhes dos filmes e terminando na mudança de diretor (de Guillermo del Toro para Peter Jackson), os filmes não começaram bem sua carreira na sétima arte. Por fim, depois de todos os acertos realizados, Peter Jackson assumiu o posto de diretor, deixando o seu anterior – o de produtor executivo – para cair de cabeça, mais uma vez, na Terra-média criada por J. R. R. Tolkien.

Os problemas dos filmes, então, começam por aí. Apesar de ser um fã assumido das obras do escritor sul-africano e de ter realizado a árdua tarefa de transportar para a telona um dos livros mais complexos de Tolkien de uma forma bela e muito bem reconhecida, Peter Jackson parece ter desenvolvido uma certa tendência à megalomania. É óbvio para todos que conhecem minimamente a bibliografia de Tolkien que O Hobbit não tem o mesmo tom de narrativa de O Senhor dos Anéis. Enquanto o primeiro possui um narrador divertido, que intervém a todo momento na história para palpitar com o seu leitor, o segundo veste uma voz épica, suntuosa, criando descrições magníficas e demoradas sobre cada canto dos reinos, montanhas e florestas pelos quais Frodo e Sam precisam passar.

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

É dessa diferença que nasce o problema principal, talvez, desses novos filmes de Jackson: não há necessidade de esticar tanto a narrativa de Bilbo Bolseiro em busca do tesouro dos anões escondido na Montanha Solitária. A megalomania recente do diretor fica evidente, em um primeiro momento, no roteiro de A Desolação de Smaug, este segundo filme da nova trilogia situada na Terra-média: escrito por quatro pessoas (o próprio Jackson e suas constantes colaboradoras, Fran Walsh e Philippa Boyens, além de Guillermo del Toro), ele está encharcado de adições provenientes dos anexos que Tolkien foi escrevendo conforme ia expandindo o universo que criou. Não contentes em inchar uma história que deveria ser breve e divertida, os roteiristas criaram, para esse capítulo, uma nova personagem e “trouxeram de volta” outro personagem que havia dado as caras na trilogia de O Senhor dos Anéis.

A parte técnica do longa, no entanto, está magnífica. Todas as equipes responsáveis pelos efeitos visuais e especiais, além de todo o trabalho com a computação gráfica, visivelmente deram duro para criar do zero e mostrar na tela do cinema diversos cenários e seus incontáveis detalhes, que muitas vezes podem passar direto pelos olhos de espectadores menos atentos. Esse aspecto também é notável com os personagens: os wargs que servem de montaria para os orcs, as aranhas monstruosas que estão tomando conta da Floresta das Trevas e também Beorn, que infelizmente tornou-se um personagem plano na visão adotada pelos roteiristas.

O destaque, porém, fica para Smaug, como todos esperavam. Escondido desde a divulgação do primeiro longa, o grande dragão não dá as caras até precisar necessariamente fazer isso, o que aumenta a expectativa de quem está acompanhando a saga de Bilbo e, por fim, é recompensado com a magnitude do lagartão criado em computação gráfica e interpretado por Benedict Cumberbatch, que emprestou movimentos, expressões e voz (e que voz!) através da tecnologia em motion capture. Tentar encarar a face carrancuda e poderosa de Smaug, em 3D, em uma sala escura, é realmente vivenciar a história contada ali na tela diante do público.

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Assim como As Duas Torres ou qualquer capítulo de transição de outra saga cinematográfica, A Desolação de Smaug começa do ponto em que Uma Jornada Inesperada terminou e termina sem conclusão. A duração desse capítulo poderia ser muito menor do que acabou sendo finalizada, ou mesmo poderia ser o segundo e último capítulo de O Hobbit nos cinemas, deixando a sensação, mais uma vez, de que Peter Jackson desaprendeu sua habilidade de cortar elementos que não são essenciais à trama e priorizar os destaques, como fez com os três filmes de O Senhor dos Anéis. Criar personagens que não estão no material de origem não é ruim, mas o problema é conceber uma nova elfa, Tauriel (interpretada por Evangeline Lilly), que não tem espaço nem tempo suficientes para ser desenvolvida e, ainda por cima, é colocada no filme justamente para servir de lado de um triângulo amoroso cafona e simplório, inchando mais ainda a já longa duração do filme.

Outro problema significativo são os anões. O que já ocorria em Uma Jornada Inesperada volta a acontecer nesse novo longa: para o espectador, não há importância quem é Balin, Dwalin, Bifur, Bofur e companhia limitada… no fim das contas o que resta para o público é um desfile de personagens praticamente iguais (mesmo usando barbas diferentes e penteados de barbas diferentes) que só correm, lutam, se escondem e que são incrivelmente irritantes. As excessões para A Desolação de Smaug são Bombur, que protagoniza uma tomada única e muito bem coreografada na cena da fuga nos barris; Balin, que se revela, mais uma vez, o único anão que pensa racionalmente (e não movido pela gula ou ganância) e acaba servindo de contrapeso para os demais; e, por fim, Thorin, cuja interpretação de Richard Armitage desenvolve melhor o personagem, mais ambicioso e perigoso a essa altura do campeonato. No fim, as demais interpretações que se destacam são as de Martin Freeman, essencialmente divertido e leve como Bilbo (exatamente como deveria ser) e, claro, Sir Ian McKellen, trazendo de novo um Gandalf marcante, apesar de pouco mostrado.

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

A Desolação de Smaug preza mais pela ação, isso é visível desde os primeiros minutos de filme. E tenta dar um tom mais sombrio para a história, destacando mais o humor involuntário do que o humor físico, por exemplo. É um filme que também precisa mostrar toda a força que Smaug exerce sobre os demais, já se estabelecendo como o grande antagonista da trilogia. Um ponto interessante que deve ser lembrado é a inserção que Jackson faz de Sauron na história: mostrar seu crescente poder explica para aqueles que apenas assistiram a O Senhor dos Anéis como ele vem a ser um vilão tão poderoso como acaba se tornando na futura Guerra do Anel. O que resta agora é esperar por O Hobbit: Lá e de Volta Outra Vez e torcer para que Peter Jackson finalize essa nova trilogia de forma razoável, já que as suas duas primeiras partes estão pendendo para o lado oposto.

*

E o HFR?

Assistir A Desolação de Smaug em 3D é uma experiência a parte, apesar de que, na maioria das cenas, Peter Jackson não demonstra saber utilizar de maneira magistral a ferramenta da qual dispõe para contar sua história. Em muitas tomadas, o diretor deixa o fundo “embaçado”, prezando pelo primeiro plano, o que tira um pouco o efeito tridimensional. O interessante, na verdade, é assistir ao filme em high frame rate, ou simplificadamente HFR.

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Imagem: Warner Bros. e Metro-Goldwyn-Mayer, 2013

Os três filmes de O Hobbit foram filmados utilizando câmeras que captam a ação gerando 48 quadros por segundo na projeção do filme. Um filme comum é rodado a 24 quadros por segundo, em termos de uma simples comparação. Ou seja: quando você assiste A Desolação de Smaug em HFR, a ação que se passa na tela é muito próxima da sensação de que temos quando enxergamos o mundo real (se os olhos humanos fossem câmeras de cinema, eles filmariam em 60 quadros por segundo, aproximadamente), o que causa uma assustadora reação no espectador, que passa a enxergar a tela de cinema como uma janela para algo real.

O HFR permite a projeção de movimentos que não são acompanhados pelos costumeiros “borrões” que vemos quando assistimos a um filme tradicional com os personagens se movendo na tela. O problema da tecnologia é que, com essa proximidade do mundo real, os personagens criados em computação gráfica lembram muito aqueles que estão presentes nos jogos de video-game atuais: dá pra ver, notavelmente, que eles não são reais. O lado bom é que os 48 quadros por segundo suavizam muito mais o efeito 3D, permitindo ao espectador que sente dores de cabeça após ver um filme tridimensional aproveite melhor a tecnologia ao assistir A Desolação de Smaug em HFR.

Pôster: Art Machine

Pôster: Art Machine

The Hobbit: The Desolation of Smaug, dirigido por Peter Jackson; escrito por Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson, Guillermo del Toro (baseado na obra O Hobbit, de J. R. R. Tolkien).

Com: Martin Freeman, Richard Armitage, Ian McKellen, Benedict Cumberbatch, Evangeline Lilly, Ken Stott, Orlando Bloom.

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Filmes

A Espuma dos Dias

Assistir a um filme que utiliza efeitos especiais mecânicos e que faz questão de mostrar ao espectador que não está preocupado com uma verossimilhança correspondente ao mundo real é praticamente um choque para os dias de hoje. Nós, como público acostumado à capacidade de criar, através da computação gráfica, elementos fantásticos que Hollywood tem, sofremos um estranhamento muito grande quando assistimos a um filme como a nova obra de Michel Gondry.

A Espuma dos Dias é baseado no livro homônimo de Boris Vian, romance que conseguiu uma legião de fãs desde que foi publicado, principalmente entre os adolescentes. A propósito, a evolução a que os personagens principais do filme são submetidos é uma grande metáfora do amadurecimento que passamos quando saímos da adolescência e pisamos nos primeiros degraus da fase adulta: quando o apaixonado Colin descobre que vai precisar gastar muito dinheiro com o tratamento de sua esposa Chloé, pela primeira vez na vida ele vai procurar por um emprego. E, ironicamente, torna-se a pior fase de sua vida.

Imagem: StudioCanal, 2013

Imagem: StudioCanal, 2013

O filme conta a história de amor entre Colin e Chloé. Ele, um rapaz desajeitado e que estraga a única cantada que funcionaria com Chloé quando a conhece; ela, uma moça de semblante alegre e que vai se abrindo cada vez mais para o amor puro e doce que cresce quando se casa com Colin. No entanto, a história trata de mostrar que o que está suave e onírico no princípio, com o tempo as adversidades da vida a dois passam a obscurecer a relação, deteriorando pelas bordas e chegando ao centro do sentimento. É nesse momento que Colin precisa encarar as responsabilidades que até então não faziam parte de sua vida e, principalmente, tomar decisões difíceis que envolvem a pessoa que mais ama.

Gondry não teme a adapatação do livro de Vian, que moldou sua própria poética quando começou a trabalhar com cinema, como afirma o próprio diretor. Para quem não conhece a narrativa de Boris Vian, fica visível no filme de Gondry: é constante a brincadeira com as palavras e seus significados, sem contar o clima de desenho animado que impera desde o início do filme (as pernas alongadas, como se fossem de borracha, quando os persongens vão dançar, é um dos exemplos mais evidentes). É nesse sentido que o diretor prezou por efeitos mecânicos, que realmente existissem e dividissem a cena com os atores, como a realização de stop motion em diversas tomadas e o back projection em outras, emulando filmes de décadas passadas.

Imagem: StudioCanal, 2013

Imagem: StudioCanal, 2013

O mais interessante, porém, é ver como os espaços interiores e a utilização de variadas paletas de cores moldam o clima do longa. Em dado momento, o quarto de Colin e Chloé transforma-se em um cômodo arredondado; o apartamento do casal, conforme a doença pulmonar de Chloé se alastra, muta-se em um espaço sombrio, claustrofóbico, enclausurando-se em si mesmo. Outra metáfora brilhante é o vício que o amigo de Colin, Chick, possui: fissurado por um escritor de nome Jean-Sol Partre (um trocadilho espirituoso, diga-se de passagem), Chick passa os dias gastando seu raso dinheiro em livros e mais livros, chegando ao ponto de empobrecer e, mesmo assim, continuar sentindo a necessidade de consumir cada vez mais as palavras sem sentido do escritor esquisitão, situação que tem um desfecho tragicômico nas mãos da namorada de Chick, Alise.

É importante falar sobre a qualidade da atuação do trio principal: Romain Duris não ofusca as demais atuações, e sim divide a responsabilidade de carregar a história com a bela interpretação de Chloé que Audrey Tautou realiza e com a leve e engraçada representação de Omar Sy para o cozinheiro e faz-tudo Nicolas, alívio cômico em muitos momentos do filme. Gondry faz questão de centralizar seu filme nas atuações de cada um, acompanhando os atores com sua câmera inquieta e divertida e com a edição rápida e cartunesca. Tudo isso melhorado com uma trilha sonora única.

Imagem: StudioCanal, 2013

Imagem: StudioCanal, 2013

A Espuma dos Dias lembra, então, que ainda é possível realizar uma obra cinematográfica utilizando-se de boas atuações e traquinagens mecânicas. E que mesmo em uma situação alegre e confortável da vida, sempre haverá o lado preocupante e cheio de tristezas e incertezas. Não é à tôa que a fotografia do filme começa com um saturado bonito e, com o desenrolar da trama, passa pelo azul melancólico e, por fim, apresenta-nos um desfecho no solitário e desolado branco e preto.

Pôster: Le Cercle Noir

Pôster: Le Cercle Noir

L’écume des jours, dirigido por Michel Gondry; escrito por Michel Gondry, Luc Bossi (baseado na obra A Espuma dos Dias, de Boris Vian).

Com: Romain Duris, Audrey Tautou, Omar Sy, Gad Elmaleh, Aïssa Maïga, Charlotte Le Bon.

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