Séries

Mad men

Fui atraído pela ideia de iniciar Mad men (Idem, 2007-2015) com a proposta da série em retratar a rotina de uma agência publicitária americana nos idos dos anos 1960. Como formado na área de Letras, meu interesse pela palavra e pela imagem e seu mais variado uso pelas áreas do conhecimento humano invariavelmente passa pela propaganda. Ao saber que Mad men mostrava os bastidores do mundo publicitário, pensei, por um momento, que acompanharia os processos de criação de uma propaganda e as consequências de sua veiculação.

Pobre de mim.

Não que a série tenha me decepcionado nesse nível. Em diversos episódios, é possível conhecer os procedimentos utilizados para se convencer, em primeiro lugar, os executivos da empresa que pagarão pelos anúncios a serem produzidos, e, depois, o grande público, aquele que consumirá o produto vendido.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Porém, Mad men é uma narrativa profunda, vai muito além da casca publicitária, da rotina nova-iorquina do pós-guerra. Enveredar por seus episódios é aprofundar-se em personagens rasos e complexos – rasos em caráter, complexos psicologicamente; é ver-se em um redemoinho de reflexões sobre como nos consideramos meros produtos em uma loja – pior, em uma propaganda -, como nos tornamos os produtos que almejamos obter.

Alie, agora, todo esse pano de fundo com um tratamento visual apurado. Claro, seria no mínimo irônico assistir a uma série que tem como temática principal a imagem das coisas (coisas-objeto, coisas-produto, coisas-pessoa) se essa não prezasse por sua própria imagem.

Alie, também, a atuação de cada profissional ali presente para trazer à vida personagens, como já disse, muito rasos em suas imagens próprias, mas abismais em seus complexos e problemáticas pessoais. Alie, por fim, dois elementos que funcionam como combustíveis para a narrativa completar-se em uma obra audiovisual digna de prêmios – como todos que merecidamente colecionou – e, mais importante ainda, de nossa atenção: os contextos históricos de cada década pelas quais Mad men passa – os falsos inocentes e morais anos 60, os exóticos anos 70, os decadentes anos 80 – e, talvez acima de tudo em determinados episódios e cenas específicas, a apurada trilha-sonora.

O vazio

Talvez, além da imagem, a temática mais trabalhada ao longo das sete temporadas seja o vazio inerente ao ser humano. Presente em todos nós, em maior ou menor grau, o vazio tonifica-se aqui devido ao meio em que os personagens se encontram: cidade grande, rotinas automatizadas, meio capitalista de produção e consumo de itens descartáveis para uma sociedade refém do descartável. Dificilmente haverá, ali, alguém preocupado com algo além das próprias roupas, cabelos, sapatos, bolsas, maquiagens. Porém, o jogo temático de Mad men já começa por aí: achamos, como plateia, que ali não há personagens com personalidade, apenas fantoches manipulados por uma indústria fadada à falência.

Mas é o vazio que realmente importa.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Assim, em diversos episódios, é possível notar cenas escritas apenas para explorar esse vazio que emana do personagem, do meio em que se encontra, dos assuntos que trata com outros personagens ou tudo ao mesmo tempo. Vemos, portanto, cenas com o protagonista contemplando o horizonte cinza de Nova York a partir da janela de seu escritório; os céus a partir de um cenário externo, no campo; o mar a partir da praia onde finge estar em férias com a esposa; a piscina azul e convidativa do hotel no qual se hospeda para criar mentiras confortáveis a seus clientes e pessoas com quem deseja se relacionar para preencher vazios dentro de vazios. E os vazios encontram-se também, mais perigosos ainda, nos espaços fechados: o sócio tentando suicídio dentro do carro fechado, o sócio enforcando-se dentro do cubículo onde trabalha, as traições conjugais dentro de quartos de hotéis, dentro de carros, dentro do apartamento da vizinha. Não à toa, a própria abertura mostra o publicitário caindo em um redemoinho de propagandas (mentiras) em direção ao nada branco (vazio), para, logo depois, cortar a cena e dar um zoom out que sai das costas desse publicitário – e ele está, vejam só, contemplando, vejam só, o vazio novamente.

Mad men, então, ao trabalhar com esse vazio inerente, jogará com o público a partir de seus julgamentos morais. Apesar de casados, protagonistas e personagens secundários traem seus respectivos parceiros. Apesar de comprometidos com determinada empresa, protagonistas e personagens secundários encontram-se com a concorrência para possíveis acordos profissionais mais vantajosos. Apesar de possuírem determinadas convicções político-sociais e convicções religiosas, protagonistas e personagens secundários dançarão conforme a música ditar e o dinheiro cair na conta. Não há como negar que esse vazio é algo atraente, ainda mais quando alia-se a temática com o visual chic do decadentismo banhado a glamour vintage, com a presença de cigarros acesos, taças de vinho, ambientes esfumaçados e todo um clima de cinema noir.

Não há como negar também, como consequência de toda a construção narrativa da série, a atração que surge em nós para cada personagem.

Joan

Assim como Peggy, a qual tratarei com detalhes mais adiante, Joan Harris possui um arco narrativo de ascensão. Apesar de ser apresentada logo de início como alguém subalterna dentro da agência, sua posição ainda impõe um determinado poder sobre diversas personagens – essencialmente femininas -, o que cria um apelo certeiro ao público.

Há um misto de poder com fragilidade em  Joan.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Sua principal defesa dentro daquele meio social intricado é impor-se com palavras que corroem e olhos que perfuram. Aos homens, fica também reservado seu visual proeminente, com direito a cabelos e lábios vermelhos como fogo e peitos naturalmente avantajados, uma distração quase publicitária para homens heterossexuais com infindáveis dólares em suas carteiras.

Por dentro, porém, Joan encolhe-se diante da impossibilidade de manter um relacionamento fixo, idealizado por ela mesma em diversos momentos, mas que não passa de uma propaganda própria para se iludir – todos nós precisamos de um sonho inalcançável para acreditarmos em um sentido na vida, mesmo que esse sonho e, consequentemente, o sentido, não exista.

Roger

Cínico, realista e atraente por todos os motivos errados.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Dentre todos os personagens apresentados por Mad men, um dos principais sócios da inicialmente Sterling-Cooper talvez seja o mais honesto – mesmo que cultive, ao longo dos anos, a imagem do canalha sem conserto. Honesto pois, ao ser cínico, trabalha com acidez as verdades que muitas vezes precisam ser realmente ditas; ao ser realista, mantém-se no poder econômico no qual se encontra e, claro, não deseja perder; ao permanecer atraente, mesmo sendo mais velhos que os demais, trabalha a imagem-própria a seu favor.

O conjunto, portanto, é apelativo demais para se deixar passar batido.

Peter

Egoísta.

Não há adjetivo melhor para Pete Campbell.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Talvez poderíamos incluir aqui também a ambição como parte principal de sua composição como personagem, mas, mais cedo ou mais tarde, ela também transforma-se em egoísmo. Se seu cliente não está contente, é porque a agência não acredita em seu potencial; se decidem por alterar os trâmites de uma determinada negociação, é porque a conta é dele; se seu casamento desmoronou e a relação com sua filha é tênue, é porque ninguém o compreende.

O eterno adolescente.

Betty

Não há como não suspirar ao pensar em Betty Draper.

Ela é, com toda a certeza, a personagem-modelo para a ideia que comentei logo no início sobre Mad men trabalhar com a imagem de cada personagem para que pensemos justamente no vazio intrínseco à história.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aqui temos um arco clássico de ascensão e decadência. A fútil mulher suburbana, loira, rica, dona-de-casa e refém do marido e filhos. Impossível não olhar para Betty e sua existência e não pensar em Ana, a complexa, mas aparente fútil, personagem de Clarice Lispector para seu grandioso conto “Amor”. Um dia, Betty Draper também assiste ao cego mascando chicles. Um dia, os ovos na sacola de crochê de Betty também caem por causa do solavanco do bonde. Um dia, Betty Draper também entra em uma epifania.

E como é saboroso acompanhar o amor e o ódio que disputam lugar em nós enquanto acompanhamos sua subida e inevitável descida. Acompanhar seu fim pode deixar um gosto amargo, mas jamais indigno.

Peggy

Inicialmente a doce, inocente, ingênua e, muitas vezes, burra Peggy nos encanta com seu olhar cheio de brilho, daqueles que pertencem à adolescente forasteira, daquela de repente morando na cidade grande, trabalhando numa respeitosa e emergente agência de publicidade, secretária do já lendário e eternamente misterioso Don Draper.

Porém, o que parecia o enredo de A redoma de vidro, de Sylvia Plath, torna-se algo inesperado com a primeira quebra narrativa que a personagem sofre ao ver-se grávida e, sem (aparentemente) remorsos, consequente desejo de livrar-se do próprio filho – seu futuro profissional não comporta uma criança. E, ao longo das sete temporadas, o público acompanha mais e mais quebras narrativas em Peggy. Apesar de sua casca de personagem óbvia, Peggy nos prova que, cada vez mais, vai se tornando seu pior nêmesis: a figura de homem frio cristalizada em Don Draper.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aliás, a grande importância no enredo de Peggy é a necessidade (assim como Joan, em um menor nível) de tornar-se um homem – não literalmente, claro, mas ser considerada de igual para igual dentro do ambiente profissional no qual vai galgando novas posições conforme suas habilidades são demonstradas e provadas arduamente. Estamos, inicialmente, nos anos 1960, e nos anos 60 é preciso ser homem para ser alguém.

(Não que hoje seja diferente)

Também funcionando como alívio cômico – na maioria massiva das vezes, destilando um humor involuntário no público que prova mais uma vez a elegância da produção da série -, Peggy vai se equilibrar (e desequilibrar) na linha tênue entre submissa silenciosa e tirana irremediável. O poder sobe à cabeça de todos, é óbvio. E é divertido observar como ela vai lidar com tal fato.

Don Draper

Falar sobre Don Draper renderia muitas linhas. Mas tentarei ser conciso.

Sua imagem dentro da série é a canalizadora de todas as temáticas abordadas nos demais personagens ao longo das temporadas.

Frio, soturno, talentoso e atraente, Don Draper cresceu em ambientes e vivenciou situação ao longo da vida que se tornam ingredientes minuciosos na composição de seu eu publicitário. Ele precisa inventar verdades, como o subtítulo da adaptação brasileira do título nos diz, e, para isso, precisa saber mentir bem. E ele sabe.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Seu talento, portanto, é um constructo cuidadoso proveniente não apenas das estratégias que usa para convencer seus clientes a pagarem por mentiras a serem contadas sobre seus produtos (a mentira na mentira, um mise en abyme inevitável), mas também das mentiras que conta às suas esposas, às suas amantes, aos seus filhos, aos seus colegas de trabalho e, principalmente, a si mesmo.

Don Draper não é importante para a série apenas por ser homem, engomadinho, sexy, talentoso e um mentiroso nato. Don é uma propaganda viva. E como tem consciência disso, usará todas as artimanhas disponíveis em si próprio e ao seu redor para que isso cause qualquer resultado, seja ele direcionado à agência, à sua família, às suas amantes, à sua conta bancária ou a si mesmo.

Don Draper é, portanto, cada um de nós.

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Pôster: The Refinery (fotografia por: Frank Ockenfels)

Mad men, criada por: Matthew Weiner; escrita por: Matthew Weiner, Jonathan Igla, Kater Gordon, André Jacquemetton, Maria Jacquemetton, Erin Levy, Carly Wray, Lisa Albert, Semi Chellas, Robin Veith, Dahvi Walter, Bridget Bedard, Tom Palmer, Chris Provenzano, Marti Noxon, Brett Johnson, Cathryn Humphris, Janet Leahy, Jonathan Abrahams, Victor Levin, Tom Smuts, Jane Anderson, Rick Cleveland, Andrew Colville, Keith Huff, Tracy McMillan, Frank Pierson, Jason Grote, Heather Jens Bladt, David Iserson; dirigida por: Phil Abraham, Michael Uppendahl, Jennifer Getzinger, Matthew Weiner, Scott Hornbacher, Lesli Linka Glatter, Tim Hunter, John Slattery, Andrew Bernstein, Alan Taylor, Chris Manley, Jon Hamm, Ed Bianchi, Paul Feig, Barbet Schroeder, Daisy von Scherler Mayer, Lynn Shelton, Matt Shakman, Jared Harris.

Com: John Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, John Slattery, Kiernan Shipka, Robert Morse, Christopher Stanley, Jessica Paré, Jay R. Ferguson, Alison Brie, Jared Harris, Kavin Rahm, Mason Vale Cotton, Ben Fieldman, Mark Moses, Teyonah Parris, Stephanie Drake, Jared Gilmore, Talia Balsam, Marten Holden Weiner, Elizabeth Rice.

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Black mirror

O que mais nos assusta em Black mirror? A tecnologia avançada? As reviravoltas na maioria dos episódios? Ou a soma desses dois fatores e a capacidade inata do ser humano causar dor através de sentimentos mais profundos como o amor, o ódio, a inveja e a ganância? Parece não haver um consenso que responda tais questões, e esse talvez seja o ponto de maior sucesso da série britânica, responsável por índices grandes de audiência e de discussões pós-transmissão dos episódios desde sua estreia em dezembro de 2011.

O consenso, aqui, não deve necessariamente existir, já que, estruturalmente, Black mirror não se prende a um núcleo apenas de personagens e arcos dramáticos, trazendo uma nova história e sua respectiva (ou não) conclusão ao final de cada episódio. Assim, enquanto uma parcela da audiência vai se sentir frustrada com o desenrolar dos fatores em determinado capítulo, é bem provável que um outro grupo considere a mesma história um primor da narrativa moderna. E “frustração” parece ser a sensação mais buscada pelo criador e principal roteirista da série, Charlie Brooker, em seus espectadores.

Dentre tantos encontros e desencontros dentro dos consensos pertinentes à qualidade de Black mirror, é inegável que seu grande sucesso e consequente repercussão dá-se porque a série não se rende às pressões midiáticas para tornar-se, ao longo do tempo, mais “palpável” em busca de mais audiência. Black mirror é idealizada e, vejam bem, realizada para que você se sinta frustrado. E essa frustração pode vir de duas formas: a partir de uma história que não terminou da forma como você, mero espectador, gostaria que acabasse; ou a partir das conclusões que alguns episódios podem sugerir a você através dos temas e discussões levantados ao longo de seus roteiros.

Ou seja, ou nos frustramos porque o final não era aquele que gostaríamos, ou nos frustramos porque, dependendo do resultado das ações dos personagens, somos humanos como aqueles retratados na série, mesmo alocados em um espaço-tempo distópico, a par de uma tecnologia preponderante, e, dessa maneira, igualmente passíveis de errar e nos levarmos a consequências como as retratadas nas histórias da série. Assim, Black mirror começa a pesar em nossas costas quando passamos a perceber que o problema ali presente não é a tecnologia, nem o uso que os humanos fazem dela; o problema são os humanos, seres paradoxais a ponto de desenvolverem tecnologias impressionantes, mas ainda incapazes de utilizá-las de maneira exemplar, já que, apesar de evoluídos, ainda somos irracionais e passionais o bastante para nos frustrar das piores maneiras possíveis.

Com tudo isso em mente, os fãs da série e os novatos receberam de maneira bem negativa a notícia de que o Channel 4, rede televisiva britânica, não veicularia mais Black mirror além das duas primeiras curtíssimas temporadas – 3 episódios cada – e seu especial de Natal. O alívio (e surpresa também) veio com a confirmação de que a série voltaria para as telas do público, mas agora com a Netflix. Sintam a ironia. Por um lado, isso poderia ser uma boa notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas; já do outro, isso poderia ser uma péssima notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas. E a segunda possibilidade parece refletir agora na recém-lançada quarta temporada, no final de dezembro de 2017.

Dois anos após o especial de Natal transmitido pelo Channel 4, a Netflix anunciou a compra dos direitos da série e a produção de 12 episódios, que seriam divididos em duas novas temporadas. Apesar da qualidade dos seis primeiros, incluindo aí suas estruturas e o estilo peculiar de Black mirror apresentar personagens e histórias sem esperanças, tendendo para conclusões pessimistas e, por vezes, até niilistas – excluindo-se, aqui, obviamente, o drama com ares idílicos “San Junipero”, o alívio da terceira temporada -, os seis últimos episódios da mais nova temporada merecem uma análise mais pormenorizada. Já podemos afirmar, de antemão, que Black mirror não mantém mais sua uniformidade em relação à qualidade e à capacidade de nos surpreender. A questão principal, então, é: isso necessariamente é ruim?

Os episódios

Antes de partir para uma análise de cada episódio da quarta e mais recente temporada, aviso que não haverá spoilers aqui prejudicando as sessões de cada um depois, caso você ainda não os tenha visto.

Seguindo uma tendência já observada na temporada anterior, Charlie Brooker preparou episódios mais longos (o primeiro, “USS Callister”, com quase 1h20 de duração), deixando mais espaço para o desenvolvimento de personagens e, no caso do último capítulo, “Black Museum”, mais tempo de cena para o desenrolar dos três “contos” que ali se entrelaçam. Num mundo atual, onde a modernidade ordena uma agilidade para tudo o que produzimos e consumimos, é de se notar que Black mirror, ainda mais por comentar tópicos relacionados à tecnologia e, consequentemente, à sua efemeridade, traga episódios que ultrapassem a marca de uma hora, um verdadeiro suplício para diversas pessoas acostumadas com o ritmo frenético das produções dos últimos anos – ainda mais quando se fala em séries.

O foco, na 4ª temporada, ainda é as relações humanas em um futuro incerto, mas dominado pelo uso da tecnologia. Apesar de flertar com a ficção científica e elementos de narrativas distópicas (mais acentuado no quarto episódio, “Hang the DJ”), a intenção de Black mirror é escanear, de diversas maneiras, o comportamento humano, cercado e cerceado por seus sentimentos, tentando se equilibrar entre a razão e a emoção constantemente. Sendo a tecnologia um canalizador ou um energético para as decisões humanas, ela pode ser considerada, ainda, dentro da série, o “pano de fundo”, e não necessariamente a protagonista (como vemos no terceiro episódio, “Crocodile”).

  • “USS Callister”

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Imagem: Netflix, 2017

O primeiro episódio da 4ª temporada potencializa a visão de Black mirror de como a tecnologia possibilita, mas não estimula as atitudes negativas do ser humano. Isso fica claro a partir do jogo de aparências que o roteiro cria com o protagonista.

A princípio demonstrando, para o espectador, atitudes mais introvertidas e sua inegável subordinação ao provável antagonista do episódio, ele passa de mocinho a vilão em questão de minutos, e isso não é obra do personagem em si, mas do roteiro: estruturada a partir de uma homenagem a Star trek, e, por isso, filmada em um aspecto de tela mais largo, dando um ar mais cinematográfico para o episódio, a história vai montar o caráter do protagonista por meio da visão de uma das personagens, que tem sua visão de admiradora quebrada com o desenrolar dos acontecimentos. Tal visão – e sua mudança – é importante para o julgamento do público.

Apesar de não acentuar tanto seu “quê” de Black mirror, “USS Callister” possui méritos ao desenvolver um personagem com “síndrome de Deus” crível e, ao mesmo tempo, estereotipado, sem cair em um aspecto novelesco. É uma história que esbarra na imagem clássica do nerd antissocial e desmonta sem necessariamente, com isso, afirmar que tal imagem clássica seja o problema para as atitudes do personagem.

  • “Arkangel”

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Imagem: Netflix, 2017

O segundo episódio retrata um tema muito caro à literatura e ao cinema mundiais: a relação mãe e filho. Aqui, porém, teremos a adição da tecnologia como tempero para os problemas que vão explodir de maneira inevitável.

“Arkangel” é o primeiro episódio de Black mirror dirigido por uma mulher e, logo de cara, temos Jodie Foster no comando da produção. Talvez isso reflita na qualidade das atuações aqui, com Rosemarie DeWitt (de La la land, 2016) interpretando a mãe e Brenna Harding a filha, a dupla que conduz o ritmo e a história. A ligação tecnológica entre mãe e filha cria um cordão umbilical high-tech sem volta, potencializando a sensação de propriedade que Marie tem sobre Sara. E, diferentemente do episódio anterior, “Arkangel” traz alguns elementos que retomam a sensação amarga de que estamos acompanhando não apenas uma história comum, mas sim um episódio de Black mirror.

  • “Crocodile”

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Imagem: Netflix, 2017

Porém é aqui, com “Crocodile”, que o fundo do poço das emoções humanas se aproxima mais do espectador.

Com o roteiro mais bem estruturado da temporada, o episódio vai entrelaçar duas histórias, num ritmo que se torna cada vez mais pesado de acompanhar conforme os minutos vão passando. “Crocodile” é o exemplo máximo, na 4ª temporada, de que a tecnologia presente dentro da história está ali apenas como base, pois as ações da protagonista, Mia Nolan (interpretada pela ótima Andrea Riseborough), são os principais pontos do episódio, variando do medo ao mais profundo desespero.

É nesse terceiro episódio que Black mirror volta às suas origens, apresentando uma história que prende o espectador através, inicialmente, de uma tensão, passa pelo suspense e chega ao seu ápice com sequências sem volta, legando ao público  uma sensação de amargor e desesperança.

  • “Hang the DJ”

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Imagem: Netflix, 2017

Assim como o “San Junipero” da terceira temporada, “Hang the DJ” traz uma pausa saudável para o ritmo de histórias mais negativas, com seu pico em “Crocodile”.

Apesar de haver, aqui, ainda, aspectos mais melancólicos que endereçam mensagens bem claras a toda uma geração baseada em encontros amorosos ou sexuais promovidos por aplicativos de celular, “Hang the DJ” usa a motivação de revolução dentro de um ambiente opressor e distópico para desenvolver seus personagens. O casal protagonista desperta a simpatia do público em questão de minutos, e, com isso, passamos a sofrer junto com os personagens quando as regras do sistema em que vivem começam a influenciar demais em suas vidas.

  • “Metalhead”

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Imagem: Netflix, 2017

Já “Metalhead” é o grande escorregão de Charlie Brooker. São quarenta minutos de completo desperdício de vida.

Movido por uma protagonista que não se sustenta, já que o roteiro não entrega para o público motivações suficiente para que ela aja da maneira que age, um vilão ultra-tecnológico que também não apresenta nenhum propósito a não ser matar e coadjuvantes completamente inúteis (em todos os sentidos, dentro e fora da narrativa), o episódio é completamente esquecível.

“Ah, mas há referências à Revolução dos bichos, de George Orwell e uma fotografia em preto e branco muito bonita”. Pois é, mas e a relação disso tudo dentro dos significados da narrativa? Completamente rasa. Roteiro preguiçoso, personagens planos e uma cena final enervante (no pior sentido do termo).

  • “Black Museum”

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Imagem: Netflix, 2017

Após o desastre de “Metalhead”, “Black Museum” retoma a qualidade tão conhecida de Black mirror, trazendo tensão e aditivando ações humanas terríveis através da tecnologia.

O grande mérito do episódio não é, porém, seu final “surpreendente”, mas sim a estrutura de sua narrativa: com um personagem servindo de narrador para outras histórias dentro da história, “Black Museum” tem um ar de livro de contos de Stephen King, e uma das histórias contada pelo personagem, inclusive, poderia ter desenvolvimento próprio.

Essa história foi baseada num conto escrito por Penn Jillette, mas nunca publicado. O autor tentou publicá-la no final da década de 80, mas seu editor achou o conteúdo muito “sombrio”. Ele também tentou transformá-la em filme, na época, mas foi recusada novamente. Muitos anos depois, Jillette almoçou com Charlie Brooker e comentou sobre seu conto renegado. O criador de Black mirror gostou da ideia no mesmo momento e prometeu incluí-la, de alguma forma, na série. Cumprindo com sua palavra, Brooker baseou-se na história de Penn Jillette, intitulada “Pain addict”, para rechear grande parte de “Black Museum”.

E é “Pain addict” que devolve o tom de Black mirror para seu devido ritmo após o desastre em “Metalhead”.

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Pôster: LA, 2017

Black mirror, criada por: Charlie Brooker; escrita por: Charlie Brooker, William Bridges; dirigida por: Jodie Foster, Toby Haynes, John Hillcoat, Colm McCarthy, David Slade, Timothy Van Patten.

Com: Daniel Lapaine, Michaela Coel, Georgina Campbell, Rosemarie DeWitt, Douglas Hodge, Maxine Peake, Jesse Plemons, Andrea Riseborough, Joe Cole, Brenna Harding.

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Stranger things 2

Se um dia a preocupação da TV tradicional era o advento dos serviços de streaming e a possibilidade do espectador escolher o que assistir e quando assistir, hoje já é possível notar um total rendimento ao formato consagrado principalmente pela Netflix: a série. Não é difícil de observar, por exemplo, uma recorrência maior de mudanças em novelas globais, por exemplo, como que uma transição entre o formato de folhetim clássico para o de uma história seriada, passando por alterações no ritmo da trama, aproveitamento da internet – conhecida, atualmente, como “segunda tela” – e até um tratamento mais fílmico na composição de imagens. A Netflix, inclusive, com o passar dos anos, passou de transmissora de conteúdo para produtora, e isso a estabeleceu como modelo a ser seguido.

Dentre seus sucessos de público e mercado, Stranger things  (idem, 2016) chegou no meio de 2016 para suprir a gana de um nicho de público ao mesmo tempo exigente e fiel. Representados de diversas maneiras ao longo da história da TV e também do cinema, os nerds tiveram a oportunidade de ouro de se refestelarem com a série, surtando com inúmeras referências à cultura pop dos anos 80. A fórmula, apesar de pronta para o sucesso, não é muito simples de seguir. Isso devido ao fato de, por ser justamente algo muito palatável ao olhar de diversos grupos, Stranger things poderia dar errado de muitas formas (o elenco poderia afundar a série, o desenvolvimento de personagens poderia morrer ao longo da temporada ou a produção não ser à altura das expectativas geradas pela trama). No entanto, seu enorme sucesso acabou não apenas atingindo o objetivo da fórmula de sucesso, como gerou filhotes ainda mais perigosos: como manter a qualidade de uma primeira temporada redondinha sem decepcionar as expectativas do público.

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Imagem: Netflix, 2017

Porque, assim como dito anteriormente, a série tem que atingir, em primeiro lugar, seu público cativo; passado por este crivo mais exigente, Stranger things ainda precisa almejar cair no gosto popular em massa, dando conta de não perder um público que passou a ser fiel após conferir a qualidade da primeira temporada. Assim, além de dar continuidade a uma história que desenvolveu um enredo sem pontas soltas – a não ser por aquelas intencionalmente criadas ao fim da primeira temporada -, a série agora não é mais apenas uma aposta que deu certo e fez enorme sucesso, ela representa uma história que já marcou uma geração de espectadores e, dessa forma, precisa contemplá-los cada vez mais positivamente. É o preço a se pagar por arriscar-se através da fórmula “fácil” de sucesso.

Não que isso tenha se tornado um problema dentro da nova temporada. Tirando os tropeços em um determinado episódio – mais sobre isso ao longo do texto -, Stranger Things 2 (idem, 2017) consegue manter a qualidade de trama apresentada no ano passado, com a bem-vinda vantagem de separar um tempo de tela para o desenvolvimento de seus personagens. Assim, se o foco, anteriormente, era desesperar-se para fazer referências aos anos 80, em 2 as coisas ficam mais tranquilas nesse ponto e dá espaço para que Will, Mike, Dustin e Lucas possam brilhar aos poucos durante os nove episódios disponibilizados pela Netflix agora no final de outubro. Mais que isso, os irmãos Duffer, criadores, roteiristas e diretores da série, optam também pela introdução de novos personagens, o que dá um fôlego extra e uma sensação de frescor ao roteiro.

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Imagem: Netflix, 2017

É nesse ponto que conhecemos Max (interpretada pela ótima Sadie Sink), aquela que vai se apresentar inicialmente como antagonista da trupe de protagonistas, mas que, aos poucos, passa a se revelar uma grata surpresa à série – uma necessidade de substituição à figura de Eleven (Millie Bobby Brown), relegada um pouco às sombras nesta temporada. Max e seu irmão, Billy (interpretado pelo Power Ranger Dacre Montgomery) – o antagonista humano – são os principais motores de Stranger Things 2, cada um trazendo mais força a seus respectivos núcleos de personagens, ela com os quatro garotos principais, ele com os estereótipos do ensino médio americano. A relação entre os dois atores, aliás, demonstram uma química em suas atuações muito benéfica, principalmente em relação às cenas encabeçadas por ambos, sempre com um viés mais dramático, tenso.

Pegando carona nesses novos fôlegos de elenco, Winona Ryder ainda consegue roubar todas as cenas que protagoniza, mantendo seu ar paranóico herdado da primeira temporada, como se já preconizasse os acontecimentos irrefreáveis deste novo momento. Ao seu lado, no entanto, nosso eterno Samwise Gamgee Sean Astin também vai protagonizar momentos-chave da segunda temporada ao interpretar um par romântico a princípio bobo e ingênuo demais, mas que, conforme os acontecimentos com o “enteado” Will vão se materializando, passa a representar a coragem que surge por meio de atitudes e ideias inesperadas e genuínas.

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É possível esperar a mesma qualidade nas atuações do quarteto principal. Com maiores destaques nesta temporada para Gaten Matarazzo (que interpreta Dustin) e Caleb McLaughlin (intérprete de Lucas), Stranger things 2 passa a priorizar também seus outros personagens principais, dando a estes mais tempo em cena e, consequentemente, mais desenvolvimentos para seus personagens, o que só destaca ainda mais a competência dos jovens atores. O mesmo se aplica a Joe Keery (o responsável por Steve Harrington): inicialmente apresentado como o antagonista entre os jovens na primeira temporada, Steve agora é um personagem que acabou se desenvolvendo para o bem, contando como mais um aliado dos pré-adolescentes protagonistas. Seus percalços sentimentais com a namorada Nancy (Natalia Dyer) adicionam mais tempero ao aprofundamento do personagem, tornando-o mais humano e, dessa maneira, acarretando em um reconhecimento maior com o público.

O que nos leva à dicotomia Will / Eleven. Chamo aqui de dicotomia pois ambos os personagens estão ligados ao que ficou conhecido, ano passado, como “Mundo Invertido”. Enquanto Will (interpretado por Noah Schnapp) é o hospedeiro maligno desta temporada, Eleven mais uma vez precisará equilibrar tal fato com suas habilidades psíquicas e telecinéticas. E é nesse ponto que o roteiro de Stranger things 2 renega um pouco a presença da heroína. Ah, caso não tenha assistido à nova temporada, talvez, a partir deste ponto até final do parágrafo, alguns apontamentos poderão sugerir spoilers, portanto, siga por sua conta e risco. Decidindo por uma jornada do herói solitário, a série vai optar por isolar Eleven (com a desculpa da sociedade não poder vê-la ou conhecê-la, já que “as consequências para todos os envolvidos serão drásticas”) e transformá-la no messias particular de Hawkins aos poucos (por isso sua morte e ressurreição simbólicas ao longo de toda a temporada). E se me permite a continuidade da analogia religiosa, Eleven terá apenas um episódio dedicado totalmente a si – o sétimo da temporada -, um momento em que a heroína irá para seu deserto próprio refletir sobre sua existência, atos e decisões. Infelizmente é o episódio com menor potencial da temporada (e talvez o mais pobre, narrativamente falando, de toda a série), pois seu teor acaba destoando do restante dos capítulos, numa tentativa de sugerir referências a um treinamento jedi às avessas, algo que acaba não colando muito como resultado final.

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Porém, em compensação, ainda é possível conferir uma trilha sonora inspirada que não apenas estabelece o clima para diversas cenas, como também retoma um clima oitentista muito bem-vindo à série. Aliada à música, a direção de arte se expande aqui para dar vida a novos cenários, mesmo que dentro dos conhecidos desde a primeira temporada; apesar de pecar aqui e ali em sua computação gráfica, a arte empregada no novo vilão da vez (o Monstro das Sombras) compensa as falhas. É bom também divertir-se com as referências de coisas que ainda vão se desenrolar ao longo dos episódios, como o fliperama jogado pelos protagonistas logo no primeiro episódio  – Dig Dug), um jogo que sugere a escavação como forma de combate e salvação – e tal ideia perdurará até o final da temporada – ou a música escolhida especialmente para uma ocasião que envolve todos os protagonistas no último episódio (“Every breath you take”, The Police).

Há mais de um ano eu finalizei minha resenha para Stranger things afirmando que se a qualidade da série perdurasse conforme o passar do tempo, nada mais natural do que esperar por novas temporadas e mais desenvolvimento de tramas e personagens. Agora, porém, é preciso pôr um pouco o pé no freio: agora é o momento para pensarmos se ter inúmeras próximas temporadas será algo realmente benéfico para Stranger thingsStranger things 2 por enquanto está dando conta do recado. Vamos acompanhar de perto daqui para frente.

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Pôster: Kyle Lambert, 2017

Stranger things 2, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Justin Doble, Jessie Dickson-Lopez, Kate Trefry; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy, Andrew Stanton, Rebecca Thomas.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Sean Astin, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Sadie Sink, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Dacre Montgomery, Paul Reiser, Linnea Berthelsen.

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Séries

13 reasons why

A habilidade de julgar, inerente a qualquer ser humano, faz de nós uma espécie à parte. Podemos, por exemplo, calcular mentalmente quais são as melhores opções para sair de um ponto A e chegar a um ponto B, levando em consideração todos os entremeios ali presentes; podemos escolher entre um produto A e um B, decidindo, por fim, qual comprar, porque o julgamento nos apresentou a melhor opção; podemos, enfim, utilizá-la para muitas situações. Julgar, portanto, é uma ferramenta importante para a sobrevivência. No entanto, diferentemente de outros animais, nós também usamos nossa habilidade como um poder destrutivo – ou, em muitos casos, autodestrutivo.

Somos julgados a todo tempo. Analisados a todo tempo. Ao viver em sociedade, estamos, sem escapatória, na mira de olhos pungentes, que nos ditam o que devemos vestir, como devemos nos comportar, a maneira como precisamos conversar, a forma como devemos atuar em todos os lugares. No trabalho, somos julgados a partir das habilidades que demonstramos para com as coisas e as pessoas; socialmente, somos julgados por vestir tal roupa, rir de tal maneira, gesticular com as mãos no momento da fala, estar acompanhados por um certo alguém. Mas é na escola onde o julgamento é mais preciso. É na escola onde grupos se formam, tribos se solidificam, inimigos são naturalmente traçados. O julgamento, aí, não é, a princípio, um problema. Ele é necessário para saber com quem devemos nos misturar, com quem podemos nos abrir para compartilhar uma dor ou segredo, com quem ficamos à vontade para gargalhar e dar um ombro amigo quando o outro mais precisa de nós.

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Imagem: Netflix, 2017

Mas a escola também pode nos destruir. Ela, por ser um preparatório para a sociedade lá fora, torna-se, muitas vezes, um microcosmo hostil, um ambiente propício a discussões, rusgas e, no seu pior momento, violência. Porque, afinal, a escola é essencialmente formada pelo seu maior público, os estudantes. São eles que dão forma a uma sala de aula, são eles que irão traçar o perfil de cada ambiente. E estudantes estão em processo de crescimento físico e intelectual; são como telas em branco, em que o artista plástico é uma junção de duas partes: o próprio aluno e seu professor. Ambos vão criar uma obra que não é fixa, vão desenvolver um quadro que se modifica a todo tempo. E modificar-se não pode ser encarado como algo ruim, perigoso. Modificar-se significa o resultado de uma reflexão. E a reflexão subentende um esforço preciso e trabalhoso, algo que ainda não é amigável a todas as pessoas.

Pensemos assim: é mais fácil e cômodo eu acreditar que sei de tudo sobre um determinado assunto do que, em um certo momento, ter um desequilíbrio em minhas convicções e esse desvio me fazer acreditar que não, não sou capaz de saber tudo sobre esse assunto em especial. A permanência obstinada nessa certeza única e egoísta, esse apego ferrenho às minhas próprias certezas e a não possibilidade de uma visão mais ampla sobre as coisas ao meu redor é um movimento perigoso, uma abertura à possibilidade de abraçar algo que está dentro da natureza humana com a mesma intensidade do poder do julgamento: o preconceito. E é esse preconceito que borbulhará frases, mensagens, xingamentos e atos de violência entre pessoas e grupos diferentes em lugares propícios a tais situações. Como a escola.

É nesse ponto, então, que chegamos à série 13 reasons why.

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Imagem: Netflix, 2017

Aparentemente mais um produto voltado ao público jovem-adulto que tanto consome livros, filmes (muitas vezes baseados nestes próprios livros) e outras produções direcionadas a assuntos relativos aos adolescentes – amizade, escola, futuro profissional, romance, sexo, drogas, ansiedade, depressão -, a atual produção original da Netflix decide ir para um caminho menos explorado até então. Temos, por aí, inúmeras obras que tentam retratar as dores de uma pessoa depressiva. Mas por serem concebidas com o objetivo de atingir públicos jovens, muitas vezes assuntos sérios como um câncer terminal ou a própria depressão são romanceados a um nível preocupante. É o caso, por exemplo, de A culpa é das estrelas. Os treze episódios de 13 reasons why, todavia, deixam claro, desde o início, apesar de sua fotografia que vai das cores frias do presente para as cores quente de um passado não tão distante (além de uma trilha sonora indie apelativa aos corações adolescentes), sua abordagem: fria, direta e objetiva. Infere-se aí a possibilidade de cenas gráficas – a presença de sangue, o sexo não consentido -, infere-se também a possibilidade de discussões sobre assuntos espinhosos; e sim, tais possibilidades realmente acontecem.

É, como discutido no início, uma escolha a partir de um julgamento. E a equipe de produtores de 13 reasons why decide pelo caminho tortuoso, difícil e, o mais relevante, sem volta. Afinal, discutir abertamente temas como o machismo, o assédio sexual, a homofobia, o bullying, a depressão e a ansiedade sem glamorizar tais situações requer, em primeiro lugar, uma coragem audaciosa, pois isso será abertamente julgado (de maneira negativa, na maioria das vezes) pelo público, pela crítica, pela sociedade e as estâncias presentes nela. E a série não torna nada um mar de rosas.

A começar pelo método encontrado por Hannah Baker (interpretada por Katherine Langford) para deixar um legado pós-morte. Como a própria personagem nos diz logo no primeiro episódio, seria muito fácil deixar suas gravações em arquivos mp3 para as pessoas ouvirem em qualquer dispositivo em mãos, assim como recorrer ao Google Maps para indicar pontos estratégicos da cidade. E nada é fácil. Relacionar-se não é fácil, fazer amigos não é fácil – perdê-los menos ainda. Por que ela facilitaria, então? Hannah, portanto, grava suas memórias amargas em fitas cassete. Uma tecnologia perdida no tempo, difícil de ser utilizada em um mundo mergulhado em iPods, streaming e armazenamento na nuvem. Hannah sofreu com a espera, com a ansiedade, com um porvir eterno. Então seus ouvintes também precisarão conter-se para saber tudo o que aconteceu com ela (o que não deixa de ser levemente irônico, já que a própria Netflix disponibiliza todos os episódios de uma vez para seus assinantes).

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Imagem: Netflix, 2017

Juntamente com as falas biográficas de Hannah, o espectador é refém da visão de Clay Jensen (interpretador por Dylan Minnette); deslocado socialmente e extremamente ansioso, Clay não apenas vai apresentar ao público as fitas de Hannah em doses homeopáticas, como também misturará os relatos da amiga com lembranças fragmentadas, num misto que confunde o espectador de propósito. A série, porém, não segue nesse ritmo, priorizando uma montagem que apresenta transições de cena e rimas visuais elegantes, interligando presente e passado de maneira fluida e didática – não podemos esquecer que o público-alvo aqui são os próprios adolescentes, e priorizar uma narrativa mais fragmentada resultaria no afastamento dessa audiência.

Além do prolongamento da espera intrínseco às fitas de Hannah e a ansiedade nata de Clay, ainda há um terceiro ponto nesse triângulo de protagonistas: servindo de guardião / mentor de Clay, Tony (interpretado por Christian Navarro) será o responsável por trazer o jovem ansioso de volta à realidade em momentos de fúria ou frustração extremos, lembrando Clay da importância de manter os desejos derradeiros de Hannah e de ouvir as fitas até o fim. É Tony também que guiará a narrativa em momentos-chave, levando a sério a importância de dar a Clay mais reflexões e perguntas do que respostas propriamente ditas – e exteriorizando sua filosofia própria ao levar o amigo para uma escalada, mostrando, literalmente, que a recompensa por um caminho difícil é maior do que chegar ao mesmo ponto B através da opção mais fácil.

13 reasons why diverge-se também ao ser uma produção que preza por mensagens visuais bem sutis, mas que quando apreendidas pelo espectador, fornecem à obra um grau de significação maior. É o caso, por exemplo, de determinados cortes entre uma cena e outra, como o momento, em um dos últimos episódios, em que um dos personagens aponta uma arma na direção da câmera, pronto para atirar e, logo após o corte, vemos um porta-retrato com a foto feliz e espontânea de uma família cujo filho único acabara de falecer. Sem fala algum, sem nenhuma narração para explicar, a própria imagem nos manda um recado: é esse personagem o verdadeiro assassino dessa história repleta de assassinos. É também nos momentos de representações delicadas, como as sequências com violência sexual, que a série mostra seu potencial imagético de maneira sutil. Quando determinada personagem sofre com uma relação sexual não consentida por ela, a câmera filma sua mão em um zoom in lento, cirúrgico; uma mão que, a princípio, estava tensa com a situação e, com o passar dos minutos, cai, sem forças, simbolizando a rendição da personagem diante do assalto que seu corpo e sua alma sofrem naquele momento.

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Imagem: Netflix, 2017

E, se nesses casos 13 reasons why preza pelo simbólico, o mesmo não acontece com a sequência do suicídio de Hannah Baker. Se você ainda não terminou ou não começou a assistir a série, pule o restante desse parágrafo e vá direto para o próximo para evitar spoilers. Alguns espectadores podem julgar de maneira negativa a opção de se mostrar, d maneira crua, o suicídio de Hannah. Mas pensando no estilo que a série determinou para discutir todos os assuntos ali envolvidos desde o primeiro episódio, não faria sentido tratar o momento mais terrível da personagem de forma sutil, disfarçada. Um suicídio não é uma brincadeira, muito menos algo interessante. Retratá-lo requer coragem. E a opção do diretor do episódio, Kyle Patrick Alvarez, é a de manter suas lentes sobre Hannah, operando com closes enquanto a jovem corta rapidamente seus pulsos e com câmeras fixas em planos médios quando ela se deita na banheira, a respiração antes frenética dando lugar a uma calmaria dolorosa. A segunda parte, dolorosa igual, é o encontro dos pais com a filha morta dentro da banheira – o desespero realista do pai, a negação como último fio de esperança da mãe. Não bastando a imagem, a voz de Clay permeia tudo, descrevendo exatamente o que nós vemos, como um lembrete a mais para que entendamos, de vez, a seriedade de um suicídio e como ele é a junção de violências (sejam físicas, sejam psicológicas) vividas diariamente pela vítima que se rende a um último recurso: tirar a própria vida.

E se o desespero é o sentimento presente nos personagens que possuem uma ligação forte com Hannah, o oposto se vê na composição do personagem Bryce (interpretado por Justin Prentice). Com todos os atos machistas que pratica – dos mais silenciosos aos mais escancarados -, Bryce representa aqueles que não refletem, aqueles que acreditam saber tudo sobre tudo, aqueles que jamais admitirão seus atos como ações de preconceito, humilhação e violência. O jovem machista adorado pela sociedade que o rodeia devido à sua imagem pública impecável, o estuprador que acredita fazer um “favor” às meninas que “pedem” para serem “fodidas”. A construção do personagem dentro da narrativa vai, então, criá-lo como alguém que sempre aparta as brigas dos amigos, aquele que está presente para amenizar os desentendimentos e ajudar o amigo sempre que este precisa dormir fora de casa devido a questões familiares. De olhar amigável e fala mansa, Bryce é o popular que a todos atende e a todos convém. Mas, quando estão todos longe, ele é o violentador que irá intimidar com o olhar, o homem que precisará usar seu porte físico maior para ganhar quem deseja à força, sentindo o gozo da vitória através do sofrimento de sua vítima. Sua calma, mesmo diante da possibilidade de tudo ir por água abaixo em sua vida, em seu futuro, só corrobora sua sociopatia.

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Imagem: Netflix, 2017

Assim, em mais um acerto, a Netflix faz com que paramos para refletir por um instante. Prestar atenção na pessoa que está no mesmo ambiente que o seu antes da eminente tragédia é a mensagem principal deixada ao final do último episódio. Somos, muitas vezes, aquele que violenta com palavras porque não aceitamos nos outros aquilo que mais nos incomoda em nós mesmos. O problema, assim, não é a presença do outro e seu modo de vida. O problema está em nós mesmos. Não podemos julgar um suicida considerando seu derradeiro ato como uma sinal de “fraqueza” se também somos essencialmente formado por inúmeras fraquezas, incertezas e medos. Se não chegamos ao ponto de tirar nossas próprias vidas, considerando ter “superado” todas as dificuldades, isso não nos dá o direito de julgar um suicida. Isso nos dá a oportunidade de ajudá-lo ainda em vida. Já que somos dotados com a capacidade aguçada do julgamento, precisamos perceber os gritos silenciosos de ajuda daquele amigo ou familiar e julgar a melhor forma de ajudá-lo. E aprender com isso, para não precisarmos de 13 porquês para uma pessoa ter desistido absolutamente de tudo e de todos.

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Pôster: Netflix, 2017

13 reasons why, criada por: Brian Yorkey; escrita por: Elizabeth Benjamin, Diana Son, Thomas Higgins, Nathan Jackson, Nathan Louis Jackson, Kirk A. Moore, Nic Sheff, Hayley Tyler (baseada na obra Os 13 porquês, de Jay Asher); dirigida por: Kyle Patrick Alvarez, Gregg Araki, Carl Franklin, Tom McCarthy, Helen Shaver, Jessica Yu.

Com: Dylan Minnette, Katherine Langford, Christian Navarro, Justin Prentice, Miles Heizer, Devin Druid, Amy Hargreaves, Derek Luke, Alisha Boe, Brandon Flynn, Ross Butler, Kate Walsh, Charlotte Hervieux, Steven Silver, Michele Selene Ang, Josh Hamilton, Brian d’Arcy James, Sosie Bacon.

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Séries

Stranger Things

Os anos 80 parecem uma época, ao mesmo tempo, tão distante e tão presente entre nós. Mesmo não tendo vivido na década, existe uma identificação tão forte por toda a sua cultura, seja essa produzida pela música, cinema, moda ou TV. Vamos a festas com temática oitentista, nos apaixonamos por clássicos contemporâneos de seu cinema criativo, nostálgico e, claro, também trash. Prova mais recente de todo esse apelo por tal momento histórico é Stranger things (idem, 2016), produção própria da Netflix responsável por todo um furor nas redes sociais desde sua estreia, no dia 15.

Os temas da série são mais do que batidos: retratados em um subúrbio americano, em uma escola e, mais ainda, numa época que trouxe para nós pérolas como E.T. – O extraterrestre (E.T. the extra-terrestrial, 1982) e, um pouco antes, Contatos Imediatos de terceiro grau (Close encounters of the third kind, 1977), Stranger things não se limita aos modelos e estereótipos. Desfila um monte deles durante seus poucos, mas ótimos e concisos oito episódios, é claro, apresentando logo de cara uma sequência digna de qualquer teoria da conspiração e passando por aquela festa adolescente em que o bonitão quer transar logo com a mocinha, enquanto a amiga antissocial vai, invariavelmente, se dar mal. Nesse amontoado de clichês e referências, os irmãos gêmeos Matt e Ross Duffer (creditados como The Duffer Brothers), criadores, roteiristas e diretores da maioria dos episódios, vão superar as expectativas criadas pela própria campanha de marketing realizada pela Netflix ao extrapolar os ânimos de um público cada vez mais sedento por séries bem produzidas e executadas. Stranger things não falha em nenhum destes quesitos, porém.

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Imagem: Netflix, 2016

Trazendo à tona uma atriz competente, mas esquecida por Hollywood e cia ltda, Winona Ryder vai encabeçar a história interpretando a mãe de um garoto desaparecido logo no primeiro episódio (acalme-se, essa informação não foi um spoiler). Muito fácil de cair em maneirismos histéricos e trejeitos passíveis de avaliações ruins pelos críticos, a personagem Joyce Byers torna-se, a cada episódio, cada vez mais obcecada pela busca de seu caçula; Ryder, no entanto, confere uma autenticidade admirável com sua interpretação que varia entre o drama comedido e a explosão iminente de uma mãe pronta a arriscar qualquer coisa para ter o filho de volta a seus braços. É um alívio, inclusive, observar como uma boa produção, encabeçada por diretores e roteiristas competentes, além de uma empresa que acredita na história a ser contada, reflete de maneira positiva no trabalho do elenco, começando por Winona Ryder e passando, principalmente, pelo quarteto de pré-adolescentes, o verdadeiro grupo de protagonistas de Stranger things.

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Imagem: Netflix, 2016

Encabeçado por Mike Wheeler (interpretado por Finn Wolfhard), Mestre de Jogo nas campanhas de Dungeons & Dragons jogadas pelos amigos, o grupo ainda conta com Dustin Henderson (Gaten Matarazzo), membro responsável pelas melhores falas nas cenas de discussões e que possui displasia cleidocraniana, uma síndrome responsável por atrasar o crescimento dos dentes permanentes – algo que, obviamente, vai torná-lo alvo de bullies e apelidos maldosos, e Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin), aquele que sempre chama a atenção dos demais para problemas que nem sempre estão visíveis, tornando-se o ponto de equilíbrio entre todos. Will Byers (interpretado por Noah Schnapp) logo deixa o grupo com seu desaparecimento, sendo “substituído” pela garota El (“abreviação para Eleven”), dona absoluta das melhores cenas de Stranger things, graças às características da personagem, mas principalmente devido à magnífica interpretação de Millie Bobby Brown. O quesito “interpretação”, aliás, é o ponto mais forte do quarteto de atores, precisando passar de nuances que exigem humor físico a momentos de intenso drama, com cenas preenchidas por discussões acaloradas ou conversas acompanhadas por dores e lágrimas caindo vagarosamente dos olhos.

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Imagem: Netflix, 2016

A história não funcionaria tão bem, no entanto, se as boas interpretações parassem em seus protagonistas. Há ainda muito espaço para a inocente, mas interessante Nancy Wheeler (interpretada por Natalia Dyer), a irmã mais velha de Mike; o estranho e complexo Jonathan Byers (Charlie Heaton), irmão mais velho de Will; o chefe de polícia Jim Hopper (interpretado por David Harbour), contraponto necessário à histeria de Joyce, dono de um passado complicado, muito bem explorado e explicitado pelo roteiro da série. No meio de tantas personagens, a história dá conta de relacioná-los de maneira orgânica, apresentando cada um à sua maneira e a seu tempo, deixando ainda espaço para críticas rápidas, mas contundentes (“não sei se meus pais se amam, minha mãe se casou jovem, meu pai vinha de boa família, tinha dinheiro…”“querida, devemos confiar neles, é o nosso governo, eles só querem nosso bem”).

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E se o elenco apresenta-se tão afinado, a história em si dará conta do restante ao atar tudo aquilo que um verdadeiro fã das narrativas oitentistas mais gosta em um mesmo nó: monstrengo que escapa do laboratório, cientistas fazendo pesquisas ultra-secretas, o grupo nerd que resolve investigar por conta, a briga tão esperada entre o mocinho e o rival babaca e por aí vai. Ainda há fôlego para referências imagéticas? Claro. A filha loirinha e caçula do casal Wheeler aproximando-se da parede, quase a tocando, lembrando a cena mais icônica de Poltergeist: o fenômeno (Poltergeist, 1982); Joyce e Jim entrando no mundo paralelo, ou no “mundo invertido”, descobrindo ovos gigantes à la Alien, o oitavo passageiro (Alien, 1979) e, por quê não?, assim como em Prometheus (idem, 2012) também. Sem contar a telecinese digna de uma Carrie, a estranha (Carrie, 1976), e tantas outras que lembram as mais horripilantes e, por consequência, melhores histórias de um Stephen King em seu melhor fôlego (saudades desse Stephen King…). Já está bom? Ainda não. Planos focando aquele personagem se escondendo do monstrengo vão te lembrar aquele Steven Spielberg aventuresco de Jurassic Park: o parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1993) que só recobrou seu fôlego no ótimo As aventuras de Tintim (The adventures of tintim, 2011); a trilha sonora, toda composta em sintetizadores que gritam anos 80, vão te dar arrepios ao lembrar do tema de John Carpenter para Halloween: a noite do terror (Halloween, 1978), além de estabelecer o clima logo na abertura, talvez a homenagem mais escancarada à década, com suas letras em neon vermelho e pequenos riscos de estática passando pela tela, como uma boa e velha TV que um dia foi responsável por formar gerações aficcionadas por jogos do Atari e embasbacadas com os efeitos mais mirabolantes do cinema proporcionados por aquele VHS alugado na locadora da esquina.

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Se aliar uma história que consegue abranger tantas referências e modelos de personagens e histórias com uma boa produção parecia um artigo de luxo até tempos atrás, a Netflix parece provar que não é só possível, como muito rentável. Vamos esperar por mais temporadas de Stranger things? Se for para manter a qualidade irretocável desta, vamos sim, com muito afinco. A esperança, inclusive, é obversar que a empresa preza pela qualidade de suas séries – não à toa, recebeu mais de 50 indicações ao Emmy deste ano. Preparem-se: a festa nerd está apenas começando.

Pôster

Pôster: Netflix, 2016

Stranger things, criada por: The Duffer Brothers; escrita por: The Duffer Brothers, Jessie Nickson-Lopez, Justin Doble, Paul Dichter, Jessica Mecklenburg, Alison Tatlock; dirigida por: The Duffer Brothers, Shawn Levy.

Com: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Noah Schnapp, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Cara Buono, Matthew Modine, Joe Keery, Ross Partridge.

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