Livros

“It: a coisa”, de Stephen King

Tive uma relação complicada com a considerada obra-prima de Stephen King. Comecei a ler A coisa em dezembro de 2012, numa horrível edição pocket em inglês. Comprei o livro, na época, por dois motivos: para não deixar de treinar o contato com a língua e também para conhecer o tão comentado livro. Além disso, Stephen King foi um dos autores que me introduziram ao hábito da leitura, no começo da adolescência. Na época, ganhei A hora do vampiro de presente da minha mãe (hoje, com outro nome, Salem), da velha coleção em capa dura que a Planeta deAgostini lançou, na época, nas bancas – e bem depois fui me tocar que eram edições horrorosas, com uma diagramação terrível, letra pequena, espaçamento menor ainda. O fato é que me apaixonei pela narrativa de King, e isso ainda porque não era nem o melhor livro dele.

Um tempo depois, ganhei, de aniversário, O cemitério. Apesar de ter gostado bastante de A coisa (como ainda vou explicar com mais detalhes ao longo desse texto), O cemitério foi, e ainda é, para mim, o melhor livro do mestre. Não apenas pelas reviravoltas ao longo da história, mas principalmente por seu clima de suspense que vai aumentando até transbordar-se no mais puro terror. A leitura deste foi decisiva para mim: eu gostava muito de Stephen King. No entanto, nessa minha primeira leitura de It, em 2012, minha perspectiva para o tipo de literatura que ele cria mudou radicalmente. Na época, me cansei da narrativa prolixa, dos inúmeros personagens, do desenvolvimento lento da ação. Resultado: abandonei A coisa na metade da história, lá pela página 500 e pouco. Alguns acharam loucura eu tomar essa decisão, já que estava com meio caminho andado em um livro tão grande. Mas não me arrependi.

Então, no fim de novembro do ano passado, entrei em uma FNAC e encontrei a edição nova do livro, em português, em promoção (tinha acabado de passar a Black Friday). Era uma promoção realmente muito boa para deixar passar. Comprei o tijolão prometendo a mim mesmo que daria uma segunda chance à história e que leria de uma vez só, sem me deixar levar pela tentação de abandoná-la no meio do caminho novamente. Eu realmente não sei o que funcionou melhor: a promessa, a determinação ou a promoção; apenas sei que passei dezembro lendo It: a coisa, revisitando a fictícia Derry e seus habitantes, me juntando novamente ao Clube dos Otários e me emocionando com seus medos, dores e sacrifícios.

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Doar-se

Antes de mais nada, é preciso ter claro em mente que dedicar-se a uma leitura como essa de It não é um processo tranquilo. Mesmo que você se apegue bastante aos personagens e à narrativa em si, mesmo que você se habitue ao estilo do autor, mesmo que você passe os dias curioso para saber o que vai acontecer nas próximas páginas, ler um calhamaço é um teste constante de algo que cada vez menos temos (ou cada vez menos temos oportunidade de desenvolver): paciência. Se você se entedia facilmente com filmes longos, passeios tranquilos demais e ambientes silenciosos, fazer leituras de livros que tenham mais de mil páginas não será muito sua praia. Porém, é sempre possível achar uma exceção, mesmo que leituras demoradas não façam seu estilo; ou, em outros casos, você pode até não se importar com a quantidade de páginas de um livro – desde que ele seja um bom livro -, e mesmo assim não curtir a história ou o estilo do autor (que foi o meu caso, em 2012).

Bem, se mesmo assim você estiver disposto a passar uma quinzena ou até um mês diante das páginas de A coisa, saiba que, de diversas maneiras, sua dedicação será recompensada. O livro é realmente muito bom como a maioria alega. E sim, ele pode ser considerado a obra-prima de Stephen King (digo isso num sentido geral, da opinião pública e especializada, pois por mim mesmo ainda não posso afirmar por completo, já que não li todas as obras dele para atestar que It é realmente a melhor). Os motivos para que eu afirme tudo isso são muitos, mas creio que o principal vem de um detalhe: o livro não é propriamente de terror, como todos pensam quando leem sobre. Ele é mais um encontro de diversos gêneros literários, como se King desejasse incluir, na mesma história, tudo o que ele havia tentado antes e deu certo – e, em entrevistas, o autor afirmou que sua vontade foi exatamente essa. Claro que A coisa é repleto de cenas de horror, causando suspense, medo, terror e até asco, em alguns momentos (mais sobre isso daqui a pouco). Mas iniciar sua leitura esperando que seja apenas isso será um tiro no próprio pé.

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Pennywise

Após concluir a leitura, algo ficou uns dias girando na minha cabeça. O sucesso de Stephen King vem não apenas do apelo popular de suas obras, mas como ele usa desse artifício para ir um nível mais abaixo, mais profundo. Pensei exatamente nesse ponto porque uma figura que sempre volta à minha mente quando relembro a leitura de It é, como esperado, o palhaço Pennywise. É interessante porque, para atrair suas vítimas, o ser (acho que esse termo é o que melhor o, ou a, define) conhecido como Coisa toma a forma de um palhaço aparentemente gentil. Depois de refletir um pouco sobre isso, cheguei à conclusão de que aí está o que poderíamos chamar de genialidade – ou, se não quisermos exagerar tanto, esperteza – de Stephen King: ele se apropria de uma figura popular (o palhaço) como símbolo para toda uma alegoria que irá permear os cantos mais obscuros e os mais óbvios da história. Pensem bem: mesmo quem não tem medo de palhaços, pode considerá-los criaturas assustadoras, macabras até. Tendo isso, é possível um mundo de horrores prontos para serem degustados por leitores ávidos em busca de terror, seja ele sutil ou escatológico. E It: a coisa é uma bandeja completa de terrores.

Sim, terrores. A figura do palhaço, que se desmembra em diversas outras (o Lobisomem, o Leproso, a Múmia, etc), começa a alimentar os medos de cada personagem da história, e esses medos terão níveis de intensidade diferentes, gerando, por consequência, cenas que vão desde o mais barato susto até a concretização de algo completamente nojento. Além disso, o terror não reside apenas em Pennywise. Ele é, na verdade, a concretização dos medos das crianças – e, mais tarde, de suas versões adultas -, medos esses que vêm de suas próprias vidas. Ben, o gordo; Bill, o gago; Richie, o incoveniente; Eddie, o hipocondríaco; Stan, o judeu; Mike, o negro; Bev, a mulher. Cada um possui um “defeito” apontado com dedos vigorosos pela sociedade da época (mas que cai como uma luva para a sociedade de hoje também), um prato completo para que a Coisa entre em ação, utilizando desses “defeitos” para atingir cada personagem. E consegue, é claro. Assim, A coisa não é um livro de terror que o coloca em primeira instância para justificar sua história. Ele é a justificativa da história, uma inversão primorosa e que encaixa de maneira orgânica ao enredo que, no final das contas, possui a estrutura de um romance de formação.

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O verdadeiro horror

O que nos leva ao principal do livro: aqui, o narrador de King vai esmiuçar a história de cada personagem, desde a sua infância até a fase adulta (a pior). É por isso que ler It é doar-se, pois o tempo dispensado para esse detalhamento é grande, muito grande, justificando suas 1102 páginas de história. Alguns, em um primeiro momento, poderão ter a impressão de que isso é apenas encheção de linguiça (eu mesmo, em 2012, pensei assim), mas todas as coisas contadas ao longo de capítulos super extensos e interlúdios não muito menores estão ali por uma razão. Elas acabam se ligando a alguma informação lá na frente, é só aguardar. E aquelas que não se ligam de imediato, tem uma correlação mais tênue, quase temática.

Nessa enxurrada de detalhes, o narrador vai e volta no tempo, colocando lado a lado as diferenças e semelhanças extenuantes das crianças e de seus eus adultos. Com isso, o leitor passa a observar que, mesmo crescidos, os personagens carregam ainda muito de si da infância, muitas das vezes inconscientemente (como Eddie e seu casamento, Bev e seu casamento). E o estreitamento das duas linhas temporais, quase se juntando na parte final, fazendo com que a voz do presente se ligue (literalmente) à voz do passado, deixa essa intenção mais do que clara. E o amargo que o resultado dessa comparação no tempo traz é muito indigesto. Triste, melancólico. Vazio. Mas importante. Trivial. É com ele que o leitor vai perceber que o principal terror de It: a coisa não são seus monstros, seus pesadelos, suas cenas grotescas. É o fato de que, por mais que sua infância seja feliz, divertida, idílica, você cresce. Você, em algum momento, se transforma em um adulto. Cheio de trabalho, preocupações, contas para pagar e angústias diárias para lidar. Esse, no fim das contas, é o verdadeiro horror.

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A edição

Após a venda da Editora Objetiva para a Companhia das Letras, a obra de Stephen King passou a ser editada pelo selo Suma de Letras. Não que isso seja ruim, muito pelo contrário. Abandonados ao marasmo de edições tenebrosas da época da Objetiva, os livros de King eram publicados com folha branca, letra miúda e espaçamento horrível. Uma tortura para qualquer leitor. Agora, alguns upgrades necessários foram feitos.

Folha amarelada, fonte grande e espaçamento confortável para os olhos de qualquer mortal. E apesar do calhamaço que A coisa é, a gramatura do papel colabora para um peso razoável – não digo que é um livro leve, mas apesar de sua grande quantidade de páginas, ele surpreende por não ser tão pesado. Sem contar, é claro, toda a parte gráfica das capas, completamente reformuladas em relação às edições antigas, que possuíam a mesma identidade visual no nome do autor e títulos. Agora, cada obra possui seu estilo independente.

Algo que pode deixar os mais exigentes felizes é sua revisão. Realizada por Rita Godoy e Ana Kronemberger, creio ter encontrado, no máximo, 10 erros (e completamente compreensíveis, algo como faltar uma letra ou duas palavras, na sequência, invertidas) ao longo de todo o livro. É bem considerável, convenhamos. Além, é claro, da tradução de Regiane Winarski, que realizou algumas mudanças em relação à tradução da edição antiga (como manter, sabiamente, o nome de Pennywise no original – na outra edição era Parcimonioso) e que manteve o estilo de King de maneira competente.

» Uma curiosidade: o livro demorou 4 anos para ser escrito, de 9 setembro de 1981 a 28 de dezembro de 1984.

» Procurando vídeos e textos sobre o livro após ter terminado minha leitura, encontrei esse (que não é o melhor do mundo, apesar de alguns apontamentos relevantes) em que há a indicação de um artigo extremamente bom sobre A coisa (mas que, infelizmente, está em inglês), e que levanta questões e discussões bem boas sobre a história e todo o entorno de sua escrita e publicação – além de uma análise sobre a cena, talvez, mais polêmica de It, envolvendo a menina Beverly. Ah, devo avisar que este texto linkado está repleto de spoilers, então leia por sua conta e risco.

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Capa: Rodrigo Rodrigues / Suma de Letras / Editora Objetiva, 2014

It, de Stephen King. Publicado pela Suma de Letras.

Tradução de Regiane Winarski, 1104 páginas.

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A Dança dos Dragões

Nota preliminar acerca de possíveis SPOILERS: para todos aqueles que acompanham, mesmo que superficialmente, o furor que As Crônicas de Gelo e Fogo se tornaram ao longo dos anos – principalmente com a popularização da série televisiva Game of Thrones -, não é novidade encontrar revelações importantes e cruciais sobre o enredo dessa história épica e interminável em qualquer canto da Internet. Portanto, não é possível escrever uma resenha a contento sobre o último livro publicado por George R. R. Martin sem comentar passagens que provavelmente você ainda não sabe, caso ainda esteja perambulando por Westeros.

Dado o aviso, continue lendo o texto por sua conta e risco.

Se o ápice da megalomaníaca série criada pelo escritor americano George R. R. Martin acontece em seu terceiro volume, A Tormenta de Espadas, e, logo depois, vem o marasmo de narração em O Festim dos Corvos, este quinto volume de As Crônicas de Gelo e Fogo surge como uma promessa distante no horizonte para os fãs do jogo de tronos mais sanguinário já visto na literatura fantástica como aquele que traria a emoção e o roer de unhas constantes causados pela tensão crescente desde quando Lorde Eddard Stark preconizou que o inverno estava chegando, lá no primeiro livro. A impressão final, porém, não é essa.

Talvez seja por seu tamanho – a edição brasileira tem mais de 800 páginas -, talvez seja justamente pelo desenrolar dos fatos e consequências, A Dança dos Dragões é sim uma narrativa mais dinâmica e propensa a surpresas do que a sua anterior: O Festim dos Corvos, focando a atenção em personagens menos interessantes, apesar de ter ali pontos de vistas novos na série, como os de Jamie e Cersei Lannister, acabou diminuindo a velocidade da narração mostrada em A Tormenta de Espadas, apresentando acontecimentos necessários à história, mas desinteressantes em sua maioria. Mas estendendo tanto o enredo neste quinto volume, George Martin mais uma vez deixa as reviravoltas e segredos revelados para as últimas páginas, preparando (ou seria torturando?) seus leitores, em busca de alguma ação memorável, durante centenas de páginas, até finalmente dar alguma centelha do que a série um dia mostrou: seu poder de desarmar o leitor e cuspir em sua cara, provando que nós, aqueles que acompanham as peripécias de Westeros, realmente não fazemos a menor ideia de quem estará vivo até o fim de cada livro.

O projeto do autor, no entanto, era diferente. Quando finalizou o terceiro livro, George Martin iniciou a escrita do seguinte e, depois de um bom tempo na labuta, percebeu que a história tinha criado tentálucos gigantescos demais para caber em um único volume. Após uma conversa decisiva com seus editores – que enfatizaram a impossibilidade de publicar um livro tão extenso -, o escritor botou um ponto final no lenga-lenga e concluiu que a melhor decisão seria dividir a história em duas: portanto, o quarto livro focaria em personagens alocados em Porto Real e seus arredores, além de Dorne, e o quinto volume contaria, simultaneamente ao anterior, o que acontecera na Muralha, com Jon Snow, e na Baía dos Escravos, com Daenerys Targaryen; além, é claro, de mostrar para onde fora e o que acontecera com Tyrion Lannister, um dos personagens mais cultuados entre os fãs dos livros e de Game of Thrones. Foi nessa época, então, que os fãs mais ardilosos criaram a fama de velho-lerdo-e-torturador para o autor, incriminando-o por demorar tanto em sua escrita e acusando-o de não se importar com a espera longuíssima dos fãs pelo próximo livro d’As Crônicas. George Martin seguiu com sua decisão e, após seis anos a publicação de O Festim dos Corvos, publicou finalmente A Dance with Dragons.

Se o livro atende às expectativas? Provavelmente sim. Com o seu estilo de escrita detalhado, George Martin não se acanha em contar para o leitor o que cada personagem vai comer naquele determinado dia. Então, como nos livros anteriores, as descrições longas e detalhadas de cada banquete continuam da mesma forma, assim como a composição de cenários, mostrando o que há em cada canto de uma construção ou qual é o tipo de vegetação encontrada em determinado local onde um personagem acaba caindo. A ação, porém, está de volta por mais vezes, superando a paradeira de O Festim dos Corvos, mas devendo para o turbilhão de acontecimentos e choques de A Tormenta de Espadas. Para chegarmos em um momento como esses, é preciso passar por muitos capítulos, a maioria deles apresentando finais comuns e, alguns, até desestimulantes. Não que o livro deveria ser uma sucessão sem fim de traições, guerras, assassinatos e vira-casacas sendo revelados a cada segundo e, sim, é preciso também contar quais são os caminhos percorridos por cada núcleo de personagens antes de alguma consequência crucial acontecer, ou leríamos apenas uma narração de ações prontas, e não preparadas cuidadosamente ao longo da história. O problema principal de A Dança dos Dragões não é esse, mas sua extensão. Como exemplo, há os capítulos reservados para Arya Stark. Ela passa por diversos testes e situações completamente desinteressantes. Quando se termina o livro, a indagação vem: será que tudo isso lido será importante lá na frente? Ou será que George Martin apenas encheu linguiça pra dar volume?

Algo parecido ocorre com outros personagens: apesar de apresentarem situações importantes e visivelmente cruciais para o desenvolvimento do enredo de cada um, os capítulos de Tyrion, por exemplo, mostram como ele ainda é um dos personagens (senão o mais, depois de Tywin Lannister, que os deuses o tenham) mais inteligentes na série, precisando apenas de sua lábia para conseguir aquilo que os demais precisam conquistar com espadas e sangue. Apesar disso, o leitor precisa passar por 800 páginas e ainda se indagar, depois, se muito do que foi dito sobre o anão foi necessário para o desfecho no final das contas.

Mas, se A Dança dos Dragões possui virtudes, uma delas com certeza é Daenerys Targaryen. Forte, destemida e benevolente, a mãe dos dragões mostra mais uma vez que não está para brincadeiras e prova, a cada capítulo, que está altamente determinada a conquistar os Sete Reinos. Outro ponto interessante deste volume é que ele se dedica a mostrar os bastidores de personagens menores, como os repulsivos Bolton e os lordes de Porto Branco, outro veio menor da história que poderá trazer surpresas interessantes nos próximos livros. Para aqueles curiosos em saber o lado da história da feiticeira vermelha Melisandre, A Dance with Dragons também separa um tempo para demonstrar a inteligência e a perspicácia da personagem, além de revelar segredos pequenos, mas interessantes, sobre ela, demonstrando que nem tudo o que se vê é realmente mágico.

Para o próximo livro, como sempre, a expectativa vai crescendo com o tempo de escrita de George R. R. Martin. Ao fim de A Dança dos Dragões, o leitor vai contar – pela quinta vez na série – com um final repleto de pontas soltas, que poderão ser amarradas nos acontecimentos do ainda inédito Os Ventos do Inverno. Ou não, se George Martin decidir estender mais ainda o enredo e torturar mais um pouco aqueles que ousam se aventurar por Westeros e todos os outros lugares criados por esse brilhante autor, mas que, com o tempo, fica cada vez mais ambicioso e megalomaníaco por quantidade de páginas, detalhes e história. É melhor sentar para não se cansar esperando.

Um adendo: a LeYa Brasil decidiu, a partir deste livro, mudar a tradução. Até O Festim dos Corvos, a editora havia comprado os direitos da ótima tradução do português Jorge Candeias. Agora, porém, o quinto e os livros restantes da série estão nas mãos de Márcia Blasques. É preciso avisar que sua tradução é imensamente inferior à de Candeias, demonstrando que a tradutora não teve o cuidado de conciliar os termos do original com os de nosso português, muitas vezes afirmando, com as palavras de George Martin, que existem cortinas persianas em Westeros, por exemplo, conferindo uma irrealidade para o mundo fictício do livro. A revisão da editora, inclusive, é péssima: muitos erros de digitação, com letras trocadas e falas de personagens que deveriam ter sido jogadas para baixo, mas ficaram em cima, junto com outra fala (confundindo a ordem do diálogo e, consequentemente, o entendimento do leitor) são apenas alguns dos vários exemplos encontrados nas 800 páginas do livro. Mais dedicação e profissionalismo nos próximos volumes não seria uma má ideia para a tradutora e para a editora. Os leitores agradecerão.

Capa: Marc Simonetti

Capa: Marc Simonetti

A Dance with Dragons, de George R. R. Martin. Publicado pela LeYa.

Tradução de Márcia Blasques, 870 páginas.

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Livros

A Menina que Brincava com Fogo

Por um lado, o fato do sueco Stieg Larsson ter falecido logo depois de entregar os originais de sua trilogia literária é assustadoramente misterioso. Por outro, sendo obra do destino ou de uma mórbida coincidência, Larsson não pôde, obviamente, usufruir do sucesso das histórias que criou, contando aí os três livros publicados em todo o mundo – e sendo sucesso de vendas – e as adaptações ao cinema, também com sucesso de bilheteria. Dizem as bocas aleatórias que o escritor tinha planos de continuar as tramas envolvendo os personagens que ganharam a atenção de um público vasto e diversificado, já possuindo um quarto volume quase totalmente escrito. Recentemente, inclusive, a editora sueca revelou que o quarto livro será escrito por outras mãos. Mas isso é pano pra mangas diferentes.

Picuinhas e discussões judiciais à parte, o sucesso da trilogia publicada e autorizada pelo autor vem, primordialmente, de suas tramas policiais e aventurescas que impedem a separação do leitor de seu exemplar; mais – o sucesso das histórias está sobre os ombros de uma personagem: Lisbeth Salander. Complicado classificá-la como uma heroína ou anti-heroína, Lisbeth consegue chamar a atenção do leitor não por possuir as características clássicas de um protagonista de romance, mas por ser alguém à margem de uma sociedade moderna que preza pela sociabilidade e etiqueta das pessoas em qualquer situação. Ela não faz questão, não se importa e não se preocupa com os seres humanos que a cercam, sabendo muito bem se virar em qualquer tipo de situação e, de quebra, possuindo conhecimentos precisos sobre informática. Esse conjunto desconexo de qualidades faz de Lisbeth Salander um ponto que se destaca instantaneamente no romance. E Larsson, sabendo da personagem em potencial que tem em mãos, faz deste segundo capítulo da trilogia Millennium um livro dedicado a ela, vasculhando seu passado e, com isso, usando-o como estopim para os acontecimentos que se desenrolam pelas três partes e trinta e dois capítulos.

O sueco, apesar de ser um bom narrador – ele sabe como contar uma história, envolver seu leitor e ir dando pistas homeopáticas ao longo do livro -, não é um escritor exímio. Mas, diferente de autores que fazem uso de uma fórmula específica para todas as histórias que cria, Larsson também sabe criar uma trama que não soa repetitiva, deixando as relações entre o primeiro livro e este segundo apenas para os personagens principais (afinal, a maioria ainda participa aqui) e suas ligações básicas: Lisbeth, claro, conhece Mikael Blomkvist por um motivo que está no volume anterior e etc.  Os pecados que Stieg Larsson comete ao longo de sua narração são em detalhes: em alguns momentos, soa verborrágico demais, fazendo explicações um tanto óbvias em cenas que não exigem atenção nesse ponto e, em outros, faz questão de relembrar o leitor o porque de determinados personagens se conhecerem e qual é a relação entre ambos, parecendo ignorar que quem está acompanhando o segundo capítulo da trilogia provavelmente se inteirou dos fatos existentes no anterior. São minúcias que ocorrem com frequência durante A Menina que Brincava com Fogo, mais concentradas nos primeiros capítulos e se espalhando conforme a história toma um ritmo maior.

Outro recurso bem abusado pelo autor são as interrupções que ocorrem ao longo dos capítulos. É uma escolha de narração que contribui para o tipo de história que Larsson conta, deixando pontas soltas a todo instante para que o leitor volte, movido pela curiosidade mórbida, e tente descobrir para qual rumo a trama será levada. Tal opção, porém, não funcionaria se a obra não tivesse um elenco de personagens variados, contando com os principais, esféricos, que permitem uma exploração maior – principalmente no campo psicológico -, e os demais, em maior número, que apesar de apresentarem uma configuração plana, servem de sopro para diversos momentos em que a trama cai em uma calmaria mais expositiva e / ou descritiva. Fragmentar a trama em interrupções sugestivas acaba culminando, no fim, em pontas soltas, com a possibilidade de retomá-las apenas no terceiro volume.

Já a edição publicada aqui no Brasil pela Companhia das Letras, apesar da versão econômica (capa sem orelhas e confeccionada com um material mais mole), preza por uma leitura confortável, apresentando uma diagramação espaçada e contando com fonte agradável e papel amarelado, não cansando os olhos, caso o leitor queira estender mais um pouco naquele capítulo crucial. O que pode deixar o leitor mais exigente e informado com o pé atrás, em um primeiro momento, é a tradução: a editora optou pela tradução da tradução – Dorothée de Bruchard verte para o português a versão francesa do livro. Mas, conforme se dá a leitura, fica claro que não há problemas de distanciamento exagerado do original em sueco, pois a narrativa em português possui fluência (além de não se encontrar problemas de revisão).

Deixando seu leitor mais a par dos segredos de Lisbeth Salander e colocando a protagonista como alvo principal dentro do olho do furacão que vai se revelando pouco a pouco, Stieg Larsson mostra fôlego suficiente para criar mais uma trama de mistérios, crimes e vinganças e ainda deixar um gancho para que diversos pontos se concluam em A Rainha do Castelo de Ar. O segundo volume da trilogia Millennium não está acima da qualidade da trama vista em Os Homens que Não Amavam as Mulheres, mas consegue se manter interessante, mesmo construindo um momento de transição entre os primeiros anos em que Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist se conhecem e se aproximam, e os próximos que virão, provavelmente com mais segredos e revelações chocantes para animar o leitor sedento por dramas, conflitos e sangue.

Capa: Retina 78

Capa: Retina 78

Flickan som lekte med elden, de Stieg Larsson. Publicado pela Companhia das Letras.

Tradução de Dorothée de Bruchard, 608 páginas.

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