Filmes

Me chame pelo seu nome

Talvez um dos sentimentos mais puros e cristalinos que um ser humano pode vivenciar é o amor verdadeiro. Apesar dessa ideia soar um tanto piegas, amar intensamente alguém pode trazer todas as sensações boas possíveis produzidas por nosso cérebro – se você pensar racionalmente -, assim como as dores imensas provenientes do coração – se lembrarmos de nosso campo sentimental. Amar, portanto, é uma via dupla recompensadora e dolorosa, calmante e destruidora. E a ideia de amar intensamente pela primeira vez é um tema inspirador de muitas obras em todas as artes, seja na música, na poesia ou, nesse caso, no cinema. Amar intensamente pela primeira vez durante um verão italiano, então, soa perigosamente clichê e, ao mesmo tempo, belo. Belo porque encanta, belo porque dói.

Ao longo de suas mais de duas horas de duração, Me chame pelo seu nome (Call me by your name, 2017) cumpre com a missão de apresentar-nos uma história leve como água mineral, e, no entanto, permeada com tormentas e quedas d’água que passam, principalmente, pela cabeça do protagonista, Elio (interpretado pelo talentoso Timothée Chalamet), em seu aprendizado de verão sobre como amar é recompensador, sobre como crescer é doloroso. Em certo momento, seu companheiro de aventuras sentimentais, Oliver (interpretado pelo também talentoso Armie Hammer), pergunta o que ele faz lá, naquela cidade pequena italiana, durante todo o verão; “leio, transcrevo minha música”, é a resposta imediata. Um projeto de verão similar às águas onde Elio costuma se banhar – calmas, paradas e, nas palavras de Oliver, também congelantes.

MV5BMTk5MTgwNDEzOF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTE0ODczMzI@._V1_SX1500_CR0,0,1500,999_AL_

Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

A água, inclusive, é um elemento utilizado de maneira inteligente pelo roteirista James Ivory e pelo diretor Luca Guadagnino. Na primeira cena de socialização de Elio e Oliver, no jogo de vôlei com os adolescentes e jovens locais, o protagonista está prestes a entregar uma garrafa de água gelada (um alívio oposto ao sol escaldante de verão, principalmente pra quem está jogando vôlei) para um dos amigos quando Oliver, sem avisar, rouba a garrafa das mãos de Elio e toma um gole. Depois, será o momento em que Elio percebe a não-volta do sentimento que passa a nutrir por Oliver, então decide levá-lo para o seu “local”, como ele mesmo o define. O microcosmo de Elio é um oásis de água das montanhas represada no meio de campos verdejantes, água essa com nascente nas montanhas próximas, como o próprio protagonista faz questão de dizer – “tem algo que você não saiba?” é o questionamento de Oliver em outra cena; Elio está saindo da adolescência, diante de um homem mais velho e, tecnicamente, mais experiente: ele precisa provar-se, afinal. Por último, no arco dramático do casal Elio e Oliver, temos a presença das águas da montanha; porém, diferentemente da pequena represa particular e calma de Elio, essas águas são agitadas, perigosas – ameaçadoras até. É a metáfora de Ivory-Guadagnino avisando Elio que tempos conturbados estão próximos, mesmo que ele não saiba ou ignore, em estado de negação.

Assim, as alterações emocionais causadas pelo amor de verão de Elio e Oliver estarão presentes em muitos detalhes de Me chame pelo seu nome, desde as nuances na linguagem corporal trabalhada por Chalamet e seu Elio inseguro, passional e, algumas vezes, infantil, até a preocupação de Oliver, este que, ao notar o amor irrefreável surgindo entre ele e Elio, por diversas vezes hesita e até impede do jovem continuar demonstrando seus sentimentos de forma física, repetindo que conhece suas próprias atitudes e que não quer decepcioná-lo. As construções dos dois personagens, dessa forma, seguem um ritmo ao mesmo tempo parecido e particular, cada um a seu estilo: Elio, de início, esnobando a presença do mais velho forasteiro e, com o tempo, deixando-se levar pela paixão irrefreável que toma conta de si; Oliver, a princípio tomando suas decisões de maneira cautelosa (cautelosa em demasia, como na cena do vôlei), e mais tarde também entregando-se ao amor. Ambos, inclusive, irão mostrar um para o outro e, ao mesmo tempo, para eles mesmos, que também podem e conseguem atrair e se relacionar com garotas, um jogo de gato e rato que acaba aumentando ainda mais a tensão sexual e amorosa entre os dois rapazes.

MV5BMTA0NjQ0MTk5MDReQTJeQWpwZ15BbWU4MDM1OTUyMTQz._V1_SX1777_CR0,0,1777,960_AL_

Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

E apesar de todo o retrato idílico que o amor de Elio e Oliver provoca ao longo do filme, a porção final, arrebatadora a seu modo, vem para nos lembrar do outro lado do amor verdadeiro: a dor. No início do filme, em uma cena muito rápida, a narrativa esbarra na citação de Heráclito sobre não podermos entrar duas vezes num mesmo rio – na segunda vez, mesmo que estejamos no mesmo rio que entramos anteriormente, suas águas já são outras, aquelas primeiras já passaram e estão há muito longe de nós; e, por consequência, nós também somos outras pessoas, também mudadas, também com outras águas fluindo em nós -, e, ao final, a metáfora da água, que começou parada, calma, passou pela água gelada, pelo suor, pelo sumo do pêssego e pelas cachoeiras revoltosas e ameaçadoras, agora transforma-se em flocos de neve, em uma paisagem homogênea e confortante – mas que não deixa de ameaçar Elio. Antes, porém, ele recebe uma das lições mais valiosas que um pai pode dar a seu filho: a natureza sempre arranja meios de atingir nossos pontos mais fracos. Em uma cena de monólogo inspirada, o pai de Elio (interpretado por Michael Stuhlbarg) emocionará não apenas o filho, mas todo o público que acompanha o longa.

MV5BNjI1NjgyOTg1M15BMl5BanBnXkFtZTgwODE0ODczMzI@._V1_SX1500_CR0,0,1500,999_AL_

Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

Tal qual um dos epigramas gregos mais verdadeiros à arte, “a beleza é dura, é cruel, é chocante”, tópico inclusive discutido entre o pai de Elio e Oliver enquanto contemplam slides de esculturas gregas e sua imitação perfeita da estética do corpo humano, Call me by your name é uma alegoria bela e cruel a seu modo. Assim como Oliver entra nas águas calmas e congelantes de Elio, em um batizado pagão e sem volta; assim como Elio penetra o pêssego buscando uma água mais doce e arrepende-se imediatamente de seu ato “impuro”; assim como nenhum dos dois permanecem os mesmos após um misturar-se à água do outro – inclusive misturando seus próprios nomes -, o público também não é o mesmo ao contemplar a cena final de Me chame pelo seu nome. Fria como a neve lá fora, indiferente como as chamas que crepitam diante do rosto belo e chocante de Elio, a arte da obra de Luca Guadagnino flui em nós, doce como um pêssego vibrante ao sol de verão, amarga como uma despedida sem volta.

call-me-by-your-name-poster

Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Call me by your name, dirigido por Luca Guadagnino, escrito por James Ivory (baseado no livro Me chame pelo seu nome, de André Aciman).

Com: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Vanda Capriolo, André Aciman.

Anúncios
Padrão
Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2017

É hora de dizer mais uma vez: ano novo, lista nova.

Como já é tradição aqui on blog, está na hora de colocar as cartas na mesa e escolher os dez filmes que mais me agradaram ao longo do ano passado. Tentei prezar diversos gêneros e, consequentemente, várias temáticas. No final da lista você encontrará um filme bônus (oficialmente ele ainda não estreou no Brasil).

Listas de anos anteriores: 2016, 2015, 2014

10º

Mulher-maravilha (Wonder woman)

2017, dirigido por: Patty Jenkins

10_2

Pôster: B O N D, 2017

Um dos filmes mais elogiados de 2017, Mulher-maravilha soube escapar muito bem do estigma de ser “apenas mais um filme de super-herói”. Patty Jenkins e sua direção com um olhar cuidadoso para a imagem de representatividade da mulher dentro do universo proposto pela personagem da DC Comics fez do filme não apenas um manifesto, mas uma peça de entretenimento puro e muito válida, mostrando ao público todo um universo e construção de personagem que não perde para nenhum outro filme baseado em histórias em quadrinhos. A cereja do bolo, é claro, é a atuação plena de Gal Gadot.

Star Wars: os últimos jedi (Star Wars: the last jedi)

2017, dirigido por: Rian Johnson

9_2

Pôster: LA, 2017

Esqueça a zona de conforto de J. J. Abrams e seu Episódio VII. Não que este seja ruim, mas Rian Johnson definitivamente deixou sua marca na saga Star Wars. Ousado, diferente e, ao mesmo tempo, resgatando os tão bem-vindos alívios cômicos da trilogia clássica, Os últimos jedi não apenas estabelece de vez a nova geração de Star Wars para as novas gerações dentro do público, como também deixa seu legado para o cânone criado por George Lucas. Não dê atenção para pessoas babacas e seus abaixo-assinados irrelevantes, The last jedi é filmaço de primeira categoria e diversão garantida.

Leia a resenha do filme aqui.

Corra! (Get out!)

2017, dirigido por: Jordan Peele

8_2

Pôster: LA, 2017

Não espere que você saiba o que está acontecendo dentro desse filme. Corra! é imprevisível do início ao fim. E o roteiro vai jogar com você o tempo todo, subvertendo inclusive suas próprias obviedades. É um suspense? Sim. É um terror? Sim. É comédia? Doentia, mas sim. Para conferir Get out!, é bom estar com o estômago em dia, pois a atualidade dele vai dar uns belos socos no seu.

Leia a resenha do filme aqui.

Animais noturnos (Nocturnal animals)

2016, dirigido por: Tom Ford

7_2

Pôster: B O N D, 2016

Animais noturnos não possui uma história complexa, muito menos efeitos especiais mirabolantes. Seu foco são seus personagens e como esses lidam com seus próprios sentimentos. A história dentro da história só complementa a força gerada por ressentimentos, ódio e, claro, vingança. Espere por composições de imagens estéticas e atuações primorosas de Amy Adams e Jake Gyllenhaal.

Leia a resenha do filme aqui.

Ao cair da noite (It comes at night)

2017, dirigido por: Trey Edward Shults

6_2

Pôster: InSync Plus, 2017

Dentro de uma onda de filmes de terror cada vez mais autorais e que fogem do estereótipo de que terror equivale a um filme ruim, com personagens rasos e histórias mais finas ainda, Ao cair da noite não é um exemplo que irá deixar você satisfeito. Em nenhum momento ele entrega o que o público quer ou precisa ver. Seu suspense é baseado justamente naquilo que tememos por não sermos capazes de vê-lo. Angustiantes, claustrofóbico e visceral.

Dunkirk (Dunkirk)

2017, dirigido por: Christopher Nolan

5_2

Pôster: WORKS ADV, 2017

Para quem estava acostumado com um Christopher Nolan entregando filmes do Batman com roteiros complexos e desenvolvimento profundo de personagens, ou mesmo filmes com conceitos complexos como A origem (Inception, 2010), Dunkirk pode parecer um longa incompleto, sem nexo. Mas não se engane: o protagonista aqui é a própria guerra enfrentada pelos personagens. Dunkirk é cinema puro: no som e na imagem. O ideal é assisti-lo com uma tela e sistema de sons à altura, para que a experiência seja completa e você se sinta, mesmo que por menos de duas horas, dentro de uma guerra. Terrível.

Leia a resenha do filme aqui.

O filme da minha vida

2017, dirigido por: Selton Mello

4

Pôster: Vitrine Filmes, 2017

Está na hora de você parar com essa bobagem de que filme nacional é uma porcaria. Claro que muitos filmes produzidos no nosso país nem merecem ser chamados de “filmes”, tamanha acefalia nos vários exemplos que vemos por aí. O filme da minha vida, porém, vem para tirar de vez essa impressão e, consequentemente, injustiça que praticamos contra o cinema pensado e produzido aqui. Seguindo a imensa qualidade de seu longa anterior, O palhaço (2011), o ator Selton Mello dirige aqui um regionalismo com maestria e serenidade. Destaque para a belíssima fotografia que evoca, em seu tom sépia, uma nostalgia doce, mas, ao mesmo tempo, dolorosa.

A chegada (Arrival)

2016, dirigido por: Denis Villeneuve

3_2

Pôster: Empire Design, 2016

Aparentemente o canadense Denis Villeneuve não consegue fazer um filme ruim. Aqui, o diretor nos apresenta o que poderia ser mais um filme de invasão alienígena, não fosse pelo fato de A chegada não colocar a invasão em si em primeiro lugar; o foco, aqui, é a linguagem: como vamos nos comunicar com esses seres? E como é a linguagem deles? Todos os segredos e enigmas do filme giram em torno da linguagem. Obra-prima, incluindo sua trilha-sonora arrepiante.

Leia a resenha do filme aqui.

It: a coisa (It)

2017, dirigido por: Andy Muschietti

2_2

Pôster: cold open, 2017

A produção de It remonta ao início da década. Mudança de diretores, roteiristas e por aí vai. O que parecia impossível acontecer devido às circunstâncias foi, talvez, a principal supresa positiva dentro do cinema blockbuster de 2017. Baseado em uma das consideradas obras-primas de Stephen King, It: a coisa é uma homenagem não apenas aos grandes monstros e fantasmas das histórias de terror, mas à infância em si. Equilibrando muito bem as doses de sustos e horror com os risos (voluntários ou não), It com toda a certeza foi a melhor opção de entretenimento no ano que passou. Finalmente valeu a pena esperar anos e anos por um filme sair do papel. Estamos ansiosos desde já para o próximo capítulo da história, previsto para 2019.

Leia a resenha do filme aqui.

E aqui há a resenha para o livro de Stephen King.

Moonlight: sob a luz do luar (Moonlight)

2016, dirigido por: Barry Jenkins

1_2

Pôster: InSync Plus, 2016

Poético como versos doces ou música inspirada, arrebatador como um soco no rosto. Moonlight não apenas mereceu seu Oscar de Melhor Filme em 2017, era uma obrigação premiá-lo por sua coragem, sua narrativa fílmica exemplar e sua temática mais do que necessária. A discussão aqui não é apenas em relação aos LGBTs, mas também em relação aos negros e como eles – ainda, infelizmente – estão relegados às margens de nossa sociedade. Não espere por finais felizes.

Cena pós-créditos

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

_2

Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Sensação do final do ano, Me chame pelo seu nome está arrebatando críticos por todos os festivais em que passa. Queridinho das premiações agora no começo de 2018, o longa realmente não decepciona, seja por seu retrato fidedigno de um verão europeu rodeado por estudiosos, piscinas, praias e pêssegos saboreados de diversas formas, seja pela atuação monstra de Timothée Chalamet ao lado de Armie Hammer. Destaque também para as composições originais de Sufjan Stevens que permeiam o filme e ditam ainda mais o clima de primeiro-amor.

Padrão
Filmes

Star Wars: os últimos jedi

Se você prestar bastante atenção, Os últimos jedi (Star Wars: the last jedi, 2017) possui uma tríade de personagens que representam muito bem seus vários tipos de fãs. Tem-se, ali, Luke Skywalker (interpretado por Mark Hamill), o que é análogo aos fãs mais exigentes – poderia chamá-los de babacas, em muitos casos, mas vamos imaginar que vivemos em um mundo ideal; tem-se, também, a heroína Rey (interpretada por Daisy Ridley), representante do fã empolgado, aquele que precisa, mais do que tudo, ver o que acontecerá caso o fã exigente concorde com suas propostas; e, por último, tem-se Kylo Ren (interpretado por Adam Driver), o fã que já cansou de todo o bê-a-bá dos filmes mais antigos e precisa urgentemente recomeçar com ares novos uma franquia que já dura assustadores 40 anos.

A sorte de Os últimos jedi foi ter caído nas mãos de Rian Johnson. Diretor de poucos filmes (apenas um despontou mais no meio hollywoodiano – Looper: assassinos do futuro) e, entre outros, do episódio que talvez gerou mais polêmica dentro da série Breaking bad (“Fly” – isso mesmo, o famigerado episódio da mosca), Johnson permaneceu com uma bomba-relógio em suas mãos por pelo menos dois anos desde a estreia bem sucedida de O despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), pois, além de dar continuidade a uma das sagas com mais fãs em sua base, o diretor precisava trazer ares novos, assim como Kylo Rey deseja, mais do que tudo, dentro desse Episódio VIII. E digo que o filme teve sorte ao cair nas mãos de Rian Johnson porque, sim, Os últimos jedi é um filme muito interessante, diga-se de passagem. E o que o torna mais interessante talvez seja a ousadia pontuada de Johnson (que também escreveu o roteiro); pontuada pois o oitavo episódio de Star Wars não é um filme com mudanças espetaculares de roteiro ou cheio de ameaças ao cânone de George Lucas: Johnson sabe em que terreno está pisando e vai adicionar elementos aqui e ali que mudam o tom dentro dessa nova trilogia, mas talvez sem que o público, no geral, perceba. A saber.

1

Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Apesar de presente também no filme anterior, o alívio cômico é mais endossado nesse. É um detalhe que pode não pesar muito na balança final de “coisas que prejudicaram ou ajudaram o novo Star Wars”, se você pensar com cuidado, mas não esqueçamos de seu princípio básico: a diversão. Ora, ainda estamos falando de um filme, em sua, de aventura. Envolve aspectos de sci-fi, obviamente, mas Star Wars não deve ser desclassificado como um bom e velho filme-pipoca. É claro que toda a proporção alcançada pela saga eclipsou essa característica tão esquecida nos filmes do gênero atuais. Lembro-me, inclusive, que o último mais agradável nesse sentido, a ponto de dar um fôlego mais do que bem-vindo à filmografia de Steven Spielberg foi em 2011, com Tintim. É um filme que abraça os conceitos do filme-aventura e cria sequências de ação de encher os olhos e, ao mesmo tempo, não deixa de lado a comicidade das situações ali presentes. Há momentos, em Os últimos jedi, que um determinado comentário, um certo trejeito em um personagem ou até mesmo humor físico são empregados para que a plateia se divirta. E isso não é um crime à nossa inteligência.

Se em O despertar da força não poderia faltar os flares característicos de J. J. Abrams dentro de sua fotografia, Os últimos jedi traz rimas visuais esteticamente muito bonitas. Mas não para apenas na estética, Rian Johnson e o diretor de fotografia Steve Yedlin (parceiro de Johnson em outros dois longas do diretor e também responsável pela fotografia da adaptação mais recente de Carrie: a estranha, 2013) empregam significados muito particulares em cada rima ou sobreplano. E o mais interessante: não são significados impossíveis ou “cults” demais para o grande público não entender; são casos como quando Rey encontra-se contra a câmera, sua silhueta recortada pelo cenário que a envolve, para, logo depois do corte, vermos Kylo Ren na mesma posição de câmera, quase que “substituindo” a personagem anterior, num contraste bonito esteticamente falando e, ao mesmo tempo, com grande significado para a história ali contada. Johnson também retoma elementos clássicos do cinema, como uma cena de grande tempestade quando as personagens presentes encontram-se em um embate, ou uma fotografia bem avermelhada para introduzir o vilão do filme.

2

Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Comentei ali em cima um pouco da característica aventuresca do filme a partir do humor e dos alívios cômicos. Mas The last jedi vai além do humor nesse sentido. Há grandes sequências de ação para agradar os fãs, sejam os mais exigentes ou os presentes apenas pela diversão; em destaque: a sequência inicial com o piloto Poe Dameron (interpretado por Oscar Isaac) e seu fiel amigo de lata BB-8 e a debandada protagonizada por Finn (interpretado por John Boyega) e uma das novas personagens Rose (interpretada por Kelly Marie Tran). Ambas as cenas mostram o poder de entretenimento que Star Wars ainda pode produzir com suas novas histórias, mas, além disso, provam que Johnson é um diretor ciente de seu público diversificado a partir da introdução da saga com The force awakens: é preciso mostrar o que o público mais antigo e conservador quer ver e, ao mesmo tempo, introduzir elementos novos ou esquecidos para que o público novo e “transgressor” saia da sessão satisfeito. Não é um equilíbrio fácil de se encontrar e, quando encontrado, acertá-lo de maneira interessante; mas, ao aliar tais elementos de aventura e, além disso, introduzir aos poucos novas personagens – além de Rose, temos agora a presença da Vice-Almirante Holdo (interpretada por Laura Dern, fazendo os corações dos fãs de Jurassic Park suspirarem) -, Rian Johnson consegue entregar um episódio que sustenta a responsabilidade de toda a exigência de diversas gerações de público.

Aos poucos, a Disney começa a realizar aquilo que o “fã-Kylo-Ren” deseja: o que ficou no passado, é pra deixar lá. Com respeito, é claro, mas ainda assim é melhor deixar no passado. Não é à toa seu grande investimento em histórias paralelas que preencham lacunas no universo Star Wars, trazendo diretores com um pegada um pouco mais indie em Rogue One, por exemplo, e seguindo a tática de entregar o primeiro episódio da nova trilogia (a introdução para novas gerações de fãs e, consequentemente, novos consumidores de Star Wars) para mãos mais seguras, passar o bastão para um diretor mais “ousado”, em termos, no episódio de transição e, lá no final da trilogia, voltar para o colo mais seguro. É um projeto de saga bem seguro, devemos admitir. Por enquanto, tudo corre dentro do esperado; mesmo para um episódio de transição, o que mais pode gerar problemas por não conter, em tese, nem o começo nem o final da história (é só lembrarmos de grandes exemplos, como As duas torres, 2002, e O baú da morte, 2005, além de outros episódios de transição fora de trilogias, como Harry Potter e o enigma do príncipe, 2009), Os últimos jedi agrada por não carregar o peso de ser uma transição, é um filme que não faz questão de vestir tal designação e, justamente por isso, funciona muito bem.

3

Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Em 2015, eu escrevi que restava saber se, para os próximos filmes, a Disney iria além da introdução de novos personagens. Parece que a Força ainda está com todos nós.

5

Pôster: B O N D, 2017

Star Wars: the last jedi, escrito e dirigido por: Rian Johnson.

Com: Carrie Fisher, Mark Hamill, Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Joonas Suotamo

Padrão
Filmes

mãe!

Tente lembrar quantas vezes você se sentiu incomodado em uma sessão de cinema. Algo ali nas cenas daquele filme não o deixava à vontade em sua poltrona. Algo presente naquele filme realmente fez seu cérebro coçar. Ao longo da sessão de mãe! (mother!, 2017) eu senti dois impulsos: o primeiro, quase ao final da projeção, de me levantar e simplesmente sair da sala; o segundo, após a sessão, de não ter palavras o suficiente para criticar um filme tão ruim, tão gratuito e tão pretensioso quanto esta última obra de Darren Aronofsky. Vou tentar detalhar os dois lados que travaram uma briga interna ao longo de todo o filme, mas o mais frustrante é ainda não ter decidido qual ganhou, o racional ou o emocional. Se pensarmos bem, ao longo da história da arte, encontramos muitos exemplos de obras que foram pensadas e concebidas para causar incômodo em seus espectadores.

Tomemos, inicialmente, como exemplo, a pintura.

John_Henry_Fuseli_-_The_Nightmare

“O pesadelo”, de Henry Fuseli: o incômodo na elegância dos detalhes

Você pode se esbaldar no Google com exemplos de quadros pintados com a intenção de despertar nojo, asco, repulsa, raiva ou medo. São sentimentos humanos importantes até para a sobrevivência, refletindo para um lado mais prático, e artistas de todas as gerações se apropriaram da ideia para compor seus trabalhos. Lembro-me de um bom quadro que utiliza tais elementos: “O pesadelo”, de Henry Fuseli, um óleo sobre tela atualmente exposto no Detroit Institute of Arts.

Apesar de não encontrarmos ali elementos que nos causem repulsa ou asco (sensações mais intensas, podendo até se manifestar de maneira física), a imagem contém detalhes interessantes. Partindo da temática de um sonho ruim, o artista representa com poucos pontos a intensidade de vivenciar uma situação muito incômoda, porém imaginária. O pesadelo, foco de estudo não apenas da arte, mas também de diversas ciências, é representado na obra de Fuseli por um pequeno demônio materializado em cima do peito de uma mulher que passa pelo pesadelo, além de uma cabeça de cavalo – aparentemente cego. O que nos causa estranheza não é, obviamente, a mulher que lá se encontra retorcendo-se enquanto passa pelo pesadelo; o rosto do demônio, virado diretamente para o espectador, e a forma como ele se deposita sobre o peito da moça faz com que relacionamos de maneira imediata com a sensação terrível de um pesadelo: até um certo nível, podemos saber que aquilo não é real, mas não conseguimos escapar da situação, ela está sobre nós, apertando nosso peito de maneira inconfundível.

A estranheza, na pintura, parte de um sentimento de incômodo, podendo aumentar e chegar a um nível mais intenso, dependendo da recepção de cada indivíduo ao contemplar a obra. Assim, a intenção de representação de um pesadelo associa-se a uma sensação já conhecida por aqueles que já passaram por um pesadelo do qual não conseguiam escapar. Ao encarar a pintura de Henry Fuseli e sentir a estranheza de ver um ser demoníaco sentado sobre o peito de uma moça que se retorce, inconsciente, consigo relacioná-la à sensação que tive quando, a um certo nível, sabia estar dentro de um pesadelo, mas não podia ou não conseguia acordar para me ver livre daquele momento ruim. Meu ponto é: Henry Fuseli não precisou abrir mão de sua elegância para causar incômodo em mim.

Pensemos agora na música.

Björk-Black-Lake

“Black lake”, por Björk: o incômodo pessoal expresso através da música

Em 2015, após um hiato de quatro anos, a cantora islandesa Björk lançou um disco intitulado Vulnicura, um neologismo que se aproveita do latim clássico, significando “a cura de uma ferida”, traduzindo, aqui, de maneira bem literal e despreocupada. Uma das músicas, “Black lake“, possui mais de dez minutos de duração – um verdadeiro suplício para a maioria das pessoas. A temática do álbum, porém, gira em torno da experiência vivida pela cantora após o término de uma relação que mantinha por anos com seu ex-marido. Ou seja, se Björk propôs-se uma catarse pessoal para exorcizar os demônios sobre seu peito em relação ao processo de separação pelo qual passou, nada mais compreensível do que representá-lo através de uma música difícil de ser ouvida.

Vulnicura, apesar de uma abertura convidativa e lírica, é um disco que vai contra as expectativas de qualquer pessoa, inclusive dos fãs da cantora. “Black lake”, como citado, é uma música longa e triste, expondo todas as feridas mais profundas para que sejam metaforicamente curadas. É uma canção que incomoda, que não nos deixa feliz. Porém, assim como na pintura de Fuseli, o incômodo gerado em “Black lake” não ultrapassa o limite do “aceitável”. Para aqueles que já passaram por um processo de relacionamento-separação, a identificação música-espectador ocorre de maneira profunda sem que o ouvinte reaja de maneira violenta. Assim como Fuseli, Björk também mantém uma elegância.

E então chegamos ao cinema.

maxresdefault

“Anticristo”, 2009, de Lars Von Trier: o mau gosto

Mas antes de comentar minha visão e experiência com mother!, gostaria de lembrar de um outro filme que também me incomodou muito quando o vi pela primeira vez: Anticristo (Antichrist, 2009), de Lars Von Trier. Penso nesse exemplo porque, após alguns dias terem passado e minha raiva contra mãe! e Darren Aronofsky terem assentado, lembrei que, apesar dos pesares, Anticristo é um filme que me agrada. Não no sentido literal, é claro, já que ele possui sequências de extremo mal gosto, mas como filme, num geral, é uma obra da qual posso debater com quem estiver disposto por um bom tempo sem liquidar interpretações e teorias. E foi exatamente essa comparação que me deixou mais intrigado: por quê, afinal, eu gostei de Anticristo e simplesmente detestei mãe!?

Vamos, primeiro, aos fatos. mother! não é um filme literal. Se você está indo ao cinema em busca do novo filme de Darren Aronofsky cujo gênero é terror/suspense, já começou errado. Propositadamente vendido pela Paramount como um filme de terror, mãe! vai subverter tal conceito logo nos primeiros dez minutos de projeção. Apesar de conter elementos de suspense na primeira sequência – aquela com câmera na mão, acompanhando Jennifer Lawrence pelas costas ao longo de cômodos vazios de uma casa não muito amigável -, o longa toma um caminho diverso, e no sentido de não se encaixar em nenhum gênero exato, importando-se mais em realizar alegorias temáticas do que apresentar uma história mastigada.

MV5BZWNmZWI3M2EtMmUxMy00ZmQ5LTk0ZGEtNTEyM2MxMDkxNjFhXkEyXkFqcGdeQXVyMzI3NjY2ODc@._V1_

Imagem: Paramount Pictures, 2017

Por um lado, é louvável que Aronofsky idealize um projeto com tais intenções. Sofremos uma falta de filmes financiados por grandes estúdios que tirem o espectador de seu estado de conforto e alienação. Não que ir ao cinema por puro entretenimento seja algo ruim e execrável, mas ir apenas com tal intenção nos empobrece. Mas, por outro, é triste – mais que isso, é entediante – observar que o diretor apresente uma obra pretensiosa. E afirmo isso porque, talvez, seja um dos pontos que mais me incomodou: a mensagem, praticamente gritada, a todo tempo, no estilo “estou fazendo um filme cabeça! Você precisa ter referências para entender o que está acontecendo! Tudo aqui é metafórico! Sou muito foda no que faço!”. E isso incomoda. Não o incômodo do demônio me encarando na pintura de Fuseli, não o das cordas tristes e melancólicas de “Black lake”. mãe! me incomoda por ser um filme que já parte do princípio de que é bomcabeça o suficiente para causar confusão e divisão de público.

E ele causa.

O que me remete imediatamente a outra obra de Aronofsky, o já consagrado Cisne negro (Black swan, 2010). Apesar de temáticas opostas e serem obras com intenções divergentes, Cisne negro ainda assim também possui seu nível de incômodo proposital. Trabalhando com a questão do duplo no ser humano, o filme possui a pretensão de nos confundir a ponto de partirmos de uma simples história sobre uma bailarina ambiciosa e terminarmos em um O médico e o monstro atual. Seu final, poético e sublime, toma o caminho oposto da deselegância de mãe!. Confesso que, ao fazer esse paralelo pela primeira vez, questionei-me se realmente não seria a intenção do diretor de compor uma obra como mãe! proposital, com a intenção de trabalhar em um espectro que fosse do mais sutil ao mais grotesco em questão de segundos. E poderia ser isso mesmo, caso (de novo) ela não fosse tão pretensiosa. Uma obra cinematográfica que idealiza o grotesco e o mau gosto como propósito principal assume tal papel desde sua concepção. É o caso, por exemplo, de Pink flamingos, um filme de 1972 que assumiu seu papel de grotesco desde a produção – de orçamento irrisório – e contém, dentre outras “excentricidades”, uma cena de degustação de cocô de cachorro. Isso sem contar todos os filmes produzidos essencialmente nos anos 80, quando o gênero trash despontou.

MV5BMTRhMmQ5YjItZmZhNi00MTBjLTk5MzAtOTcxN2Q5ZDEyOWFmXkEyXkFqcGdeQXVyMzI3NjY2ODc@._V1_SX1500_CR0,0,1500,999_AL_

Imagem: Paramount Pictures, 2017

Dessa forma, permeando analogias que, em sua maioria, aproveitam-se de histórias e elementos bíblicos, mãe! pode ser interpretado de maneiras diversas. É possível uma leitura religiosa e de como a presença de uma religião pode ser muito nociva a uma cultura; é possível também uma leitura mais artística, pensando no papel de Javier Bardem como poeta e nos ciclos pelos quais ele passa (inspiração-concepção-publicação-hiato-bloqueio criativo-inspiração-concepção-publicação e assim por diante), tomando também o papel de Jennifer Lawrence como a musa inspiradora ou, mais literalmente ainda, a própria obra de arte; além da leitura ambiental, com a Mãe sendo, nada mais, nada menos, que a Mãe Natureza em si (apesar de fazer sentido, particularmente é uma das leituras que menos me agrada). Desse modo, o público que possuir um pouco mais de discernimento e leitura poderá criar teorias e interpretações a seu bel-prazer. Volto, no entanto, ao mesmo ponto: o problema de mother! não é ser aberto a interpretações, seu principal defeito é pecar pela própria vaidade – que, inclusive, é um ponto negativo apontado pela própria Bíblia.

Por fim, após passar por todos esses estágios, compreendi que não apenas a vaidade de Aronofsky e sua pretensão ao já imaginar que eu endeusaria seu filme é que me incomodaram. O que mais me incomodou, no fim, é não saber exatamente o porquê de mãe! ser um filme que me incomodou tanto ao fim de sua projeção. Eu apenas sentia, irracionalmente, uma raiva ampla e intensa contra o longa. E não saber determinar o que me incomodava é o que me incomodou mais. Se a intenção de Aronofsky fosse essa, desde o início, aí então eu devo dar o braço a torcer e afirmar que ele me ganhou nessa. Caso contrário, mãe! não passa de uma masturbação mental feita para aqueles que gostam de interpretar um filme que já espera de você interpretações profundas. E isso, para mim, também é uma forma de alienação.

mother_xlg

Pôster: James Jean, 2017

mother!, escrito e dirigido por: Darren Aronofsky

Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson.

Padrão
Filmes

It: a coisa

Quando terminei de ler It, e isso foi em dezembro de 2016, a primeira sensação foi, talvez, a de nostalgia de algo pelo qual eu nunca passei, mas que, de alguma maneira, fez parte de mim. Explico: passar um tempo – ou um bom tempo, são mais de mil páginas para ler –  ao lado dos Losers é fazer parte deles, depois de semanas acompanhando a história de crianças que precisam enfrentar seus medos materializados em uma criatura maligna. E mesmo que você não tenha tido uma infância aos moldes daquela compartilhada por Bill, Ben, Beverly, Eddie, Mike, Richie e Stanley – o grupo que sofre bullying por ser obviamente formado por crianças à parte dos moldes populares da escola -, não quer dizer que não possa se identificar com as alegrias e tristezas sentidas por cada um deles; e é daí que vem a sensação de nostalgia, a falta de algo que já passou e que você tem absoluta certeza de que não terá de volta.

É o poder de síntese de Stephen King. Apesar do calhamaço It não ser um livro rápido por sua quantidade gigantesca de páginas, o autor consegue compactar ali as vidas de sete seres humanos representados em sua versão completa. Da infância à vida adulta, o leitor participa de um vai-e-vem no tempo capaz de construir pouco a pouco a identidade de cada um – e nós, invariavelmente, caímos nas graças de todos. A nostalgia proeminente é também porque sabemos quais provações os Losers enfrentarão (não de que maneira as enfrentarão, mas que, de qualquer forma, vão precisar passar por tais testes), já que eles são crianças (ou pré-adolescentes, se você preferir uma especificidade maior) prestes a entender como a vida não é tão fácil assim.

MV5BMjAxOTAzNTY5OV5BMl5BanBnXkFtZTgwMTM1NzMzMzI@._V1_SX1500_CR0,0,1500,999_AL_

Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

Talvez seja por todo esse lado mais humano que It: a coisa (It, 2017) decepcione aqueles que esperam no filme um terror sanguinário e repleto dos chamados jump scares, os sustos causados por súbitas alterações de volume na trilha sonora ou com barulhos diegéticos. Nós somos condicionados a esperar por isso, aliás. Viemos de uma indústria cinematográfica que calcou o terror como subgênero responsável apenas por filmes rasos, feitos sob medida para deixar palmas das mãos suadas e pessoas desconfortáveis em seus assentos por uma hora e meia, duas horas, e depois, ao saírem da sala, não refletem mais sobre o que viram. It, assim como boa parte de produções mais independentes que estão despontando desde o ano passado, pensa diferente. Ainda é um filme-pipoca, daqueles para você sentar e aproveitar uma boa e velha história sobre um grupo de amigos em uma aventura durante o verão estadunidense. Mas esteja ciente: It não foca no terror. Possui elementos do gênero, é claro, o que traz nuances mais obscuras para a história – como cenas mais gráficas e um humor mais ácido -, mas preocupa-se essencialmente com a construção de seus personagens.

Assim como em outras diversas adaptações, o roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman utiliza o essencial do texto-base de King para desenvolver a história de maneira que o público não-leitor do livro também compreenda facilmente a história. Muita coisa mudou do livro para o filme, mas isso de forma alguma prejudica a trama. Ajuda, inclusive, em seu desenrolar – algo que pode incomodar os leitores mais ansiosos se tentarem dar uma chance ao livro verborrágico de Stephen King. Todos os longos interlúdios do livro estão no filme, mas diluídos em torno das sequências de discussão entre os personagens; a história de Derry, cidade onde se desenrola toda a ação, bem detalhada no livro, é sintetizada no filme na figura de Ben, o menino interessado em livros e que se torna responsável por fornecer detalhes sobre como a cidade estranhamente mata seus habitantes a cada 27 anos – em sua maioria, crianças.

MV5BMTgyNTAyOTgxNl5BMl5BanBnXkFtZTgwODA1NzMzMzI@._V1_SY1000_CR0,0,1498,1000_AL_

Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

Ao optarem por essa diluição que não prejudica a fonte, o roteiro também possibilita transições elegantes em tela, como a primeira que apresenta os protagonistas: a cena anterior conta com ovelhas saindo de um local de morte, como que se sentindo desesperadas pela liberdade; tal cena é cortada para os alunos da escola de Derry saindo da sala de aula para as férias de verão… uma sutil mensagem. A câmera, acompanhando os meninos, já os mostra ao público para que este reconheça ali pré-adolescentes que falam asneiras, palavrões e discutem temas sérios – tudo ao mesmo tempo; seguindo no plano-sequência, a câmera adentra o banheiro feminino para nos apresentar aquela que será a única integrante mulher do Clube dos Otários, Beverly, em um momento de humilhação, mas sem baixar a guarda. Tal cena deve contar com 40 segundos, 1 minuto no máximo, mas é o suficiente para estabelecer o clima personagens-público que irá perdurar até o fim da projeção, apenas intensificando e estreitando os laços entre ambos.

O roteiro de It passou por diversos estágios. Foi re-escrito algumas vezes, revisado mais outras; geralmente um mal sinal para produções blockbuster, a revisão de roteiros pode mostrar uma produção fraca ou que está com divergências artísticas. Foi o que fãs de Stephen King temeram ao longo de toda a pré-produção do filme, que remonta a alguns anos, quando o diretor nem era Andy Muschietti e Bill Skarsgård não interpretaria o grande vilão do filme. Apesar de toda a impressão causada ao longo dos anos, o filme mostra que a união entre um roteiro bem escrito (e bem revisado, no caso), produção competente e uma direção focada naquilo que deve ser explorado de fato em um longa culminou em uma obra enxuta, emocionante e divertida ao mesmo tempo.

MV5BMTc2MjAxMzU5MV5BMl5BanBnXkFtZTgwNzQ1NzMzMzI@._V1_SY1000_CR0,0,1502,1000_AL_

Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

Assim, Andy Muschietti demonstra total respeito ao texto-fonte e imprime sua assinatura em cada sequência de It: a coisa. Nas cenas em que as crianças estão prestes a enfrentar seus piores medos, Muschietti escolhe posições de câmeras que já sugerem o suspense, e em muitas delas o diretor abusa do ângulo inclinado, aquele em que a câmera “entorta” para um lado, passando a impressão de confusão, insegurança ou medo. Não é algo que prejudica ou torna-se repetitivo além da conta, e auxilia na construção da trama. A opção por um uso de efeitos práticos, deixando a computação gráfica para momentos em que esta é realmente necessária, faz com que tememos mais os diversos monstros que desfilam diante de nós.

Mas a grande aliança no filme, sem sombra de dúvida, é a direção de Andy Muschietti com a estonteante atuação de Bill Skarsgård como o palhaço Pennywise. Parcialmente causada por uma cuidadosa campanha de marketing que economizou nas aparições do vilão do longa, a performance de Skarsgård era ansiada não apenas pelos fãs do livro, mas também por aqueles que já conheciam a história porque assistiram a minissérie produzida pela ABC em 1990. Eternizada com a interpretação de Tim Curry, seu já clássico Pennywise não deve ser comparado com o de Bill Skarsgård pelo simples motivo óbvio de que são produções distintas, e a comparação aqui alimentaria mais um desgaste entre fãs do que chegaria a um ponto interessante. Skarsgård cria um Pennywise com nuances sutis, que vão do simpático e alegre palhaço capaz de encantar qualquer idade até o mais sádico e frio assassino em questão de segundos. Alia-se a esses pontos a direção de arte responsável pela caracterização do personagem, trazendo uma maquiagem com toques diabólicos necessários àquele que representa os mais profundos medos de cada protagonista.

MV5BNTA1OTEwNDM5Ml5BMl5BanBnXkFtZTgwOTQ1NzMzMzI@._V1_SX1500_CR0,0,1500,999_AL_

Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

Por outro lado, o trabalho de Jaeden Lieberher como o corajoso e líder Bill, Jeremy Ray Taylor como o apaixonante Ben, Sophia Lillis como a guerreira Beverly, Jack Dylan Grazer como o alívio cômico Eddie, Chosen Jacobs como o respeitoso Mike, Finn Wolfhard como o alívio cômico 2 Richie e Wyatt Oleff como o hesitante Stanley completa a tríade como peça essencial para a engrenagem de It funcionar tão bem – e funciona. Funciona pois cada atuação, aliada ao texto leve proposto pelo roteiro, traz o público para mais perto de um grupo com integrantes tão distintos, mas que sofrem com os mesmos problemas: o menino que enfrenta os pais em período de luto, a menina que enfrenta o pai violento, o menino que enfrenta a mãe superprotetora… ou seja, crianças que temem um palhaço assassino mas que, no final das contas, possuem seus maiores monstros nas próprias casas, nas figuras maternas e paternas. Essa questão, porém, é mais detalhada no livro; aqui, tudo é mostrado de maneira resumida, mas que vai direto ao ponto.

Dessa forma, àqueles que esperam de It um filme sobre um palhaço assassino, terão suas expectativas quebradas. Sim, ele contém um assassino que também toma a forma de um palhaço; sim, ele também fala sobre os medos de cada criança e mostra isso com cenas que também possuem elementos de terror; mas está longe de ser um filme de terror barato, cujo objetivo seria lucrar com pulos na cadeira e reações diversas a cenas com sangue jorrando e membros sendo cortados. Aqui, há sangue jorrando com um propósito. Aqui, há membros sendo cortados com um propósito. Mas nada disso se compara à importância de se criar laços afetivos, ainda mais quando é preciso deles para que, no futuro, se necessário, sejam usados para enfrentar novamente o medo. Porque é isso que, no fim, o palhaço Pennywise representa: o medo. E como ele pode nos destruir.

MV5BMjEyMzM3NjM0NF5BMl5BanBnXkFtZTgwMDQ1NzMzMzI@._V1_SY1000_CR0,0,1502,1000_AL_

Imagem: Warner Bros. / New Line Cinema, 2017

» Caso você queira ler a resenha do livro, clique aqui.

it_xlg

Pôster: Canyon Design Group, 2017

It, dirigido por Andy Muschietti, escrito por Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman (baseado no livro It: a coisa, de Stephen King)

Com: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Jack Dylan Graze, Chosen Jacobs, Finn Wolfhard, Wyatt Oleff, Nicholas Hamilton, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert, Mollie Jane Atkinson.

Padrão
Filmes

Dunkirk

“Mikháilov virou-se para olhar: o ponto luminoso da bomba parecia ter parado em seu zênite – na posição em que é totalmente impossível determinar sua direção. Mas isso só durou um instante: a bomba vinha cada vez mais depressa, cada vez mais próxima, de tal modo que já eram visíveis as fagulhas de sua espoleta e se ouvia o assovio fatídico, que descia direto no meio do batalhão.

– Deitem! – gritou a mesma voz assustada.

Mikháilov caiu de barriga para baixo. Praskúkhin, num movimento involuntário, curvou-se até o chão e estreitou as pálpebras; só ouviu como a bomba se chocou na terra dura, em algum lugar bem perto. Passou um segundo que pareceu uma hora – a bomba não explodiu. Praskúkhin assustou-se: será que havia se amedrontado à toa? Talvez a bomba tivesse caído longe e ele tinha apenas a impressão de que o pavio chiava bem perto. Abriu os olhos e, com uma satisfação presunçosa, viu que Mikháilov, a quem devia doze rublos e meio, estava totalmente abaixado, estendido de bruços, juntinho de seus pés, imóvel, quase agarrado a ele. Nesse instante, seus olhos toparam com o pavio aceso da bomba, que rodava a um archin de distância.”

(“Sebastopol em maio”, de Liev Tolstói. In: Contos completos, tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.)

Logo nos primeiros minutos de Dunkirk (idem, 2017), as palavras de Liev Tolstói me vieram à cabeça. Apesar de confortável em minha poltrona, apesar da pipoca estalando entre os dentes e apesar da manteiga derretendo aos poucos na língua, meus olhos grudaram na grande tela enquanto o protagonista corria entre sons de tiros e a iminência cada vez mais forte e palpável de uma morte rápida e gratuita. Sim, Dunkirk pode parecer para alguns um filme desconexo e sem alma para os padrões de Christopher Nolan. Mas é preciso ser frio além do aceitável para não se sentir apreensivo com a tensão constante do longa-metragem mais recente do diretor de Batman: o cavaleiro das trevas (2008), A origem (2010) e Interestelar (2014).

MV5BMzA0MWYwOWYtMjE3MC00ZWQ5LWI3ZDAtYzk0YzkxZjA0ZGY0XkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,742_AL_

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

É um filme sobre a guerra, afinal. Mas é um filme que prefere a visão subjetiva de quem se encontra em meio ao caos. A câmera de Nolan é, ao mesmo tempo, o correspondente de guerra responsável por nos noticiar de tudo (ou quase tudo) que acontece e também nossos olhos, que contemplam o horror inevitável, o nonsense coletivo. Estamos logo atrás dos ombros de Tommy (interpretado pelo estreante Fionn Whitehead), o primeiro de uma lista enxuta de personagens que passará pelos olhos do público. O silêncio impera de início, mas dali alguns instantes é quebrado abruptamente por sons de tiros e balas ricocheteando pelo cenário deserto de uma cidade qualquer. Sentir a oposição silêncio x som ao longo das quase duas horas de projeção parece ser, sem sombra de dúvida, a sensação de estar em um país em guerra.

E este é um filme quase mudo. Mudo no sentido de diálogos, mas mudo também em relação a uma história propriamente dita. Aos ávidos por roteiros redondos ou amplamente intricados – como os que Nolan e seu irmão usualmente escrevem -, haverá um gosto amargo ao longo de todo filme e, principalmente, quando os créditos finais começarem a aparecer na tela. Não é, apesar de tudo, um problema que afete a experiência em si. Assistir Dunkirk é, em primeiro lugar, testemunhar voos repletos de curvas e manobras sinuosas, bombas explodindo em direção aos nossos olhos em um efeito prático muito mais assustador do que o melhor 3D já criado, a claustrofobia forçada por situações e cenários hostis com a ação humana através da guerra.

MV5BOGQ5MjRiZDEtNDI2Zi00NDNhLWJlY2MtMmM2MDc0MzRlY2Q1XkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,738_AL_

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Filmes, como ignorado por muitos, são, aliás, histórias contadas através de imagens, através de sons. Então a fotografia de Dunkirk faz questão de libertar soldados, mesmo que por alguns minutos, quando a câmera de Nolan se aproxima entre dois postes em um travelling lento, dando a impressão de que a distância entre eles alarga-se; após o corte, vemos os soldados correrem, vemos aviões se aproximarem ameaçadoramente, vemos bombas caindo do céu. Após tudo acontecer, a câmera agora afasta-se lentamente, em um travelling inverso, e os postes se estreitam, fechando novamente os soldados em suas existências miseráveis, sem esperanças. O mesmo irá ocorrer quase ao fim da projeção, quando a câmera se aproxima por trás do piloto Farrier (interpretado pelo constante colaborador de Nolan, Tom Hardy), um plano muito parecido com aquele que apresenta misteriosamente o Coringa de Batman enquanto este espera pelos comparsas chegarem em uma van. Com a silhueta cortada pelo contraste promovido pelas chamas à sua frente, Farrier observa de maneira suntuosa a obra de arte que criou, uma bela metáfora criada através do avião incendiado.

Muito deve também ao design de som um filme como esse. Alto o bastante para amedrontar o público em momentos certos, baixo também o suficiente para deixar os nervos à flor da pele enquanto se espera o próximo estrondo ou morte iminente, Dunkirk tem êxito em seus dois extremos sonoros pois complementa a imagem de maneira rítmica, fazendo com que a aproximação de um avião torne-se um frio latejante na espinha – inclusive é um eco que entoa o final de “In the flesh?”, de Pink Floyd) – e os tiros contra a lateral de metal de um barco furem também nossos tímpanos, abrindo ainda mais a ferida da tensão e deixando o sangue escorrer por ela.

MV5BYjQ2YzRhMjQtMTgwYy00NWU1LTllOGQtYjA2ZmU5MTUwZDY2XkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,743_AL_

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2017

Por fim, é preciso ressaltar a colcha de retalhos coerente que a montagem cria ao juntar três linhas narrativas com tempos diferentes (uma semana, um dia, uma hora), algo já visto em outros filmes do diretor, como em A origemO cavaleiro das trevas ressurge. Tal opção torna a aproximação entre público e personagens algo mais natural, já que não há diálogos expositivos que apresentem cada pessoa ali envolvida nas cenas, muito menos a necessidade do filme se explicar (menos logo no início, quando um pequeno texto contextualiza o público sobre o que Dunkirk representa dentro da Segunda Guerra Mundial).

Inspirado também pela bela trilha-sonora composta por outro constante colaborador de Nolan, Hans Zimmer, Dunkirk torna-se a experiência mais imersiva proposta por Christopher Nolan até então. Não há reviravoltas capciosas ao final como em Interestelar, não há dúvidas propostas por objetos rodando como em A origem. Mas há algo muito mais forte que em tempos de youtubers e Snapchat torna-se cada vez mais raro e, ao mesmo tempo, necessário: o fato de que é preciso experienciar o cinema, não apenas olhar para a tela como uma criança ou adolescente olha para a incrível e absolutamente inesperada rotação de um spinner é capaz de fazer.

dunkirk_xlg

Pôster: Concept Arts, 2017

Dunkirk, escrito e dirigido por: Christopher Nolan.

Com: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Barry Keoghan, Mark Rylance, Tom Glynn-Carney, Tom Hardy, Jack Lowden, James D’Arcy, Cillian Murphy, Harry Styles, John Nolan, Michael Caine (voz).

Padrão
Filmes

Corra!

Não é um segredo o fato de filmes de terror serem considerados um gênero menor. Ignorados na maior parte do tempo em premiações de renome e até entre recomendações de círculos de amigos, o bom e velho filme de terror parece relegado apenas àqueles que curtem de verdade suas peculiaridades e, na maior parte das vezes, suas falhas. Ao longo do tempo, pudemos ter contato com produções que partem do terror mais trash como Uma noite alucinante: a morte do demônio (Evil dead, 1981) e Arraste-me para o inferno (Drag me to hell, 2009), ambos dirigidos por Sam Raimi, que viria despontar cada vez mais nos anos 2000 com a trilogia Homem-aranha, produções essas que ficaram marcadas com sua despreocupação com a seriedade dentro das histórias, querendo mais é que o público sentisse medo e risse ao mesmo tempo – a ponto de, no Brasil, cunharmos o termo “terrir” para esses casos. Ao mesmo tempo, pudemos assistir obras mais voltadas para o terror psicológico, com produções mais arrojadas e cuidadosas, caso de clássicos como O exorcista (The exorcist, 1973), responsável por fazer multidões passarem mal nos cinemas da época, e, mais recentemente, Invocação do mal (The conjuring, 2013), trazendo de volta o terrorzão pensado para realmente assustar o público que sai da sessão, vai para casa e continua com medo do filme.

Nos últimos tempos, porém, houve uma leva de filmes pensados de maneira mais restrita. Por serem produções ditas como independentes (livres das garras dos grandes executivos dos estúdios majoritários de Hollywood), tais filmes trouxeram um vigor interessante para o gênero. Ficaram, ainda assim, restritos ao nicho de público que procura por filmes de terror e, por assim dizer, é bem pequeno, mas ainda assim causaram um relativo burburinho entre os círculos cinéfilos. Foram os casos de, por exemplo, Os estranhos (The strangers, 2008), famoso depois principalmente pela presença de Liv Tyler, do ótimo Corrente do mal (It follows, 2014) e do angustiante O convite (The invitation, 2015). Estes exemplos mostram que, ao contrário do que aqueles que não aprovam filmes de terror pensam, filmes assim podem sim trazer ideias e execuções interessantes, com propostas, muitas vezes, até inovadoras.

MV5BY2E0NmZhNGItY2ZmZS00MGM2LWFhZjktOTRlYWU0ZDZkNTU3XkEyXkFqcGdeQXVyMjY5ODI4NDk@._V1_SY1000_CR0,0,1499,1000_AL_

Imagem: Universal Pictures, 2017

É o caso, também, de Corra! (Get out, 2017). Apostando no extremo desconforto na maioria de suas cenas, o filme começa como um suspense leve, intensificado aos poucos com elementos de terror. É um exemplo interessante do gênero que é pensado como um filme do gênero, a princípio, afinal, utiliza poucos cenários e investe mais em cenas com diálogos e interações entre personagens, mas que transgride barreiras ao bater mais na tecla da crítica social. A diferença principal, porém, é que o roteirista e diretor Jordan Peele insere tais críticas de maneira coesa à proposta da narrativa, algo que permite à história um entremeio mais orgânico, um detalhe a melhorar a crítica social em si.

Provavelmente detalhes que passarão despercebidos pela maioria do público em uma primeira assistida, Corra! inclui elementos de cena simbolizando personagens e seus pensamentos e atitudes. Logo na sequência de abertura, o carro que segue o personagem negro é, obviamente, branco, destacando-se no contraste com o cenário externo escuro. E a tensão proposta por Peele já se evidencia logo ali, com o uso de steadycam e sem cortes, a câmera acompanhando o personagem de frente enquanto o carro o segue por trás, deixando uma sensação de iminente perigo, mas que, ao mesmo tempo, prolonga o suspense para que o desconforto aumente no público. A sequência inicial dá lugar aos créditos principais e, logo em seguida, a uma outra sequência, feita para apresentar um determinado apartamento. Repleto de quadros com fotografias, cada uma é mostrada com parcimônia, dando ênfase ao fato de que cada uma conta com um elemento negro e um branco, ambos se sobrepondo, disputando espaço dentro da imagem. Nada mais simbólico para a história que se seguirá.

MV5BYmVkZjQ1OGQtNzEyMS00Y2Y5LTg2ZjktZjMwZDI5ODMwZDZhXkEyXkFqcGdeQXVyNjUxMjc1OTM@._V1_SX1777_CR0,0,1777,739_AL_

Imagem: Universal Pictures, 2017

Tais sequências são complementadas pela apresentação dos protagonistas. O roteiro de Peele, porém, não os introduz de maneira qualquer, criando uma situação natural típica a qualquer casal de namorados recentes, importante para o desenvolvimento separado de cada personagem. É ali que conhecemos Chris (interpretado por Daniel Kaluuya) e Rose (Allison Williams), apaixonados um pelo outro, mas realistas o suficiente para, do lado dele, entender o problema de ir visitar a família da namorada, essencialmente rica e branca, sendo negro, e do dela, ao estar preparada para encarar o desconforto e o constrangimento de defender o namorado em situações que existem apenas quando há negros envolvidos – como quando o policial pede a identidade de Chris sem motivo algum, apenas por ser negro e estar envolvido em uma situação delicada. Assim, de maneira simples e direta, o filme cria o primeiro contato entre o casal protagonista e o público, começando uma linha afetiva que será quebrada ao longo de cada ato.

A simbologia com as cores vai continuar com a introdução de personagens, é o caso do momento em que Chris conhecem os sogros, estes vestindo blusas obviamente pretas enquanto recebem-no de maneira amistosa e toda sorridente. Nada daquilo, porém, convence. E em nenhum momento a direção de Jordan Peele quer deixar tudo disfarçado, o que acaba se tornando um mérito para a história que o filme deseja contar. O público sabe ou, ao menos, tem a sensação de que algo – ou vários algos – ali não está certo, não está encaixando com o todo: a atitude mecânica dos empregados da grande casa (obviamente negros), a desculpa esfarrapada que o pai de Rose dá para justificar a existência de empregados apenas negros. Em contrapartida, o roteiro de Jordan Peele faz uso de conexões inteligentes para tocar a história para a frente, como é o caso da abstinência de Chris por nicotina e a consequente sugestão do pai de Rose pelo tratamento psicológico desenvolvido por sua mulher que, segundo ele mesmo, o fez largar o cigarro com apenas uma sessão. O tratamento, inclusive, vai ser uma das piores angústias enfrentadas pelo protagonista ao longo do filme.

MV5BNjBmZjI1MzAtZTUwNS00YzI3LTk2YzYtN2I0ODMzNTRiMmI3XkEyXkFqcGdeQXVyMjY5ODI4NDk@._V1_SY1000_CR0,0,1499,1000_AL_

Imagem: Universal Pictures, 2017

Mas enquanto tudo não parece passar de um suspense – e o diretor gosta de deixar tal ideia bem clara ao montar uma sequência entre Chris e a empregada, motivada pela desconfiança do protagonista em relação a esta mexer em seu celular, quando cria uma cena repleta de cortes que fazem apenas aumentar o enquadramento no rosto da empregada, criando planos cada segundo mais fechados, potencializando a tensão e, consequentemente, o suspense -, de repente nos vemos acompanhando um verdadeiro filme de terror. Sim, com a presença de vilões explicando seu “plano maléfico”, sim, com a presença de sangue, mutilações e derivados. Adicione também aí um sentimento de vingança motivado pelo clímax da projeção – e de repente os personagens vestem, obviamente, branco. É um ápice precedido por cenas “reveladoras”, como a do bingo mais bizarro já visto.

Tal mudança não é brusca como parece soar. É orquestrada de maneira sutil por Peele e executada aos poucos, fazendo a tensão aumentar não a ponto de prejudicar o filme, mas para colaborar com as motivações finais de cada personagem. Há a presença de um alívio cômico também, Rod Williams (interpretado por Lil Rel Howery), amigo do protagonista, usado com destreza para que não caia no ridículo e perca sua finalidade em meio à narrativa. É, por assim dizer, um motor a mais para as engrenagens de Corra! que, depois do início do clímax, não dá um momento de sossego para o espectador. Alguns poderão não concordar com o desfecho proposto pelo roteirista e diretor, mas há de se concordar que a presença do carro de polícia na cena final dá um sabor especial, principalmente pela sugestão irônica que produz dentro do contexto da sequência.

MV5BMTUxMjEzNzE1NF5BMl5BanBnXkFtZTgwNDYwNjUzMTI@._V1_SX1777_CR0,0,1777,998_AL_

Imagem: Universal Pictures, 2017

É arriscado dizer que Get out poderá agradar até aqueles que não tem o suspense ou o terror como gênero favorito, mas a presença de sua crítica social e a condução inteligente do roteiro faz com que há uma aceitação maior de públicos. Se Jordan Peele continuar com seu fôlego fílmico e inspiração de escrita vistos nesse exemplar, podemos esperar mais boas surpresas do promissor diretor.

get_out_ver2_xlg

Pôster: LA, 2017

Get out, escrito e dirigido por: Jordan Peele

Com: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Lil Rel Howery, Bradley Whitford, Catherine Keener, Betty Gabriel, Marcus Henderson, Stephen Root.

Padrão