Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2018

10º

Jogador Nº 1 (Ready Player One)

2018, dirigido por: Steven Spielberg

10_1_ready player one

Pôster: BO N D, 2018

Provavelmente não é o melhor filme do diretor que nos trouxe de volta dinossauros adormecidos há 65 milhões de anos ou conferiu camadas de realismo e comédia ao detetive mais topetudo – literalmente – que a Bélgica já inventou, mas se sua intenção é assistir a um filme blockbuster repleto de cenas de ação, inventividade e inúmeras referências aos anos 80 (contando com uma sequência primorosa que recria um dos clássicos de Stanley Kubrick), talvez Jogador Nº 1 seja sua opção mais segura para este ano. O filme vai sobreviver às décadas que virão e vai se tornar um clássico? Com o currículo de Steven Spielberg, muito possivelmente não, mas vale pela diversão e pelas risadas.

Halloween (Halloween)

2018, dirigido por: David Gordon Green

9_1_halloween

Pôster: LA, 2018

Não fosse pelas inúmeras sequências e remakes já realizados, eu poderia aqui dizer que seria arriscado continuar a história de um já clássico cult dos filmes de terror. No entanto, o Halloween de 40 anos depois de seu original soa fresco, revigorante e – o mais importante aqui – assustador. Não assustador a ponto de deixar o espectador sem dormir durante uma semana, é claro, mas a tensão gerada por suas sequências de perseguição e o uso de steadycam não só lembram a criação de John Carpenter, como também apresenta às novas gerações o que um bom filme de serial killer pode mostrar de verdade. E diferentemente das sequências e refilmagens realizadas nas décadas passadas, este Halloween conta com a segurança de nada menos que sua própria scream queen Jamie Lee Curtis na produção, além do patrono John Carpenter. Arrepie-se mais uma vez com a famigerada trilha sonora clássica e o andar lento de Michael Myers

Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody)

8_2_bohemian rhapsody

Pôster: WORKS ADV, 2018

2018, dirigido por: Bryan Singer

Bohemian Rhapsody pode se encaixar em vários gêneros fílmicos, pois vai desde uma biografia até o filme-pipoca. Emocionante, divertido e, em alguns momentos, também engraçado, a trajetória da banda Queen aqui retratada pode não se ater completamente aos fatos reais, mas faz uso dessa “licença poética” para aprimorar a dramatização do que foi a vida de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e John Deacon. Repleto de músicas da banda mais diversa do rock de todos os tempos, o filme ainda ousa – e consegue – recriar a antológica apresentação no Live Aid de maneira impecável. Era necessário? Não. Funcionou plenamente para a catarse do filme? Com toda a certeza.

Leia a resenha do filme aqui.

Missão: impossível – Efeito Fallout  (Mission: impossible – Fallout)

2018, dirigido por: Christopher McQuarrie

7_1_mission impossible_fallout

Pôster: LA, 2018

Ser uma franquia de ação em plena atividade desde a metade dos anos 90 e continuar gerando milhões e milhões de bilheteria não é um feito a ser ignorado. Mesmo para aqueles que não são amantes dos filmes de ação praticamente sem roteiro e com direito a muitas explosões sem sentido (cof, cof, Michael Bay), Missão: impossível é irresistível. Apesar de alguns tropeços terem ocorrido, como no sofrível segundo capítulo, a série de filmes parece ter ganhado um novo e revigorado fôlego nas mãos de Christopher McQuarrie, responsável pelos roteiros e direção deste e do filme anterior. Claro, não seria possível encontrar-se no patamar atual se não fosse pelo sensacional Protocolo fantasma, de 2011, dirigido por Brad Bird, é bom lembrar. Porém, é em Efeito Fallout que talvez a série Missão: impossível atinge seu ápice. Não abandonando a fórmula de misturar ação, toques de humor e sequências de tirar o fôlego, o vigor do filme só se compara à entrega completa que seu protagonista veterano, Tom Cruise, faz do início ao fim.

A forma da água (The shape of water)

2017, dirigido por: Guillermo del Toro

6_2_the shape of water

Pôster: MIDNIGHT OIL, 2017

Muita gente torceu o nariz para a última produção de Guillermo del Toro, talvez porque ela tenha sido ovacionada em praticamente todas as competições e premiações pelas quais passou. Seu apogeu, é claro, foi a consagração com os Oscar, principalmente, de Melhor Direção e Melhor Filme. Apesar de ter competido com o ótimo Três anúncios para um crimeA forma da água ser reconhecido como Melhor Filme pela Academia não foi um erro, a meu ver. Além de sua homenagem direta e indireta para a sétima arte, o filme do mexicano presta seu respeito também para as minorias. De maneira sutil e artística, A forma da água é uma ode aos desajustados. Ao apresentar uma mulher como protagonista, cuja melhor amiga é negra e o melhor amigo é gay, e que enfrenta um vilão homem, heterossexual e branco, os subtextos da história não podem e não devem ser ignorados. Isso tudo sem contar a extrema beleza – no sentido estético mesmo – com que nossos olhos são brindados com sua fotografia, seu design de produção e também seu figurino.

Três anúncios para um crime (Three billboards outside Ebbing, Missouri)

2017, dirigido por: Martin McDonagh

5_1_three billboards outside ebbing, missouri

Pôster: B O N D, 2017

Cru, cáustico e doloroso. Talvez sejam três palavras mais apropriadas para definir Três anúncios para um crime. Não apenas a motivação principal que leva Mildred, sua protagonista, a colocar três outdoors para escancarar um crime e a consequente vergonha que o cerca por causa da polícia local, o filme faz questão de retratar ali tipos extremamente interessantes que fazem a história borbulhar o ódio e a vingança estampados na sempre excelente Frances McDormand. Além disso, Três anúncios para um crime conta com sequências cinematográficas elaboradas, como a da grande discussão que se passa entre um policial e outro personagem, culminando em consequências as quais apresentam o principal motivador da população de Ebbing: o preconceito.

Viva: a vida é uma festa (Coco)

2017, dirigido por: Lee Unkrich e Adrian Molina

4_2_coco

Pôster: eclipse, 2017

Se a Disney, agora dona da Pixar, da Marvel, de você, de mim e de todos nós, anda decepcionando com sequências desnecessárias a já clássicos como Procurando Nemo ou, ainda mais, decidiu embarcar de vez no terreno ainda desconhecido dos filmes live action, essa desconfiança não pode se aplicar a Viva. Ao mesmo tempo com uma estrutura clássica do protagonista que precisa enfrentar a própria família para provar que seus gostos artísticos são importantes e inventivo ao recriar em animação toda uma rica cultura proveniente do povo mexicano, o filme também conta com referências ao mito de entrar no submundo (ou mundo dos mortos), uma história contatada pelos nossos antigos antepassados, na Roma e na Grécia. Mas as principais características e, consequentemente, virtudes de Viva são a leveza e a delicadeza com que trabalha uma questão nem sempre fácil: a morte. Prepare os lencinhos, a carga emotiva é fortíssima.

Um lugar silencioso (A quiet place)

2018, dirigido por: John Krasinski

3_1_a quiet place

Pôster: BLT Communications, LLC, 2018

Em meio a um mar de filmes inúteis que cada vez mais mancham o gênero terror, é muito revigorante ser brindado com gratas surpresas como Um lugar silencioso. Surpreendente não apenas pelo fato de revelar o ator John Krasinski como um excelente e promissor diretor cinematográfico, o filme faz o espectador temer a presença do som – que, mais do que a imagem em um filme de terror, é essencial para a trama se desenvolver -, o que já o torna um interessante exercício de cinema de gênero. Além da história original, é impossível deixar de admirar as atuações de Emily Blunt e, principalmente, dos filhos, Millicent Simmonds e Noah Jupe. O que uma ótima direção não faz para que um filme flua de maneira impecável.

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

2_1_call me by your name

Um filme que brinda ao verão e ao amor de verão é uma boa tentativa de definir Me chame pelo seu nome. O longa mistura a leveza e a intensidade do amor entre Elio e Oliver sem cair em clichês e tendências perigosas que tratariam o relato em mais um filme específico para o público GLBT. Me chame pelo seu nome nada mais é do que a história de um amor entre duas pessoas, acima de tudo, e uma das cenas finais, em um diálogo entre Elio e seu pai, prova a delicadeza com que o roteiro pretendia desde o início. Destaque também para a ótima trilha-sonora, que conta com composições de Sufjan Stevens.

Leia a resenha do filme aqui.

Hereditário (Hereditary)

2018, dirigido por: Ari Aster

1_2_hereditary

Pôster: Gravillis Inc., 2018

Se Viva trata do tema morte com a delicadeza que um filme voltado para o público infantil exige, Hereditário é o extremo oposto desse espectro. Assim como Um lugar silencioso surpreendeu por sua originalidade e direção primorosa, este é exemplo de que o terror não é um gênero menor, e muito menos está esquecido pelos grandes diretores. E apesar de ser sua estreia, o diretor Ari Aster nos entrega uma obra não apenas ousada em sua frequente construção de cenários, sequências e sons com a intenção de arquitetar uma tensão pesada, mas também inventiva, seja em como apresenta os elementos de terror – reflexos de luzes representando espíritos, corpos flutuantes em meio a uma ausência de sons -, seja no trabalho cuidadoso com os atores, que se entregam aos papeis. Além de todos esses elementos, Hereditário também traz uma trilha-sonora claustrofóbico, imergindo ainda mais o espectador no terror – que, ainda bem, não é óbvio em nenhum aspecto.

Leia a resenha do filme aqui.

Listas de anos anteriores: 20172016, 2015, 2014

Anúncios
Padrão
Filmes

Bohemian Rhapsody

A sensação de assistir à apresentação de uma banda, ao vivo, muitas vezes é indescritível. Quando se é fã de determinado grupo ou artista, a música por eles composta possui uma importância e, mais, uma significação muito intensa para aquele que os admira. As palavras cantadas pelo artista não são apenas um amontoado de dizeres que combinam com a melodia e o arranjo da música, pode tornar-se aquilo que comumente chamamos de poesia: a brincadeira, o jogo, o manuseio com as palavras cujo objetivo é mexer com nossos sentidos, nossos sentimentos e a nossa relação com o mundo à nossa volta.

Grandes artistas ao longo das eras, mexeram com seu público. Seja de forma positiva, ao elevar o espírito de multidões, seja de forma negativa, ao provocar no público uma reação que este não esperava (ou não desejava). O grande artista, aquele que muito provavelmente será lembrado e redescoberto pelas gerações mais novas, no entanto, provoca ambas. Sim, por mais que você possa começar a gostar de determinado performer, algumas atitudes dele podem incomodar em certo nível ou, ao contrário, pode-se reagir a um grande artista a partir de algo terrível aos seus olhos e, com o tempo, a admiração surgir aos poucos, como resultado do processo que se iniciou com a impressão negativa de início.

1

Imagem: 20th Century Fox, 2018

Há, também, o grande artista que, independentemente de provocações positivas ou negativas, possui um talento inegável de elevar multidões. Seja por sua voz, por sua atuação em palco, por sua habilidade nas composições,  ou todas as opções anteriores ao mesmo tempo, esse grande artista torna o público hipnotizado por aquilo que, muitas vezes, chamamos de “presença de palco”, a ponto de inspirar as pessoas – em um nível mais sutil, ao fazer com que o espectador de seu show saia do evento sentindo-se elevado pela música, ou em um nível mais forte, incentivando tal espectador a buscar, um dia, em ser como o artista que tanto admira.

Freddie Mercury, ou Farrokh Bulsara, é todos esses artistas ao mesmo tempo. Uma das provas do poder de seus inúmeros dons artísticos é o fato de quase todas as pessoas ao nosso redor, mesmo não conhecendo sua história ou a trajetória do Queen terem, pelo menos uma vez na vida, ouvido uma de suas músicas, direta ou indiretamente. Mais: conhecerem a figura de Freddie Mercury. Assim como qualquer artista ou obra de arte famosa, a performance em palco de Freddie Mercury é, indiscutivelmente, uma representação icônica do grande artista musical que foi, é e sempre será dentro do imaginário popular.

2

Imagem: 20th Century Fox, 2018

Por isso – e muitos outros detalhes que não cabem nesse pequeno texto -, é grande a responsabilidade que recai sobre os ombros de Rami Malek. O ator, mundialmente conhecido pela série Mr. Robot, não apenas precisou dar conta de replicar, na telona, os trejeitos, olhares, maneirismos, empostação de voz e linguagem corporal de palco de  Mercury, como conferir uma camada a mais em sua atuação no que se refere à dramatização da vida do vocalista do Queen. Isso porque não vemos, ali, na tela do cinema, a vida e a trajetória em si do ídolo. O que assistimos é a uma representação dramática, em pouco mais de duas horas, do torvelinho de coisas que foi a vivência e a composição artística de Freddie Mercury. Mais à frente volto a esse ponto.

Assim, o que vemos em Bohemian Rhapsody (idem, 2018) é um ator encarando a hercúlea tarefa de aproximar-se ao “personagem” real. E consegue. O público não só crê, em algum nível, que está diante do Freddie Mercury real, como também emociona-se quando ali na tela vê o compositor com os olhos marejados ao criar uma nova música, ou quando identifica-se com um artista atormentado pelos períodos obscuros de vazios existenciais. Afinal, Freddie Mercury não era apenas um cantor mediano cuja tarefa era subir ao palco para agradar grandes produtores da indústria e vender discos.

3

Imagem: 20th Century Fox, 2018

Outro aspecto abordado no longa e que, de certa forma, confere ritmo ao roteiro, é a dinâmica entre os quatro integrantes da banda. Se Freddie era o frontman do Queen, o carro-chefe avassalador, os demais também eram peças necessárias para que a fórmula musical funcionasse bem: Brian May (interpretado Gwilym Lee) e sua habilidade monstruosa com a guitarra, Roger Taylor (interpretado por Ben Hardy) e a explosão proveniente de sua bateria e demais percussões, e John Deacon (interpretado por Joe Mazzello) e a inventividade inegável que nos trouxe o riff de seu baixo em “Another one bites the dust”. E em Bohemian Rhapsody a química que ebuliu a arte musical do Queen é muito bem representada pelos atores que representam os demais membros do grupo, não apenas pelo carisma e, muitas vezes, ótimo timing com momentos de humor, mas principalmente pela assustadora aproximação na aparência – todos são muito semelhantes às suas versões reais.

E se o filme conta com um ator talentoso para a representação de Freddie Mercury, e mais três outros atores cuja química transparece de maneira irrefutável na tela, há de se discutir sobre as alterações realizadas pelos escritores Anthony McCarten e Peter Morgan. Há três pontos cruciais mostrados em Bohemian Rhapsody que se diferem bastante da realidade*: 1) toda a cena de discussão com o produtor Ray Foster (personagem fictício e muito bem pontuado pelo veterano Mike Myers) sobre considerar a música “Bohemian Rhapsody” como single (para tocar nas rádios e ser lançada como, na época, disco compacto) soa, e é, extremamente exagerada; 2) apesar de realmente ter gravado discos solo, Freddie Mercury nunca discutiu com os demais integrantes, nem se separou da banda; 3) a descoberta da AIDS não ocorreu antes do evento Live Aid (o clímax escolhido para o longa), mas sim posteriormente. Tais fatos e suas modificações podem incomodar o fã de longa data. Mas, analisando o filme por aquilo que ele representa (um filme – e de entretenimento, no caso), essas mudanças casam com a camada dramática apresentada ao público. Assim, para o espectador que não conhece os detalhes da vida e obra da banda, esses três aspectos tornam-se fonte de humor, drama e melodrama, respectivamente. E, para um filme hollywoodiano, nada melhor do que tais temperos.

4

Imagem: 20th Century Fox, 2018

No final das contas, o personagem principal e mais importante – até mais importante do que a figura de Freddie Mercury -, a música do Queen, é quem impera em toda a produção. Ela é o motor desde a vinheta da 20th Century Fox (aqui executada com guitarras) até os últimos segundos dos créditos finais. É com ela que os pontos dramáticos são pontuados, os momentos catárticos (e são vários) são propulsionados e as emoções são despertadas das maneiras mais sutis – não à toa, o famoso “ay-oh” de Freddie, entoado por apenas uma pessoa, em uma determinada cena, dentro de uma situação delicada, pode mexer com o público de maneira poderosa. E é com ela que nos despedimos dos personagens da tela, das histórias reais e ficcionais do roteiro, mas, acima de tudo, é com ela que saímos do cinema com a certeza de que o show deve continuar.

* as informações foram retiradas dessa análise

pôster

Pôster: Gravillis Inc., 2018

Bohemian Rhapsody, dirigido por: Bryan Singer; escrito por: Anthony McCarten.

Com: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joe Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker.

Padrão
Filmes

Nasce uma estrela

Em dois momentos calorosos de Nasce uma estrela (A star is born, 2018), Ally, a protagonista do longa, parte para a briga. No primeiro, ao tentar defender a privacidade de um rapaz que acabou de conhecer; no segundo, contra esse mesmo rapaz, mas agora porque ambos se encontram casados e, em um certo nível, se odeiam. Essas duas cenas têm, tirando os óbvios momentos musicais – que também são muito fortes (porém não todos, é preciso enfatizar) -, um enorme potencial para a história do filme. Ou teriam, pois são apenas duas parcas faíscas logo descartadas pelos roteiristas.

Talvez esse descuido seja resultado de uma história que já passou por diversas versões na própria Hollywood. O roteiro desse reconto mais recente, por exemplo, baseia-se no roteiro de 1976 que, por sua vez, inspira-se no de 1954. Chega a ser levemente vergonhoso saber que uma história tão requentada ainda pode ser contada mais uma vez, afinal, pouquíssimas pessoas aturam café velho colocado novamente no fogo para uma tentativa pífia de agradar o paladar de alguém. No entanto, dependendo do tratamento dado para a história e como ela é conduzida por seu diretor, é possível acompanhar um remake no mínimo respeitoso à obra original (ou, aqui, às obras). Não é o caso.

3

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Não que o ator Bradley Cooper seja incompetente. Sabemos que ele não é. Como ator, pelo menos, cumpre seu papel. Não é o melhor e mais empolgante ator do mundo, mas entrega um Jack honesto. Jack, aliás, é um personagem que cambaleia entre o clássico alcoólatra irrecuperável e o ultrarromântico idealizado: ora se entrega ao copo de bebida ou à cocaína quando percebe que, mais uma vez, a vida lhe escapa entre os dedos, ora trata a mulher que literalmente acabou de conhecer como a principal musa de sua vida. Claro que, para uma audiência no geral, o romance que se inicia entre ele e Ally é algo, digamos, “bonito” de se ver, já que conta com piadinhas leves sobre anatomia facial da moça (uma piada que obviamente vai se tornar bordão ao longo do filme), troca de olhares intensos e todos os clichês possíveis de comédia romântica para acompanhar.

Mas se analisarmos com cuidado o desenvolvimento da própria narrativa e como esses personagens se movem nela e, mais ainda, como eles se expandem nela, o buraco começa a ficar mais embaixo. Isso porque tudo parece, ao mesmo tempo e estranhamente, rápido e lento demais. Explico: o filme tem dolorosas, arrastadas e tediosas 2h16 de duração e, ainda assim, toda a sequência de acontecimentos parece se dar de maneira muito rápida e artificial. Em breves momentos, conhecemos Jack, para logo depois conhecermos Ally, para logo depois sabermos que ela canta magnificamente bem, para logo depois vermos os dois se encontrando, para logo depois ambos se apaixonarem perdidamente e por aí vai. Um tédio sem fim.

2

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Porém, existe a música salpicada nesse marasmo todo. E aí não há escapatória, porque de maneira muito esperta a produção do longa escalou nada menos que Lady Gaga para o papel de Ally. E mesmo que o público não goste do estilo musical da cantora, é inconcebível esse mesmo público não reconhecer nela uma baita cantora – não só talentosa, como verdadeiramente artística. Suas músicas, sua interpretação e suas nuances vocálicas são respiros muito bem-vindas durante a projeção. Momentaneamente saímos da chatice sem fim de um roteiro magro sobre um cantor alcoólatra que não define mais a realidade de sua realidade e sua repentina paixão sem medidas por uma cantora talentosa, e é o que salva.

No entanto, a estrela principal da obra não é a personagem Ally. É, em suma, sua intérprete, Lady Gaga. Não apenas pela potência de sua voz, sua interpretação impecável como verdadeira cantora, mas porque o que vemos na tela pode não ser apenas uma ficção que está no processo de diversas versões desde os anos 50, e sim a história da própria Gaga, resguardadas as devidas diferenças. Temos ali uma desconhecida que trabalha naquilo que não gosta, mas tenta se inserir no mundo da música de alguma forma. Quando é descoberta por um produtor, passa a se vender para um pop genérico, insosso e desesperador de acompanhar. Inclusive, talvez esse momento seja o maior furo do roteiro de Nasce uma estrela: se no início do filme Ally faz questão de mostrar seu descontentamento com aqueles que comandam a indústria da música – os homens, é claro -, logo depois ela mesma vai se render a um homem que a manipula de diversas formas através da maneira, talvez, mais sacana de se manipular alguém: a passivo-agressiva. É com esses deslizes que o filme vai perdendo as próprias tentativas de criar personagens marcantes. Ao fim, eles parecem planos feito herói e mocinha de novela das sete.

1

Imagem: Warner Bros. Pictures, 2018

Se a intenção de A star is born era ser um filme musical, podemos dizer que foi razoavelmente bem sucedido – mas a direção nada criativa de Bradley Cooper nesse sentido não ajuda a trazer brilhantismo para os números musicais. Se a intenção era ser um romance, mirou no romântico clássico, acertou o folhetim barato de revista erótica de banca, uma coisa meio Sabrina. Se a intenção era ser um filme com toques de comédia, devemos admitir que faz algumas tentativas com bons resultados, mas que se perdem no melodrama grudento da maior parte do longa. Por fim, se a intenção era fazer sucesso, tristemente tudo isso que critiquei antes será, sem dúvida alguma, elementos prontos para alavancar a bilheteria do filme. Afinal, é um longa-metragem estrelando Lady Gaga e Bradley Cooper, com muito romance, comédia, drama e um toque de melancolia sem-vergonha. Ah, tem também uma morte pra fazer todo mundo chorar. Pode ser dela, pode ser dele, pode ser do cachorro. Qualquer uma vai fazer o seu amigo vender o filme para você dizendo que foi um filme “lindo, maravilhoso, me fez chorar muito”. Mas não se engane. É um filme raso. Bem raso. Talvez seja por isso que a própria Lady Gaga canta uma música chamada “Shallow”.

pôster

Pôster: InSync Plus, 2018

A star is born, dirigido por: Bradley Cooper; escrito por: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters (baseado nos roteiros de Moss Hart, de 1954, e de John Gregory Dunne, Joan Didion e Frank Pierson, de 1976 – cujas histórias são baseadas numa história de William Wellman e Robert Carson).

Com: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot, Anthony Ramos, Rafi Gavron, Andrew Dice Clay.

Padrão
Filmes

Hereditário

Lidamos com a morte em apenas dois momentos: quando alguém muito próximo falece, deixando-nos com uma dor particular e imensurável, e quando nós mesmos nos encontramos na mesma situação. Mas pensar sobre a morte é um caso mais amplo. Nas artes, por exemplo, há inúmeros exemplos de como autores, pintores, músicos, diretores e atores pensaram a morte e a interpretaram em seus mais diversos níveis e tipos. Desde os antigos gregos e romanos com seus mitos até as atuais formas de se narrar histórias – com o cinema e, mais atuante agora, as séries -, o ser humano fascina e é fascinado pela ideia de perecer: tudo termina por ali mesmo, tornando-se um imenso vazio sem precedentes, ou vamos para outro espaço e tempo?

No cinema, mais propriamente no cinema de terror, a morte é um tema universal e é representada de maneiras mil. O assassino em série que possui o superpoder de continuar ressuscitando em sequências que nunca acabam; a ameaça invisível de um espírito maligno que possui uma garota cuja vida depende de um exorcismo e da crença de uma mãe cética; a claustrofobia de uma única mulher em uma nave a esmo no espaço, à espera por ser dilacerada viva por um organismo hostil e alienígena que surgiu das entranhas de um ex-companheiro de viagem. O leque de variações de como a morte é representada e executada no cinema de terror é amplo, a ponto de nos apresentar exemplos verdadeiramente aterrorizantes e outros muito risíveis – e, muitas vezes, é capaz de nos fazer tremer através do riso, esta válvula de escape para nervos em frangalhos.

1

Imagem: A24, 2018

Algo que já comentei em minha resenha sobre A bruxa, filme inclusive da mesma safra da produtora A24, o terror vem mudando um pouco sua identidade ao longo dos últimos anos. Sim, ainda temos inúmeros filmes produzidos com a intenção de assustar o público apenas com sustos na sala de cinema, mas que caem no esquecimento logo que as luzes se acendem; porém, vemos, hoje, um movimento que se preocupa mais com a tensão causada pela história contada através de imagem e de som do que se a plateia vai literalmente pular de susto em suas poltronas. Em A bruxa, a narrativa lenta e arrastada, aliada à fotografia e trilha sonora impactante, afastou muito público que buscava sangue e tripas, cenas óbvias e diálogos manjados. É uma relação interessante a do grande público com o terror, aliás: desejam filmes óbvios, mas reclamam destes; e quando têm exemplares que saem do esperado, reclamam também (até com mais veemência). Em parte, há a indústria cinematográfica, esta que moldou, ao longo das décadas, o público, a ponto de fazê-lo querer o que quer sem saber bem ao certo porque o quer; se a própria indústria continuasse apenas com essa linha de produção, minha argumentação pararia por aqui. Não é o caso, no entanto.

Exemplos como A bruxaCorra!Ao cair da noite provam basicamente duas coisas: 1) a indústria pode, sim, investir em filmes de terror que saem do óbvio e do esperado e 2) a consequência de tal decisão resulta em outra tese também provada com esses e outros exemplos: filmes de terror não são um subgênero fílmico, eles também podem criar, apresentar e provocar arte. Se O exorcista foi e ainda é um exemplo do filme que usa o terror para contar uma história demasiada humana, alguns filmes contemporâneos também possuem o cacife de aterrorizar sem apelar para o torture porn de um O albergue ou explorar um filme bem-sucedido (tanto como arte, quanto como mina de dinheiro) como Invocação do mal, a ponto de espremer a última gota do sumo com sequências sem fim e spin offs disso e daquilo, secando a fonte que deveria estar preservada. Como, enfim, juntar a concepção de morte, tão obrigatoriamente batida ao longo de anos e anos de cinema de terror, e conceitos que se afastam do óbvio para assustar, de verdade, um público?

2

Imagem: A24, 2018

Comecemos pela divulgação. Vivemos em tempos modernos, e tempos modernos significam propagação rápida de fatos e notícias, mas principalmente de mentiras. Na era das fake news, o cinema pode (e, em determinados níveis, como é o caso aqui, até deve) tomar para si a ideia de enganar seu público. E aqui vai meu primeiro cumprimento a Hereditário (Hereditary, 2018) e seu time de publicitários: se o público deseja filmes de terror óbvios, nada melhor do que divulgar o filme com um trailer falso. Não que seu conteúdo não esteja no filme, pois está; mas a montagem das peças de divulgação do longa levam o espectador a ter uma outra impressão do filme: vou assistir a um filme de terror sobre espíritos, possessão e, invariavelmente, morte. Isso é verdade? Sim. Mas não da forma que é divulgada pelos trailers.

Se você já enganou o público com a campanha de marketing e provocou um burburinho o suficiente para atrair audiência, agora é esperar pela quebra de expectativa. Claro, há um relação de causa e consequência muito esperada na estratégia de se criar um trailer com uma montagem apelativa ao grande público: ao saírem do cinema, essas pessoas vão saber que foram enganadas. E é nesse ponto que reside o divisor de águas para o diretor, o roteirista e os produtores: perco grande parte do meu público, mas conquisto aqueles que foram ao cinema não pela divulgação, e sim pela arte cinematográfica. Dentro da indústria existe o risco envolvendo um fator essencial chamado dinheiro, mas, nos últimos anos, aqui e ali vemos lançamentos que se arriscam cada vez mais, mesmo com tal agravante rondando ameaçadoramente as produções. No caso de Hereditário, houve uma junção muito favorável à realização do filme: o diretor e roteirista estreante Ari Aster e sua condução lúcida, a presença forte e extremamente profissional de Toni Collette (não apenas como atriz, mas também como produtora) e o sinal verde da produtora A24, que já colheu outros bons frutos com outras produções do gênero.

3

Imagem: A24, 2018

Com divulgação e público meio que garantidos, podemos então mergulhar em Hereditário como narrativa, alegoria e todos os outros aspectos que surgem a partir do próprio filme e sua execução. Falar sobre a história em si é um terreno perigoso para quem ainda não viu o filme, ou cenas impactantes se esvaem, mas o longa é, basicamente, um conto sobre medo. Medo não apenas no sentido geral de qualquer filme de terror, mas medos e suas infinitas extensões. A filha com medo da sociedade que a cerca, o filho com medo de não ser incluso em um grupo social, o pai com medo por não poder mais aguentar as pressões, a mãe com medo pois precisa lidar com perdas inestimáveis em um intervalo de tempo muito curto. O medo metafórico, o medo literal. O medo na urgência de uma garganta fechada pela alergia a nozes. O medo de encarar um diálogo familiar pois a atmosfera em um jantar em família é pesada demais para respirar – assim como na garganta fechada pela alergia. O medo de ver um copo se mexendo sozinho em cima de uma mesa ao constatar que existe o além e seus espíritos.

E se a protagonista, Annie (brilhantemente interpretada por Toni Collette), começa a perder o controle sobre o próprio trabalho (a confecção de miniaturas, sejam elas de casas, estruturas ou cenas do dia-a-dia), e, paralelamente, a cena que abre Hereditário quebra com a visão neutra da narrativa ao sugerir um subjetivismo partindo da própria protagonista, em algum momento também perderemos, como público, o nosso controle sobre os fatos que ali se desenrolam. Isso porque o roteiro do próprio Aster parece seguir, até determinado momento do longa, a estrutura clássica de um filme de terror, com as sequências impactantes aumentando sua intensidade aos poucos – primeiro, a decapitação da ave, depois a decapitação do humano (uma ironia, aqui, tanto imagética quanto narrativa); mas o eixo principal de Hereditary não está na intensidade que ali aumenta exponencialmente, está nos soslaios que o roteiro executa com o sobrenatural – e até com o maravilhoso. Então, ao mesmo tempo em que o público está cético com determinadas características que se apresentam em algumas cenas, logo depois a imagem nos prova que algo ali não é natural, não faz parte do real per se. Se estamos sob as rédeas de uma visão subjetiva, a narrativa não pode ser científica.

4

Imagem: A24, 2018

Há, também, aliado a essa questão, o posicionamento da câmera em diversos momentos. Na própria cena inicial já citada, o enquadramento é proposital não apenas para mostrar um local de suma importância para os momentos finais do filme, mas também para sugerir esse acúmulo de camadas: o local está dentro da visão de uma janela, e o vemos através da abertura da janela, ou seja, nosso olho vê através de um outro “olho”, ou, por extensão, nossa visão enxerga aquilo que outra visão nos quer mostrar. O girar lento da câmera e seu mergulho dentro de uma outra abertura – agora já sugerindo mais literalmente a nossa submissão ao subjetivismo – indica, de maneira bem sutil, que estamos prestes a ver um filme de terror que não cairá no estilo de câmera tremida / na mão, mas que amedronta com a lentidão e o esticamento sem fim de tomadas e, por consequência, da tensão do público.

No entanto, fotografia vai além da câmera para assustar sua audiência. O olho vermelho da janela na escuridão, a sugestão de alguém estar parado no canto de um cômodo, mas estar escuro demais para definirmos se há realmente alguém ali, a imagem estática de uma casa da árvore que se quebra com o flutuar literal e silencioso de uma pessoa. A transição do dia para a noite e da noite para o dia em cortes bruscos, o choque com a imagem de carne em decomposição sendo devorada por pequenas criaturas rastejantes em um close lento e cirúrgico, a sutil mas impactante diferença entre feições no rosto de Anne ao sair do grito silencioso para a contemplação quase apática de alguém possuído por um espírito maligno. Todas essas nuances desfilam pela tela nesse vai-e-vem entre o real e o sobrenatural, o sobrenatural e o maravilhoso, atordoando psicologicamente a plateia que não sabe se fica boquiaberta ou se ri; a estrutura clássica da tensão que aumenta está ali o tempo todo na narrativa, mas dentro dela há variações com picos impactantes que vão desestabilizando não apenas quem assiste, mas também a própria tensão geral da narrativa.

Aliado e coroando todos esses elementos anteriores, temos as atuações. O quarteto principal, composto por Toni Collette como a mãe, Annie; por Gabriel Byrne como o pai, Steve; por Alex Wolff, como o filho, Peter; e, por fim, por Milly Shapiro como a filha, Charlie, é a força-motriz de Hereditário. Com todas as nuances possíveis, Toni Collette confere à Annie alguém não só atormentada por todo um passado familiar complexo e repleto de traumas, mas também que se esvai numa loucura cada vez mais iminente; sua atuação vai desde momentos mais intensos, como na cena de discussão à mesa do jantar, até sutilezas, como quando confessa algo ao filho que talvez choque mais do que determinadas cenas mais gráficas. Gabriel Byrne, por sua vez, traz a Steve uma calma e um equilíbrio contrastante ao resto da família; lógico, em determinado ponto ele também vai quebrar emocionalmente, e é interessante observar como a cena em que isso acontece é o ponto de partida para que, dentro da narrativa do filme, as coisas comecem a degringolar de vez. E se Peter é o clássico adolescente tentando encontrar sua turma, Alex Wolff projeta em seu rosto não apenas traços blasé de qualquer jovem entediado com a existência, mas de medo e pavor que o transformam em uma verdadeira criança aterrorizada na presença de elementos sobrenaturais. Milly Shapiro, o grande achado da produção, presenteia o público em praticamente todas as cenas em que aparece com seu jeito estranho de se portar, com sua mania de emitir muxoxos audíveis (um tique que assombra em diversos níveis a história do filme) e com seu olhar vazio.

5

Imagem: A24, 2018

Além de todo o cuidado com as diversos detalhes, o design de produção trata de maneira excelente a composição dos ambientes internos com elementos importantes, como o estúdio de Annie e suas miniaturas e post-its lembrando-a de tarefas simples (uma piscadela para sua futura demência / perda de memória e, consequentemente, identidade); o quarto de Charlie e sua parede repleta de papeis e ilustrações; a escrivaninha de Peter, limpa, organizada e com cores que transmitem o equilíbrio e a seriedade do personagem; os pertences da falecida mãe de Annie, passado que serve de base para o início da narrativa e também como contato para a parte sobrenatural do longa; e, por fim, a casa na árvore, lugar banhado ora pela luz vermelho-sangue do aquecedor, ora pelo amarelo-sol no final da projeção.

E se Hereditário é uma ode ao Medo – não apenas a morte -, sua estrofe final, ou os últimos quinze minutos de filme, é o teste absoluto para o público. Gostando ou não da narrativa proposta pelo longa, é inevitável não se sentir tenso com a sequência que se inicia de maneira sutil ao mostrar um vulto branco passando pela porta do quarto de Steve e vai aumentando a intensidade conforme este caminha pela casa (em cenas cuja posição da câmera e o andar lento do personagem remetem muito a O iluminado, ainda mais com a presença da trilha sonora baseada em sintetizadores, reforçando ainda mais a sugestão entre ambos os filmes) até eclodir em uma desenfreada corrida por saídas (e que, invariavelmente, desembocam em espaços cada vez mais fechados). Os minutos finais, quebrando com todas as expectativas, vão permear por caminhos lentos e contemplativos, criando imagens arrepiantes não por aquilo que mostra, mas pelos elementos que sugerem – além da tensão gerada pelo silêncio, este que é cortado por um coro de vozes. O local da cena, como cereja do bolo, termina onde tudo começa, em uma rima visual / narrativa deliciosa.

pôster

Pôster: Gravillis Inc., 2018

Hereditary, dirigido e escrito por: Ari Aster.

Com: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd.

Padrão
Filmes

Me chame pelo seu nome

Talvez um dos sentimentos mais puros e cristalinos que um ser humano pode vivenciar é o amor verdadeiro. Apesar dessa ideia soar um tanto piegas, amar intensamente alguém pode trazer todas as sensações boas possíveis produzidas por nosso cérebro – se você pensar racionalmente -, assim como as dores imensas provenientes do coração – se lembrarmos de nosso campo sentimental. Amar, portanto, é uma via dupla recompensadora e dolorosa, calmante e destruidora. E a ideia de amar intensamente pela primeira vez é um tema inspirador de muitas obras em todas as artes, seja na música, na poesia ou, nesse caso, no cinema. Amar intensamente pela primeira vez durante um verão italiano, então, soa perigosamente clichê e, ao mesmo tempo, belo. Belo porque encanta, belo porque dói.

Ao longo de suas mais de duas horas de duração, Me chame pelo seu nome (Call me by your name, 2017) cumpre com a missão de apresentar-nos uma história leve como água mineral, e, no entanto, permeada com tormentas e quedas d’água que passam, principalmente, pela cabeça do protagonista, Elio (interpretado pelo talentoso Timothée Chalamet), em seu aprendizado de verão sobre como amar é recompensador, sobre como crescer é doloroso. Em certo momento, seu companheiro de aventuras sentimentais, Oliver (interpretado pelo também talentoso Armie Hammer), pergunta o que ele faz lá, naquela cidade pequena italiana, durante todo o verão; “leio, transcrevo minha música”, é a resposta imediata. Um projeto de verão similar às águas onde Elio costuma se banhar – calmas, paradas e, nas palavras de Oliver, também congelantes.

MV5BMTk5MTgwNDEzOF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTE0ODczMzI@._V1_SX1500_CR0,0,1500,999_AL_

Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

A água, inclusive, é um elemento utilizado de maneira inteligente pelo roteirista James Ivory e pelo diretor Luca Guadagnino. Na primeira cena de socialização de Elio e Oliver, no jogo de vôlei com os adolescentes e jovens locais, o protagonista está prestes a entregar uma garrafa de água gelada (um alívio oposto ao sol escaldante de verão, principalmente pra quem está jogando vôlei) para um dos amigos quando Oliver, sem avisar, rouba a garrafa das mãos de Elio e toma um gole. Depois, será o momento em que Elio percebe a não-volta do sentimento que passa a nutrir por Oliver, então decide levá-lo para o seu “local”, como ele mesmo o define. O microcosmo de Elio é um oásis de água das montanhas represada no meio de campos verdejantes, água essa com nascente nas montanhas próximas, como o próprio protagonista faz questão de dizer – “tem algo que você não saiba?” é o questionamento de Oliver em outra cena; Elio está saindo da adolescência, diante de um homem mais velho e, tecnicamente, mais experiente: ele precisa provar-se, afinal. Por último, no arco dramático do casal Elio e Oliver, temos a presença das águas da montanha; porém, diferentemente da pequena represa particular e calma de Elio, essas águas são agitadas, perigosas – ameaçadoras até. É a metáfora de Ivory-Guadagnino avisando Elio que tempos conturbados estão próximos, mesmo que ele não saiba ou ignore, em estado de negação.

Assim, as alterações emocionais causadas pelo amor de verão de Elio e Oliver estarão presentes em muitos detalhes de Me chame pelo seu nome, desde as nuances na linguagem corporal trabalhada por Chalamet e seu Elio inseguro, passional e, algumas vezes, infantil, até a preocupação de Oliver, este que, ao notar o amor irrefreável surgindo entre ele e Elio, por diversas vezes hesita e até impede do jovem continuar demonstrando seus sentimentos de forma física, repetindo que conhece suas próprias atitudes e que não quer decepcioná-lo. As construções dos dois personagens, dessa forma, seguem um ritmo ao mesmo tempo parecido e particular, cada um a seu estilo: Elio, de início, esnobando a presença do mais velho forasteiro e, com o tempo, deixando-se levar pela paixão irrefreável que toma conta de si; Oliver, a princípio tomando suas decisões de maneira cautelosa (cautelosa em demasia, como na cena do vôlei), e mais tarde também entregando-se ao amor. Ambos, inclusive, irão mostrar um para o outro e, ao mesmo tempo, para eles mesmos, que também podem e conseguem atrair e se relacionar com garotas, um jogo de gato e rato que acaba aumentando ainda mais a tensão sexual e amorosa entre os dois rapazes.

MV5BMTA0NjQ0MTk5MDReQTJeQWpwZ15BbWU4MDM1OTUyMTQz._V1_SX1777_CR0,0,1777,960_AL_

Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

E apesar de todo o retrato idílico que o amor de Elio e Oliver provoca ao longo do filme, a porção final, arrebatadora a seu modo, vem para nos lembrar do outro lado do amor verdadeiro: a dor. No início do filme, em uma cena muito rápida, a narrativa esbarra na citação de Heráclito sobre não podermos entrar duas vezes num mesmo rio – na segunda vez, mesmo que estejamos no mesmo rio que entramos anteriormente, suas águas já são outras, aquelas primeiras já passaram e estão há muito longe de nós; e, por consequência, nós também somos outras pessoas, também mudadas, também com outras águas fluindo em nós -, e, ao final, a metáfora da água, que começou parada, calma, passou pela água gelada, pelo suor, pelo sumo do pêssego e pelas cachoeiras revoltosas e ameaçadoras, agora transforma-se em flocos de neve, em uma paisagem homogênea e confortante – mas que não deixa de ameaçar Elio. Antes, porém, ele recebe uma das lições mais valiosas que um pai pode dar a seu filho: a natureza sempre arranja meios de atingir nossos pontos mais fracos. Em uma cena de monólogo inspirada, o pai de Elio (interpretado por Michael Stuhlbarg) emocionará não apenas o filho, mas todo o público que acompanha o longa.

MV5BNjI1NjgyOTg1M15BMl5BanBnXkFtZTgwODE0ODczMzI@._V1_SX1500_CR0,0,1500,999_AL_

Imagem: Sony Pictures Classics, 2017

Tal qual um dos epigramas gregos mais verdadeiros à arte, “a beleza é dura, é cruel, é chocante”, tópico inclusive discutido entre o pai de Elio e Oliver enquanto contemplam slides de esculturas gregas e sua imitação perfeita da estética do corpo humano, Call me by your name é uma alegoria bela e cruel a seu modo. Assim como Oliver entra nas águas calmas e congelantes de Elio, em um batizado pagão e sem volta; assim como Elio penetra o pêssego buscando uma água mais doce e arrepende-se imediatamente de seu ato “impuro”; assim como nenhum dos dois permanecem os mesmos após um misturar-se à água do outro – inclusive misturando seus próprios nomes -, o público também não é o mesmo ao contemplar a cena final de Me chame pelo seu nome. Fria como a neve lá fora, indiferente como as chamas que crepitam diante do rosto belo e chocante de Elio, a arte da obra de Luca Guadagnino flui em nós, doce como um pêssego vibrante ao sol de verão, amarga como uma despedida sem volta.

call-me-by-your-name-poster

Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Call me by your name, dirigido por Luca Guadagnino, escrito por James Ivory (baseado no livro Me chame pelo seu nome, de André Aciman).

Com: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Vanda Capriolo, André Aciman.

Padrão
Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2017

É hora de dizer mais uma vez: ano novo, lista nova.

Como já é tradição aqui no blog, está na hora de colocar as cartas na mesa e escolher os dez filmes que mais me agradaram ao longo do ano passado. Tentei prezar diversos gêneros e, consequentemente, várias temáticas. No final da lista você encontrará um filme bônus (oficialmente ele ainda não estreou no Brasil).

Listas de anos anteriores: 2016, 2015, 2014

10º

Mulher-maravilha (Wonder woman)

2017, dirigido por: Patty Jenkins

10_2

Pôster: B O N D, 2017

Um dos filmes mais elogiados de 2017, Mulher-maravilha soube escapar muito bem do estigma de ser “apenas mais um filme de super-herói”. Patty Jenkins e sua direção com um olhar cuidadoso para a imagem de representatividade da mulher dentro do universo proposto pela personagem da DC Comics fez do filme não apenas um manifesto, mas uma peça de entretenimento puro e muito válida, mostrando ao público todo um universo e construção de personagem que não perde para nenhum outro filme baseado em histórias em quadrinhos. A cereja do bolo, é claro, é a atuação plena de Gal Gadot.

Star Wars: os últimos jedi (Star Wars: the last jedi)

2017, dirigido por: Rian Johnson

9_2

Pôster: LA, 2017

Esqueça a zona de conforto de J. J. Abrams e seu Episódio VII. Não que este seja ruim, mas Rian Johnson definitivamente deixou sua marca na saga Star Wars. Ousado, diferente e, ao mesmo tempo, resgatando os tão bem-vindos alívios cômicos da trilogia clássica, Os últimos jedi não apenas estabelece de vez a nova geração de Star Wars para as novas gerações dentro do público, como também deixa seu legado para o cânone criado por George Lucas. Não dê atenção para pessoas babacas e seus abaixo-assinados irrelevantes, The last jedi é filmaço de primeira categoria e diversão garantida.

Leia a resenha do filme aqui.

Corra! (Get out!)

2017, dirigido por: Jordan Peele

8_2

Pôster: LA, 2017

Não espere que você saiba o que está acontecendo dentro desse filme. Corra! é imprevisível do início ao fim. E o roteiro vai jogar com você o tempo todo, subvertendo inclusive suas próprias obviedades. É um suspense? Sim. É um terror? Sim. É comédia? Doentia, mas sim. Para conferir Get out!, é bom estar com o estômago em dia, pois a atualidade dele vai dar uns belos socos no seu.

Leia a resenha do filme aqui.

Animais noturnos (Nocturnal animals)

2016, dirigido por: Tom Ford

7_2

Pôster: B O N D, 2016

Animais noturnos não possui uma história complexa, muito menos efeitos especiais mirabolantes. Seu foco são seus personagens e como esses lidam com seus próprios sentimentos. A história dentro da história só complementa a força gerada por ressentimentos, ódio e, claro, vingança. Espere por composições de imagens estéticas e atuações primorosas de Amy Adams e Jake Gyllenhaal.

Leia a resenha do filme aqui.

Ao cair da noite (It comes at night)

2017, dirigido por: Trey Edward Shults

6_2

Pôster: InSync Plus, 2017

Dentro de uma onda de filmes de terror cada vez mais autorais e que fogem do estereótipo de que terror equivale a um filme ruim, com personagens rasos e histórias mais finas ainda, Ao cair da noite não é um exemplo que irá deixar você satisfeito. Em nenhum momento ele entrega o que o público quer ou precisa ver. Seu suspense é baseado justamente naquilo que tememos por não sermos capazes de vê-lo. Angustiantes, claustrofóbico e visceral.

Dunkirk (Dunkirk)

2017, dirigido por: Christopher Nolan

5_2

Pôster: WORKS ADV, 2017

Para quem estava acostumado com um Christopher Nolan entregando filmes do Batman com roteiros complexos e desenvolvimento profundo de personagens, ou mesmo filmes com conceitos complexos como A origem (Inception, 2010), Dunkirk pode parecer um longa incompleto, sem nexo. Mas não se engane: o protagonista aqui é a própria guerra enfrentada pelos personagens. Dunkirk é cinema puro: no som e na imagem. O ideal é assisti-lo com uma tela e sistema de sons à altura, para que a experiência seja completa e você se sinta, mesmo que por menos de duas horas, dentro de uma guerra. Terrível.

Leia a resenha do filme aqui.

O filme da minha vida

2017, dirigido por: Selton Mello

4

Pôster: Vitrine Filmes, 2017

Está na hora de você parar com essa bobagem de que filme nacional é uma porcaria. Claro que muitos filmes produzidos no nosso país nem merecem ser chamados de “filmes”, tamanha acefalia nos vários exemplos que vemos por aí. O filme da minha vida, porém, vem para tirar de vez essa impressão e, consequentemente, injustiça que praticamos contra o cinema pensado e produzido aqui. Seguindo a imensa qualidade de seu longa anterior, O palhaço (2011), o ator Selton Mello dirige aqui um regionalismo com maestria e serenidade. Destaque para a belíssima fotografia que evoca, em seu tom sépia, uma nostalgia doce, mas, ao mesmo tempo, dolorosa.

A chegada (Arrival)

2016, dirigido por: Denis Villeneuve

3_2

Pôster: Empire Design, 2016

Aparentemente o canadense Denis Villeneuve não consegue fazer um filme ruim. Aqui, o diretor nos apresenta o que poderia ser mais um filme de invasão alienígena, não fosse pelo fato de A chegada não colocar a invasão em si em primeiro lugar; o foco, aqui, é a linguagem: como vamos nos comunicar com esses seres? E como é a linguagem deles? Todos os segredos e enigmas do filme giram em torno da linguagem. Obra-prima, incluindo sua trilha-sonora arrepiante.

Leia a resenha do filme aqui.

It: a coisa (It)

2017, dirigido por: Andy Muschietti

2_2

Pôster: cold open, 2017

A produção de It remonta ao início da década. Mudança de diretores, roteiristas e por aí vai. O que parecia impossível acontecer devido às circunstâncias foi, talvez, a principal supresa positiva dentro do cinema blockbuster de 2017. Baseado em uma das consideradas obras-primas de Stephen King, It: a coisa é uma homenagem não apenas aos grandes monstros e fantasmas das histórias de terror, mas à infância em si. Equilibrando muito bem as doses de sustos e horror com os risos (voluntários ou não), It com toda a certeza foi a melhor opção de entretenimento no ano que passou. Finalmente valeu a pena esperar anos e anos por um filme sair do papel. Estamos ansiosos desde já para o próximo capítulo da história, previsto para 2019.

Leia a resenha do filme aqui.

E aqui há a resenha para o livro de Stephen King.

Moonlight: sob a luz do luar (Moonlight)

2016, dirigido por: Barry Jenkins

1_2

Pôster: InSync Plus, 2016

Poético como versos doces ou música inspirada, arrebatador como um soco no rosto. Moonlight não apenas mereceu seu Oscar de Melhor Filme em 2017, era uma obrigação premiá-lo por sua coragem, sua narrativa fílmica exemplar e sua temática mais do que necessária. A discussão aqui não é apenas em relação aos LGBTs, mas também em relação aos negros e como eles – ainda, infelizmente – estão relegados às margens de nossa sociedade. Não espere por finais felizes.

Cena pós-créditos

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

_2

Pôster: Sony Pictures Classics, 2017

Sensação do final do ano, Me chame pelo seu nome está arrebatando críticos por todos os festivais em que passa. Queridinho das premiações agora no começo de 2018, o longa realmente não decepciona, seja por seu retrato fidedigno de um verão europeu rodeado por estudiosos, piscinas, praias e pêssegos saboreados de diversas formas, seja pela atuação monstra de Timothée Chalamet ao lado de Armie Hammer. Destaque também para as composições originais de Sufjan Stevens que permeiam o filme e ditam ainda mais o clima de primeiro-amor.

Padrão
Filmes

Star Wars: os últimos jedi

Se você prestar bastante atenção, Os últimos jedi (Star Wars: the last jedi, 2017) possui uma tríade de personagens que representam muito bem seus vários tipos de fãs. Tem-se, ali, Luke Skywalker (interpretado por Mark Hamill), o que é análogo aos fãs mais exigentes – poderia chamá-los de babacas, em muitos casos, mas vamos imaginar que vivemos em um mundo ideal; tem-se, também, a heroína Rey (interpretada por Daisy Ridley), representante do fã empolgado, aquele que precisa, mais do que tudo, ver o que acontecerá caso o fã exigente concorde com suas propostas; e, por último, tem-se Kylo Ren (interpretado por Adam Driver), o fã que já cansou de todo o bê-a-bá dos filmes mais antigos e precisa urgentemente recomeçar com ares novos uma franquia que já dura assustadores 40 anos.

A sorte de Os últimos jedi foi ter caído nas mãos de Rian Johnson. Diretor de poucos filmes (apenas um despontou mais no meio hollywoodiano – Looper: assassinos do futuro) e, entre outros, do episódio que talvez gerou mais polêmica dentro da série Breaking bad (“Fly” – isso mesmo, o famigerado episódio da mosca), Johnson permaneceu com uma bomba-relógio em suas mãos por pelo menos dois anos desde a estreia bem sucedida de O despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), pois, além de dar continuidade a uma das sagas com mais fãs em sua base, o diretor precisava trazer ares novos, assim como Kylo Rey deseja, mais do que tudo, dentro desse Episódio VIII. E digo que o filme teve sorte ao cair nas mãos de Rian Johnson porque, sim, Os últimos jedi é um filme muito interessante, diga-se de passagem. E o que o torna mais interessante talvez seja a ousadia pontuada de Johnson (que também escreveu o roteiro); pontuada pois o oitavo episódio de Star Wars não é um filme com mudanças espetaculares de roteiro ou cheio de ameaças ao cânone de George Lucas: Johnson sabe em que terreno está pisando e vai adicionar elementos aqui e ali que mudam o tom dentro dessa nova trilogia, mas talvez sem que o público, no geral, perceba. A saber.

1

Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Apesar de presente também no filme anterior, o alívio cômico é mais endossado nesse. É um detalhe que pode não pesar muito na balança final de “coisas que prejudicaram ou ajudaram o novo Star Wars”, se você pensar com cuidado, mas não esqueçamos de seu princípio básico: a diversão. Ora, ainda estamos falando de um filme, em sua, de aventura. Envolve aspectos de sci-fi, obviamente, mas Star Wars não deve ser desclassificado como um bom e velho filme-pipoca. É claro que toda a proporção alcançada pela saga eclipsou essa característica tão esquecida nos filmes do gênero atuais. Lembro-me, inclusive, que o último mais agradável nesse sentido, a ponto de dar um fôlego mais do que bem-vindo à filmografia de Steven Spielberg foi em 2011, com Tintim. É um filme que abraça os conceitos do filme-aventura e cria sequências de ação de encher os olhos e, ao mesmo tempo, não deixa de lado a comicidade das situações ali presentes. Há momentos, em Os últimos jedi, que um determinado comentário, um certo trejeito em um personagem ou até mesmo humor físico são empregados para que a plateia se divirta. E isso não é um crime à nossa inteligência.

Se em O despertar da força não poderia faltar os flares característicos de J. J. Abrams dentro de sua fotografia, Os últimos jedi traz rimas visuais esteticamente muito bonitas. Mas não para apenas na estética, Rian Johnson e o diretor de fotografia Steve Yedlin (parceiro de Johnson em outros dois longas do diretor e também responsável pela fotografia da adaptação mais recente de Carrie: a estranha, 2013) empregam significados muito particulares em cada rima ou sobreplano. E o mais interessante: não são significados impossíveis ou “cults” demais para o grande público não entender; são casos como quando Rey encontra-se contra a câmera, sua silhueta recortada pelo cenário que a envolve, para, logo depois do corte, vermos Kylo Ren na mesma posição de câmera, quase que “substituindo” a personagem anterior, num contraste bonito esteticamente falando e, ao mesmo tempo, com grande significado para a história ali contada. Johnson também retoma elementos clássicos do cinema, como uma cena de grande tempestade quando as personagens presentes encontram-se em um embate, ou uma fotografia bem avermelhada para introduzir o vilão do filme.

2

Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Comentei ali em cima um pouco da característica aventuresca do filme a partir do humor e dos alívios cômicos. Mas The last jedi vai além do humor nesse sentido. Há grandes sequências de ação para agradar os fãs, sejam os mais exigentes ou os presentes apenas pela diversão; em destaque: a sequência inicial com o piloto Poe Dameron (interpretado por Oscar Isaac) e seu fiel amigo de lata BB-8 e a debandada protagonizada por Finn (interpretado por John Boyega) e uma das novas personagens Rose (interpretada por Kelly Marie Tran). Ambas as cenas mostram o poder de entretenimento que Star Wars ainda pode produzir com suas novas histórias, mas, além disso, provam que Johnson é um diretor ciente de seu público diversificado a partir da introdução da saga com The force awakens: é preciso mostrar o que o público mais antigo e conservador quer ver e, ao mesmo tempo, introduzir elementos novos ou esquecidos para que o público novo e “transgressor” saia da sessão satisfeito. Não é um equilíbrio fácil de se encontrar e, quando encontrado, acertá-lo de maneira interessante; mas, ao aliar tais elementos de aventura e, além disso, introduzir aos poucos novas personagens – além de Rose, temos agora a presença da Vice-Almirante Holdo (interpretada por Laura Dern, fazendo os corações dos fãs de Jurassic Park suspirarem) -, Rian Johnson consegue entregar um episódio que sustenta a responsabilidade de toda a exigência de diversas gerações de público.

Aos poucos, a Disney começa a realizar aquilo que o “fã-Kylo-Ren” deseja: o que ficou no passado, é pra deixar lá. Com respeito, é claro, mas ainda assim é melhor deixar no passado. Não é à toa seu grande investimento em histórias paralelas que preencham lacunas no universo Star Wars, trazendo diretores com um pegada um pouco mais indie em Rogue One, por exemplo, e seguindo a tática de entregar o primeiro episódio da nova trilogia (a introdução para novas gerações de fãs e, consequentemente, novos consumidores de Star Wars) para mãos mais seguras, passar o bastão para um diretor mais “ousado”, em termos, no episódio de transição e, lá no final da trilogia, voltar para o colo mais seguro. É um projeto de saga bem seguro, devemos admitir. Por enquanto, tudo corre dentro do esperado; mesmo para um episódio de transição, o que mais pode gerar problemas por não conter, em tese, nem o começo nem o final da história (é só lembrarmos de grandes exemplos, como As duas torres, 2002, e O baú da morte, 2005, além de outros episódios de transição fora de trilogias, como Harry Potter e o enigma do príncipe, 2009), Os últimos jedi agrada por não carregar o peso de ser uma transição, é um filme que não faz questão de vestir tal designação e, justamente por isso, funciona muito bem.

3

Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Em 2015, eu escrevi que restava saber se, para os próximos filmes, a Disney iria além da introdução de novos personagens. Parece que a Força ainda está com todos nós.

5

Pôster: B O N D, 2017

Star Wars: the last jedi, escrito e dirigido por: Rian Johnson.

Com: Carrie Fisher, Mark Hamill, Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Joonas Suotamo

Padrão