Listas, Música

Os melhores discos de 2018

Nem só de brigas por política, memes e tristezas vive o brasileiro. O último mês do ano, além de sua parada obrigatória no especial de final de ano do Roberto Carlos e da retrospectiva na Globo que existe para nos deprimir, é o momento ideal para fazer aquelas listinhas preciosas de melhores alguma coisa.

Podemos dizer que 2018 foi um ano interessante para os lançamentos musicais, e a lista que você vai conferir daqui a pouco foi uma tentativa de percorrer por diversos gêneros musicais, sem deixar de ouvir um bom indie ou pop, os estilos que mais me agradam.

Como toda edição, nesse link você pode conferir os melhores discos do ano passado.

Deixe seus preconceitos de lado e confira agora os doze melhores álbuns deste ano, na minha singela opinião.

“Dancing queen”, por Cher

cher

Tentar apresentar Cher em poucas linhas é uma tarefa impossível e até inapropriada. A longeva carreira e as inúmeras atuações no entretenimento, que transpõem o mundo musical, fazem de Cher não apenas uma grande artista, mas principalmente um ícone consolidado do mundo pop. Para alegria geral dos fãs de outro ícone pop, a banda sueca ABBA, Cher decidiu ir além de sua participação no filme Mamma mia! Lá vamos nós de novo (Mamma mia! Here we go again, 2018) e lançou um álbum de estúdio com covers de algumas músicas daqueles que nos trouxeram inúmeros hits nos anos 70 e 80. Com uma roupagem atual, mas sem perder a essência abbesca, as versões cantadas por Cher podem soar estranhas em um primeiro momento, principalmente para aqueles acostumados com as originais por tanto tempo – isso devido ao fato do ABBA raramente liberar suas canções para que outros as utilizem como samples ou mesmo como covers -, mas, em uma segunda audição, dificilmente Dancing queen irá desagradar. De versões mais próximas das originais como a faixa-título (dificilmente um cover muito peculiar de “Dancing queen” soaria bom) até outras com toques mais particulares de Cher, como “Waterloo” e sua batida forte, com um apelo muito mais dançante, ou “Chiquitita” e seu ar flamenco, Dancing queen é fácil um dos melhores álbuns lançados esse ano, ainda mais para quem gosta de um bom e velho pop para não botar defeito.

» “SOS

“Chris”, por Christine and the Queens

christine and the queens

Esteja preparado para Christine and the Queens. A francesa é um ótimo exemplo para rebater aqueles que dizem que o alternativo não inova mais. Com sua voz forte, seus arranjos eletrônicos e as letras cheias de uma crueza e causticidade muito peculiares, o álbum – lançado em duas versões, uma no original francês e outra para o mercado internacional, em inglês – lembra muito a sonoridade de algumas cantoras brasileiras dos anos 80 e 90, como Deborah Blando e Marina Lima. Além disso, suas músicas trazem um tom de melancolia que se confunde com as batidas e sintetizadores espalhados ao longo das onze faixas. Não há como passar batido pelo niilismo e flertes com o suicídio em “Doesn’t matter” ou pelo feminismo cru e direto em “Damn (what must a womann do)”. E não para por aí: Christine and the Queens ainda desconstrói a obra do pintor Goya em “Goya Soda” e critica de leve a liquidez dos relacionamentos atuais com “What’s-her-face”.

» “Doesn’t matter

“Happy xmas”, por Eric Clapton

eric clapton

Assim como Cher dispensa preâmbulos para o mundo pop, Eric Clapton também o faz quando falamos sobre blues. O guitarrista coleciona invejáveis números ao longo de sua extensa carreira, mas o que parecia uma ideia completamente deslocada para a imagem que representa no imaginário coletivo acabou acontecendo agora em 2018: um disco de Natal. É comum, principalmente para os mercados fonográficos americano e europeu, artistas lançarem um álbum temático no período de fim de ano, especialmente quando se fala sobre Natal. Na maioria das vezes com intenções puramente mercadológicas, um álbum de Natal, no geral, costuma ter reações extremas por parte do público: ou faz muito sucesso, ou se torna um fracasso completo. Tratando-se de Eric Clapton, a estranheza de se estar prestes a ouvir um álbum natalino do Eric Clapton se esvai em questão de segundos logo nos primeiros acordes da primeira faixa, “White Christmas”. O artista não decepciona seus fãs de longa data, assim como os novos ouvintes. Num misto de regravações de tradicionais músicas natalinas e composições próprias para o álbum, Clapton faz de Happy xmas um agradável, surpreendente e delicioso álbum de blues natalino. Destaque também para sua versão de “Silent night”: um misto de música gospel, blues e mais outros elementos que a tornam uma “Noite feliz” como nunca antes ouvida.

» “Home for the holidays

“God’s favorite costumer”, por Father John Misty

father john misty

Josh Tillman já passou por algumas bandas, inclusive pelos Fleet Foxes. Mas, de uns anos para cá, parece que o moniker Father John Misty lhe caiu bem. E é o que o seu trabalho mais recente, God’s favorite costumer sugere através das belas composições. Evocando um Elton John de início de carreira, com mistos de artista solitário tocando em um pub, Tillman traz, com suas letras, um humor que pende entre o autoparódico e o amargurado, falando sobre encontros, poemas e a tarefa de um compositor. God’s favorite costumer sugere sua melancolia e contemplação ao nada desde a capa, inclusive, mostrando um Father John Misty à la David Bowie, banhado em cores que tornam sua tristeza ainda mais proeminente. Caso você esteja procurando um artista novo para ouvir, eis sua chance.

» “Date night

“Man of the woods”, por Justin Timberlake

justin timberlake

Nascido em uma carreira de menino prodígio dentro da TV, transposto para uma boyband e catapultado para o sucesso de uma carreira solo, é inegável o talento de Justin Timberlake. Aventurando-se no cinema também como ator, o cantor nunca deixou de lado sua veia musical, que é forte. A aclamação da crítica chegou em seu álbum de estúdio de 2006, FutureSex/LoveSounds, permaneceu com The 20/20 experience, de 2013 e, agora, alça mais voos com o indiscutivelmente ótimo Man of the woods. Trabalhando com colaboradores de longa data como Timbaland, Danja e The Neptunes (especialmente  Pharrell Williams), o som desse novo trabalho é um jam interminável, com músicas que aumentam o ritmo do álbum em um crescendo aparentemente sem fim, chegando a um ápice quase transcendental. Do início cheio de volúpia com “Filthy” e os interlúdios que referenciam a temática permeada no título e no conceito de mundo selvagem e como fazer parte dele, Man of the woods é, ao mesmo tempo, uma originalidade exercitada pelo já estilo consagrado de Timberlake e sua reverência a mestres como Michael Jackson.

» “Filthy

“Golden”, por Kylie Minogue

kylie minogue

Se Madonna é a Rainha do Pop e Britney Spears a Princesa, em que patamar colocamos Kylie Minogue? A resposta mais tranquila e direta é: em nenhum. Minogue não é uma artista que se mistura à gentalha, como diria Dona Florinda, mas, aqui, é num bom sentido. Isso porque sua elegância e bom gosto em todos os elementos que relaciona com sua música a impedem de estar no patamar do pop farofa das demais cantoras e divas pop. Não me entenda mal, o pop farofa também é preciso. Mas Kylie Minogue compõe o pop às vezes chiclete, às vezes europeu demais para bombar no rádio ou torná-la a cantora mais conhecida de todos os tempos. No fundo, Kylie Minogue não precisa disso. Sua carreira, mais consolidada do que nunca agora com o lançamento de Golden, prova que, para fazer sucesso, não é preciso apelar. Golden, aliás, é a incursão da cantora em terras até então não visitadas, como a música country e a influência do som de Nashville, cidade americana que influenciou a temática e as letras do álbum, sem contar os arranjos. Assim, apesar de soar estranho em um primeiro momento, logo os ouvidos se acostumam com os banjos, violinos e violões de todos os tipos ao longo das músicas. É claro que há os singles prontos, como em qualquer outro disco de Kylie Minogue; aqui, no caso, falo do carro-chefe “Dancing”, da ótima “Stop me from falling” e da poderosa “Live a little”. Mas existe espaço para incursões mais profundas no country propriamente dito, como “A lifetime to repair” e um pop mais etéreo como em “Lost without you”. Mais uma vez, a australiana acerta a mão.

» “Dancing

“When the night calls”, por Mt. Desolation

mt desolation

O projeto paralelo do ex-Keane Tim Rice-Oxley que teve início em 2010 mudou. Se há oito anos a intenção era formar uma banda de country-folk alternativo a partir de integrantes de várias outras bandas, agora a composição ficou mais enxuta. Resumida basicamente nos dois integrantes principais do começo, o próprio Tim e Jesse Quin, Mt. Desolation demorou longos e arrastados oito anos para lançar seu segundo álbum de estúdio. Entre o primeiro e esse atual, nada relativo à banda pareceu surgir na internet. Após o fim do Keane, aparentemente Tim e Jesse decidiram trabalhar novamente no projeto e When the night calls foi parido. Para os fãs, a espera compensou. Apesar de não ter a mesma bad vibe do álbum de estreia, o novo trabalho não deixa a desejar nesse aspecto: faixas como “By the river” e “Valentine” provam que Mt. Desolation existe ainda para falar das tristezas da vida. Mas o lado oposto também aparece – e mais nesse disco – para dar uma animada, com músicas como “Someday, somehow” e, podemos até ousar chamá-la assim, a dançante “How to fly”. Se country alternativo era um gênero que você jamais achou que existia, está na hora de dar uma olhada em Mt. Desolation.

» “On your way

“Simulation theory”, por Muse

muse

Se em 2009 o álbum The resistance apareceu para tornar Muse mainstream de uma maneira sem volta, talvez The 2nd law, o trabalho seguinte, de 2012, deixou mais claro que a banda agora era, de vez, mais uma que lotaria estádios para shows pirotécnicos e catarses sem fim. O misto de cordas e eletrônico sempre esteve presente em sua discografia, mas em Simulation theory, seu novo trabalho, tudo atinge um outro patamar. Isso porque, na parte eletrônica, a banda decidiu tirar todos os sintetizadores do baú e colocá-los para brilhar na maior parte do álbum. Assim, ao ouvir o novo disco, facilmente é possível fazer ligações com trilhas-sonoras que abusam do recurso oitentista, como a do filme Tron: o legado (Tron legacy, 2010) e da série Stranger things, da Netflix. No geral, não é algo que incomoda, apesar de soar um apelo mais comercial do que conceitual. De qualquer maneira, não é um álbum descartável, com uma abertura já apoteótica com “Algorithm” e, logo na sequência, a arrasa-quarteirões “The dark side”. Há um flerte com um Daft Punk da era Human after all em “Propaganda” e de Discovery em “Blockades” – esta, inclusive, lembra muito as músicas do Muse em The resistance – além de uma quase-balada em “Something Human”. No geral, por tomarem um caminho mais fechado com o estilo anos 80, talvez Simulation theory não resista ao tempo. A conferir.

» “Algorithm

“Egypt station”, por Paul McCartney

paul mccartney

Talvez Egypt Station seja um 8 ou 80 para os fãs do ex-beatle. Isso porque, além de Paul McCartney permitir influências de produtores atuais na maioria das faixas – algo preocupante para fãs de longa data, no sentido de a “originalidade” de Paul não ficar tanto em evidência -, Egypt station é um álbum conceitual. Não à toa, a faixa de abertura é um prólogo de poucos segundos apenas com sons reais de uma estação de trem. Ou seja, conceitualmente Paul McCartney vai nos levar para uma viagem de trem, passando por diversas estações – e cada música seguinte representa uma delas. De início, “I don’t know” já mostra um McCartney a todo vapor, numa balada formada por voz e piano, para logo depois pararmos na estação “Come on to me”, um pop-rock chiclete, com direito a riffs viciantes e uma batida ritmada que dificilmente vai sair da cabeça depois de uma primeira audição. As duas músicas, inclusive, foram escolhidas para formarem o primeiro single do disco. Há, também, incursões mais, digamos, diferentonas para a carreira de Paul McCartney, como nas faixas “Who cares” e “Fuh you” – esta provavelmente vai enfurecer alguns fãs, já que possui um letra bastante rasa, muito incomum na carreira solo do ex-beatle. Inclusive há uma parada no Brasil com “Back in Brazil”. É cheia de clichês musicais na visão do gringo que olha nosso país lá de fora? Sim. Mas dá para perdoar por ser Paul McCartney? Claro.

» “Back in Brazil

“Young romance”, por Roosevelt

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Se você é alguém que gosta de um pop alternativo, com elementos eletrônicos e uma camada de sons etéreos, está perdendo tempo se não ouviu Roosevelt ainda. O alemão (mas que canta em inglês) surgiu mais proeminentemente em 2016 com suas estreia homônima, um álbum irretocável. Agora, dois anos depois, o cantor nos brinda com mais uma joia rara da atualidade com Young romance. Os elementos eletrônicos continuam no centro das atenções aqui, mas, assim como o próprio trabalho com as imagens de capa e videoclipes sugere, Young romance é um álbum muito mais ensolarado que o Roosevelt. Do introspectivo para o expansivo, Roosevelt não decepciona. Expande seus horizontes, na verdade, ao trazer camadas mais alegres com “Under the sun” e a ótima “Losing touch” – impossível ao menos não batucar os pés com esta última. Ainda há, porém, espaço para a contemplação mais amena, como em “Yr love” e “Getaway”. Espere também por ouvir metais inspirados como no final de “Shadows” e uma bateria forte em “Illusions”, como o artista já fazia lá no seu primeiro álbum.

» “Losing touch

“Brasileiro”, por Silva

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Aparentemente os dias de synth pop alternativo do nacional Silva acabaram. O cantor, que começou de maneira literalmente tímida no cenário musical brasileiro, alçou voos cada vez maiores, saindo do introspectivo Claridão, de 2012, para o mais conceitual e alegre Vista pro mar, de 2014. Em 2015, tornou o simples uma virtude com o econômico em arranjos Júpiter. Parou um tempo para se dedicar ao projeto de covers Silva canta Marisa, o que já demonstrava sua inclinação para caminhos de MPB. E por ali ficou. A prova física é seu novo álbum, Brasileiro. Do nome e da capa às músicas, com suas letras que voltam a atenção para o nosso Brasil e arranjos que gritam Caetano, Gal, Bethânia e Chico Buarque, Brasileiro parece ser uma marca para um artista em constante ebulição. A diferença, agora, é que muito provavelmente não teremos mais um Silva mergulhado nos sintetizadores da era Claridão, já que o nome da primeira faixa indica que “Nada será mais como era antes”. Se isso é algo bom ou ruim, só o tempo dirá. Por enquanto, dá para aproveitar a beleza sem medidas de músicas como “Prova dos nove”, “Milhões de vozes” (esta em parceria com Arnaldo Antunes na composição) e “Guerra de amor”. O misto do Silva de Vista pro mar com o de Brasileiro surge no principal single do disco, “A cor é rosa”. Há, ainda, surpresas instrumentais com “Sapucaia” e “Palmeira”.

» “A cor é rosa

“Bloom”, por Troye Sivan

troye sivan

Assim como qualquer artista pop talentoso, Troye Sivan libertou-se das amarras do álbum de estreia. E como todos questionam o artista que faz sucesso logo no primeiro trabalho se este vai manter o sucesso com o segundo disco, esperava-se muito daquele que, muito novo, alçou patamares grandes em um mercado musical competitivo com Blue Neighbourhood, em 2015. A resposta veio em um álbum pop curto, de pouco mais de meia hora, mas que encara com perfeição a máxima de que menos é mais. Conciso, direto, irretocável. Bloom é uma libertação não apenas pessoal e íntima de Sivan, buscando letras autobiográficas que permeiam sua sexualidade e como ela afeta os arredores de sua vivência, mas seu crescimento como artista, seja seu lado cantor, seja seu lado compositor. O disco é um misto de dedicações, seja ao amor, seja ao sexo, seja ao desapego, seja à tristeza. Aliado a produtores tão talentosos quanto ele, como Ariel Rechtshaid (que produziu para HAIM, Kylie Minogue, Brandon Flowers e Adele), Troye Sivan entrega um segundo trabalho honesto, assumindo o pop como vestimenta perfeita para aquilo que ele deseja falar.

» “My my my!

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