Filmes, Listas

Os melhores filmes de 2018

10º

Jogador Nº 1 (Ready Player One)

2018, dirigido por: Steven Spielberg

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Pôster: BO N D, 2018

Provavelmente não é o melhor filme do diretor que nos trouxe de volta dinossauros adormecidos há 65 milhões de anos ou conferiu camadas de realismo e comédia ao detetive mais topetudo – literalmente – que a Bélgica já inventou, mas se sua intenção é assistir a um filme blockbuster repleto de cenas de ação, inventividade e inúmeras referências aos anos 80 (contando com uma sequência primorosa que recria um dos clássicos de Stanley Kubrick), talvez Jogador Nº 1 seja sua opção mais segura para este ano. O filme vai sobreviver às décadas que virão e vai se tornar um clássico? Com o currículo de Steven Spielberg, muito possivelmente não, mas vale pela diversão e pelas risadas.

Halloween (Halloween)

2018, dirigido por: David Gordon Green

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Pôster: LA, 2018

Não fosse pelas inúmeras sequências e remakes já realizados, eu poderia aqui dizer que seria arriscado continuar a história de um já clássico cult dos filmes de terror. No entanto, o Halloween de 40 anos depois de seu original soa fresco, revigorante e – o mais importante aqui – assustador. Não assustador a ponto de deixar o espectador sem dormir durante uma semana, é claro, mas a tensão gerada por suas sequências de perseguição e o uso de steadycam não só lembram a criação de John Carpenter, como também apresenta às novas gerações o que um bom filme de serial killer pode mostrar de verdade. E diferentemente das sequências e refilmagens realizadas nas décadas passadas, este Halloween conta com a segurança de nada menos que sua própria scream queen Jamie Lee Curtis na produção, além do patrono John Carpenter. Arrepie-se mais uma vez com a famigerada trilha sonora clássica e o andar lento de Michael Myers

Bohemian Rhapsody (Bohemian Rhapsody)

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Pôster: WORKS ADV, 2018

2018, dirigido por: Bryan Singer

Bohemian Rhapsody pode se encaixar em vários gêneros fílmicos, pois vai desde uma biografia até o filme-pipoca. Emocionante, divertido e, em alguns momentos, também engraçado, a trajetória da banda Queen aqui retratada pode não se ater completamente aos fatos reais, mas faz uso dessa “licença poética” para aprimorar a dramatização do que foi a vida de Freddie Mercury, Roger Taylor, Brian May e John Deacon. Repleto de músicas da banda mais diversa do rock de todos os tempos, o filme ainda ousa – e consegue – recriar a antológica apresentação no Live Aid de maneira impecável. Era necessário? Não. Funcionou plenamente para a catarse do filme? Com toda a certeza.

Leia a resenha do filme aqui.

Missão: impossível – Efeito Fallout  (Mission: impossible – Fallout)

2018, dirigido por: Christopher McQuarrie

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Pôster: LA, 2018

Ser uma franquia de ação em plena atividade desde a metade dos anos 90 e continuar gerando milhões e milhões de bilheteria não é um feito a ser ignorado. Mesmo para aqueles que não são amantes dos filmes de ação praticamente sem roteiro e com direito a muitas explosões sem sentido (cof, cof, Michael Bay), Missão: impossível é irresistível. Apesar de alguns tropeços terem ocorrido, como no sofrível segundo capítulo, a série de filmes parece ter ganhado um novo e revigorado fôlego nas mãos de Christopher McQuarrie, responsável pelos roteiros e direção deste e do filme anterior. Claro, não seria possível encontrar-se no patamar atual se não fosse pelo sensacional Protocolo fantasma, de 2011, dirigido por Brad Bird, é bom lembrar. Porém, é em Efeito Fallout que talvez a série Missão: impossível atinge seu ápice. Não abandonando a fórmula de misturar ação, toques de humor e sequências de tirar o fôlego, o vigor do filme só se compara à entrega completa que seu protagonista veterano, Tom Cruise, faz do início ao fim.

A forma da água (The shape of water)

2017, dirigido por: Guillermo del Toro

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Pôster: MIDNIGHT OIL, 2017

Muita gente torceu o nariz para a última produção de Guillermo del Toro, talvez porque ela tenha sido ovacionada em praticamente todas as competições e premiações pelas quais passou. Seu apogeu, é claro, foi a consagração com os Oscar, principalmente, de Melhor Direção e Melhor Filme. Apesar de ter competido com o ótimo Três anúncios para um crimeA forma da água ser reconhecido como Melhor Filme pela Academia não foi um erro, a meu ver. Além de sua homenagem direta e indireta para a sétima arte, o filme do mexicano presta seu respeito também para as minorias. De maneira sutil e artística, A forma da água é uma ode aos desajustados. Ao apresentar uma mulher como protagonista, cuja melhor amiga é negra e o melhor amigo é gay, e que enfrenta um vilão homem, heterossexual e branco, os subtextos da história não podem e não devem ser ignorados. Isso tudo sem contar a extrema beleza – no sentido estético mesmo – com que nossos olhos são brindados com sua fotografia, seu design de produção e também seu figurino.

Três anúncios para um crime (Three billboards outside Ebbing, Missouri)

2017, dirigido por: Martin McDonagh

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Pôster: B O N D, 2017

Cru, cáustico e doloroso. Talvez sejam três palavras mais apropriadas para definir Três anúncios para um crime. Não apenas a motivação principal que leva Mildred, sua protagonista, a colocar três outdoors para escancarar um crime e a consequente vergonha que o cerca por causa da polícia local, o filme faz questão de retratar ali tipos extremamente interessantes que fazem a história borbulhar o ódio e a vingança estampados na sempre excelente Frances McDormand. Além disso, Três anúncios para um crime conta com sequências cinematográficas elaboradas, como a da grande discussão que se passa entre um policial e outro personagem, culminando em consequências as quais apresentam o principal motivador da população de Ebbing: o preconceito.

Viva: a vida é uma festa (Coco)

2017, dirigido por: Lee Unkrich e Adrian Molina

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Pôster: eclipse, 2017

Se a Disney, agora dona da Pixar, da Marvel, de você, de mim e de todos nós, anda decepcionando com sequências desnecessárias a já clássicos como Procurando Nemo ou, ainda mais, decidiu embarcar de vez no terreno ainda desconhecido dos filmes live action, essa desconfiança não pode se aplicar a Viva. Ao mesmo tempo com uma estrutura clássica do protagonista que precisa enfrentar a própria família para provar que seus gostos artísticos são importantes e inventivo ao recriar em animação toda uma rica cultura proveniente do povo mexicano, o filme também conta com referências ao mito de entrar no submundo (ou mundo dos mortos), uma história contatada pelos nossos antigos antepassados, na Roma e na Grécia. Mas as principais características e, consequentemente, virtudes de Viva são a leveza e a delicadeza com que trabalha uma questão nem sempre fácil: a morte. Prepare os lencinhos, a carga emotiva é fortíssima.

Um lugar silencioso (A quiet place)

2018, dirigido por: John Krasinski

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2018

Em meio a um mar de filmes inúteis que cada vez mais mancham o gênero terror, é muito revigorante ser brindado com gratas surpresas como Um lugar silencioso. Surpreendente não apenas pelo fato de revelar o ator John Krasinski como um excelente e promissor diretor cinematográfico, o filme faz o espectador temer a presença do som – que, mais do que a imagem em um filme de terror, é essencial para a trama se desenvolver -, o que já o torna um interessante exercício de cinema de gênero. Além da história original, é impossível deixar de admirar as atuações de Emily Blunt e, principalmente, dos filhos, Millicent Simmonds e Noah Jupe. O que uma ótima direção não faz para que um filme flua de maneira impecável.

Me chame pelo seu nome (Call me by your name)

2017, dirigido por: Luca Guadagnino

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Um filme que brinda ao verão e ao amor de verão é uma boa tentativa de definir Me chame pelo seu nome. O longa mistura a leveza e a intensidade do amor entre Elio e Oliver sem cair em clichês e tendências perigosas que tratariam o relato em mais um filme específico para o público GLBT. Me chame pelo seu nome nada mais é do que a história de um amor entre duas pessoas, acima de tudo, e uma das cenas finais, em um diálogo entre Elio e seu pai, prova a delicadeza com que o roteiro pretendia desde o início. Destaque também para a ótima trilha-sonora, que conta com composições de Sufjan Stevens.

Leia a resenha do filme aqui.

Hereditário (Hereditary)

2018, dirigido por: Ari Aster

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Pôster: Gravillis Inc., 2018

Se Viva trata do tema morte com a delicadeza que um filme voltado para o público infantil exige, Hereditário é o extremo oposto desse espectro. Assim como Um lugar silencioso surpreendeu por sua originalidade e direção primorosa, este é exemplo de que o terror não é um gênero menor, e muito menos está esquecido pelos grandes diretores. E apesar de ser sua estreia, o diretor Ari Aster nos entrega uma obra não apenas ousada em sua frequente construção de cenários, sequências e sons com a intenção de arquitetar uma tensão pesada, mas também inventiva, seja em como apresenta os elementos de terror – reflexos de luzes representando espíritos, corpos flutuantes em meio a uma ausência de sons -, seja no trabalho cuidadoso com os atores, que se entregam aos papeis. Além de todos esses elementos, Hereditário também traz uma trilha-sonora claustrofóbico, imergindo ainda mais o espectador no terror – que, ainda bem, não é óbvio em nenhum aspecto.

Leia a resenha do filme aqui.

Listas de anos anteriores: 20172016, 2015, 2014

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Filmes

Bohemian Rhapsody

A sensação de assistir à apresentação de uma banda, ao vivo, muitas vezes é indescritível. Quando se é fã de determinado grupo ou artista, a música por eles composta possui uma importância e, mais, uma significação muito intensa para aquele que os admira. As palavras cantadas pelo artista não são apenas um amontoado de dizeres que combinam com a melodia e o arranjo da música, pode tornar-se aquilo que comumente chamamos de poesia: a brincadeira, o jogo, o manuseio com as palavras cujo objetivo é mexer com nossos sentidos, nossos sentimentos e a nossa relação com o mundo à nossa volta.

Grandes artistas ao longo das eras, mexeram com seu público. Seja de forma positiva, ao elevar o espírito de multidões, seja de forma negativa, ao provocar no público uma reação que este não esperava (ou não desejava). O grande artista, aquele que muito provavelmente será lembrado e redescoberto pelas gerações mais novas, no entanto, provoca ambas. Sim, por mais que você possa começar a gostar de determinado performer, algumas atitudes dele podem incomodar em certo nível ou, ao contrário, pode-se reagir a um grande artista a partir de algo terrível aos seus olhos e, com o tempo, a admiração surgir aos poucos, como resultado do processo que se iniciou com a impressão negativa de início.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

Há, também, o grande artista que, independentemente de provocações positivas ou negativas, possui um talento inegável de elevar multidões. Seja por sua voz, por sua atuação em palco, por sua habilidade nas composições,  ou todas as opções anteriores ao mesmo tempo, esse grande artista torna o público hipnotizado por aquilo que, muitas vezes, chamamos de “presença de palco”, a ponto de inspirar as pessoas – em um nível mais sutil, ao fazer com que o espectador de seu show saia do evento sentindo-se elevado pela música, ou em um nível mais forte, incentivando tal espectador a buscar, um dia, em ser como o artista que tanto admira.

Freddie Mercury, ou Farrokh Bulsara, é todos esses artistas ao mesmo tempo. Uma das provas do poder de seus inúmeros dons artísticos é o fato de quase todas as pessoas ao nosso redor, mesmo não conhecendo sua história ou a trajetória do Queen terem, pelo menos uma vez na vida, ouvido uma de suas músicas, direta ou indiretamente. Mais: conhecerem a figura de Freddie Mercury. Assim como qualquer artista ou obra de arte famosa, a performance em palco de Freddie Mercury é, indiscutivelmente, uma representação icônica do grande artista musical que foi, é e sempre será dentro do imaginário popular.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

Por isso – e muitos outros detalhes que não cabem nesse pequeno texto -, é grande a responsabilidade que recai sobre os ombros de Rami Malek. O ator, mundialmente conhecido pela série Mr. Robot, não apenas precisou dar conta de replicar, na telona, os trejeitos, olhares, maneirismos, empostação de voz e linguagem corporal de palco de  Mercury, como conferir uma camada a mais em sua atuação no que se refere à dramatização da vida do vocalista do Queen. Isso porque não vemos, ali, na tela do cinema, a vida e a trajetória em si do ídolo. O que assistimos é a uma representação dramática, em pouco mais de duas horas, do torvelinho de coisas que foi a vivência e a composição artística de Freddie Mercury. Mais à frente volto a esse ponto.

Assim, o que vemos em Bohemian Rhapsody (idem, 2018) é um ator encarando a hercúlea tarefa de aproximar-se ao “personagem” real. E consegue. O público não só crê, em algum nível, que está diante do Freddie Mercury real, como também emociona-se quando ali na tela vê o compositor com os olhos marejados ao criar uma nova música, ou quando identifica-se com um artista atormentado pelos períodos obscuros de vazios existenciais. Afinal, Freddie Mercury não era apenas um cantor mediano cuja tarefa era subir ao palco para agradar grandes produtores da indústria e vender discos.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

Outro aspecto abordado no longa e que, de certa forma, confere ritmo ao roteiro, é a dinâmica entre os quatro integrantes da banda. Se Freddie era o frontman do Queen, o carro-chefe avassalador, os demais também eram peças necessárias para que a fórmula musical funcionasse bem: Brian May (interpretado Gwilym Lee) e sua habilidade monstruosa com a guitarra, Roger Taylor (interpretado por Ben Hardy) e a explosão proveniente de sua bateria e demais percussões, e John Deacon (interpretado por Joe Mazzello) e a inventividade inegável que nos trouxe o riff de seu baixo em “Another one bites the dust”. E em Bohemian Rhapsody a química que ebuliu a arte musical do Queen é muito bem representada pelos atores que representam os demais membros do grupo, não apenas pelo carisma e, muitas vezes, ótimo timing com momentos de humor, mas principalmente pela assustadora aproximação na aparência – todos são muito semelhantes às suas versões reais.

E se o filme conta com um ator talentoso para a representação de Freddie Mercury, e mais três outros atores cuja química transparece de maneira irrefutável na tela, há de se discutir sobre as alterações realizadas pelos escritores Anthony McCarten e Peter Morgan. Há três pontos cruciais mostrados em Bohemian Rhapsody que se diferem bastante da realidade*: 1) toda a cena de discussão com o produtor Ray Foster (personagem fictício e muito bem pontuado pelo veterano Mike Myers) sobre considerar a música “Bohemian Rhapsody” como single (para tocar nas rádios e ser lançada como, na época, disco compacto) soa, e é, extremamente exagerada; 2) apesar de realmente ter gravado discos solo, Freddie Mercury nunca discutiu com os demais integrantes, nem se separou da banda; 3) a descoberta da AIDS não ocorreu antes do evento Live Aid (o clímax escolhido para o longa), mas sim posteriormente. Tais fatos e suas modificações podem incomodar o fã de longa data. Mas, analisando o filme por aquilo que ele representa (um filme – e de entretenimento, no caso), essas mudanças casam com a camada dramática apresentada ao público. Assim, para o espectador que não conhece os detalhes da vida e obra da banda, esses três aspectos tornam-se fonte de humor, drama e melodrama, respectivamente. E, para um filme hollywoodiano, nada melhor do que tais temperos.

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Imagem: 20th Century Fox, 2018

No final das contas, o personagem principal e mais importante – até mais importante do que a figura de Freddie Mercury -, a música do Queen, é quem impera em toda a produção. Ela é o motor desde a vinheta da 20th Century Fox (aqui executada com guitarras) até os últimos segundos dos créditos finais. É com ela que os pontos dramáticos são pontuados, os momentos catárticos (e são vários) são propulsionados e as emoções são despertadas das maneiras mais sutis – não à toa, o famoso “ay-oh” de Freddie, entoado por apenas uma pessoa, em uma determinada cena, dentro de uma situação delicada, pode mexer com o público de maneira poderosa. E é com ela que nos despedimos dos personagens da tela, das histórias reais e ficcionais do roteiro, mas, acima de tudo, é com ela que saímos do cinema com a certeza de que o show deve continuar.

* as informações foram retiradas dessa análise

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Pôster: Gravillis Inc., 2018

Bohemian Rhapsody, dirigido por: Bryan Singer; escrito por: Anthony McCarten.

Com: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joe Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker.

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Listas, Música

Os melhores discos de 2018

Nem só de brigas por política, memes e tristezas vive o brasileiro. O último mês do ano, além de sua parada obrigatória no especial de final de ano do Roberto Carlos e da retrospectiva na Globo que existe para nos deprimir, é o momento ideal para fazer aquelas listinhas preciosas de melhores alguma coisa.

Podemos dizer que 2018 foi um ano interessante para os lançamentos musicais, e a lista que você vai conferir daqui a pouco foi uma tentativa de percorrer por diversos gêneros musicais, sem deixar de ouvir um bom indie ou pop, os estilos que mais me agradam.

Como toda edição, nesse link você pode conferir os melhores discos do ano passado.

Deixe seus preconceitos de lado e confira agora os doze melhores álbuns deste ano, na minha singela opinião.

“Dancing queen”, por Cher

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Tentar apresentar Cher em poucas linhas é uma tarefa impossível e até inapropriada. A longeva carreira e as inúmeras atuações no entretenimento, que transpõem o mundo musical, fazem de Cher não apenas uma grande artista, mas principalmente um ícone consolidado do mundo pop. Para alegria geral dos fãs de outro ícone pop, a banda sueca ABBA, Cher decidiu ir além de sua participação no filme Mamma mia! Lá vamos nós de novo (Mamma mia! Here we go again, 2018) e lançou um álbum de estúdio com covers de algumas músicas daqueles que nos trouxeram inúmeros hits nos anos 70 e 80. Com uma roupagem atual, mas sem perder a essência abbesca, as versões cantadas por Cher podem soar estranhas em um primeiro momento, principalmente para aqueles acostumados com as originais por tanto tempo – isso devido ao fato do ABBA raramente liberar suas canções para que outros as utilizem como samples ou mesmo como covers -, mas, em uma segunda audição, dificilmente Dancing queen irá desagradar. De versões mais próximas das originais como a faixa-título (dificilmente um cover muito peculiar de “Dancing queen” soaria bom) até outras com toques mais particulares de Cher, como “Waterloo” e sua batida forte, com um apelo muito mais dançante, ou “Chiquitita” e seu ar flamenco, Dancing queen é fácil um dos melhores álbuns lançados esse ano, ainda mais para quem gosta de um bom e velho pop para não botar defeito.

» “SOS

“Chris”, por Christine and the Queens

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Esteja preparado para Christine and the Queens. A francesa é um ótimo exemplo para rebater aqueles que dizem que o alternativo não inova mais. Com sua voz forte, seus arranjos eletrônicos e as letras cheias de uma crueza e causticidade muito peculiares, o álbum – lançado em duas versões, uma no original francês e outra para o mercado internacional, em inglês – lembra muito a sonoridade de algumas cantoras brasileiras dos anos 80 e 90, como Deborah Blando e Marina Lima. Além disso, suas músicas trazem um tom de melancolia que se confunde com as batidas e sintetizadores espalhados ao longo das onze faixas. Não há como passar batido pelo niilismo e flertes com o suicídio em “Doesn’t matter” ou pelo feminismo cru e direto em “Damn (what must a womann do)”. E não para por aí: Christine and the Queens ainda desconstrói a obra do pintor Goya em “Goya Soda” e critica de leve a liquidez dos relacionamentos atuais com “What’s-her-face”.

» “Doesn’t matter

“Happy xmas”, por Eric Clapton

eric clapton

Assim como Cher dispensa preâmbulos para o mundo pop, Eric Clapton também o faz quando falamos sobre blues. O guitarrista coleciona invejáveis números ao longo de sua extensa carreira, mas o que parecia uma ideia completamente deslocada para a imagem que representa no imaginário coletivo acabou acontecendo agora em 2018: um disco de Natal. É comum, principalmente para os mercados fonográficos americano e europeu, artistas lançarem um álbum temático no período de fim de ano, especialmente quando se fala sobre Natal. Na maioria das vezes com intenções puramente mercadológicas, um álbum de Natal, no geral, costuma ter reações extremas por parte do público: ou faz muito sucesso, ou se torna um fracasso completo. Tratando-se de Eric Clapton, a estranheza de se estar prestes a ouvir um álbum natalino do Eric Clapton se esvai em questão de segundos logo nos primeiros acordes da primeira faixa, “White Christmas”. O artista não decepciona seus fãs de longa data, assim como os novos ouvintes. Num misto de regravações de tradicionais músicas natalinas e composições próprias para o álbum, Clapton faz de Happy xmas um agradável, surpreendente e delicioso álbum de blues natalino. Destaque também para sua versão de “Silent night”: um misto de música gospel, blues e mais outros elementos que a tornam uma “Noite feliz” como nunca antes ouvida.

» “Home for the holidays

“God’s favorite costumer”, por Father John Misty

father john misty

Josh Tillman já passou por algumas bandas, inclusive pelos Fleet Foxes. Mas, de uns anos para cá, parece que o moniker Father John Misty lhe caiu bem. E é o que o seu trabalho mais recente, God’s favorite costumer sugere através das belas composições. Evocando um Elton John de início de carreira, com mistos de artista solitário tocando em um pub, Tillman traz, com suas letras, um humor que pende entre o autoparódico e o amargurado, falando sobre encontros, poemas e a tarefa de um compositor. God’s favorite costumer sugere sua melancolia e contemplação ao nada desde a capa, inclusive, mostrando um Father John Misty à la David Bowie, banhado em cores que tornam sua tristeza ainda mais proeminente. Caso você esteja procurando um artista novo para ouvir, eis sua chance.

» “Date night

“Man of the woods”, por Justin Timberlake

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Nascido em uma carreira de menino prodígio dentro da TV, transposto para uma boyband e catapultado para o sucesso de uma carreira solo, é inegável o talento de Justin Timberlake. Aventurando-se no cinema também como ator, o cantor nunca deixou de lado sua veia musical, que é forte. A aclamação da crítica chegou em seu álbum de estúdio de 2006, FutureSex/LoveSounds, permaneceu com The 20/20 experience, de 2013 e, agora, alça mais voos com o indiscutivelmente ótimo Man of the woods. Trabalhando com colaboradores de longa data como Timbaland, Danja e The Neptunes (especialmente  Pharrell Williams), o som desse novo trabalho é um jam interminável, com músicas que aumentam o ritmo do álbum em um crescendo aparentemente sem fim, chegando a um ápice quase transcendental. Do início cheio de volúpia com “Filthy” e os interlúdios que referenciam a temática permeada no título e no conceito de mundo selvagem e como fazer parte dele, Man of the woods é, ao mesmo tempo, uma originalidade exercitada pelo já estilo consagrado de Timberlake e sua reverência a mestres como Michael Jackson.

» “Filthy

“Golden”, por Kylie Minogue

kylie minogue

Se Madonna é a Rainha do Pop e Britney Spears a Princesa, em que patamar colocamos Kylie Minogue? A resposta mais tranquila e direta é: em nenhum. Minogue não é uma artista que se mistura à gentalha, como diria Dona Florinda, mas, aqui, é num bom sentido. Isso porque sua elegância e bom gosto em todos os elementos que relaciona com sua música a impedem de estar no patamar do pop farofa das demais cantoras e divas pop. Não me entenda mal, o pop farofa também é preciso. Mas Kylie Minogue compõe o pop às vezes chiclete, às vezes europeu demais para bombar no rádio ou torná-la a cantora mais conhecida de todos os tempos. No fundo, Kylie Minogue não precisa disso. Sua carreira, mais consolidada do que nunca agora com o lançamento de Golden, prova que, para fazer sucesso, não é preciso apelar. Golden, aliás, é a incursão da cantora em terras até então não visitadas, como a música country e a influência do som de Nashville, cidade americana que influenciou a temática e as letras do álbum, sem contar os arranjos. Assim, apesar de soar estranho em um primeiro momento, logo os ouvidos se acostumam com os banjos, violinos e violões de todos os tipos ao longo das músicas. É claro que há os singles prontos, como em qualquer outro disco de Kylie Minogue; aqui, no caso, falo do carro-chefe “Dancing”, da ótima “Stop me from falling” e da poderosa “Live a little”. Mas existe espaço para incursões mais profundas no country propriamente dito, como “A lifetime to repair” e um pop mais etéreo como em “Lost without you”. Mais uma vez, a australiana acerta a mão.

» “Dancing

“When the night calls”, por Mt. Desolation

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O projeto paralelo do ex-Keane Tim Rice-Oxley que teve início em 2010 mudou. Se há oito anos a intenção era formar uma banda de country-folk alternativo a partir de integrantes de várias outras bandas, agora a composição ficou mais enxuta. Resumida basicamente nos dois integrantes principais do começo, o próprio Tim e Jesse Quin, Mt. Desolation demorou longos e arrastados oito anos para lançar seu segundo álbum de estúdio. Entre o primeiro e esse atual, nada relativo à banda pareceu surgir na internet. Após o fim do Keane, aparentemente Tim e Jesse decidiram trabalhar novamente no projeto e When the night calls foi parido. Para os fãs, a espera compensou. Apesar de não ter a mesma bad vibe do álbum de estreia, o novo trabalho não deixa a desejar nesse aspecto: faixas como “By the river” e “Valentine” provam que Mt. Desolation existe ainda para falar das tristezas da vida. Mas o lado oposto também aparece – e mais nesse disco – para dar uma animada, com músicas como “Someday, somehow” e, podemos até ousar chamá-la assim, a dançante “How to fly”. Se country alternativo era um gênero que você jamais achou que existia, está na hora de dar uma olhada em Mt. Desolation.

» “On your way

“Simulation theory”, por Muse

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Se em 2009 o álbum The resistance apareceu para tornar Muse mainstream de uma maneira sem volta, talvez The 2nd law, o trabalho seguinte, de 2012, deixou mais claro que a banda agora era, de vez, mais uma que lotaria estádios para shows pirotécnicos e catarses sem fim. O misto de cordas e eletrônico sempre esteve presente em sua discografia, mas em Simulation theory, seu novo trabalho, tudo atinge um outro patamar. Isso porque, na parte eletrônica, a banda decidiu tirar todos os sintetizadores do baú e colocá-los para brilhar na maior parte do álbum. Assim, ao ouvir o novo disco, facilmente é possível fazer ligações com trilhas-sonoras que abusam do recurso oitentista, como a do filme Tron: o legado (Tron legacy, 2010) e da série Stranger things, da Netflix. No geral, não é algo que incomoda, apesar de soar um apelo mais comercial do que conceitual. De qualquer maneira, não é um álbum descartável, com uma abertura já apoteótica com “Algorithm” e, logo na sequência, a arrasa-quarteirões “The dark side”. Há um flerte com um Daft Punk da era Human after all em “Propaganda” e de Discovery em “Blockades” – esta, inclusive, lembra muito as músicas do Muse em The resistance – além de uma quase-balada em “Something Human”. No geral, por tomarem um caminho mais fechado com o estilo anos 80, talvez Simulation theory não resista ao tempo. A conferir.

» “Algorithm

“Egypt station”, por Paul McCartney

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Talvez Egypt Station seja um 8 ou 80 para os fãs do ex-beatle. Isso porque, além de Paul McCartney permitir influências de produtores atuais na maioria das faixas – algo preocupante para fãs de longa data, no sentido de a “originalidade” de Paul não ficar tanto em evidência -, Egypt station é um álbum conceitual. Não à toa, a faixa de abertura é um prólogo de poucos segundos apenas com sons reais de uma estação de trem. Ou seja, conceitualmente Paul McCartney vai nos levar para uma viagem de trem, passando por diversas estações – e cada música seguinte representa uma delas. De início, “I don’t know” já mostra um McCartney a todo vapor, numa balada formada por voz e piano, para logo depois pararmos na estação “Come on to me”, um pop-rock chiclete, com direito a riffs viciantes e uma batida ritmada que dificilmente vai sair da cabeça depois de uma primeira audição. As duas músicas, inclusive, foram escolhidas para formarem o primeiro single do disco. Há, também, incursões mais, digamos, diferentonas para a carreira de Paul McCartney, como nas faixas “Who cares” e “Fuh you” – esta provavelmente vai enfurecer alguns fãs, já que possui um letra bastante rasa, muito incomum na carreira solo do ex-beatle. Inclusive há uma parada no Brasil com “Back in Brazil”. É cheia de clichês musicais na visão do gringo que olha nosso país lá de fora? Sim. Mas dá para perdoar por ser Paul McCartney? Claro.

» “Back in Brazil

“Young romance”, por Roosevelt

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Se você é alguém que gosta de um pop alternativo, com elementos eletrônicos e uma camada de sons etéreos, está perdendo tempo se não ouviu Roosevelt ainda. O alemão (mas que canta em inglês) surgiu mais proeminentemente em 2016 com suas estreia homônima, um álbum irretocável. Agora, dois anos depois, o cantor nos brinda com mais uma joia rara da atualidade com Young romance. Os elementos eletrônicos continuam no centro das atenções aqui, mas, assim como o próprio trabalho com as imagens de capa e videoclipes sugere, Young romance é um álbum muito mais ensolarado que o Roosevelt. Do introspectivo para o expansivo, Roosevelt não decepciona. Expande seus horizontes, na verdade, ao trazer camadas mais alegres com “Under the sun” e a ótima “Losing touch” – impossível ao menos não batucar os pés com esta última. Ainda há, porém, espaço para a contemplação mais amena, como em “Yr love” e “Getaway”. Espere também por ouvir metais inspirados como no final de “Shadows” e uma bateria forte em “Illusions”, como o artista já fazia lá no seu primeiro álbum.

» “Losing touch

“Brasileiro”, por Silva

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Aparentemente os dias de synth pop alternativo do nacional Silva acabaram. O cantor, que começou de maneira literalmente tímida no cenário musical brasileiro, alçou voos cada vez maiores, saindo do introspectivo Claridão, de 2012, para o mais conceitual e alegre Vista pro mar, de 2014. Em 2015, tornou o simples uma virtude com o econômico em arranjos Júpiter. Parou um tempo para se dedicar ao projeto de covers Silva canta Marisa, o que já demonstrava sua inclinação para caminhos de MPB. E por ali ficou. A prova física é seu novo álbum, Brasileiro. Do nome e da capa às músicas, com suas letras que voltam a atenção para o nosso Brasil e arranjos que gritam Caetano, Gal, Bethânia e Chico Buarque, Brasileiro parece ser uma marca para um artista em constante ebulição. A diferença, agora, é que muito provavelmente não teremos mais um Silva mergulhado nos sintetizadores da era Claridão, já que o nome da primeira faixa indica que “Nada será mais como era antes”. Se isso é algo bom ou ruim, só o tempo dirá. Por enquanto, dá para aproveitar a beleza sem medidas de músicas como “Prova dos nove”, “Milhões de vozes” (esta em parceria com Arnaldo Antunes na composição) e “Guerra de amor”. O misto do Silva de Vista pro mar com o de Brasileiro surge no principal single do disco, “A cor é rosa”. Há, ainda, surpresas instrumentais com “Sapucaia” e “Palmeira”.

» “A cor é rosa

“Bloom”, por Troye Sivan

troye sivan

Assim como qualquer artista pop talentoso, Troye Sivan libertou-se das amarras do álbum de estreia. E como todos questionam o artista que faz sucesso logo no primeiro trabalho se este vai manter o sucesso com o segundo disco, esperava-se muito daquele que, muito novo, alçou patamares grandes em um mercado musical competitivo com Blue Neighbourhood, em 2015. A resposta veio em um álbum pop curto, de pouco mais de meia hora, mas que encara com perfeição a máxima de que menos é mais. Conciso, direto, irretocável. Bloom é uma libertação não apenas pessoal e íntima de Sivan, buscando letras autobiográficas que permeiam sua sexualidade e como ela afeta os arredores de sua vivência, mas seu crescimento como artista, seja seu lado cantor, seja seu lado compositor. O disco é um misto de dedicações, seja ao amor, seja ao sexo, seja ao desapego, seja à tristeza. Aliado a produtores tão talentosos quanto ele, como Ariel Rechtshaid (que produziu para HAIM, Kylie Minogue, Brandon Flowers e Adele), Troye Sivan entrega um segundo trabalho honesto, assumindo o pop como vestimenta perfeita para aquilo que ele deseja falar.

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