Séries

Mad men

Fui atraído pela ideia de iniciar Mad men (Idem, 2007-2015) com a proposta da série em retratar a rotina de uma agência publicitária americana nos idos dos anos 1960. Como formado na área de Letras, meu interesse pela palavra e pela imagem e seu mais variado uso pelas áreas do conhecimento humano invariavelmente passa pela propaganda. Ao saber que Mad men mostrava os bastidores do mundo publicitário, pensei, por um momento, que acompanharia os processos de criação de uma propaganda e as consequências de sua veiculação.

Pobre de mim.

Não que a série tenha me decepcionado nesse nível. Em diversos episódios, é possível conhecer os procedimentos utilizados para se convencer, em primeiro lugar, os executivos da empresa que pagarão pelos anúncios a serem produzidos, e, depois, o grande público, aquele que consumirá o produto vendido.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Porém, Mad men é uma narrativa profunda, vai muito além da casca publicitária, da rotina nova-iorquina do pós-guerra. Enveredar por seus episódios é aprofundar-se em personagens rasos e complexos – rasos em caráter, complexos psicologicamente; é ver-se em um redemoinho de reflexões sobre como nos consideramos meros produtos em uma loja – pior, em uma propaganda -, como nos tornamos os produtos que almejamos obter.

Alie, agora, todo esse pano de fundo com um tratamento visual apurado. Claro, seria no mínimo irônico assistir a uma série que tem como temática principal a imagem das coisas (coisas-objeto, coisas-produto, coisas-pessoa) se essa não prezasse por sua própria imagem.

Alie, também, a atuação de cada profissional ali presente para trazer à vida personagens, como já disse, muito rasos em suas imagens próprias, mas abismais em seus complexos e problemáticas pessoais. Alie, por fim, dois elementos que funcionam como combustíveis para a narrativa completar-se em uma obra audiovisual digna de prêmios – como todos que merecidamente colecionou – e, mais importante ainda, de nossa atenção: os contextos históricos de cada década pelas quais Mad men passa – os falsos inocentes e morais anos 60, os exóticos anos 70, os decadentes anos 80 – e, talvez acima de tudo em determinados episódios e cenas específicas, a apurada trilha-sonora.

O vazio

Talvez, além da imagem, a temática mais trabalhada ao longo das sete temporadas seja o vazio inerente ao ser humano. Presente em todos nós, em maior ou menor grau, o vazio tonifica-se aqui devido ao meio em que os personagens se encontram: cidade grande, rotinas automatizadas, meio capitalista de produção e consumo de itens descartáveis para uma sociedade refém do descartável. Dificilmente haverá, ali, alguém preocupado com algo além das próprias roupas, cabelos, sapatos, bolsas, maquiagens. Porém, o jogo temático de Mad men já começa por aí: achamos, como plateia, que ali não há personagens com personalidade, apenas fantoches manipulados por uma indústria fadada à falência.

Mas é o vazio que realmente importa.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Assim, em diversos episódios, é possível notar cenas escritas apenas para explorar esse vazio que emana do personagem, do meio em que se encontra, dos assuntos que trata com outros personagens ou tudo ao mesmo tempo. Vemos, portanto, cenas com o protagonista contemplando o horizonte cinza de Nova York a partir da janela de seu escritório; os céus a partir de um cenário externo, no campo; o mar a partir da praia onde finge estar em férias com a esposa; a piscina azul e convidativa do hotel no qual se hospeda para criar mentiras confortáveis a seus clientes e pessoas com quem deseja se relacionar para preencher vazios dentro de vazios. E os vazios encontram-se também, mais perigosos ainda, nos espaços fechados: o sócio tentando suicídio dentro do carro fechado, o sócio enforcando-se dentro do cubículo onde trabalha, as traições conjugais dentro de quartos de hotéis, dentro de carros, dentro do apartamento da vizinha. Não à toa, a própria abertura mostra o publicitário caindo em um redemoinho de propagandas (mentiras) em direção ao nada branco (vazio), para, logo depois, cortar a cena e dar um zoom out que sai das costas desse publicitário – e ele está, vejam só, contemplando, vejam só, o vazio novamente.

Mad men, então, ao trabalhar com esse vazio inerente, jogará com o público a partir de seus julgamentos morais. Apesar de casados, protagonistas e personagens secundários traem seus respectivos parceiros. Apesar de comprometidos com determinada empresa, protagonistas e personagens secundários encontram-se com a concorrência para possíveis acordos profissionais mais vantajosos. Apesar de possuírem determinadas convicções político-sociais e convicções religiosas, protagonistas e personagens secundários dançarão conforme a música ditar e o dinheiro cair na conta. Não há como negar que esse vazio é algo atraente, ainda mais quando alia-se a temática com o visual chic do decadentismo banhado a glamour vintage, com a presença de cigarros acesos, taças de vinho, ambientes esfumaçados e todo um clima de cinema noir.

Não há como negar também, como consequência de toda a construção narrativa da série, a atração que surge em nós para cada personagem.

Joan

Assim como Peggy, a qual tratarei com detalhes mais adiante, Joan Harris possui um arco narrativo de ascensão. Apesar de ser apresentada logo de início como alguém subalterna dentro da agência, sua posição ainda impõe um determinado poder sobre diversas personagens – essencialmente femininas -, o que cria um apelo certeiro ao público.

Há um misto de poder com fragilidade em  Joan.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Sua principal defesa dentro daquele meio social intricado é impor-se com palavras que corroem e olhos que perfuram. Aos homens, fica também reservado seu visual proeminente, com direito a cabelos e lábios vermelhos como fogo e peitos naturalmente avantajados, uma distração quase publicitária para homens heterossexuais com infindáveis dólares em suas carteiras.

Por dentro, porém, Joan encolhe-se diante da impossibilidade de manter um relacionamento fixo, idealizado por ela mesma em diversos momentos, mas que não passa de uma propaganda própria para se iludir – todos nós precisamos de um sonho inalcançável para acreditarmos em um sentido na vida, mesmo que esse sonho e, consequentemente, o sentido, não exista.

Roger

Cínico, realista e atraente por todos os motivos errados.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Dentre todos os personagens apresentados por Mad men, um dos principais sócios da inicialmente Sterling-Cooper talvez seja o mais honesto – mesmo que cultive, ao longo dos anos, a imagem do canalha sem conserto. Honesto pois, ao ser cínico, trabalha com acidez as verdades que muitas vezes precisam ser realmente ditas; ao ser realista, mantém-se no poder econômico no qual se encontra e, claro, não deseja perder; ao permanecer atraente, mesmo sendo mais velhos que os demais, trabalha a imagem-própria a seu favor.

O conjunto, portanto, é apelativo demais para se deixar passar batido.

Peter

Egoísta.

Não há adjetivo melhor para Pete Campbell.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Talvez poderíamos incluir aqui também a ambição como parte principal de sua composição como personagem, mas, mais cedo ou mais tarde, ela também transforma-se em egoísmo. Se seu cliente não está contente, é porque a agência não acredita em seu potencial; se decidem por alterar os trâmites de uma determinada negociação, é porque a conta é dele; se seu casamento desmoronou e a relação com sua filha é tênue, é porque ninguém o compreende.

O eterno adolescente.

Betty

Não há como não suspirar ao pensar em Betty Draper.

Ela é, com toda a certeza, a personagem-modelo para a ideia que comentei logo no início sobre Mad men trabalhar com a imagem de cada personagem para que pensemos justamente no vazio intrínseco à história.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aqui temos um arco clássico de ascensão e decadência. A fútil mulher suburbana, loira, rica, dona-de-casa e refém do marido e filhos. Impossível não olhar para Betty e sua existência e não pensar em Ana, a complexa, mas aparente fútil, personagem de Clarice Lispector para seu grandioso conto “Amor”. Um dia, Betty Draper também assiste ao cego mascando chicles. Um dia, os ovos na sacola de crochê de Betty também caem por causa do solavanco do bonde. Um dia, Betty Draper também entra em uma epifania.

E como é saboroso acompanhar o amor e o ódio que disputam lugar em nós enquanto acompanhamos sua subida e inevitável descida. Acompanhar seu fim pode deixar um gosto amargo, mas jamais indigno.

Peggy

Inicialmente a doce, inocente, ingênua e, muitas vezes, burra Peggy nos encanta com seu olhar cheio de brilho, daqueles que pertencem à adolescente forasteira, daquela de repente morando na cidade grande, trabalhando numa respeitosa e emergente agência de publicidade, secretária do já lendário e eternamente misterioso Don Draper.

Porém, o que parecia o enredo de A redoma de vidro, de Sylvia Plath, torna-se algo inesperado com a primeira quebra narrativa que a personagem sofre ao ver-se grávida e, sem (aparentemente) remorsos, consequente desejo de livrar-se do próprio filho – seu futuro profissional não comporta uma criança. E, ao longo das sete temporadas, o público acompanha mais e mais quebras narrativas em Peggy. Apesar de sua casca de personagem óbvia, Peggy nos prova que, cada vez mais, vai se tornando seu pior nêmesis: a figura de homem frio cristalizada em Don Draper.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Aliás, a grande importância no enredo de Peggy é a necessidade (assim como Joan, em um menor nível) de tornar-se um homem – não literalmente, claro, mas ser considerada de igual para igual dentro do ambiente profissional no qual vai galgando novas posições conforme suas habilidades são demonstradas e provadas arduamente. Estamos, inicialmente, nos anos 1960, e nos anos 60 é preciso ser homem para ser alguém.

(Não que hoje seja diferente)

Também funcionando como alívio cômico – na maioria massiva das vezes, destilando um humor involuntário no público que prova mais uma vez a elegância da produção da série -, Peggy vai se equilibrar (e desequilibrar) na linha tênue entre submissa silenciosa e tirana irremediável. O poder sobe à cabeça de todos, é óbvio. E é divertido observar como ela vai lidar com tal fato.

Don Draper

Falar sobre Don Draper renderia muitas linhas. Mas tentarei ser conciso.

Sua imagem dentro da série é a canalizadora de todas as temáticas abordadas nos demais personagens ao longo das temporadas.

Frio, soturno, talentoso e atraente, Don Draper cresceu em ambientes e vivenciou situação ao longo da vida que se tornam ingredientes minuciosos na composição de seu eu publicitário. Ele precisa inventar verdades, como o subtítulo da adaptação brasileira do título nos diz, e, para isso, precisa saber mentir bem. E ele sabe.

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Imagem: Lionsgate Television, Weiner Bros., AMC, 2007-2015

Seu talento, portanto, é um constructo cuidadoso proveniente não apenas das estratégias que usa para convencer seus clientes a pagarem por mentiras a serem contadas sobre seus produtos (a mentira na mentira, um mise en abyme inevitável), mas também das mentiras que conta às suas esposas, às suas amantes, aos seus filhos, aos seus colegas de trabalho e, principalmente, a si mesmo.

Don Draper não é importante para a série apenas por ser homem, engomadinho, sexy, talentoso e um mentiroso nato. Don é uma propaganda viva. E como tem consciência disso, usará todas as artimanhas disponíveis em si próprio e ao seu redor para que isso cause qualquer resultado, seja ele direcionado à agência, à sua família, às suas amantes, à sua conta bancária ou a si mesmo.

Don Draper é, portanto, cada um de nós.

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Pôster: The Refinery (fotografia por: Frank Ockenfels)

Mad men, criada por: Matthew Weiner; escrita por: Matthew Weiner, Jonathan Igla, Kater Gordon, André Jacquemetton, Maria Jacquemetton, Erin Levy, Carly Wray, Lisa Albert, Semi Chellas, Robin Veith, Dahvi Walter, Bridget Bedard, Tom Palmer, Chris Provenzano, Marti Noxon, Brett Johnson, Cathryn Humphris, Janet Leahy, Jonathan Abrahams, Victor Levin, Tom Smuts, Jane Anderson, Rick Cleveland, Andrew Colville, Keith Huff, Tracy McMillan, Frank Pierson, Jason Grote, Heather Jens Bladt, David Iserson; dirigida por: Phil Abraham, Michael Uppendahl, Jennifer Getzinger, Matthew Weiner, Scott Hornbacher, Lesli Linka Glatter, Tim Hunter, John Slattery, Andrew Bernstein, Alan Taylor, Chris Manley, Jon Hamm, Ed Bianchi, Paul Feig, Barbet Schroeder, Daisy von Scherler Mayer, Lynn Shelton, Matt Shakman, Jared Harris.

Com: John Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, John Slattery, Kiernan Shipka, Robert Morse, Christopher Stanley, Jessica Paré, Jay R. Ferguson, Alison Brie, Jared Harris, Kavin Rahm, Mason Vale Cotton, Ben Fieldman, Mark Moses, Teyonah Parris, Stephanie Drake, Jared Gilmore, Talia Balsam, Marten Holden Weiner, Elizabeth Rice.

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