Séries

Black mirror

O que mais nos assusta em Black mirror? A tecnologia avançada? As reviravoltas na maioria dos episódios? Ou a soma desses dois fatores e a capacidade inata do ser humano causar dor através de sentimentos mais profundos como o amor, o ódio, a inveja e a ganância? Parece não haver um consenso que responda tais questões, e esse talvez seja o ponto de maior sucesso da série britânica, responsável por índices grandes de audiência e de discussões pós-transmissão dos episódios desde sua estreia em dezembro de 2011.

O consenso, aqui, não deve necessariamente existir, já que, estruturalmente, Black mirror não se prende a um núcleo apenas de personagens e arcos dramáticos, trazendo uma nova história e sua respectiva (ou não) conclusão ao final de cada episódio. Assim, enquanto uma parcela da audiência vai se sentir frustrada com o desenrolar dos fatores em determinado capítulo, é bem provável que um outro grupo considere a mesma história um primor da narrativa moderna. E “frustração” parece ser a sensação mais buscada pelo criador e principal roteirista da série, Charlie Brooker, em seus espectadores.

Dentre tantos encontros e desencontros dentro dos consensos pertinentes à qualidade de Black mirror, é inegável que seu grande sucesso e consequente repercussão dá-se porque a série não se rende às pressões midiáticas para tornar-se, ao longo do tempo, mais “palpável” em busca de mais audiência. Black mirror é idealizada e, vejam bem, realizada para que você se sinta frustrado. E essa frustração pode vir de duas formas: a partir de uma história que não terminou da forma como você, mero espectador, gostaria que acabasse; ou a partir das conclusões que alguns episódios podem sugerir a você através dos temas e discussões levantados ao longo de seus roteiros.

Ou seja, ou nos frustramos porque o final não era aquele que gostaríamos, ou nos frustramos porque, dependendo do resultado das ações dos personagens, somos humanos como aqueles retratados na série, mesmo alocados em um espaço-tempo distópico, a par de uma tecnologia preponderante, e, dessa maneira, igualmente passíveis de errar e nos levarmos a consequências como as retratadas nas histórias da série. Assim, Black mirror começa a pesar em nossas costas quando passamos a perceber que o problema ali presente não é a tecnologia, nem o uso que os humanos fazem dela; o problema são os humanos, seres paradoxais a ponto de desenvolverem tecnologias impressionantes, mas ainda incapazes de utilizá-las de maneira exemplar, já que, apesar de evoluídos, ainda somos irracionais e passionais o bastante para nos frustrar das piores maneiras possíveis.

Com tudo isso em mente, os fãs da série e os novatos receberam de maneira bem negativa a notícia de que o Channel 4, rede televisiva britânica, não veicularia mais Black mirror além das duas primeiras curtíssimas temporadas – 3 episódios cada – e seu especial de Natal. O alívio (e surpresa também) veio com a confirmação de que a série voltaria para as telas do público, mas agora com a Netflix. Sintam a ironia. Por um lado, isso poderia ser uma boa notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas; já do outro, isso poderia ser uma péssima notícia para o criador Charlie Brooker: a Netflix poderia trazer mais liberdade de criação para as histórias inéditas. E a segunda possibilidade parece refletir agora na recém-lançada quarta temporada, no final de dezembro de 2017.

Dois anos após o especial de Natal transmitido pelo Channel 4, a Netflix anunciou a compra dos direitos da série e a produção de 12 episódios, que seriam divididos em duas novas temporadas. Apesar da qualidade dos seis primeiros, incluindo aí suas estruturas e o estilo peculiar de Black mirror apresentar personagens e histórias sem esperanças, tendendo para conclusões pessimistas e, por vezes, até niilistas – excluindo-se, aqui, obviamente, o drama com ares idílicos “San Junipero”, o alívio da terceira temporada -, os seis últimos episódios da mais nova temporada merecem uma análise mais pormenorizada. Já podemos afirmar, de antemão, que Black mirror não mantém mais sua uniformidade em relação à qualidade e à capacidade de nos surpreender. A questão principal, então, é: isso necessariamente é ruim?

Os episódios

Antes de partir para uma análise de cada episódio da quarta e mais recente temporada, aviso que não haverá spoilers aqui prejudicando as sessões de cada um depois, caso você ainda não os tenha visto.

Seguindo uma tendência já observada na temporada anterior, Charlie Brooker preparou episódios mais longos (o primeiro, “USS Callister”, com quase 1h20 de duração), deixando mais espaço para o desenvolvimento de personagens e, no caso do último capítulo, “Black Museum”, mais tempo de cena para o desenrolar dos três “contos” que ali se entrelaçam. Num mundo atual, onde a modernidade ordena uma agilidade para tudo o que produzimos e consumimos, é de se notar que Black mirror, ainda mais por comentar tópicos relacionados à tecnologia e, consequentemente, à sua efemeridade, traga episódios que ultrapassem a marca de uma hora, um verdadeiro suplício para diversas pessoas acostumadas com o ritmo frenético das produções dos últimos anos – ainda mais quando se fala em séries.

O foco, na 4ª temporada, ainda é as relações humanas em um futuro incerto, mas dominado pelo uso da tecnologia. Apesar de flertar com a ficção científica e elementos de narrativas distópicas (mais acentuado no quarto episódio, “Hang the DJ”), a intenção de Black mirror é escanear, de diversas maneiras, o comportamento humano, cercado e cerceado por seus sentimentos, tentando se equilibrar entre a razão e a emoção constantemente. Sendo a tecnologia um canalizador ou um energético para as decisões humanas, ela pode ser considerada, ainda, dentro da série, o “pano de fundo”, e não necessariamente a protagonista (como vemos no terceiro episódio, “Crocodile”).

  • “USS Callister”

MV5BMTczODc2NzU2N15BMl5BanBnXkFtZTgwODM5OTY0MzI@._V1_SX1500_CR0,0,1500,999_AL_

Imagem: Netflix, 2017

O primeiro episódio da 4ª temporada potencializa a visão de Black mirror de como a tecnologia possibilita, mas não estimula as atitudes negativas do ser humano. Isso fica claro a partir do jogo de aparências que o roteiro cria com o protagonista.

A princípio demonstrando, para o espectador, atitudes mais introvertidas e sua inegável subordinação ao provável antagonista do episódio, ele passa de mocinho a vilão em questão de minutos, e isso não é obra do personagem em si, mas do roteiro: estruturada a partir de uma homenagem a Star trek, e, por isso, filmada em um aspecto de tela mais largo, dando um ar mais cinematográfico para o episódio, a história vai montar o caráter do protagonista por meio da visão de uma das personagens, que tem sua visão de admiradora quebrada com o desenrolar dos acontecimentos. Tal visão – e sua mudança – é importante para o julgamento do público.

Apesar de não acentuar tanto seu “quê” de Black mirror, “USS Callister” possui méritos ao desenvolver um personagem com “síndrome de Deus” crível e, ao mesmo tempo, estereotipado, sem cair em um aspecto novelesco. É uma história que esbarra na imagem clássica do nerd antissocial e desmonta sem necessariamente, com isso, afirmar que tal imagem clássica seja o problema para as atitudes do personagem.

  • “Arkangel”

MV5BMTUyNTcxOTcyM15BMl5BanBnXkFtZTgwOTM5OTY0MzI@._V1_SY1000_CR0,0,1499,1000_AL_

Imagem: Netflix, 2017

O segundo episódio retrata um tema muito caro à literatura e ao cinema mundiais: a relação mãe e filho. Aqui, porém, teremos a adição da tecnologia como tempero para os problemas que vão explodir de maneira inevitável.

“Arkangel” é o primeiro episódio de Black mirror dirigido por uma mulher e, logo de cara, temos Jodie Foster no comando da produção. Talvez isso reflita na qualidade das atuações aqui, com Rosemarie DeWitt (de La la land, 2016) interpretando a mãe e Brenna Harding a filha, a dupla que conduz o ritmo e a história. A ligação tecnológica entre mãe e filha cria um cordão umbilical high-tech sem volta, potencializando a sensação de propriedade que Marie tem sobre Sara. E, diferentemente do episódio anterior, “Arkangel” traz alguns elementos que retomam a sensação amarga de que estamos acompanhando não apenas uma história comum, mas sim um episódio de Black mirror.

  • “Crocodile”

MV5BOWY2OTE3MzctMWEzMC00YWIzLTk4NjYtMTBlNjEzMmY4N2I0XkEyXkFqcGdeQXVyNjIwNzU1MzQ@._V1_

Imagem: Netflix, 2017

Porém é aqui, com “Crocodile”, que o fundo do poço das emoções humanas se aproxima mais do espectador.

Com o roteiro mais bem estruturado da temporada, o episódio vai entrelaçar duas histórias, num ritmo que se torna cada vez mais pesado de acompanhar conforme os minutos vão passando. “Crocodile” é o exemplo máximo, na 4ª temporada, de que a tecnologia presente dentro da história está ali apenas como base, pois as ações da protagonista, Mia Nolan (interpretada pela ótima Andrea Riseborough), são os principais pontos do episódio, variando do medo ao mais profundo desespero.

É nesse terceiro episódio que Black mirror volta às suas origens, apresentando uma história que prende o espectador através, inicialmente, de uma tensão, passa pelo suspense e chega ao seu ápice com sequências sem volta, legando ao público  uma sensação de amargor e desesperança.

  • “Hang the DJ”

MV5BN2UyMDQyMmQtNDVlNC00ZDU0LTlkMGItNWMwYTNiOTJmZTMxXkEyXkFqcGdeQXVyODE1NDk0NzQ@._V1_

Imagem: Netflix, 2017

Assim como o “San Junipero” da terceira temporada, “Hang the DJ” traz uma pausa saudável para o ritmo de histórias mais negativas, com seu pico em “Crocodile”.

Apesar de haver, aqui, ainda, aspectos mais melancólicos que endereçam mensagens bem claras a toda uma geração baseada em encontros amorosos ou sexuais promovidos por aplicativos de celular, “Hang the DJ” usa a motivação de revolução dentro de um ambiente opressor e distópico para desenvolver seus personagens. O casal protagonista desperta a simpatia do público em questão de minutos, e, com isso, passamos a sofrer junto com os personagens quando as regras do sistema em que vivem começam a influenciar demais em suas vidas.

  • “Metalhead”

MV5BYjE5OTBjZjEtMTA5OC00MzFhLWIxMjItNDI2ZGVjZWMyMmVhXkEyXkFqcGdeQXVyODE1NDk0NzQ@._V1_

Imagem: Netflix, 2017

Já “Metalhead” é o grande escorregão de Charlie Brooker. São quarenta minutos de completo desperdício de vida.

Movido por uma protagonista que não se sustenta, já que o roteiro não entrega para o público motivações suficiente para que ela aja da maneira que age, um vilão ultra-tecnológico que também não apresenta nenhum propósito a não ser matar e coadjuvantes completamente inúteis (em todos os sentidos, dentro e fora da narrativa), o episódio é completamente esquecível.

“Ah, mas há referências à Revolução dos bichos, de George Orwell e uma fotografia em preto e branco muito bonita”. Pois é, mas e a relação disso tudo dentro dos significados da narrativa? Completamente rasa. Roteiro preguiçoso, personagens planos e uma cena final enervante (no pior sentido do termo).

  • “Black Museum”

MV5BOThmNTcxZjctYTE4MS00OGM1LTk2NmEtNmE1M2YxNzExYzAxXkEyXkFqcGdeQXVyNjIwNzU1MzQ@._V1_

Imagem: Netflix, 2017

Após o desastre de “Metalhead”, “Black Museum” retoma a qualidade tão conhecida de Black mirror, trazendo tensão e aditivando ações humanas terríveis através da tecnologia.

O grande mérito do episódio não é, porém, seu final “surpreendente”, mas sim a estrutura de sua narrativa: com um personagem servindo de narrador para outras histórias dentro da história, “Black Museum” tem um ar de livro de contos de Stephen King, e uma das histórias contada pelo personagem, inclusive, poderia ter desenvolvimento próprio.

Essa história foi baseada num conto escrito por Penn Jillette, mas nunca publicado. O autor tentou publicá-la no final da década de 80, mas seu editor achou o conteúdo muito “sombrio”. Ele também tentou transformá-la em filme, na época, mas foi recusada novamente. Muitos anos depois, Jillette almoçou com Charlie Brooker e comentou sobre seu conto renegado. O criador de Black mirror gostou da ideia no mesmo momento e prometeu incluí-la, de alguma forma, na série. Cumprindo com sua palavra, Brooker baseou-se na história de Penn Jillette, intitulada “Pain addict”, para rechear grande parte de “Black Museum”.

E é “Pain addict” que devolve o tom de Black mirror para seu devido ritmo após o desastre em “Metalhead”.

MV5BMWM0ZDQxMjgtNDM0MS00MTQyLWEwZGMtMmIzMGNjMmViZTAwXkEyXkFqcGdeQXVyODE1MjY2NDk@._V1_SY1000_CR0,0,677,1000_AL_

Pôster: LA, 2017

Black mirror, criada por: Charlie Brooker; escrita por: Charlie Brooker, William Bridges; dirigida por: Jodie Foster, Toby Haynes, John Hillcoat, Colm McCarthy, David Slade, Timothy Van Patten.

Com: Daniel Lapaine, Michaela Coel, Georgina Campbell, Rosemarie DeWitt, Douglas Hodge, Maxine Peake, Jesse Plemons, Andrea Riseborough, Joe Cole, Brenna Harding.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s