Filmes

Star Wars: os últimos jedi

Se você prestar bastante atenção, Os últimos jedi (Star Wars: the last jedi, 2017) possui uma tríade de personagens que representam muito bem seus vários tipos de fãs. Tem-se, ali, Luke Skywalker (interpretado por Mark Hamill), o que é análogo aos fãs mais exigentes – poderia chamá-los de babacas, em muitos casos, mas vamos imaginar que vivemos em um mundo ideal; tem-se, também, a heroína Rey (interpretada por Daisy Ridley), representante do fã empolgado, aquele que precisa, mais do que tudo, ver o que acontecerá caso o fã exigente concorde com suas propostas; e, por último, tem-se Kylo Ren (interpretado por Adam Driver), o fã que já cansou de todo o bê-a-bá dos filmes mais antigos e precisa urgentemente recomeçar com ares novos uma franquia que já dura assustadores 40 anos.

A sorte de Os últimos jedi foi ter caído nas mãos de Rian Johnson. Diretor de poucos filmes (apenas um despontou mais no meio hollywoodiano – Looper: assassinos do futuro) e, entre outros, do episódio que talvez gerou mais polêmica dentro da série Breaking bad (“Fly” – isso mesmo, o famigerado episódio da mosca), Johnson permaneceu com uma bomba-relógio em suas mãos por pelo menos dois anos desde a estreia bem sucedida de O despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), pois, além de dar continuidade a uma das sagas com mais fãs em sua base, o diretor precisava trazer ares novos, assim como Kylo Rey deseja, mais do que tudo, dentro desse Episódio VIII. E digo que o filme teve sorte ao cair nas mãos de Rian Johnson porque, sim, Os últimos jedi é um filme muito interessante, diga-se de passagem. E o que o torna mais interessante talvez seja a ousadia pontuada de Johnson (que também escreveu o roteiro); pontuada pois o oitavo episódio de Star Wars não é um filme com mudanças espetaculares de roteiro ou cheio de ameaças ao cânone de George Lucas: Johnson sabe em que terreno está pisando e vai adicionar elementos aqui e ali que mudam o tom dentro dessa nova trilogia, mas talvez sem que o público, no geral, perceba. A saber.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Apesar de presente também no filme anterior, o alívio cômico é mais endossado nesse. É um detalhe que pode não pesar muito na balança final de “coisas que prejudicaram ou ajudaram o novo Star Wars”, se você pensar com cuidado, mas não esqueçamos de seu princípio básico: a diversão. Ora, ainda estamos falando de um filme, em sua, de aventura. Envolve aspectos de sci-fi, obviamente, mas Star Wars não deve ser desclassificado como um bom e velho filme-pipoca. É claro que toda a proporção alcançada pela saga eclipsou essa característica tão esquecida nos filmes do gênero atuais. Lembro-me, inclusive, que o último mais agradável nesse sentido, a ponto de dar um fôlego mais do que bem-vindo à filmografia de Steven Spielberg foi em 2011, com Tintim. É um filme que abraça os conceitos do filme-aventura e cria sequências de ação de encher os olhos e, ao mesmo tempo, não deixa de lado a comicidade das situações ali presentes. Há momentos, em Os últimos jedi, que um determinado comentário, um certo trejeito em um personagem ou até mesmo humor físico são empregados para que a plateia se divirta. E isso não é um crime à nossa inteligência.

Se em O despertar da força não poderia faltar os flares característicos de J. J. Abrams dentro de sua fotografia, Os últimos jedi traz rimas visuais esteticamente muito bonitas. Mas não para apenas na estética, Rian Johnson e o diretor de fotografia Steve Yedlin (parceiro de Johnson em outros dois longas do diretor e também responsável pela fotografia da adaptação mais recente de Carrie: a estranha, 2013) empregam significados muito particulares em cada rima ou sobreplano. E o mais interessante: não são significados impossíveis ou “cults” demais para o grande público não entender; são casos como quando Rey encontra-se contra a câmera, sua silhueta recortada pelo cenário que a envolve, para, logo depois do corte, vermos Kylo Ren na mesma posição de câmera, quase que “substituindo” a personagem anterior, num contraste bonito esteticamente falando e, ao mesmo tempo, com grande significado para a história ali contada. Johnson também retoma elementos clássicos do cinema, como uma cena de grande tempestade quando as personagens presentes encontram-se em um embate, ou uma fotografia bem avermelhada para introduzir o vilão do filme.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Comentei ali em cima um pouco da característica aventuresca do filme a partir do humor e dos alívios cômicos. Mas The last jedi vai além do humor nesse sentido. Há grandes sequências de ação para agradar os fãs, sejam os mais exigentes ou os presentes apenas pela diversão; em destaque: a sequência inicial com o piloto Poe Dameron (interpretado por Oscar Isaac) e seu fiel amigo de lata BB-8 e a debandada protagonizada por Finn (interpretado por John Boyega) e uma das novas personagens Rose (interpretada por Kelly Marie Tran). Ambas as cenas mostram o poder de entretenimento que Star Wars ainda pode produzir com suas novas histórias, mas, além disso, provam que Johnson é um diretor ciente de seu público diversificado a partir da introdução da saga com The force awakens: é preciso mostrar o que o público mais antigo e conservador quer ver e, ao mesmo tempo, introduzir elementos novos ou esquecidos para que o público novo e “transgressor” saia da sessão satisfeito. Não é um equilíbrio fácil de se encontrar e, quando encontrado, acertá-lo de maneira interessante; mas, ao aliar tais elementos de aventura e, além disso, introduzir aos poucos novas personagens – além de Rose, temos agora a presença da Vice-Almirante Holdo (interpretada por Laura Dern, fazendo os corações dos fãs de Jurassic Park suspirarem) -, Rian Johnson consegue entregar um episódio que sustenta a responsabilidade de toda a exigência de diversas gerações de público.

Aos poucos, a Disney começa a realizar aquilo que o “fã-Kylo-Ren” deseja: o que ficou no passado, é pra deixar lá. Com respeito, é claro, mas ainda assim é melhor deixar no passado. Não é à toa seu grande investimento em histórias paralelas que preencham lacunas no universo Star Wars, trazendo diretores com um pegada um pouco mais indie em Rogue One, por exemplo, e seguindo a tática de entregar o primeiro episódio da nova trilogia (a introdução para novas gerações de fãs e, consequentemente, novos consumidores de Star Wars) para mãos mais seguras, passar o bastão para um diretor mais “ousado”, em termos, no episódio de transição e, lá no final da trilogia, voltar para o colo mais seguro. É um projeto de saga bem seguro, devemos admitir. Por enquanto, tudo corre dentro do esperado; mesmo para um episódio de transição, o que mais pode gerar problemas por não conter, em tese, nem o começo nem o final da história (é só lembrarmos de grandes exemplos, como As duas torres, 2002, e O baú da morte, 2005, além de outros episódios de transição fora de trilogias, como Harry Potter e o enigma do príncipe, 2009), Os últimos jedi agrada por não carregar o peso de ser uma transição, é um filme que não faz questão de vestir tal designação e, justamente por isso, funciona muito bem.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2017

Em 2015, eu escrevi que restava saber se, para os próximos filmes, a Disney iria além da introdução de novos personagens. Parece que a Força ainda está com todos nós.

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Pôster: B O N D, 2017

Star Wars: the last jedi, escrito e dirigido por: Rian Johnson.

Com: Carrie Fisher, Mark Hamill, Daisy Ridley, Adam Driver, John Boyega, Oscar Isaac, Andy Serkis, Lupita Nyong’o, Domhall Gleeson, Anthony Daniels, Gwendoline Christie, Kelly Marie Tran, Laura Dern, Benicio Del Toro, Frank Oz, Joonas Suotamo

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Listas, Música

Os melhores discos de 2017

Dezembro chegou e está na hora de sentir, além do cheiro de Natal, ceia, chester, presentes e aquele churrasco em família que você quer evitar, o cheirinho de listas de melhores e piores do ano. Assim como todo ano, quando posto minha opinião sobre os melhores filmes que assisti, hoje é dia de ler uma lista de quinze álbuns musicais que me agradaram bastante. Não que você tenha pedido por essa lista, mas é sempre bom descobrir coisa nova, ainda mais quando se fala em música. Como sempre, minha lista não será um ranking, muito menos estará na ordem por preferência – seja ela qual for -; para não haver injustiças entre as obras, vou colocá-las por ordem alfabética de artistas, e aí cabe a você julgar e dar uma chance para cada uma delas.

Ah, caso você queira conhecer a lista do ano passado, é só clicar aqui.

Sem mais, eis os quinze discos que mais ouvi e gostei ao longo de 2017.

“Everything now”, por Arcade Fire

arcade fire

Minha relação com Arcade Fire intensificou-se em 2013 quando os canadenses lançaram Reflektor, um de seus trabalhos mais ambiciosos, passando por temáticas muito caras a mim – como a mitologia clássica grega e romana. Este ano, porém, a banda mergulhou em uma onda crítica através da criação de uma corporação fictícia chamada, obviamente, Everything Now, investiu em um marketing pesado (o que transformou-se em uma autoironia deliciosa ao longo do disco) e nos presenteou com um álbum que não deixa de lado o jeito Arcade Fire de ser, ou seja, corais de vozes, arranjos de cordas que se espalham ao longo das faixas e letras cujo conteúdo deixa você para baixo quando menos espera (vide “We don’t deserve love”, a derradeira música). O vocalista Win Butler deixou claro, desde o início, a influência principal para Everything now: o grupo pop sueco ABBA, impossível de notar já nas primeiras notas do piano da faixa-título. Viajar por esse disco é passar por assuntos que variam de intensidade, mas todos apontam para a mesma direção: é preciso tomar cuidado com o mundo atual, já que queremos tudo e para já (é a mensagem inicial em “Everything now”) e, no final, nós ficamos sem aquilo que, invariavelmente, mais importa (o recado sem volta da última faixa, a já citada “We don’t deserve love”). De quebra, a primeira e última “música” do disco são, na verdade, metades de um mesmo todo, que, se ouvido em plataformas digitais, causam a sensação de infinito, de algo cíclico, algo explorado pela banda desde a divulgação embrionária de Everything now. Respire fundo e aproveite o Arcade Fire de 2017. No próximo disco eles provavelmente não serão mais os mesmos. Ainda bem.

» Ouça / veja: “Everything now“, “Creature comfort“, “Electric blue

“Utopia”, por Björk

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Se em 2015 a islandesa Björk sofria com o recente término de seu casamento e expressava sua dor no ótimo Vulnicura, a ordem agora é sentir o extremo oposto. Utopia, ao contrário, é uma ode idílica à felicidade e aos sentimentos positivos. Repleto de samples com sons de pássaros cantando, flautas doces e batidas eletrônicas que remetem a paisagens serenas e distantes, o novo disco é a cicatriz definitiva para a sangria de Vulnicura. Ainda em parceria com o produtor deste, o colombiano Arca, Björk aqui vai soar levemente como sua persona do começo da carreira solo, lá nos idos dos anos 90, seja por sua voz cada vez mais poderosa, seja pelos arranjos que misturam o poder da eletrônica com a força dos instrumentos clássicos, tornando Utopia um disco ainda para poucos (afinal, estamos falando de Björk e seu estilo peculiar), algo presente desde sua capa, uma imagem difícil de agradar os olhos logo de primeira. Em entrevistas, a cantora afirmou que Utopia é seu Tinder musical; depois de algumas audições, dá para perceber porque a brincadeira de Björk faz sentido: Utopia pode impactar menos que seu antecessor, mas não deixa de ser uma brincadeira sonora divertida de experienciar. Mal não vai fazer.

» Ouça / veja: “The gate“, “Blissing me

“Nues”, por Brigitte

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A fim de conhecer um som que foge do comum? Bem, dá para indicar um dupla de pop-folk francês, está bom para você? Aliás, por mais indie que isso soe, depois de ouvir pela primeira vez o duo Brigitte, formado pelas parisienses Aurélie Saada e Sylvie Hoarau, impossível não dar a elas uma segunda chance. Conheci o som de Brigitte por acaso, vendo o clipe para a música “Hier encore“, do disco anterior, uma faixa que revive a música disco dos anos 70 de maneira genuína, lembrando muito “Voulez-vous”, do ABBA, e soando agradavelmente para qualquer ocasião. As vozes de veludo de Aurélie e Sylvie continuam encaixando-se harmoniosamente com as novas canções de Nues, numa investida que, ao mesmo tempo, não se arrisca muito (afinal, ainda há flertes bem sucedidos com o disco) e transgride um pouco a própria zona de conforto como em “La morsure”. Seja em som ambiente para um jantar entre amigos ou ferveção geral numa pista de dança mais alternativa, Brigitte é uma descoberta deliciosa. Não perca mais seu tempo.

» Ouça / veja: “Palladium“, “La morsure“, “La baby doll de mon idole

“Pleasure”, por Feist

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Ainda numa pegada mais independente, o novo disco da Feist já pode entrar na lista de álbuns prontos para te deixar um pouco mais na bad. Não que seja um lamento sem fim: “Pleasure”, como o próprio nome diz, vai girar em torno desse sentimento tão almejado por nós, seres humanos. Da faixa-título à última música, a cantora não deixa nada tematicamente de lado. A economia no arranjo, usando poucos instrumentos para cada música, dá um toque ainda mais rústico para o material do álbum. Substitua a Feist “animadinha” do relativo sucesso comercial “Mushaboom” (música inclusive pertencente à trilha-sonora de (500) dias com ela [(500) days of summer, 2009] pela cantora mais madura e segura de si em Pleasure.

» Ouça / veja: “Pleasure“, “Century

“Something to tell you”, por HAIM

haim

Foram longos e arrastados quatro anos de espera entre o primeiro e fantástico álbum de estreia das irmãs HAIM, Days are gone, em 2013, e o atual Something to tell you. A espera, no entanto, valeu cada minuto. Ainda banhando-se em suas influências musicais oitentistas e produzindo um som rejuvenescedor para qualquer ouvido, o pop de HAIM não veio para brincar; as três irmãs, com formação musical desde a infância por causa dos pais músicos, cantam, mais uma vez, essencialmente, sobre o amor; melhor dizendo: cantam sobre os sentimentos pós-relacionamento. Se elas têm algo a nos contar, como o nome do disco sugere, com certeza será por meio de batidas pegajosas, sintetizadores que ainda remetem muito bem aquele Michael Jackson de Thriller e letras com melodias intricadas, mas totalmente chicletes. Para se apaixonar de vez por elas, vale conferir os clipes lançados ao longo dessa nova fase, sua maioria dirigida pelo cineasta Paul Thomas Anderson; neles, fica mais do que claro o talento de cada uma delas, não apenas como profissionais da música, mas também como atrizes diante de uma câmera. É muito talento para três irmãs.

» Ouça / veja: “Right now“, “Want you back“, “Valentine“, “Little of your love

“hopeless fountain kingdom”, por Halsey

halsey

A voz de Halsey estourou com o single “Closer”, dos Chainsmokers, no ano passado. Mas seu talento vai muito além de emprestar os vocais para duplas de música eletrônica. Porém cuidado: aqui a bad é confirmada. Mais do que isso, hopeless fountain kingdom é uma carta endereçada aos corações frustrados, esquecidos e esmagados. Não que você não irá aproveitar caso não esteja em nenhuma das situações anteriores; o álbum traz arranjos pop prontos para a recepção comercial de uma estação de rádio, e também consolida, no mercado, mais uma cantora da atual geração de cantores que agora, além da venda de discos, precisam disputar atenção na internet e, consequentemente, dentro das paradas dos serviços de streaming.

» Ouça / veja: “Bad at love“, “Strangers

“Coração”, por Johnny Hooker

johnny hooker

Há uma leva nova de artistas brasileiros extremamente bons. Silva, Mahmundi, Liniker, só para citar alguns. Dá para incluir nesse grupo também Johnny Hooker. Dono de uma voz forte e rasgada, repleta de personalidade, Hooker já era conhecido por sua música “Volta”, presente na trilha-sonora do ótimo Tatuagem (2013), mas em Coração sua presença vem para marcar-se ainda mais no cenário musical nacional. Já iniciando com uma entrada impactante em “Touro”, Coração é um desfile de produções musicais arrojadas, com direito a temáticas populares, universais e pessoais. Com participações de Gaby Amarantos (e que adiciona uma camada de força ainda maior para a faixa “Corpo fechado”) e Liniker (“Flutua”), o disco ainda termina com uma marchinha de carnaval à la crítica social que cai com uma luva para os tempos conservadores do Brasil de 2017. Quem será o sortudo a conquistar o coração de Johnny Hooker?

» Ouça: “Touro“, “Caetano Veloso“, “Escandalizar

“DAMN.”, por Kendrick Lamar

kendrick lamar

Engraçado como as coisas são. Ano passado descobri o som de Frank Ocean. Neste ano, foi a vez de Kendrick Lamar. Digo que as coisas são engraçadas pois Lamar é um dos rappers mais críticos à sociedade americana e mundial na qual vive atualmente, mas é a mesma sociedade, em sua modernidade líquida efêmera, que fez dele um sucesso comercial. Não que isso seja de todo ruim, afinal, ser conhecido agora, faz com que sua música seja mais ouvida e descoberta por mais gente. E foi o meu caso. Talentoso com as rimas que produz, as melodias que percorrem as batidas fortes desse seu DAMN. atingem até mais os menos empáticos com os problemas sociais enfrentados pelas minorias. Impossível não se deixar levar pelos primeiros versos em “BLOOD.” e viajar através das palavras cantadas de Kendrick Lamar. Música de primeira qualidade.

» Ouça / veja: “HUMBLE.“, “DNA.“, “ELEMENT.“, “LOYALTY. (feat. Rihanna)”

“Rainbow”, por Kesha

kesha

Cinco anos com muitos processos e angústias depois, Kesha volta fortalecida. Ainda com um pé no pop / punk peculiar ao seu estilo, com pitadas de glam rock, a cantora agora precisa desabafar. Metáforas? Analogias elaboradas? Não. Kesha prefere ser direta ao ponto. E se Rainbow começa com “Bastards”, uma canção que mais parece fim de balada do que introdução a um álbum pop, o seu recado chega de maneira efetiva. Cansada com tudo e com todos, ela canaliza sua raiva, rancor e mágoas nas músicas, estas que variam entre baladas catárticas como “Praying” e pop rock de garagem como a deliciosa “Let ‘em talk”. Há espaço também para um feminismo direto e reto em “Woman”, uma das músicas com mensagem mais direta a todas as polêmicas envolvendo seu antigo produtor, o mainstream Dr. Dre. Esqueça a Kesha pop-farofa de “Tik tok” e “Shake it off”; se você ainda quer ouvir suas músicas, é preciso se preparar para uma Kesha mudada – mas também liberta de todas as suas correntes. Um alívio para os ouvidos.

» Ouça / veja: “Praying“, “Woman (feat. Dap-Kings)”, “Learn to let go“, “Rainbow

“american dream”, por LCD Soundsystem

lcd soundsystem

Se James Murphy foi um dos principais responsáveis pela identidade sonora do álbum Refletor, do Arcade Fire, ao ouvir american dream, as coisas ficam bem claras. Seu estilo paulatino, com faixas estendidas, texturas sonoras que vão uma se acumulando à outra ao sabor de cada compasso, faz desse novo disco uma apoteose sonora. Não ouça american dream com pressa, muito menos desatento. A experiência completa exige de você uma audição atenta e minuciosa, ou grande parte da riqueza dos arranjos eletrônicos de Murphy se perderá. E se David Bowie, à época, praticamente exigiu que James Murphy voltasse e revivesse o LCD Soundsystem, não podemos ignorar sua música.

» Ouça / veja: “call the police“, “american dream“, “tonite

“Ti amo”, por Phoenix

phoenix

Os franceses do Phoenix já têm uma carreira sólida, diga-se de passagem. Talvez seja essa segurança que forneceu ao grupo a vontade de criar um álbum como Ti amo. Repleto de referências ao verão europeu, o disco é, assim sendo, uma homenagem à estação do ano dedicada às praias, calor, suor, sorvetes e férias. Aliás, ouvir Ti amo é ser transportado a uma praia italiana, com direito a um gelato nas mãos, óculos escuros no rosto e protetor solar na ponta do nariz. É um som refrescante e animador, com a presença óbvia dos já famosos sintetizadores do Phoenix, além da voz ardida do vocalista Thomas Mars. Não se engane, apesar do grande sucesso, Phoenix vai muito além do hit “1901”.

» Ouça / veja: “J-boy“, “Ti amo

“Villains”, por Queens of the Stone Age

queens of the stone age

Gutural, dilacerante, grave. São bons adjetivos para definir o novo disco dos QOFTSA. A entrada triunfal com “Feet don’t fail me” só é a ponta do iceberg, pois há toda uma progressão temática e musical ao longo das 9 faixas. Espere por guitarras inspiradas e baixos comandando o tom de cada música, numa sinfonia digna da palavra rock’n’roll. Não é um disco longo porém: em menos de 50 minutos, os Queens of the Stone Age dirão o que têm pra dizer. E bem dito.

» Ouça / veja: “The way you used to do

“Wonderful wonderful”, por The Killers

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Muita gente torceu o nariz para Battleborn, o até então último lançamento de estúdio dos Killers. A banda de Las Vegas, que começou no meio indie e estourou com “Mr. Brightside” e “Somebody told me” lá nos já longínquos 2004 hoje não pode mais se considerar pequena. Dona de shows gigantescos em arenas e estádios completamente abarrotados de gente em todo o mundo, The Killers atingiu seu topo com Day & age, em 2008, com produção de Stuart Price. Battleborn, no entanto, foi um balde de água fria para muitos dos fãs. Muitas pessoas acusavam a banda de estarem piegas demais, romântica demais. Outros já sentiam falta do empoderamento de Brandon Flowers e sua voz dolorosa em hits fabricados para serem tocados justamente nas arenas e estádios lotados. O fato é que, após um bom hiato de cinco anos, The Killers está de volta, e definitivamente não é a mesma. Em termos. Sua configuração de integrantes mudou, seu estilo também. Há, porém, aquele flerte com a fórmula de sucesso de “Mr. Brightside” no novo hit “The Man” e na potencialmente futuro hit “Run for cover”. Wonderful wonderful não se basta nos hits, todavia; há uma introdução apocalíptica, com toques bíblicos, uma marca recorrente na discografia da banda, com a faixa-título; “Life to come” é U2 sem tirar nem pôr, e não soa nem um pouco mal. Para aquela metade que não se importa com os Killers mais românticos e piegas, “Some kind of love” deverá agradar bem. Após experimentar e beber de diversas fontes, The Killers parece sinalizar uma estabilidade maior em seu estilo. Não é, de todo, uma preocupação, já que a qualidade de Wonderful wonderful não foi comprometida. Resta saber se a banda sobreviverá mais uma década sem se render ao cansaço. Esperamos muito que não.

» Ouça / veja: “The man“, “Run for cover

“I see you”, por The xx

the xx

É oficial: The xx agora está com seus pés no pop. Mas acalme-se: sua alma indie ainda persiste. Os manejos com os diversos samples do produtor Jamie Smith dão o tom alternativo para o novo álbum da banda, enquanto as vozes dos vocalistas Romy Madley e Oliver Sim confrontam-se e entrecortam-se de maneira harmônica. É o velho esquema de The xx que não falha, mas voltado para uma proposta mais aberta, sonoramente falando. I see you, inclusive, possui um tom mais positivo e menos introspectivo como os discos anteriores do grupo, xxCoexist.

» Ouça / veja: “On hold“, “I dare you

“What if nothing”, por WALK THE MOON

walk the moon

Foi difícil me desapegar do som de Talking is hard, álbum anterior da banda americana. WALK THE MOON possui um som pop que, apesar de todo o apelo comercial que possui, não se rende tão fácil ao som feito para o rádio. Ainda menos nesse novo disco, What if nothing, sendo “One foot”, talvez, a única exceção nesse sentido. Explorando experimentalismos mais elaborados nesse novo disco, a banda abusa mais de vocoders – em alguns momentos, distorcendo tanto a voz, tornando-a quase irreconhecível. Mas há, ainda, a temática mais recorrente para o grupo, ou seja, o constante pensamento naquele relacionamento que já acabou em “Surrender”, além de refrões extremamente pegajosos, como em “In my mind” e “Lost in the wind”. Ainda não me desapeguei de Talking is hard, mas será uma questão de tempo para me apegar demais ao What if nothing e o ciclo recomeçar.

» Ouça / veja: “One foot

(Bonus Track)

“Ici & maintenant (Here & now)”, por Yelle

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Yelle talvez seja uma das cantoras pop francesas mais interessante da última década. Ela começou a produzir e publicar música nos idos de 2007, ainda no jurássico MySpace. Na época, seu maior sucesso era a grudenta “Ce jeu”. Talvez seu álbum maduro seja o último lançado, Complètment fou, de 2014, com uma produção muito mais arrojada, mas sem perder o DNA de Yelle: sua irreverência e excentricidades pop. Como bônus, indico esse single lançado pela cantora este ano. Repleto de ironias aos problemas tão presentes nas vidas das pessoas do século XXI (ansiedade, depressão, hipocondrias no geral), a música carrega a identidade sonora da cantora, e é uma ótima porta de entrada para sua discografia ainda pequena, mas muito profícua. Vale a pena dar uma olhada.

» Ouça / veja: “Ici & maintenant (Here & now)

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