Livros

“It: a coisa”, de Stephen King

Tive uma relação complicada com a considerada obra-prima de Stephen King. Comecei a ler A coisa em dezembro de 2012, numa horrível edição pocket em inglês. Comprei o livro, na época, por dois motivos: para não deixar de treinar o contato com a língua e também para conhecer o tão comentado livro. Além disso, Stephen King foi um dos autores que me introduziram ao hábito da leitura, no começo da adolescência. Na época, ganhei A hora do vampiro de presente da minha mãe (hoje, com outro nome, Salem), da velha coleção em capa dura que a Planeta deAgostini lançou, na época, nas bancas – e bem depois fui me tocar que eram edições horrorosas, com uma diagramação terrível, letra pequena, espaçamento menor ainda. O fato é que me apaixonei pela narrativa de King, e isso ainda porque não era nem o melhor livro dele.

Um tempo depois, ganhei, de aniversário, O cemitério. Apesar de ter gostado bastante de A coisa (como ainda vou explicar com mais detalhes ao longo desse texto), O cemitério foi, e ainda é, para mim, o melhor livro do mestre. Não apenas pelas reviravoltas ao longo da história, mas principalmente por seu clima de suspense que vai aumentando até transbordar-se no mais puro terror. A leitura deste foi decisiva para mim: eu gostava muito de Stephen King. No entanto, nessa minha primeira leitura de It, em 2012, minha perspectiva para o tipo de literatura que ele cria mudou radicalmente. Na época, me cansei da narrativa prolixa, dos inúmeros personagens, do desenvolvimento lento da ação. Resultado: abandonei A coisa na metade da história, lá pela página 500 e pouco. Alguns acharam loucura eu tomar essa decisão, já que estava com meio caminho andado em um livro tão grande. Mas não me arrependi.

Então, no fim de novembro do ano passado, entrei em uma FNAC e encontrei a edição nova do livro, em português, em promoção (tinha acabado de passar a Black Friday). Era uma promoção realmente muito boa para deixar passar. Comprei o tijolão prometendo a mim mesmo que daria uma segunda chance à história e que leria de uma vez só, sem me deixar levar pela tentação de abandoná-la no meio do caminho novamente. Eu realmente não sei o que funcionou melhor: a promessa, a determinação ou a promoção; apenas sei que passei dezembro lendo It: a coisa, revisitando a fictícia Derry e seus habitantes, me juntando novamente ao Clube dos Otários e me emocionando com seus medos, dores e sacrifícios.

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Doar-se

Antes de mais nada, é preciso ter claro em mente que dedicar-se a uma leitura como essa de It não é um processo tranquilo. Mesmo que você se apegue bastante aos personagens e à narrativa em si, mesmo que você se habitue ao estilo do autor, mesmo que você passe os dias curioso para saber o que vai acontecer nas próximas páginas, ler um calhamaço é um teste constante de algo que cada vez menos temos (ou cada vez menos temos oportunidade de desenvolver): paciência. Se você se entedia facilmente com filmes longos, passeios tranquilos demais e ambientes silenciosos, fazer leituras de livros que tenham mais de mil páginas não será muito sua praia. Porém, é sempre possível achar uma exceção, mesmo que leituras demoradas não façam seu estilo; ou, em outros casos, você pode até não se importar com a quantidade de páginas de um livro – desde que ele seja um bom livro -, e mesmo assim não curtir a história ou o estilo do autor (que foi o meu caso, em 2012).

Bem, se mesmo assim você estiver disposto a passar uma quinzena ou até um mês diante das páginas de A coisa, saiba que, de diversas maneiras, sua dedicação será recompensada. O livro é realmente muito bom como a maioria alega. E sim, ele pode ser considerado a obra-prima de Stephen King (digo isso num sentido geral, da opinião pública e especializada, pois por mim mesmo ainda não posso afirmar por completo, já que não li todas as obras dele para atestar que It é realmente a melhor). Os motivos para que eu afirme tudo isso são muitos, mas creio que o principal vem de um detalhe: o livro não é propriamente de terror, como todos pensam quando leem sobre. Ele é mais um encontro de diversos gêneros literários, como se King desejasse incluir, na mesma história, tudo o que ele havia tentado antes e deu certo – e, em entrevistas, o autor afirmou que sua vontade foi exatamente essa. Claro que A coisa é repleto de cenas de horror, causando suspense, medo, terror e até asco, em alguns momentos (mais sobre isso daqui a pouco). Mas iniciar sua leitura esperando que seja apenas isso será um tiro no próprio pé.

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Pennywise

Após concluir a leitura, algo ficou uns dias girando na minha cabeça. O sucesso de Stephen King vem não apenas do apelo popular de suas obras, mas como ele usa desse artifício para ir um nível mais abaixo, mais profundo. Pensei exatamente nesse ponto porque uma figura que sempre volta à minha mente quando relembro a leitura de It é, como esperado, o palhaço Pennywise. É interessante porque, para atrair suas vítimas, o ser (acho que esse termo é o que melhor o, ou a, define) conhecido como Coisa toma a forma de um palhaço aparentemente gentil. Depois de refletir um pouco sobre isso, cheguei à conclusão de que aí está o que poderíamos chamar de genialidade – ou, se não quisermos exagerar tanto, esperteza – de Stephen King: ele se apropria de uma figura popular (o palhaço) como símbolo para toda uma alegoria que irá permear os cantos mais obscuros e os mais óbvios da história. Pensem bem: mesmo quem não tem medo de palhaços, pode considerá-los criaturas assustadoras, macabras até. Tendo isso, é possível um mundo de horrores prontos para serem degustados por leitores ávidos em busca de terror, seja ele sutil ou escatológico. E It: a coisa é uma bandeja completa de terrores.

Sim, terrores. A figura do palhaço, que se desmembra em diversas outras (o Lobisomem, o Leproso, a Múmia, etc), começa a alimentar os medos de cada personagem da história, e esses medos terão níveis de intensidade diferentes, gerando, por consequência, cenas que vão desde o mais barato susto até a concretização de algo completamente nojento. Além disso, o terror não reside apenas em Pennywise. Ele é, na verdade, a concretização dos medos das crianças – e, mais tarde, de suas versões adultas -, medos esses que vêm de suas próprias vidas. Ben, o gordo; Bill, o gago; Richie, o incoveniente; Eddie, o hipocondríaco; Stan, o judeu; Mike, o negro; Bev, a mulher. Cada um possui um “defeito” apontado com dedos vigorosos pela sociedade da época (mas que cai como uma luva para a sociedade de hoje também), um prato completo para que a Coisa entre em ação, utilizando desses “defeitos” para atingir cada personagem. E consegue, é claro. Assim, A coisa não é um livro de terror que o coloca em primeira instância para justificar sua história. Ele é a justificativa da história, uma inversão primorosa e que encaixa de maneira orgânica ao enredo que, no final das contas, possui a estrutura de um romance de formação.

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O verdadeiro horror

O que nos leva ao principal do livro: aqui, o narrador de King vai esmiuçar a história de cada personagem, desde a sua infância até a fase adulta (a pior). É por isso que ler It é doar-se, pois o tempo dispensado para esse detalhamento é grande, muito grande, justificando suas 1102 páginas de história. Alguns, em um primeiro momento, poderão ter a impressão de que isso é apenas encheção de linguiça (eu mesmo, em 2012, pensei assim), mas todas as coisas contadas ao longo de capítulos super extensos e interlúdios não muito menores estão ali por uma razão. Elas acabam se ligando a alguma informação lá na frente, é só aguardar. E aquelas que não se ligam de imediato, tem uma correlação mais tênue, quase temática.

Nessa enxurrada de detalhes, o narrador vai e volta no tempo, colocando lado a lado as diferenças e semelhanças extenuantes das crianças e de seus eus adultos. Com isso, o leitor passa a observar que, mesmo crescidos, os personagens carregam ainda muito de si da infância, muitas das vezes inconscientemente (como Eddie e seu casamento, Bev e seu casamento). E o estreitamento das duas linhas temporais, quase se juntando na parte final, fazendo com que a voz do presente se ligue (literalmente) à voz do passado, deixa essa intenção mais do que clara. E o amargo que o resultado dessa comparação no tempo traz é muito indigesto. Triste, melancólico. Vazio. Mas importante. Trivial. É com ele que o leitor vai perceber que o principal terror de It: a coisa não são seus monstros, seus pesadelos, suas cenas grotescas. É o fato de que, por mais que sua infância seja feliz, divertida, idílica, você cresce. Você, em algum momento, se transforma em um adulto. Cheio de trabalho, preocupações, contas para pagar e angústias diárias para lidar. Esse, no fim das contas, é o verdadeiro horror.

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A edição

Após a venda da Editora Objetiva para a Companhia das Letras, a obra de Stephen King passou a ser editada pelo selo Suma de Letras. Não que isso seja ruim, muito pelo contrário. Abandonados ao marasmo de edições tenebrosas da época da Objetiva, os livros de King eram publicados com folha branca, letra miúda e espaçamento horrível. Uma tortura para qualquer leitor. Agora, alguns upgrades necessários foram feitos.

Folha amarelada, fonte grande e espaçamento confortável para os olhos de qualquer mortal. E apesar do calhamaço que A coisa é, a gramatura do papel colabora para um peso razoável – não digo que é um livro leve, mas apesar de sua grande quantidade de páginas, ele surpreende por não ser tão pesado. Sem contar, é claro, toda a parte gráfica das capas, completamente reformuladas em relação às edições antigas, que possuíam a mesma identidade visual no nome do autor e títulos. Agora, cada obra possui seu estilo independente.

Algo que pode deixar os mais exigentes felizes é sua revisão. Realizada por Rita Godoy e Ana Kronemberger, creio ter encontrado, no máximo, 10 erros (e completamente compreensíveis, algo como faltar uma letra ou duas palavras, na sequência, invertidas) ao longo de todo o livro. É bem considerável, convenhamos. Além, é claro, da tradução de Regiane Winarski, que realizou algumas mudanças em relação à tradução da edição antiga (como manter, sabiamente, o nome de Pennywise no original – na outra edição era Parcimonioso) e que manteve o estilo de King de maneira competente.

» Uma curiosidade: o livro demorou 4 anos para ser escrito, de 9 setembro de 1981 a 28 de dezembro de 1984.

» Procurando vídeos e textos sobre o livro após ter terminado minha leitura, encontrei esse (que não é o melhor do mundo, apesar de alguns apontamentos relevantes) em que há a indicação de um artigo extremamente bom sobre A coisa (mas que, infelizmente, está em inglês), e que levanta questões e discussões bem boas sobre a história e todo o entorno de sua escrita e publicação – além de uma análise sobre a cena, talvez, mais polêmica de It, envolvendo a menina Beverly. Ah, devo avisar que este texto linkado está repleto de spoilers, então leia por sua conta e risco.

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Capa: Rodrigo Rodrigues / Suma de Letras / Editora Objetiva, 2014

It, de Stephen King. Publicado pela Suma de Letras.

Tradução de Regiane Winarski, 1104 páginas.

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7 comentários sobre ““It: a coisa”, de Stephen King

  1. Oi. Eu nunca li uma obra do King. Tentei duas vezes com dois livros diferentes, mas nunca consegui passar da página 100. Pois tenho a impressão que são à história nunca acaba e porque estão sempre acontecendo várias coisas. Não só pelo tamanho (coisa que não me influencia), mas também pela narrativa.
    Ler It – A Coisa ainda permanece como um dúvida para mim. Mas ganhei um pouco de entusiasmo com sua resenha. Obrigado.

    http://www.fanficcao.wordpress.com

    • Oi, Jessica! Tudo bem? Essa impressão sua não é incomum, então não se preocupe. O Stephen King é assim mesmo, pra contar uma história ele não vai medir palavras. Um conselho que te dou: leia os livros dele (se você der uma chance) sem se preocupar em acabar logo e também sem se importar com o final (alguns podem parecer um pouco decepcionantes). Não desista dele ainda, alguns livros são muito bons! Obrigado pela visita e volte sempre que quiser. 🙂

    • Ah, leia o quanto antes puder! É um livro que exige de você, mas que te recompensa muito ao fim da leitura. Fico contente que tenha gostado da resenha! Volte quando quiser para o blog. 🙂

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