Filmes

Mogli: o menino lobo

Os primeiros acordes de “Jungle beat” começam a tocar logo no início de Mogli: o menino lobo (The jungle book, 2016), uma referência afetiva para qualquer criança que cresceu assistindo à animação clássica – a última supervisionada pessoalmente pelo próprio Walt Disney – de 1967, e tal música já é o suficiente para estabelecer o clima da nova versão, convidando a geração nova a conhecer as aventuras do menino criado entre os lobos e praticamente pegando no colo o adulto que um dia, lá atrás, ouviu-a pela primeira vez ao descobrir um dos filmes mais divertidos da casa do Mickey.

Não são apenas as referências, no entanto, que fazem dessa nova versão um filme interessante. O longa traz de volta ao foco uma das histórias publicadas em Os livros da selva (The jungle books), de Rudyard Kipling, um compilado que juntou as crônicas do autor, publicadas em revistas, a partir de 1894; o que o inglês nunca deve ter imaginado foi a possibilidade de seu personagem mais icônico, um dia, estrelar um filme live action – técnica que mistura atores reais com animação. A mistura, no caso, se dá com o ator Neel Sethi (que interpreta Mogli) e o restante das personagens, todas incorporadas através de criações digitais incrivelmente realistas.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

No comando de toda essa computação gráfica e um ator de carne e osso está Jon Favreau, diretor, entre tantos, dos dois primeiros Homem de ferro (Iron man, 2008 e Iron man 2, 2010) e do ótimo Chef (idem, 2014). Favreau parece não titubear diante de toda a tecnologia envolvida para dar vida a Mogli, apesar de usar câmeras trêmulas em diversas sequências de ação que comprometem um pouco a beleza da coreografia das personagens e a presença do cenário ao redor – muito belos, diga-se de passagem. Tem-se a toca dos lobos, envolvida por uma paleta de cores em tons pastéis, discretos (assim como tais animais ali são); as cascatas dentro da selva, outra referência direta ao clássico de 67; as planícies recobertas por uma relva alta e amarelada, muito propícia a ataques surpresa, entre muitos outros. É notável, inclusive, a forma como o cenário em torno de Mogli se alegra quando este encontra pela primeira vez o preguiçoso e golpista Balu, com flores aqui e ali brotando entre os arbustos, além do amarelo-âmbar reluzindo nos favos de mel cobiçados pelo urso. O mesmo se aplica à parte sombria e enevoada da selva dedicada a abrigar a cobra Kaa, muito mais ameaçadora nesta versão.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Com uma ambientação que parte dos cenários já estipulados no filme clássico, mas os extrapola de maneira positiva, o Mogli de Favreau também reapresenta personagens mais do que conhecidas pelo público – como os já citados Balu, o urso, e Kaa, a cobra –, muda algumas outras, como os elefantes, que possuíam diversas cenas na animação de Walt Disney e, neste, têm um ar mais austero, mais silencioso, além de simplesmente suprimir outras: é o caso do quarteto de abutres que, no filme original, serviram de homenagem aos Beatles (como esquecer da hilária cena com o “e então, qual é a jogada?”) e auxiliam de maneira importante na jornada do protagonista. Tais mudanças, no entanto, não comprometem o enredo, nem o ritmo do longa, fornecendo mais tempo para a caracterização do chipanzé Rei Louie, por exemplo, que aqui está mais ameaçador, cercado por uma escuridão perigosa.

É claro que os espectadores não vão deixar a projeção sem ouvir versões repaginadas – e agradáveis – de versos como “necessário, somente o necessário” e “eu sou o rei do balanço, e brasa eu vou mandar”, músicas estabelecidas através do tempo com o clássico de Disney e que, mesmo agora, dentro de um filme mais sério, mais “realista”, funcionam de maneira orgânica, dando um alívio para a plateia e, ao mesmo tempo, incluindo mais referências.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Outro ponto interessante é como Jon Favreau pensou em abordar a presença dos homens neste The jungle book. Se, no filme de 1967, Mogli repudiava a ideia de voltar para aldeia de homens, no novo longa ele se mostra menos agressivo a tal sugestão. A forma como sua história é contada, inclusive, através (literalmente) dos olhos da cobra Kaa, é uma das principais e mais belas cenas do filme, com transições muito bonitas (esteticamente falando) e fotografia contrastante – priorizando a luz do fogo e sombras projetadas contra a parede de uma caverna, muito significativas para a história.

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Imagem: Walt Disney Pictures, 2016

Aos fãs, um suspiro de alívio; aos estreantes no mundo aventuresco de Mogli, um filme divertido, que não deixa de lado momentos de humor e se dá o direito de ter uma ou duas cenas de susto (podendo levar os espectadores a pularem de suas poltronas). Uma boa opção para crianças e adultos, Mogli: o menino lobo faz questão de fechar sua história com mais uma referência: o livro que deu origem ao filme, sobre um tecido azul, apresenta os créditos finais (a mesma cena do início da animação clássica); portanto, não saia da sala antes de vê-los.

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Pôster: BLT Communications, LLC, 2016

The jungle book, dirigido por: Jon Favreau; escrito por: Justin Marks (baseado na obra Os livros da selva, escrito por Rudyard Kipling).
Com / vozes originais de: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Scarlett Johansson, Lupita Nyong’o, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, John Favreau, Sam Raimi.

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