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Deadpool

O brilhantismo e complexidade do Coringa interpretado por Heath Ledger em Batman: o cavaleiro das trevas (The dark knight, 2008) são resultados, de certa forma, da maneira como a personagem foi apresentada ao público logo no começo do filme. A bela panorâmica que abre o filme, aproximando-se de um arranha-céu espelhado, seguida por toda a articulação de um plano de roubo a um banco, é repetida, em um paralelismo elegante, num travelling vagaroso, que se aproxima das costas de um homem aparentemente comum, segurando uma grande mochila em uma mão e uma máscara em outra. Apesar de o público desconfiar da identidade daquele homem, só fica mais claro para todos, minutos mais tarde, que o diretor e roteirista Christopher Nolan já preparava o terreno para o anti-herói responsável por ofuscar inclusive o brilho do próprio Batman.

O início de Deadpool (idem, 2016) também tem essa intenção de nos apresentar o protagonista do filme. Fugindo de toda a normalidade, porém, o estreante em longa-metragens, Tim Miller, dirige uma cena não apenas esteticamente bem realizada, mas também responsável por estabelecer o clima e a própria história de Deadpool. Toda em super câmera lenta, a sequência aproveita a baixa velocidade para apresentar créditos iniciais que satirizam a própria produção do filme (“estrelado por um grande idiota”, “escrito por dois roteiristas – estes sim são bons de verdade!”), uma metalinguagem presente em todo o longa, com o próprio protagonista quebrando a quarta parede a todo instante, fazendo piadinhas com o público e deixando clara sua opinião sobre diversos aspectos do filme em que se encontra. A trilha sonora, nessa cena, surge como uma ironia fina para a situação, coroando, logo de cara, o filme e preparando o público para o clima de toda a história.

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Imagem: 20th Century Fox, 2016.

É importante ressaltar que o anti-herói Deadpool não teria o mínimo êxito no cinema se não fosse por todo o trabalho vocálico e corporal do ator que o interpreta. Ryan Reynolds consegue demonstrar tênues diferenças entre ironia, sátira e puro desprezo com apenas uma mudança em sua entonação ou com um gesto específico do corpo: o modo como senta no chão, apoiando a cabeça em uma das mãos, as pernas cruzadas displicentemente ou quando finge-se de assustado, colocando as duas mãos no rosto e “arregalando” os olhos da máscara, emitindo um “oh!” nem um pouco sincero, fazem de seu personagem um ser humano completamente alheio às convenções ditadas pela educação e etiqueta, corroborando a imagem de um herói às avessas e levando o público às lágrimas (de riso).

Mas o ótimo trabalho corporal de Reynolds não valeria de muita coisa se o texto de Rhett Reese e Paul Wernick não se aproveitasse tão bem de piadas que contam com referências possivelmente mais obscuras para as gerações mais novas (“Não, senhora Magoo!”) e aquelas que irão agradar praticamente toda a humanidade (“Graças a Deus sou cega e não posso vê-lo usando Crocs!”). Os dois roteiristas, responsáveis pelo texto de Zumbilândia (Zombieland, 2009), não economizam  na metralhadora de escárnio, colocando na boca de Deadpool críticas para todos os lados, tirando uma de Hugh Jackman e seu Wolverine, praticamente todos os X-Men e até do próprio estúdio (“O estúdio não tinha dinheiro pra pagar atores nessa cena, né?!”). Tal tática deixa o desenrolar dos fatos mais dinâmico, aliada principalmente à escolha do próprio protagonista de contar sua história em um vai-e-vem entre passado e presente. Outra sequência que mostra bem o desenvolvimento orgânico do enredo é quando Deadpool faz sexo com sua namorada, Vanessa (interpretada pela brasileira e belíssima Morena Baccarin), em diversas épocas do ano, cada qual com sua respectiva piada visual (a do Dia das Mulheres é ofensivamente fantástica): uma maneira descontraída e inteligente de demonstrar, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da relação de ambos e a passagem do tempo.

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Imagem: 20th Century Fox, 2016.

Desestabilizando o próprio vilão do filme, Deadpool ainda tem tempo e boa habilidade para avançar o filme (literalmente, como se fosse um antigo VHS) e retirar todo o romantismo de uma cena em que se toca uma música romântica de fundo, tudo se passa em câmera lenta e ele… bem, ele faz questão de descartar toda a cafonice com apenas dois gestos e a inclusão de desenhos animados completamente alucinógenos. Isso sem contar a cena em que ele faz o comentário do comentário e, para completar, comenta tal habilidade para simplesmente se auto-elogiar – primeiro exercício de metalinguagem em mise-en-abyme arrogante que vi em um filme.

Por fim, o filme, já que não está no filão dos longas produzidos exclusivamente pelo Marvel Studios, acaba se desligando da “obrigatoriedade” de apresentar alguma relação com os outros universos da Marvel – e, claro, faz piada disso também –, sentindo-se mais à vontade e deixando, consequentemente, o próprio público mais à vontade com o filme; algo que influencia de maneira positiva no desenvolvimento da história e entrega um longa com a qualidade de um Guardiões da galáxia. O desafio, daqui pra frente, é manter a qualidade do roteiro e a sustentação da própria metalinguagem a favor do desenvolvimento da história nas sequências, que sem dúvida já estão em produção.

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Imagem: 20th Century Fox, 2016.

Nota: não deixe de notar a participação especial de Stan Lee, sempre divertida, e tente achar a foto do Lanterna Verde voando pelo ar, uma alfinetada ao próprio Ryan Reynolds. Ah, e não saia do cinema antes da cena pós-creditos, Deadpool terá vários recados para você.

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Pôster: BLT Communications, 2016.

Deadpool, dirigido por: Tim Miller; escrito por: Rhett Reese e Paul Wernick (baseado no personagem criado por Fabian Nicieza e Robie Liefeld).

Com: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Michael Benyaer, Ed Skrein, Brianna Hildebrand, Stefan Kapicic, Karan Soni.

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