Filmes

A Bruxa

Desde o ano passado, A bruxa (The vvitch: an New-England folktale, 2015) captou um grande público com sua divulgação via internet. O sucesso primeiro, no entanto, partiu dos festivais pelos quais o filme passou, arrebatando público e crítica, iniciando um burburinho em torno da história, suas atuações e, principalmente, sua direção. Foi no Festival de Sundance, então, que ocorreu seu apogeu, com o diretor Robert Eggers levando o prêmio de melhor direção e o filme alcançando visibilidade mundial.

Aqui no Brasil, alguns sites trataram-no como um dos filmes de terror mais assustadores dos últimos tempos. É compreensível essa reação, já que estamos tão acostumados a assistir filmes de terror tão insossos, caça-níqueis em busca de sustos gratuitos e plateia decepcionadas com seus finais simplórios. Caso você busque um filme repleto de cenas grotescas ou sustos a cada dez minutos, A bruxa não irá satisfazer sua sede por sangue. O filme tem seu próprio ritmo, desenrolando os fatos aos poucos para que a sugestão tome espaço no lugar da brevidade. O verdadeiro filme de terror é aquele que, na verdade, não mostra. É aquele que sugere, que engana, que faz de gato e sapato o espectador. Será que é verdade o que acabei de ver na tela? Será um delírio da personagem? O verdadeiro filme de terror entrega os pontos altos aos poucos, em doses homeopáticas. Ele aumenta a tensão, engrossa a trilha sonora, dá aquele close que tortura a plateia.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

O primeiro trunfo do longa é a concentração em poucas personagens: um casal, alguns filhos, e aquilo que podemos nomear de O Horror: ao longo do filme, esse toma várias formas e representações, desde uma silhueta vestindo uma capa escura, andando sorrateiramente pela floresta, até uma maçã que é regurgitada. O segundo, sem dúvida alguma, é sua trilha sonora, repleta de cordas arranhadas com violência, corais de vozes angustiadas é uma percussão de arrepiar. Por último, a direção: Eggers é competente em seus planos frontais, nos travellings calmos entre os galhos secos da floresta obscura e na montagem esperta.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Os atores, assim, são responsáveis pela boa composição do núcleo familiar que acompanhamos, com a filha mais velha, Thomasin (interpretada pela ótima Anya Taylor-Joy), carregando em seus ombros as principais cenas no final do filme, mas também com a presença de cena forte e marcante do menino mais velho, Caleb (interpretado por Harvey Scrimshaw). A música de Mark Korven vai sublinhar tais atuações, estabelecendo também o clima de cada cena, aumentando o suspense ou criando um ambiente sufocante, quase claustrofóbico. Amarrando tudo isso, o diretor Robert Eggers talvez seja um proeminente diretor autoral dessa nova geração do cinema, já demonstrando possuir um estilo próprio na composição da história – ele também escreveu o roteiro do longa.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Criando uma tensão desde o seu início, A bruxa vale-se de longos planos em que a câmera enquadra personagens específicas em um close demorado, enquanto a intensidade da trilha sonora repleta de violinos angustiantes aumenta aos poucos, com seu volume chegando a ficar ensurdecedor no final da cena. Essa tática de Eggers é efetiva o bastante para já deixar o espectador grudado na poltrona desde o início, contrapondo, também, esses momentos de tensão gerados pelo volume alto com outros de um silêncio perturbador, quebrado, por exemplo, apenas por uma voz sussurrante de uma determinada personagem lá para o final da projeção. O som, então, é responsável pelo ritmo do filme, sendo uma fonte de horror em muitas cenas – como uma em que as crianças estão trancadas no celeiro, à noite: de congelar o sangue de qualquer um. A fotografia, predominantemente dessaturada, vai destacar, porém, alguns elementos específicos, como uma capa de cor vermelha, os olhos amarelados de um coelho e o sangue rubro dentro de um ovo ou que é esguichado numa vasilha branca. Em contraposição às tomadas panorâmicas que mostram a floresta predominantemente cinza, sem vida, as cenas noturnas, internas, à luz de velas, vão fornecer um leve aquecimento aos personagens e ao público.

Assim, é mais do que claro o sucesso do filme. Muitas pessoas, no entanto, podem não gostar de A bruxa justamente por seu ritmo atípico, suas cenas que “deveriam” estar, mas não estão ali – tudo pela sugestão do terror, e não o terror em si – e pela história mais a favor de desenvolver suas personagens através de seus atos – o pai que corta lenha como válvula de escape, a mãe religiosa que ora e chora para resolver os problemas, o filho mais velho que tende a questionar o mundo à sua volta quando percebe os atos hipócritas do pai – do que por cenas descritivas. Esses detalhes fazem de A bruxa um competente filme de terror, mas que não é para todos os tipos de públicos, principalmente os que preferem ver um corpo ser devidamente mutilado do que a sugestão fílmica de que ele foi ferido pela faca que, no final das contas, não apareceu cortando-o.

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Pôster: Gravillis Inc, 2015.

The vvitch: a New-England folktale, dirigido e escrito por: Robert Eggers.

Com: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Wahab Chaudhry.

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