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A Garota Dinamarquesa

Talvez uma das imagens mais bonitas e, ao mesmo tempo, mais angustiantes de se acompanhar na natureza é a finalização da metamorfose de um inseto, aquele ponto em que a lagarta precisa romper o casulo para sair como um ser completamente diferente, uma borboleta com cores exuberantes ou de asas largas, imperiosas. A transformação entre um ser e o outro é o momento mais importante, fazendo com que sua vida mude irreversivelmente.

As primeiras tomadas de A garota dinamarquesa (The danish girl, 2015) mostram justamente a natureza em sua forma original: cenas exteriores de colinas e montanhas tomadas pelo verde amarelecido de uma vegetação rasteira, um charco silencioso de onde brotam árvores desfolhadas, seus galhos retorcidos apontando reumaticamente para o céu. Após um corte, a câmera fixa do diretor Tom Hooper focaliza essas mesmas árvores de um ponto de vista cuja água do pântano reflete seus galhos nus, distorcendo-os ainda mais; é uma cena rápida, provavelmente indiferente à maioria dos espectadores. Voltaremos a ela depois.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Dos planos abertos e exteriores direto para o interior do estúdio do casal protagonista, em Copenhague, Dinamarca, a plateia é logo apresentada à rotina de Einar Weneger e Gerda Weneger; ele, um renomado pintor de paisagens, ela, uma artista que tenta emplacar um sucesso dentro de uma galeria com seus retratos. Certo dia, quando uma das modelos de Gerda falta à sessão de pintura, Einar veste-se parcialmente como uma mulher para que sua esposa possa dar continuidade à obra. A partir desse ponto, ele passa a exteriorizar sua identificação com o gênero feminino e seus desejos de tornar-se, fisicamente, uma mulher.

Desde o lançamento do filme, muito se fala sobre as diversas licenças poéticas que o roteiro, apoiado na obra ficcional e homônima de David Ebershoff, tomou para aumentar o tom dramático, levando mais espectadores a procurar seus lencinhos no meio de uma sessão. O primeiro fato talvez não vendido diretamente pelo longa em si, mas cansavelmente martelado pelo burburinho em torno dele, é de que o pintor Einar foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero; na verdade, um caso anterior a Einar já havia ocorrido: nascido Rudolph Richter, o rapaz autorizou, em 1922, o seu próprio castramento, levando a transformações corporais e, mais tarde, a uma vaginoplastia bem sucedida propriamente dita, tornando-o Dora Richter. Muitas outras mudanças foram realizadas para a realização do filme, além do próprio autor do livro que dá sustentação para o longa afirmar que sua obra é, na verdade, uma ficção levemente baseada na história real do casal Weneger.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Diferenças entre o que é real e ficcional à parte, o problema maior de A garota dinamarquesa é, na verdade, algumas escolhas estéticas de seu diretor, Tom Hooper, como a preferência por fotografar fachadas de prédios de baixo para cima, tentando emular uma sensação de contraste entre espaço e a personagem em cena que não leva a nada dentro da própria narrativa, ou quando Einar veste-se pela primeira vez como mulher, na já referida cena em que posa para a própria esposa, e, passando as mãos pelo tecido do vestido que cobre suas pernas, Hooper faz questão de dar closes fechadíssimos, quase cirúrgicos, como se gritasse ao espectador que naquele momento o protagonista está sentindo sua transformação dentro do casulo dar início a um processo sem volta. São inserções de estilo que destoam de sequências mais inspiradas (como as cenas que abrem o filme) e que vêm ocorrendo desde O discurso do rei (The king’s speech, 2010) e Os miseráveis (Les misérables, 2012).

Assim como o trabalho do casal protagonista, em que a atuação de Eddie Redmayne varia entre a poesia melancólica de seus olhares perdidos em uma tristeza quase palpável com deslizes dramáticos comuns a papéis como este (como quando Einar discute com a mulher, tentando, ao mesmo tempo, ser firme e pender para um dramalhão barato). Alicia Vikander, no entanto, é o nó forte do fio narrativo de A garota dinamarquesa, demonstrando nuances de performance bem dosadas que vão do humor leve à tristeza mista a uma decepção dolorosa. Se Redmayne escorrega, Vikander, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, está lá para salvar a cena.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

E se em certos momentos a atuação perde ligeiramente a qualidade ou a direção de Hooper mostra alguns excessos, há cenas do longa que valem o ingresso. Uma, inclusive, remete àquela da árvore espelhada na água do pântano: em uma busca que mistura desejo e curiosidade por conhecer os detalhes do feminino, Einar – quase transformado em Lili, seu eu feminino – decide visitar uma casa erótica em Paris, onde está morando temporariamente com Gerda; lá dentro, diante de uma pequena janela, ele observa uma francesa, nua, tocar-se languidamente; olha os movimentos de suas mãos, tenta reproduzi-los fielmente: é aí, então, que o olhar de Tom Hooper repousa sobre a janela que separa a modelo de Einar; o reflexo da moça retorcendo-se sobre si mesma, em um fingido prazer, cobre o rosto do protagonista, que olha para ela através dela – ele a inveja? Ele deseja ser ela? Esse reflexo sobre seu rosto é uma metonímia para seu eu: um eu que não se identifica com o físico que o cerca, um eu que precisa romper o corpo que o aprisiona assim como a lagarta ansia escapar do casulo para poder voar em sua nova forma. E assim como a árvore desfolhada, sem vida, pode “mover-se” em seu reflexo, Einar, já estático, já esquecido, precisa dar voz e vida a Lili, seu verdadeiro eu.

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Pôster: P+A, 2015

The danish girl, dirigido por: Tom Hooper; escrito por: Lucinda Coxon (baseado na obra A garota dinamarquesa, de David Ebershoff).

Com: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Amber Heard, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts.

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Deadpool

O brilhantismo e complexidade do Coringa interpretado por Heath Ledger em Batman: o cavaleiro das trevas (The dark knight, 2008) são resultados, de certa forma, da maneira como a personagem foi apresentada ao público logo no começo do filme. A bela panorâmica que abre o filme, aproximando-se de um arranha-céu espelhado, seguida por toda a articulação de um plano de roubo a um banco, é repetida, em um paralelismo elegante, num travelling vagaroso, que se aproxima das costas de um homem aparentemente comum, segurando uma grande mochila em uma mão e uma máscara em outra. Apesar de o público desconfiar da identidade daquele homem, só fica mais claro para todos, minutos mais tarde, que o diretor e roteirista Christopher Nolan já preparava o terreno para o anti-herói responsável por ofuscar inclusive o brilho do próprio Batman.

O início de Deadpool (idem, 2016) também tem essa intenção de nos apresentar o protagonista do filme. Fugindo de toda a normalidade, porém, o estreante em longa-metragens, Tim Miller, dirige uma cena não apenas esteticamente bem realizada, mas também responsável por estabelecer o clima e a própria história de Deadpool. Toda em super câmera lenta, a sequência aproveita a baixa velocidade para apresentar créditos iniciais que satirizam a própria produção do filme (“estrelado por um grande idiota”, “escrito por dois roteiristas – estes sim são bons de verdade!”), uma metalinguagem presente em todo o longa, com o próprio protagonista quebrando a quarta parede a todo instante, fazendo piadinhas com o público e deixando clara sua opinião sobre diversos aspectos do filme em que se encontra. A trilha sonora, nessa cena, surge como uma ironia fina para a situação, coroando, logo de cara, o filme e preparando o público para o clima de toda a história.

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Imagem: 20th Century Fox, 2016.

É importante ressaltar que o anti-herói Deadpool não teria o mínimo êxito no cinema se não fosse por todo o trabalho vocálico e corporal do ator que o interpreta. Ryan Reynolds consegue demonstrar tênues diferenças entre ironia, sátira e puro desprezo com apenas uma mudança em sua entonação ou com um gesto específico do corpo: o modo como senta no chão, apoiando a cabeça em uma das mãos, as pernas cruzadas displicentemente ou quando finge-se de assustado, colocando as duas mãos no rosto e “arregalando” os olhos da máscara, emitindo um “oh!” nem um pouco sincero, fazem de seu personagem um ser humano completamente alheio às convenções ditadas pela educação e etiqueta, corroborando a imagem de um herói às avessas e levando o público às lágrimas (de riso).

Mas o ótimo trabalho corporal de Reynolds não valeria de muita coisa se o texto de Rhett Reese e Paul Wernick não se aproveitasse tão bem de piadas que contam com referências possivelmente mais obscuras para as gerações mais novas (“Não, senhora Magoo!”) e aquelas que irão agradar praticamente toda a humanidade (“Graças a Deus sou cega e não posso vê-lo usando Crocs!”). Os dois roteiristas, responsáveis pelo texto de Zumbilândia (Zombieland, 2009), não economizam  na metralhadora de escárnio, colocando na boca de Deadpool críticas para todos os lados, tirando uma de Hugh Jackman e seu Wolverine, praticamente todos os X-Men e até do próprio estúdio (“O estúdio não tinha dinheiro pra pagar atores nessa cena, né?!”). Tal tática deixa o desenrolar dos fatos mais dinâmico, aliada principalmente à escolha do próprio protagonista de contar sua história em um vai-e-vem entre passado e presente. Outra sequência que mostra bem o desenvolvimento orgânico do enredo é quando Deadpool faz sexo com sua namorada, Vanessa (interpretada pela brasileira e belíssima Morena Baccarin), em diversas épocas do ano, cada qual com sua respectiva piada visual (a do Dia das Mulheres é ofensivamente fantástica): uma maneira descontraída e inteligente de demonstrar, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da relação de ambos e a passagem do tempo.

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Imagem: 20th Century Fox, 2016.

Desestabilizando o próprio vilão do filme, Deadpool ainda tem tempo e boa habilidade para avançar o filme (literalmente, como se fosse um antigo VHS) e retirar todo o romantismo de uma cena em que se toca uma música romântica de fundo, tudo se passa em câmera lenta e ele… bem, ele faz questão de descartar toda a cafonice com apenas dois gestos e a inclusão de desenhos animados completamente alucinógenos. Isso sem contar a cena em que ele faz o comentário do comentário e, para completar, comenta tal habilidade para simplesmente se auto-elogiar – primeiro exercício de metalinguagem em mise-en-abyme arrogante que vi em um filme.

Por fim, o filme, já que não está no filão dos longas produzidos exclusivamente pelo Marvel Studios, acaba se desligando da “obrigatoriedade” de apresentar alguma relação com os outros universos da Marvel – e, claro, faz piada disso também –, sentindo-se mais à vontade e deixando, consequentemente, o próprio público mais à vontade com o filme; algo que influencia de maneira positiva no desenvolvimento da história e entrega um longa com a qualidade de um Guardiões da galáxia. O desafio, daqui pra frente, é manter a qualidade do roteiro e a sustentação da própria metalinguagem a favor do desenvolvimento da história nas sequências, que sem dúvida já estão em produção.

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Imagem: 20th Century Fox, 2016.

Nota: não deixe de notar a participação especial de Stan Lee, sempre divertida, e tente achar a foto do Lanterna Verde voando pelo ar, uma alfinetada ao próprio Ryan Reynolds. Ah, e não saia do cinema antes da cena pós-creditos, Deadpool terá vários recados para você.

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Pôster: BLT Communications, 2016.

Deadpool, dirigido por: Tim Miller; escrito por: Rhett Reese e Paul Wernick (baseado no personagem criado por Fabian Nicieza e Robie Liefeld).

Com: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Michael Benyaer, Ed Skrein, Brianna Hildebrand, Stefan Kapicic, Karan Soni.

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A Bruxa

Desde o ano passado, A bruxa (The vvitch: an New-England folktale, 2015) captou um grande público com sua divulgação via internet. O sucesso primeiro, no entanto, partiu dos festivais pelos quais o filme passou, arrebatando público e crítica, iniciando um burburinho em torno da história, suas atuações e, principalmente, sua direção. Foi no Festival de Sundance, então, que ocorreu seu apogeu, com o diretor Robert Eggers levando o prêmio de melhor direção e o filme alcançando visibilidade mundial.

Aqui no Brasil, alguns sites trataram-no como um dos filmes de terror mais assustadores dos últimos tempos. É compreensível essa reação, já que estamos tão acostumados a assistir filmes de terror tão insossos, caça-níqueis em busca de sustos gratuitos e plateia decepcionadas com seus finais simplórios. Caso você busque um filme repleto de cenas grotescas ou sustos a cada dez minutos, A bruxa não irá satisfazer sua sede por sangue. O filme tem seu próprio ritmo, desenrolando os fatos aos poucos para que a sugestão tome espaço no lugar da brevidade. O verdadeiro filme de terror é aquele que, na verdade, não mostra. É aquele que sugere, que engana, que faz de gato e sapato o espectador. Será que é verdade o que acabei de ver na tela? Será um delírio da personagem? O verdadeiro filme de terror entrega os pontos altos aos poucos, em doses homeopáticas. Ele aumenta a tensão, engrossa a trilha sonora, dá aquele close que tortura a plateia.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

O primeiro trunfo do longa é a concentração em poucas personagens: um casal, alguns filhos, e aquilo que podemos nomear de O Horror: ao longo do filme, esse toma várias formas e representações, desde uma silhueta vestindo uma capa escura, andando sorrateiramente pela floresta, até uma maçã que é regurgitada. O segundo, sem dúvida alguma, é sua trilha sonora, repleta de cordas arranhadas com violência, corais de vozes angustiadas é uma percussão de arrepiar. Por último, a direção: Eggers é competente em seus planos frontais, nos travellings calmos entre os galhos secos da floresta obscura e na montagem esperta.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Os atores, assim, são responsáveis pela boa composição do núcleo familiar que acompanhamos, com a filha mais velha, Thomasin (interpretada pela ótima Anya Taylor-Joy), carregando em seus ombros as principais cenas no final do filme, mas também com a presença de cena forte e marcante do menino mais velho, Caleb (interpretado por Harvey Scrimshaw). A música de Mark Korven vai sublinhar tais atuações, estabelecendo também o clima de cada cena, aumentando o suspense ou criando um ambiente sufocante, quase claustrofóbico. Amarrando tudo isso, o diretor Robert Eggers talvez seja um proeminente diretor autoral dessa nova geração do cinema, já demonstrando possuir um estilo próprio na composição da história – ele também escreveu o roteiro do longa.

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Imagem: Universal Pictures, 2015

Criando uma tensão desde o seu início, A bruxa vale-se de longos planos em que a câmera enquadra personagens específicas em um close demorado, enquanto a intensidade da trilha sonora repleta de violinos angustiantes aumenta aos poucos, com seu volume chegando a ficar ensurdecedor no final da cena. Essa tática de Eggers é efetiva o bastante para já deixar o espectador grudado na poltrona desde o início, contrapondo, também, esses momentos de tensão gerados pelo volume alto com outros de um silêncio perturbador, quebrado, por exemplo, apenas por uma voz sussurrante de uma determinada personagem lá para o final da projeção. O som, então, é responsável pelo ritmo do filme, sendo uma fonte de horror em muitas cenas – como uma em que as crianças estão trancadas no celeiro, à noite: de congelar o sangue de qualquer um. A fotografia, predominantemente dessaturada, vai destacar, porém, alguns elementos específicos, como uma capa de cor vermelha, os olhos amarelados de um coelho e o sangue rubro dentro de um ovo ou que é esguichado numa vasilha branca. Em contraposição às tomadas panorâmicas que mostram a floresta predominantemente cinza, sem vida, as cenas noturnas, internas, à luz de velas, vão fornecer um leve aquecimento aos personagens e ao público.

Assim, é mais do que claro o sucesso do filme. Muitas pessoas, no entanto, podem não gostar de A bruxa justamente por seu ritmo atípico, suas cenas que “deveriam” estar, mas não estão ali – tudo pela sugestão do terror, e não o terror em si – e pela história mais a favor de desenvolver suas personagens através de seus atos – o pai que corta lenha como válvula de escape, a mãe religiosa que ora e chora para resolver os problemas, o filho mais velho que tende a questionar o mundo à sua volta quando percebe os atos hipócritas do pai – do que por cenas descritivas. Esses detalhes fazem de A bruxa um competente filme de terror, mas que não é para todos os tipos de públicos, principalmente os que preferem ver um corpo ser devidamente mutilado do que a sugestão fílmica de que ele foi ferido pela faca que, no final das contas, não apareceu cortando-o.

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Pôster: Gravillis Inc, 2015.

The vvitch: a New-England folktale, dirigido e escrito por: Robert Eggers.

Com: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Wahab Chaudhry.

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