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Spotlight: segredos revelados

Talvez uma das misturas mais nocivas à humanidade ocorre entre religião e instituição. Crer em um ser supremo que dita regras e versar sua vida através dos ensinamentos deste mesmo ser é um direito livre a qualquer ser humano; os problemas, porém, surgem quando um grupo é composto para organizar a religião, primariamente livre, em algo semelhante a uma empresa. Essa empresa vai precisar manter uma imagem, ter aqueles que mandam e aqueles que obedecem e, por último, mas não menos importante, vai acobertar segredos para não gerar polêmicas com o público-alvo. Não é de hoje, portanto, as notícias sobre abusos sexuais cometidos por padres católicos. Há sempre um caso aparecendo aqui e ali, e depois, como algo costumeiro e absolutamente normal, a reação da Igreja informando publicamente que tal padre foi transferido para outra paróquia ou foi afastado de suas funções. O problema mais intenso dentro dessa situação, no entanto, não é costumeiramente tratado pela imprensa ou discutido pela sociedade: como fica o outro lado? Como as vítimas reagem após o abuso? Como elas sobrevivem ao trauma?

Baseado em fatos reais, o filme de Tom McCarthy parte desse gancho para dissecar casos de pedofilia e abusos sexuais cometidos por padres em Boston, nos Estados Unidos, um problema que possui tentáculos maiores e mais enrolados do que qualquer jornalista investigativo poderia supor. Spotlight: segredos revelados (Spotlight, 2015) não é daqueles filmes maniqueístas, feitos para o espectador espumar de raiva e bradar aos quatro ventos impropérios contra os denunciados ao longo da história, mas possui um elemento inteligente e primordial para ganhar a atenção daquele que o assiste: tensão. E a tensão está presente em diversas camadas do longa: na fotografia um tanto insaturada de Masanobu Takayanagi, na trilha melancólica de Howard Shore, na composição corporal atarracada de Mark Ruffalo para seu personagem, na montagem que privilegia o ritmo da investigação e seus desdobramentos complicados.

Imagem: Anonymous Content, 2015

Com a chegada de um novo editor no jornal, Marty Baron (interpretado por Liev Schreiber), a seção “secreta” do escritório conhecida como Spotlight recebe como missão a retomada de uma reportagem sobre casos de pedofilia nos anos 70. A princípio com reações negativas de outros jornalistas do The Boston Globe, os responsáveis pela coluna decidem seguir em frente com as investigações, principalmente depois de analisarem os dados e observarem que o problema não estava concentrado apenas em casos isolados. O filme de McCarthy, então, vai além, mostrando os diálogos dos jornalistas com os adultos que, à época, foram as crianças sob o poder de padres pedófilos. É em momentos como esses que o longa vai pontuando sua tensão, como quando a jornalista Sacha Pfeiffer (interpretada por Rachel McAdams) conversa, em um parque, com uma das vítimas e esta, ao olhar ao redor, nota a presença de uma igreja, ao fundo, e diz “e é claro que tem uma igreja perto enquanto revelo tudo isso”; para deixar o momento mais amargo, a câmera de Tom McCarthy focaliza um parquinho infantil, com crianças se divertindo, a poucos metros da igreja. É como se o filme avisasse: cuidado com associações, nós estamos aqui ao fundo, sempre vigiando.

Um dos pontos mais fortes do filme é, sem sombra de dúvida, as atuações. Em destaque, as de Mark Ruffalo e Michael Keaton, representantes de polos opostos no ambiente de trabalho que habitam (quase que literalmente): enquanto aquele constrói uma linguagem corporal do jornalista novo, cheio de gás, mas que, ao mesmo tempo, já sente o peso da rotina desgastante de um jornalista investigativo, este é o profissional seguro, aquele que pondera, que espera pelo momento certo para divulgar uma informação; e essa polaridade entre ambos culminará em um cena muito forte, em que cada um deseja agir de uma forma, levando todos, na mesma sala, a sentir faíscas saindo para todos os lados. É notório como os dois atores, de forma extremamente competente, vão representar isso com gestos quase imperceptíveis pela maioria do público, com Ruffalo andando sempre depressa, atarracado, o pescoço encolhido, as costas arqueadas, enquanto Keaton dá um ar de segurança e superioridade a seu Walter Robinson, falando em tom baixo, de forma calma, não perdendo a linha nem quando o enfrentam violentamente com palavras. Está aí, assim, a força motriz da trama, a engrenagem necessária para que a história flua antes mesmo de envolver temas ásperos.

Imagem: Anonymous Content, 2015

Paralelamente, o diretor e roteirista filma a cena do encontro do editor Marty Baron com o arcebispo de Boston destacando a linguagem corporal e o diálogo entre estes outros dois polos; se de um lado temos o representante da imprensa que vai denunciar os casos da Igreja (ou seja, vai jogar muita merda no ventilador), do outro encontra-se o representante não apenas da instituição católica, mas também de todo o seu poder, falando de maneira mansa, amigável, como se desse tapinhas nas costas enquanto empurra um livro de catequese por baixo dos panos – e esse detalhe realmente acontece, com Baron voltando para casa com um livro de catequese entregue em uma embalagem de presente cujas fitas formam uma cruz lúgubre.

Mas se o ritmo fosse pautado apenas pelos diálogos, Spotlight não fisgaria tanto o público como consegue ao apresentar uma montagem capaz de desenvolver ações concomitantes – a investigação de nomes de padres em uma lista ao mesmo tempo em que os jornalistas entrevistam as vítimas que foram abusadas na infância –, aumentando aí também a tensão da história a ponto de deixar os espectadores grudados em seus assentos, torcendo para que a tortura ideológica acabe logo, e acabe bem. É, no entanto, uma tortura necessária, um mal que só não será extinguido, mas ao menos denunciado. E o filme faz questão de deixar várias pulgas atrás de nossas orelhas: quem explora quem? O padre que acaricia as pernas do menino, dentro do carro, enquanto este tenta tomar um sorvete comprado pelo bondoso pároco? A Igreja, responsável por realizar acordos de preços exorbitantes para que o silêncio impere e nada saia do controle? Ou os próprios jornalistas, que só descobrem sua negligência no passado investigando no presente? Cabe, então, ao cinema, mais uma vez, servir de voz para denúncias tão importantes e necessárias como a de Spotlight. Assistir às revelações do longa é reagir da mesma maneira que a avó religiosa de Sacha, quando esta lhe mostra a enfim publicada reportagem-denúncia sobre os padres pedófilos: pedir um copo de água para quem está mais perto; nos olhos, a sensação de não querer mais acreditar no ser humano, ou pior, na capacidade de ser humano.

Imagem: Anonymous Content, 2015

Nota: os créditos finais listam todos os casos denunciados pela reportagem da Spotlight, na época que foi publicada; são numerosos e deprimentes, e tornam-se mais ainda quando encontramos três padres brasileiros listados. O perigo não tem nacionalidade.

Pôster: BLT Communications, 2015

Spotlight, dirigido por: Tom McCarthy; escrito por: Josh Singer e Tom McCarthy.

Com: Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Brian d’Arcy James, Stanley Tucci.


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