Filmes

[a beleza em] Elefante

Não é incomum vermos notícias sobre atentados a escolas. De tempos em tempos, os jornais impressos e televisivos noticiam que um aluno entrou em sua própria escola, armado até os dentes, e assassinou todos que cruzaram seu caminho. Um dos acontecimentos mais famosos desse tipo aconteceu em 1999, no Instituto Columbine, nos Estados Unidos. Dois amigos chegaram na escola usando roupas escuras e carregando diversas armas. Além de explodirem o refeitório, mataram 13 pessoas, incluindo um professor. Algo assim tem o poder impactante de chocar o mundo, mas também provoca a inspiração, exige da arte um reconhecimento quanto à problemática que se instala diante de pais, alunos e professores.

Em 2003, o Festival de Cannes entregou seu prêmio máximo, a Palme d’Or, para Elefante (Elephant, 2003), do diretor e roteirista Gus Van Sant. Inspirado nos acontecimentos de Columbine, o filme retrata um massacre também realizado por dois estudantes. Muito além de uma simples exposição de fatos, Elefante disseca as questões psicológicas que possivelmente levam uma pessoa a cometer tal atrocidade.

A primeira coluna do Uma estante, [a beleza em], vai tentar analisar, mesmo que de forma amadora e sem pretensões acadêmicas, a linguagem imagética de bons filmes, mostrando que, em cinema, não importa apenas uma história ter começo, meio e fim – muitas vezes, essa linearidade não é nem necessária –, mas que ela seja explorada em toda a sua potencialidade. Na coluna de hoje, vamos mergulhar um pouco na crueza irreversível de Elefante.

Um ponto de vista

Assim como em um vídeo-game, Gus Van Sant faz questão de filmar suas personagens através de um ponto de vista incomum, focalizando as costas enquanto a pessoa caminha calmamente. A princípio, essa escolha estética do diretor pode incomodar os mais acostumados com a abordagem tradicional do cinema hollywoodiano, em que se filma as pessoas de frente, com closes em seus rostos enquanto dialogam. Aqui, no entanto, a impressão é a de que, a qualquer momento, alguém pode surgir e realizar um atentado contra aquele que está caminhando no meio da tela, tranquilamente. É uma construção de ritmo e clima, aumentando a tensão do filme aos poucos.

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Aqui, a primeira tomada do filme com este ponto de vista. Na cena, Nathan, um dos estudantes atletas da escola, caminha pelo gramado. A ironia de Gus Van Sant já começa com a blusa de Nathan: “Salva-vidas”. / Imagem: HBO Films, 2003.

A câmera em Elefante ainda vai acompanhar diversos outros alunos da escola caminhando para seus afazeres particulares: o fotógrafo Elias, a tímida Michelle, etc. O que parece uma escolha aleatória do roteiro vai se revelando, aos poucos, personagens importantes para a composição do “hábitat” ali representado. Enquanto Elias é o estudante descolado, artístico, Michelle é a aluna retraída, alvo de bullying das meninas populares e que trabalha na biblioteca como repositora de livros. Dentre essas introduções, há uma inserção entre cenas em que o diretor nos apresenta a figura principal: Alex.

Talvez a cena mais interessante do longa, Alex está assistindo a uma aula de ciências, quando um dos alunos joga bolinhas de papel molhadas em sua direção, acertando sua roupa. É uma óbvia, até plana, exposição de que Alex também é alvo de bullying. Não é, no entanto, o principal da cena: justamente enquanto Alex recebe as bolinhas de papel grudadas na blusa, o professor está explicando sobre as órbitas em torno do núcleo de um átomo: quanto mais distantes do núcleo, mais energizadas elas são. A metáfora cai como uma luva: Alex não se encontra no núcleo da escola, não está entre os mais populares; porém, assim como as órbitas atômicas, ele possui mais energia exatamente por ser mais periférico que os populares.

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O mais interessante na construção de personagem durante a cena é o semblante de Alex: frio como uma pedra de gelo, ele apenas encara os bullies; é, com certeza, a primeira indicação de sua natureza sociopata dentro da história. / Imagem: HBO Films, 2003.

A frieza nas relações, a frieza do cineasta

O trabalho na construção da interpretação do ator Alex Frost para Alex, inclusive, mostra um adolescente que alimenta uma vingança orquestrada, minimamente planejada. Em uma das cenas após sua introdução na aula de ciências, Alex perambula pelo refeitório da escola,  calmamente, com um bloco de notas em mãos. Ele não demonstra ansiedade, observa tudo com uma calma cirúrgica e parece divertir-se com a possibilidade de destruir toda aquela rotina à sua volta:

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Quando a colega pergunta “O que está anotando?”, ele apenas responde que é para seu plano; então ela pergunta qual plano e Alex responde, frio: “Você vai ver”. / Imagem: HBO Films, 2003.

A frieza de Alex não se resume em seu personagem; o olhar de Gus Van Sant sobre os jovens da escola também revela uma frieza clínica, mas não desumana: em um dado momento, três garotas acabam de almoçar (mal) no refeitório e se dirigem ao banheiro. Lá, conversando naturalmente, entram de forma sincronizada nas cabines e forçam o vômito para jogar fora “tudo” o que comeram antes. A câmera de Van Sant apenas fima as portas fechadas, parada, e o público ouve os sons de vômito por um tempo.

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“Nossa, eu comi tanto! Me sinto nojenta!” Uma geração não só fria em suas inter-relações, mas extremamente preocupada com o olhar do outro sobre si mesma. / Imagem: HBO Films, 2003.

A ironia com luva de pelica

Já no momento de mostrar ao público as preparações de Alex e seu amigo para o massacre que se aproxima, o diretor e roteirista faz questão de explicitar a forma como Alex consegue as armas: em uma tomada demorada, Gus Van Sant filma a tela do notebook do adolescente, enquanto esse navega na internet:

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A facilidade de se ter uma arma na comodidade de sua casa, parcelando em várias vezes sem juros no cartão. / Imagem: HBO Films, 2003.

Mais irônico ainda é o filme introduzir elementos que tornam Alex um ser humano ligado às artes. Na cena da aula de ciências, ele está fazendo um desenho complexo em seu caderno; em casa, toca piano habilmente. Criativo o suficiente para bolar um plano em seus mínimos entalhes, Alex é a expressão irônica maior dentro de Elefante, o provável aluno prodígio que utiliza seus conhecimentos para aniquilar a escola em suas duas instâncias: como local de civilidade e como formadora de futuros cidades livres.

A cena em que ele e seu amigo repassam o passo-a-passo do plano, inclusive, é uma pequena, mas profunda aula de cinema, já que o diretor alterna a cena entre tomadas filmando os dois de baixo pra cima, como gigantes, e flashes rápidos do massacre em si, como se Alex desse uma aula ao público de como entrar em uma escola e atirar nos pontos e pessoas certas; além da montagem rítmica, acompanhando a fala do personagem para mostrar os momentos específicos, a cena torna-se o ápice da ação do filme sem sê-lo propriamente dito, já que a cronologia da sequência da matança em si é quebrada pelas exposições verbais de Alex, explicando exatamente o que o público vê em cena.

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O mapa do plano e seus detalhes meticulosos: lista de pessoas que vão morrer, fotos das futuras vítimas e locais por onde eles devem passar atirando. / Imagem: HBO Films, 2003.

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Os gigantes decidem o destino de várias pessoas. / Imagem: HBO Films, 2003.

A crueza no impacto

E se a ironia percorre o longa em diversos aspectos, ela abre espaço também para o tom cru com que Gus Van Sant mostra alguns pontos-chave da trama. Quando Alex encomenda uma das armas pela internet, por exemplo, o entregador chega justamente quando ele e o amigo assistem a um documentário na TV:

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A câmera de Van Sant filma a suástica na TV, enquanto Alex pergunta onde é possível comprar uma bandeira nazista. / Imagem: HBO Films, 2003.

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No momento em que o entregador chega com a arma embalada, a TV mostra os alemães queimando livros em praça pública (a imagem aqui está com zoom no detalhe do entregador saindo com o pacote em mãos, sobreposto pela imagem da televisão). / Imagem: HBO Films, 2003.

E essa crueza continua no momento do massacre, especificamente em duas cenas: na primeira, Alex entra na biblioteca e se depara com Elias e sua câmera fotográfica; do outro lado está Michelle, repondo livros em uma prateleira. Calmamente, ele carrega a arma; com o barulho, Michelle se vira e está prestes a dizer algo. Elias, por sua vez, ao ver a cena de Alex apontando a arma para Michelle (que não vemos), não pensa duas vezes e aponta também a sua arma, ou melhor, a câmera. Ele dispara ao mesmo tempo que Alex; os resultados, porém, são um tanto diferentes:

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Elias aponta a câmera: ao ver um colega apontar uma arma na direção de uma pessoa, sua reação é tirar uma foto. Banalização da realidade? / Imagem: HBO Films, 2003.

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O sangue de Michelle jorra sobre os livros: o processo inverso de se jogar livros numa fogueira. / Imagem: HBO Films, 2003.

Na segunda cena, Alex encurrala um casal na câmara fria da dispensa da escola. Sadicamente, conta uni-duni-tê, apontando a arma de um para outro, deixando a sorte escolher quem vai morrer primeiro. Enquanto conta, com um olhar gélido e sem expressões nos lábios, o rapaz sob a mira, que é Nathan (o “salva-vidas” lá do começo), grita “Pare com isso, seu louco doentio!”. Alex continua, impassível. A câmera de Van Sant vai se afastando aos poucos, até o corte final. Não vemos o resultado do uni-duni-tê. E nem precisamos.

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A frieza personificada em um ambiente literalmente frio; no mesmo local, animais mortos. Logo eles terão companhia. / Imagem: HBO Films, 2003.

Elefante não é apenas um registro de uma sociedade esvaziada, não é apenas um filme baseado em uma tragédia; é um exercício cinematográfico que vai muito além da banalização apresentada incansavelmente por nossos aparelhos de TV todos os dias. É um documento que deve ser apresentado e discutido pelas novas gerações.

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O diretor Gus Van Sant dirige Alex Frost, o Alex, nos bastidores de Elefante. / Imagem: New Line Cinema, 2003.

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Elephant, escrito e dirigido por: Gus Van Sant.

Com: Alex Frost, John Robinson, Elias McDonell, Eric Deulen.

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