Filmes

Joy: o nome do sucesso

Não é incomum, no cinema, um diretor ou uma diretora trabalhar sempre com os mesmos atores. Grandes realizadores como Martin Scorsese (com Leonardo DiCaprio), Tim Burton (com Jhonny Depp) e o português Manoel de Oliveira (com Leonor Silveira e Luís Miguel Cintra) optam por escalar às vezes até mais de um mesmo ator ou atriz para compor os papeis de seus próximos filmes. Ver sempre o mesmo ator interpretanto personagens diversas não é um problema que afeta a recepção do público quando o diretor por trás das câmeras é bom naquilo que faz. Johnny Depp – usando um exemplo mais conhecido – encantou público e crítica com seu melancólico Edward em Edward mãos de tesoura (Edward Scissorhands, 1990), surpreendeu com um Willy Wonka ácido e misantropo no remake de A fantástica fábrica de chocolate (Charlie and the chocolate factory, 2005) e, por que não?, emprestou um bom trabalho de voz ao noivo Victor, em A noiva cadáver (Corpse bride, 2005). É claro que sem toda a versatilidade de Depp, tais personagens não teriam saído do papel; a outra metade, porém, ficou a cargo do trabalho de direção de Burton. É um trabalho conjunto, que funciona de maneira ideal se bem equilibrado.

MV5BMTg4NzcwNzUwMl5BMl5BanBnXkFtZTgwNDA0MzQzNjE@._V1._CR35,35,2921,1583__SX1303_SY607_

Imagem: 20th Century Fox, 2015

Com Joy: o nome do sucesso (Joy, 2015), tem-se a mesma situação. Há um tempo o diretor David O. Russell trabalha com a já mais que provada talentosa Jennifer Lawrence. A parceria iniciada em O lado bom da vida (Silver linings playbook, 2012) seguiu em 2013 com Trapaça (American hustle) e continua agora com mais um filme. Diferentemente de Trapaça, no entanto, Joy cai completamente sobre os ombros da atriz. Se a plateia reage minimamente com a história, torcendo para que as ideias da personagem deem certo ou ficando tensa quando a vida de Joy parece voltar à estaca zero, é única e exclusivamente por causa do trabalho em cena de Jennifer Lawrence. Se a intenção ali foi essa ou se o trabalho de O. Russell e sua equipe levaram acidentalmente a um brilho exclusivo para a atriz, não fica claro em um primeiro momento. Os problemas, assim, começam a surgir com o desenrolar da trama.

Não diria que são problemas na história de Joy em si, mas em como ela é contada através da técnica de David O. Russell – se podemos realmente chamar o trabalho do diretor, aqui, de “técnica”. Iniciando o filme com a cena de uma telenovela barata, Joy já adianta para o público (que, claro, ainda não sabe disso) um elemento a ser discutido mais a frente na trama. Seria uma escolha narrativa interessante se a cena lá do meio do filme não soasse tão artificial, tão falsa quanto a da telenovela ruim que abre o longa. E esse artificialismo parece percorrer toda a estrutura narrativa de Joy não só pelas atuações levadas no automático pela maioria dos atores em cena (Robert De Niro, inclusive, poderia nos poupar de tantos papeis vexatórios, principalmente neste filme), mas também pelas escolhas de câmera de O. Russell (sempre passeando em volta dos atores ou realizando closes demorados para indicar uma tensão que já estava clara anteriormente).

MV5BODExMDk3NTQ0NF5BMl5BanBnXkFtZTgwNDAzOTU0NzE@._V1._CR41,11,2924,1716__SX1303_SY607_

Imagem: 20th Century Fox, 2015

E se a vida de Joy já parece uma mentira logo de cara – a mãe que entope o encanamento com fios de cabelo, o pai que se divorcia pela segunda vez e volta para a antiga casa, brigando com a ex-mulher e quebrando coisas no chão para logo depois pedir desculpas e dizer “vocês não deveriam ter presenciado isso” -, tal sensação só vai agravando com tentativas (mal sucedidas) do diretor ao associar o medo da protagonista com sonhos que se fundem com a novela lá do começo do filme ou com cenas absurdas como quando o pai de Joy decide que a melhor opção para fazê-la dormir bem é dando-lhe três doses de xarope infantil (com o ex-genro falando, de lado, “você vai matá-la“).

Como isso tudo não basta, ainda há tempo e espaço para um roteiro previsível, mostrando os sofrimentos da pobre personagem cujo sonho é patentear uma invenção e tornar-se rica com isso – não por interesse, claro, mas por esforço, transformando sua vida de dona de casa pobre e cheia de problemas, responsável por tudo e por todos, numa vida abastada… cheia de problemas, responsável por tudo e por todos. O público, então, já sabe como aquela história vai terminar por dois motivos: 1) é a velha propagação do american way of life, cheia de muletas narrativas (a primeira tentativa de sucesso que falha, a subsequente perda de paciência da protagonista que deixa de lado a diplomacia e parte para o enfrentamento verbal e, claro, por que não?, uma velhinha narrando a história a ponto de dizer “esta sou eu” quando ela mesma aparece na tela – e nós sabemos que é ela, pelo amor dos deuses!) e 2) David O. Russell não tem criatividade suficiente para nos surpreender com uma história dessas.

MV5BNjgyNDI0NzQ3MV5BMl5BanBnXkFtZTgwNzA0MzQzNjE@._V1._CR42,43,2915,1573__SX1303_SY607_

Imagem: 20th Century Fox, 2015

Assim, Joy: o nome do sucesso é um filme totalmente esquecível. Se em Trapaça, David O. Russell nem fazia questão de esconder do público que queria ser um Scorsese – e, sim, não conseguiu -, em Joy ele simplesmente não tenta ser nada. Ou, se tenta, não fica claro. Mas se alguém perguntar se há uma cena no filme que vale algo, seja em aspectos narrativos ou quaisquer outros, seria uma cena simples, quando a filha de Joy reclama com a mãe, dizendo que uma amiguinha a chamou de “filha da faxineira que vende esfregões”. A resposta de Joy? “Eu não sou uma faxineira que vende esfregões. E se fosse, qual o problema? Não tem problema algum ser faxineira, não há problema em trabalhar duro“. É a prova, irrefutável, de que Joy é sustentado por apenas uma atriz e, como cinema, é um péssimo filme.

“Sorte” de David O. Russell que pode contar com Jennifer Lawrence.

joy_xlg

Pôster: BLT Communications, 2015

Joy, escrito e dirigido por: David O. Russell.

Com: Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Robert De Niro, Diane Ladd, Édgar Ramirez, Isabella Rossellini, Elisabeth Röhm.

Anúncios
Padrão

4 comentários sobre “Joy: o nome do sucesso

      • VictorLevashov disse:

        Sim, estou sempre aqui hehe! Mas agora que tenho WordPress, fica mais fácil comentar. Aceita pedidos? Faça um review de A Grande Aposta caso já tenha visto. Se não viu, recomendo muito!

      • fico feliz em saber! aceito sim, claro, mas ainda não vi, estou esperando estrear no cinema daqui. essa semana vejo o regresso e vai ter resenha tbm.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s