Filmes

Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme

É muito óbvio para todos nós, atualmente, o grande sucesso das tirinhas “Peanuts” (conhecidas como “Minduim” aqui no Brasil), do americano Charles M. Schulz. Não pelas crianças fofinhas, muito menos pelo simpático beagle Snoopy: os quadrinhos de Schulz fazem sucesso pois trazem crianças conversando e matutando assuntos de adulto; mostram um Snoopy preparado para desferir as mais ácidas críticas de maneira bem humorada; discutem a melancolia do primeiro amor, as inseguranças das diversas fases de um ser humano, as perdas da vida. Charlie Brown, o garotinho protagonista, nos representa de tantas maneiras – seja se atrapalhando todo ao tentar fazer qualquer coisa, seja suspirando, cansado, o queixo apoiado em uma das mãos, ao refletir sobre a vida – que é quase impossível não se identificar com os problemas enfrentados por ele, junto a seu fiel cão.

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Imagem: 20th Century Fox / Blue Sky Studios, 2015

Não é de hoje, também, que Peanuts foi adaptada para outros meios fora das páginas finas dos jornais. De especiais televisivos a uma série infindável de produtos licenciados, hoje vemos Charlie Brown e sua turma estampados em camisetas, canecas, livros, agendas, folhas pra fichário, e tantas outras possibilidades que não citarei aqui – e que o próprio filme faz questão de fazer piada em uma determinada cena com Sally, a irmã mais nova do protagonista. A universalidade e a atemporalidade da criação de Schulz transgride gêneros e idades. Nada mais viável do que apresentar tal obra para as novas gerações. A princípio, essa proposta pode soar economicamente viável demais; há um grande retorno, sim, para aqueles que decidem criar uma nova obra baseada no tesouro artístico de Charles Schulz, mas não parece ser o principal intuito dessa nova adaptação para os cinemas, Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o filme (The Peanuts movie, 2015).

Os dois principais trunfos do filme são, sem sombra de dúvida, o seu respeito pelos traços do criador original e, aproveitando-se da tecnologia atual, a façanha de conseguir encontrar um meio de unir o desenho que gerações e mais gerações conhecem com uma estética que agrade aos olhos da tecnológica e efêmera nova geração de crianças e adolescentes que não decidiram ainda se estão no cinema para ver um filme ou responder aquelas mensagens piscando insistentemente na tela de seu smartphone. O 3D está lá, então, presente na tela, para adicionar camadas de profundidade em cada cena, assim como, de quando em quando, atirar coisas e objetos para fora dela – é preciso chamar a atenção do público jovem, afinal.

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Imagem: 20th Century Fox / Blue Sky Studios, 2015

Mas se essas qualidades dizem respeito à parte técnica de The Peanuts movie, seu enredo é que traz os elementos mais interessantes para os dias de hoje. Diferentemente de diversas animações atuais (bichinhos amarelos de espécie indefinida que se estribucham na tela para deixar as crianças – e adultos – sem ar de tanto rir de um humor resumido a piadas físicas e intestinais ou esquilos “cantores” com vozes estridentes e irritantes), o longa traz uma história simples, mas que faz parte da vida de qualquer pessoa: Charlie Brown, em meio às trapalhadas próprias de sempre, descobre o primeiro amor na figura da nova garotinha da escola, a Garotinha de Cabelos Ruivos. A premissa pode ser simples, mas suas consequências são profundas. A grande beleza da animação, no entanto, não é mostrar de maneira detalhada, ao público, o quão profundas são tais consequências de se apaixonar pela primeira vez; o tom escolhido por Snoopy & Charlie Brown é o da sensação agridoce de se sentir nas nuvens com o medo de se expor e, com isso, fracassar aos olhos da pessoa amada, tudo isso encoberto por uma camada de verniz colorida, fofa e de traços leves herdada de Schulz (não ficando apenas no desenho, mas também adentrando no texto).

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Imagem: 20th Century Fox / Blue Sky Studios, 2015

É assim, portanto, que o filme faz algumas críticas sociais, dando tapas no público com luva de pelica. Temos um Charlie Brown que, por trâmites da história que não cabem ser detalhados aqui para não dar spoilers, de repente, é o aluno mais popular da escola e, quando outros problemas acontecem, ele deixa de ser, sente fundo na alma ao ver os amigos se afastarem: os mesmos que passaram a segui-lo obsessivamente quando este tornou-se o melhor da escola; e o personagem não deixa de registrar sua frustração ao desabafar com seu amigo Linus: “às vezes fico em dúvida se as pessoas gostam de mim por eu ter me tornado popular ou por quem eu realmente sou“. Temos também uma Lucy, a representante máxima dos egocêntricos, pronta para emitir opiniões sempre a seu favor e extremamente depreciativas em relação aos outros (“uma história de um cão aviador?! Essa é a história mais estúpida que eu já li!“). Cada personagem carrega uma personalidade forte e delineada, completos espelhos de pessoas com quem já esbarramos e com quem ainda vamos cruzar em nossas rotinas.

E se faltava a cereja do bolo, The Peanuts movie faz questão de mostrá-la. Aliada à história simples, mas profunda, uma provável atualização dos costumes dessas crianças (todos empunhando iPhones, tirando selfies no meio da escola e coisas do tipo) estragaria por completo tanto a obra de Schulz quanto o legado que esta deixou com a nostalgia gerada durante décadas entre o público leitor de Peanuts, e o filme acerta em cheio ao não caminhar por esse erro. Charlie Brown e seus amigos continuam chamando uns aos outros para brincar na rua, vão à biblioteca ler e fazer pesquisas e, mais incrível de tudo, escrevem cartas. Todos esses detalhes podem passar despercebidos entre as crianças mais novas em um primeiro momento, mas como a esperança é sempre a última que morre, quem sabe não teremos uma nova geração curiosa para descobrir a beleza de uma biblioteca ou tentar deixar os aparelhos eletrônicos de lado de vez em quando para se aventurar com seus amigos?

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Imagem: 20th Century Fox / Blue Sky Studios, 2015

Assim, Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o filme, cumpre sua missão de levar o legado de Charles Schulz para os mais novos, reverenciando a arte do criador de Minduim do começo ao fim do longa (quando Charlie Brown pensa, os balões que saem de sua cabeça o trazem no formato rabiscado de seu criador, em preto e branco), mantendo seu humor ora ácido, ora melancólico, ora doce, e, mais que tudo, provando que animações com tecnologia de última geração não precisam, necessariamente, ter pirotecnias demais e roteiro de menos: crianças assistem e gostam de histórias simples, mas com personagens fortes. The Peanuts movie não é apenas um colírio atual dentre tantas bobagens, ele é um filme necessário. Os adultos agradecem.

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Pôster: Proof, 2015

The Peanuts movie, dirigido por: Steve Martino; escrito por: Bryan Schulz, Craig Schulz e Cornelius Uliano, baseado na obra Peanuts, de Charles M. Schulz.

Com as vozes originais de: Noah Schnapp, Bill Melendez, Mariel Sheets, Alex Garfin, Venus Omega Schultheis, Rebecca Bloom, Hadley Belle Miller, Noah Johnston.

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