Filmes

Star Wars: o despertar da força

Em 1977, ninguém esperava assistir a um filme recheado com efeitos especiais, heróis e vilões lutando com a ajuda de “espadas” luminosas e dois robôs constantemente discutindo – e um deles, inclusive, não emitindo palavra alguma. Parecia que a proposta do jovem roteirista e diretor George Lucas seria realmente um tiro no escuro, tendendo para uma aposta com saldo negativo. Quase quarenta anos depois, Star Wars é uma das – senão a – franquias mais bem-sucedidas de todos os tempos, dando-se o luxo de voltar à vida com mais uma trilogia sendo preparada para o cinema.

Meu ponto, ao pensar em escrever um texto sobre o episódio lançado recentemente, Star wars: o despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), será analisar algumas questões que me incomodam atualmente; nem todas tem um sentido negativo, é claro, mas que, invariavelmente, colaboram para a perpetuação da saga nos cinemas e em todo o universo rentável possível.

Vamos ao filme em si, em primeiro lugar.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

O despertar da força é um filme divertido, sim. Traz sequências de ação muito bem dirigidas por J. J. Abrams (algumas, inclusive, se equiparam ou até transcendem àquelas vistas nos capítulos anteriores da saga), com direito a guinadas da câmera e um mise-en-scène bem preparado, não deixando o espectador perdido enquanto naves se perseguem e diversos disparos coloridos atravessam a tela de um lado a outro. Há também diálogos inspirados, com tempo para piadinhas bem colocadas, referências aos acontecimentos já registrados (“você disse um compactador de lixo?!“) e uma preparação de personagens para os próximos filmes da nova trilogia.

A fotografia também é algo a ser notado. Dan Mindel desenvolve um trabalho que se destaca, deixando os filmes anteriores para trás nesse ponto, já que George Lucas parece não se preocupar tanto com o significado das cores e o contraste entre claro e escuro – apesar de flertar com essas significações na trilogia nova, importando-se em registrar o jovem Anakin Skywalker entre as sombras enquanto adentra o lado negro da Força, por exemplo. A propósito, Mindel é um sujeito experiente, companheiro dos dois Star trek e um Missão impossível de J. J. Abrams, uma afinidade necessária ao entregar um filme tão importante para um grupo de fãs tão grande e atento quanto o de Star wars. Aqui, no entanto, Mindel vai além das obviedades, com seu ápice em uma determinada cena em que o vilão Kylo Ren e outro personagem conversam, em um ambiente predominantemente escuro, quando um facho de luz adentra através de uma abertura que ilumina o local ou quando Kylo Ren tem o rosto coberto por uma iluminação vermelha – enquanto o outro personagem não, evocando diversos símbolos em cena.

O despertar da força destaca-se também por seus efeitos práticos. J. J. Abrams acerta ao filmar em cenários e locações reais como em Abu Dhabi, Irlanda e até na Islândia e deixar de lado as telas verdes e seus cenários digitais. Há também uma quantidade bem grande de personagens manipulados por atores vestindo máscaras, assim como eram as espécies alienígenas que aparecem na trilogia original, excetuando-se a personagem Maz Kanata (criada em computação gráfica, com capturas de movimento a partir do rosto da atriz Lupita Nyong’o) e o vilão Líder Supremo Snoke (também criação digital, a partir dos movimentos de Andy Serkis, o eterno Gollum). Este, inclusive, causa um estranhamento devido a sua qualidade: entre tantos efeitos práticos, Snoke distancia-se ao mostrar-se como uma criatura completamente gerada em computador, lembrando as criações digitais de George Lucas para os episódios I, II e III, que não aparentavam verossimilhança. Já Maz (uma das melhores personagens do novo filme) é cativante o suficiente para nos enganar, parecendo mais real a cada frase dita ou trejeito realizado pela Lupita por trás da máscara de computação gráfica.

Por último, mas não menos importante, temos aqui dois protagonistas essenciais não apenas pelos papeis que desempenham na nova fase da saga, mas por serem uma mulher e um negro. Fugindo do estereótipo de que um herói precisa ser necessariamente um homem – forte e branco -, que irá salvar a mulher – fraca e também branca -, a heroína Rey (interpretada de forma segura pela estreante Daisy Ridey) faz questão de não dar a mão ao futuro amigo Finn enquanto foge de um perigo (“eu sei correr sem ter que dar a mão!“). Finn, por sua vez (interpretado pelo ótimo John Boyega), é responsável por movimentar a trama, além de ter um bom timing com humor.

Agora às questões.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

Analisando rapidamente, considero O despertar da força como uma mistura de Uma nova esperança, (A new hope, 1977) com A ameaça fantasma (The phantom menace, 1999). Não em termos de qualidade técnica, obviamente, mas em relação a dois pontos: sua estrutura narrativa, similar ao episódio IV da saga, e sua introdução de personagens, similar ao episódio I. Entendo que o novo filme precisa realizar duas coisas importantes tanto para a história da saga quanto para o lucro da Disney: juntar os fãs antigos ao apresentar personagens consagrados com as novas caras e, dessa forma, angariar mais fãs.

Não considero, por isso, que O despertar da força seja o melhor filme da saga. É um bom filme, repleto de elementos necessários a uma aventura digna de ser considerada Star wars. Mas, assim como em A ameaça fantasma, é preciso introduzir toda uma gama nova de personagens e suas histórias particulares; além disso, é necessário movimentar a trama com uma perspectiva – aqui, no caso, é a busca por Luke Skywalker e toda a subtrama que o levou a desaparecer – assim como era o futuro do próprio Luke em Uma nova esperança. Há, também, a necessidade de agregar personagens antigos e criar paralelos com os estreantes (se Luke era fielmente escudado por R2-D2, Rey também conta com a ajuda de um droide, BB8; se Darth Vader tinha Lorde Sidious como mentor do lado negro da Força, Kylo Ren conta com o treinamento do Líder Supremo Snoke e por aí vai…). Meu questionamento é: até que ponto essa reciclagem de personagens será benéfica para o desenvolvimento da nova trilogia?

A Disney, é claro, está faturando e vai faturar ainda muito mais. Investiu de maneira correta ao escolher um diretor competente naquilo que faz; teve a importante ajuda da produtora Kathleen Kennedy e contou com a presença de nomes de peso como Lawrence Kasdan no roteiro e os veteranos Harrison Ford e Carrie Fisher no elenco. Resta saber se, nos próximos filmes, veremos mais do que uma introdução a novos personagens. Que a Força esteja com todos nós.

Curiosidade: Daniel Craig interpreta um stormtrooper importante. Ah, e o nome dele é JB-007.

pôster

Pôster: LA, 2015

Star Wars: the force awakens, dirigido por: J. J. Abrams; escrito por: Lawrence Kasdan, J. J. Abrams e Michael Arndt.

Com: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridler, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Gwendoline Christie.

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