Filmes

Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme

É muito óbvio para todos nós, atualmente, o grande sucesso das tirinhas “Peanuts” (conhecidas como “Minduim” aqui no Brasil), do americano Charles M. Schulz. Não pelas crianças fofinhas, muito menos pelo simpático beagle Snoopy: os quadrinhos de Schulz fazem sucesso pois trazem crianças conversando e matutando assuntos de adulto; mostram um Snoopy preparado para desferir as mais ácidas críticas de maneira bem humorada; discutem a melancolia do primeiro amor, as inseguranças das diversas fases de um ser humano, as perdas da vida. Charlie Brown, o garotinho protagonista, nos representa de tantas maneiras – seja se atrapalhando todo ao tentar fazer qualquer coisa, seja suspirando, cansado, o queixo apoiado em uma das mãos, ao refletir sobre a vida – que é quase impossível não se identificar com os problemas enfrentados por ele, junto a seu fiel cão.

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Imagem: 20th Century Fox / Blue Sky Studios, 2015

Não é de hoje, também, que Peanuts foi adaptada para outros meios fora das páginas finas dos jornais. De especiais televisivos a uma série infindável de produtos licenciados, hoje vemos Charlie Brown e sua turma estampados em camisetas, canecas, livros, agendas, folhas pra fichário, e tantas outras possibilidades que não citarei aqui – e que o próprio filme faz questão de fazer piada em uma determinada cena com Sally, a irmã mais nova do protagonista. A universalidade e a atemporalidade da criação de Schulz transgride gêneros e idades. Nada mais viável do que apresentar tal obra para as novas gerações. A princípio, essa proposta pode soar economicamente viável demais; há um grande retorno, sim, para aqueles que decidem criar uma nova obra baseada no tesouro artístico de Charles Schulz, mas não parece ser o principal intuito dessa nova adaptação para os cinemas, Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o filme (The Peanuts movie, 2015).

Os dois principais trunfos do filme são, sem sombra de dúvida, o seu respeito pelos traços do criador original e, aproveitando-se da tecnologia atual, a façanha de conseguir encontrar um meio de unir o desenho que gerações e mais gerações conhecem com uma estética que agrade aos olhos da tecnológica e efêmera nova geração de crianças e adolescentes que não decidiram ainda se estão no cinema para ver um filme ou responder aquelas mensagens piscando insistentemente na tela de seu smartphone. O 3D está lá, então, presente na tela, para adicionar camadas de profundidade em cada cena, assim como, de quando em quando, atirar coisas e objetos para fora dela – é preciso chamar a atenção do público jovem, afinal.

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Imagem: 20th Century Fox / Blue Sky Studios, 2015

Mas se essas qualidades dizem respeito à parte técnica de The Peanuts movie, seu enredo é que traz os elementos mais interessantes para os dias de hoje. Diferentemente de diversas animações atuais (bichinhos amarelos de espécie indefinida que se estribucham na tela para deixar as crianças – e adultos – sem ar de tanto rir de um humor resumido a piadas físicas e intestinais ou esquilos “cantores” com vozes estridentes e irritantes), o longa traz uma história simples, mas que faz parte da vida de qualquer pessoa: Charlie Brown, em meio às trapalhadas próprias de sempre, descobre o primeiro amor na figura da nova garotinha da escola, a Garotinha de Cabelos Ruivos. A premissa pode ser simples, mas suas consequências são profundas. A grande beleza da animação, no entanto, não é mostrar de maneira detalhada, ao público, o quão profundas são tais consequências de se apaixonar pela primeira vez; o tom escolhido por Snoopy & Charlie Brown é o da sensação agridoce de se sentir nas nuvens com o medo de se expor e, com isso, fracassar aos olhos da pessoa amada, tudo isso encoberto por uma camada de verniz colorida, fofa e de traços leves herdada de Schulz (não ficando apenas no desenho, mas também adentrando no texto).

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Imagem: 20th Century Fox / Blue Sky Studios, 2015

É assim, portanto, que o filme faz algumas críticas sociais, dando tapas no público com luva de pelica. Temos um Charlie Brown que, por trâmites da história que não cabem ser detalhados aqui para não dar spoilers, de repente, é o aluno mais popular da escola e, quando outros problemas acontecem, ele deixa de ser, sente fundo na alma ao ver os amigos se afastarem: os mesmos que passaram a segui-lo obsessivamente quando este tornou-se o melhor da escola; e o personagem não deixa de registrar sua frustração ao desabafar com seu amigo Linus: “às vezes fico em dúvida se as pessoas gostam de mim por eu ter me tornado popular ou por quem eu realmente sou“. Temos também uma Lucy, a representante máxima dos egocêntricos, pronta para emitir opiniões sempre a seu favor e extremamente depreciativas em relação aos outros (“uma história de um cão aviador?! Essa é a história mais estúpida que eu já li!“). Cada personagem carrega uma personalidade forte e delineada, completos espelhos de pessoas com quem já esbarramos e com quem ainda vamos cruzar em nossas rotinas.

E se faltava a cereja do bolo, The Peanuts movie faz questão de mostrá-la. Aliada à história simples, mas profunda, uma provável atualização dos costumes dessas crianças (todos empunhando iPhones, tirando selfies no meio da escola e coisas do tipo) estragaria por completo tanto a obra de Schulz quanto o legado que esta deixou com a nostalgia gerada durante décadas entre o público leitor de Peanuts, e o filme acerta em cheio ao não caminhar por esse erro. Charlie Brown e seus amigos continuam chamando uns aos outros para brincar na rua, vão à biblioteca ler e fazer pesquisas e, mais incrível de tudo, escrevem cartas. Todos esses detalhes podem passar despercebidos entre as crianças mais novas em um primeiro momento, mas como a esperança é sempre a última que morre, quem sabe não teremos uma nova geração curiosa para descobrir a beleza de uma biblioteca ou tentar deixar os aparelhos eletrônicos de lado de vez em quando para se aventurar com seus amigos?

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Imagem: 20th Century Fox / Blue Sky Studios, 2015

Assim, Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o filme, cumpre sua missão de levar o legado de Charles Schulz para os mais novos, reverenciando a arte do criador de Minduim do começo ao fim do longa (quando Charlie Brown pensa, os balões que saem de sua cabeça o trazem no formato rabiscado de seu criador, em preto e branco), mantendo seu humor ora ácido, ora melancólico, ora doce, e, mais que tudo, provando que animações com tecnologia de última geração não precisam, necessariamente, ter pirotecnias demais e roteiro de menos: crianças assistem e gostam de histórias simples, mas com personagens fortes. The Peanuts movie não é apenas um colírio atual dentre tantas bobagens, ele é um filme necessário. Os adultos agradecem.

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Pôster: Proof, 2015

The Peanuts movie, dirigido por: Steve Martino; escrito por: Bryan Schulz, Craig Schulz e Cornelius Uliano, baseado na obra Peanuts, de Charles M. Schulz.

Com as vozes originais de: Noah Schnapp, Bill Melendez, Mariel Sheets, Alex Garfin, Venus Omega Schultheis, Rebecca Bloom, Hadley Belle Miller, Noah Johnston.

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Filmes

Os Oito Odiados

As primeiras imagens que o público vê em Os oito odiados (The hateful eight, 2015) são montanhas e colinas cobertas por uma grossa e hostil camada de neve. Toda aquela brancura sugere – além da obviedade de um lugar inóspito, esquecido, solitário – um perigo silencioso, a preparação para um estouro sem volta. O corte surge para dar espaço a um close quase cirúrgico sobre uma imagem de Cristo na cruz. A câmera de Tarantino, aos poucos, vai passeando em torno do rosto castigado do homem crucificado enquanto os créditos iniciais pipocam na tela; e permanece nesse vaivém lento por longos minutos, não realizando concessões ao espectador moderno. Aliás, uma das qualidades do 8º filme de Quentin Tarantino é justamente a sua calma ao expor personagens, diálogos e situações. Não há pressa para o desenrolar dos fatos.

Não é de hoje que o roteirista e diretor mostra seu apreço pela metalinguagem. O amor que sente não apenas pelo cinema, seus gêneros e preciosismos, mas principalmente pelo ato de contar uma história através de imagens, foi o principal fator para seu sucesso dentro da indústria cinematográfica. A maior ironia, no entanto, é Tarantino ser um roteirista que preza pelo contar literal de histórias: seus personagens fazem questão de relatar casos e causos nos mínimos detalhes, sendo a verborragia, desse modo, uma das características do cineasta. E é essa verborragia que instala a tensão necessária para os clímaces de seus filmes; é a longa conversa inicial entre um general nazista e um suposto camponês em Bastardos inglórios (Inglourious basterds, 2009) ou o extenso jantar na sala suntuosa do escravagista Calvin Candie em Django livre (Django, 2012) que deixam o público tenso, preso às poltronas, com as palmas das mãos suadas. Pois sabemos e esperamos, a qualquer momento, por um dos personagens berrando impropérios e sacando sua arma para explodir cabeças.

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Imagem: The Weinstein Company, 2015

Em Os oito odiados não será diferente. E seus diálogos aparentemente intermináveis alcançam um nível de tensão maior aqui. Diferentemente de Kill Bill (idem, 2003, 2004), por exemplo, o novo filme tarantinesco é o que costumamos chamar de “filme de câmara”. Os personagens estão confinados num mesmo ambiente, um encarando o outro, e a tensão é palpável. Um prato perfeito para dar vasão à palavra e não à ação propriamente dita, essa deixa é aproveitada no roteiro tanto para o desenrolar dos fatos como para uma apropriação da metalinguagem como estilo. Se em Jackie Brown (idem, 1997) Tarantino repete toda uma cena de um ângulo diferente, em The hateful eight o diretor se entrega a pausas na cena com direito a um narrador explicando o contexto, além de flashbacks que podem parecer um acréscimo desnecessário à trama em um primeiro momento, mas que enriquecem a composição de personagens ao final.

Aliás, se fosse para indicar dois pilares que sustentam de maneira concreta o longa, esses seriam os diálogos em si e a composição de personagens. O detalhe do carrasco John Ruth (interpretado por Kurt Russell) limpar cuidadosamente a boca de sua prisioneira, a incrível Daisy Domergue (interpretada majestosamente por Jennifer Jason Leigh), enquanto essa come um guisado com a avidez de uma faminta, mostra o cuidado de Tarantino ao conferir nuances a seus personagens, capazes de se violentarem até a morte e, por outro lado, se darem o luxo de demonstrar carinho – mesmo que por poucos segundos – e, assim, transformá-los em seres dotados de um gradiente completo de sentimentos e condutas, e não simples personagens planas (o mocinho somente bom e o vilão somente mau).

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Imagem: The Weinstein Company, 2015

É através de um dos personagens, inclusive, que o diretor irá brincar com o público. Em dado momento, o Major Marquis Warren (interpretado por Samuel L. Jackson, divertindo-se à beça no papel) relata um acontecimento vivenciado por ele e um personagem que se relaciona com uma das pessoas presentes dentro da cabana. Enquanto conta o que ocorreu, Tarantino intercala suas falas com imagens sobrepostas, seguindo o ritmo do relato do Major – em um momento, o próprio Major diz, olhando direto para a câmera, “está imaginando, não?“. Sua fala, claro, é para o interlocutor em cena, mas o diretor, em um capricho próprio ao seu estilo, faz questão de filmá-lo de frente, como se sua pergunta também fosse para a plateia que o assiste (e que, invariavelmente, também imagina o que aconteceu conforme ele conta a história). Ora, esse não é o princípio de uma narrativa? Lemos um livro e imaginamos a história conforme passamos por suas páginas. Mas aqui torna-se irônico pois o princípio do cinema é outro: contar uma história a partir de imagens, e não palavras.

Mas Tarantino não está “interessado” em sobrepor a imagem, elevá-la a um patamar maior; seu Os oito odiados vai se aproveitar do impacto da imagem da metade da projeção para frente, a partir do ponto em que o famigerado clímax tarantinesco se inicia. De repente, então, somos lançados em um conto de mistério à lá Agatha Christie quando um dos personagens flagra o ato ilícito de outro e resolve guardar esse segredo para si; a consequência de tal decisão irá desencadear em jorros de sangue e mutilações diversas – toques artísticos que não podem faltar, afinal, é um filme de Quentin Tarantino. Assim, temos um conjunto de preciosismos caros ao diretor e roteirista, mas também caros ao filme em si, pois sem eles a experiência de público em Os oito odiados seria irrevogavelmente afetada.

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Imagem: The Weinstein Company, 2015

Dito tudo isso em relação aos aspectos técnicos (e citando rapidamente a escolha de fotografia, Quentin Tarantino e seu diretor de fotografia, Robert Richardson, decidem registrar as cenas em um aspecto de tela ultra largo – o longa foi totalmente filmado em 70mm -, tornando o filme ainda mais irônico, pois grande parte da projeção se passa em um espaço fechado, subvertendo a escolha tradicional de se fotografar cenas exteriores com aspectos de tela mais alargados), ainda há fôlego para dissecar The hateful eight: não contente apenas em confinar personagens tão antagônicos em uma mesma cabana, Tarantino faz questão de caracterizá-los de uma maneira nem um pouco arbitrária: tem-se ali o Carrasco, o Representante da Lei, o Representante Militar, o Imigrante, entre outros; mas tem-se, principalmente, a Mulher. E é interessante notar como cabe a ela a posição daquela que afeta a Ordem (seja essa uma ordem moral ou social) e, também ironicamente, a que apanha de praticamente todos os demais envolvidos na situação. Porém, ao contrário do tradicionalmente tratamento dado a uma personagem feminina, Daisy Domergue apanha, mas faz questão de demonstrar que nenhum ato de violência desferido contra si a torna mais fraca; a cada porrada levada, a personagem devolve com um comentário ofensivo, corrosivo ou simplesmente de total desprezo. Assim sendo, a cabana de Tarantino não representa apenas o ponto de encontro de personagens encurralados pela violenta nevasca lá fora: ela é a reunião de estereótipos de uma sociedade problemática. E se vários homens e uma única mulher estão presos em um mesmo local e, dessa forma, obrigados a conviver com o mínimo de respeito, não demora muito até o instinto humano aflorar. É o momento, então, da velha violência estilizada de Tarantino entrar em cena.

Curiosidade: para quem estranhou a falta da famosa “ponta” sempre realizada pelo diretor, neste filme Tarantino também faz uma participação especial, mas como o narrador em algumas cenas – o que reforça sua metalinguagem.

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Pôster: Leroy and Rose, 2015

The hateful eight, escrito e dirigido por: Quentin Tarantino.

Com: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demian Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern, James Parks, Channing Tatum.

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Filmes, Listas

Os 12 Melhores de 2015

Ano novo, lista nova.

Seguindo a tradição, eis aqui mais uma lista, agora dos melhores filmes que vi em 2015. Lembrando que esta lista não é um ranking (os filmes estão em ordem alfabética), mas uma compilação simples dos que considero os melhores do ano passado – sejam eles melhores por sua direção, roteiro, elenco, fotografia ou até mesmo pelo entretenimento propriamente dito.

Excetuando Boa noite, mamãe (Ich seh, ich seh, 2014), que ainda vai estrear oficialmente aqui no Brasil, e Relatos selvagens (Relatos salvajes, 2014), todos os demais filmes estrearam em 2015 nos cinemas brasileiros.

Se você quer dar uma olhada na lista dos melhores de 2014, é só clicar aqui.

1_Birdman

Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância), 2014; dir: Alejandro González Iñárritu

Lembro que houve muita discussão na internet, há um ano, quando Birdman ganhou o Oscar de Melhor Filme. O favorito, claro, era Boyhood. Arrisco dizer que gostei um tanto mais de Birdman do que da saga de 12 anos do Linklater; obviamente não desmereço esta obra, principalmente por sua experiência cinematográfica única… mas Birdman tem um quê especial para cair nas graças das premiações. É um ótimo filme, com seu texto ácido, suas atuações explosivas e um plano-sequência (forjado, vamos ser honestos) atordoador. Michael Keaton no papel principal vai fazer você ter diversas reações e julgamentos ao que é verdade e mentira nesse longa cômico, dramático, aventuresco e, acima de tudo, cinematográfico.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

2_Boa noite, mamãe

Boa noite, mamãe, 2014; dir: Veronika Franz e Severin Fiala

Se você pretende ver um filme de terror repleto de cenas com sangue jorrando, trilha sonora aumentando o volume repentinamente para pular na poltrona e assassino sendo descoberto no final, Boa noite, mamãe não é a escolha correta. O filme preza por algo que está cada vez mais raro no cinema atual: o velho filme de terror que assusta sem ser gratuito, aquele que brinca com nossos medos psicológicos, com os receios mais primitivos. A premissa da história pode até ser batida e a maioria das pessoas corre o risco de sacar a reviravolta do roteiro antes do momento certo, mas ainda assim vale a pena conferir esse filme estranho – porém competente no que promete cumprir.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

3_Corrente do mal

Corrente do mal, 2014; dir: David Robert Mitchell

Com trilha sonora independente e eletrônica, ambientando o filme como se fosse uma peça rara dos anos 80, Corrente do mal tem todo o estilo cru de um John Carpenter. O vilão do filme, no entanto, é invisível, um serial killer transmitido através de um ato primordial para qualquer ser humano e que começa a se manifestar em uma das épocas mais conturbadas: a adolescência. Junte aí a fotografia inteligente e cortes seguidos por cenas perturbadoras. Se você esperar por um final redondinho, então é melhor parar por aí. It follows não se importa em entregar uma trama com começo, meio e fim, e isso já é muito relevante quando se trata de um terror americano.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

4_Divertida mente

Divertida mente, 2015; dir: Pete Docter e Ronniel Del Carmen

Uma das inspirações para os filmes da Pixar sempre foi Hayao Miyazaki e isso sempre ficou claro, tanto para o espectador quanto para os próprios realizadores. Em Divertida mente, porém, a Pixar parece abraçar de vez as melhores influências que o mestre japonês da animação poderia passar e entrega um filme completamente adulto (mas, ainda assim, perfeitamente direcionado para as crianças). Acompanhar a pequena protagonista através de seus sentimentos não é apenas uma sacada que movimenta o filme do começo ao fim, mas sim tentar não se emocionar com diversos diálogos e, o principal, aprender que sem a tristeza, não seríamos felizes. Complexo demais? De forma alguma. Inside out traduz o que há de mais complicado em nossos cérebros da maneira mais lúdica e bonita possível. Filmão.

Clique aqui para ler a resenha do filme e aqui para ver seu trailer.

5_O homem irracional

O homem irracional, 2015; dir: Woody Allen

Assistir a um filme de Woody Allen no cinema é sentir-se em casa. Sabemos como ele começa, com seus créditos em ordem alfabética e uma música aconchegante tocando de fundo (um jazz sedutor), acompanhamos logo depois o personagem principal se apresentando através de uma narração off e, a partir daí, Allen pode nos surpreender. Me parece que o momento de inspiração voltou para o cineasta nesse O homem irracional, com uma atuação interessante de Joaquin Phoenix dentro de uma comédia repleta de ironias e diálogos filosóficos. A ironia principal fica para o final do filme. E vale a sessão.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

6_Jurassic world

Jurassic World: o mundo dos dinossauros, 2015; dir: Colin Trevorrow

A volta de uma das franquias mais famosas do cinema é sempre um terreno perigoso: para os fãs, que esperam sempre uma continuação melhor que a anterior; e para o estúdio, na expectativa de fazer milhões ou até bilhões na arrecadação. No caso de Jurassic world, tudo bem para todos. O filme trouxe o divertimento que faltava a Jurassic park III e o clima de aventura que Spielberg prezou no original. É claro que o filme cai sobre os ombros de Bryce Dallas Howard e Chris Pratt, mas ambos dão conta do recado – ou fugir de um tiranossauro rex usando saltos é pouco para você? Obrigatório para os fãs dos dinos.

Clique aqui para ler a resenha do filme e aqui para ver seu trailer.

7_Mad Max

Mad Max: estrada da fúria, 2015; dir: George Miller

Vamos chover no molhado e elogiar Charlize Theron e sua Imperatriz Furiosa? Falar bem da (proposital) fotografia acelerada? Da loucura que é acompanhar as perseguições e sequências de ação desse filme? Não importa se você não acompanhou os capítulos anteriores da obra de Miller, Mad Max: estrada da fúria é um filmaço. Não perca a oportunidade de ver um guitarrista fazendo solos enquanto é içado de um carro e a trilha sonora industrial de Junkie XL (o DJ responsável pelo remix de “A little less conversation”, de Elvis Presley).

Clique aqui para ver o trailer do filme.

8_Missão impossível

Missão Impossível: nação secreta, 2015; dir: Christopher McQuarrie

Quem diria que em 2015 ainda veríamos Tom Cruise como o agente secreto Ethan? E o fôlego é grande, para o ator e para o público também. O filme é divertido o bastante e traz Cruise correndo (de verdade) como se não houvesse amanhã e presente (de verdade, sem dublês) em cenas de ação, digamos, um pouco perigosas – como se segurar à porta de um avião enquanto ele decola, por exemplo. E se você acha que a divulgação em massa dessa cena (em trailer e pôsteres) estraga o filme, está enganado: Nação fantasma ainda guarda muitas surpresas e sequências de ação de tirar o chapéu. Pegue a pipoca e prepare-se para ouvir mais uma vez o tema de Missão impossível tocando na tela.

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9_Que horas ela volta

Que horas ela volta?, 2015; dir: Anna Muylaert

O cinema nacional prova, a cada ano, a sua importância e qualidade com filmes como Que horas ela volta?. Enquanto a maioria das salas de cinema do país passam enlatados como Até que a sorte nos separe e afins, o novo filme da diretora Anna Muylaert surpreendeu não apenas pela sua abrangência, mas principalmente por sua repercussão. Repleto de diálogos cortantes e situações constrangedoras para as camadas sociais mais abastadas – ou não, gente rica sempre acha que está certa -, a obra é Regina Casé e vice-versa. Mas também é a jovem atriz Camila Márdila, roubando todas as cenas em que está presente. Se ver os filmes de Leandro Hassum é uma opção, Que horas ela volta? é uma obrigação cultural (num bom sentido, é claro).

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10_Relatos selvagens

Relatos selvagens, 2014; dir: Damián Szifrón

A linha tênue entre o racional e o selvagem. Quantas vezes pensamos em perder o controle nas mais diversas situações? Bem, o diretor Damián Szifrón faz questão de reunir diversos contos nesse longa surpreendente por sua qualidade técnica e humor negro. Prepare-se para presenciar uma das cenas mais inacreditáveis do cinema, se identificar com a vingança de uma noiva em sua própria festa de casamento e rir da desgraça alheia sem um pingo de culpa. A crítica social está injetada em todos os segmentos, então não pense que não há peso no roteiro de Relatos selvagens. Surpreenda-se com o cinema argentino.

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11_Vício inerente

Vício inerente, 2014; dir: Paul Thomas Anderson

Joaquin Phoenix na pele de um detetive que vive mais chapado com maconha do que na realidade em si. Precisa de mais motivos para assistir a Vício inerente? Claro: a direção sempre maestral de PTA, com sua linguagem cinematográfica através da fotografia noir que registra uma Los Angeles dos anos 70. Isso sem contar a trilha sonora e a presença de cena mais do que bem-vinda da jovem Katherine Waterston. E o roteiro é baseado na obra homônima de Thomas Pynchon – anote esse nome para sua próxima leitura.

Clique aqui para ver o trailer do filme.

12_Whiplash

Whiplash: em busca da perfeição, 2014; dir: Damien Chazelle

Teste fatal para qualquer cardíaco, o filme que rendeu um Oscar para a embasbacante atuação de J. K. Simmons constrói sua tensão aos poucos, mas ela é inevitável da metade para o fim da projeção. Sinta-se na pele de um aprendiz que deseja ultrapassar a perfeição através do comando de um dos professores mais odiosos que o cinema já teve o desprazer de criar. O mais incrível? O diretor de Whiplash foi um dos roteiristas de O último exorcismo – Parte 2.

Clique aqui para ler a resenha do filme e aqui para ver seu trailer.

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Filmes

Star Wars: o despertar da força

Em 1977, ninguém esperava assistir a um filme recheado com efeitos especiais, heróis e vilões lutando com a ajuda de “espadas” luminosas e dois robôs constantemente discutindo – e um deles, inclusive, não emitindo palavra alguma. Parecia que a proposta do jovem roteirista e diretor George Lucas seria realmente um tiro no escuro, tendendo para uma aposta com saldo negativo. Quase quarenta anos depois, Star Wars é uma das – senão a – franquias mais bem-sucedidas de todos os tempos, dando-se o luxo de voltar à vida com mais uma trilogia sendo preparada para o cinema.

Meu ponto, ao pensar em escrever um texto sobre o episódio lançado recentemente, Star wars: o despertar da força (Star Wars: the force awakens, 2015), será analisar algumas questões que me incomodam atualmente; nem todas tem um sentido negativo, é claro, mas que, invariavelmente, colaboram para a perpetuação da saga nos cinemas e em todo o universo rentável possível.

Vamos ao filme em si, em primeiro lugar.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

O despertar da força é um filme divertido, sim. Traz sequências de ação muito bem dirigidas por J. J. Abrams (algumas, inclusive, se equiparam ou até transcendem àquelas vistas nos capítulos anteriores da saga), com direito a guinadas da câmera e um mise-en-scène bem preparado, não deixando o espectador perdido enquanto naves se perseguem e diversos disparos coloridos atravessam a tela de um lado a outro. Há também diálogos inspirados, com tempo para piadinhas bem colocadas, referências aos acontecimentos já registrados (“você disse um compactador de lixo?!“) e uma preparação de personagens para os próximos filmes da nova trilogia.

A fotografia também é algo a ser notado. Dan Mindel desenvolve um trabalho que se destaca, deixando os filmes anteriores para trás nesse ponto, já que George Lucas parece não se preocupar tanto com o significado das cores e o contraste entre claro e escuro – apesar de flertar com essas significações na trilogia nova, importando-se em registrar o jovem Anakin Skywalker entre as sombras enquanto adentra o lado negro da Força, por exemplo. A propósito, Mindel é um sujeito experiente, companheiro dos dois Star trek e um Missão impossível de J. J. Abrams, uma afinidade necessária ao entregar um filme tão importante para um grupo de fãs tão grande e atento quanto o de Star wars. Aqui, no entanto, Mindel vai além das obviedades, com seu ápice em uma determinada cena em que o vilão Kylo Ren e outro personagem conversam, em um ambiente predominantemente escuro, quando um facho de luz adentra através de uma abertura que ilumina o local ou quando Kylo Ren tem o rosto coberto por uma iluminação vermelha – enquanto o outro personagem não, evocando diversos símbolos em cena.

O despertar da força destaca-se também por seus efeitos práticos. J. J. Abrams acerta ao filmar em cenários e locações reais como em Abu Dhabi, Irlanda e até na Islândia e deixar de lado as telas verdes e seus cenários digitais. Há também uma quantidade bem grande de personagens manipulados por atores vestindo máscaras, assim como eram as espécies alienígenas que aparecem na trilogia original, excetuando-se a personagem Maz Kanata (criada em computação gráfica, com capturas de movimento a partir do rosto da atriz Lupita Nyong’o) e o vilão Líder Supremo Snoke (também criação digital, a partir dos movimentos de Andy Serkis, o eterno Gollum). Este, inclusive, causa um estranhamento devido a sua qualidade: entre tantos efeitos práticos, Snoke distancia-se ao mostrar-se como uma criatura completamente gerada em computador, lembrando as criações digitais de George Lucas para os episódios I, II e III, que não aparentavam verossimilhança. Já Maz (uma das melhores personagens do novo filme) é cativante o suficiente para nos enganar, parecendo mais real a cada frase dita ou trejeito realizado pela Lupita por trás da máscara de computação gráfica.

Por último, mas não menos importante, temos aqui dois protagonistas essenciais não apenas pelos papeis que desempenham na nova fase da saga, mas por serem uma mulher e um negro. Fugindo do estereótipo de que um herói precisa ser necessariamente um homem – forte e branco -, que irá salvar a mulher – fraca e também branca -, a heroína Rey (interpretada de forma segura pela estreante Daisy Ridey) faz questão de não dar a mão ao futuro amigo Finn enquanto foge de um perigo (“eu sei correr sem ter que dar a mão!“). Finn, por sua vez (interpretado pelo ótimo John Boyega), é responsável por movimentar a trama, além de ter um bom timing com humor.

Agora às questões.

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Imagem: Lucasfilm / Walt Disney Pictures, 2015

Analisando rapidamente, considero O despertar da força como uma mistura de Uma nova esperança, (A new hope, 1977) com A ameaça fantasma (The phantom menace, 1999). Não em termos de qualidade técnica, obviamente, mas em relação a dois pontos: sua estrutura narrativa, similar ao episódio IV da saga, e sua introdução de personagens, similar ao episódio I. Entendo que o novo filme precisa realizar duas coisas importantes tanto para a história da saga quanto para o lucro da Disney: juntar os fãs antigos ao apresentar personagens consagrados com as novas caras e, dessa forma, angariar mais fãs.

Não considero, por isso, que O despertar da força seja o melhor filme da saga. É um bom filme, repleto de elementos necessários a uma aventura digna de ser considerada Star wars. Mas, assim como em A ameaça fantasma, é preciso introduzir toda uma gama nova de personagens e suas histórias particulares; além disso, é necessário movimentar a trama com uma perspectiva – aqui, no caso, é a busca por Luke Skywalker e toda a subtrama que o levou a desaparecer – assim como era o futuro do próprio Luke em Uma nova esperança. Há, também, a necessidade de agregar personagens antigos e criar paralelos com os estreantes (se Luke era fielmente escudado por R2-D2, Rey também conta com a ajuda de um droide, BB8; se Darth Vader tinha Lorde Sidious como mentor do lado negro da Força, Kylo Ren conta com o treinamento do Líder Supremo Snoke e por aí vai…). Meu questionamento é: até que ponto essa reciclagem de personagens será benéfica para o desenvolvimento da nova trilogia?

A Disney, é claro, está faturando e vai faturar ainda muito mais. Investiu de maneira correta ao escolher um diretor competente naquilo que faz; teve a importante ajuda da produtora Kathleen Kennedy e contou com a presença de nomes de peso como Lawrence Kasdan no roteiro e os veteranos Harrison Ford e Carrie Fisher no elenco. Resta saber se, nos próximos filmes, veremos mais do que uma introdução a novos personagens. Que a Força esteja com todos nós.

Curiosidade: Daniel Craig interpreta um stormtrooper importante. Ah, e o nome dele é JB-007.

pôster

Pôster: LA, 2015

Star Wars: the force awakens, dirigido por: J. J. Abrams; escrito por: Lawrence Kasdan, J. J. Abrams e Michael Arndt.

Com: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridler, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Gwendoline Christie.

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