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Que Horas Ela Volta?

Desde nosso “descobrimento”, o Brasil é um país composto por classes. Dos índios subjugados por colonizadores portugueses, espanhóis e holandeses, passamos para os negros africanos que suaram sob o estalar dos chicotes. Hoje, a população goza de oportunidades como o acesso à educação gratuita e empregos em todas as áreas. Vivemos em uma democracia, buscamos a igualdade entre classes, gêneros, raças e credos.

O que sabemos ser uma mentira.

É inegável perceber o incômodo presente em Que Horas Ela Volta? (2015). Incômodo esse que passa por toda uma classe média-alta obrigada a suportar a igualdade de direitos entre patrão e empregado. Como assim a filha da empregada doméstica consegue passar no vestibular? Como assim a filha da empregada, uma mocinha nordestina metida a besta, tem a ousadia ao dizer que vai cursar Arquitetura em uma faculdade pública? Lugar de filha de empregada é da cozinha para lá – palavras estas, inclusive, ditas literalmente por uma das personagens do filme.

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Impossível negar, também, a qualidade presente no novo longa de Anna Muylaert (de Durval Discos, 2002, e É Proibido Fumar, 2009) ao abordar tais questões de maneira tão crucial, tão fluida, tão pungente. Se a diretora / roteirista nos faz questão de apresentar sua protagonista, Val (interpretada cuidadosamente, nos mínimos detalhes, por Regina Casé), logo de cara, como a verdadeira mãe de Fabinho (interpretado, na juventude, por Michel Joelsas), já nos preparamos para conhecer uma mãe biológica ausente, segura apenas de si mesma e suas responsabilidades profissionais; mas somos pegos de surpresa por uma personagem que vai além desse estereótipo da mãe distante: Bárbara (interpretada por Karine Teles, detestável o suficiente para fazer o sangue do público ferver) consegue alcançar o nível de uma pessoa que esconde seus verdadeiros sentimentos e julgamentos por baixo de uma carcaça boa, pacífica, a patroa gente boa – aquela que faz questão de dizer “olha só, que menina inteligente”, quando a filha da empregada tem a petulância de afirmar que vai prestar o vestibular da USP, apenas para agradar a mãe, a empregada que considera certo estar sempre abaixo dos patrões.

A câmera de Muylaert mantém-se fixa, assim, o tempo todo, permitindo-se discretos movimentos aqui e lá durante algumas cenas; afinal, o importante no desenrolar dos fatos são as personagens e as relações de poder entre elas. Enquanto Val sempre está disposta a acatar uma ordem dos patrões sem questioná-las por um segundo que seja, Bárbara é o lobo em pele de cordeiro atento aos mínimos movimentos de Jéssica (interpretada no ponto certo pela ótima Camila Márdila), enquanto essa parece conquistar a afeição de seu marido, Carlos (interpretado por Lourenço Mutarelli). O jogo de cena está então montado: Fabinho apega-se à Val desde criança pois essa é sua mãe de criação, aquela que irá lhe dar atenção e carinho por toda a vida; Jéssica, no entanto, não reconhece na personagem de Casé a figura materna pois ambas ficaram afastadas fisicamente. Quando a moça decide viajar a São Paulo para prestar vestibular, Val vê na situação uma oportunidade de reaproximação, enquanto Jéssica submete-se necessariamente por causa da necessidade.

Anna Muylaert, auxiliada pela ótima fotografia de Barbara Alvarez, compõe planos interessantes durante o longa: em certo momento, vemos Val na janela de seu quartinho, olhando para fora, enquanto a câmera posiciona-se atrás de grades, como se quisesse dizer ao espectador que a empregada está presa àquele trabalho, alienada a uma liberdade virtual, sempre medida pelos patrões. Em outra cena, Val conversa com a companheira de trabalho que a auxilia em determinadas tarefas domésticas, ao mesmo tempo que limpa uma vidraça. Quando a amiga a questiona sobre a filha, o rosto de Regina Casé se anuvia pelo sabão espalhado na vidraça bem em sua direção; Muylaert faz questão de posicionar a câmera no ângulo exato, deixando o rosto de Val distorcido enquanto reflete sobre viver distante da própria filha. São planos que conferem uma beleza à imagem proposta pela diretora, além de complementar de maneira elegante a narrativa.

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

O filme, no entanto, não funcionaria sem uma composição de personagens tão rica como a mostrada na tela. Por isso, decidi dedicar alguns parágrafos para cada um deles. (Caso você não tenha visto o filme e não deseja saber muitos detalhes sobre a trama, sugiro que assista primeiro o longa e, depois, volte para cá e conclua a leitura do texto. Os próximos parágrafos podem conter certos SPOILERS sobre a história.)

Val: onde já se viu? Filha de empregada sentando na mesa dos patrões?

Val representa aquela que está sob as ordens de seus patrões. Submissa, não questiona nenhuma das ordens dadas por eles (e é interessante perceber que tais ordens são dadas em um tom ameno, confundindo-se com meros pedidos); essa rotina alienada, em que troca sua força de trabalho por um salário – dinheiro esse dedicado à criação de Jéssica -, é quebrada com a chegada da filha questionadora, uma personagem-chave na trama.

Jéssica: eu tive um professor de história muito bom, ele questionava tudo e abriu a nossa cabeça para as coisas do mundo.

O primeiro choque dela vem ao descobrir que a mãe mora no emprego. A partir daí, passa a quebrar as “regras” patrão-empregada presentes no ambiente de trabalho da mãe, fazendo questão de demonstrar que não é diferente de Bárbara, Carlos ou Fabinho ao sentar na mesma mesa que a deles, tomar o sovete mais caro e julgar a arquitetura da casa sem medo de ser considerada petulante. Em um momento, ao ser repreendida pela mãe, Jéssica lança sua melhor fala: “Eles não são meus patrões!”.

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Bárbara: her precious daughter is back.

Se Jéssica é aquela que faz ruir a harmonia existente antes na casa, Bárbara é o ponto fraco no elo que está prestes a quebrar. Representante daqueles novos-ricos, a personagem tenta disfarçar o desprezo que nutre pela filha da empregada e, em um nível mais contido, pela própria Val. Uma das melhores cenas do longa é a entrega de um presente que Val compra para a patroa (um jogo de xícaras e garrafa térmica); tentando, sem muito sucesso, parecer surpresa e feliz pela escolha de Val, Bárbara irá mostrar seus verdadeiros sentimentos em relação ao presente em uma cena posterior, durante uma festa que ocorre na casa – outro momento-chave do filme. Mas o mais notável, em termos de narrativa e composição de personagem, é quando, no primeiro dia de Jéssica como hóspede na casa, Val não acorda no horário e os papeis se invertem: Bárbara precisa preparar seu próprio café da manhã e, contrariada, acaba “servindo” Jéssica, sentada na mesa da cozinha, à espera de uma referição. Uma inversão extremamente interessante ao observarmos uma resistência contida por parte da patroa e uma tranquilidade sem culpa no semblante de Jéssica. Uma catarse adorável. A essência da personagem, no entanto, é mostrada em uma situação quando Val pede abrigo à filha por mais alguns dias e, para que a empregada não entenda o nojo e desprezo que ela sente, diz o que realmente pensa sobre a situação para o marido usando uma frase, irônica, em inglês.

Carlos: todo mundo dança, mas sou eu quem bota a música.

Apesar de ser um personagem quase periférico nas cenas em que Bárbara aparece, o patrão parece estar sempre disposto a tratar a filha de Val de maneira igualitária – mas não se engane: quem deve retirar os pratos da mesa, inclusive os da própria filha, é Val; tudo, no entanto, na base da boa e velha educação, sem ordens explícitas. A certo ponto, ele confidencia a Jéssica que a verdadeira renda da família vem de uma herança paterna: daí o nosso julgamento, é claro, recai sobre a esposa, dona de um nariz em pé e uma expressão de nojo características daqueles que precisam ostentar materialmente o que quer que seja em busca de um substituto para o vazio presente em seu interior.

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Imagem: Gullane / África Filmes / Globo Filmes / Pandora Filmes, 2015

Que Horas Ela Volta? é um colírio entre tantos exemplares nacionais descartáveis lançados a rodo atualmente. É preciso reconhecer ali um talento em conjunto: de Anna Muylaert e sua equipe, cuidando de maneira excepcional da parte técnica e narrativa do longa; mas também do elenco, afinado e trabalhando de forma a passar em tela situações vividas de forma tão comum no dia-a-dia brasileiro. O preconceito presente na personagem de Bárbara não é nada além do que a opinião de uma massa populacional ascendente que, quando se sente acima de outro ser humano, não mede esforços em deixar claro a diferença que ali se cria por causa de dinheiro e status. Se o sucesso da filha da empregada nos estudos incomoda tanto a classe média-alta, não é somente porque ela pensa que filha de empregada é burra e não tem oportunidade… a classe média-alta se assusta ainda mais quando percebe que filha de empregada também é capaz de pensar e, principalmente, questionar.

Pôster: Moovie, 2015

Pôster: Moovie, 2015

Que Horas Ela Volta?, dirigido e escrito por: Anna Muylaert.

Com: Regina Casé, Michel Joelsas, Camila Márdila, Karine Teles, Lourenço Mutarelli.

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