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Divertida Mente

Steve Jobs decidiu investir no sonho de John Lasseter quando viu que ele e sua equipe eram obcecados por detalhes na produção de seus pequenos filmes, assim como o fundador da Apple era com seus produtos. Com a ajuda monetária do manda-chuva da Maçã, a Pixar lançou-se no mercado com Toy Story (1995), lá nos anos 90. E o sucesso foi estrondoso. Lançamento após lançamento, o pequeno estúdio foi tomando proporções gigantescas, alimentando parcerias e discussões com outro gigante do ramo: a Disney. Nessa história de rivalidades, a velha estratégia do “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” acabou juntando ambas as empresas; afinal, é melhor dividir lucros do que perder para alguém que até outro dia sequer existia.

Talvez o principal elemento para tanto sucesso como o da Pixar vem de uma solução aparentemente simples, mas nem um pouco fácil: seus filmes, desde o início, prezam por contar histórias de pontos de vista distintos, inusitados. Temos o drama da existência a partir da visão de brinquedos em Toy Story; o sofrimento de viver sob um regime autoritário pelos olhos de formigas em Vida de Inseto (A Bug’s Life, 1998); a rotina exaustiva do trabalho dos monstros ao precisar assustar crianças do mundo todo em Monstros S. A. (Monsters Inc., 2001) e, uma das mais audaciosas (e belas) de todas, a apreciação e poesia da culinária por um… rato. Isso, um rato. Em Ratatouille (2007), a Pixar subverteu a ideia de que o animal visto como um dos mais nojentos pelo ser humano seria capaz de ajudar alguém na cozinha.

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

É claro que a filmografia de um diretor ou, no caso, um estúdio não é perfeita. A Pixar também criou pérolas (no mau sentido) como Carros (Cars, 2006) e Valente (Brave, 2012). É preciso aplaudir de pé os magos da computação gráfica comandados por Lasseter que criaram cada fio de cabelo da heroína Merida; mas é difícil suportar um filme tão… Disney como é Valente, com direito a cantorias sem fim e uma história bem batida. Se a Pixar fazia sucesso era justamente por se distanciar da fórmula Disney ao contar suas histórias, com as crianças rindo do humor físico e de personagens alívio-cômico em cada filme e seus pais se divertindo com as referências inteligentes a outros filmes. Sem contar que os roteiros do estúdio emocionam uma pessoa de qualquer idade, seja acompanhando a amizade improvável entre um senhor rabugento e um escoteiro pentelho ou admirando a beleza muda do amor entre um robô depressivo e uma máquina moderna, curvilínea e flat chamada EVA.

A boa notícia, porém, é que a Pixar parece ter retomado o espírito que tomou conta de boa parte de sua existência lançando agora seu mais novo longa: Divertida Mente (Inside Out, 2015). Aquela fórmula de contar uma história, qualquer que seja, através de uma ótica peculiar e emocionante é trazida de volta agora ao acompanharmos a rotina de uma garota de onze anos chamada Riley. A diferença, no entanto, é que, além de conhecermos para onde Riley e seus pais irão morar depois de uma mudança repentina, sua nova casa, sua nova escola, observamos tudo isso de dentro de sua cabeça. Sim, os astros principais de Divertida Mente são as emoções humanas: a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva e o Nojinho. E é por causa dessa ótica que o novo longa-metragem da Pixar parece tanto com a Pixar oldschool: está ali o humor físico para as crianças, mas também se faz presente a beleza da inventividade do roteiro ao ser mostrado cada “setor” da mente de Riley, com corredores labirínticos de lembranças, ilhas (literalmente) de personalidade, um trem (também literal) do pensamento e um local próprio para a produção de sonhos – e aí adivinhem: sim, claro, o lugar é um estúdio de cinema.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

John Lasseter já admitiu diversas vezes que uma de suas grandes influências sempre foi o mestre animador japonês Hayao Miyazaki, responsável por nada menos que Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro, 1988), Princesa Mononoke (Mononoke-hime, 1997) e, seu mais famoso aqui no Ocidente, A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001). Essa influência é muito visível em Divertida Mente, principalmente porque o filme não preza por sequências frenéticas de ação, muito menos busca um humor barato a qualquer custo para ganhar a atenção do público infantil: o filme, logo de início, foca seus esforços na construção adequada da história. O roteiro apresenta personagens esféricas, completas, algo que já afugenta a perigosa possibilidade de se cair em protótipos, já que a intenção principal é mostrar a vida de uma menina através de suas emoções. Assim, a principal beleza de Divertida Mente é provar para o espectador que mesmo a Alegria sendo responsável pela, obviamente, alegria de Riley, ela pode – e muito -, aprender com a Tristeza. Essa personagem, inclusive, possui um dos arcos dramáticos mais poéticos do filme (é difícil não se emocionar com o pensamento de que nós, como seres humanos, precisamos também da tristeza).

E é assim, a partir de pequenos detalhes tanto imagéticos – a Pixar também continua sendo um estúdio que preza por detalhes técnicos, explodindo nossas visões com cenários muito bem construídos – quanto narrativos: em dado momento, há dois empregados responsáveis por apagar lembranças inúteis da mente de Riley escolhendo quais serão descartadas naquele dia; eles, então, decidem por eliminar os nomes das princesas Disney! E quando a Alegria tenta argumentar contra, não há motivos razoáveis para manter tais dados. Essa alfinetada soa tão apropriada para os dias atuais (ainda mais quando o próprio estúdio busca mudar a imagem de suas princesas como ocorreu no sucesso estrondoso de Frozen) como a piada mais do que bem-vinda sobre aqueles comerciais que insistem em tocar em replay em nossas cabeças. É de tudo isso que o público fã da Pixar sentia falta: a união entre a beleza técnica de uma animação gerada por computador com as peças encaixadas organicamente em um roteiro coeso, capaz de gerar riso e, ao mesmo tempo, lágrimas em um piscar de olhos, nunca soando maniqueísta.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Se a tendência, daqui para frente, seguir esse ritmo apresentado em Divertida Mente, então é seguro afirmar que o estúdio voltou a andar sobre trilhos seguros e anda visitando estações boas do passado. Enquanto Carros apelava demais ao público infantil, apresentando até personagens caricatos (o campeão arrogante, o caipira humilde e engraçado e etc…), a Pixar de agora volta a desenvolver personagens que derrubam esses protótipos, demonstrando ser pessoas – ou, no caso, emoções – repletas de desdobramentos. Pois sim: as emoções também tem emoções, e é poético ver a Alegria chorando ao se encontrar em uma situação aparentemente sem saída ou a Tristeza dando um leve sorriso ao notar que, sim, ela também é útil, e bastante, para um ser humano. Seja ele uma menina de onze anos, um escoteiro pentelho ou um velho rabugento.

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Imagem: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures, 2015

Nota: o curta-metragem da vez que é exibido antes do filme chama-se Lava e também é poético, sensível e belo. Uma complementação muito agradável ao longa.

Pôster: BLT Communications, 2015

Pôster: BLT Communications, 2015

Inside Out, dirigido por: Pete Docter; escrito por: Pete Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley.

Originalmente com as vozes de: Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kalling, Kaitlyn Dias.

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Jurassic World: o mundo dos dinossauros

Se o deslumbramento era a primeira reação dos visitantes no primeiro Jurassic Park (1993), mesmo que esses visitantes fossem as cobaias – paleontólogos, cientistas e um advogado para completar o time -, essa sensação se intensifica agora, vinte e dois anos depois, com o parque jurássico realmente aberto ao público. A questão, no entanto, que vem a calhar, é se os responsáveis pelo empreendimento aprenderam com os erros do passado. Aparentemente, a resposta é positiva. O Jurassic Park agora é Jurassic World e, diariamente, recebe mais de vinte mil pessoas desejosas por dentes, garras e rugidos.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Assistir Jurassic World é um teste de nostalgia para aqueles que passaram a infância se emocionando com as aventuras dirigidas por Steven Spielberg lá nos idos dos anos 90. O novo filme da franquia traz à tona diversos momentos que remetem ao original: está lá a perseguição composta por velociraptors sedentos por criancinhas indefesas (alguém se lembra de uma certa cena em uma cozinha?), assim como uma angustiante sequência em que o dinossauro alfa da vez – uma criação louca de laboratório, claro – enclausura os irmãos dentro de uma redoma de vidro (retomar a cena de outros dois irmãos encurralados por um T-Rex em um jipe não é mera coincidência). Essas referências não soam forçadas, porém; são inclusões orgânicas à trama de Jurassic World, e funcionam bem nela.

Para sustentar a história, inclusive, o mocinho da vez é nada menos que Chris Pratt. Se a presença do ator é crucial para Guardiões da Galáxia, por exemplo, aqui ele encarna o treinador de animais (ou melhor, de dinossauros) Owen da forma mais Indiana Jones possível, com momentos para piadinhas, humor físico e atos de bravura, obviamente. Para dar equilíbrio, complementando as características da personagem, o roteiro escrito a oito mãos (sim, assustador, mas soa pior do que realmente é) traz a responsável pelo parque, Claire, interpretada por Bryce Dallas Howard. É interessante notar que, apesar de acompanhar diversos núcelos de acontecimentos durante a projeção, Howard mantém uma atuação que pode até parecer forçada, mecânica, no começo; mas é a parceria entre sua personagem com a de Pratt que faz as coisas caminharem bem, passando de momentos mais dramáticos para outros de puro humor, salpicados por diálogos e cenas de tensão. Enquanto um representa o olhar a favor dos animais do parque, a outra precisa equilibrar essa visão com a relação que mantém com o parque como empresa – sem dinheiro ele não existe, afinal.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Da mesma forma que Claire necessita criar uma relação com Owen, a moça precisa acompanhar a visita dos dois sobrinhos: Gray, o mais novo (interpretado por Ty Simpkins), e Zach, o maior (interpretado por Nick Robinson). Gray é a personagem da vez que sabe os nomes de todas as espécies de dinossauros, calculando até a quantidade de dentes necessária para se derrotar uma das bestas colossais, enquanto o irmão mais velho está mais interessado no celular e nos exemplares do sexo oposto que estão nas filas das atrações. Se no primeiro filme tínhamos irmãos sem a presença de figuras paternas, substituídas pelos paleontólogos, aqui vemos os pais… que estão em processo de divórcio. Claire, a tia, é a responsável por manter essa ligação familiar, tirando apenas o detalhe de que ela não vê os sobrinhos há sete anos.

O público, então, acompanha essas quebras de ligações entre as personagens. Quando se unem uns aos outros, é por forças maiores, como a fuga do dinossauro projetado em laboratório que tecnicamente não deveria escapar (ou melhor, não deveria existir) ou quando o buraco na cerca convida para um passeio clandestino que não vai, claramente, resultar em um bom negócio. Daí vem as cenas de ação do longa, bem dirigidas por Colin Trevorrow. O diretor varia entre tomadas aéreas e câmeras ágeis, ora agilizando na correria, ora aumentando a tensão e o suspense com planos-detalhes bem executados.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Uma questão a se pensar é sobre essa ânsia em querer tudo maior, melhor e mais barulhento tanto em relação ao público do parque, quanto do próprio empresário (interpretado por Irrfan Khan). Em vários momentos, Claire justifica a existência da fêmea Indominus rex dessa maneira: criamos esse dinossauro colossal e terrivelmente perigoso porque nossos visitantes são exigentes. Mas então é isso? O público quer sempre mais… e é só juntar com a ganância egocêntrica de uma empresa detentora de um laboratório de ponta para que dê certo? Obviamente o controle não existe, não importa quantos metros de altura as paredes de uma cerca têm ou se a tecnologia pode implantar um chip capaz de rastrear e dar choque no animal se ele transgredir limites. Como diria Ian Malcolm, talvez o melhor personagem de Jurassic Park: “a natureza sempre encontra um meio”. E esse meio pode não ser o mais bonzinho.

Imagem: Universal Pictures, 2015

Imagem: Universal Pictures, 2015

Jurassic World vai unir, de forma natural, essas questões éticas e um tanto mais profundas com um teor mais aventuresco, mais terror durante toda a trama. Há espaço para o deslumbramento em si (a cena do dinossauro aquático se alimentando de um tubarão em frente ao público é de encher os olhos), para a tensão (o Indominus rex perseguindo meio mundo durante todo o filme) e até para gags visuais (a pata da pomba no início da projeção). Para os saudosistas, há ainda tempo para relembrar velhos cenários tomados pela floresta – afinal, são vinte e dois anos – ao som de um piano triste tocando o tema composto por John Williams. É um filme que poderia levar a história para muitos erros (vide Jurassic Park III, 2001), mas que se mantém dentro de um roteiro seguro e de uma direção que não peca por excessos. Se há algo dispensável em Jurassic World é seu 3D, vergonhosamente convertido e unicamente caça-níquel. De resto, o filme é um belo convite para as novas gerações sedentas por tudo melhor, maior e mais barulhento. E bota barulho nisso.

Pôster: BOND, 2015

Pôster: BOND, 2015

Jurassic World, dirigido por: Colin Trevorrow; escrito por: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly.

Com: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Ty Simpkins, Nick Robinson, Irrfan Khan, Omar Sy, BD Wong.

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