Filmes

Whiplash: Em busca da perfeição

É difícil de acreditar que a mesma mente que trabalhou no roteiro de O Último Exorcismo – Parte 2 (The Last Exorcism Part II, 2013), concebeu, em 2014, Whiplash. Talvez Damien Chazelle seja a prova viva de que talento e dedicação não estão diretamente ligados a uma carreira brilhante, com sucessos e obras de arte do começo ao fim, sem nenhum tropeço no meio da caminhada rumo aos intermináveis prêmios em cerimônias pomposas e ao reconhecimento de público e crítica. Aliás, acompanhar ao seu mais recente filme exige um espectador preparado para muitos detalhes, mas principalmente para um aparente interminável exercício de resistência a uma tensão e a um sadismo crescentes.

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Digo tensão pois é difícil de resistir a um desvio de olhar da tela quando J. K. Simmons adentra o cenário (ou seria melhor dizer palco?), deixando a atmosfera do filme pesada com sua presença autoritária. E essa tensão vai aumentando, aos poucos, quando Andrew (enlouquecidamente interpretado por Miles Teller) é convidado a ser integrante de sua banda e, com o tempo, vai sentindo que o clima ao redor de Fletcher não é nem um pouco fácil. As coisas não melhoram enquanto Andrew comete uma sucessão de erros ínfimos aos olhos de leigos, mas extremamente cruciais para os ouvidos apurados de Fletcher. E digo sadismo pois a lente de Chazelle parece encaminhar os olhos do público para uma apreciação quase voyeur, quase prazerosa ao se observar o sofrimento daquele aluno – com direito a closes ginecológicos nas feridas dos dedos de Andrew enquanto este treina em sua bateria ou quando resolve por as mãos dentro de um recipiente com gelo, na esperança ilusória de que aquele momento de alívio será o suficiente para as dores internas que irá sofrer a todo o momento sob a baqueta de Fletcher.

J. K. Simmons irá compor, dessa forma, um Fletcher que exala poder sobre os demais a partir de sua presença física. O fato de entrar em um cômodo abrindo as portas com força, como se invadisse o local, já demonstra o poder que a personagem deseja instaurar ao seu redor. E, ao conferir ao professor uma personalidade forte mas, ao mesmo tempo, pendular, em que em um momento é explosiva e inesperada ao jogar instrumentos contra os próprios alunos, em outra é dócil e paciente ao pedir, educadamente, para que Andrew tente de novo um certo movimento na bateria ou quando conversa com a pequena filha de um velho amigo, a tratando como um verdadeiro pai, Simmons atrai o espectador por meio de um estranhamento: se ele é uma pessoa tão detestável, por que ainda continuo aqui, assistindo a esse filme e tentando acompanhar o sofrimento de Andrew nas mãos desse desgraçado?

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

De maneira oposta, mas com igual qualidade, Miles Teller dá a Andrew um ar de determinação que se mistura com uma insegurança tipicamente jovial: se ele é capaz de estraçalhar as juntas dos próprios dedos de tanto treinar um movimento na bateria, não se sente totalmente confiante diante de uma garota ou durante um encontro – e o fato de preferir o término do namoro para poder se dedicar mais ainda à música demonstra sua obsessão para que cada nota proferida por suas baquetas sejam cuidadosa e aplicadamente perfeitas. E é nessa obsessão que ele se liga à Fletcher: enquanto o aluno almeja um status dentro da música, idealizando seus objetivos ao admirar os ídolos em pôsteres pregados na parede do quarto, o professor exige o melhor do aluno, levando-o à exaustão física, se necessário, para que o público de uma apresentação da escola admire o trabalho não apenas da banda em cima do palco, mas principalmente daquele que está à frente dela, conduzindo com aparente calma, mas de queixo presunçosamente erguido.

As duas interpretações, assim, irão conduzir o ritmo do filme e regular o nível entre tensão e sadismo; em um momento acompanhamos, roendo as unhas, através da visão de Chazelle, Andrew tocando de frente para Fletcher, e em outros estamos já ali, esperando um erro a qualquer momento, só para dar uma espiadinha em como será a reação do professor, qual será sua próxima ideia para humilhar os próprios alunos e se ele vai ousar jogar mais uma parte da bateria contra qualquer um que ouse errar uma nota. E se a cena final de Whiplash rima visualmente com a cena final de Cisne Negro (Black Swan, 2010), a diferença aqui é que Andrew não possui uma obsessão que lhe entrega um duplo em sua própria identidade, destruindo sua própria personalidade, mas faz com que ele tente buscar uma vitória que alimentará seus objetivos, mesmo que eles pareçam mesquinhos em um momento inicial.

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Imagem: Sony Pictures Classics, 2014

Whiplash, então, acaba tornando-se um filme não apenas que deseja passar uma mensagem batida de superação aluno-professor, mas que testa os limites também do público ao exibir um ritmo em sua montagem que acompanha as batidas da bateria de Andrew, ou com cortes estratégicos em sua edição para, como já preconizava Eisenstein há muitos anos, emular um ritmo também para o espectador que mantém os olhos ali grudados na tela, desejando que Andrew acerte as notas no ritmo exato que Fletcher exige ou para que não cometa um erro demasiadamente idiota no meio de uma apresentação ao vivo. O suor que pinga dos cabelos do jovem protagonista parece também cair dos nossos, e essa ligação se dá através da tensão criada pelas imagens bem conduzidas por Damien Chazelle. O que faz com que eu admire mais uma vez a irônica mudança de escolha de projeto do diretor de um ano para o outro, saindo de um terror barato para um filme com detalhes técnicos e dramáticos de uma profundidade tão únicas. Talvez Whiplash era a chance que Chazelle precisava para mostrar ao mundo o seu talento como roteirista ao compor uma história boa e como diretor ao trabalhar com atores talentosos e extrair destes o melhor para suas performances, assim como o próprio Fletcher deseja, mesmo que seja de uma maneira menos convencional.

Pôster: Cardinal Communications USA, 2014

Pôster: Cardinal Communications USA, 2014

Whiplash, dirigido e escrito por: Damien Chazelle.

Com: Miles Teller, J. K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist.

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